Ontem e hoje…

… você saiu andando e foi olhar pela janela. Uma menina feita. Suas expressões, seus sorrisos, sua ânsia em comunicar… tudo aponta para a menina que você é, outra que a mamãe, outra que qualquer outro, tornando-se uma pessoa única e surpreendente. Tão novinha e já é gente, minha avó diria. É gente, é gente, é uma boa gente.

… você pega um dos livros do seu pai e senta na beira da cama. Durante muitos minutos, em silêncio, folheia o livro, olhando os desenhos cuidadosamente, como se eles te contassem uma história. Que história te contam que você escuta assim, tão concentrada?

… andar não é mais suficiente. É preciso tentar correr. Mesmo caindo, é preciso tentar correr. Ou ao menos andar depressa. Especialmente quando você pega alguma coisa que a mamãe pede que devolva. Daí é andar rapidinho, segurando firme, até chegar em algum canto sem saída e ficar dando voltas, como se pudesse fazer um helicóptero e levantar vôo.

… aliás, quantos nãos! E quantos olhares sapecas e sorrisos marotos para tentar transformá-los em sins.

… agora levanta do berço, desce, pega os sapatos e vêm andando me procurar. E, por vezes, decide que quer outros sapatos, especialmente os vermelhos. Meninas e seus sapatos vermelhos.

… e os livros? Ah, os livros! Podemos passar uma manhã toda lendo. Um atrás do outro, você busca na estante e senta ao meu lado para lermos a história. A vaca faz mu, o gato faz miau, o pato diz quaquá, a galinha diz cocoricó, o cachorro diz au-au. O leão faz grrrr. E a ovelha faz bá. E noutro dia, quando um mar de ovelhas estava na beira da estrada, você foi ali ver. E ficou ali no meio delas, meio assustada, meio fascinada, as bichinhas chegaram até a lamber sua mão. Imagino o coração batendo acelerado nesse mundo imenso de ovelhas gigantes e você ali no meio, tão pequenina e tão desamparada e tão curiosa e tão corajosa…

… pegou uma boneca e abraçou delicadamente, balançando de um lado para o outro. Falou: nana, neném, nana. E desde então coloca todas as bonecas pra dormir. Até mesmo o curupira que tem as pernas ao contrário, o cabelo cor de fogo e a boca gigante. Até mesmo o curupira nana neném.

… a cada vez que escuta o barulho da porta embaixo no térreo abrindo, pergunta: “papa?”. Papai está trabalhando. Faz tchau com a mão, tchau, papai. Bom trabalho.

… aponta o canguru quando quer passear. E noutro dia pegou um copo de plástico, chegou no meu lado, me cutucou e disse “ága”, mostrando o dito cujo. Mais clara, impossível.

… aprendeu a dizer “aqui”. Da maneira mais doce e sorridente do mundo. Como se o sorriso tivesse o som do aqui. Mas ainda não entendeu para que serve. A palavra, pois o sorriso que se derrete em aqui serve para fazer a vida feliz.

… como o “não”, que anda servindo para quando não quer mais comer como, também, para quando está aguardando a próxima colherada. Ou quando não quer água. Ou quando quer água.

… parece que você decidiu que todas as roupas se vestem pela cabeça. E assim calças, meias e até fios de lã viram cachecóis, todos em torno do pescoço. E os algodões viram algodão doce. Só que com gosto ruim. E o pente vira um excelente mordedor. Como a pasta de dente. E a cabeça da boneca.

… noutro dia teve mais um encontro com um cachorrinho, dessa vez um filhote. Acarinhou, abraçou, deitou na barriga dele. Os animais te cativam. As plantas e as flores também. Basta estar ao ar livre para estar feliz. E sorri quando o vento chacoalha os seus cabelos.

… ainda faz a simpaticona séria e a simpaticona sorridente. Mas não faz mais a sapinha no colo, só quando dorme na cama. E quando dorme, é a paz encarnada.

… escovar os dentes é um dos highlights do dia. Como o banho. De chuveiro. Tipo menina grande. Essa menina que parece gente, e que é uma gente tão boa, tão divertida, tão curiosa e tão amada.

… sua carinha de choro e seu olhar de desespero arrebentam o coração da mamãe. E seu sorriso ilumina uma vida toda.

… aprendeu a mandar beijo, a dar abraço e a fazer tchau. Tudo com um delay de alguns minutos. Assim, os amigos sempre perdem a melhor parte.

… na praia, quis botar os pés na água fria do mar. E estranhou a textura da areia. Pegou conchinhas. E pedrinhas. Tudo serve como presente, que você nos oferece. Ou às crianças do parquinho, que nem sempre percebem o valor da sua oferta e te deixam falando sozinha, perplexa. Mas alguns aceitam teu sorriso e sorriem de volta. E agora que você virou craque em subir nos brinquedos e descer no escorregador, então… quem te segura, cheia de confiança, toda pequena entre os grandes, andando agarrada às grades para chegar no alto dos brinquedos. Do alto de seu ano e dois meses.

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