Coisas curiosas e outras tantas incompreensíveis

Acho que um dos motivos que me fez querer ser psicóloga é que não entendo as pessoas. Não apenas não entendo a mim mesma, o que já seria motivo suficiente para uma grande perplexidade, mas não para querer ser psicóloga e sim para ir buscar análise. Não entendo os outros também, de maneira geral e quase irrestrita. Tudo bem que o outro é, por definição, opaco. Tendo em vista que nós só podemos olhar para os outros e para o mundo de nossa própria perspectiva, sempre teremos uma idéia muito parcial e tendenciosa do que seja estar na pele ou na vida de outro alguém. É por isso que existe a idéia e a experiência da empatia, que seria tentar se colocar no lugar do outro e olhar por sua perspectiva. Tentar. Tentar imaginar como o outro vive, como se sente e por que é como é. Difícil ter empatia, ainda mais em tempos tão áridos para as relações humanas. Por vezes não conseguimos nem ter empatia com os próprios filhos, que dirá com desconhecidos.

Daquilo que não entendo nas pessoas de maneira geral, uma das coisas que me deixa mais perplexa é essa característica de deixar nas mãos de um outro algo acerca da própria vida. Deixar que decidam, que digam, que saibam no seu lugar enquanto você não sabe nada, ignora, nem quer saber, se envolver, escolher ou decidir… eis um modo de ser que me deixa completamente estupefata. Quem em sã consciência pode preferir que outra pessoa decida no seu lugar sobre qualquer coisa? E quando essa coisa sobre a qual se decide tem imensa importância, então fico ainda mais perplexa.

Ok que alguém decida por você qual a cor do papel higiênico que terá no seu banheiro. Afinal, desde que nos tornamos adultos somos bombardeados com uma tal quantidade de escolhas a fazer que é sempre um alento não precisar pensar em tudo. Mas, e quando a decisão é algo um pouquinho mais importante do que isso, E quando é, por exemplo, algo que envolve sua vida e sua saúde? E quando envolve a vida e a saúde do seu filho?

Talvez nossa primeira tendência seria responder: ah, não! Claro que eu não deixaria alguém decidir no meu lugar sobre coisas tão fundamentais como a minha saúde ou a do meu filho. Eu quero o melhor para mim e para ele, quero o melhor para minha família e para aqueles que eu amo. Então, é claro, sou eu que vou escolher e vou escolher o melhor. E então, desse lugar de quem vai fazer uma escolha essa pessoa, muitas vezes, escolhe deixar sua saúde, sua vida e a do seu filho nas mãos de um outro. Entrega a si e aos seus a uma outra pessoa. Essa é a sua escolha. Essa é sua decisão. Aquilo que La Boétie chamou de servidão voluntária: eu, do alto da minha liberdade de escolha decido ser escravo do outro.

Não vou discutir aqui por que razões uma pessoa faz essa opção. Não vou discutir se é alienação, ignorância ou apenas a vontade de não ter que decidir sobre si para não ter nenhuma responsabilidade sobre o que acontecer depois. Não vou discutir sobre o conforto de ter sempre um outro a quem atribuir a culpa e nem sobre a falsa tranquilidade em poder dizer “não fui eu que fiz”. Muitos podem ser os motivos e todos eles podem ser compreensíveis e compreendidos. E que haja um motivo e que seja humano, isso não diminui minha perplexidade em nada. Será que a responsabilidade de falar em nome próprio é tão grande, tão pesada, tão oprimente que se largar na mão do outro parece uma melhor opção? Será que é tanta a angústia por essa impossibilidade de termos certeza absoluta sobre o que é a melhor escolha o que nos impede de decidirmos? Por medo do erro, de mudar de idéia, da culpa ou da impossibilidade de voltarmos atrás preferimos abdicar da decisão?

Vira e mexe leio alguns comentários que dizem: Deus decide, deixo nas mãos de Deus. Ou outros que dizem: o médico sabe, o médico decide. A mesma lógica de deixar para um outro uma decisão que seria de sua inteira responsabilidade. Sim, muita coisa nos escapa nessa vida e não conseguimos controlar quase nada, mas daí a colocar nas mãos de Deus uma decisão sobre sua vida e a do seu filho… como assim? E nas mãos dos médicos então? Então não é preciso fazer nada, informar-se sobre nada, tentar conseguir o melhor, lutar por algo que pareça humano porque Deus e seu emissário, o médico, cuidam de tudo?

Não, realmente não consigo entender.

2 comentários sobre “Coisas curiosas e outras tantas incompreensíveis

  1. Há exatamente duas semanas eu tive uma discussão com uma prima que, grávida, com 39 semanas, estava exausta em frequentar ao trabalho e se queixou a mim dessa situação. Eu dei a dica: peça ao seu médico que lhe dê um atestado e vá ficar em casa arrumando os últimos detalhes! E ela me respondeu que teria consulta naquele dia e perguntaria AO MÉDICO se podia parar de trabalhar. Como assim? “É o médico quem decide por vc? É ele quem está acompanhando obra com uma barriga de 39 semanas? É ele quem está cansado ou vc?”. Revolta maior ainda quando ela saiu da consulta e eu procurei saber das notícias. Resposta “O MÉDICO acha que eu ainda posso aguentar mais alguns dias de trabalho”. Meu Deus! Será possível tanta ignorância? Resultado: dali a três dias a ansiedade aliada ao cansaço foram tão grandes que a pressão subiu e ela precisou se internar pra ter a pressão monitorada diariamente até que o médico marcasse a cesárea. Quer dizer, se ela tivesse se posicionado e dito que precisava descansar (não perguntasse se poderia), talvez estando em casa, o desfecho seria diferente. Mas quem sou eu pra ficar jogando qualquer coisa na cara de uma mulher puérpera…

  2. Ale, eu sempre fui terrivelmente indecisa, incapaz mesmo de tomar a maioria das decisões da vida…
    O motivo acho que vc muito bem cito:, o que me travava era a angústia pela impossibilidade da certeza! Como era difícil!! 5 anos de análise é uma gravidez fizeram grande diferença aqui! É curioso como ao se tratar da Cecília eu viro bicho firme!! rsrs
    Ufa! Que bom!! rs

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