Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

10 comentários sobre “Este meu blog, este meu trabalho

  1. O cuidado, o carinho, o respeito que sempre lhe foram peculiares (desde que comecei a te acompanhar no blog) lhe tornarão uma doula excelente! Afinal, é somente isso o que uma gestante ou uma mãe recente mais precisam! Sucesso na nova jornada! parabéns!
    Sigo acompanhando.
    Bjs

    1. Naty minha querida, obrigada pelas palavras tão carinhosas e pela confiança. Também sigo acompanhando e torcendo sempre por você e pela querida Elis, viu? Beijo grande, Alessandra.

  2. Alê, querida! Fiquei tão feliz quando li seu texto, você nem imagina! A internet possibilita encontros muito bonitos, e esse meu e seu é um desses. Principalmente porque eu não me encontrei “com você”, exclusivamente, mas encontrei a mim mesma em você, através dos seus textos e das suas reflexões. Desde que comecei a ler seu blog, ele foi importante pra mim, por esclarecer tanta coisa, e o seu sempre-retorno também foi (e continua sendo) importante pra mim porque, como você escreveu, eu me senti sempre acarinhada pelas suas palavras e pela sua ajuda virtual. Desejo toda a sorte do mundo pra você nesse novo caminho. Não tenho dúvidas de que você será mais plena e ajudará outras mulheres a serem também. Gratidão por tudo o que você já fez e faz. Um beijão. Ju.

    1. Puxa, Ju. Me emocionei muito com as suas palavras, pois foi algo que vivi em relação a muitos escritos de muitas gentes, isso de se encontrar nas palavras dos outros. Acho que é isso que pode fazer algum sentido nesse tanto de palavras lançadas aos ventos pela blogosfera afora, né? Em tempo, também adoro o seu blog e me revejo em muito do que você diz. Abraço grande, Alê.

  3. Pra muitos esse papo de blogosfera pode parecer besteirada superficial, mas isso, cheio de informações e de relações, mexe muito com a gente, né?! Adorei esse novo caminho para o qual o blog (e a maternidade) te levou!!
    E concordo com a Naty, vc será uma doula incrível!!! (aliás, que sonho esse seu curso, hein?!)

    Tô num momento bem parecido com esse seu… vejamos por onde irei em breve…

    Beijo!

    1. Poxa, Gabi, obrigada pelas palavras de encorajamento. E olha, se uma hora você quiser falar sobre o curso e novos projetos de trabalho, basta me avisar, viu? Como vamos ser vizinhas, quem sabe não acabamos fazendo umas coisas hispano-francesas? 😉 Beijocas, Alê.

  4. Que linda! Adorei! Muito sucesso pra vc! Sorte de quem te encontrar, de quem cruzar com vc pelo caminho! Sorte da mãe, do pai, do bebê … Da família! Gosto muito de ler o que vc escreve. Eu me identifico muito com sua maneira de pensar. Aprendo muito por aqui! Vc me ajudou muito! Lembro que cheguei no blog qdo fui pesquisar sobre o que era uma sage-femme… Rss (Tive a sorte de encontrar uma profissional maravilhosa).
    Um beijo grande pra vc!

  5. Oi!!
    Descobri seu blog e logo me identifiquei!
    Mas como seria diferente, se eu também sou brasileira, psicologa e casada com francês, descobrindo a gravidez, o parto e a maternidade (ainda que imaginaria) aqui na França.
    Li tantos posts e foi tão bom ver que não estou sozinha nessa (re)descoberta do que é gravidez, não que eu tenha ficado gravida antes, mas cresci numa realidade outra de gravidez e praticas tão comuns no Brasil são tão raras aqui e claro que muitas coisas são compartilhadas entre os dois países. Enfim, é um momento muito único e estar afastada trás a sensação de estar sozinha… um pouco menos lendo seu blog. 🙂
    Espero que continue a postar, pois me interesso por essa sua nova fase e quero ver o que esta por vir!

    1. Oi, Carol. Obrigada pelo seu comentário. Quantas coisas em comum nós temos, hein? Tenho sempre vontade de postar textos no blog, mas tenho tido dificuldade, devido a tantos acontecimentos da vida. Mas não desisti, logo retomo essa escrita. No mais, podemos sempre trocar mensagens via página no facebook ou email, se você quiser, ok? Um grande abraço, Alessandra.

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