A maior alegria do mundo

Não sei se vocês já tiveram essa sensação alguma vez na vida. Uma sensação de plenitude, como se tudo estivesse em seu devido lugar. Eu chamo isso de o momento perfeito. Nada falta, nada a acrescentar. Só você e aquilo que está vivendo. Uma espécie de coincidência entre você e o momento presente. Sem ansiar por algo além, sem lamentar por algo vivido. Enfim…

Vejam, sou psicanalista. Não acredito na plenitude, acredito que o ser humano vive na falta e na incompletude e que é justamente isso que o move a viver e o torna humano. É sua condenação e também sua maior vantagem, pois é nessa fragmentação que ele pode inventar o melhor de si. Ou apenas se contentar em ser o pior, que dá menos trabalho. Não faz sentido buscar a perfeição porque ela não é dada aos humanos. Daí esses momentos raros serem ainda mais surpreendentes. E marcantes.

Lembro uma vez no Rio de Janeiro, caminhando pela orla no aterro do Flamengo num final de tarde. O dia estava fresco, não muito quente. E o céu fazia todas aquelas cores entre o azul, o rosa, o vermelho, o laranja, o amarelo, com o Corcovado de um lado, o horizonte do outro e o Pão de Açúcar ali atrás. Em silêncio andávamos sem dizer nenhuma palavra. Só aquela vista, o barulho das ondas, o ruído de fundo das pessoas que passavam, nada na cabeça, o coração quentinho, uma espécie de esperança. Momento perfeito.

Momentos perfeitos se dissipam tão logo você se dá conta deles, como se o olhar borrasse, fazendo quase duvidar que aquilo realmente aconteceu. Momentos perfeitos viram fumaça e escorrem pelo ar, restando apenas a memória. Ou uma sensação.

Costumo dizer que esses momentos perfeitos são um estado de exceção da condição humana. Como se por um minuto pudéssemos sair da vida e ser além.

Depois que me tornei mãe, esses momentos de perfeição teimam em acontecer com mais frequência. São momentos simples, banais mesmo, como agorinha há pouco brincando de usar caixas de Lego como chapéu em um domingo de outono qualquer. Cada um com sua caixa chapéu na cabeça. Os olhares e as risadas.

A felicidade pode ser de uma simplicidade exasperante.

Não, a maternidade não é perfeita. Ter filhos não é só alegria e não garante esses momentos extraordinários. Ter filhos não é o único meio de ser feliz. E não deveria pesar sobre as crianças a responsabilidade de nos garantir o que quer que seja, quanto mais felicidade.

Mas esses momentos são de tirar o fôlego.

Em uma semana tão triste e tão sombria, com meninas sendo assediadas e tratadas de vagabundas na internet após uma emissão televisiva, com milhares de mulheres vindo à público contar sobre seu primeiro assédio na mais tenra infância, com vídeos de crianças em sofrimento sendo feitos e publicados por seus professores, com adultos advogando o uso extremo de violência contra crianças que eles julgam serem mal educadas, com leis anti aborto sendo retomadas… Depois de uma semana dessas em que o ser humano nos lembra que ele sempre pode ser pior… nada como o alento desses momentos simples, plenos e que nos permitem, ainda, respirar.

Em tempo: o momento perfeito não é aquele que a gente filma, fotografa com o celular, tira um selfie e publica nas redes sociais. Momento perfeito fica guardado no peito. A gente vive sem interromper, quase sem se mexer ou respirar, como faz para não acordar o bebê.

2 comentários sobre “A maior alegria do mundo

  1. Lindo, lindo, lindo! Que feliz em poder retornar às ideias desse cantinho! E por aqui também os momentos de plenitude ficaram frequentes depois da nossa Elis. Em breve, chega um (a) irmãozinho (a) e eu acredito que essa frequência dobre! :p
    Um grande beijo, Alê

    1. Ah, que emoção! Quer dizer que estamos no mesmo “mood” do segundinho? Maravilha saber que vamos continuar trocando figurinhas. Parabéns e um abraço grande em você, na Elis e na barrigota.

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