A espetacularização do nascimento

Tem uma coisa que me incomoda um bocado, que é essa espetacularização do nascimento que temos hoje em dia. E que não deixa de fora os partos normais humanizados, muito pelo contrário.

Talvez vocês se lembrem daquela matéria que apareceu nos jornais pelos idos de 2012 sobre uma maternidade carioca que revolucionava sua oferta de serviços colocando um telão para que os parentes pudessem acompanhar o parto. Sim, um telão mostrava o parto – cesariana, na sua maioria – naquilo que uma cesariana tem de possível de ser mostrada: mãe deitada, amarrada, envelopada, panos cobrindo a “área de trabalho” dos médicos, bebê saindo embrulhado, bebê aproximado da mãe para ela dar um beijinho, já que não pode carregar, primeiros “cuidados” e por aí vai. Os convidados todos ali no salão, em frente à tela, assistindo em tempo real a esse nascimento, com direito a um buffet, comes e bebes, festa e muita diversão. Lembro do quanto essa “excelente idéia” gerou comentários e discussões na época, muitas em torno disso que estou citando agora, essa idéia da espetacularização. A imagem que fica mais importante do que a experiência, a exposição máxima que deixa de escanteio toda a intimidade, toda uma possível necessidade de privacidade, o superficial tomando conta de um acontecimento em que o foco deveria ser naquilo que realmente importa.

Guardadas as devidas proporções – e as devidas diferenças, que são muitas – algo dessa mentalidade do espetáculo respinga também em muitos dos partos humanizados.

Criou-se uma moda, a partir do momento em que o parto normal, natural, humanizado começou a aparecer mais e mais nas discussões sobre parto e no desejo das mulheres em garantir um nascimento digno e respeitoso para seus filhos, de que esse tal parto humanizado deveria acontecer de um certo jeito. Em casa. Na água. Com o pai ali do lado, de mão dada, junto na piscina, enfim, participando ativamente. E com alguma espécie de registro visual da beleza da coisa toda. Fotos. Vídeos. Pronto. O pacote parto humanizado ideal passou a incluir a enfermeira obstétrica, a piscina inflável, a doula, a fotógrafa e o pai da criança como itens de igual importância e todos de extrema necessidade.

Penso que, num campo tão novo, tão cheio de dificuldades, em que conseguir um parto digno revelou-se um percurso do combatente para as poucas mulheres que toparam o desgaste de passar por vezes uma gravidez inteira brigando contra o mundo, era importante buscar modelos, pontos de apoio, possibilidades de compartilhar desejos, anseios, angústias, informações, alternativas. E que bom que isso aconteceu e que hoje em dia dispomos de mais e mais sites, grupos, fóruns, blogs, lugares, pessoas, referências e escritos sobre o tema. Temos essa demanda de pensar o nascimento de nossos filhos, de desejar algo diferente, de buscar uma possibilidade mais humana de viver uma gravidez e um parto. E temos a quem recorrer para isso. Cada vez mais. E cada vez de maneira mais formalizada. Isso é um feito!

Pode ser que, para muitas dessas pioneiras do nosso tempo, um dos modos justamente de partilha e de apoio às outras mulheres que desejariam também viver a experiência de um parto humanizado tenha sido essa espécie de statement que a imagem pode oferecer: além de contar os partos, por que não mostrá-los? Um parto normal tem muito mais o que mostrar do que uma cesariana. Um parto sem violência tem muita beleza a desvelar. Nessa nossa época em que imagens falam mais do que palavras, essas imagens dos partos circulando por aí, que poder elas teriam?

Um imenso poder. Um poder de convencimento, um poder de exemplo, um poder de inspiração. A imagem é poderosa, sabemos disso. Basta lembrar da recente imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia e da comoção que isso causou no mundo inteiro, influenciando inclusive em uma série de movimentos populares por toda a Europa que pressionou por uma maior abertura na acolhida de refugiados em todo o continente para se dar conta que, sim, as imagens têm um imenso poder de persuasão. E que as mulheres gestantes, parturientes decidam usar disso para gritar para os quatro cantos do mundo que, sim, é possível parir e parir dignamente mesmo no Brasil dos dias de hoje, bem, isso é legítimo e louvável.

Minha questão não tem nada a ver com esse uso político da imagem e da imagem do parto humanizado. E não é uma crítica a quem faça ou tenha feito uso dessa estratégia. Meu incômodo é com a maneira como certas coisas, especialmente quando ligadas à imagem, se tornam rapidamente uma necessidade de mercado.

Me explico. Vendo essas imagens, muitas de nós, mulheres grávidas buscando um nascimento digno para nossos filhos e um atendimento cuidadoso da nossa própria experiência de gestantes e de parturientes, pudemos absorver, além da inspiração e da idéia de que é possível parir, uma espécie de receita de como isso deveria acontecer quando “acontece direito”.

Quando vemos as imagens dos partos naturais que desfilam em profusão pela net, podemos constatar que existem alguns recorrentes que praticamente criam uma receita: parto na água, marido ali do lado, toda equipe na borda da piscina observando a mulher, expressão de dor, expressão de êxtase, bebê peladinho no colo da mãe. E a pergunta que pode vir daí é: tem que ser assim?

Tenho visto muitas mulheres extremamente preocupadas com onde vão comprar a piscina para o nascimento. E onde vão colocá-la. Tenho visto muitas imagens muito parecidas, como se todos os partos humanizados fossem a mesma coisa. E tenho visto muitas imagens. Uma invasão de imagens que praticamente se torna uma injunção: “veja, é assim que se faz!” Será?

Talvez sejamos incapazes de viver sem uma imagem à qual nos agarrar e, na medida em que recusamos a imagem da mulher asséptica amarrada na maca da sala de cirurgia em muitos tons de azul enquanto seu filho é extraído dela e exibido alegremente para a galera do telão tenhamos que nos agarrar a uma alternativa. Uma imagem alternativa, que nos oriente em como as coisas devem ser. E isso tem uma tal pregnância que, rapidamente, a imagem se torna mais importante que o conteúdo e nos vemos de novo na cilada do espetáculo, daquilo que tem que ser mostrado, do superficial e acessório tomando o lugar do que deveria ser o foco. Vivemos na sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde tudo é rapidamente tragado pela lógica da exibição. Exibição que garante a perpetuação de um jogo de poder.

Quem ganha com essa história de substituir uma imagem por outra? Um modo de um parto acontecer por outro? Uma regra por outra?

Ainda que nós mulheres e nossos filhos possamos lucrar e muito com a garantia de escolher um parto normal humanizado, até que ponto isso mesmo que conquistamos não se vê ameaçado pelo estabelecimento de uma receita?

Michel Odent fala de maneira bastante crítica desse modus operandi que se instaurou como tendência no parto humanizado. Para ele, essas diretrizes de parto na água, marido presente, registro fotográfico e todos os afins que acompanham o pacote devem ser pensados com muito, muito cuidado. O fundamental, para que um parto seja humanizado e que tudo corra bem para a mãe e para o bebê é que eles possam viver isso do jeito que precisarem.

Isso quer dizer, basicamente, que ao longo de todo o processo de parto o que deveria prevalecer é aquela parte mais primitiva do cérebro da mulher que a faz parir. E parir bem. Eis o que deveria ser favorecido e respeitado. Que a mulher possa entrar nesse estado outro e ficar ali. Que ela seja ajudada a ficar nesse estado. Calor, silêncio, pouca luz. É o que basta. Tudo o mais é acessório. Pode servir ou pode apenas atrapalhar o processo. E não deveria ser posto como artigo de primeira necessidade.

Nesse estado outro, que nenhuma mulher conhece antes dele se instaurar, não dá para prever se ela vai querer entrar na piscina, se vai querer sair da piscina, se vai querer o marido perto, se vai querer ele longe, se vai fazer assim ou assado. Ninguém tem como saber e projetar tudo isso serve, no fim das contas, apenas como um modo de se apaziguar acreditando que existe algum controle e alguma previsibilidade desse momento que é, antes de tudo, um desconhecimento absoluto, um vácuo de imagens.

Por vezes, ouço ou leio histórias de partos que corriam muito bem, até que empacaram e se tornaram lentos, lentos, lentos. Alguma coisa ali naquele cenário dificultou à mulher poder entrar ou ficar nesse seu estado segundo. Pode ser algo do encontro dela com ela mesma, aquelas coisas subterrâneas que teimam em aparecer justamente nessa hora, nossas assombrações, nossos medos, nossos desafios que encaramos ou não junto com o ato de parir. Mas muitas vezes o que dificulta – e muito – são exatamente esses modos obrigatórios de fazer as coisas que ficam martelando ali no fundo da cabeça ou na boca das pessoas em volta, cobrando da mulher que ela siga um plano que ela mesma construiu, desejou e pôs em prática. Então ela sai do seu casulo para pensar que deveria entrar na banheira, afinal, compraram a bendita da banheira que custou uma fortuna. E é melhor não sair da banheira, porque o bebê vai nascer na água, não é mesmo? Mesmo que a água tenha ficado fria e que o frio faça os músculos contraírem e o parto ficar mais lento… E melhor ficar ali onde está a banheira, porque é mais fácil para fazer as fotos do que se ela seguir aquele seu impulso intenso de ir se esconder no banheiro, longe de toda aquela gente. E toda aquela gente ali, olhando, olhando, esperando… começa a dar uma sensação de pressa, de ter que fazer algo, de ter que ir bem. E o marido tem que ficar ali do lado, apoiando, segurando a mão, abraçando, dizendo palavras bonitas, mesmo que isso gere uma irritação… Pronto, eis aí a receita, o “jeito ideal” de fazer tomando o lugar daquilo que aquela mulher, naquele momento, realmente precisa. Eis aí o parto novamente parasitado por fórmulas, por obrigações, pela necessidade de reproduzir aquela imagem linda que vimos na internet.

Tem mulheres que dão à luz muito bem no banheiro, debaixo do chuveiro, de porta fechada sem deixar ninguém entrar. Tem mulheres que mandam o marido ir catar coquinho e preparar uma sopa ou o que quer que seja. Tem mulheres que dão à luz quando a doula e o obstetra estão dormindo no sofá da sala. Tem mulheres que dão à luz embaixo do chuveiro, dentro da banheira, em cima da cama, no tapete da sala… até mesmo dentro do carro. Tem mulheres que dão à luz no escuro, num calor de 40°C, debaixo das cobertas. Ninguém sabe como vai ser até a hora em que acontece. E o melhor que podemos fazer é garantir que cada uma dessas mulheres possa ter aquilo que precisa, do jeito que precisa, da maneira mais respeitosa, cuidadosa e amorosa possível.

Podemos, nós que acompanhamos essa mulher e esse bebê, garantir que não há modelo, que não há receita e que, sim, ela pode fazer confiança em que ela vai saber o que fazer e vai fazer o que precisam ela e seu filho.E que isso será a prioridade que todos em volta buscarão respeitar e acompanhar. Ok fazer um plano de parto, ok ter um plano se isso tranquiliza o seu coração e a sua cabeça. Mas o melhor que pode acontecer é a cabeça esquecer o plano na hora H e deixar o mais primitivo em si agir. Dá um medo de se pelar, mas quem disse que é o nosso raciocínio e o nosso entendimento das coisas que faz um parto acontecer?

Posto isso, tudo o mais é acessório. Ou inspiração tornando-se rapidamente mercadoria. E pressão. E opressão. O contrário do apoio e da libertação que todas nós buscamos.

Isso é, a meu ver, o que pode ser de melhor um parto humanizado. O respeito por esse desconhecimento, por esse vácuo de imagens, por esse silêncio, por essa intimidade em grau máximo. A foto? Para quê? Deixa a foto para a caixola da memória guardar e o peito abrigar ali onde é tão quentinho e tão bom.

8 comentários sobre “A espetacularização do nascimento

  1. Me lembro quando aconteceu comigo, no nascimento da minha bebê. Eu quis a gravidez inteira parir no banquinho, pois achava que seria mais tranquilo, que a gravidade ajudaria (como realmente acontece) e, por escolher um hospital que não me dava opção de banheira, o banquinho seria a alternativa à “cama ginecológica”. Mas na hora H eu não me senti confortável no bendito banco e quase entro em parafuso por causa disso. Não fosse o “convite” do obstetra a subir na cama, eu ficaria perdida. Pari com o encosto em 90°: sentada, mas no lugar que toda “teoria” de parto humanizado critica, gera repulsa, pela falta de movimento – o que foi ajustado para que o inverso acontecesse.

    1. Ainda bem que você se escutou, né Naty? Porque tem tanta gente que fica aprisionada no “jeito ideal” e acaba fazendo as coisas mais alienadamente, sem se sentir bem, forçando uma barra… é uma pena. Abraço, Alessandra.

    2. Natália também pari na cama… e me sentia “culpada” por isso. Não foi na banheira, não foi de cócoras… enfim. Foi do jeito “errado”. Mas meu bebe nasceu depois de uns 2 minutos na sala de parto rs Não creio que banquinho faria muita diferença rs.

  2. Nunca comento o que leio, mas tive que comentar seu texto pq simplesmente traduz td o que penso! Criou-se um indústria em cima dos partos humanizados, que não tem nada de humana.. Obstetras famosos cobrando 7 mil reais pra acompanhar parto, doulas virando celebridades.
    Graças a Deus consegui meu parto natural pelo sus, e na hora consegui romper com os paradigmas que tinha na minha cabeça e consegui parir como foi melhor pra mim, mas durante a gestação cheguei a me sentir oprimida por não ter condições financeiras de pagar o padrão.. Precisamos nos libertar disso

    1. Sim, Larissa, você tem toda razão. Como tudo o que surge como proposta interessante, também o parto humanizado se vê sequestrado por esse jeito de funcionar do consumo, de virar item de consumo e de criar exigências e expectativas surrealistas, no lugar de ajudar as mães que buscam parir dignamente. Fico feliz em saber que você conseguiu um atendimento de qualidade pelo SUS e, principalmente, que pode se ouvir, se respeitar e ser coerente consigo mesma. Parabéns. Um abraço, Alessandra.

    2. Exatamente Larissa. Também me senti oprimida. Toda vez que citava que iria parir num hospital do Sus, recebia muitas criticas… porque não casa de parto? Porque não em casa? Porque não tinha doula? Consegui o parto que sonhei e não mudaria absolutamente nada! E não, não acho que no meu caso a doula tenha feito falta. Estou admintindo isso aqui… se digo isso no face, elas iriam me bater rs

  3. Nossa… nem consegui terminar de ler e TINHA QUE COMENTAR! Seu texto é perfeito! Você disse tudo que estava entalado na minha garganta a alguns meses. Tenho uma filha de 11 anos e um filho de 1 ano. Ambos nasceram no Amparo Maternal em SP. Eu abri mão do convênio pra ter meus filhos no hospital que eu sabia, teria mais chances de ter um parto digno. E foi perfeito! Dois partos de sonho. O que me incomoda, é que toda vez que num grupo do face uma mãe pede opnião sobre hospitais, ou eu mesma pedi alguma opnião… sempre me induziam para o parto domiciliar. Não seria “parto humanizado” se não fosse na minha casa, com doula, banheira e etc. Mas eu nunca quis parto domiciliar… nem tenho recursos pra isso. E banquei minha escolha de parto hospitalar e tudo certo. Mas me incomoda o fato de muitas mães se verem perdidas com esse tipo de sugestão. Acho que muitas desistem e vão ter seus filhos com cesárea marcada no convênio. Porque parir de forma mais natural está ficando cada vez mais caro e complicado. Obrigada pelo texto!!! E agora vou la terminar de ler rs

    1. Rafaela, obrigada pelos comentários. Que legal ouvir um pouco da sua experiência com o Amparo Maternal. Acho muito complicado criar a idéia de um jeito único de fazer as coisas, especialmente porque isso cria uma expectativa, uma pressão e muita exclusão. Se a imagem ideal de parto natural se elitiza, ele se torna muito injusto para quem não pode pagar pelo “jeito ideal”. E ainda por cima enfraquece a própria luta pelo parto natural, na medida em que as opções públicas de qualidade continuam como exceção e as pessoas param de batalhar para que se tornem a regra, tomadas pela idéia que o certo é assim, em casa, na banheira… O certo, a meu ver, é respeitando o que a mulher quer. Um abraço, Alessandra.

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