A publicidade e a informação

Tenho uma página do blog no Facebook, onde publico coisas que leio sobre gravidez amamentação, parto, maternidade, infância que encontro pela web e me parecem interessantes. Ontem, publiquei uma matéria que apareceu em vários veículos de comunicação sobre a regulamentação de uma lei que proíbe a propaganda de todo tipo de produtos que podem interferir na amamentação: leite em pó, mamadeiras, chupetas e afins. Em resumo, para que a lei possa ser aplicada, essa regulamentação proíbe que tais produtos sejam objeto de propaganda em qualquer tipo de meio, que sejam associados com quaisquer personagens infantis ou outras imagens que induzam o consumo, que sejam distribuídos como brindes ou que façam parte de qualquer tipo de ato promocional e que tragam a informação em suas embalagens de que podem afetar o aleitamento. Uma medida louvável, se levarmos em consideração as estatísticas vergonhosas no que diz respeito ao aleitamento materno no Brasil, onde a média de tempo que se amamenta uma criança é de 54 dias (!!!).

E qual a relação disso com esses produtos? Toda, se considerarmos que aleitamento misto, mamadeira noturna, uso de chupeta e afins podem interferir na amamentação, criando confusão de bicos e uma maior dificuldade do bebê em estabelecer a pega correta. E que isso não é nunca dito claramente pelos pediatras e outros profissionais que indicam o uso da mamadeira por qualquer motivo que seja a uma mãe, o que não dá a elas todos os elementos para que tomem uma decisão informada sobre amamentação. E, obviamente, isso aparece menos ainda nas campanhas publicitárias desses produtos que, ao contrário, insistem em divulgar idéias mentirosas, como a de que leite materno e leite em pó são a mesma coisa (dê uma olhada nessa tabela comparativa em inglês), ou que certas mamadeiras e chupetas seriam o equivalente do seio materno, ou que seriam concebidas de maneira “ergonômica”, para não prejudicar amamentação, desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos faciais, postura e tudo o mais que sabemos que mamadeiras e chupetas prejudicam sim. Enfim, se essas publicidades prestam um desserviço em geral, apresentando idéias equivocadas como sendo verdades, imagina o estrago que elas não provocam nas mães que encontram dificuldades em amamentar?

Sabemos que o sucesso da amamentação depende muito do entorno, da rede de apoio que essa mãe e seu bebê encontram para darem conta de instaurar esse equilíbrio delicado que amamentar exige. Depende muito do apoio da família, dos amigos, dos conhecidos com seus comentários tantas vezes desastrosos. Depende imensamente também daquilo que as “figuras de autoridade” vão dizer a essa mulher que quer e busca amamentar, se saberão orientá-la corretamente ou se lhe darão informações desencontradas, erradas e que terminarão contribuindo para que ela se veja em uma bola de neve que torne o aleitamento impossível. Proibir a propaganda é incidir sobre o lado mais perverso desse mecanismo que dificulta, deturpa ou impede o aleitamento materno: o lado que vê na amamentação uma oportunidade de mercado, de lucro e de incentivo ao consumo. E apenas isso.

Uma das coisas que mais me chocou em alguns comentários que esse post recebeu na página do facebook foram algumas pessoas argumentando que essa proibição as privaria de informação sobre as alternativas ao aleitamento materno, constrangendo-as a amamentar e dificultando o acesso a esses produtos. Como se proibir publicidade fosse uma sonegação de informação e um atentado à liberdade delas de escolha.

Como assim? Tem gente que pensa seriamente que publicidade traz informação sobre alguma coisa? Tem gente que se informa através dos meios publicitários? Tem gente que decide sobre como alimentar seu filho vendo propaganda? Putz!

Sim, tem. E meu espanto é muito mais estranho do que essa constatação. É evidente que tem gente que se acredita que se informa e que toma suas decisões, mesmo as mais importantes, baseada em argumentos publicitários. Isso apenas prova o quanto a publicidade é eficaz e bem sucedida em seus objetivos. Ela consegue se fazer passar pelo que não é: um argumento de venda disfarçado de informação. Tão eficaz que as pessoas acreditam que se a publicidade dos produtos relacionados à amamentação forem proibidas, elas não terão como saber que eles existem, nem como saber de suas qualidades, de seus benefícios e de seus efeitos. E, com isso, não poderão comprá-los. Gente, isso é ou não é um exemplo gritante da perversidade desse mercado que, apoiado pela publicidade, faz mulheres acreditarem que o que eles fazem é ajudá-las de alguma maneira?

A meu ver, a questão do leite em pó é muito próxima da questão da cesariana: duas opções criadas pelo desenvolvimento tecnológico a situações de dificuldades reais que foram apropriadas por uma lógica de consumo que vende às mulheres uma idéia de que isso seria o exercício de uma escolha, além de um progresso, um avanço nas maneiras de vir ao mundo e de alimentar um bebê que trariam muito mais vantagens do que aquilo que existe desde que a espécie humana existe. No caso da cesariana, um real risco de vida para a mãe e para o bebê ligados ao parto normal e no caso da amamentação, uma real impossibilidade de alimentar o bebê. Duas opções que surgiram para resolver reais e graves problemas deturpadas por uma ambição da indústria que se construiu em torno delas de conseguir o máximo de lucro possível na medida em que elas se tornem um comércio. Comércio de partos, comércio de alimentos. Com tudo o que implica a idéia de comercializar: ganhar dinheiro com isso, por todos os meios possíveis. E sem nenhum constrangimento em falsear a verdade ou em atacar a concorrência. Porque o importante não é informar. O importante não é ajudar ninguém. O importante é ganhar todo o dinheiro possível com isso.

Amiga querida, não se preocupe. Se você está indignada por não poder mais ver a propaganda de leite em pó na televisão no intervalo do desenho animado dos seus filhos, isso não vai te impedir de comprar esse leite no supermercado da esquina. O comércio desses produtos não vai parar porque a propaganda vai parar de existir. Mas veja direito de onde é que você tirou a idéia de que esses produtos são os melhores para você e para o seu filho. Pois, se foi de uma propaganda, posso te garantir que ela não foi feita nesse intuito de te ajudar a escolher o melhor. A propaganda desses produtos, assim como qualquer propaganda do que quer que seja, não se preocupa com você. Nem comigo. Nem com ninguém. Ela apenas sabe muito bem encontrar nossos pontos fracos e nos manipular para acreditarmos exatamente nisso que você está dizendo que acredita: que elas querem seu bem e estão te dizendo como você deve fazer para tê-lo.

Se essa proibição contribuir para que menos manipulação mascarada de informação sobre a amamentação circule e que, com isso, as mulheres tenham que buscar orientação sobre o aleitamento em outro lugar, sem ser bombardeadas por um monte de imagens, brindes e frases de efeito completamente equivocadas. E se isso puder ajudar aquelas que querem amamentar a encontrarem os caminhos para isso, já terá sido um enorme passo na valorização e na viabilização do aleitamento materno.

  • Em tempo: na discussão no facebook uma pessoa colocou um problema bastante pertinente em relação a essa lei, que dificultaria o acesso à informação sobre esses mesmos produtos, especialmente no que diz respeito ao leite em pó, o que acabaria prejudicando as mulheres que precisam fazer uso dele. Um caso que parece que a lei não contemplou. Ela me disse que vai sintetizar um pouco seus argumentos e depois eu publico por aqui. De todo modo, obrigada à Claudia Eirado pelo contraponto interessante (vocês podem acompanhar a discussão pelo post do facebook, se quiserem).
  • Em tempo 2: um dos melhores projetos de mães contra os usos e abusos da publicidade infantil é este aqui. Acompanhe as discussões do site e apoie, se para você também essa história de transformar nossos filhos em pequenos e demandantes consumidores for algo a ser evitado.

    Fim da publicidade para produtos que prejudicam na amamentação. Já não era sem tempo.

    Posted by Barriga de bebê: o que as mães não dizem. on Tuesday, November 3, 2015

Um comentário sobre “A publicidade e a informação

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