O dia em que fiquei com raiva do Freud por ele ter razão

Aqui, o segundo atentado em Paris em um mesmo ano mata mais de 120 pessoas e fere mais de 250. O 2015 que começou com Charlie Hebdo e os reféns do supermercado kasher termina com um tipo de terrorismo em que o alvo é qualquer um em qualquer lugar. Não importa mais mirar em mensagens que vão contra nossa ideologia ou em grupos-alvo historicamente visados. O que importa é semear a certeza de que ninguém está seguro em lugar nenhum. Nem na mesa de um restaurante, nem no terraço de um café, nem em um show de rock num clube de uma grande cidade, nem em um estádio… Você pode até mesmo estar na bela, romântica e glamourosa Paris e receber um tiro gratuito no meio das ventas. Mundo, estranho vasto mundo imundo.

Aí, um pseudo-acidente faz romper uma barragem de uma grande mineradora e cidades são invadidas por uma lama podre, envenenada, que leva gente, bicho e natureza embora. Um rio morre para sempre. Tudo e todos que dependem desse rio morrem ou estão condenados. Lama podre e envenenada, a imagem perfeita de um país inteiro que vira as costas rapidamente e volta seu olhar para cá, para a nossa “elegante” desgraça.

Aqui, três horas depois do início do massacre, um presidente fala na televisão para todos os cidadãos. Quatro horas depois do massacre, ele e seus principais ministros estão no local mais atingido. Jogo de cena. Mas a imagem é fundamental nessa hora, para dar ao menos a ilusão de que não se está sozinho.

Aí, uma semana depois da catástrofe, uma presidente nem ao menos visitou o local do crime. Os donos da empresa divulgam notas. Cada qual culpa um outro pelo acontecido. Multas vergonhosamente insignificantes serão pagas naquele que é reconhecido como o Fukushima brasileiro em termos de gravidade. Toda uma área é impedida de acesso até mesmo pelo poder público. Ninguém sabe nada. Ninguém sabe da gravidade do acidente. Ninguém sabe o que ele acarreta. Ninguém tem água para beber. A água podre virou cimento em vários cantos, a muitos quilômetros de distância. Ninguém está nem aí. Palavras que significam mais do que querem dizer falam em “acidente”, “fatalidade”. Contra o acaso, quem senão Deus pode algo, não?

O que me parece que os franceses estão descobrindo de maneira contundente, ou o que estão sendo obrigados a recordar e que nós, aí, já sabemos há tanto tempo de maneira inequívoca, é que a vida não vale absolutamente nada nesse mundo que criamos. Ou melhor, nós sabemos não. Pois nós, a elite, pensávamos há até bem pouco tempo que éramos tão intocáveis quanto os franceses nos cafés de Paris. E estamos levando  porrada da vida quase ao mesmo tempo que nossos modelos de vida e de civilidade, os franceses. A vida que não valia nada era essa de 90% da população: os índios, os negros, os pobres, as mulheres, os homossexuais, os loucos… Mas até então, quem se importava? Eles que se fodessem, como sempre ocorreu, desde que escolhemos como mito de fundação a falácia de um país descoberto há 500 anos.

Aí, praticamente em todo canto não cercado de arame, vigias, guaritas, alarmes, câmeras e vidros blindados, a vida já não vale nada há umas boas centenas de anos. As pessoas protestam contra o aumento das passagens de ônibus? Bota a polícia na rua. As pessoas se insurgem contra os gastos astronômicos e fraudulentos de um campeonato de futebol? Manda a polícia arrebentar. Mas longe dos estádios e das câmeras. Que o Brasil é o país da alegria e do carnaval. Os alunos de escolas que ameaçam serem fechadas por uma pretensa reforma do ensino ocupam essas escolas em protesto? Manda a polícia para a porta das escolas. Reintegração de posse.

A quem pertence o poder? É isso que está em jogo, não? Em uma São Paulo sem água em que governador recebe prêmio por gestão hídrica, o que está em jogo é claro: em nome da segurança-pública, vamos bater até dobrar. Todos vocês. Se tivéssemos um mínimo de memória, lembraríamos com certeza de como os militares dobraram seus opositores, de como os colonizadores dobraram seus escravos, de como os “descobridores” dobraram os índios. Não, não é necessário lembrar nada. Aprendemos com todos esses que nos antecederam a fazer o que têm que ser feito para dobrar o inimigo. Aprendemos a sermos o pior.

Aí, o estado laico tornou-se uma licença-poética. Legislam sobre o corpo da mulher como sempre o fizeram, mas de maneira ainda mais crua, cruel e abjeta, pois nosso tempo assim o permite: o estupro tem que ser provado pela vítima. Assistimos às manifestações explícitas de incentivo à pedofilia em cadeia nacional e ainda tem quem ache graça. O primeiro assédio da devastadora maioria das mulheres brasileiras posto a nu em plena web escancara o nosso descaso com aquelas vidas que nunca valeram nada mesmo, aquelas que deixam de valer primeiro, as primeiras a serem sacrificadas: mulheres e crianças. Alguns debocham, outros desdenham o feminismo, outros ainda mais perversos respondem com um meaculpa hipócrita, ao invés de irem para a cadeia. O racismo antes e sempre escondido atrás da imagem do país de todas as raças, de todas as cores, de todas as crenças cai por terra. Pessoas se permitem insultos racistas em plena luz do dia, sob a proteção da tela de um computador que as faz crer serem inatingíveis. A tecnologia autorizou o monstro dentro de nós a mostrar todos os seus dentes, todas as suas garras, todo o seu horror, toda a sua agressividade, todo o seu ódio, ódio, ódio, ódio. Contra tudo e contra todos. O que incomodar, a gente extirpa da face da terra. Pessoas se permitem apedrejar alguém de outra religião em nome do seu deus. Pessoas se permitem linchamentos. Pessoas se permitem acreditar que tudo será melhor quando crianças forem para a cadeia. E quando o governo cair. E quando o dólar baixar. Pessoas em algum lugar devem rir da nossa cara.

Aqui, ninguém ri de mais nada há um bom tempo. O país do pensamento, da abertura, das luzes foi engolido por uma espessa treva, consequência direta de seus atos, de sua política externa, de sua arrogância frente ao outro, de sua incapacidade de integrar, de sua resistência a se colocar em questão, do seu medo em se posicionar criticamente, de sua covardia em seguir a maré, navegar a onda do que dizem os bancos, o dinheiro, os grandes interesses de mercado e as grandes indústrias do medo e da guerra. Esses sim, os verdadeiros donos do poder. Ninguém ri de mais nada nessa guinada cada vez mais clara à direita, ao conservadorismo, ao estrangeiro como inimigo, ao outro como bode expiatório inevitável. É isso ou perder o poder. E ninguém quer perder poder nenhum, nem sair do conforto desse lugar tão conhecido onde estão há décadas ou séculos: França, país da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do droit de l’homme, da defesa dos direitos humanos. Da defesa do humano no homem. Será mesmo?

Aqui, as guerras criadas nesse mundo em que vivemos e que servem apenas a uns poucos, especialmente a europeus e americanos, finalmente apresentam a conta: pessoas percebem que é mais seguro entrar numa “barca furada” e atravessar um oceano de desespero com família, mulher e filhos do que ficar onde estão. Quem nesse mundo pode chegar a apostar que uma travessia em um barco lotado é melhor do que sua própria casa? O horror, o horror traduzido em gente, em corpos, em crianças mortas na praia. O pior do humano chega no velho mundo com uma fatura alta para cobrar: o preço é impagável.

Aí, fazemos de conta que a conta não existe. Rimos da conta, debochamos da conta. Sem lei que somos, assumimos que a conta não é nossa e seguimos com a vida que nada vale, em que nenhuma violência mais tem peso o suficiente para criar o horror e fazer gritarem as pessoas. Um urro de desespero, de indignação. Uma tentativa de mudança. Seguimos anestesiados nesse “deixa disso” eterno, nessa tentativa de conciliação pelas aparências. Somos os experts da indiferença. E da covardia. Ninguém quer pagar o preço da conta.

Aqui, não dá para fazer de conta que a conta não existe. Um certo pudor, um certo constrangimento, um certo lastro de uma vergonha na cara tão necessária ao humano ainda parece existir. As fronteiras se abrem. Os refugiados entram. Jogo lindo entre abrir-se ao outro e o discurso do medo do outro, da ameaça do outro. Jogo lindo que dura pouco. Bombas explodem fora do estádio onde o jogo acontece. Amistoso França e Alemanha. Para quem gosta do poder simbólico das imagens…

Quem atira de metralhadora em pessoas no terraço de um restaurante? Quem atira em pessoas em um lugar fechado, no meio de um show de música? Quem manda a polícia para cima dos seus cidadãos, para cima de suas crianças? Quem torna a vida tão inviável que faz ser melhor partir morrer noutro lugar? Quem joga de maneira inconsequente a culpa no outro? Quem mascara negligência em acidentes, negócios milionários em guerras, fanatismo religioso em projeto de lei?

No final da vida, Freud estava refugiado um Londres, para onde se mudou às pressas por conta de perseguição aos judeus que tomava proporções mais e mais perigosas lá na sua Áustria natal. Áustria fim de século, berço do pensamento mais sofisticado de toda a Europa e do mundo ocidental por consequência. A língua alemã que falava com orgulho e defendia com convicção, a língua de todo o pensamento moderno, a língua em que escreveu seu otimismo em acreditar possível curar as neuroses. Freud otimista que pensava que o homem estava às voltas com o seu desejo, com os seus conflitos e cisões por conta do desejo, por conta das intensidades que o atravessavam.

Esse Freud que, no final da vida, e por conta da própria vida, teve que reconhecer que seu otimismo, sua crença no homem, no desejo e na força civilizatória eram por demasiado condescendentes com aquilo que o humano trazia dentro de si. Freud que viu, na sua língua, nascer a possibilidade de um humano excluído da possibilidade de toda a humanidade. O horror, essa nossa experiência do horror inominável nasceu ali, nessa época e nesse otimismo de Freud e da sua geração. O melhor nos deu a conhecer o pior.

Freud escreveu o meu livro predileto, Mal-estar na civilização, nos anos 30. Um pouco antes do pior se instaurar. Mas com uma lucidez e uma dor de fundo das quais não cesso de compartilhar desde a primeira vez que o li. É como se ele baixasse os braços sem entregar os pontos realmente. Ali, no mal-estar, ele entende que o pior do homem não é o seu desejo, mas sua propensão ao pior, a deixar-se levar pelo pior, a chafurdar prazerosamente na lama do pior. O pior do homem é o que ele chama de pulsão de morte, uma espécie de tendência ao zero, ao vazio de desejo, à anulação das intensidades. Uma tendência da vida em direção à morte que nos atravessa e que, no melhor dos casos, ao invés de nos afogar rapidamente sai em direção ao outro como agressividade e destruição.

Para pagarmos o preço da vida, precisamos agir em permanência contra essa tendência de destruir ou de se autodestruir, aceitando um compromisso civilizatório no qual ninguém se autodestrói, apostando em que construir uma vida é mais desejável do que se deixar definhar e, também, em que ninguém destrói ninguém e todos inventam outros destinos para essa força bruta que pode virar qualquer coisa: literatura, ciência, trabalho, arte… O mundo civilizado seria exatamente fruto da briga entre esse escorrer para a morte e essa teimosia da vida. Mundo civilizado, construção possível, invenção do homem que poderia apostar em pagar um preço para ser o melhor. Tempos de Freud, apostas possíveis nos tempos de Freud, compromissos possíveis dos homens possíveis nos tempos de Freud.

Hoje em dia, pagar o preço da civilização seria ainda possível? Pagar o preço – e a conta – da nossa humanidade, seria algo que ainda poderíamos nos prontificar a fazer? Nesse mundo em que pessoas atiram nos seus semelhantes sem mais nenhuma justificativa além da ação pura e simples de matar, nesse mundo em que o ódio às crianças, às mulheres, aos negros, aos homossexuais, aos estrangeiros, aos que têm outras convicções religiosas pode ser bradado sem vergonha e sem constrangimento aos quatro ventos sem que nada nos delimite uma fronteira à partir da qual não se pode mais falar ou agir por se tratar de um crime… nesse mundo onde pessoas são tocadas como gado em barcos, dentro e fora de fronteiras, marcadas como gado, exiladas de sua língua, de sua vida e privadas de qualquer olhar de empatia… Será que nesse mundo existe ainda lugar para algo além do pior de cada um?

Sou psicanalista há pouco mais de 20 anos. Entre consultório e instituições, o que sempre me moveu a persistir – na vida e na profissão – foi o encontro com algumas pessoas, cada vez mais raras, que fizeram e fazem o imenso esforço cotidiano de pagar o preço da vida. São pessoas que, muitas vezes contra tudo e contra todos, contra sua própria história, contra seus pais, sua família, seu entorno, sua cultura, contra tudo o que viveram lutam e pagam – a longo de suas análises e em todas as dimensões da sua existência – o preço de apostar na vida. Essas pessoas, que parecem estar em vias de extinção, se recusam a chafurdar na lama imunda do pior que poderiam ser. Recusam-se a seguir o caminho que lhes foi traçado e a seguirem como gado para o abatedouro. Essas pessoas recusam-se a não questionar, a não pensar e a apenas reagir com o pior do ódio em que vivem e o qual legitimamente sentem, negam-se à vingança, rejeitam a resposta cruel. São pessoas de imenso valor, que me ensinam cotidianamente sobre o pouco que resta do melhor do ser humano, da sua capacidade de humanidade, de seu imenso esforço, todos os dias, para acordar e lutar contra tudo nelas mesmas até conseguir extrair dali algo de diferente.

São pessoas que me impedem de desistir do ser humano, de desistir da humanidade em mim mesma, de deixar-me levar pela impotência, pelo cansaço, pela desesperança e pela vergonha. E pelo ódio. Especialmente pelo ódio.

Poderia ser qualquer outro acontecimento. O mundo está infestado de acontecimentos terríveis. Poderia ser pelo rio Doce tanto quanto por qualquer uma das muitas mulheres que morrem assassinadas por seus maridos. Poderia ser pelo menino amarrado ao poste e linchado. Poderia ser pelos milhares de comentários que transbordam todos os dias as redes sociais: comentários contra os outros, comentários que buscam apenas chegar como uma saraivada de balas que acerte seu alvo até ele simplesmente deixar de existir. Poderiam ser muitos fatos, muitos acontecimentos, muitas demonstrações do pior do ser humano, muitos exemplos do quanto Freud estava desesperadoramente certo em nos alertar sobre nossa dificuldade em aceitarmos pagar a conta da vida.

Freud dizia, ainda nesse texto magistral, que o homem pode se entristecer com os percalços e limites impostos pela natureza ou pelo próprio corpo. Pode se entristecer, se afligir, se revoltar. Mas aceita como inevitável esses que são limites da vida. O que o homem não engole, o que ele não consegue suportar são os limites impostos pelo outro, pela necessidade de conviver e de ceder ao outro uma parcela da sua crença de que ele é o centro do mundo e que tudo deveria girar em torno daquilo que é o seu desejo. O homem não tolera os limites impostos pelo viver coletivo, ele urra de ódio por ter que renunciar a algo que se julga no direito de ter para que um outro também possa ter um pouco e, assim, todos possam ter um pouco e que ninguém fique privado da possibilidade de ter. De ter uma existência, quero dizer. Para um poder existir, todos precisam poder existir dignamente. Se isso não fica garantido por uma espécie de pacto em que todos renunciam à satisfação absoluta, então estamos no pior dos mundos, em meio ao caos e à barbárie, no lugar onde as palavras não valem mais nada, onde o cinismo impera e onde cada qual pode exercer sua própria lei perversa.

Será esse o ponto a que chegamos? Será essa a fronteira que estamos atravessando cega e negligentemente nos nossos tempos? Será que já somos, tantos de nós, outra espécie de humanos desprovidos da capacidade de humanidade? E gozando disso? Que aterradora banalidade do mal é essa que se instaurou como modo de existir em nosso tempo? Como podemos resistir?

Quem consegue ter filhos hoje em dia sem se sentir na obrigação de lutar, não apenas por eles, mas pelo mundo inteiro? Que sentido faz a maternidade em nossos tempos sem uma tomada contundente de posição?

Talvez porque tenha um bebê aqui na barriga que vai chegar em pouco tempo a esse mundo. Talvez porque tenha uma pequena aqui do meu lado que insiste em dançar, cantar e olhar a vida com um olhar de encantamento… talvez por isso tenha sido a sexta-feira 13 de ontem que fez o copo transbordar. A revolta contra esse caminhar cego do mundo me arrebenta por dentro. A vergonha pesa, pois sinto em cada atrocidade dessas o peso da minha responsabilidade. Responsabilidade em ter feito tão pouco, em não ter lutado o suficiente, em não ter oferecido resistência hercúlea a tudo o que está aí, agora, instaurado e mais difícil de combater. Responsabilidade que divido com todos que me cercam, com todos da minha espécie.

Aqui, no dia de hoje, andamos cabisbaixos de vergonha. Vergonha pelo nosso comodismo. Vergonha pela nossa fácil desistência.

E medo. Medo pelo mundo que vamos deixar aos nossos filhos. Medo pelos filhos que estamos deixando para esse mundo. Medo de não termos feito o suficiente, nem pelo mundo, nem pelos filhos. Medo porque, no mundo todo, descobrimos o que boa parte do mundo já sabia: que não estamos a salvo em lugar nenhum.

Meu cara-metade chorou hoje ao descobrir que não pode proteger nossos filhos desse mundo. Eu chorei por esse mundo tão triste, tão sombrio, tão cruel, tão injusto.

E por aí? Como vão vocês?

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