O quarteto

Todo mundo diz que cada gravidez é uma e que cada parto é um parto. É verdade. Mas é aquele tipo de verdade que mesmo que você saiba, só entende mesmo na prática. Do nascimento da minha filha há dois anos e meio atrás até o nascimento do meu filho há alguns dias, um mundo de experiências, de descobertas, de alegrias e dificuldades se descortinou. Minha vida tornou-se outra, uma vida reinventada, em que a alegria de ser mãe da minha pequena, dessa minha “pequena ela mesma”, surpreendeu-me em cada mínimo detalhe do mais simples acontecimento cotidiano. Ser mãe dessa menina… que sorte, que privilégio. Poderia ter passado a vida sem ter filhos e nunca saberia o que teria perdido. E talvez isso não fosse um problema. Mas depois que ela chegou, impossível conceber a vida sem que minha menina faça parte dos planos, dos pensamentos e dos anseios. Parte fundamental, daquelas como um coração, ou um cérebro, ou um fígado. Você não vive sem.

Então, com o fim da segunda gravidez se aproximando, para minha surpresa comecei a sentir medo. Medo da mudança dessa vida tão repleta de alegrias, medo dessa “ordem” que eu sabia que iria desaparecer tão logo o rebentinho botasse a cabeça para fora do seu cafofo e começasse a respirar. Porque, sim, todo mundo diz que muda. E muda. E quem é que não vai ter medo de mudar algo que está tão bom? Quem mexe em time que está ganhando, né?

Nós mexemos e o pequenino ia ter que sair cedo ou tarde, de um jeito ou de outro. Causa, consequência. A não ser que ele decidisse ficar por ali até completar 18 anos e saísse direto para a faculdade mas, tendo em vista que eu e minha pancinha de 8 meses estávamos pedindo água, melhor que fosse logo.

Quando as contrações começaram no final da madrugada, passei um longo tempo olhando a pequena e o cara-metade que dormiam sem saber que aquela nossa vida tinha terminado. Para eles ainda era ontem, enquanto que para mim havia chegado o amanhã. Coisa estranha essa diferença de tempos. Coisa estranha colocar uma criança no mundo em tempos tão difíceis para onde quer que se olhe. Coisa estranha ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando o cara-metade acordou e me perguntou o que havia, me olhou bem e disse: “do jeito que você está calma, vai parir é hoje mesmo”. Aquela calma que invade a gente no dia do parto, quantas de nós a sentimos? Uma serenidade, um sorriso no rosto, aquela confiança de que tudo vai correr bem. Isso tudo é mais presente que o medo, a nostalgia, as preocupações. E é o que faz a gente confiar até o fim.

Como o segundo é diferente do primeiro, não tinha mala da maternidade preparada (hahaha, olha a “menas main” aí). Foi negligência ou uma vontade que durou até o finalzinho de ter o bebê ali em casa mesmo, apenas com a família, sem acompanhamento de nenhum profissional, já que isso se revelou impossível nesse canto onde moramos? Até o fim a esperança de um parto domiciliar. Para que sair de casa? Para que ir à maternidade? Para que colocar complicações em algo que pode ser tão simples? Perguntas que nunca pude responder totalmente e, sem poder ter certeza, e sem que o cara-metade bancasse junto para criar uma certeza forte e consistente, naquela madrugada decidi que na maternidade seria.

Uma das artes de parir nos nossos tempos e nas nossas condições, a meu ver, é conseguir o delicado equilíbrio entre saber e desconhecer. A partir do momento em que você decide fazer algo fora do padrão, precisa se informar. Pois são as informações que garantem aumentar suas chances de conseguir o parto humanizado que julga ser o melhor para o bebê e para você. Então, você passa o tempo todo coletando informações, aprendendo, pensando nas possibilidades, em onde ir, em como argumentar, em como fazer. Todo um trabalho cotidiano do que as pessoas chamam hoje em dia de “emponderamento”, que significa tomar decisões consciente do que está implicado nelas.

Mas, ao mesmo tempo, parir implica em se deixar levar por outra coisa em si que não o pensamento. Não é o que sabemos que faz o parto, não é o raciocínio, não é o que controlamos. É o que acontece ali, na brecha do que sabemos, na forma de uma ação que nos escapa. Ou seja, é preciso saber para poder parir e é preciso esquecer ou desconhecer para poder parir. Como é que faz, né?

Enquanto a noite ainda deixava tudo escuro lá fora e o silêncio das respirações dos sonolentos ali de casa faziam barulho de fundo, teve mala feita, teve banho, teve até café da manhã. E mais um longo cochilo. Até que o dia clareou e a pequena acordou. “Hoje é o dia em que seu irmão vai sair da barriga”. Lá foi ela para a casa da melhor amiga comendo um pãozinho. Lá fomos para a maternidade.

Domingão, dia de plantão. Não era o meu médico quem estava de guarda nesse dia, alguém que escolhi com muito cuidado porque aqui onde estamos são os obstetras que aparecem no final do parto, para o expulsivo apenas, enquanto as sage-femmes fazem todo o acompanhamento. Escolhi um sujeito bastante flexível e ao longo do pré-natal fui contando para ele em doses homeopáticas como gostaria que as coisas fossem no dia D. Ele pareceu aberto e disposto a deixar bebê e eu tranquilos, o que já é bastante coisa. O médico de plantão era, como disse gentilmente a enfermeira obstétrica que nos recebeu, “o oposto do Dr. Gente Boa”. Jeito suave de dizer que era o plantão de um obstetra que adora ser ator principal do parto alheio, adora romper bolsa, dar ocitocina sintética para acelerar trabalho de parto que corre bem, fazer fórceps… Eu fiquei tensa, com medo desse sujeito surgir na sala de parto e de eu ter que ter forças de brigar com ele, de dizer não. Conclusão: essa preocupação ficou ali junto com as informações e os saberes como um ruído de fundo que me acompanhou praticamente ao longo do parto inteiro, dificultando essa entrega para o desconhecido tão necessária.

sage-femme, pelo contrário, foi o anjo da guarda que caiu do céu para cuidar da gente. Um misto de enfermeira obstétrica comme il faut com doula por intuição, ela entendeu rapidamente e muito bem como queríamos viver esse parto e nos deu o que precisávamos: tomou para si a responsabilidade de não avisar o plantonista até depois do parto terminado, deixou-nos em paz, tranquilos, na sala de parto natural, sem luz hospitalar, com banheira, bola e copo d’água, sem monitoramento, sem nenhuma intervenção. Passou para nos ver duas vezes e depois voltou apenas quando chamamos… ah, a sorte dá uma mãozinha às vezes, não?

Dentro da barriga, o pequeno trabalhou como um valente. Descendo pouquinho a pouquinho a cada contração, lá foi ele se aproximando da hora de nos encontrarmos. Sem saber, sem conhecer, vivendo tudo pela primeira vez. Essa coisa incrível da primeira vez de tudo… como são corajosos os bebês que se lançam nessa de nascer sem terem lido um calhau de referências bibliográficas antes.

Respirar, abrir-se, deixar o bebê descer, deixar acontecer. Banheira, água quente, respiração… eis a magia de um parto sem anestesia e com dor no limite do suportável. Ou a magia do que funcionou nas duas vezes para mim. Isso e o milagre da posição deitada de lado…

Deitada de lado, quem diria que essa seria uma posição maravilhosa para fazer o bebê descer e nascer? Como a bolsa não rompeu até o último minuto, o pequeno desceu aos pouquinhos, bem malemolente, ao contrário da irmã com quem a bolsa rompeu de cara e ela logo desceu para apoiar a cabeça direto no meu colo. O pequeno não, ele veio na maciota, as contrações mais leves, o trabalho mais longo… Tudo diferente, assim eu não sabia parir.

É engraçado como a gente sempre precisa se apoiar em alguma coisa para brigar um pouco contra o desconhecido. Se não é nos saberes e nas informações, é no que viveu. A bolsa não rompeu, há que se confiar às contrações. Bebê desce aos poucos? Há que se confiar às contrações. E se abrir.

Sim, cada parto é um confronto entre você e seus próprios demônios. O bebê e você. E seus fantasmas. Do parto anterior, dos ideais, dos saberes…

Eu respirava, basculava a bacia e me abria. E pensava que o médico poderia chegar e querer usar um fórceps e tinha medo e me fechava. O pequeno descendo e eu no abre e fecha. Vem pra vida, meu filho, não vem não. Quem bota um filho num mundo desses?

Lá pelos 8 de dilatação as contrações mudam. O pequeno está ali embaixo, apoiado na bolsa que apóia no meu colo. Chamamos a sage-femme, ela sugere que eu sente no balão para ajudá-lo a descer. Cadê essa bolsa que não estoura? Estoura, explode, medo vai, medo vem, chega aquele momento do qual todo mundo fala, mas que a gente só entende quando vive. E depois esquece para lembrar no parto seguinte. Cansei, quero desistir, tira esse menino daí, quem teve a brilhante idéia de não querer anestesia, quero dormir, tô cansada, só quero que isso acabe, não chega não, seu plantonista, cara-metade, me faz um cafuné aqui, tô cansada, esse menino não vem não, chama o plantonista, por favor, tô delegando, lavo minhas mãos, quero nem saber… Tudo isso dentro da cabeça, por fora eu parecia a expressão mais perfeita da calma, da beatitude e da respiração profunda.

sage-femme anjo vem novamente e sugere um segundo milagre, deitar de lado sobre o lado esquerdo e respirar. Eu, querendo tirar um cochilo, topo experimentar. Deito de lado, três contrações no máximo e… tchibum… lá se vai a bolsa e, com ela, todos os medos, freios e afins.

Como é libertador berrar o filho que nasce. É o fundo mais profundo de quem você é, suas entranhas, sua vida. A vida que renasce e recomeça.

Ele nasce direto para os meus braços. Ele grita. Ele é… lindo. Aquele amor que inunda as narinas do cheiro do seu rebento, aquele que agora parece que sempre esteve ali. Aquele que você acaba de conhecer. Ele procura o peito e já começa a testar aquele delicioso encontro tão apaziguante de cheiros, de pele, de boca e peito, de calores, de leite. Tudo pela primeira vez.

Médico chegou depois que até mesmo a placenta já tinha saído. Quis reclamar com a sage-femme que deu uma resposta atravessada para ele. Como adoro essa capacidade tão francesa de responder à altura e sem subserviência…

8 horas de trabalho de parto. 5 para a minha pequena. Não é tanta diferença assim, mas o tempo é tão elástico, não? Ele se dobra e se desdobra com nossos sentimentos, nossos medos, nossos anseios, nossos freios e nossas aberturas. Um tempo tão diferente, um parto tão diferente. Mas igualmente maravilhoso. E igualmente desconhecido. E assustador. E maravilhoso. E maravilhoso. E maravilhoso.

Foi assim que a vida que parece valer tão pouco em nossos dias recomeçou aqui em casa. Provando que o amor e a vida persistem, insistem, existem. Há que se lutar por um mundo que faça jus a essa vida e a receba com generosidade, cuidado, carinho e respeito. Há que se lutar por que essas vidas façam jus a um mundo melhor e participem da criação dele. Muitas lutas ainda por vir, numa vida que esses dois pequenos fazem valer à pena.

O trio virou quarteto. Bem vindo, filho!

 

14 comentários sobre “O quarteto

  1. Que delícia e que emoção ler esse relato!
    Pensei muito em vcs e na nossa conversa sobre parto por aí no que eu sabia que seria seu final… Fico feliz demais por ter aparecido esse anjo que cuidou de vcs e desse momento especial!
    Que as maravilhas do momento acompanhe esse quarteto por muito tempo!
    Beijo

    1. Pois é, Gabi. Tanto eu quanto você estamos em lugares meio inóspitos para um parto humanizado. Mas, veja só, com um tanto de esforço e de trabalho e um tiquinho de sorte, acaba dando tudo certo. Obrigada pela mensagem, abraço grande, Alê.

  2. Parabéns, Ale! Que lindo seu texto! Fiquei emocionada e com saudades de vc! Queria ter lido seus textos quando ainda estava grávida… acho que ia pensar diferente… De qq modo é um privilegio poder ler o que vc tem a dizer. Estou acompanhando e sempre esperando o próximo texto! A maternidade é mesmo um universo incrivel. Bjs, Flavia

    1. Obrigada, Flávia. E que bom ter notícias suas, saber que você é mãe. É uma experiência e tanto, né? Mexe demais com a gente. Beijo grande, Alê.

  3. Lindo, lindo, lindo! Que esse pequeno seja bem vindo e traga muitas felicidades e medos para toda a família – assim como já vem fazendo desde dentro da barriga. Afinal, o que seria da vida sem emoções e frio na barriga?
    Parabéns, Alê! Muita saúde pra vcs!
    Bjs

    1. Poxa, querida, obrigada. Logo mais é você, né? Fico torcendo de cá também, como sempre. E, sim, você está certa. Vida sem frio na barriga não é vida. Abraço grande, Alê.

  4. Ale querida!!!
    Eu tinha comentado no post da gravidez, mas quis a net q o comentario nao fosse!
    Ler seu relato agora foi tao emocionante, tao maravilhoso!
    Que anjo essa sage femme! A gente atrai o que emana, nao tem jeito!
    Que esse quarteto maravilhoso seja muito feliz, seja muito amado e que vc continue sendo essa mãe leoa incrivel!
    Bjos enormes meus e do Thomas

    1. Carol, que coisa boa te ler e te reler no blog também. Esse anjo foi uma sorte danada, no final do dia estava quase beijando ela para agradecer… olha a ocitocina natural aí, fazendo efeito… hehehe. Obrigada pela mensagem, beijo enorme para você e para o Thomas.

  5. Oi, Alessandra
    um domingo em casa, lendo, ouvindo música, passeando pelo seu blog e, …. deslumbrada e emocionada com o relato da chegada de Noah. Gracias por partilhar com os que aqui chegam e nos tocar de forma tão preciosa e rica. Um grande bj para vc e se o trio aceitar um bj e um carinho em cada um. nelma

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