Morar fora

Feliz ano novo, meus queridos!

E aí? Já estão de malas prontas para deixar o Brasil que não começou 2016 tão diferente do que terminou 2015?

Decidi começar o ano por um post daquela série “maternidade na gringa“. Porque sempre me perguntam como é viver for do Brasil. Mais do que como é ser mãe fora do país, as pessoas parece que querem saber como é viver o “sonho de morar fora”. Então, aí vai. Vocês que pediram, hein?

Em uma época de tantas crises e decepções no Brasil, o que mais ouço são amigos e conhecidos dizendo que vão embora do país. Se em 2009, a cada vez que escutava essa intenção me prontificava imediatamente a ajudar a pessoa com mil dicas e encorajamentos, hoje apenas me limito a sorrir.

Morar fora – ou dizer que vai fazê-lo – é ter o conforto de poder contar sempre com um plano B. É a carta na manga, a insolência de poder dizer: “ah é? Então não brinco mais!”, pegar a bola do jogo e virar as costas. É manter sempre uma porta de saída imaginária no fundo da cabeça da gente, para acreditarmos que basta um estalar de dedos e podemos nos materializar numa realidade outra em que tudo seja melhor, mais bonito e mais feliz.

A verdade? A maioria esmagadora das pessoas que passam boa parte do tempo dizendo que vão embora do Brasil não vão fazê-lo. E isso pelos mais variados motivos. Motivos práticos, motivos econômicos, motivos afetivos e, principalmente, pelo simples motivo de que ir embora do seu país e reconstruir sua vida num outro lugar é para bem poucos. E aqui não há nem um cheiro de esnobismo, como se o mundo se dividisse entre os fortes, aqueles que vão embora, e os covardes, aqueles que ficam. Até porque poderíamos adjetivar justamente da maneira contrária: fortes são os que ficam, covardes os que vão. Não, não se trata de um julgamento de quem é melhor, nem de se é melhor ir ou ficar. Trata-se de uma constatação feita a duras e dolorosas penas de que, para deixar o seu país e, principalmente, para se instalar em um outro lugar, é necessário ter uma certa condição. Psíquica. Em outras palavras: é preciso ter estômago, muita determinação e nervos de aço.

Então como é morar fora? É legal? É demais? É melhor do que aqui?

Todas as pessoas que conheço que vieram morar na França endureceram. É bem estranho encontrar outros brasileiros porque todos – ou todas – qualquer que seja sua história e os motivos e meios que os trouxeram até aqui, são num primeiro contato pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas do que os primeiros encontros que sempre tive no Brasil. Ok, o sorriso trai a brasilidade. Mas não se  engane: os brasileiros que conheço por aqui são bem mais sérios que os de lá. Durões. Circunspectos. A ponto de escutarem comentários a cada vez que visitam nosso país de origem do quanto se tornaram esnobes. Não nos tornamos esnobes. Nem tampouco franceses. Endurecemos. Criamos casca e carapaça. Como todas as outras, não consegui fugir à regra e endureci igual minhas amigas. Acabei desenvolvendo a teoria de que morar fora endurece a gente.

Não, não é isso que você escuta ou lê quando aparecem aqueles relatos lindos na internet de como morar um ano fora mudou a cabeça da pessoa, abriu os olhos, libertou, criou novas perspectivas e tudo o mais que parece tão revolucionário que faz te sentir menor apenas pelo fato de ainda não ter feito as malas e largado tudo para passear mundo afora. E ficam os sites estilo matadorhypeness e sei lá mais quais publicando listas e listas das dez razões pelas quais você precisa morar fora, ou das dez coisas que aprendi quando larguei tudo e fui morar no X (preencha aqui com o nome da sua cudade-sonho-de-consumo), grandes responsáveis por te fazer se sentir um lixo. E ficam os seus amigos que moram fora do país postando fotos da escapada de final de semana em Barcelona, ou da balada em Berlim, ou do verão numa ilha grega paradisíaca de mar azul turquesa e que te fazem passar por um bobalhão tirando férias em Ubatuba. E ainda têm os reaças de plantão ameaçando mudar para Miami a cada vez que algum acontecimento político os desagrada. Não, morar em qualquer outro lugar é sonho de consumo, é ideal, é bem melhor do que aqui, é bom demais, não? Pois é, meu caro ou minha cara, desculpa ser eu a te contar isso mas, a coisa, na verdade, não é bem assim. Ou não é apenas isso.

Quem coloca a mochila nas costas e passa um ano fora, faz um sabático, um doutorado sanduíche, um curso de línguas ou o que quer que sirva de pretexto para um período fora do país dificilmente ultrapassa a superfície em que tudo pode ser encantador, surpreendente e promotor de descobertas e mudanças. E esse encantamento pode mesmo acontecer, quando a pessoa que chega se abre para o desconhecido, se redescobre outra em novos itinerários, noutra cultura, noutros costumes, noutra língua. Que bom que é assim! Que bom poder viver isso! Mas experimente ficar um pouco mais de tempo e viver uma vida mais banal e você vai perceber que o glamour da vida na gringa não é nada glamouroso não.

Chegar e se instalar noutro país mexe demais com qualquer um. Tem gente que se vicia nessa sensação de se reinventar e nunca mais quer ter raízes em lugar nenhum. É a euforia da novidade: quem, por exemplo, não imagina que seja um imenso prazer morar em Paris e ter todos os dias aquela beleza toda ao alcance dos olhos? E poder descobrir cada cantinho, explorar cada museu, cada monumento, cada construção, cada restaurante, cada esquina, cada detalhe? Como se viver em Paris fosse o equivalente de fazer todos os dias aquilo que a gente faz durante uma semana quando vem à passeio, como turista, como se fosse turistar em Paris em férias eternas. As pessoas em geral parecem ter um sonho de Paris, um mito de Paris, um anseio de Paris como o lugar mais belo, mais chique e mais maravilhoso para se viver nesse mundo. É o sonho do turista que idealiza o lugar pelo qual passa como aquele que seria o melhor para se instalar e viver a vida. Posso dizer, com todo o amor que sinto por Paris e mesmo sem levar em consideração a ameaça terrorista que paira sobre todos indiscriminadamente desde o ano recém terminado: não é. O lugar onde a gente vive é diferente do lugar onde a gente passeia.

Experimente ter horário em Paris. Ter que correr para um compromisso sem poder olhar as maravilhas do caminho. Correr para pegar o metrô, o ônibus, o trem. Correr e perder metrô, ônibus ou trem e ter que esperar o próximo, sabendo que vai se atrasar. Correr na rua do ponto de metrô, trem, ônibus até o lugar onde vai. Correr na rua em dia de frio, debaixo de chuva e neve. Ter que botar a cara na rua em dia de frio, chuva, vento e neve porque precisa cumprir algum compromisso. Ter que pagar aluguel (caríssimo) para morar num lugar minúsculo em que não cabe nem um terço das coisas que você acumulou no Brasil. Morar num prédio sem elevador e ter que subir com malas e compras. Fazer faxina. Lavar roupa. Passar roupa. Cozinhar (quando a cozinha tem um tamanho que permite fazer algo mais do que um miojo, claro). Experimente desentupir uma privada ou limpar o sifão da pia da cozinha porque esses serviços quase não existem, não funcionam 24 horas e, quando você encontra um encanador, custa uma fábula. Experimente a fila do titre de séjour e as burocracias da previdência social e da seguridade social. Experimente preencher formulários. Ou conseguir um emprego. Experimente pagar impostos na França. Todas essas banalidades podem deixar um estrangeiro maluco, simplesmente porque ele não nasceu e cresceu ali onde as respostas para essas tarefas quotidianas não precisam ser explicadas, de tão evidente que são.

Paris é uma cidade cara, que expulsa cada vez mais para seus arredores os jovens que não conseguem morar na cidade. Existem bairros inteiros que se tornaram casas de veraneio de ricos do mundo inteiro, bairros vazios, sem vida, sem graça. Existe a Paris dos turistas, sempre lotada, tumultuada, suja, intransitável, com gente se atropelando em todas as calçadas e filas intermináveis. Existem mil lugares lindos, graciosos e interessantes nessa cidade. Mas quem vive em Paris não passa a vida passeando. E isso você descobre apenas quando mora tempo o suficiente para que o encantamento cada vez que cruza uma ponte sobre o Sena ou dá de cara com alguma de suas maravilhas se mistura aos desafios cotidianos de ser um estrangeiro nessas terras.

Não apenas Paris, mas a França como um todo endurece a gente. Ou morar fora do seu país de origem, onde quer que seja, endurece. Caleja.

Porque, não, morar em Paris, morar na França não é como turistar indefinidamente nesse país. Basta precisar de algo banal e comum para se dar conta de que a maravilha acaba onde a vida quotidiana começa.

A França é um país cheio de burocracias e preconceitos. Sim, o país das Luzes tem seu lado escuro, racista, xenófobo, cheio de piadas com estrangeiros, atos de violência contra pessoas de certos países e/ou de certas religiões, intolerâncias quotidianas contra quem não fala ou fala mal o francês, julgamentos segundo as aparências os mais diversos. Foi numa das melhores universidades francesas que ouvi, pela primeira vez, um professor universitário falar mal de uma colega, pelo simples fato dela ser mulher. E melhor sucedida intelectualmente do que ele, diga-se de passagem.

A cada vez que você precisa renovar seu titre de séjour, ou abrir uma conta em um banco, ou solicitar um papel qualquer, trocar sua carta de motorista, validar seu diploma… enfim… cada vez que você precisa fazer algo banal e quotidiano, algo que não tem nenhum glamour e não participa do mito da vida maravilhosa na França você é confrontado com a burocracia francesa, o excesso de regras, de papéis, a falta de jogo de cintura e a indisponibilidade francesa em explicar aquilo que, para eles, parece óbvio. Tem quem diga que é assim para todo mundo. Até mesmo para os franceses. Mas a essa tacanhice se soma um certo gostinho por lembrar ao estrangeiro que ele está ali por uma concessão. Quem mora fora do seu país talvez passe a vida inteira com essa sensação de que estão lhe fazendo um favor. Maneira sorrateira de subjugar o outro.

Você é alguém no seu país? Tem trabalho, profissão, diploma, pós-graduação, mil especializações? Ok, aqui nada disso vale e você vai ter que validar seu diploma, refazer seu trabalho de conclusão de curso da graduação, fazer estágio… Conheço gente que, frente a essas exigências surrealistas desistiu e ficou cuidando da casa, dos filhos, ou foi trabalhar em subemprego, mudou de área. Não sem uma boa dose de depressão e revolta. Por isso as pessoas parecem duras, frias e distantes. É porque já tomaram muito na cabeça.

Quando você é estrangeiro, nunca sabe até que ponto as dificuldades que enfrenta para dar conta das tarefas mais banais se devem à sua condição ou se é assim para todo mundo. Tem gente que fica paranóico, achando que tudo é xenofobia. Tem quem desiste de tentar. E tem quem aceite as regras do jogo e faça o que dizem que deve ser feito. Para trabalhar, para ter documentos, para ter acesso aos serviços de saúde…

Morar fora do seu país de origem te confronta a um constante desconhecimento. O lado maravilhoso disso é se redescobrir ou se reinventar em um novo cenário, com novas pessoas, em outra língua. E poder fazer diferente, melhor. Ser surpresa em cada canto, a cada dia. O lado cansativo disso é ter que reaprender a andar, a existir, a viver com outras regras, outros papéis, outros jeitos de fazer as coisas, outros códigos que só aprendemos errando, derrapando e tendo que fazer e refazer gestos os mais banais.

Tem gente que se sente muito mal frente a tanto desconhecimento e tanta diferença e se fecha logo de cara. Tem quem se vicie nessa adrenalina do novo. Em ambos os casos, essa imersão inicial de quem acaba de mudar de país, superficial porque totalmente alienada das mazelas do dia-a-dia, parece que nos coloca frente a quem somos ou poderíamos ser se pudéssemos começar tudo de novo. Tem quem goste e se jogue na experiência. Tem quem deteste e passe o tempo todo se escondendo do contato com tudo o que é desse novo país, andando apenas com brasileiros, falando português, comendo comida brasileira, lamentando não estar em casa sem, no entanto, pegar as malas e voltar. Paradoxos de ser estrangeiro que só entende quem fica tempo o suficiente para sair da posição de turista permanente.

Se você pensa realmente em mudar de país, por qualquer motivo ou projeto que seja, e se vier me pedir conselho, acho que posso resumir todo esse texto longo em algumas poucas linhas: leve em consideração que nenhum lugar nesse mundo é o melhor lugar para se viver. O melhor lugar para se viver é o lugar onde você se sente melhor, não um lugar em si. Cada país, cada cidade tem suas vantagens e desvantagens e você ser feliz em um lugar ou outro depende mais da sua disponibilidade e do que é prioridade para você do que de qualquer outra coisa. Morar na França tem inúmeras vantagens. Mas tem o terrorismo. Morar no Brasil tem inúmeras vantagens. Mas tem corrupção, violência, falta de água, retrocessos… O que é mais importante para você?

Ninguém vai facilitar sua vida em um outro país. Você é quem foi, você é quem quis. Então, cabe a você se adaptar e não exigir que sejam eles que se adaptem. Claro que cabe exigir tolerância e abertura ao outro, o contrário da xenofobia. Mas querer que os franceses sejam sorridentes como a gente, que os serviços sejam rápidos e eficazes, que tenha pão de queijo e misto quente na padaria e mais um monte de coisas que são a nossa cara é ignorar que se está em um outro país. Se é para mudar de vida, mude de fato, não fique vivendo a vida velha na nova.

Agora, se é apenas para ter o conforto do plano B, tudo bem. Todo mundo precisa da ilusão de que pode fazer qualquer coisa. Lembre-se apenas, quando vier me perguntar como é viver na França, que minha resposta reclamona vai ser bem parecida com a que você daria se eu perguntasse como é viver no Brasil. Minha vida é bem parecida com a sua, não se preocupe. Mudar de país muda muita coisa e muda muito a gente. Mas não muda a vida em algo diferente do que seja viver.

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