Amamentando

Nem sei quantas vezes já escrevi sobre amamentação. Porque acho importante. Para o bebê e para a mãe. Porque gosto de amamentar. Ou melhor. Gostei muito. Depois desgostei. Agora gostei de novo. Mas pode acontecer que desgoste, vai saber…

No começo, não tinha nada pensado a respeito. Lia apenas uma coisa aqui, outra ali e concluía que era importante amamentar. Minha filha nasceu e assim foi. Não sem percalços.

Com ela pude constatar que de tudo aquilo que falam que ajuda a amamentação, o item mais essencial é o APOIO. Sem uma rede de apoio, amamentar um bebê se torna uma das tarefas mais penosas e estressantes que existem. E, infelizmente, apoio é o item mais escasso quando o assunto é amamentação. Temos informação, mas onde está o apoio cotidiano das pessoas que nos circundam: pai, avós, amigos, médicos, equipe de saúde?

O primeiro mês de vida da minha filha foi muito difícil no que diz respeito à amamentação. Informações desencontradas, gente dizendo para fazer intervalo de três horas, gente dizendo para dar quinze minutos cada peito, gente dizendo para anotar o horário e tempo de cada mamada, gente dizendo para pesar a bebê todo dia para ver se ganha peso, gente dizendo que ela tinha que dormir a noite toda e, consequentemente, não chorar para mamar, gente dizendo que se ela ganhou pouco peso durante um mês tinha que complementar com mamadeira… Gente dizendo. O tempo todo. Gente é capaz de deixar uma mãe completamente maluca com seus dizeres. No final desse primeiro mês, eu estava esgotada, desesperada, sem saber o que fazer. Precisei de um mês para decidir mandar todo mundo às favas e priorizar minha filha. E foi quando parei de anotar horários, parei de me preocupar com os intervalos entre as mamadas, parei de buscar saber o peso dela, adotei os melhores modos de amamentar, de descansar, as posições que funcionavam para a gente, os jeitos que davam certo para nós. Ela ganhou peso, cresceu, ficou forte e saudável. E nós ficamos nessa durante um ano e oito meses.

A cada mudança, como na época da introdução alimentar, por exemplo, havia um novo confronto com estereótipos, um novo período em que a coisa desandava e em que eu tinha que voltar a me conectar com minha filha ao invés de ficar pressionada pela enorme lista de obrigações e de jeitos de fazer que vêm junto com cada acontecimento da vida de um ser humano. Começou a comer? Quem disse que começar a colocar outros alimentos na boca significa comer? A criança come a primeira frutinha, legume, papinha ou o que seja e já vem aquela pressão para que coma uma pratada de adulto. E que pare de mamar ou diminua drasticamente, lógico. Come outras coisas? Para de mamar. Tem dentes? Para de mamar. Anda? Para de mamar. Fala? Para de mamar. A verdade cruel e perversa de nossa sociedade é que todo mundo está o tempo todo querendo desmamar as crianças. Pois mamar é sinal de dependência. E dependência é algo ruim e doentio. E o vínculo entre mãe e bebê escancarado assim na cara das pessoas é uma ofensa. Não pode existir vínculo. Nem dependência. Nem amor. Tudo parece concebido para que tenhamos filhos e os abandonemos o mais rápido possível nas mãos dos especialistas. Ai daquela que ousar querer criar o próprio filho.

Um ano e oito meses depois, a pequena mamava durante o dia. De noite já não mais, pois eu cheguei em um ponto em que me sentia exausta em acordar durante à noite, em dormir picado por tanto tempo. Meu corpo já não dava mais conta e meu humor dava mostras de impaciência e intolerância. Foi difícil decidir parar as mamadas noturnas, porque me parecia algo unilateral. E eu pensava que tinha que partir da criança essa mudança de ritmo. Ou ser, no mínimo um acordo. Nada feito. Fui eu mesma quem cheguei num limite e tive que estabelecer um, explicando a ela da melhor maneira que pude, acatando os protestos, choros e reclamações legítimos. Passou.

As mamadas diurnas por vezes eram frequentes, noutras mais espaçadas. Algumas vezes eram trocadas por outras coisas, quando dava para imaginar o que aquela mamada queria dizer. Está com fome, quer uma fruta? Está com sono, vamos tirar uma soneca? Está entediada, vamos brincar juntas? Muitas vezes ela topava essa alternativa que ia de encontro ao que queria e precisava. Noutras não, era a mamada mesmo e tudo bem.

Mas um ano e oito meses depois fiquei grávida novamente. E amamentar se tornou algo insuportável. Eu havia lido a respeito, sabia que isso acontece com algumas mulheres, que ficam com muita dor nos seios com a nova gravidez e criam uma repulsa pela amamentação. Li sobre isso mas nem liguei, minha cabeça já idealizando uma amamentação em tandem, que é quando a mãe amamenta a criança e o recém nascido. Nunca tinha imaginado fazer isso também, mas me pareceu uma evidência, com duas gravidezes tão próximas e tão determinada a fazer um desmame no ritmo da minha filha. Hehehe, meu corpo tinha outros planos.

Estou convencida de que, quando se escreve sobre as dificuldades que uma mulher pode enfrentar em relação ao parto e à amamentação, as pessoas ignoram sistematicamente as dificuldades psicológicas. Como se aquilo que atravessa nossas entranhas psíquicas fosse algo contornável, algo menor. Se você tem um impedimento físico para ter um parto normal ou para amamentar, ok. Mas e se o impedimento for psíquico? O que fazer disso?

Uma nova gravidez pode criar esse impedimento psíquico, essa barreira intransponível que só aquilo que vem da mente da gente é capaz de fazer. Aquele bloqueio que parece que você poderia resolver com um simples ato de vontade, mas que se rebela, impassível, cada vez que você tenta negociar com ele.

Eu li, reli, participei dos fóruns de discussão. Eu tentei, esperei para ver se passava, negociei comigo, negociei com ela. Reduzi as mamadas para apenas 3 vezes ao dia, tentava me convencer de que logo tudo estaria bem e seria lindo amamentar novamente. Não colou. Não era minha filha, não era nada do que ela fazia, nada havia mudado. Mas algo havia mudado em mim e eu simplesmente não conseguia amamentar. Começava, doía demais, isso me deixava num estado de irritação furiosa, tinha que interromper, ela não entendia, ficava magoada, chorava, eu me sentia péssima… uma bola de neve.

Uma hora me dei conta de que isso estava transformando uma experiência que sempre foi linda e prazerosa para nós duas em um pesadelo. E comecei a temer que minha filha ficasse com essa lembrança em mente, essa lembrança do pior momento. E que isso botasse a perder toda a beleza, o acolhimento, o carinho, a doçura do que tinha sido mamar até então. Era hora de parar. E a adulta sou eu. E o motivo era meu. Então era eu quem ia ter que fazer isso, e não esperar que ela desistisse, que cansasse, que deixasse para lá, para dividir comigo o peso dessa responsabilidade. Ou da culpa. Ou da frustração.

Uma amiga querida me disse algo que me deu força o suficiente para assumir minha decisão: amamentar, quando está ruim para uma das duas pessoas envolvidas, é porque não está funcionando para as duas. Que exemplo eu estaria dando à minha filha sobre respeitar a si mesma se eu não estava respeitando meu próprio limite? Como ela veria isso, essa mãe que tentava deixar de lado a si mesma para agradá-la, para contentá-la, para satisfazê-la? Será que com isso ela aprenderia que ela é tão importante que eu me dispunha a me sacrificar para que ela mamasse (outro clichê, aquela de que maternidade é sacrifício) ou será que aprenderia que aquilo que a gente sente e vive não conta frente ao que temos que fazer para o outro?

Expliquei para minha filha muitas vezes por que não iria amamentá-la mais. Peguei no colo, abracei, consolei. Aos poucos ela foi experimentando outro jeito de ser consolada, outros modos de receber afeto, outros cuidados, outros gestos de afeição. Passou. Passamos. Dentro de mim guardava um temor e uma esperança: o temor de que ela, quando me visse amamentar o seu irmão, pensasse que eu deixei de amamentá-la para amamentá-lo e visse isso como uma troca, um abandono. A esperança de que quando ele nascesse e começasse a mamar, que ela teria vontade de mamar também e retomaria. E daí só pararia quando decidisse. Ah, como nossa mente e nosso coração buscam reparar as feridas, né? As nossas ou as deles?

Nasceu o segundinho e, contrariamente ao que foi o primeiro mês de minha pequena, com ele nem perdi tempo em escutar quem quer que seja. Não deixei ninguém falar e quem tentou comentar qualquer coisa sobre amamentação ao meu lado ouviu respostas atravessadas e logo sossegou o facho. Muito melhor assim. Se não há apoio o suficiente, ao menos aprender a se blindar das pessoas e de seus comentários destrutivos ajuda um bocado. Nada de ouvir por educação. Nada de perder tempo com conversas inúteis que a gente já sabe onde vão parar. Uma das vantagens de ter um segundo filho é que a gente aprendeu alguma coisa com o primeiro e pode, se tiver força e coragem o bastante, usar desse aprendizado para se poupar uma série de situações dolorosas. É o que tenho feito.

Segundinho mama como se não houvesse amanhã. Como sua irmã, mas de um jeito mais estabanado, mais esfomeado, menos zen. Cada amamentação é uma, cada filho é tão diferente do outro, mesmo sendo um bebezinho que acaba de nascer. Ele gosta de mamar e eu voltei a gostar de amamentar tão logo ele nasceu e mamou. Mágica dos hormônios, mistérios das entranhas da gente.

A pequena olhou, fez que não viu, mas uma hora teve que ver. Quis mamar, tentou algumas vezes, mas não sabe mais. Ou não quis saber. Aquele saber do corpo, da boca, dos músculos… aquilo tudo se foi, virou alguma outra coisa. Fiquei triste. Talvez ela também. Ou talvez estivesse fazendo isso apenas para me agradar, vai saber… Claro, ela ficou com ciúmes de ver o pequeno mamando. E se jogou em cima da gente, e ficou pedindo colo e precisando de toda a atenção do mundo justamente nessa hora do casulo entre a mamãe e o filhote que mama. Ela sabe do que se trata, também quer isso para ela. E não para ele.

Crianças não são ciumentas e invejosas. Crianças reagem àquilo que esperamos delas. Eu esperava seu ciúmes e sua vontade de voltar a mamar. Ela tentou me presentear com os dois. Mas isso sou eu, não ela. E filho não está nesse mundo para atender nossas necessidades e expectativas, né? Então minha pequena dá de mamar a todas as suas bonecas. Noutro dia, deu um beijo no meu peito e meio que se despediu. E logo foi fazer outras coisas. Outras coisas incríveis que ela tem conquistado fazer desde então, como falar, cantar, danças. E pular em poças de água. Ela pede colo sim. E quer dengo, chamego e atenção. E fica zangada com o irmão. Que é pequeno, chora, não fala, não anda e faz muito xixi e cocô. Minha pequena ficou grande. Uma grande pequena.

Quanto ao pequeno, seguimos amamentando. Ele tem aquele olhar, faz boca de peixinho, barulhinhos enquanto mama e todo aquele combo que derrete qualquer coração e faz tudo valer à pena. Gosto muito de amamentar meu filho. Como já gostei demais de amamentar minha filha. E depois desgostei. E depois gostei de novo. Amamentar é coisa de dois. É coisa entre dois. E a gente deveria ter mais liberdade de viver a amamentação com todos os seus altos e baixos, com suas idas e vindas, com suas superações e seus limites. Sem tanta regra, sem tanta obrigação. Apenas aquilo que fazemos porque faz sentido.

8 comentários sobre “Amamentando

  1. Ai, que me identifiquei com várias coisas… o tal “sacrificio” da maternidade, as duvidas, as culpas. A amamentação foi otima nas duas vezes, mas cansativa. Amamentei ate 20 meses e 26 (ou 28?) meses respectivamente, inclusive à noite. Me destruiu em relação ao sono, mas em parte porque eu trabalho tempo integral e sentia falta delas e achava que tinha que estar presente de alguma forma. Ou seja, minha presença foi quebrada: eu estava lá no turno da noite, à disposição, mas com um mau humor do cão, sem muita paciência. E ainda segue assim, porque ainda faço o plantão noturno, dormimos juntas, acordo pra levar pra fazer xixi (as vezes 3x!), acudo nos pesadelos…. enfim, vai rolar um experimento de parar de trabalhar e ver se melhora, porque nunca consegui forças para dar um basta.

    1. Puxa, Chris, como é duro esse conflito entre nossas culpas e nossos limites, né? Aqui, quando eu percebi que a qualidade da minha presença tinha ficado muito comprometida por eu ficar tentando me forçar a amamentar mesmo com dor e dificuldade, deu um estalo de que amamentar assim era pior do que não amamentar. Foi quando percebi que tinha que parar e poder estar com a pequena fazendo algo em que eu também estivesse feliz, para ela ter uma mãe feliz ao lado dela. Mas, olha, a culpa bateu forte, viu? Abraço grande e boa sorte por ai com essas mudanças, Alessandra.

  2. Preciso dizer que, como de costume, terminei seu texto chorando um monte?
    Pela identificação nas partes que vc já conhece e nas partes novas que estou vivenciando agora na gravidez!
    Pela emoção de sentir tudo isso de novo ao te ler e pela expectativa de tudo de novo que sentirei em alguns meses…
    Como é que é isso de “ser dois” de novo quando já existe um “terceiro” (na verdade, primeiro, né?!) elemento?? Me conta? rs

    Beijo

    1. Gabi querida, sabe que eu pensei muito em você antes de escrever esse texto e nas conversas que tivemos sobre o assunto? Ainda acho muito doloroso esse modo como a amamentação terminou. Não imaginava que o limite pudesse vir de mim. Mas penso que foi a boa decisão.

      Sobre a sua pergunta, quem sabe uma hora escrevo um post sobre isso, seria um bom tema. Mas, sim, a gente vira dois de novo. Não sem um bocado de culpa, especialmente quando tem uma idéia de criação dos filhos em que a nossa presença é importante. Então você começa a se desdobrar para estar inteira com um e com outro e tem horas que as necessidades dos dois colidem e você tem que optar, adiar… Mais culpa pela frente. Mas acho que é algo que atormenta mais a gente, as mães, do que as crianças. Pois a pequena, mesmo tendo seus momentos de ciumeira e de raiva por não poder ser atendida no que precisa, vai muito bem. No final das contas acho que é mais uma questão da gente não ficar pesando nossas culpas sobre as crianças e não ficar obcecadas com tentativas de reparação que nunca dão certo e conseguirmos agir com mais leveza e mais naturalidade frente a algo que faz parte da vida: nasceu um filho, nasceu um segundo, isso é uma boa noticia, não algo pelo que temos que nos desculpar frente aos nossos filhos. Faz parte da vida. Abraço grande, Alê.

      1. Ai, Alê, eu sempre suspeitei que o meu limite chegaria antes do dela, sabia?!
        E por mais que tenha sido um período muito dolorido, percebi, lendo essa sua resposta, que fiz as pazes com essa decisão.. Já não me dói!
        Acho que agora o que pega mais é essa culpa prévia por tudo isso que vc disse aí em cima! rs
        To tentado lidar com isso agora, pra ver pega menos quando chegar o bebê (será?? Hahaha)
        E lembro sempre de um texto seu em que vc falava de como as pessoas se dirigem ao nosso primeiro filho quando sabem da segunda gravidez! Tenho tentado demais tirar de perto da gente essa fala do “iiihhh, Cecília, vai perder seu lugar”!!
        E vou tentar me lembrar agora de “não ficar pesando nossas culpas sobre as crianças”
        Mais uma vez: obrigada!! Pelas conversas e pelos textos!!
        Beijo

  3. Alê, seu texto descreveu a paixão e a angústia que estou na expectativa de viver: quero MUITO voltar a passar pela experiência da amamentação, dessa vez mais (ou totalmente) desprendida dos comentários alheios, podendo me entregar de uma forma mais profunda e segura. Mas também me aflige em como conseguir acolher a mais velha nesse momento – que certamente vai demandar o colo, em protesto, entendido como ciúmes. Sei que vou precisar da ajuda do pai, mas ele não estará presente o tempo todo. Como fazê-la entender que o irmão mais novo precisa passar por essa exclusividade da amamentação, sem que fique ferida, sentida, “com ciúmes”?
    Em relação à esse “acordo” de que a amamentação precisa ser boa para as duas partes envolvidas, estou totalmente de acordo. Não podemos estar entregues sentindo dor ou desconforto, sob pena exatamente de ter esse momento lembrado como uma coisa ruim – quando na verdade foi maravilhoso a maior parte do tempo.
    Muito sucesso com segundinho! E com a primogênita também. Linda família!
    Bjs

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