Culpa, culpas, me desculpa

Então você engravida e começa a pensar sobre tudo o que se relaciona à gravidez, ao parto, à criação dos filhos. Se dá conta de que era uma alienada e que apenas tinha feito seguir a manada até então. Mas com a perspectiva de um bebê real, de um filho real, de botar realmente uma criança no mundo, não deu mais para ficar como um avestruz com a cabeça dentro de um buraco e você teve que se abrir, teve que olhar, teve que pensar a respeito de tudo o que cerca a maternidade. A sua, a desse filho esperado, aquela que você viveu.

Você passou nove meses gestando e se gestando enquanto mulher, enquanto futura mãe, enquanto pessoa crítica desse modo das coisas funcionarem nesse mundo. Passou todo esse tempo que poderia ter sido mais tranquilo, mais contemplativo, mais encasulado se preocupando com coisas que nunca antes tinha percebido: o mundo anda estranho, perigoso, as pessoas se pautam por valores que você não consegue mais endossar. Uma vida baseada no consumo, em que o importante é ter, perde o sentido frente à perspectiva da existência dessa criança. Você se sente responsável pelo mundo que está aí, sente-se responsável por ter feito tão pouco para que o mundo em que seu filho vai chegar fosse melhor. Tantos anos de indiferença, de falta de empatia, de despreocupação com o outro, de foco apenas naquilo que lhe cabe e agora eis aí você, obrigada a olhar para um outro que é esse bebê, sentindo um peso enorme que lhe cai sobre os ombros, o peso de cuidar, de proteger. Que mundo você vai apresentar para o seu filho?

Em nove meses você vira militante de todas as causas justas. Uma urgência de mudar o mundo, de que ele seja ao menos um tantinho melhor. Um medo que te invade cada vez que você pensa que sua cria não vai estar segura e que você não poderá poupar-lhe de todos os riscos. Frio na barriga constante, você não dorme mais.

E nesse processo que alguns chamam de emponderamento, você se dá conta de que pode fazer algumas coisas, de que pode ao menos cuidar da maneira como vive essa gravidez, como cuida dela, como cuida do bebê na barriga, como cuida da forma como ele virá ao mundo, como cuida da forma de criá-lo. Os nove meses de gestação produzem um bebê e produzem também uma mulher bem cansada que, no entanto, sente-se vitoriosa por ter tido a coragem de se abrir, de pensar, de criticar e de criticar-se, de tomar consciência e de indignar-se e, enfim, de lutar para fazer diferente e fazer alguma diferença. Para mudar o mundo, você percebe que um bom ponto de partida é justamente mudar a forma como gestamos, como nascemos, como parimos e como criamos nossos filhos.

Você pode fazer a sua parte, mudando o mundo precisamente ao mudar o modo de olhar para o que seja ter e criar uma criança. Menos ter, porque um outro ser não lhe pertence e mais acompanhar, descobrir, encontrar-se com esse outro que já chega com o potencial de causar uma pequena revolução. Uma mãe que muda, uma mulher que muda, se questiona, se empondera e vai buscar novos caminhos já é um mundo inteiro que se convulsiona e pode se transformar em algo melhor. Se pudermos ser melhores com nossos filhos, se pudermos criar crianças melhores para esse mundo ao mesmo tempo em que tentamos criar um mundo melhor para nossas crianças… bom, quem sabe aí haja uma real esperança para nossa espécie, não?

Então os nove meses passam e o resultado de todo esse processo de turbilhão e de emponderamento é que nasce um bebê. E você se dá conta de que o nascimento não é reta de chegada, mas ponto de partida. E que toda a sua luta por uma gravidez vivida de maneira respeitosa e por um parto e um nascimento humanizados foram apenas uma pequena ponta de um iceberg gigante. Perto do que se segue, engravidar e parir foi fácil.

A criança está ali na sua frente. O bebê. O sujeitinho. O pequeno. Você sente amor, você sente gratidão, você se emociona e chora à toa. É um acontecimento de tão grandes proporções que você não encontra palavras para isso. Não é um clichê, é mais forte do que um clichê, mais intenso, mais visceral. Você é mãe e nada do que diga dá conta de expressar o que isso significa.

Você continua naquele processo que começou durante a gravidez, você se questiona, se informa, pensa antes de tomar as decisões. A coisa se complica quando você percebe que são muitas decisões à cada dia. Vai amamentar? Em livre demanda? Vai fazer cama compartilhada? Quarto compartilhado? Como vai fazer com o bebê que acorda de noite? Como vai fazer com a criança que prefere dormir contigo? Vai colocá-la para dormir no seu quarto? Vai fazer treinamento de sono? Vai carregar no sling? No porta-bebê? Vai usar fralda? De pano ou descartável? Vai dar vacinas? Quais? Quando? Quando ficar doente, como vai tratar? Vai levar no médico? No homeopata? Vai dar antitérmico quando tiver febre ou deixar a febre agir e tratar com banhos mornos? Vai diversificar a alimentação com que idade? Vai dar papinha ou comida em pedaços? Vai cozinhar? Vai tirar o leite quando tiver que sair? Vai dar o leite no copinho ou na mamadeira? Vai lidar como quando os dentes começarem a sair? Vai dar chupeta? Vai voltar a trabalhar? Vai ficar em casa cuidando da criança? Até quando? Vai trabalhar em casa? Vai deixar a criança com a babá? Na creche? Na escolinha? Com os avós? Como vai fazer se a babá, a creche, a escolinha ou os avós não tiverem os mesmos ideais no cuidado com uma criança que você? Como vai fazer com os comentários dos amigos? Com os doces oferecidos na casa dos outros? Com os tablets, os celulares e os desenhos na televisão? Como vai fazer com as brincadeiras e os brinquedos ditos de menino e de menina? Com que idade vai colocar na escola? Que tipo de escola vai ser? Melhor uma escola para a criança passar no vestibular? Melhor uma escola para a criança ser “bem relacionada”? Melhor uma escola para a criança construir sua autonomia e sua capacidade de pensar? Vai colocar a criança no inglês? No espanhol? No curso de dança? Natação? Judô? Esportes? Vai tirar a fralda quando? E como? Vai esperar a criança desfraldar ou vai tirar a fralda aos dois anos quando dizem que é a época? Vai ensinar religião? Vai batizar a criança? Vai furar a orelha e colocar brincos? Como vai reagir quando a criança fizer algo que apresente um perigo para ela? E quando ela fizer algo que te contrariar? Quando ela não quiser fazer algo que você proponha? Ou quando gritar, chorar, se jogar no chão? E quando ela bater em alguém? E quando apanhar de um coleguinha? Como vai fazer com as coisas para as quais tiver que dizer não? Vai gritar? Vai bater? Vai colocar de castigo?

Eis a lista não exaustiva de uma parte das questões e das decisões que chegam junto com o nascimento da criança. Muito, mas muito mais difícil do que decidir ter um parto normal humanizado. Uma avalanche de questões importantes, urgentes, que se colocam a cada dia. E, para cada uma dessas questões, dependendo de qual seja a resposta, mais uma batalha pela frente. Quanto mais fora da curva forem as escolhas dessa mãe, mais trabalho ela vai ter. Para encontrar informações, para encontrar alternativas, para encontrar apoio, para tão somente fazer o que decidiu, para dar conta de sustentar essas opções e para fazer frente à imensa resistência que o mundo e as pessoas desse mundo que se portam como gado e simplesmente seguem sem pensar o que está estabelecido podem opor a quem é diferente.

E quanto mais sejam escolhas pensadas e apropriadas por essa mãe, quanto mais elas tomem em consideração a subjetividade e as necessidades do seu filho, quanto mais elas se proponham a serem respeitosas, cuidadosas, quanto mais essa mãe se proponha a escutar, a estar presente, a estar inteira, a se colocar em questão e a fazer o seu melhor, mais trabalho ela vai ter. Não apenas com o mundo, com os outros, com a resistência desse mundo ao diferente. Não, esse trabalho é pequeno perto do trabalho que ela vai ter com ela mesma e com a sua constante sensação de culpa.

Culpa porque cada uma dessas questões é imensa e tem tantas implicações que mereceria horas, dias, meses de reflexão. Culpa porque a vida acontece antes que a gente consiga pensar sobre ela e sobre como vai fazer e logo nos vemos fazendo sem pensar e pensamos depois de fazer e percebemos que fizemos algo que nada tem a ver com nossos valores e com nossas intenções. Culpa porque cada dia traz todas essas decisões a serem tomadas e cada um desses assuntos tem milhares de textos, de pesquisas, de livros, de páginas de internet, de blogs, de sites, de especialistas… Culpa de ter que decidir fazendo uma aposta, sem conseguir dar conta de tudo, de todas as informações, sem nunca chegar no “fim” ou no âmago da questão. Culpa por nutrir a ilusão permanente de que seria possível saber tudo, chegar em uma resposta, chegar em uma verdade, descobrir o que é o melhor e somente então aplicar. Decidir com 100% de certeza, isso não seria uma decisão. Decisão é o que fazemos quando temos escolha. E termos escolha significa que temos uma larga margem de erro a cada vez que vamos por um caminho e deixamos outro de lado.

Quem sabe se estamos tomando as melhores decisões? Quem pode nos garantir? Ninguém. Nem nada. E o bebê, a criança, nosso filho não é quem vai se responsabilizar pelo que decidimos por ele. Ele vai certamente arcar com isso. Mas a responsabilidade é inteiramente nossa. E isso pesa. E traz mais culpa.

Você está esgotada no final do dia, sem paciência, sem disponibilidade, querendo largar tudo e correr, pensando que estava maluca quando decidiu ter filhos? Culpa. Você se propõe a estar com seu filho, a brincar, a passar um bom momento, a estar ali com ele e acaba ficando o tempo todo com um olho no celular e outro na criança, que se irrita com a sua pseudo- presença e acaba rasgando o livro, derrubando o vaso, batendo no irmão e tudo o mais que te tira do sério até você gritar e ser aquela pessoa abominável que você jurou que nunca seria? Culpa. Você lê na internet algum texto que critica a alimentação que você dá ao seu filho? Culpa. Você tenta mudar e não consegue? Culpa. Você desiste e coloca ele na frente da televisão com um suco de caixinha numa mão, um chocolate na outra e corre para frente do computador, para o banho, para chorar debaixo do chuveiro ou para tirar uma soneca? Culpa. Culpa, culpa, culpa. Mil culpas. Mil desculpas que você pede no final do dia, com medo de ter estragado tudo em definitivo, com medo de ter estragado seu filho, de ter estragado algo para seu filho, de ter estragado o caminho que vinham fazendo.

O mundo da maternidade está cheio de culpas, de culpabilizações, de desculpas que sentimos obrigação de pedir, de desculpas que inventamos para não pensar. Culpas e desculpas que jogamos em nossos ombros. Culpas e desculpas que jogam em cima da gente. Os outros, o pai da criança, os avós, a família, os amigos, a sociedade como um todo, o tal do status quo. É sempre muito mais fácil destruir uma pessoa com críticas do que apoiá-la naquilo que ela escolhe como seu caminho.

Então algumas mães se revoltam e lançam uma “maternidade sem culpa”, que a meu ver é uma espécie de síndrome de Estocolmo do maternar, quando a vítima defende o agressor. A idéia do “eu fiz isso e não morri”, a afirmação do “meu filho comeu isso e está bem”, ou do “eu apanhei na infância e sou grata a meus pais por isso”. A culpa virada do avesso, a culpa na sua mais perversa forma de destruição: para não culpar os outros, para não culpar a mim mesma por não ter pensado e por não ter agido até agora, eu desculpo todo mundo acreditando e querendo convencer de que é bom que seja assim. Que esse mundo do jeito que está é ótimo, que o modo como se criam as crianças é saudável e amoroso, que o que nos ofereceram e o que oferecemos a nossos filhos é o melhor possível. Contra todas as evidências, a ignorância pura e simples. Para evitar a culpa que já sentimos, um milhão de desculpas esfarrapadas. Culpa, culpa, mil desculpas.

Quanto mais pensamos que sabemos o que é certo, quanto mais acreditamos que encontramos as melhores opções, mais medo temos de falharmos. Quanto mais nos dizem que existem outras opções, mais medo temos de termos falhado. Em cada uma dessas situações, sentimos culpa.

Culpa de que? De sermos humanos? De falharmos? De errarmos? De contrariarmos nossas melhores intenções? De sermos ignorantes? Mal informados? Enganados? Culpa de desistirmos? De cansarmos? De não sermos capazes de lutarmos todas as lutas com igual empenho? Culpa de não darmos conta? De precisarmos facilitar por vezes nossos caminhos e nossos cotidianos?

Em nome dessa tal culpa, penso que estamos nos martirizando demais com aquilo que é impossível, na busca de uma maternidade perfeita que não existe e que ninguém vive. E acabamos paralisadas, com dificuldades para decidir, para agir, como se cada passo tivesse que ser milimetricamente calculado. Ou então agimos o tempo todo tentando reparar alguma culpa, tentando consertar um erro que nem sabemos o que foi. Nos sacrificamos para suplantar uma falta que acreditamos que poderia ter sido evitada. Será que essa mãe que queremos tanto ser não acaba soterrando a mãe que poderíamos ser numa avalanche de exigências e de culpas?

 

Um comentário sobre “Culpa, culpas, me desculpa

  1. Acho que meu maior medo – e consequentemente minha maior culpa – é essa história de contrariar minhas melhores intenções …
    E como é difícil encontrar o meio termo.. Encontrar a leveza sem descambar pro extremo contrário…
    Exercício diário por aqui – facilitado por reflexões assim!!

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