A intolerância à infância

Daí que eu ia escrever um post engraçadinho sobre 24 horas na vida de uma mãe de 2. Daí que vocês poderiam testemunhar o meu excêntrico senso de humor. Daí caiu na minha mão – ou na minha tela – um texto infâme de um sujeito que defende que o problema das crianças de hoje em dia não é a hiperatividade, mas a falta de educação. Não, eu não vou colocar link aqui porque não dou audiência para coisas que ultrapassam o campo da discordância e entram no terreno do ultraje. E, sim, acabei ficando de mau humor e o texto divertido deu lugar a esse que se segue. Sorry, queridos. Qualquer coisa, culpem o autor do texto infame.

Não sei dizer se aumentaram os casos de hiperatividade entre crianças no mundo atualmente. Não sou especialista na área e, a bem da verdade e da justiça frente aos especialistas que conheço, teria que dizer que aumentou, certamente, o número de diagnósticos de hiperatividade. Uma coisa não é igual à outra. Podemos concluir que haviam muitos casos mascarados, dos quais não se tinha notícia e que, com a popularização do diagnóstico, puderam ser identificados e levados a tratamento. Podemos concluir que, ao contrário, a popularização do diagnóstico fez com que muitas crianças começassem a ser tratadas por algo que não têm. A meu ver, as duas conclusões estão certas e erradas.

As patologias psiquiátricas, em geral, têm uma prevalência estatística mais ou menos estável na população. Isso quer dizer que o número de esquizofrênicos, por exemplo, não varia muito. Ou o de crianças autistas. O que não para de aumentar são os casos depressão. Ou, nas crianças, os casos de hiperatividade. Coincidência?

Olha só: eu, particularmente, não entendo as pessoas como entidades fechadas, que existem com suas qualidades e defeitos nelas mesmas e antes de tudo. Ou seja, eu não entendo um diagnóstico desse tipo como algo que pode ser jogado apenas na conta da predisposição genética. Se existem questões ligadas à herança e à biologia naquilo que somos, não há como recusar o enorme papel exercido pelo mundo que nos cerca naquilo que somos, que podemos ser ou que somos impedidos de ser. E o mundo que nos cerca, atualmente, é um mundo praticamente inviável.

A intolerância tem atingido níveis inimagináveis. Ninguém mais se dispõe a suportar o que quer que seja em nome de nenhum princípio de civilidade, ou do bem comum, ou de compaixão… whatever. A violência sem precedentes que vemos nas redes sociais, em que as pessoas se escondem atrás das telas para propagar todo ódio e toda intolerância de que sejam capazes transbordam pelas ruas, onde pessoas são agredidas cotidianamente por serem negras, mulheres, homossexuais, transgênero, de tal ou qual religião… Enfim, qualquer que seja a diferença em questão, ela é o suficiente para despertar o ultraje de um qualquer que – e isso me parece recente – se sente no direito de dizer o que pensa e de agir segundo a sua indignação. Que existam preconceituosos de todo tipo, racistas, xenófobos, misóginos, fanáticos religiosos, acho que dá para dizer que é tão antigo quanto o surgimento da espécie humana. Desde que existe o humano, existe o pior do humano, o pior que ele pode ser. Mas não sei se em algum momento anterior na nossa história o ser humano se sentiu tão à vontade para agir de forma tão violenta, intolerante e brutal ao seguir essas suas piores inclinações. Sim, é claro, temos muitas marcas na história desse pior do ser humano em ação. Mas quando é que foi assim tão generalizado, tão leviano, tão sem consequências, tão covarde e tão primário? Eu não saberia dizer.

Essa intolerância que vemos na internet está nas ruas, nas relações entre as pessoas, nas situações coletivas, na política e até no debate intelectual. Ela está na maneira como encaramos nossas dificuldades, nossas falhas, nossas frustrações, nossas perdas. Está na intolerância frente aos outros e à diferença, mas também na intolerância para com nós mesmos. Daí o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. E o consequente aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos. A indústria farmacêutica tem muito o que comemorar, certamente. Num mundo onde a intolerância é a regra, o sofrimento humano se torna intolerável. E intolerado. Qualquer “choramingo” e a gente já aconselha o outro a se tratar. Tomar um remedinho. Silenciar o barulho. E não nos incomodar mais.

Como é que em um mundo com uma lógica dessas haveria espaço para as crianças? As crianças, hoje em dia, são confrontadas a cada vez mais intolerância. Intolerância contra o ser criança. Intolerância contra aquilo mesmo que elas podem ser, sentir e fazer. Não existe espaço para elas existirem enquanto tal. O infantil, tanto quanto o sofrimento, são insuportáveis para a maioria das pessoas nos dias de hoje.

Por vezes tenho a impressão de que às crianças e aos adultos com bebês ou crianças pequenas caberá o mesmo destino que aos fumantes: primeiro uma ala reservada, depois um cercadinho na rua, depois a proibição total. Você é criança ou você tem uma criança pequena e, voilà, eis aí um pária social.

Estou exagerando? Crianças e adultos com crianças pequenas recebem olhares tortos, comentários tortos e más vibrações em restaurantes, bares, cinemas, teatros, concertos, lojas, museus… Nenhum lugar é considerado adequado para se ir com uma criança. A não ser os lugares “adaptados” para crianças: cinema adaptado, restaurante adaptado, loja adaptada, o espetáculo adaptado… a tal ala reservada. Ah, mas criança mexe, criança não se comporta, criança quebra, criança pula, faz barulho, atrapalha.

Parece que o problema está justamente aí: criança atrapalha. Quem? Quem não tem tolerância com o fato evidente de que criança só pode ser… criança.

Por que é que hoje em dia, quando uma criança “se comporta mal” em um lugar público, os pais olham para os lados e se apressam a dizer a desconhecidos: “ela é hiperativa”? Não, não é para arrumar uma desculpa para a falta de educação, para a incompetência deles em educar seus filhos e em dar umas boas palmadas e botar uns bons limites, como todo intolerante gosta logo de professar que deveria ser feito. Não, os pais fazem isso, eles se justificam frente a esses desconhecidos porque percebem ali o ódio, o julgamento, a condenação e a intolerância. E acreditam que um diagnóstico poderá salvá-los da execração pública e suscitar um pouco de compaixão de quem está ao redor. As pessoas expõe seus filhos, sua intimidade, sua vida por desespero, por vergonha, por constrangimento. Porque se sentem fracassadas e acreditam que dizer que é doença é melhor socialmente do que deixar passar como incompetência.

Penso que tem a ver com isso também, com essa intolerância, o fato de tantos pais procurarem um diagnóstico para seus filhos tido como hiperativos. Desde que a criança começa a dar sinais de existência, começa a querer falar, fazer, explorar, correr, brincar, rir, investigar, descobrir, reivindicar… ela se torna um problema. Um problema para os pais que, muitas vezes, não consideraram que ter filhos é botar no mundo outras pessoas que, na medida em que são outras e que são pessoas, estarão sujeitas a tudo aquilo que qualquer pessoa está: humores, vontades, indisposições. Filhos postos no mundo existem e vão manifestar essa existência. E essa existência, principalmente no início da vida, é extremamente física, corporal, visceral. A criança existe, ela conhece, ela investiga, ela expressa tudo corporalmente. Então, ela explora o espaço, as coisas, ela ocupa o espaço. Ela comunica como pode, ela demonstra as emoções que vive, ela existe com os recursos que tem. Não dá para imaginar que vai ser possível fazer uma criança desaparecer atrás de uma tela, de um tablet, de uma televisão ou de uma ritalina. Não sem graves consequências para essa criança.

Mas além de se tornarem um problema para muitos pais que não toleram a parte criança de seus filhos, esses pequenos parece que se tornam problema onde quer que estejam. Na escola, é preciso silenciá-los em nome de sabe-se-lá-o-que consideram como educação. Criança sendo criança não cabe na maior parte das escolas atualmente. E nem naquilo que se concebe como educação, que eu chamaria mais de um adestramento para se aprender a viver sem protestar contra um mundo inviável.

Em seguida, a criança não cabe em nenhum espaço coletivo, em nenhum espaço cultural, em lugar nenhum ela é bem vinda a não ser que possa se comportar como algo diferente do que é: venha ao restaurante quando puder ficar 3 horas sentada sem falar, sem reclamar, sem se mexer, sem derrubar sal na mesa ou quebrar um copo. Sinceramente, que criança suporta tamanho constrangimento corporal a ponto de ficar ali como se espera dela? Será que o que se exige de uma criança como sinônimo de boa educação é algo realmente factível?

Ah, mas antigamente… No meu tempo… as crianças eram educadas. Sabiam se comportar, diziam bom dia, por favor, obrigada. Sei, mas antes que você venha defender a palmada como tática educativa que provou sua eficácia no antigamente, deixa eu te perguntar: nessa época da palmada, dos limites e dos pais que sabiam educar, o mundo era assim intolerante com as crianças? Ou será que na sua época, ou na de seus pais, as crianças eram cuidadas onde quer que estivessem? Não tinha sempre um vizinho, o dono da padaria, o pessoal da rua, todo um monte de gente, de adultos, a dar uma olhada nos pequenos onde quer que fossem? Não tinha mais gente para dizer: cuidado com isso, menino, é perigoso, machuca, etc? Possivelmente as crianças não estavam mais inseridas nos meios sociais e nas ocasiões coletivas porque, certamente, haviam mais ocasiões a serem consideradas como “não sendo coisa de criança”. Mas onde elas apareciam, onde podiam aparecer, eram melhor recebidas, não? Ou você não lembra do seu pai ou do seu avô dizendo: “deixa… é criança”. Quantas vezes ouvimos algo parecido atualmente? Quantas vezes nos espaços coletivos as crianças são olhadas com a benevolência do deixa, é criança, o que quer que estejam fazendo?

Então como é que faz num mundo como o de hoje onde a criança não é bem vinda em lugar nenhum e onde os pais não possuem mais nenhuma rede de apoio que possa tolerar uma criança sendo criança? Ter filhos nos dias de hoje é se confinar em casa até eles completarem 18 anos? Como eles vão aprender sobre o mundo se não podem frequentá-lo?Qual a opção: forçar um comportamento em que eles se tornem invisíveis? Isso é educar? Ser invisível é o preço a pagar para poder circular pelo mundo? Bom, eis porque faz tanto sentido que o que mais se veja hoje em dia sejam diagnósticos de hiperatividade em crianças e ansiedade e depressão em adultos. Uma criança hiperativa é uma pessoa que existe em excesso. Um adulto ansioso é aquele que se aflige com o fato de existir. E um deprimido é aquele que renunciou à existência. Será que não estamos criando os deprimidos de amanhã?

Se vocês querem minha opinião, penso que existem sim crianças mal educadas. Como também existem crianças hiperativas. Mas penso que o que mais vemos nos dias de hoje são pessoas intolerantes com crianças sendo crianças. E pessoas intolerantes com os pais nos momentos em que eles estão em dificuldades com suas crianças sendo crianças. Sendo mais clara ainda: a culpa não é da doença que vira desculpa, nem dos pais que não sabem mais educar um filho. A culpa é da pessoa que, enquanto membro de uma coletividade, não suporta nada que incomode, que contrarie ou que vá contra seus desejos ou suas convicções. A “culpa” é do cara que escreve o texto dizendo que sua intolerância seria, na verdade, um defeito de uma criança mal educada e de pais que não sabem educar. Uma criança “se comportando mal” em público é apenas a triste consequência da pressão que você coloca, da intolerância que você impõe, da sua falta de acolhimento, do espaço que você não abre para que aquele sujeito possa existir.

Personal disclaimer, antes que comecem os comentários:

  • não estou dizendo aqui que não haja hiperatividade e nem crianças mal educadas. Estou apenas considerando que são a minoria dos casos e que a maioria é mais uma questão de um mundo intolerante do que das próprias crianças ou dos pais.
  • não estou dizendo aqui também que antes era melhor e que educação é dar palmada e limite (no sentido de subjugar o outro). Penso já ter escrito claramente que não entendo isso como educação. Estou apenas dizendo que, antigamente, as mesmas pessoas ou a mesma lógica que sustentava a palmada e a opressão sustentava, por incrível que pareça, que as crianças fossem mais aceitas em suas criancices naqueles lugares e momentos em que podiam aparecer.
  • também não estou dizendo que educar é não dar limites e deixar as crianças fazerem o que quiserem, quando quiserem. Ninguém faz o que quer, isso não é prerrogativa das crianças. Os limites existem e eles se impõem. Nenhuma criança ou adulto vai poder atravessar a rua correndo sem olhar para os lados, ou brincar com objetos perigosos e afins. Mas entre o que é limite e tudo o que as pessoas querem interditar porque simplesmente perturba a elas, ou atrapalha a elas, existe uma grande diferença. Se você não quer que uma criança quebre um copo num restaurante, basta não colocar um copo de vidro na frente dela à mesa. Se não quer que ela bagunce as coisas no supermercado, retire os produtos coloridos, podres e cheios de açúcar que você coloca ao alcance dos olhos e das mãos dos pequenos apenas para obrigar os pais a comprarem.
  • por fim, não estou dizendo que as crianças não teriam que se adaptar aos lugares que frequentam. Mas ter que falar baixo num museu? Sério? Ou não poder dançar num concerto? Ou não poder rir e comentar um filme? Ou não poder se sujar no restaurante, nem comer com as mãos? Francamente… Me parece que os doentes e mal educados não são as crianças não. Por que é que as crianças precisam se adaptar mais do que os lugares e as pessoas teriam que se adaptar a elas?

Finalizo com uma anedota: há pouco tempo atrás, fomos em família almoçar num restaurante. Um restaurante estrelado no guia Michelin, o que quer dizer um restaurante de comida requintada, um lugar que alguns diriam cheio de frescura e, portanto, “inadequado para crianças”. Tínhamos um de cinco, uma de dois e um de dois meses. O chef nos recebeu na porta, pois chegamos cedo ao local. Fizemos uma degustação que durou cerca de três horas. As crianças tiveram seu almoço trazido rapidamente. A comida deles era saudável e bem cuidada. A cada vez que traziam nossos pratos, tinham a delicadeza de dirigir a palavra às crianças, ou esperar que elas parassem de falar para nos servirem. O pequeno mamou. Sim. Mamou no peito duas vezes. A de dois desceu da cadeira, passeou pelo restaurante, foi olhar a adega com o pai, foi ver os cozinheiros. O de cinco foi no banheiro, puxou papo, pediu catchup. O único momento em que alguém se estressou foi quando a pequena foi mexer na cortina da janela. O maitre foi até ela e disse seriamente para ela que não podia. Ela já tinha andado, ela já tinha embaçado o vidro, ela já tinha brincado com seus adesivos, ela já tinha deixado marca de dedo no móvel ao lado da mesa. E. TUDO. BEM. No final do almoço, o chef estrelado estava novamente na entrada. E quis saber se tudo tinha corrido bem. Tudo com um sorriso no rosto. Ah, mas é porque a gente estava pagando? Será mesmo que ele precisa disso? Ou será que ele apenas considera que crianças têm todo o direito de comer sua excelente comida? Isso, meus caros, é boa educação.

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