A bailarina

Passaram-se pelo menos vinte anos. As sapatilhas tornaram-se objeto de decoração, mancharam, desbotaram, impregnaram-se das marcas e da poeira do tempo. Foram morar em todos os lugares onde já vivi, ponto de referência para poder chamar um lugar de lar. Um dos pequenos lugares portáteis para que qualquer lugar seja “em casa”.

A dança continuou. Virou dança contemporânea, jazz, expressão corporal, dança do ventre, yoga, natação, Pilates, dança indiana… A nada mais pude estar tão ligada quanto ao sonho de ser bailarina, o primeiro sonho de menina de ser alguém quando fosse grande. As sapatilhas ficaram, depois do sonho abandonado em prol de outra vida, outros projetos, outros “quero ser”. Elas, as últimas recebidas como precioso presente, ficaram até mesmo não usadas. E não usadas permaneceram, símbolo do que já existiu um dia, daquela menina que só queria dançar.

Depois de duas gravidezes e um pós-parto parada, o corpo não aguentou mais. Muitos anos parada, o peso da barriga, dos colos e das noites mal dormidas em posições precárias cobraram sua conta. Corpo enferrujado que já se mexia tão somente em sonho, lugar em que agilmente seguia a música, todas as sensações do corpo em movimento renascidas num instante. Fora do sonho, o corpo reclamava a negligência.

O corpo envelhece e se deteriora de mansinho, a gente mal percebe. Até o dia em que senta no chão e sofre em levantar. E daí descobre que a agilidade ficou na cabeça, na ilusão de ser ágil, no sonho de agilidade da bailarina, agora apenas sonho distante. O corpo ficou esquecido.

Então começou assim, de mansinho. Sem planejamento nem cálculo. Em um dia de raiva dessa imobilidade passei na frente da escola. A escola de dança. Entrei, o pequeno no colo: quanto custa para voltar a dançar? Duas semanas se passaram, tempo de chegar novas sapatilhas. No dia e horário combinados, saio de casa sem olhar para trás, medo de ouvir pequeno chorando e fraquejar. Afinal, ir dançar não é como voltar ao trabalho, não é um motivo legítimo, né?

Toca a música, todos na barra, plié, grand plié… O corpo dói, chia um pouco sua ferrugem de tantos anos. Nem sempre acompanha o que a cabeça entende que deve ser feito. Ao mesmo tempo, lá vai ele que faz, faz o pé, faz o braço, faz como se nunca tivesse sido diferente.

A alegria de descobrir que sempre é tempo de ser bailarina outra vez. E que a mãe que volta para casa depois desse tempo dançando é uma mãe muito mais feliz para abraçar o seu pequeno, para dançar com sua pequena, para celebrar os caminhos curiosos e tortuosos que me levaram a eles, a esse lugar, e a poder calçar minhas sapatilhas novamente.

image

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s