Então as fraldas…

Aqui na França, o ensino é obrigatório à partir dos 6 anos de idade para todas as crianças. O que quer dizer que se seu filho não for à escola aos seis anos, vem um funcionário do equivalente do conselho tutelar bater na sua porta para saber o que está acontecendo. E eles levam isso bem a sério. Mas, na maioria dos casos, das casas e das famílias, as crianças não esperam até essa idade para começar a conviver “em coletividade”, como se diz por aqui. Muitas vezes os pequenos vão para a creche à partir dos dois meses e meio, que é a idade em que podem ser acolhidos nesses serviços ou em seus equivalentes. E a escola maternal pode ser frequentada pelos miúdos à partir dos três anos de idade.

Ok, Alessandra, você anunciou que ia falar de fraldas desde o post passado e acabou falando de se esconder no banheiro e, agora vem com essa de escolarização na França. O que é que isso tem a ver com aquilo?

Tudo.

Por aqui, quando uma criança é recebida na escola maternal aos três anos de idade, a escola tem a obrigação, por lei, de acolhê-la onde quer que ela esteja em relação ao seu desenvolvimento psicomotor. Em teoria, um criança que ainda usa fraldas pode ir à escola com as suas fraldas. Mas isso, em teoria. Porque na prática…

Na prática, antes mesmo do seu rebento completar dois anos, já começa um burburinho ao redor de vocês: e aí? Já vai no pinico? Já faz xixi na privada? Já tirou as fraldas? Como se ser criança não fosse estar submetida a um infinito de pressões e exigências, por vezes descabidas, eis que do dia para a noite todo mundo que cerca o seu pequeno parece decidido a investigar como, quando e onde ele faz aquelas coisas que são do campo da sua mais profunda intimidade.

Na prática, são muitas crianças na escola, uma professora e uma auxiliar e blá-blá-blá… é complicado dar conta de 30 pimpolhos de três anos e imagina só se ainda tiver que trocar as fraldas de todo mundo… blá-blá-blá… Está armado o cenário para uma pressão insidiosa que se torna cada vez mais explícita e invasiva quanto mais o sujeitinho se aproxima da data de início das aulas: afinal, esse pentelho vai sair das fraldas ou não?

E, sim, mesmo contra a lei, existem escolas que recusam a entrada de uma criança que ainda use fraldas no maternal. E lá se vão as mães desesperadas querendo a todo custo desfraldar seus filhos antes da famosa rentrée. Putz!

A conversa se repete mais ou menos dessa maneira:

“Estou desesperada, estou tentando tirar a fralda do fulaninho há dias, semanas, meses e não está dando certo! Não sei mais o que fazer. Ele se recusa a usar o penico, se recusa a sentar na privada, tiro a fralda e ele não faz xixi, boto a fralda e ele faz em seguida, pergunto se quer fazer xixi a cada meia hora, ele diz não e depois faz nas calças, faz xixi do lado do penico, não faz mais cocô, está há uma semana constipado… Já comprei calcinha, cueca colorida, penico que fala, canta, dança, sapateia, dou prêmio, presente, chocolate… nada funciona. Será que coloco o penico na frente da TV para quando ele estiver assistindo o desenho preferido? Será que coloco ele sentado na privada a cada meia hora?”

“Sei, mas que sinais ele deu de que estava pronto para começar o desfralde?”

“Como assim… que sinais?”

“Ele se interessa quando alguém da casa faz xixi ou cocô, quer ver, quer imitar, pede para tirar a fralda, coisas do tipo?”

“Não.”

“Ele diz que vai fazer cocô ou xixi antes de fazer?”

“Não.”

“Ele avisa depois que fez? Fica incomodado com a umidade, se irrita, pede para trocar a fralda?”

“Não.”

“Ele já corre, sobe escadas um pé depois do outro?”

“Não sei… Só sei que ele já vai fazer dois anos, vai entrar na escola daqui a um ano e eu PRECISO tirar ele das fraldas até lá.” Ou possivelmente o equivalente disso em termos de pressão social no Brasil: “Ele já tem dois anos e o fulaninho, a beltraninha e o ciclaninho amigos dele já não usam mais fralda nem para dormir, ele está ATRASADO!”

Calma. Respira.

Sério, gente, que pressa é essa? Que pressa é essa em uma sociedade que decide que uma criança passa a marca dos dois anos e um dia e assim se opera um milagre que faz com que ela largue as fraldas? E que se isso não acontecer, algo está errado?

Quando esse papo de desfralde começou a assombrar por aqui, fui fazer o que faço sempre que começa o bombardeio de clichês que não fazem muito sentido sobre coisas nas quais nunca antes havia pensado com verdadeiro cuidado e profundidade: ao invés de responder embarcando no clichê sem muita crítica, prefiro seguir minha tradição de ser a chata dos porquês e vou ler, me informar e pensar a respeito. Foi o que fiz no que diz respeito ao desfralde. E descobri uma porção de coisas.

Por exemplo: como para tudo o mais que diz respeito às crianças, como o desmame, dormir a noite inteira e outros afins igualmente importantes, o desfralde começa quando os pequenos estão prontos. Psíquica e fisicamente. O que quer dizer que o desfralde não começa quando a gente quer ou quando a escola exige, mas quando as crianças podem. Ou, ao menos, seria mais respeitoso se fosse assim.

Imagina quantas mudanças, quantas revoluções, quantas experiências inacreditáveis ocorrem na vida de nossos pequenos desde que eles nascem até alguns poucos anos depois. Cada dia deve ser algo como o equivalente a dez anos nas nossas vidas de adultos em termos de descobertas e de feitos incríveis. Nos esquecemos e achamos uma banalidade coisas como andar ou fazer xixi na privada, mas não são. E os pequenos estão aí para nos lembrar disso, do quanto cada pequena obviedade demanda um esforço extraordinário.

Fato é que, como para todos os grandes saltos, todas as grandes mudanças na intensa vida desses pequenos, ser capaz de fazer xixi e cocô no pinico ou na privada é algo para o qual eles dão sinais quando estão prontos. Começam a se interessar, querem ver, falam a respeito, começam a avisar que fizeram, ou que vão fazer, querem arrancar a fralda, dizem que não querem mais fralda, pedem para usar o pinico ou a privada… enfim. E além desses indícios bem explícitos, há também outros mais laterais, outros indícios físicos que mostram que a criança teria maturidade fisiológica para ser desfraldada. Tipo ser capaz de correr, subir escadas… Como assim?

Nascemos imaturos e inacabados nós, os humanos. E muitas das capacidades que nos tornam autônomos e aptos para sobreviver de maneira independente são adquiridas depois do nascimento. Por isso nossos bebês são tão dependentes e vulneráveis, existem muitas coisas que eles ainda não sabem fazer. E que vão aprender ao longo dos primeiros meses e anos. Até o nosso cérebro nasce imaturo e precisa de um bom tempo para funcionar no seu “máximo” de capacidade.

Para sermos capazes de fazer xixi e cocô em algum lugar ou momento pré-estabelecidos, temos que ter condições de fazer algumas coisas que não são nada evidentes como, por exemplo: nos darmos conta de que estamos com um incômodo, termos noção de que esse incômodo significa vontade de fazer xixi ou cocô, sermos capazes de segurar o xixi e o cocô até chegarmos no “lugar apropriado” para eles, sermos capazes de fazer xixi e cocô nesse lugar. Parece fácil?

Se você é mulher e esteve ou está grávida, tem grandes chances de já ter experimentado aquela desagradável experiência de espirrar, dar uma gargalhada, tossir ou mesmo andar e o xixi escapar. Principalmente no final da gravidez, isso é bastante comum. E não adianta tentar segurar, torcer as pernas, nada, é uma tristeza, escapa mesmo. E isso tem, entre outros motivos, o de que a natureza muito sábia programa nosso corpo para se preparar para parir. Os ossos da bacia mudam um pouco, o cóccix também, a musculatura se afrouxa… Pois o bebê tem que sair e ele sai mais fácil quanto menos resistência nosso corpo oferecer contra isso.

Pois é, ali embaixo, o que sustenta o nosso corpo e os nossos órgãos é o assoalho pélvico, uma rede de músculos super forte e poderosa, que vai do ânus até a uretra e que ajuda a controlar, entre outras coisas, vejam só, o nosso controle sobre xixi e cocô. Quando essa musculatura relaxa, porque ninguém quer parir brigando contra um músculo poderoso que pode fechar quando teria que abrir, o que acontece? O xixi e até o cocô escapam. E a gente não consegue controlar.

Mas o que tem isso a ver com o desfralde?

Muito. Porque o pequeno rebento também precisa aprender a controlar essa musculatura para evitar que o xixi e o cocô saiam quando começam a pressionar ali dentro. E do mesmo jeito que para as grávidas, ou para os velhos, eles podem não conseguir se segurar. Não pelos mesmos motivos da gravidez e da velhice, mas também por uma impossibilidade física. E não adianta falar “segura, fulaninho”, que se o fulaninho não for ainda capaz desse controle muscular, ele não tem como segurar. Mesmo na maior boa vontade e querendo muito agradar a mamãe.

Então, como é que faz?

Espera. A gente espera o sujeitinho amadurecer e estar pronto. Sem querer decidir no lugar dele porque não estamos no corpo dele para saber se dá. Observando os sinais (coisas como poder correr ou subir escadas são indícios porque também dependem de uma capacidade muscular vizinha dessa do controle esfincteriano… viram só,como estudei?)

E como mente e corpo andam juntas e se influenciam tanto, às vezes a criança não pode por uma imaturidade física, às vezes por uma imaturidade psíquica. Ambas são legítimas e dignas de consideração. Nenhuma delas é frescura ou sacanagem com o adulto.

Outro exemplo? Criança que está começando a pedir para ir ao banheiro para fazer xixi e para de fazer isso quando nasce o irmão mais novo. Aconteceu aqui em casa. Nada mais justo, a pequena não quer ser mais tão autônoma quando descobre um irmãozinho sendo cuidado em toda a sua dependência. Quer aquele tipo de cuidado porque identifica aquilo com amor. E ainda não viveu a experiência de ser amada de outro jeito que sendo cuidada, porque também está nisso e está começando a sair disso. E não sabe que tem muito amor depois das fraldas. Amor de outro jeito, como tem amor depois do peito. Então, quer algo mais legítimo do que voltar atrás por um tempo e não querer mais saber de pinico, privada, calcinha e afins?

O usual é que uma criança desfralde entre 2 e 4 anos. Dois a quatro anos é um mundo de tempo, são dois anos de intervalo. E isso é a média, porque pode ser antes ou depois disso. O que quer dizer que não precisa ser aos dois anos. Nem no dia seguinte ao aniversário de dois anos. Nem antes de entrar na escola aos três. Pode ser quando puder ser ao longo desse imenso lapso de tempo.

Mas então não faço nada?

Claro que pode fazer. Pode falar, pode mostrar, pode comprar calcinha e cueca lindinhas. Mas não precisa levar no banheiro a cada 30 minutos, precisa? Nem botar pinico na sala e criança no pinico na frente da TV (qualquer semelhança com dar comida pros rebentos na frente da TV, enquanto eles não percebem o que estão fazendo, não me parece ser mera coincidência).

Como você se sentiria se alguém corresse atrás de você o tempo todo te falando sobre um mesmo assunto? Por exemplo, se um cara ficasse correndo atrás de você na balada o tempo todo insistindo para te beijar? Ou se um vendedor te ligasse todo dia para te oferecer um produto X? Provavelmente você teria vontade de sair correndo para longe do sujeito e pegaria uma antipatia por aquilo que ele estaria oferecendo, não? Agora imagina alguém correndo atrás de você com um pinico toda hora, falando de xixi e cocô toda hora, tensa, brigando contigo porque você tem que fazer, tem que fazer ali, tem que fazer agora… Não dá muita vontade, né?

Pois é. Eis o que tenho pensado sobre o desfralde, enquanto a pequena começa a voltar a gostar de idéia do pinico. E vocês, como têm sido?

Em tempo: aqui um texto sobre alguns sinais que a criança pode dar quando está madura o suficiente para desfraldar. Usem com moderação e não como uma cartilha a ser seguida, tá?

Em tempo 2: durante a gravidez da minha pequena, deparei com uma técnica chamada elimination communication que tem sido usada com bebês desde o nascimento para dispensar o uso de fraldas. Basicamente, consiste em estar tão atento e tão próximo à criança a ponto de perceber os sinais que ela dá, desde o começo, quando vai fazer xixi ou cocô e colocá-la num lugar apropriado para isso. O que acontece é que, logo que nasce, a criança percebe o que está fazendo e sinaliza (é fácil perceber isso bem nos primeiros dias, o bebezinho que fica quietinho, vermelhinho, fazendo força, por exemplo). Se a mãe está atenta e age nesse momento, tanto o bebê vai aprendendo desde cedo a identificar quando precisa urinar ou defecar quanto o adulto aprende a responder a seu sinal na hora e levá-lo a algum lugar. Isso queima uma etapa enorme do desfralde que é aquela da criança aprender a perceber quando está com vontade de fazer xixi ou cocô antes de começar a fazer. Pois essa é uma percepção que ela tem logo que nasce e vai perdendo, na medida que os adultos aqui no Ocidente não ligam muito para isso. A criança também não liga e passa a não perceber quando faz xixi e cocô e vai ter que reaprender na época do desfralde. Coisa maluca como as nossas opções de criação de nossas crianças resolvem um problema (usar fraldas, por exemplo) mas cria um outro logo em seguida (desfraldar). Enfim, eu não banquei experimentar essa técnica com nenhum dos dois, pois exige uma atenção permanente que eu não poderia dedicar. Mas parece que é algo comum em outro cantos do mundo, onde fraldas não existem e as crianças andam coladas no corpo de suas mães durante uns bons anos, o que cria uma grande conexão entre ambos e uma facilidade para a mãe em perceber quando o filho precisa fazer xixi e cocô e agir de acordo com isso.

3 comentários sobre “Então as fraldas…

  1. Então… Meu filho está com 22 meses, e tem um povo perguntando sobre o desfralde mesmo… Ele não deu sinal algum… Não vai rolar pressão, não! Vai ser do jeito dele!
    Moramos em Pau, no sudoeste da França. Já ouvi falar de escolinha que não aceita, mesmo.

  2. E aqui, Alê, que a mãe tá sem pressa nenhuma – apesar de pressão (externa) ter de monte e a bichinha que está há dois meses na escola e outros dois pra ganhar irmão (pensa num momento tranquilo e sem mudanças #sqn! hahaha) resolveu que não quer mais fralda???
    Ainda temos muitos acidentes, mas muitos acertos também… seguimos com a fralda boa parte do dia, só deixo sem quando ela pede e fico me policiando pra não virar a policial do xixi (fico tentando ver os tais “sinais” de que ela tá com vontade, mas fico meio louca, vendo coisas, acho…hahaha)
    Chega dar um desânimo pensar que com a chegada do irmão tudo isso pode “retroceder” (feia essa escolha de palavra, né?! rs), mas é bem bacana ver esse movimento partindo dela! Veremos como será…

    E depois conta como está sendo aí! 😉

    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s