Ele está criando, mamãe!

Quando a pimpolha começou a falar, há um bom ano e meio atrás… que deleite! Palavras, uma a uma, conquistadas pelo árduo trabalho cotidiano de buscar se exprimir. Pois, não se enganem, se tem algo que as crianças almejam mais que tudo é poder se comunicar e serem entendidos.

O choro comunica, mas tão precariamente… Com o choro, um bebê pode informar que algo não vai nada bem. Mas ele expressa apenas as linhas gerais do seu mal-estar. Os detalhes e sutilezas… bom, para isso ele precisa aprender a falar.

Um bebê sente frio, fome, sono, tédio, carência, sede, necessidade de carinho, frustração por não conseguir fazer algo, irritação na gengiva… ele chora. Mas como passa disso para “eu quero a saia violeta, mamãe?” Vocês já pararam para pensar no quão sofisticado é poder dizer que quer colocar a saia violeta? Ou que adora a saia violeta?

Para poder falar, uma criança precisa ter toda uma condição e uma maturidade física e neurológica. Mas também precisa ter um desejo e uma necessidade de comunicar sutilezas.

Os choros viram gritinhos e barulhos de alegria ou de prazer. Ensaios de palavras, sons familiares são interpretados pelos adultos como “mamãe”, “papai”, “bebê”. Eventualmente esses esboços se tornam palavras e a princípio, eles fazem milagre com tão pouco vocabulário… uma proeza!

Os bichos são seus sons “au au”, “miau”… Depois tudo vira um nome só. Todos os bichos são “gatinho”, tudo o que voa é passarinho, tudo o que nada é peixe. E a coisa se sofistica ainda mais quando podem haver gatos, cães e cavalos. Galinhas, patos, pássaros e borboletas. Peixes, tubarão e tartaruga. Depois vêm as cores, tudo era vermelho, depois podia ser também violeta, depois juntou-se o rosa, o azul, o verde, o laranja… Pequenas frases, “qué”, “não”, “qué água”, “qué pão”.

A coisa vai num crescendo até que parece que explode e a pequena, de repente, já tem muitas palavras, muitas frases. Em duas línguas. Francês e português que se confundem a princípio, muito mais fácil falar a língua materna no começo dessa falação toda. Mas o convívio com outras crianças torna o francês igualmente importante e as palavras e frases vão surgindo, se acumulando e começam a sair por todos os poros.

Parece que no momento em que a criança entende que pode comunicar algo e que um adulto atento pode ouvi-la e atendê-la ou responder a ela, isso opera uma pequena revolução. Eles querem falar… Finalmente poderão sentir-se incluídos e participantes daqueles infindáveis almoços em família, finalmente poderão dizer algo também ao longo das conversas, finalmente serão ouvidos e as pessoas reagirão ao que dizem… oba! Mas como a coisa não é fácil, a criança vai falando daquilo que já sabe falar. E muitas vezes a tentativa de dizer algo termina em uma impossibilidade frustrante: “mamãe, nho nhé nho nha nhi?” “O que, filha? Do que você está falando?” “Nho nhé nho nha nhi?” “Aqui? O que aqui, filha?” A coisa se complica, ela desiste. Puxa…

Vêm então as perguntas, deliciosa faculdade do querer saber, exercício prazeroso da curiosidade, que deixa mães e pais malucos, mas que é tão importante para os pequenos em plena descoberta do mundo. “Mãe, que é isso?”. A gente responde e os bichinhos parecem um computador superaquecendo de tanto trabalho. “E por que?”

“Olha, apagou, mamãe!” “O que, filha?” “O céu apagou, mamãe! Por quê?” “Ah, ficou escuro, é de noite. O sol se pôs.” “Ele foi onde, mamãe?” “Ele se escondeu agora que ficou de noite, ele volta amanhã”. Essa foi a pergunta maravilhosa feita pela minha pequena há uns dias atrás. Ela tinha acabado de descobrir a noite. E queria saber como funcionava essa luz que apaga deixando tudo escuro. No dia seguinte, no final do dia, ela foi contar ao pai que o sol tinha desligado, que era de noite, que era hora de dormir. E ficou muito feliz em saber que o sol voltava no dia seguinte, na hora de acordar.

Talvez por vício da profissão ou porque sempre fui uma curiosa perguntadeira, as perguntas da minha filha só fazem me encantar. Com ela, com a descoberta dela pensando o mundo em que vive, com essa pessoa sendo cada vez mais pessoa na medida em que se descobre a descobrir, a perguntar. E a afirmar.

Não sei se podemos considerar que um sujeito fala se ele não for capaz de se colocar dentro do seu discurso. Sem que exista alguém que diga “eu quero”, quem é que quer? Pois um passo essencial nessa falação toda é a criança poder dizer “eu” e “você”. E, para chegar nisso, ter efetuado o colossal trabalho de saber-se um “eu”. E de enunciar algo em nome próprio.

Vocês já imaginaram o quanto uma criança já caminhou numa certa consciência de que ela existe quando chega ao ponto de dizer: “tô triste”, “tô brava”, “tô contente”? Aí já não é mais fome, sono, calor, sede… são estados de alma, coisas que muitas vezes nós adultos temos dificuldades em perceber e em expressar.

Ou seja, palavras, frases, por quês e estados de almas ditos pelas crianças deveriam ser comemorados como grandes conquistas que são. E não tomados como encheção de saco, imposição da sua vontade, tirania ou qualquer outra interpretação infeliz que fazemos de nossas crianças no momento em que elas começam a dar provas contundentes de que estão ali, de que pensam, de que sentem e de que existem. E tem gente que se incomoda, se irrita, acha melhor que elas se calem, que parem de perguntar, que parem de falar tanto.

Eu adoro conversar com minha filha de dois anos e meio. Ela tem umas sacadas maravilhosas, como essa do sol da qual falei logo acima. E muitas outras que eu deveria anotar mas não anoto, pois não quero estragar o momento de partilha com uma preocupação em correr atrás de papel, gravar no celular ou o que quer que seja.

Agora, além de dizer que está triste, feliz ou brava, ela deu para perguntar como estamos. Nós, os outros. E, mais do que isso, deu para consolar, apoiar. “Calma, irmão. Não chora, não fica triste. Vai ficar tudo bem. Você quer um abraço?”

Crianças descobrindo o mundo através da palavra. Tão precária e tão maravilhosa palavra. Que permite chegar ao outro. Mesmo capenga. Mesmo com falhas e malentendidos. Palavra que é tão frágil quanto a nossa humanidade. E, por isso mesmo, tão preciosa.

Vou ali comemorar com minha pequena que descobriu que o sol desliga à noite. E volto daqui a pouco porque esse post, nas suas origens, era para falar sobre bilinguismo. Eita palavra que desliza por caminhos tortuosos!

3 comentários sobre “Ele está criando, mamãe!

  1. Ai, que delícia de fase!!!
    Eu tô amando tb! É absolutamente encantador!! (apesar de achar que vou me irritar um pouco quando chegarmos na fase dos porquês… hehehe)

    Agora vou lá ler a outra parte! 🙂

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