Ele está criando, mamãe! – parte 2

Então, o post anterior era para ser sobre bilinguismo. Porque se tem uma coisa na qual a gente pensa bastante, quando é mãe na gringa, é em como vai ser quando os filhos começarem a falar. E, mesmo quando não pensa, sempre aparece alguém para pensar pela gente.

  • Você fala português com eles?
  • E o pai fala francês?
  • E eles falam que língua?
  • As duas?
  • E não dá confusão não?
  • Não demora mais para falar?

Ora, ora, ora. Não sou linguista, nem fonoaudióloga, nem especialista em bilinguismo. Tudo o que sei é que, aqui, desde a gravidez da primeira, estava claro que falaríamos as duas línguas com ela. Porque vivemos na França e seu pai é francês. E eu sou brasileira.

Não se trata apenas da aparente vantagem nesse mundo capitalista e competitivo em ter um filho imerso em duas línguas desde o berço. Vantagem essa que faz muitos pais procurarem escolas bilingues, creches bilingues, babás bilingues… afe! O que motivou essa decisão foram considerações afetivas e não mercadológicas.

A primeira coisa que levei em consideração é que uma língua é mais do que um instrumento de comunicação. É toda uma cultura, um modo de sentir e de ver as coisas, um jeito de se relacionar com o mundo. Quem estuda outras línguas sabe disso. É a saudade que só se diz em português, é um ritmo, um tom… Não falar a minha língua com meus filhos seria privá-los de conhecer essa cultura, essa musicalidade, esse jeito de ser e de se expressar. Privá-los pois, diferentemente de quando decidimos que o filho vai ser bilingue em uma segunda língua que não é a dos pais ou a do país em que vivemos simplesmente porque aquela língua é importante para o futuro dele (oi?), o que se privilegia é partilhar com eles algo que faz parte de suas origens. E a língua é fundamental na transmissão dessas origens.

Sim, existem pessoas que não querem transmitir suas origens. Por vergonha, muitas vezes. Mas também por intimidação, por confundir integração em um outro país com tornar-se idêntico àqueles que dali são originários, por preconceito sentido, por julgarem que não falar outra língua com os filhos vai fazê-los falar melhor, integrar-se mais e mais rapidamente, sair-se melhor nessa vida tão dura de imigrante. Não é verdade. Uma língua não transmitida vira uma espécie de tabu, algo inacessível que muitas vezes impede a criança de saber sobre si, sobre sua história, sobre a história dos seus pais. Impede-a de perguntar, de saber e dificulta, consequentemente, seu acesso à cultura e à língua do país em que vive. Se não temos como saber de onde viemos, como podemos ser alguém ou estar em algum lugar?

Noutro dia ouvi uma história de um menininho que não falava aos dois ou três anos. Os pais, de língua árabe, falavam mal o francês. Receberam a orientação no serviço de saúde de que deveriam falar apenas em francês com ele, para não atrapalhar seu desenvolvimento escolar. Coisa muito comum, orientação das mais corriqueiras, dada por aqui por pediatras, cuidadores de crianças de todo tipo, professores… Um grande equívoco, na opinião de muitos especialistas, seja em linguagem, seja em transculturalismo ou em migração. A última coisa que se deve fazer no caso de crianças bilingues é condenar ou impedir o uso da língua materna ou paterna.

Resumo da ópera: o menino não falava. Na creche em que foi acolhido, era silêncio. E isso só começou a mudar quando as educadoras, muito sensíveis e acertadamente, começaram a falar algumas palavras em árabe com ele. Bom dia. Tudo bem? Tchau… O suficiente para o garoto perceber que a língua da família era possível, aceita e valiosa. Ele podia ser quem ele é, não tinha que soterrar uma parte sua num canto qualquer em nome de integração ou de falar bem o francês. Até mesmo porque o resultado era o contrário do que se pretendia: o menino não falava mais e melhor, falava menos. Voltou a falar. Francês com quem fala francês, árabe com quem fala árabe.

Então, aqui em casa, julguei fundamental transmitir minha língua aos meus filhos. E com isso minha cultura, meu jeito de ver o mundo, de pensar, de existir.

Segundo aspecto que pesou na decisão: minha família é brasileira e vive no Brasil. Como seria triste ir passar as férias lá com as crianças ou ter minha família aqui para uma visita e eles não conseguirem se comunicar. Já pensou não compreender os mimos de avós? Já pensou eles não entenderem as gracinhas dos pequenos e não poderem contar orgulhosos aos amigos?

Imaginei-os encontrando os filhos dos meus amigos queridos sem poder trocar uma palavra, sem poder fazer aquelas aproximações tímidas que as crianças pequenas adoram fazer “qual o seu nome?” “aquela é sua mãe?” “vamos brincar?”. Não, uma língua é uma riqueza e mesmo que não vivamos no Brasil, o Brasil vive na gente por meio dessas pessoas e do que elas dizem.

terceira coisa em que pensei foi bem banal. Imagina que você está passeando na rua com os rebentos, todo mundo feliz. O pequeno vai andando na frente e chega perto da rua. Você vai lembrar de gritar: “attention! arrête!”? Não, minha gente, em situações extremas a gente volta para a nossa língua de origem, por mais fluente que seja em outra. E daí vai gritar “para! cuidado!”. E é melhor que o pimpolho entenda, né?

Assim como não dá para fazer sexo em outra língua, nem falar palavrão quando estamos furiosos, ou contar piada… tem coisas que só dá para comunicar a um filho na nossa língua materna. Algo urgente quando há um risco, um susto. Mas também uma canção de ninar. Ou os sons que os animais fazem. Cachorro aqui não faz au-au, faz ouaf-ouaf… pode? Não, não pode não.

Então, aqui em casa, os pequenos escutam português da mamãe e francês do papai. A pequena fala as duas línguas. Desde o princípio. O português ganhava em vocabulário no começo, ficou um pouco para trás quando ela começou a conviver com outras crianças, voltou a se enriquecer quando passou um tempão de férias com a família. E assim vamos vivendo. E conversando. Eu falo em português com ela, a não ser em conversas compartilhadas com outras pessoas que não falem nossa língua, pois sempre detestei essa coisa de duas pessoas falando uma língua que os outros não compreendem e deixando outros excluídos da conversa. Acho falta de educação e de consideração. Lemos histórias em português. E em francês. O mesmo com as canções. A pequena demorou um tempo para entender que cada coisa tem duas palavras para ela. Mas agora me diz algo e traduz em seguida para o pai, mesmo que ele tenha entendido, o que o deixa bem zangado. De brincadeirinha, claro, ele já se conformou que ela fala melhor o português que ele.

No fim das contas, ela fala português, francês, tudo junto e misturado e alguma coisa no meio disso tudo absolutamente incompreensível. E conjuga os verbos franceses na conjugação do português, como na frase do título. Ele está criando é o irmão gritando (crier, em francês). Mas não é que ela tem razão nas duas línguas?

Sites e blogs sobre bilinguismo:

 

 

8 comentários sobre “Ele está criando, mamãe! – parte 2

  1. Oi, Alessandra, Eu sou professora de portuguêsm vivo na França e estou grávida. Andei lendo mto sobre bilinguismo ultimamente. Achei o seu post muito interessante!! Se vc quiser saber mais sobre bilinguismo e infância, aconselho vc a ler Le défi des enfants bilingues. O livro é ótimo, super acessível para o pessoal que não é da área e traz vários exemplos práticos mostrando a importância do bilinguismo para a família, para o desenvolvimento cognitivo da criança e para sua integração social. Um beijo!

    1. Nossa, Ana, preciosa a sua dica, obrigada. Vou atrás do livro sim. Você dá aula de português para filhos de expatriados ? Abraço, Alessandra.

  2. Simplesmente amei esse post!!
    Tanta frase linda que eu queria grifar! rsrs
    (mas acho que a mais especial é a última! 😊)

    Aqui o bilinguismo é um pouco mais lento, afinal, em casa é “só” português…
    E mesmo com a gente vivendo na Espanha, ela só começou mesmo a pegar o espanhol agora que entrou na escola.. E tem sido uma coisa linda de acompanhar a cabecinha funcionando pra ordenar os dois idiomas!
    Semana passada ela bateu a cabeça e disse: “eu batei.” Pensou um pouquinho e corrigiu “eu bati”. E concluiu “batei em português. Bati em espanhol” hahahaha
    Achei genial ela fazer essa análise (mesmo que incorreta).

    Na escola a professora sempre pede pra levarmos livros e músicas em português pra elas dividirem.. Acho uma forma super bonita de integrar as “realidades” da Cecília nessa nova rotina!

    Eu tb não abriria mão de falar com meus filhos no meu idioma por nada!!! Precisamente por esses 3 motivos que vc citou… E porque eu acho que por mais bilíngue que eu seja, só sou eu de verdade, inteira, em português!

    1. Puxa, acho que você definiu perfeitamente, não tem como não passar essa lingua que é o que nos faz inteiras, né? Adorei a conjugação verbal da Cecília… muito inteligente, já sacou que existem duas linguas. E a escola faz mesmo explodir a lingua do país em que vivemos, mesmo quando falamos outra em casa. Acho que é a necessidade de falar com outras crianças. Abraço grande em vocês e na barriga! Alessandra

  3. Moro nos EUA e descobri seu blog através do grupo “Criando filhos bilíngues”, no facebook. Amei sua explicação! Nossa pequena tem 6 meses, e meu marido é americano, mas já estou comprando material desde já pra ensinar português a ela. Espero que tenhamos sucesso!

    Boa sorte na sua empreitada também!!

    1. Oi, Lívia. Obrigada pelo comentário. Você comprou que tipo de material? Aqui, uma coisa que funciona bem são os livros em português, que leio diariamente com ela. Um abraço, Alessandra.

  4. Bom demais! O real! Sem deslumbramentos de pais que só pensam em exibir seus filhos, se esquecendo das necessidades de identificação tanto nossas como deles. Sucesso!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s