Essas nossas crianças

Eu nunca entendi direito quando diziam que a esperança está nas nossas crianças. Que nossos filhos são o futuro. Ambiciosa que sou, queria ser também parte dessa esperança e desse futuro. Queria mudar o mundo.

Talvez apenas as crianças tenham a inocência de sonhar com mudar o mundo. E a ousadia de tentar fazê-lo. Costumamos dizer que depois vem a “maturidade”. Mas talvez tenha muito mais a ver com acomodação, cansaço, preguiça, covardia. Por quaisquer que sejam os motivos, e salvo algumas raras e louváveis exceções de pessoas que lutam a vida inteira, a maioria de nós, uma vez adultos, acabamos nos deixando seduzir ou amansar por uma vida em que vale mais garantir o que conquistamos do que arriscar tudo por um passo fora do esquadro. A vida é tão difícil, é tão duro lidar com tantas demandas e tantas restrições, por que sair de uma zona de conforto quando finalmente conseguimos chegar em uma? Talvez seja a isso que chamam velhice, quando, na nossa cabeça, chegamos em um ponto em que pensamos naquilo que podemos perder e nos vemos incapazes e sem forças de começar do zero mais uma vez.

As crianças não. Elas sentem que podem arriscar tudo. Não por ainda não terem nada, maldição da nossa sociedade em que ter é mais importante do que ser ou do que viver. Mas por acreditarem que o mundo tem espaço para elas, para seus desejos, para sua vontade de mudança. Elas acreditam naquilo que nos escapa.

Sorte a minha ter tido filhos e poder aprender com eles sobre esse olhar benevolente para com o mundo. Eles acreditam sempre, eles confiam. Neles, em nós, na vida. E esse encantamento, essa confiança, essa ousadia e quase arrogância de querer fazer, de querer dobrar o mundo à sua vontade, isso é uma riqueza. Infelizmente, desiludidos que somos nós, os adultos chamados realistas, acabamos acreditando que nossa tarefa seria domesticar esse olhar. Pensamos que estamos ajudando nossas crianças se ensinarmos a elas o mais rápido possível a se conformarem à realidade da vida. Acreditamos que nosso objetivo é torná-las ao máximo parecidas conosco.

Mas será mesmo que se adequar a esse mundo é sinal de maturidade e de sabedoria?

Vivemos reclamando que o mundo de hoje é feio, injusto, desigual. E, paradoxalmente, nos prestamos docilmente a “educar” nossas crianças para que elas se encaixem o mais perfeitamente nele. E sempre que, para aparar as arestas da liberdade, da insolência e da esperança, nos vemos obrigados a usar de qualquer tipo de violência, ainda conseguimos murmurar e nos convencer de que é assim que as coisas são. E de que é para o próprio bem deles que o fazemos. É por amor. E o amor justifica as maiores injustiças e agressões.

Se olhássemos com um mínimo de franqueza para nossa própria vida, talvez pudéssemos perceber o quão contraditório é desejar para nossos filhos, a quem amamos incondicionalmente, que aceitem e se adaptem a uma existência em um mundo como o nosso. Sem questionarem nada. Que apenas aceitem, se conformem e marchem, como gado, dia a dia, em direção a uma existência tão desacorçoada quanto a nossa. Em um mundo feio, injusto, violento, desigual. Por que eles teriam que se enquadrar nisso e ainda achar bom?

Mais ainda, com essa nossa atitude normativa, acreditamos estar salvando-os dos maiores perigos. Estamos, na verdade, salvando-os do risco. Do risco de uma vida sem previsão. Do risco de um salto no desconhecido. Quando começamos a querer salvar nossos filhos do desconhecido da vida fazendo-os se apaziguarem no conhecido desse mundo tão ruim, quando começamos a ter medo demais e a forçá-los para que se enquadrem a todo custo naquilo que poderíamos chamar de sobrevivência ou de “o menos pior”… bom, é aqui que sabemos que envelhecemos. E que não somos mais a esperança ou o futuro. E que agora apenas fazemos parte dessas forças que lutam contra a esperança e o futuro. De revolucionários a reacionários… triste fim.

Nesse mundo feio, injusto, violento e desigual que mostra os dentes e as garras com cada vez maior ferocidade em nossos dias, aqui na Europa, mas também aí no Brasil, de onde chegam sempre as notícias mais tristes e desalentadoras, vez ou outra chegam uns rasgos de esperança. E a esperança que chega daí, do outro lado do Atlântico, vem pela boca e pelos gestos das crianças.

Essas crianças que estão crescendo sem perder o olhar benevolente para com o mundo. Crianças que ainda acreditam que sua vontade vale algo. E que o mundo pode mudar. Que aquilo que as cerca é poroso e pode ser influenciado por sua vontade.

Não, não estamos vendo surgir uma nova geração de tiranos cujos pais atenderam a todos os caprichos desde a mais tenra infância. Qualquer sujeito pensante consegue perceber a perversidade desse argumento que pretende nos justificar na violência de nossos gestos contra nossos filhos.

Não, não são as crianças sem limite, que nunca ouviram um não na vida.

São crianças que querem mudar o mundo. Em nome de um bem maior.

As crianças que lutam por educação de qualidade.

Por comida decente na merenda da escola.

Por dignidade.

Por respeito para com as meninas-mulheres.

Crianças que se vêem livres e face a essa liberdade, olhem só, não saem quebrando, roubando, reivindicando o seu pirão primeiro como vemos cotidianamente no mau exemplo enraizado em nossa cultura de cima a baixo por tantos adultos corruptos e corruptores a defender sempre e apenas seus próprios interesses.

Essas crianças, quase que por um milagre, querem outra coisa. Querem mais, querem melhor. Querem o que nunca poderíamos imaginar que quisessem. Elas querem tudo. Elas querem mudar o mundo.

E elas tem razão. Esse mundo em que vivem é mesmo uma bela porcaria. Nossa total responsabilidade, nossa, dos adultos, que ao invés de mudarmos o mundo para todos, nos restringimos a garantir nossa sobrevivência cotidiana, a pequenez de nossas básicas aspirações e necessidades. Culpa nossa, problema deles. Que o assumem de peito aberto. Com coragem e ousadia. Desculpem nossa covardia e apatia, crianças. Desculpem querer convencê-los de que é esse nosso jeito que é certo e bom.

Essas crianças que esquecemos por aí, nas escolas públicas sucateadas, comendo comida de merda, abandonadas ao destino de serem gado e seguirem seus destinos sem reclamar. Ah, essas crianças agora se rebelam! Que ousadia! Que ultraje! E toca bala de borracha, cacetada, que nós, adultos, não podemos aceitar que esses seres pequenos se rebelem contra nossas verdades.

O que acontece hoje em dia nas escolas de São Paulo e Rio, e a forma como essas manifestações e ocupações são tratadas pelo poder público, são um perfeito reflexo daquilo que acreditamos, como pais, que seja educar um filho: educar é dobrar, domesticar, aparar todas as arestas até que não sobre nada de uma singularidade. Fazemos isso na nossa casa, no dia-a-dia. E não vemos com nenhuma surpresa que a polícia, o governo, os políticos façam o mesmo nas escolas e nos espaços que deveriam ser os de expressão da palavra, das necessidades e dos anseios das pessoas. Espaços em que os outros de nós, nossas crianças, deveriam poder existir e onde se deveria poder celebrar sua existência. Onde cada um deveria ter lugar para ser quem é no mais profundo respeito. Onde o futuro e a esperança de todos nós deveria ser cuidado e protegido. Mas não. Se não conseguimos nem olhar para nossos filhos como outra coisa que um serzinho desafiador que precisa ser “educado”, como é que poderíamos ver a escola como outra coisa que não a continuidade desse processo de domesticação? Consideramos até que é merecido que esse bando de crianças aprenda desde cedo quem é que manda. Chamamos de delinquentes na TV. E todos ficam aliviados em ter seu “estilo de vida” confirmado. Ufa! Afinal, se eles mandam na gente, por que esses fedelhos poderiam ousar querer escapar?

Domingo é dia das mães. Mais uma data para a qual olho com desconfiança, tanta quanto para o famigerado dia da mulher. Ser mulher e ser mãe, nesse nosso mundo, são apenas valorizados quando servem de pretexto para o consumo. Estamos muito longe de um tempo e de um lugar em que ser mulher seja algo pelo qual não se tenha que batalhar cotidianamente. Quanto a ser mãe então, único lugar pretensamente legítimo para uma mulher querer ocupar, esse não é sem dificuldades, sem sofrimento, sem violência ou solidão. Mesmo o lugar que nos permitem ocupar nesse mundo é um lugar violento. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mulheres. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mães.

Maternidade compulsória, falta do direito de escolha, condenação a cuidar dos filhos sozinha e sem recursos, obrigação de sacrifício, julgamento permanente por não cuidar bem, o que quer que se faça. Mãe é essa mulher julgada e condenada duplamente, não importa o quanto se esforce. Uma maneira vil de dobrá-la, de nos dobrar, de tirar nosso sangue até que não sobre força nenhuma de resistência.

Mas… temos os nossos filhos. E filhas.

Temos as nossas crianças.

Essas crianças aí, que tantos adultos agora repudiam. Essas crianças que botam medo nesse bando de marmanjo corrupto, bandido e covarde. Essas crianças que muitos querem dobrar à força.

Se tem um dia das mães que faz sentido, é o dia das mães dessas crianças. Todos os dias dessas mães dessas crianças que, visivelmente, conseguiram e conseguem criar jovens que fogem do esquadro. Vocês são mulheres as mais admiráveis. Parabéns por existirem. Parabéns por nos darem a esperança na forma dessas crianças.

Com carinho, de uma mãe que só pode acreditar num futuro graças a essas crianças. As suas. E as minhas.

Alessandra

Ocupação / ALESP

Ocupação / ALESP

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas SP em 2015

Ocupação escolas GO

Não fechem minha escola

 

 

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