Os homens piram

Começou com uma história, duas, três, até que ficou frequente demais para eu continuar achando que fossem casos isolados. E comecei a formar aqui na minha cabecinha uma idéia sobre uma categoria de homens bem difícil, aquela dos homens que piram.

O enredo pode ser começar bem banal: casal mais ou menos feliz, engravidam, vão ter um filho, todo mundo está contente. Esse acontecimento parece que fortalece o casal, começa ali uma família, é como se tivessem atravessado uma fronteira onde as perspectivas mudam e as prioridades se invertem.

Mas daí o bebê nasce. E do mesmo jeito que acontece alguma coisa no âmago dessa mulher que a muda radicalmente, algo acontece também nas entranhas desse homem. E nem sempre a mudança é para melhor.

O cara vai mais cedo para o trabalho, volta mais tarde. Chega em casa e esquece de perguntar como vão as coisas. Fala, fala, fala. De si, do seu trabalho, das suas preocupações, do mundo lá fora. Fala para uma mulher cansada, que possivelmente passou o dia inteiro entre mamadas, choros, sonos entrecortados. Uma mulher que talvez não tenha visto a luz do dia, que não sabe se faz sol lá fora, que talvez não tenha conseguido ir ao banheiro fazer um cocô.

O cara se espanta porque a mesa do café da manhã ainda está posta. E a cama não está feita. Faz uma crítica ou outra. Vai ver TV, vai para a frente do computador, vai para a internet. Está cansado, teve um dia cheio, precisa relaxar e desanuviar a cabeça.

Espera que o jantar apareça ali na sua frente. Espera que a louça saia da mesa e vá para o lava-louça. Espanta-se que a mulher esteja cansada: “mas como assim, você passou o dia inteiro em casa…”. Não pode cuidar muito do bebê à noite, precisa de uma boa noite de sono para poder sair para trabalhar amanhã. No dia seguinte se espanta com a cara de zumbi da esposa, afinal, o bebê nem chorou tanto assim, vai.

A mulher tenta explicar, tenta mostrar que seus dias são cheios, cansativos, estressantes. “Mas você não está feliz? Não era isso que você queria?” Sim, mas é difícil. Ele demonstra seu tédio profundo em ouvir falar de fraldas, de choros, de mamadas. Ela precisa de um abraço, de uma massagem nas costas, de alguém que segure o bebê para poder tomar um banho. Ele segura o bebê, e o leva para perto da porta do banheiro desde que ele começa a chorar. Ela sabe, ali dentro, que o bebê está chorando, não consegue relaxar, apressa o banho, deixa para lavar o cabelo dali um mês.

O cara quer transar. Quer que a mulher esteja afim. Ela perdeu a forma, precisa voltar a fazer exercícios, hein?! Ela só pensa no pouco tempo de sono que está perdendo com essa transa sem graça e sem vontade. Mas tem mais medo ainda de perdê-lo, então tenta fazer de conta que está gostando. E torce para acabar logo.

O tempo passa, ela está cada vez mais exausta. Ele não entende o que a cansa tanto. Quer que contrate uma babá? Propõe que viagem, propõe que saiam. Como se tudo isso não fosse ainda mais trabalho para ela, que tem que preparar tudo, prever mil cenários, fazer mochila de criança, estressar com o tempo, o vento, a chuva, o banho, o sono. Ele se diverte pra caramba, ela mal consegue ter uma conversa com começo, meio e fim com algum amigo, sempre interrompida pelo bebê, pelo choro, pela fralda. Ela volta para casa ainda mais exausta, enquanto ele se sente revigorado.

O cara sente ciúmes do tempo que ela passa com o bebê. Se sente deixado de lado, sente que não é mais a prioridade dela. Trocado, disputa com o rebento a atenção da mulher. Choro e mamadas noturna contra sexo. Ele quer a atenção dela, que ela escute seus problemas, que ouça suas histórias. Acha que essa história de amamentar é um jeito dela sequestrar o bebê, de não deixá-lo conviver e participar dos cuidados dele. Insiste em que passem para a mamadeira, em que dêem um jeito para que ele durma a noite toda, em que ele durma no seu quarto. Cada vez que ela diz estar cansada, ele a olha com desprezo e lembra a ela que se ela está assim é por conta das escolhas dela, que quis amamentar, fazer cama compartilhada, todas as histórias de respeitar o ritmo do bebê. Ela para de reclamar, porque suas queixas sempre se voltam contra ela, sempre se tornam acusação, e ela não sente que tem mais forças para se ver questionada em todas as suas decisões a todo momento.

Se cede à mamadeira, ele se ocupa por uma ou duas noites. E depois é ela quem volta a se ocupar, pois o sono dele é sagrado. Se cede a colocar o bebê no quarto, é ela quem passa a levantar e percorrer a distância entre um quarto e outro para se ocupar do bebê. Ela está ainda mais exausta, ele acha que finalmente as coisas estão progredindo, já que ela está fazendo tudo do jeito que ele acha melhor.

Ela se fecha, não fala mais nada, nem comenta nada de seu sofrimento com ninguém. Quem poderia entendê-la? Cada vez que estão em situações públicas, ele se mostra um pai maravilhoso. Cuida, brinca, pega no colo, dá risada, conta orgulhoso cada detalhe de cada mudança que ela relatou a ele. Quem iria acreditar que as coisas não são bem assim? Nem ela acredita, pensa que ele é um ótimo pai, não entende direito esse paradoxo.

Quando ela começa a respirar novamente, e que o bebê está mais crescidinho, dorme melhor e por mais tempo, começa a ir na creche ou coisa que o valha, vem a surpresa: as coisas não estão tão bem assim. Ele tem uma amante, está tendo um caso, trocando mensagens pela internet em um site de encontros. Toda aquela falação sem olhar nos olhos era para não falar do principal, de sua falta de honestidade, de sua covardia, de seu egoísmo. Ela percebe o abismo que se criou, sente-se culpada. Se ela tivesse se arrumado mais, estado mais disponível, se tivesse estado mais afim… Mas se sente tão cansada, como poderia ter forçado uma situação num circunstância dessas? Ela não é mais a mulher de antes, livre, cheia de iniciativas, aventureira. Ela se tornou pesada, preocupada, tensa. Talvez seja isso, talvez seja mesmo a culpa dela, de ter se tornado essa pessoa do corpo deformado pela gravidez, cheia de olheiras, monotemática.

Mas e o filho deles, não conta? E o cuidado, a dedicação, nada disso tem importância para ele? Não é razão o suficiente para que ele a ame, para que se orgulhe dela, para que valorize o que ela faz? Ela cria um filho dos dois, isso não vale nada?

Aparentemente não. O cara pirou, o cara compra um carro esporte de dois lugares para pagar de gostosão, o cara tem um caso, o cara se diverte em testar se é gostoso e desejado pela mulherada, o cara quer saber se ainda é capaz de seduzir, o cara quer atenção exclusiva, ele quer uma mulher só para ele, sempre pronta, sempre afim, sempre deslumbrada com todos os seus feitos.

Quantos caras você conhece que mostram o seu pior lado após se tornarem pais? Que abandonam, que negligenciam, que desmerecem, que menosprezam, que criticam? Quantos caras você conhece que, mesmo se tornando pais, continuam gravitando em torno do próprio umbigo?

Conheço algumas histórias de casamentos que explodiram depois que os filhos nasceram. Das amantes, dos caras que se fecharam no trabalho, nos filmes na TV ou nos sites de internet. Tenho uma amiga cujo agora ex-marido chegou ao ponto de sequestrar a filha de pouco mais de um ano por uma semana, forçando um desmame que vinha acontecendo da forma mais gradual e respeitosa possível. Dizia ele que queria passar mais tempo com a criança. Era verdade? Se levarmos em conta que durante essa semana ele continuou trabalhando e chamou a própria mãe para cuidar da filha, dá para duvidar das belas intenções do sujeito…

Quantos caras você conhece que, quando separados das mães de seus filhos, pegam os rebentos no final de semana para a amante, nova esposa, sei lá quem cuidar? E quantos você conhece que continuam exatamente com a mesma vida depois que se tornam pais?

Se você vive no mesmo mundo que eu, deve conhecer muitas histórias assim, dos casamentos que explodem e daqueles que não se desfazem apenas porque a mulher arca com tudo enquanto o cara continua vivendo a própria vida, tendo seu trabalho, seu tempo de lazer, suas horas de sono… Para a maior parte dos homens, quase nada muda depois da chegada dos filhos. E isso não os incomoda nem lhes causa estranhamento. A única coisa que parece os desagradar é aquela mulher chata e reclamona ali, que deixou de ser tão interessante. A maior parte dos caras passa boa parte da sua vida enquanto pais fazendo a mulher pagar por ter deixado de tê-los como prioridade absoluta. Eles se vingam das piores maneiras, criticando, não apoiando, diminuindo, fazendo piada, deixando-as sozinhas. Para cada homem que parece intocado pela paternidade, que parece estar tão bem disposto quanto antes, que parece estar animado cuidando de crianças felizes que chegam nos seus braços secas, alimentadas, agasalhadas, há uma mulher sobrecarregada, exausta, cuidando de tudo sozinha, terrivelmente solitária e em situação de isolamento.

Então, do mesmo jeito que a maternidade mexe e muda as mulheres, a paternidade também mexe e muda os homens. Eles também são expostos a duras provas e o casal passa por um teste pesado. Mas a pergunta que fica é: por que a maior parte dos homens, quando se tornam pais, reagem por esse viés do abandono e do egoísmo?

2 comentários sobre “Os homens piram

  1. Realidade pura! Sabemos que convivemos com isso a cada novo bebê que chega e temos notícias. Às vezes em alguns pontos, às vezes em todos… O que aprendi desde a minha primeira gravidez foi a buscar rede de apoio, ajuda mesmo, com outras mulheres que estejam no mesmo time que o seu. Vc percebe que vivem situações semelhantes, iguais. E recebe o apoio que outra pessoa de fora não entende que vc precisa.
    Bjs

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