Maternidade e psicanálise

A experiência da maternidade, somada ao fato de vir morar na França, mudaram muito o meu jeito de conceber a psicanálise. Isso e a própria passagem do tempo que, segundo dizem por aí, é o que faz com que psicanalistas e vinhos se assemelhem. Eis algumas coisinhas que aprendi nesses mais de 20 anos de profissão, em dois países diferentes, dois filhos depois.

  • Psicanálise tem a ver com acolhimento e escuta. Em um mundo tão árido e pouco solidário como o nosso, acolhimento e escuta tornaram-se artigos de luxo. Quem se dispõe a escutar? Quem se dispõe a acolher? A estar junto? A acompanhar uma pessoa em uma parte de seu caminho? O psicanalista se dispõe. Ou deveria. Receber um total desconhecido na sua sala para que essa pessoa fale de dentro das suas entranhas é como um presente. Pode ser um presente de grego algumas vezes, mas é uma preciosidade que deveria ser tratada com o maior respeito. Frente ao outro no seu lugar mais vulnerável, mais frágil, mais aberto, o silêncio acolhedor do analista é como uma espécie de alento para alguém que sofre. Quando alguém chega e te endereça esse tipo de fala, essa fala profunda e doída, o melhor que você pode fazer é recebê-lo com o cuidado e o respeito de quem acolhe uma pessoa em um dia de chuva com um cobertor, um chá quente e um lugar confortável onde se pousar. Anna Freud atendia seus pacientes tricotando e isso não tem nada a ver com uma desatenção ou um desrespeito. Era sua maneira inteligente de prestar atenção no que diziam e de criar um ambiente acolhedor para que pudessem dizer.
  • Escutar é… escutar. Mesmo. O exercício mais difícil do mundo para qualquer pessoa. Mas para os analistas, ainda mais. Quantas pessoas nos escutam, quantas pessoas realmente escutamos? Será que escutamos realmente nossos filhos, por exemplo? Escutar é aceitar ser arrancado de si mesmo e de suas certezas e mergulhar num mundo de palavras do outro. Quando a gente ouve o que alguém tem a dizer sentindo o peso de dar uma resposta ou uma solução, não queremos escutar nada. O que estamos fazendo é tentar calar a fala do outro com uma resposta que faça ele parar. Você está sofrendo, triste, em carne viva? É isso. Pronto, a pessoa se cala acomodada à sua resposta, acreditando por um momento que seja a solução para o que ela diz. Até que, invariavelmente, ela termine por descobrir, cedo ou tarde, que sua resposta foi uma espécie de violência contra o que ela dizia, que ela foi interrompida em suas palavras e que você, de uma certa maneira, a calou. Freud dizia que o analista só fala nos momentos em que o paciente tem sua fala calada. O analista fala para o paciente poder continuar falando. Se o analista o cala, alguma coisa está fora de lugar.
  • Escutar também não tem nada a ver com dizermos para nós mesmos: ah, é isso. Não é uma resposta para o outro e muito menos para nós analistas. Isso que os analistas falam, isso que os analistas sabem… ai, ai, ai. A teoria serve, ou deveria servir apenas como inspiração para pensar, para ajudar a pensar. A teoria não é uma certeza. No momento em que começamos a ter certeza de que entendemos alguma coisa de uma pessoa é porque paramos de escutar. Nós sabemos tão pouco sobre o outro, que quando ele abre a boca é, na imensa maioria das vezes, uma grande surpresa. Uma pessoa é um universo particular. E mesmo que as questões humanas não sejam tão infinitas quanto os humanos sobre a Terra, a colcha de retalhos que cada um faz para dar conta das mesmas questões é totalmente individual. Então, a teoria em psicanálise serve à clínica, e não o contrário. Não é o paciente que tem que se encaixar em alguma coisa que Freud, Lacan, Winnicott ou quem quer que seja disseram. São esses psicanalistas que podem ter dito coisas úteis para entender uma ou outra coisa sobre tal pessoa. Ou não. E daí, é preciso inventar novos escritos para pensar as pessoas que estão por aí, falando. Freud – ele novamente – nunca hesitou em reformular suas teorias a cada vez que sua experiência clínica mostrava que não era aquilo. Freud era capaz de uma humildade e de uma honestidade intelectual que a imensa maioria dos psicanalistas hoje em dia não possuem. Infelizmente.
  • Mas então o que a gente pode dizer? Antes de dizer qualquer coisa, melhor se dar conta do quão pouco sabemos. E de que não temos nenhuma verdade a oferecer para ninguém. A famigerada interpretação, que muitos analistas esqueceram que é algo a ser usado com parcimônia, nada mais é do que dizer para o sujeito aquilo que ele disse, aquilo que ele acabou de dizer sem dizer. Uma interpretação é uma fala estranha que fala ao mesmo tempo do que já foi dito e do que vai se descobrir no instante seguinte. É como uma ponte entre dois tempos aqui e agora. Nós interpretamos quando aparece uma ponte entre esses dois tempos, quando aparece algo que a pessoa sabe e não sabe, que ela acabou de dizer e não disse. Nós fazemos a ponte com a nossa fala. E é só. Nada de pregação, nada de aula, nada de ocupar um lugar indevido de quem adivinhou o que quer que seja. Não somos magos, adivinhos, nem nada que o valha. E aceitar que uma pessoa nos coloque nesse lugar e que fique nos idolatrando enquanto lambemos alegremente a nós mesmos em uma espécie de auto-satisfação orgulhosa é algo como uma obscenidade. Uma impostura, diria Lacan. Lacan, esse mesmo que falou sobre ocupar o lugar do mestre e pouca gente lhe deu ouvidos. Colocaram o próprio Lacan nesse lugar de mestre, colocaram-se a si mesmos nesse lugar de mestre. E o resultado disso foi um bando de psicanalistas mais preocupados com a sua performance do que com quem está ali na sua frente.
  • Uma pessoa que chega para uma análise não chega para uma análise. Ela não quer nem saber de análise. Ela está ali porque está sofrendo e não consegue mais se desviar das consequências desse sofrimento. E o que ela quer encontrar é um meio de desviar. Ninguém quer mudar nada sobre si mesmo nessa vida, o que queremos é que o nosso entorno mude e se acomode ao nosso desejo. Ponto. Quando isso não acontece, o que quer dizer, sempre, e quando esse abismo entre o que queremos e o que a vida é se torna insuportável, por vezes vamos até um analista. E o que queremos dele é que ele nos ajude a negociar com a morte, como aquele personagem maravilhoso de O sétimo selo do Bergman, que passa um filme inteiro jogando xadrez com a morte. Eis uma das metáforas mais potentes do que tentamos a vida inteira: queremos negociar com a morte. Então, quando chegamos no consultório do analista, não queremos mudar. Mesmo que digamos dessa maneira o que estamos ali buscando. Queremos que tudo se acomode. Queremos encontrar um desvio. Queremos o máximo possível com o mínimo de esforço. Que é o mesmo que pedimos ao psiquiatra, ao padre, ao guru e a todos os seres que pensamos que poderão nos ajudar com algo do tipo.
  • Mas… esse é um pedido que nenhum analista tem condições de atender. Ou melhor, que nenhum analista que tenha sido minimamente marcado pela vida tem condições de atender. Até poderia dizer, que nenhum analista que tenha feito uma análise tem condições de atender. Mas isso seria um risco de supor que um analista que tenha feito uma análise pessoal teria feito realmente uma análise. O que nem sempre é o caso. Porque um analista em análise é alguém que chegou tentando negociar como qualquer outro. Alguém que quis se desviar o quanto pode. E que muitas vezes conseguiu, sob o olhar conivente de um outro analista. Do mesmo modo que muitos pacientes encontram seu desvio sob o olhar conivente de seus analistas, todo mundo sai feliz e satisfeito, uns elogiando aos outros. E a máquina se retro-alimenta sem que ninguém tenha que pagar com o seu pedaço de carne.
  • Enfim, tem alguns analistas que não podem atender a esse pedido. Sorte ou azar seu se foi parar na sala de um deles. Porque ele vive e sofre e percebe na sua própria carne que viver tem um preço. Estar vivo tem um preço. E custa muito caro. Então, a menos que esse analista seja ele também uma pessoa que passou a vida desviando, tegiversando, negociando com a morte, engambelando para não pagar o preço da vida, ele não vai poder ajudar o sujeito a negociar, engambelar e se desviar. Isso é a única coisa que temos a oferecer, essa ferida que é comum a ambos e a todos nós, esse preço que se paga pela vida. Tudo o mais é farsa, teatro. Perda de tempo.
  • E então acontecem às vezes uns belos encontros entre analistas que não negociam e pessoas que chegam em carne viva, querendo desviar… mas que não desviam. E pagam o preço da vida. E conseguem existir de maneira encarnada. Se alguém me perguntasse o que faz um analista, eu diria que tudo o que podemos fazer é acompanhar uma pessoa que decida percorrer o árduo caminho entre ela e ela mesma. E que sabemos que isso aconteceu quando essa pessoa encarna no próprio corpo. Quando cada palavra é substância, quando existe uma coerência entre a fala, a ação e a carne. Isso é o que um analista “faz”. Tudo o mais é perfumaria. Ou, como dizia o perspicaz Winnicott, tudo o mais é o que o analista pode fazer quando uma análise não é possível. Ou nos diversos momentos de uma análise em que uma análise não é possível. São esses momentos ou esses encontros em que uma análise é possível que fazem todo o resto valer à pena. Do ponto de vista de quem trabalha com isso, claro.
  • Em tempo, Freud, Lacan, Klein, Winnicott e todos os outros eram e são… pessoas. Pessoas que viveram e vivem em um certo lugar, numa certa época. Pessoas por vezes geniais mas, também… pessoas. Ninguém, nem mesmo o Freud todo poderoso, tem a capacidade de olhar de outro lugar que não sejam seus olhos. E ignorar isso e tomar o que quer que tenham escrito como uma verdade absoluta em qualquer tempo, para qualquer pessoa, em qualquer lugar, é ignorar uma das maiores preciosidades que a psicanálise nos trouxe, que foi levar em consideração quem fala. Respeitar até as últimas consequências que quem fala é aquele ali e que sua fala só pode sair da sua boca e não de nenhum lugar divino onde estaria a verdade nua e crua. Quem fala é Freud, é Lacan… e eles são gênios e são uns tremendos idiotas. Têm coisas que eles disseram que não servem para absolutamente nada hoje em dia. E coisas que dão um alento no coração para pensar nos nossos tempos e no nosso sofrimento. Uma coisa não anula a outra. Mas ninguém nem nenhuma teoria são um pacote completo e acabado que tem que ser comprado, aceito, comido e engolido em sua totalidade. As ditas “ciências duras” vivem nos dando provas disso, revendo, desdizendo, mudando e retomando uma porção de suas teorias o tempo todo. Ninguém tem pudores de questionar Einstein, Darwin ou quem seja. Esse desendeusamento respeitoso que, infelizmente, nós psicanalistas não aprendemos.
  • A França tem uma das psicanálises mais potentes e ao mesmo tempo mais engessadas do mundo. Contrariamente ao que acontece na Inglaterra, ou até mesmo no Brasil, por aqui o fantasma Lacan todo poderoso imobiliza e empobrece grande parte do que é dito, escrito e feito em termos de psicanálise. Criaram por aqui uma linguagem que ninguém entende, para falar como Eco, a deusa grega, que tem apenas a si mesma como resposta. Eco reverbera por entre muralhas surdas em uma fala que se repete num infinito de palavras mesmas, palavras sem sentido e sem fim. Uma chatice, uma pobreza, uma incapacidade de transitar que sufocam qualquer um. São poucos os psicanalistas franceses que conheci, encontrei ou li – até hoje – que conseguiram escapar dessa assombração Lacan que deixou a maioria burra, chata, pretensiosa e… surda. Stein, Zygouris, Plon, Didier-Weill, Oury, Pontalis… nem cheguem a se empolgar porque a lista é curta. E, se forem ver bem, são praticamente todos de uma velha guarda, gente que escreveu pouco, gente econômica nas palavras, mas muito produtivas em sua prática clínica. A experiência realmente tornou alguns analistas tão bons quanto os melhores vinhos. Mas também tão raros quanto. Gente que parece ter entendido que o melhor do legado de Lacan é justamente essa palavra que não diz nada, essa palavra que é chiste, que é jogo. O melhor do que Lacan disse ou do que ele escreveu foram essa escrita e essa palavra que são a coisa mesma, que são aquilo mesmo de que ele está falando, que são o inconsciente como linguagem. Não tem nada para entender. Não tem nada a que se agarrar como uma verdade, um modo de pensar, saber, fazer, dizer as coisas. Não tem nada para usar como pregação. Tudo é brincadeira, Lacan seu fanfarrão. Talvez se você tivesse nascido no Brasil as pessoas te entendessem com o devido senso de humor.
  • Aliás, passou da hora da psicanálise brasileira parar de pedir benção para a psicanálise francesa. 90% do que se produz e, temo dizer, do que se faz aqui em termos de psicanálise poderia ir direto para a lata do lixo do esquecimento total e absoluto da história. Muita gente que ouve sem escutar, cheia de certezas, de tempos lógicos fora de lugar, de interpretações exibicionistas, de compreensões incompreensíveis. Muita gente tentando impor o tempo, o corte, a castração, a função paterna, o diabo a quatro. Muito silêncio indiferente, muita distância de descaso. Muita falta de empatia e de humildade. Muita gente acreditando piamente que interpretar é como dar uma lição no outro. Muita violência. Bom, talvez, pensando bem, não seja muito diferente do que aconteça na maioria esmagadora dos divãs brasileiros também. Essa violência da arrogância, do saber, da certeza. Essa incapacidade de se colocar em uma posição de vulnerabilidade. Aqui, isso gerou uma repulsa à psicanálise que é tão grande quanto sua própria influência e que, a meu ver, é consequência direta, entre outras coisas, dessa psicanálise surda, burra e narcisista que impera por aqui.
  • Mas se não tem muita diferença, nem na prática, nem na teoria, no Brasil ainda temos uma capacidade de andar nas fronteiras, uma mestiçagem que, mesmo problemática em vários campos, trouxe para a psicanálise e para alguns psicanalistas um jogo de cintura, um rebolado, um molejo que são um tesouro raro. Que saudades tenho das pessoas fazendo arte psicanálise. Aqui não existe E, a França é uma cultura de especialidades e de pessoas que se encaixam em suas especialidades e que nunca mais podem sair do lugar. Isso vale do ponto de vista da formação, isso vale para os percursos profissionais e isso vale, especialmente, para o trabalho do pensamento. A França não tem mestiços, ela tem franceses e/ou estrangeiros. Aqui não existe isso de você ser francês descendente de brasileiro. Você é francês. Percebem que isso impede a fronteira, impede de ser dois, de ser múltiplo? Isso vale para as subjetividades, vale para a psicanálise e encerra pessoas e psicanálise em um terreno bem restrito. Sim, existem exceções.
  • Então, um pouco de cautela da próxima vez que te apresentarem a Bíblia psicanalítica do momento. Ou O cara. Uma das coisas que aprendi é que isso é tudo menos psicanalítico. Isso é religião. E o “santo” Freud tinha muita coisa não muito simpática a dizer sobre religiões, lembram?

Uma pessoa que chega no consultório em carne viva e se confia a um total desconhecido quer negociar. Mas também quer ser acolhida. E escutada. Na verdade e na legitimidade da sua dor. Existe uma dimensão de humanidade, de solidariedade e de compaixão no trabalho psicanalítico que se perdeu historicamente e que se perdeu na fala, nos escritos e nas ações da maioria dos psicanalistas. Uma das psicanalistas mais admiráveis que conheço – brasileira, viveu na França muito tempo e, não, não sou eu e não foi minha analista – é capaz de acompanhar seus pacientes ao longo de uma sessão com seu silêncio acolhedor, sua escuta que não sabe nada e suas palavras econômicas para, ao fim da sessão, sair da sala e acompanhá-los papeando sobre corte de cabelo, viagem, netos… Ela é assim, como a vida. Como os encontros possíveis entre humanos. Como a psicanálise, a meu ver, poderia ou deveria ser, se fosse minimamente coerente consigo mesma. Capaz de escutar a dor mais profunda do ser humano e falar da chuva lá fora. Psicanalistas que se levam a sério demais não são psicanalistas. São apenas… chatos. Ops!

No mundo da maternidade, muita gente critica, e por vezes até teme a psicanálise. Como se a psicanálise fosse inimiga da mulher e da mulher mãe. Se pensarmos no modo como se leva ao pé da letra muita coisa do que Freud escreveu sobre o feminino invejoso e incompleto e sobre a mulher histérica até hoje, e se pensarmos no modo como a idéia da função paterna lacaniana ressoou e ressoa como uma condenação ao laço entre mãe e filho, entendido como uma ameaça a ser combatida, não espanta essa repulsa. E chegaria a dizer que ela tem até um lado bem fundado em querer distância desse discurso.

Mas não podemos esquecer que foi Freud o primeiro a dizer que as histéricas diziam a verdade, que seu discurso era uma fala legítima e digna de ser escutada e levada em consideração. Muita água passou por debaixo dessa ponte desde que Freud escutou essas mulheres sem preconceitos, sem pressupostos e sem amarras. Muita coisa do que Freud descobriu virou saber, virou regra e virou jaula, novamente, para as mulheres e para as mães. Essa é uma das deturpações que mais me impressiona no discurso e na prática psicanalíticas: o quanto eles podem ser violentos com as mulheres. Violentos nas suas proposições e, pior ainda, na clínica. Sem quase nunca se botar em questão, sem nenhuma auto-crítica. Aqui na França, onde o discurso analítico tem uma força imensa, já tive a triste oportunidade de receber mais de uma mulher arrebentada por esse discurso. Em nome de que? Em nome do Pai Lacan?

Um dia quero escrever mais sobre isso, sobre mulheres, mães e psicanálise. Porque poucas coisas se aproximam tanto da prática analítica quanto a experiência da maternidade. Coisa que, talvez, Winnicott tenha percebido. Um dia, quem sabe.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s