Vida lá, vida aqui

Ou coisas que ganhamos e que perdemos vivendo fora do país. Ou as fases pelas quais passamos vivendo fora. Ou, os dilemas de ser estrangeiro. Ou… ah, chega de prolegômenos e vamos ao que interessa!

Vira e mexe aparecem uns textos de pessoas contando como é viver fora do Brasil e sobre o que aprenderam com isso. De pessoas que viveram em algum outro país por um curto período de tempo, por conta de estudos ou trabalho, ou de gente que foi por algum motivo e acabou ficando. O mais recente falava que viver fora é para os fortes. Depois de mais um período de férias no Brasil, diria que não sei. Talvez viver ali seja para os fortes. Talvez simplesmente viver seja para os fortes. Ou, talvez, viver seja apenas viver. E ninguém precisa de uma medalha de força e coragem por conta disso. É o que fazemos.

Logo que chegamos a um outro país, das duas, uma: ou nos fechamos num queixume sem fim e vivemos num gueto, fazendo programas brasileiros, entre brasileiros, falando português, comendo comida brasileira e comparando tudo sempre entre lá e cá. Ou temos a impressão de estarmos em um lugar que corresponde a algo profundo em nós mesmos, como se estivéssemos no lugar certo pela primeira vez na vida e finalmente pudéssemos viver. Conheço histórias dos dois tipos, de gente que foi e voltou sem nunca ter realmente vivido onde estava, gente que queria recriar sua realidade brasileira em um novo lugar, sem se abrir para absolutamente nada de novo. E histórias de gente que chegou e mergulhou nessa diferença que traz o delicioso sabor de uma liberdade inesperada. Uma espécie de coerência entre o lugar em que você vive e você mesmo. No meu caso específico, pertenço ao segundo grupo.

Quem vai para outro país por conta de estudos ou pesquisa parte em um contexto bastante privilegiado. As universidades, em qualquer lugar do mundo, costumam ser lugares em que a troca e a abertura ao outro é bem recebida e até incentivada. Por todo canto do mundo existem programas de intercâmbio, bolsas de estudo, pesquisadores convidados, parcerias entre universidades… Então temos uma chegada pela “porta da frente”, facilitada, bem vista, felicitada.

Mas esse modo de chegar, de início provisório, também cria uma bolha tão sectária quanto a do gueto: quem chega para passar um tempo, por maior que seja, como estudante, doutorando, pesquisador, estagiário não vai se confrontar com muitas facetas da realidade da vida em um outro país. Apenas quando você precisa lidar com tarefas muito cotidianas como declarar impostos, solicitar documentos, utilizar serviços de saúde, trabalhar é que começa a sair dessa zona de conforto de estar com um pé aqui e outro lá – estar em lugar nenhum – para se encontrar no lugar de estrangeiro vivendo noutro lugar.

Na minha experiência foi impactante a mudança desse lugar de estudante e pesquisadora convidada por uma universidade, o que me trouxe até aqui, para o lugar de alguém que iria ficar. Um choque de realidades. E ter que, de uma hora para outra, reaprender a viver.

Morar em outro país é ter que reaprender a viver. Em outra língua, em outra cultura, com outros códigos. Coisas evidentes como autenticar um documento ou chamar um encanador para desentupir um encanamento tornam-se, de um dia para outro, complicações praticamente insolúveis. Onde precisa ir? Com quem precisa falar? Como é que diz cano entupido em francês? Putz!

Então, depois dessa lua-de-mel que pode ser o começo de vida fora do seu país de origem, e que pode durar mais ou menos tempo, quanto mais sua situação pareça provisória e quanto mais seu encontro com o lugar onde vive seja superficial e não resvale muito nos aspectos difíceis… bem, depois do romance, vem a realidade. E ela parece tão menos agradável quanto menos você a compreenda.

Aquilo que você não entende e não sabe como fazer, como pedir ou como acessar esbarra, muitas vezes, na falta de abertura e na insensibilidade dos “locais”. Desencontros de costumes e linguísticos se misturam com preconceitos, racismo, xenofobia e você acaba acreditando que aquela recusa, aquele atendimento grosseiro, aquela dificuldade em fazer o óbvio são contra você. E leva muito tempo para conseguir distinguir o que é xenofobia do que é apenas um funcionamento burocrático e burro ao qual todos daquele país estão igualmente sujeitos. E isso se repete tantas vezes que você fica desencantada, com raiva, ressentida. Aquelas pessoas, aquele país, não te querem ali.

Isso é uma verdade que cedo ou tarde todo estrangeiro descobre. Quem quer estar ali é você. Então cabe à você uma boa parte do trabalho e do esforço. Isso não exime o país que te acolhe de fazê-lo de fato. E não exime as pessoas de aprenderem sobre hospitalidade. Mas você também vai ter que se mexer se quiser criar uma vida possível em outro lugar que não onde tudo era mais confortável. E, nossa, como tudo parece mais fácil e mais simples e mais bonito e mais saboroso e mais simpático e mais colorido e mais tudo de bom no Brasil desde que você não vive mais ali.

Um dia você acorda e se passaram três, quatro, cinco anos. Você finalmente percebe que o que era provisório tornou-se mais permanente do que imaginava. E então começa aquele período de arrumar a casa. Você se instala aqui, você se desinstala acolá. Casa permanente é diferente de casa provisória, onde você acampa. Você quer suas coisas, não todo aquele mundo de objetos, trecos e cacarecos que a vida fora te ensinou que são superficiais e dos quais você aprendeu a separar-se tão bem. Quer aqueles objetos de família, aquelas poucas preciosidades que deixou guardadas em algum lugar seguro, esperando que algum dia pudesse ter algo que novamente fosse próximo do que considera um lar. Quer as fotos, os papéis velhos e empoeirados, quer os livros, os quadros, os móveis da avó. Você fecha aquelas contas no banco que ficaram penduradas por lá, na esperança do “vai que”, você muda seu título de eleitor, seu domicílio fiscal e até seu domicílio no facebook. E abre conta, e declara imposto, e começa a trabalhar mais seriamente do que os “bicos” daquela vida provisória que não eram para durar mesmo.

E quando vai ao Brasil, acontece uma coisa estranha. Você se dá conta que a vida daquelas pessoas tão queridas, tão amigas, tão próximas acontece. E que você não faz parte dela. Vocês se falam, vocês trocam mensagens, e quando se encontram é uma alegria, uma celebração. Mas elas estão ali, prisioneiras do dia-a-dia que não é mais o seu. E você, pouco a pouco, passa a ter um dia-a-dia que lhes escapa também. Cursos que você não fez, encontros aos quais não foi, livros dos quais não participou, festas nas quais não esteve, mudanças, acontecimentos, oportunidades. Concursos para professor, vagas de emprego que são a sua cara… essas coisas chegam na sua caixa de mensagens quase como uma ofensa, uma lembrança daquilo que você não vai viver. E é quando você começa a se dar conta do que está perdendo.

Para morar em um outro país, é preciso perder o futuro que a gente teria no nosso país de origem. É preciso aceitar perder e, para isso, é preciso perceber que perdemos. Perdemos o que poderia ter sido se tivéssemos voltado. Perdemos onde teríamos chegado, perdemos o que poderia ter acontecido. Perdemos o famoso e angustiante “e se…”.E pouca gente se dá conta, no idílio amoroso dos começos de vida fora, ou nos meios revoltantes do choque de realidade de uma vida que se instaura que há algo que estão, constantemente, perdendo. E que cada dia a mais em um lugar estrangeiro é uma camada a mais de distância daquilo que poderia ter sido se você tivesse ficado. E então, quando você de repente se dá conta, vem a deprê.

Ou a crença no famoso plano B. Conheço gente que vive falando que está cansada do jeito como as coisas são no Brasil e que vai embora do país, sabe como é? Já falei disso antes e expliquei que esse é o alento que temos em acreditar em um plano B, em guardar a idéia de que basta estalarmos os dedos e irmos embora para reinventarmos a vida. Pois é, a crença no plano B de quem mora fora é o inverso, é aquela idéia guardada em algum lugar de que essa é uma situação provisória e que vamos voltar. Cedo ou tarde vamos voltar e vamos retomar tudo aquilo que ficou nos esperando e do qual temos lembrança.

Mas… pessoas, lugares e oportunidades não ficaram no esperando. Porque a vida não fica em standby para a gente ir ali ver se algo funciona ou se a grama do vizinho é mesmo mais verdinha. E, o que é mais difícil se dar conta e assumir, provavelmente nem vamos voltar.

Morar em um outro país é a prova de que se pode mudar a vida, mudar de lugar, criar recomeços. Então, claro que sabemos que não existe situação definitiva. E quando falo aqui de que não vamos mais voltar, isso não é um absoluto, uma certeza absoluta, uma imobilização. É apenas uma tomada de posição, uma mudança de mentalidade que acontece com todo mundo que decide, em algum momento da vida, investir seus esforços em algo tão grande ou importante quanto construir uma vida em algum canto. Porque mesmo que isso possa em algum momento mudar, seu estado de espírito ao fazer aquele investimento, ao fazer aquela aposta, é de que seria como um casamento, é de que seria “para sempre, até que a morte os separe”. E aí, você se joga. Mas antes de se jogar, ou enquanto está se jogando, ou depois mesmo de ter se jogado, olha e descobre que não vai viver umas tantas coisas. Que pareciam ser o seu destino ali onde estava. O que, por si só, é uma ilusão. Que você acalenta do mesmo modo que todo mundo acalenta em si ao menos uma certeza absoluta baseada em nada além de muita vontade: “se eu estivesse lá, seria isso ou aquilo”, “se eu tivesse ficado…”.

Quantas vezes você vai imaginar, no final do dia, como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai ter certeza de que sabe como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai acreditar que teria sido muito melhor se tivesse ficado… se embrenhando em uma espiral de constatações de perdas e de lutos e de tristezas por tudo o que perdeu e tudo o que não foi e que teria sido se tivesse ficado… Nossa, todo estrangeiro em um país outro que o seu vive, penso eu, essa fase dolorosa do “se eu tivesse ficado…”. E para alguns isso parece durar para sempre, a pessoa se fecha em um lamento e em um ressentimento sem fim, como se culpasse a vida, o mundo e todas as pessoas de uma escolha que foi só dela. Vira melancolia. Saudosismo. Outras tantas vezes, um patriotismo exagerado e fora de lugar. E nessas horas também as pessoas se fecham no gueto e se ufanam de serem brasileiras e comem e bebem e saem e falam e tudo é Brasil, Brasil de um Brasil que elas nunca viveram porque ele, simplesmente, não existe. É o Brasil ideal no lugar onde antes ficava o outro país ideal, o país dos sonhos. Que agora é bem real, cheio de paradoxos, de burocracias, de chatices e de desafios cotidianos. Infernal. Como é a vida, para aqueles que esperavam viver outra coisa que não aquilo que ela pode ser. Até que… um dia… muda.

Um dia você está voltando para casa depois do trabalho, ou de buscar as crianças na creche ou do que quer que seja e, de repente, se dá conta de que gosta dali. Você gosta daquela vida. Você gosta daquele lugar. Não, não do lugar do glamour da imagem que as pessoas fazem de onde você vive e de como é a sua vida mas do lugar mesmo, daquelas pedras ali no chão, da cor dos prédios no final da tarde quando tem sol, do gosto do pão que você come de manhã, do modo como a luz entra pelos galhos das árvores em cada estação do ano… Você gosta mais do que desgosta. E depois de pensar e acalentar e acariciar por um minuto ou dois mais uma daquelas imagens “e se” na sua cabeça, você enjoa e acha que seria muito, muito chato. Se “qualquer outra coisa”, você ainda preferiria estar ali. E é quando descobre que está voltando a habitar seu presente.

Um dos lutos mais difíceis para quem mora fora do Brasil é construir uma família em outro país e se dar conta de que seus filhos, mesmo sendo brasileiros, nunca serão realmente brasileiros como você. Eles falarão português com sotaque, no melhor dos casos. E seus gostos, seus cheiros, seus lugares, suas histórias e seus trajetos, suas cidades, seus percursos serão, para eles, apenas “as histórias da mamãe”. Não serão as marcas deles pois eles não estarão nos mesmos lugares, nos mesmos gostos, nos mesmos percursos, nas mesmas praias nas férias para terem, eles também, suas marcas e suas histórias ali, onde tudo para você foi tão importante. Talvez eles olhem tudo o que você apresenta para eles a cada viagem de férias no Brasil com o interesse, o carinho e o apreço de… um estrangeiro. Num certo ponto, eles serão sempre um pouco estrangeiros na sua casa e você na deles. Tem coisa mais estranha e difícil de lidar?

Mas você está aqui, ou ali, ou lá, ou como quer que se chame esse lugar que você escolheu. E a vida foi sendo vivida e você criou raízes. Para além da paixonite aguda e meio boba do princípio, para além da revolta dos confrontos e das diferenças, para além das perdas e dos lutos… eis você ali, ainda ali. Vivendo. E alguma coisa muda sempre que a gente decide viver o que está vivendo.

Quando fui ao Brasil dessa vez, sentia um medo de chegar lá e não encontrar o país que conhecia. Por motivos óbvios, ligados ao momento atual, à surrealidade do que se vive no meu país, ao absurdo, ao grotesco da conjuntura política, das relações violentas que se instauraram entre as pessoas, dass mentalidades podres e pobres que se desvelaram e que nunca imaginei tão podres e tão pobres… enfim… Tantas coisas aconteceram por ali que eu nem sonhava possíveis. E às quais eu só conseguia responder com perplexidade, apreensão e desesperança. Mas esse medo tinha não apenas uma justificativa macro, como também micro, pessoal, subjetiva… de chegar ali e não encontrar mais aquele futuro que eu tinha, não encontrar mais o meu “e se”. Não me encontrar mais ali.

Pois um dia, cedo ou tarde, depois que você vai embora, você não se encontra mais naquele seu lugar quando volta. Você não se encontra, pois já está em outro lugar. E tudo fica muito estranho, tudo ganha ares de despedida. Porque você foi indo, foi indo, foi indo tanto que, finalmente, foi.

“Um dia eu volto, quem sabe…” diz a música. Toda música de quem foi e um dia vai voltar é lamento. E tem uma hora que, de tanto ir e voltar, você vira de lugar nenhum. O que talvez seja um alento para algumas gentes. E uma aflição para outras.

A vida por aqui é. Bem. Normal. Com os prós e contras que todo lugar tem. Tem conta para pagar, tem casa para cuidar, tem filho para levar na escola, tem dia de chuva, tem momentos de tédio, tem passeios, tem descobertas, tem resfriado, vinho ruim, bad hair day, brincadeiras, livros, gente interessante, conversas… A vida por aqui tem um monte de saudades de quem está longe. E um pensamento para cada um deles a cada dia. E uma vontade de compartilhar umas tantas coisas. E de se queixar de outras e poder reclamar e terminar rindo junto. Porque tudo é tão besta quando se está entre amigos. E tanta coisa fica leve com a família por perto.

Então, obrigada para vocês do lado de lá por existirem, por não serem apenas memória e continuarem vivos e presentes. A distância te ensina, quando você mora em outro país, sobre o que é realmente essencial e que você não perdeu quando foi embora: as pessoas. As pessoas estão aí. E aqui. E lá. E acolá. Elas estão para você. E você para elas. E o resto não tem, na verdade, nenhuma importância.

Fui.

 

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