Aquela história de ter ou não filhos…

Noutro dia fiquei sabendo que existe um movimento childfree. Foi por meio de um post do blog da Isa, que eu leio e do qual eu gosto muito. E ao mesmo tempo que fui informada sobre o movimento, descobri também uma querela entre as mulheres childfree e as mães, ofendidas pelo modo como as primeiras se referem à maternidade, às mães e a seus filhos. Não contente, dei uma olhada também em algumas dessas páginas childfree. E encontrei alguns posts bem interessantes sobre legalização do aborto, controle de natalidade, anticoncepção e sobre a dificuldade em se ter acesso à uma laqueadura, coisa da qual nem desconfiava. Mas a parte menos interessante da história foram os posts, montagens e comentários bastante agressivos, cheios de ódio às mães e às crianças, como se a culpa da obrigação em ser mãe fosse das mulheres que são mães e de seus filhos e não uma construção social, cultural, histórica a qual todos endossamos de alguma maneira. E, lógico, os contra-ataques das mães alegando que mulheres que não têm filhos não são completas, não se realizam, são mal amadas, não tem Deus no coração, vão morrer sozinhas e mais um tanto de coisas que são de um clichê, de uma falta de reflexão que nem sei se preciso explicar. Ou se quero. Fato é que lendo tudo isso me deu uma vontade de escrever algumas coisas, não sobre a parte bobinha, infantil e quase ridícula desses insultos que eu li por aí atribuídos ao movimento childfree, nem das respostas ainda mais tolas e sem inteligência alguma, mas sobre algumas coisas bem legais que essa discussão permite pensar. E que dizem respeito a poder se questionar sobre querer ou não ter um filho. Porque, sim, mulher, uma das coisas que você precisa aprender a começar a se perguntar, cada vez que a idéia passar pela sua cabeça é: por que eu quero ter um filho? Você não apenas precisa ter o direito de se colocar essa questão, como tem a obrigação de fazê-lo. E de se virar para encontrar uma resposta. Difícil? É. Então, vamos por partes.

Em uma outra vida eu fui casada. Sim, pois é, tive um casamento anterior ao meu encontro com o cara-metade, com o qual tenho dois rebentos. Então, nessa época desse primeiro casamento, passamos muitos e muitos anos sem querer ter filhos. E por que? Porque a cada vez que pensávamos e discutíamos a respeito, parecia não fazer o menor sentido.

O mundo está superpovoado, já não temos mais nenhuma obrigação de garantir a sobrevivência da espécie. E, enquanto espécie, a humanidade não tem se mostrado tão viável assim, né? Usamos, exploramos e destruímos tudo ao nosso redor, muitas vezes sem necessidade. Matamos, sujamos, poluímos, extinguimos… o planeta, a natureza, os recursos naturais, as outras espécies vivas…  E nem podemos dizer que entre nós somos melhores do que com tudo o mais que nos cerca, se considerarmos a maneira como o ser humano trata o seu semelhante. Nesse quesito também não estamos para dar exemplo de espécie que cuida ao menos da própria preservação. Violência, desonestidade, mentira, desigualdade, exploração, crueldade, humilhação, preconceito, racismo, misoginia, xenofobia, homofobia… para que impor tudo isso a um outro ser? Para que criar alguém e colocá-lo nessa fria? Apenas para compartilhar nossa própria desgraça? Colocando tudo isso na balança, com o primeiro marido, encerrávamos cada conversa com um tom de perplexidade, nos perguntando por que mesmo teríamos filhos em um contexto nefasto como esse. E não encontrávamos respostas.

Algumas vezes, amigos com filhos participavam dessa discussão. Começavam animados com ganas de nos convencer e terminavam deprimidos. Na época eu sentia uma forma de desespero dos casais amigos com filhos em tentar convencer todos ao redor a, com o perdão da palavra, chafurdar na mesma merda que eles. Porque todo mundo na mesma merda é desgraça compartilhada. E, mais do que isso, porque quando todo mundo segue os mesmos rumos que a gente, não nos sentimos obrigados a questionar nossas decisões. Se tem uma coisa que perturba essa nossa espécie humana é a diferença, porque quando alguém pensa diferente isso nos obriga a pensar na vida que levamos. E nem sempre chegamos a boas conclusões quando nos embrenhamos nessa auto-análise.

Uma época a dúvida veio. Convencidos que estávamos, abrimos uma brecha e cogitamos… e se? Ao menos para mim, bateu o medo do arrependimento. E se não tivesse filhos e mudasse de idéia depois, quando fosse tarde demais? Porque para muita coisa nessa vida a gente pode guardar a ilusão de que sempre podemos voltar atrás, mudar de idéia, mudar de rumo e essa ilusão nos dá o consolo de que nossas decisões não seriam tão definitivas, tão drásticas. Mas quando o assunto é filhos, mesmo com as aberrações e com as inovações tecnológicas que tentam empurrar esse limite cada vez mais para frente, existe um fato e existe um limite, um limite do próprio corpo da mulher que, mesmo turbinado, uma hora não dá mais conta. Fim. Acabou. Não vai acontecer. Quem segura a onda de uma decisão assim? Ah, mas sempre pode adotar. Claro que pode. Mas adotar dificilmente é a primeira opção na cabeça de qualquer pessoa que em algum momento da vida cogita ter filhos. Sigamos.

Eu por medo, ele por não sei que motivação, certamente com um monte de clichês agindo nas nossas cabeças, um monte de pressão social, familiar e o escambau para dar um up nas nossas dúvidas e nos nossos receios, enfim, tudo junto e misturado e eis que decidimos mudar de idéia e… não veio filho nenhum. Isso sim é um golpe na nossa onipotência, né? Achamos que podemos decidir se sim ou se não, por quais motivos, quando, como e com quem e daí decidimos tudo e a vida, essa danada, se encarrega de não seguir o nosso script. E a paulada foi tão grande que o casamento acabou. Não por isso, minha gente, que nenhum casamento acaba por não poder ter filhos assim como nenhum casamento fica em pé quando temos filhos apenas pelo fato deles existirem. Mas esse golpe somado a outros, à vida, às mudanças… fim de uma história. Que foi muito boa e feliz. E que não teve filhos.

Roda o filme e lá vou eu pela vida elaborando esse luto de não poder ter filhos. Não queria, depois quis e não deu. E isso doeu. A contrariedade doeu mais do que o fato em si, provavelmente. Isso de querer e não poder. Somos mimadinhos, nós humanos, né? E o tempo foi passando e eu me assentei com essa história e criei uma vida que me fazia muito feliz. Feliz mesmo, não aquela felicidade de foto em rede social para parecer a mais feliz do mundo e ganhar muitos likes. Amava meu trabalho, meus amigos, minhas gatas, minha casa, minha família, meus amores, minhas viagens… Tudo ia bem, estava bem na minha própria pele, coisa mais rara dessa vida de se conquistar. Vão por mim, eu sei do que estou falando não apenas por experiência pessoal como também por vício profissional, encontrar gente verdadeiramente bem encarnado na própria pele é mais raro que encontrar trevo de quatro folhas, ver uma estrela cadente ou ganhar na loteria.

Nessa época boa, conheci o cara-metade. E ficamos juntos. E o bonito disso foi que ficamos juntos quando eu não estava “precisando de homem”, “desesperada para casar”, “com medo de morrer solteira” nem nada dessas frases atrozes com as quais as pessoas em geral insistem em presentear qualquer mulher que, a partir de uma certa idade, não esteja casada e com filhos. Já tinha vivido essa fase, já tinha ido embora, já estava em outra. Pessoalmente, profissionalmente e, o mais importante, emocionalmente, eu já não me sentia mais na obrigação de provar nada para ninguém. Nem para mim mesma. Vim, vi, venci. Ponto. E encontrar um cara-metade nesse estado de alma é como um bônus, não é uma necessidade, nem uma busca. É um acontecimento.

Quando, certo dia, esse sujeito me disse que teria filhos comigo, acendeu uma luzinha ali dentro do meu ser: “filhos? como assim? por quê?”. A vida estava tão boa, onde os filhos se encaixavam nessa equação? E então aconteceu uma coisa meio inesperada (calma, não fiquei grávida, não nesse dia). O inesperado foi que, pela primeira vez, eu pensei que gostaria de construir uma família com esse homem. E esse motivo, que foi menos uma racionalização do que uma evidência, foi o que me serviu como resposta para a questão do por que ter um filho.

Essa é a resposta? Não, essa é a minha resposta. Poderia ter sido outra. Poderia ter sido qualquer uma que me levasse à conclusão oposta. Respostas são pessoais e não merecem ser generalizadas. Minha resposta serve apenas para ilustrar uma coisa que penso que esse movimento childfree provoca com sua postura por vezes tão agressivamente contra a maternidade: é obrigatório colocar a questão.

Para sustentarmos posições e decisões nessa vida que vão contra a maioria, contra o estereótipo, contra as convenções sociais, somos obrigadas a pensar muito, a nos munir de argumentos e, principalmente, a termos um razoável grau de conhecimento de nós mesmas e daquilo que nos mobiliza. Por quê? Porque para defender uma posição dissonante, que vai ser atacada das formas as mais baixas e por todos os lados, é preciso força. E a força vem da reflexão, do pensamento, do autoconhecimento e, ouso dizer, da coerência consigo mesma. Então, só posso supor que talvez uma boa parte das mulheres que aderem a esse movimento childfree tenham um razoável conhecimento delas mesmas, uma razoável experiência de reflexão, de luta consigo mesmas até terem chegado ao ponto de decidirem não ter filhos. Porque decidir isso, afirmar isso, na nossa sociedade e nos dias de hoje que parecem tão bizarros e obscurantistas, é quase uma heresia.

E elas deveriam apenas ter o direito de decidir não terem filhos. Sem que ninguém tenha que questionar, opinar, condenar, criticar. Ninguém tem nada com isso. É um direito das mulheres não ter filhos. Simples assim. Que elas tenham que se agrupar para se apoiar mutuamente contra essa enxurrada de condenações moralistas, cruéis e equivocadas, só prova o quanto é difícil sustentar uma posição dissonante. E o quanto precisamos de companhia para não sucumbirmos sozinhas.

As mulheres que são mães, ou as que querem ser mães, teriam muito a aprender sobre esse questionamento de si com as mulheres que não querem ter filhos. Sobre perguntar de onde veio essa vontade, sobre se indagar até que ponto somos manipuladas, condicionadas, educadas, pressionadas, seduzidas e obrigadas à maternidade, como se essa fosse a única via para uma mulher existir. Deveríamos poder nos perguntar a cada momento sobre o que condiciona nossas decisões, o que está em jogo, o que movimenta os nossos quereres. O que norteia o nosso desejo? O quanto da gente? O quanto do outro?

E aí eu penso que também as mulheres childfree poderiam e deveriam se desarmar um pouco em relação às mulheres que são mães. E orientar os ataques a quem de direito. Porque mulheres mães alienadas, que são levadas pelo mar dos acontecimentos sem pensar, sem se perguntar, achando que tem que ser assim porque disseram, porque seus pais, porque Deus, porque o filme romântico que assistiram… bom, isso tem de monte. E é muito chato mesmo ter que argumentar com quem nem ao menos se dá conta de que está fazendo papel de boneco de ventríloquo. Mas… agredir essas pessoas, serve para o que exatamente? Ironizar suas escolhas, que nem escolhas são, a quem serve essa e outras tantas guerrinhas entre as mulheres?

Na experiência da maternidade existe o insondável. Você pode se colocar em risco, pode se colocar em questão, pode decidir ter ou não ter filhos. E nada disso garante que você vai ser feliz o tempo todo com a decisão que tomou. Senão não seria a vida, seria mais um filminho bobo, né? Pode ser que mulheres que decidam não ter filhos se arrependam. Pode ser que mulheres que decidam ter filhos se arrependam. Isso não tem nada a ver com a decisão, isso pode ser apenas o curso da vida. As coisas mudam, decisões acertadas em uma época podem não fazer mais sentido depois. E, com filhos, essa mudança não faz com que se possa voltar atrás, nem para quem teve, nem para quem não teve. E tudo bem. Ou não.

Sou feliz com a decisão de ter tido filhos. Principalmente, sou feliz com a conjuntura de tê-los tido mais tarde, e de não ter a sensação de que perdi coisas, de que deixei de fazer coisas, pois vejo tudo o que fiz e não gostaria de ser aquela pessoa que tinha aquela vida mais do que gosto da vida que tenho hoje. Tem momentos difíceis? Tem. Tem perrengues? Tem. Mas fiz a melhor escolha.

O que vale para mim não precisa valer para nenhuma outra mulher. Tenho grandes amigas que não tiveram filhos. E outras tão próximas quanto e com filhos. Nenhuma delas escapa de seus momentos de dúvidas, de arrependimento, de questionamento. Nenhuma. Nenhuma delas vive uma vida sem dificuldades. Mas nenhuma delas está totalmente infeliz. Qual a dificuldade, ao menos entre mulheres, de respeitarmos e apoiarmos que cada mulher tenha o direito de ser e de viver como quiser?

 

2 comentários sobre “Aquela história de ter ou não filhos…

  1. Seus textos são excelentes, acho uma pena não divulgá-los na sua página no facebook. O alcance poderia ser muito maior e trazer reflexões de alto nível para a blogosfera materna. Por que de post sobre BLW, criação x/y/z aquilo ali já está cheio! Hahahaah. Um abraço!

    1. Obrigada, Francielle. Mas sabe que eu coloco os meus posts na pagina do facebook assim que os publico aqui? O problema que descobri com o tempo é que o facebook deve ter algum algoritmo bem safadinho que, quando publico qualquer coisa de não importa qual blog, a publicação tem milhares de acesso e quando é do meu proprio blog, apenas algumas centenas. E isso porque eles devem ter algum tipo de comando que restringe a divulgação a cada vez que é uma publicação de site meu e dai não aparece na sua timeline. Por que fazem isso? Penso que é para que a gente se sinta motivado a pagar, que é o que eles conseguiram desde que começaram a publicar na timeline das pessoas de maneira seletiva e não absolutamente tudo que todos os seus contatos postavam. Enfim, minha hipotese. Um abraço, Alessandra.

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