Mas no meu tempo…

Vou começar pelo óbvio, que parece que as pessoas que adoram esse mote desconsideram: o seu tempo é hoje. Isso posto, vamos aos fatos.

Vira e mexe vejo pessoas discutindo a respeito da infância e de seus filhos utilizar esse argumento: “ah, mas no meu tempo é que era bom, era assim, era assado”. De que tempo estão falando? Podem estar se referindo ao tempo de suas infâncias. Mas esse era mesmo o seu tempo?

Quem argumenta dessa maneira desconsidera que o tempo de nossa infância é tudo menos o nosso tempo. Ele é, essencialmente, o tempo de nossos pais, de nossos avós, daqueles que são os adultos daquele tempo e que fazem com que a vida seja tal qual ela é. Aquele tempo é o tempo de quem tomou as decisões, não de quem as vive de forma passiva.

O nosso tempo é o de hoje, quando nos tornamos adultos e participamos ativamente na criação desse mundo que nos cerca. E é aí que talvez possamos entender melhor porque existem pessoas que gostam tanto de dizer “no meu tempo…”

No meu tempo te libera de qualquer responsabilidade pela vida tal qual ela é hoje, como se o mundo atual fosse um acaso que tivesse despencado sobre a sua cabeça sem que você nada tenha feito para isso. No meu tempo as crianças brincavam livres pela rua. E quem é que guarda as crianças de hoje em dia trancadas em apartamentos e condomínios fechados, coladas na TV, no tablet e no celular? Ah, mas hoje em dia é muito perigoso deixar as crianças na rua. Sim, e de quem é a responsabilidade por esse perigo, de um mundo que ficou assim a sua revelia ou de escolhas que fizemos, enquanto sociedade, por manter desigualdades e criar tensões sociais que aumentam diretamente a violência? Escolhas e decisões das quais você participa e as quais você reforça quando opta por se encastelar no seu prédio cheio de câmeras e fios de arame farpado como uma vítima impotente de um destino cruel ao invés de reivindicar a rua e de agir para que ela possa ser ocupada até mesmo pelas crianças.

A pessoa que argumenta com o famoso “no meu tempo” se exime de pensar, de se implicar no tempo em que ela é adulta e potencialmente agente da situação, se acomoda e se acovarda numa situação dada, que ela alegremente transmite aos seus filhos na maneira como os educa. Sem nenhum questionamento, sem nenhuma rebelião, apenas aceitação. Dizemos “no meu tempo” como se o passado que parece tão melhor fosse obra nossa e o presente fosse fruto de qualquer um menos de nós mesmos.

Não foram os seus filhos que fizeram o tempo de hoje, eles farão os tempos de amanhã e talvez possam fazê-lo muito melhor do que aquilo que fizemos. Mas se o tempo atual está tão pior do que o tempo da sua infância é muito provavelmente porque você trabalhou muito menos do que os seus pais para construí-lo bem. Ou porque se acomodou na idéia do “meu tempo” como um tempo sempre passado e não se deu conta que precisaria agir e fazer um grande esforço para ter um tempo que julgasse bom.

As pessoas que gostam de dizer “no meu tempo” para discutir infância e crianças são as mesmas que gostam de dizer “nós fizemos isso e sobrevivemos”. O argumento do sobrevivente é a sequência óbvia para o argumento da nostalgia do tempo que passou. E ao mesmo tempo é sua negação. Porque quem viveu num tempo tão maravilhoso não precisaria ser um sobrevivente, né? Não teria que justificar que passou por situações difíceis ou que foi o alvo de decisões questionáveis e que conseguiu ultrapassá-las. Se “o meu tempo” tivesse sido tão bom assim, por que você teria que ter “vivido e sobrevivido” a ele?

A infância é uma fase da qual guardamos lembranças que misturam realidade e ficção. Muito do que foi nossa infância nos resta como memória à partir do que nos contam os adultos. São os adultos, os verdadeiros senhores daquele tempo, que nos repetem o que aconteceu através de seus relatos, de fotos, de vídeos, de testemunhos. E nós acreditamos nessa versão porque ela é parte importante da colcha de retalhos que precisamos montar cada um de nós a fim de termos alguma referência do que foi que vivemos. Boa parte, sobretudo de nossa primeira infância, fica em algum lugar recôndito de nosso ser, esquecida, presente apenas em traços que quase não são memórias… um cheiro, um gosto, um clima, um déjà vu. Existe aquilo de que lembramos e aquilo que criamos como lembrança e tudo isso nos compõe. Muitas vezes em análise as pessoas chegam por conta de um sofrimento decorrente entre essa memória criada e alguma sensação dissonante de que algo ali não bate e o trabalho é feito no sentido de aproximar essa sensação de discrepância de algo que pareça uma memória mais coerente com aquilo que a pessoa sente ou intui. Tudo isso para dizer que “no meu tempo” desconsidera também que esse tempo tão bom é uma construção, repleta de muitas verdades e de muitas farsas, que serve para quem você é hoje mas que pode conter em si muitas áreas de desconhecimento, de sombra ou, até mesmo, de mentira.

Uma mentira possível é aquela que os advogados do “no meu tempo” também gostam muito de propagar: a de que nas suas infâncias tão felizes, seus pais eram muito mais relaxados, tranquilos e menos pressionados do que os pais de hoje em dia em relação à educação de seus filhos. Como se os pais tivessem, naquela época, a sabedoria de deixar seus filhos brincando entre si enquanto conversavam alegremente entre adultos, cada qual livre para viver sua vida de criança ou de adulto sem que um interferisse no prazer do outro. As pessoas que lançam essas memórias de pretensa liberdade de adultos em relação aos seus próprios filhos, como se nos pais sim tivessem tido a capacidade de não ficarem escravizados ou assombrados pela infância e por suas crianças, esquecem de perguntar a esses mesmos pais e, especialmente, às suas mães, como é que era realmente o cotidiano de seus cuidados.

Quem se dá ao trabalho de confrontar idealização com realidade indo falar com os próprios pais talvez perceba que, sim, eles tinham a tranquilidade de deixar os filhos brincar na rua. Ou brincar longe deles durante uma reunião entre amigos. Mas essa aparente descontração não significa que eles não estivessem repletos de preocupações ou de pressões em relação aos seus filhos e à sua criação. Se na época de nossos avós o melhor que se podia oferecer para uma criança era que ela fosse à escola e pudesse ao menos saber ler e escrever, é justamente na geração de nossos pais, aquela em que há um salto por conta dos estudos para muitas e muitas famílias, que oferecer aos filhos apenas a alfabetização não é mais suficiente. É importante ir além, é importante ir para a faculdade. E poder trabalhar e ganhar a vida decentemente. Então, possivelmente nossos pais não estavam preocupados com agrotóxicos na comida (porque isso apenas começava a existir) ou com excesso de hormônios no leite de vaca (porque o leite era melhor e menos turbinado naquela época). Mas eles se preocupavam, se estressavam, se sentiam pressionados por eles e por seus pares a nos darem o melhor daquilo que se concebia como melhor naquela época. Ou seja, a maternidade e a paternidade nunca foi algo sem pressão, sem questionamentos, sem críticas ou sem dúvidas.

Ou talvez sim, tenha sido. Historicamente, ter filhos era outra coisa até o momento em que a infância passou a ocupar o centro das atenções das famílias. Mas isso aconteceu quando a família, que era extensa e englobava várias gerações e vários graus de parentesco passou a se centrar na família nuclear. E as crianças, que eram mini adultos considerados apenas como mão de obra se tornaram, pouco a pouco, crianças na acepção que se tem do termo nos dias de hoje. Só que essa mudança não aconteceu da geração anterior para a nossa, como parecem pensar os defensores do “meu tempo”, um tempo onde a infância seria totalmente diferente do que se vê nos dias de hoje. Não, a idéia de infância como existe hoje, assim como a idéia de família e até a idéia de centralidade da infância são construções históricas que começaram mais ou menos no século XVI. Para quem tem dúvidas, basta ler Philippe Ariès. Já faz alguns séculos que a infância e as crianças estão “no centro” das atenções das famílias, mesmo que o que possa ser considerado como foco de atenção possa variar de uma geração a outra.

Então, as pessoas do “no meu tempo” e do “fiz e sobrevivi” parecem precisar desses argumentos que as colocam em um passado ideal sem nenhuma responsabilidade pelo hoje que existe para fazer frente a algo que as angustia muito, assim como angustia a qualquer que tenha filhos e que elas chamam de “centralidade dos filhos” na vida familiar atual. E, para isso, elas citam exemplos de pessoas preocupadas com educação, alimentação e todos os outros aspectos da criação dos filhos como potenciais escravos dessas crianças, que se tornariam tiranos. Além de ser um argumento de gente que não quer se mexer e que parece ficar incomodada que outros queiram, me espanta a cada vez que o escuto, principalmente quando usado para falar de nosso filhos, sua mediocridade e sua pobreza de espírito.

Se formos traduzir, esse argumento das pessoas que se irritam com quem busca informações, alternativas, referências e, em suma, se questiona permanentemente é uma espécie de elogio da ignorância e do imobilismo. Como “no meu tempo” era diferente e minha memória construída desse tempo é boa e como, corroborando o que eu acredito está o fato de que eu estou aqui, estou vivo e me julgo alguém legal, logo, no que diz respeito aos meus filhos, basta replicar o que eu vivi. Não importa que se passaram 30 anos entre a minha infância e a dos meus filhos, não importa que nesse meio tempo descobriu-se que açúcar causa obesidade, por exemplo. Se eu tomava refrigerante e estou aqui, o pimpolho também vai tomar. Porque, de que importa que as informações surjam, que pesquisas sejam feitas, que pessoas questionem, que novos modos de entender apareçam?

O que essas pessoas fazem é um elogio da ignorância e da mediocridade contra quem quer que pense ou aja diferente. E que é rapidamente taxado de excessivo, escravo dos filhos, criador de tiranos em potencial. Na sua preguiça em rever a si e aos seus conceitos, na sua inércia em agir no mundo e no tempo atuais, acomodam-se no “seu tempo” e no “eu vivi” e se regozijam uns com os outros a cada vez que aparece um novo texto sobre maternidade sem complexos, sem cobranças e sem neuras. Todos os outros ficando do lado das neuras e da cagação de regra.

Será mesmo que os pais dessas pessoas, os pais e as mães dessas pessoas que pregam a coolitude a qualquer preço em relação à maternidade e à paternidade estavam assim tão tranquilos no tempo deles? Ou será que são esses pais que estavam se esforçando em tudo aquilo que eles julgavam essencial na época para mudar o mundo, para construir um mundo melhor e para dar a esses filhos melhores condições e um ponto de partida diferente do que tiveram? Se os pais dessas pessoas tivessem ficado com essa lógica que elas adoram do “no meu tempo”, eles não teriam ido para a escola além da quarta série, nem teriam ido para a faculdade, não teriam viajado para conhecer o mundo, nem teriam ido a museus, peças de teatro ou concertos de música. Porque “no tempo” dos nossos pais, nossos avós tinham outras preocupações, outras prioridades, outras pressões e, portanto, outras ações em relação aos seus filhos.

Se toda gente ficasse acomodada nessa lógica do “meu tempo”, crianças não seriam vacinadas porque houveram gerações de pessoas para as quais não haviam vacinas e que, mesmo assim, sobreviveram. Crianças nem iriam à escola porque houveram gerações de crianças que iam diretamente ao trabalho e, quando muito, a centros de formação técnica, que é o que existia na Idade Média tardia. Crianças cujos pais foram apenas alfabetizados se preocupariam apenas que seus filhos soubessem assinar seus nomes. E pais que viveram a fome se preocupariam que seus filhos pudessem apenas comer e não comer o mais saudavelmente que cada época pode proporcionar. Apenas para viajar em alguns exemplos.

E é bom lembrar que estamos falando apenas de uma certa camada da sociedade, de uma certa parte desse país. Essa camada que mais ou menos compõe a classe média atual das grandes cidades. Porque em muitos lugares do Brasil (e até mesmo do mundo) crianças brincam nas ruas livremente, crianças brincam entre si enquanto seus pais conversam, crianças andam descalça e não ficam na frente do computador, da TV e nem cumprindo agenda de ministro. Aliás, se essas pessoas do “meu tempo” olhassem um pouco para além de seus próprios umbigos, veriam que as questões delas são também questões específicas, não generalizáveis, nem historicamente e nem ao menos em um mesmo país, em uma mesma classe social, em uma mesma cidade. São questões preguiçosas de gente que, ao invés de assumir suas escolhas por ficar na lógica do “meu tempo”, do “fiz e não morri” para se oporem às crianças tiranas que tanto as assombram, preferem ainda uma vez não assumir responsabilidade nenhuma, nem por suas posições na vida e em relação aos filhos, criticando e jogando a culpa nos outros, que são mostrados como os equivocados.

Nos tempos de hoje temos a vantagem e ao mesmo tempo a condenação de termos em mãos o acesso à muitas e desencontradas informações. E isso, em todos os domínios, inclusive no que diz respeito à infância. Para muitos de nós, isso funciona como uma espécie de fantasma, como se tivéssemos que dar conta de tudo o tempo todo sem errar. Consequências do nosso tempo, que se torna angústia e sofrimento para muitos e essa reação tosca de recusa para outros. Será mesmo que para acabar com a angústia é necessário se fechar nesse passado ideal e nessa recusa em se mexer? Se isso funcionasse para acabar com essa angústia, por que então as pessoas do “no meu tempo” se sentem tão propensas a escrever sua defesa permanente de sua posição?

Em tempo, as pessoas falam da centralidade da infância como se a criança de hoje fosse o centro do mundo e tudo girasse em torno dela. E, para defender esse argumento, usam o exemplo das crianças que fazem milhares de atividades e cujos pais passam os dias a levar e trazer e a seguir crianças em atividades e programas de crianças sem fim. Nem vou mencionar novamente o quanto isso é uma realidade parcial, localizada no tempo e no espaço e totalmente diferente do que ocorre na imensa maioria do Brasil. Limito-me à perguntar o que sempre penso quando escuto essas afirmações: será que isso é mesmo uma prova da centralidade da criança nas famílias atuais? Será isso mesmo uma demonstração da tirania das crianças e das infâncias que escravizam os adultos? Ou será que é justamente o contrário, uma demonstração de um modo de agir no qual a criança é apenas refém de um leva e traz infinito, através do qual ela é delegada a tudo e a todos, na esperança e na aposta de que toda essa ação, de que todas essas atividades, de que todas essas outras pessoas consigam preencher um vazio daquilo que justamente não podemos, não queremos ou não conseguimos dar, a condição e a importância central que essa criança deveria ter substituída por uma performance que serve de vitrine e de justificativa para os outros? Será que a criança tirana não é, na realidade, a criança que, frente a essa ausência, frente a essa falta do essencial, começa a adoecer, a se rebelar, a dar trabalho e dar problema, convulsionando frente a esse contexto que mais a violenta do que a leva em consideração?

O que será que essas crianças de hoje vão dizer do “seu tempo”?

 

Desacorçoada – ou como parei de gritar com a minha filha

Algumas vezes, quando perguntava à minha avó como ela estava, ela respondia: “ah, hoje estou desacorçoada…”, o que era algo entre o desanimada e o triste e sem esperanças, sem precisar assumir nenhum deles. Desacorçoada era o bom termo para ninguém encher o saco dela dizendo que ela devia estar bem ou pedindo explicações de seu desacorçoamento. Desacorçoada ela ficava em paz para estar triste, sem esperanças ou desanimada o quanto quisesse. Ou precisasse.

Então, eu andei desacorçoada nos últimos tempos. Não o cansaço de ser mãe de dois, não a gastura do verão de dias quentes daqui do sul da França, que eu nunca gostei de verão, mesmo sendo brasileira… não, desacorçoada mesmo. Eu explico.

Nessa história de educação com apego, que é simplesmente você tentar educar os seus filhos de forma respeitosa, tratando-os como seres humanos, respeitando suas vontades, seus limites, suas necessidades e tudo o mais que o respeito a um ser humano inclui ou deveria incluir, muitas vezes nos vemos confrontadas com um desafio hercúleo que é aquele de tentar dar o que não tivemos: como educar sem violência se não temos nenhum registro disso na nossa própria experiência?

Dizem que ninguém dá aquilo que não tem e estou convencida de que aquilo que temos para dar se constrói ao longo de nossas experiências, de nossa história, de nossa vivência, especialmente da infância e da primeira infância. O que temos para dar se constrói na dependência dos outros, do que recebemos, da forma como fomos recebidos nesse mundo e a ele fomos apresentados. Então, o que podemos dar ao mundo será sempre um bom tanto em consequência disso que tivemos desde o início. O que não quer dizer uma condenação, como se uma experiência ruim pudesse colocar absolutamente tudo a perder. Felizmente, não somos apenas uma única experiência, quer ela se chame nascimento, amamentação ou qualquer outra coisa de igual importância nesse começo de vida. Mas… que conta um bocado, conta.

E daí a gente vira adulto e decide que quer dar um monte de coisas aos nossos filhos, o que significa, nesse meu contexto aqui, não materialidades, mas dar um certo tipo de criação, apresentar o mundo de uma certa maneira, receber e se relacionar com essas crianças de um certo jeito que é o que acreditamos ser o melhor para nós e para eles… o mais ético, o mais respeitoso, o mais cuidadoso, o mais amoroso… E aí a gente descobre o quanto é difícil. E um dos motivos – e atentem bem ao “um dos”, porque não é o único – é que possivelmente é nessa hora de querer oferecer algo que a gente se dá conta que não sabe muito bem de onde tirar.

Vejam bem, eu não vou fazer aqui um relato de uma infância infeliz e violenta, porque não é esse o caso. Existem infâncias muito mais radicalmente violentas e complicadas do que a que eu vivi, então é sempre importante nuançar as coisas. Digamos que, na minha história, um bom resumo estaria na frase ouvida à exaustão durante toda a minha infância “mas criança não tem querer”.

Criança não tem querer e a pessoa aqui foi virar psicanalista, sacaram? Na psicanálise, o que move o ser humano, do primeiro ao último suspiro é justamente o querer. Sem desejo, não há nada que se possa chamar de vida ou de humanidade em uma existência. Que tal? Ah, para evitar equívocos, em psicanálise, a primazia do desejo não significa dizer que o ser humano faz tudo o que ele quer, ou que ele faz tudo o que for preciso para alcançar o que quer. Seria assim – e muitas vezes é mesmo – se não fosse por conta de outra coisa linda que o ser humano tem que é a capacidade de renunciar ao todo de seu desejo realizado em prol de uma coletividade. Ou melhor, não é que cada humano generosamente renuncia ao seu desejo totalmente satisfeito em prol de satisfações parciais partilhadas por todos, que nós não somos esses seres altruístas não. Mas somos forçados a isso pelo fato de termos inteligência o suficiente para perceber que esse desejo que tenta se realizar a qualquer preço é sinônimo de vencer pela força e subjugar os mais fracos. E, nesse outro jeito de funcionar do mundo, haveria apenas um mais forte que subjugaria todos os demais, ou seja, só um que teria tudo o que deseja enquanto que os outros ficariam com aquilo que eu ouvia quando criança, sem ter querer. Freud, Totem e Tabu. Leiam, é um belo mito das origens, no sentido mítico mesmo, daquilo que fundaria um pacto civilizatório. Pois bem.

Todo mundo tem querer, até mesmo as crianças. E os velhos. E os loucos. E os deficientes de todos os tipos. Isso é, em suma, o que aceitamos quando aceitamos viver em sociedade. Todos têm querer e então não vai dar para todos terem tudo o que querem. Então vamos compartilhar esses quereres, e que cada um realize um bocadinho do seu. O que é melhor do que o domínio do mais forte sobre o mais fraco. A não ser para o mais forte que pode facilmente esquecer que mesmo no mundo dos animais bem mais inteligentes que nós, como por exemplo entre os leões, o mais forte um dia também envelhece e vai ser vencido pelo próximo mais forte e assim por diante numa tirania sem fim até o fim dos tempos. Melhor todo mundo ter um pouco e uns cuidarem dos quereres dos outros com zelo, respeito e consideração, não? Contemplando o que é possível, ajudando a lidar com o que é da ordem do interdito ou do inalcançável.

Que tal? Parece pouco? Digamos que talvez o melhor dessa nossa civilização tenha se baseado nesse acordo. Por quê? Porque se a gente não tem mais que passar a vida inteira brigando e se matando para ver quem é o mais forte e quem é que pode ter o seu querer, podemos nos dedicar a coisas, digamos, mais interessantes como, por exemplo, produzir cultura, criar história, inventar tecnologia… em suma, melhorar nossos modos e meios de vida. Sacaram? Se não precisa se matar, dá para fazer outra coisa. Inclusive amar, viajar, fazer nada, ler um livro, inventar novos modos de preparar batatas, ou criar o futebol e o rugby… you name it, amiguinho. Porque se a gente for parar para pensar que o que entendemos por civilização e cultura é uma criação humana e que isso depende de que o ser humano possa se dedicar a inventar modos e meios de vida, a gente logo se dá conta que abrir mão de um tanto da nossa realização de desejo em prol de tantas conquistas coletivas que melhoram a vida de todo mundo pode ser um baita negócio, certo?

Certo e errado. Porque infelizmente nós seres humanos não somos tão lisos e tão limpos assim. E se aceitamos de bom grado as vantagens desse pacto civilizatório e se ficamos bem contentes em poder tomar um bom vinho, em assistir o último filme do Almodovar ou em poder contar com todos os recursos da ciência e da medicina para tratar de uma doença… paradoxalmente não ficamos assim tão convencidos nem satisfeitos de que isso deva supostamente beneficiar a todos igualmente. Em outras palavras, estamos felizes que a civilização pague pelos nossos benefícios sociais, pelo nosso carro novo na garagem, pela nossa garagem, pela nossa viagem pra Zooropa nas férias de julho… mas começamos a nos sentir bem explorados se essa tal civilização começa a querer pagar também pelas cotas nas universidades, pelo bolsa família, pela demarcação das terras indígenas, pela criminalização da homofobia ou pela legalização do aborto… E de repente começamos a sentir que essa tal civilização é injusta e que deveríamos dobrar os acordos aos quais todos cederam lá em algum ponto inicial e mítico em prol de uma “justiça” mais para o nosso lado, mais a nossa maneira. Eis o retorno insidioso e sorrateiro da lei do mais forte que, na verdade, parece ter sempre funcionado para colocar um grupo de humanos contra outros, ou para federar um tanto de humanos contra o restante, como nos contam todas as guerras, conflitos e explorações de uns povos por outros ao longo da história. E como constatamos com amargura nos tempos recentes, essa tal lei da força nem tinha sido tão deixada de lado assim, ao menos quando se trata de Brasil, esse nosso país onde aparentemente o tal pacto civilizatório foi apenas de fachada, um truque, uma gambiarra qualquer que alguém fez, muitos acreditaram, mas que era “de mentirinha”. Coisa de gente sem lei. Ou coisa de quem nunca se preocupou em pagar o preço de ter uma.

Mas calma que estou me desviando sem me desviar realmente dessa história de desacorçoada, criação com apego e criança não tem querer.

Pois bem, quando começamos a tentar educar os nossos filhos de uma maneira mais respeitosa e menos violenta é quando a porca torce o rabo e quando nos damos conta do tanto de violência mais ou menos declarada, mais ou menos subterrânea à qual fomos submetidas ao longo de nossa existência, muitas vezes sem percebermos. E não sabemos de onde tirar um modo não violento de lidar com os filhos.

Criança não tem querer. Uma expressão da vontade, uma expressão do simples fato de existir que nunca teve lugar nem legitimidade. Criança não tinha nenhuma autorização para existir enquanto ser querente. Criança não tinha nenhuma autorização para simplesmente existir. Poderia ser pior e é para muitas crianças que são literalmente massacradas em suas existências de todos os modos possíveis. Física, moral e psicologicamente. Em nome de justificativas toscas como “educação” ou “amor”. My ass.

Criança não tem querer pode se tornar, num piscar de olhos, tapas, beliscões, objetos arremessados e, ainda noutro piscar de olhos, palavras duras, especialmente quando vindas de uma mãe ou de um pai, aqueles seres quase divinos que toda criança acredita serem os portadores da verdade: “você é chata”, “você é egoísta”, “você é estranha”, “como você é boba”, “você é feia”, “você não é bonita, mas é inteligente”… Daí para se olhar no espelho e começar a se achar estranha, feia é apenas mais um piscar de olhos. E que criança não chorou a dor de se ver aquilo que o adulto amado diz e de se ver de repente algo que não tem valor, algo que não serve, algo que pode ser deixado de lado? Choro, dor e medo… como é que faz para ser alguém que esse adulto ame?

Pouco a pouco, essa criança vai acostumando com esses dizeres que são ela, com essas ações dirigidas a ela. Existe algo errado e esse algo é ela. Ela é que tem que mudar, melhorar, ser alguém amável aos olhos do outro. O que acontece? A criança agora precisa ser para alguém, precisa agradar alguém para ser amada. Ou ao menos foi o que a fizeram acreditar. E quando a gente começa a precisar ser para o outro, acabou-se a nossa condição de ser coerente com a gente mesmo. Ensurdecemos para os nossos quereres, pois temos que saber o que o outro quer. Para atendê-lo e, quem sabe, termos seu amor em troca. Uma criança que não tem querer é uma criança que deveria estar conformada a apenas querer atender o querer do adulto. Como se ela tivesse sido criada para isso. No dia em que ela crescer, quem sabe, poderá querer, quem sabe até poderá querer subjugar um outro alguém que atenda aos seus quereres. Mas o que pode ela querer se ela nunca teve querer nenhum? Como ela vai saber o que quer?

O jeito como somos educados parece que nos atravessa quando temos filhos, mesmo à nossa revelia. E nos pegamos fazendo com os pequenos aquilo que fizeram conosco, repetindo os mesmos mantras, respondendo com a mesma violência. E então um dia minha filha diz que quer alguma coisa, em alto e bom tom. E uma fúria cega toma conta de mim e eu digo não apenas por dizer e ela insiste e eu grito. Grito mesmo toda a minha raiva. E penso “criança não tem querer”. E cada uma dessas palavras cheias de ódio dessa frase odiosa quase saem pela minha boca. Mas eu consigo conter cada uma e engolir cada letrinha de cada uma delas e saborear o gosto horrendo dessa sopa de letras e palavras até elas borbulharem no meu estômago, gerando um asco imenso por mim mesma, por cada uma dessas palavras, por cada um dos gritos que já escapou da minha boca em direção à minha filha, por cada vez que explodi.

E então vem a notícia podre da menina que foi estuprada por cerca de 30 homens. Não vou colocar o link aqui, todo mundo está sabendo. E ao absurdo desse acontecimento se junta o impensável dos comentários das pessoas. Das pessoas que pensam que o que quer que seja no comportamento, nas palavras, na história, nas atitudes dessa menina poderiam justificar a violência à qual ela foi submetida. Todo o espectro das obscenidades do “ela pediu”, “ela não disse não”, “ela era isso ou aquilo”… todo o desfile de horrores que os homens e mulheres podem demonstrar numa situação dessas. Homens e mulheres se comprazendo em pensar que a violência contra essa menina era merecida. E foi aí que eu fiquei realmente desacorçoada.

Eu poderia escrever uma tese aqui e talvez algum dia a escreva, mas o importante a reter é que, ao ler essa notícia, pensei imediatamente na minha filha. Poderia ser minha filha, não poderia ser minha filha… quem não pensa isso tendo uma filha num mundo como esse? Mas não apenas isso. Pior que isso. Pensei, percebi, talvez pela primeira vez, que eu poderia ser uma influência direta para que esse tipo de violência acontecesse com a minha filha. De que modo? Gritando com ela.

Nossa, Alessandra, agora você viajou, nada a ver isso que você está falando. A menina era uma vagabunda, favelada, drogada, tua filha é uma criança, um anjo, uma graça.

Pois é, minha filha é tudo de melhor que existe nesse mundo. E cada vez que eu grito com ela, o que talvez ela aprenda é que “a mamãe me ama” e “a mamãe grita comigo”. E talvez com isso ela aprenda que eu fazê-la se sentir mal e triste faz parte do amor. E talvez ela aprenda que amar e fazer sentir mal e triste são duas coisas que andam juntas. Afinal, se até a mamãe faz… Talvez ela aprenda que é normal ela ser tratada com gritos. E daí ela poderá achar normal ser tratada com outros tipos de violência. E talvez ela poderá achar normal ser xingada, menosprezada, insultada. Ou até mesmo apanhar. E poderá achar que tudo isso vem junto com o amor. Ou que se isso existe numa relação qualquer, existe nesse mesmo lugar ou nessa mesma pessoa amor também. Talvez isso faça com que ela comece a aceitar ser tratada menos bem do que poderia reivindicar, talvez ela comece a aceitar pequenas violências cotidianas, pequenas ofensas, pequenas feridas. E talvez ela comece a esperar no meio disso as manifestações do amor que viriam junto. Talvez minha pequena vá começar então a mendigar os sinais de amor das pessoas por quem ela tem carinho. E talvez ela vá aceitar qualquer pequena migalha que essas pessoas lhe ofereçam. E talvez ela não consiga mais nem perceber que são migalhas envoltas em tudo isso que é violência, mas para o que ela nem atribui mais esse nome. Pois aprendeu na pele que era assim. Que a vida era assim. Que o amor era assim. Que as relações são assim. E então quando ela souber da notícia de uma menina estuprada, talvez ela pense que nem foi estupro. Ou que a menina mereceu, porque não era boa o suficiente para ser tratada com respeito, cuidado e amor. Como ela mesma. Ou como qualquer outro ser humano.

Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com ela é normal e nem é violência? Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com o outro nem é violência, ou é uma violência justificada? Pois é, no caminho a conta-gotas que leva a essa normalização que um dia pode fazer com que minha filha ache normal que a tratem de forma violenta e que meu filho ache normal ser violento com as pessoas está, bem lá no comecinho de tudo, entre outras coisas, eu gritando com eles. Será que não? Se eu fizer um apanhado da minha vida e das pequenas violências cotidianas do “criança não tem querer” que me ajudaram a tornar-me uma pessoa que, durante muito tempo, não entendeu violência como tal e que achou normal ter sofrido vários tipos dela, sempre na espera de ser amada, então sinto dizer que minha hipótese tem um grande risco de estar correta. Se for juntar à minha própria história outras histórias de outras mulheres que passaram a vida aceitando migalhas e sofrendo abusos os mais variados sem nem ao menos entendê-los pelo que são – abuso e violência – então realmente minha hipótese parece estar bem, bem certa.

Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres que carregam na sua história um monte de insultos, de desvalorizações, de humilhações, de tapas, de abusos, de estupros dentro de relacionamentos que deveriam ser amorosos… Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres taxadas de putas, de vagabundas, de não merecedoras de cuidado, respeito e amor como se fosse qualquer coisa nelas que autorizasse a violência dos outros sobre elas. Qualquer coisa no que elas são. Ou fazem. Ou dizem. Ou vestem. Ou pensam. Ou defendem. Como se a violência fosse válida para todo mundo que não se inscreve nos parâmetros traçados por aquele que decide quem é merecedora de violência ou não: o mais forte. Isso é a barbárie. Isso é a lei sem lei da violência. Da mesma violência dos gritos, das palmadas e das humilhações. Imaginar que é isso que vai educar e proteger nossos filhos é algo que só pode parecer lógico na cabeça de um imbecil ou de alguém para quem a violência foi dada a conta-gotas, desde o berço, até essa pessoa deixar de vê-la como tal. Essa pessoa que ficou cega para a violência sou eu, é você, é toda uma geração criada dentro dessa lógica insensata de que educar é adestrar e de que um tapinha não dói. Nunca. Até o dia em que o tapinha te mata e daí é tarde demais para perceber que se tratava de um tapa.

Mas eu sobrevivi! Sei, que bom, eu também. E conheço gente que sobreviveu a coisas que talvez teriam matado a mim e a você. E qual é a sua proposta? Que criemos mais uma geração de sobreviventes que, como nós, não saibam mais como resolver as coisas a não ser no grito, na porrada, até chegar à submissão do outro? Mais uma geração que, como a nossa, seja capaz de rir e de arrumar desculpa e justificativa para 30 caras estuprando uma menina? Esse é o projeto para nossas filhas e filhos? Isso é o melhor que podemos oferecer para eles?

Olha, se esse é o seu projeto e se isso te basta, sinto muito, mas não estamos nessa juntos. Eu vou tirar alguma coisa de onde não tive e vou aprender, nem que seja nesse embate cotidiano doloroso comigo mesma e com os meus próprios limites, a poder oferecer outra coisa à minha filha. E ao meu filho, que também está crescendo e que também corre o risco dos gritos. Eu parei de gritar com a minha filha porque é impensável dar mais um passo que seja na perpetuação desse círculo vicioso de pequenas imensas violências cotidianas destruidoras de esperanças e de subjetividades inteiras. Chega, não dá mais.

Então, a partir de hoje, aqui em casa criança tem querer. Já tinha antes, mas agora digamos que a coisa se radicalizou e acabou a gritaria para tentar abafar os quereres das crianças que nos causam espécie. E a gente vai vendo o que faz com isso. Com os quereres deles e com os meus ranços de respostas violentas. Porque a violência é como um vício e para se desintoxicar tem que fazer como os alcóolicos anônimos, um dia de cada vez, uma crise de cada vez, uma situação difícil de cada vez.

Para aqueles que vão entender dessa pequena reflexão que a idéia é, consequentemente, deixar a criançada fazer o que quer até se tornarem tiranos, mimados e começarem a mandar nos adultos, sugiro uma boa encerada na cara de pau do seu cinismo, um pouco de estudo e que dêem uma olhada no excelente documentário: Si j’aurais su… je serais né en Suède. E um pequeno disclaimer, só para te ajudar.

Veja, admitir o óbvio de que toda e qualquer criança e até mesmo os bebês recém nascidos têm querer não significa dizer que todo e qualquer querer de um bebê, de uma criança, ou até mesmo de um adulto poderá ser atendido. Isso só existe nas baboseiras hollywoodianas que insistem em vender para a gente que querer é poder. Ideologia marotinha que serve apenas para você acreditar que se você quiser algo, você consegue e, se não conseguir, o defeito é seu, e não um problema de uma sociedade feita para poucos conseguirem muito e o resto morrer tentando, ok? Fora desse mundo de conto de fadas que serve para o que serve isto é, vender sonhos impossíveis, com ênfase para o verbo VENDER, a questão dos quereres e de seus limites é um tanto mais democrática.

Existem quereres possíveis e existem quereres impossíveis para todos. Ao menos em uma sociedade que se pretenda civilizada. E não estamos falando do querer ter e do querer consumir, ok? Estamos falando do querer amor, querer cuidado, querer afeto, querer proteção, querer conforto, querer beleza, querer silêncio, querer presença, querer privacidade, querer atenção, querer ajudar, querer fazer, querer saber, querer aprender, querer autonomia, querer espaço, querer proximidade, querer respeito… todos os quereres ligados ao que é mais básico e vital para cada ser humano. São esses quereres que são possíveis, impossíveis, às vezes possíveis, às vezes impossíveis, parcialmente possíveis, momentaneamente possíveis… E talvez seja isso que os pais deveriam poder ensinar aos aos filhos. Que a gente quer e precisa de muita coisa, muita coisa que no fundo parece até bem simples e óbvia. E que o Freud lá de alguns parágrafos acima resumiu em outro livro como: a gente quer, no fundo, no fundo, ser feliz. A gente quer muito, quer mesmo, com toda força. E às vezes não dá. E é um aborrecimento. E a gente aprende a fazer algo desse aborrecimento. E a continuar querendo. E a tentar outras vias. E a deslocar para outros quereres. E realizar algumas vezes esse querer. E noutras não.

E esse é o erro ou o cinismo puro e simples de quem pensa que educar é algo que se aproxima de um adestramento e que prefere se apegar no que concebe como “dar limites”, como se os limites não estivessem aí postos para toda e qualquer pessoa. Quer coisa mais limitada e limitante do que ser um bebê e ter que se haver o tempo todo com a frustração de ter seus quereres atendidos em permanência por um outro que pode estar ali para responder ou não, que pode entender ou não, que pode estar a fim ou não? Se tem alguém que sabe bem dos limites são os bebês e as crianças, acreditem. Esses pequenos que não podem nem trocar uma fralda de cocô sozinhos e se livrarem do desconforto de um bumbum molhado e assado. Então, você acha que precisa mesmo ensinar para eles que existem quereres que eles não vão poder realizar? Você acha mesmo que eles não constatam isso todos os dias, do mesmo modo que você?

Pois é, uma hora dá um insight e a gente percebe que isso não faz nenhum sentido e que qualquer ação violenta direcionada aos nossos filhos sob pretexto de “educação” deve ser urgentemente repensada. E aqui não falo apenas em palmadas, mas em gritos, humilhações, palavras ofensivas, xingamentos e todo tipo de desvalorização. Violências de vários tipos, nenhuma sem consequências. Elas fazem parte de um mundo que eu, pessoalmente, não faço nenhuma questão de transmitir para a próxima geração.

Em tempo: todo o meu respeito, meu carinho e meu cuidado a essa menina que sofreu tão abominável violência desses 30 dejetos. Você é uma pessoa tão digna de respeito, cuidado e afeição quanto eu, meus filhos e tudo quanto é gente que eu conheço e amo. Você não é mais, nem menos do que nenhum deles. E eu lamento no fundo da minha alma aquilo que você viveu. Conte comigo e com o meu apoio.

 

 

Então as fraldas…

Aqui na França, o ensino é obrigatório à partir dos 6 anos de idade para todas as crianças. O que quer dizer que se seu filho não for à escola aos seis anos, vem um funcionário do equivalente do conselho tutelar bater na sua porta para saber o que está acontecendo. E eles levam isso bem a sério. Mas, na maioria dos casos, das casas e das famílias, as crianças não esperam até essa idade para começar a conviver “em coletividade”, como se diz por aqui. Muitas vezes os pequenos vão para a creche à partir dos dois meses e meio, que é a idade em que podem ser acolhidos nesses serviços ou em seus equivalentes. E a escola maternal pode ser frequentada pelos miúdos à partir dos três anos de idade.

Ok, Alessandra, você anunciou que ia falar de fraldas desde o post passado e acabou falando de se esconder no banheiro e, agora vem com essa de escolarização na França. O que é que isso tem a ver com aquilo?

Tudo.

Por aqui, quando uma criança é recebida na escola maternal aos três anos de idade, a escola tem a obrigação, por lei, de acolhê-la onde quer que ela esteja em relação ao seu desenvolvimento psicomotor. Em teoria, um criança que ainda usa fraldas pode ir à escola com as suas fraldas. Mas isso, em teoria. Porque na prática…

Na prática, antes mesmo do seu rebento completar dois anos, já começa um burburinho ao redor de vocês: e aí? Já vai no pinico? Já faz xixi na privada? Já tirou as fraldas? Como se ser criança não fosse estar submetida a um infinito de pressões e exigências, por vezes descabidas, eis que do dia para a noite todo mundo que cerca o seu pequeno parece decidido a investigar como, quando e onde ele faz aquelas coisas que são do campo da sua mais profunda intimidade.

Na prática, são muitas crianças na escola, uma professora e uma auxiliar e blá-blá-blá… é complicado dar conta de 30 pimpolhos de três anos e imagina só se ainda tiver que trocar as fraldas de todo mundo… blá-blá-blá… Está armado o cenário para uma pressão insidiosa que se torna cada vez mais explícita e invasiva quanto mais o sujeitinho se aproxima da data de início das aulas: afinal, esse pentelho vai sair das fraldas ou não?

E, sim, mesmo contra a lei, existem escolas que recusam a entrada de uma criança que ainda use fraldas no maternal. E lá se vão as mães desesperadas querendo a todo custo desfraldar seus filhos antes da famosa rentrée. Putz!

A conversa se repete mais ou menos dessa maneira:

“Estou desesperada, estou tentando tirar a fralda do fulaninho há dias, semanas, meses e não está dando certo! Não sei mais o que fazer. Ele se recusa a usar o penico, se recusa a sentar na privada, tiro a fralda e ele não faz xixi, boto a fralda e ele faz em seguida, pergunto se quer fazer xixi a cada meia hora, ele diz não e depois faz nas calças, faz xixi do lado do penico, não faz mais cocô, está há uma semana constipado… Já comprei calcinha, cueca colorida, penico que fala, canta, dança, sapateia, dou prêmio, presente, chocolate… nada funciona. Será que coloco o penico na frente da TV para quando ele estiver assistindo o desenho preferido? Será que coloco ele sentado na privada a cada meia hora?”

“Sei, mas que sinais ele deu de que estava pronto para começar o desfralde?”

“Como assim… que sinais?”

“Ele se interessa quando alguém da casa faz xixi ou cocô, quer ver, quer imitar, pede para tirar a fralda, coisas do tipo?”

“Não.”

“Ele diz que vai fazer cocô ou xixi antes de fazer?”

“Não.”

“Ele avisa depois que fez? Fica incomodado com a umidade, se irrita, pede para trocar a fralda?”

“Não.”

“Ele já corre, sobe escadas um pé depois do outro?”

“Não sei… Só sei que ele já vai fazer dois anos, vai entrar na escola daqui a um ano e eu PRECISO tirar ele das fraldas até lá.” Ou possivelmente o equivalente disso em termos de pressão social no Brasil: “Ele já tem dois anos e o fulaninho, a beltraninha e o ciclaninho amigos dele já não usam mais fralda nem para dormir, ele está ATRASADO!”

Calma. Respira.

Sério, gente, que pressa é essa? Que pressa é essa em uma sociedade que decide que uma criança passa a marca dos dois anos e um dia e assim se opera um milagre que faz com que ela largue as fraldas? E que se isso não acontecer, algo está errado?

Quando esse papo de desfralde começou a assombrar por aqui, fui fazer o que faço sempre que começa o bombardeio de clichês que não fazem muito sentido sobre coisas nas quais nunca antes havia pensado com verdadeiro cuidado e profundidade: ao invés de responder embarcando no clichê sem muita crítica, prefiro seguir minha tradição de ser a chata dos porquês e vou ler, me informar e pensar a respeito. Foi o que fiz no que diz respeito ao desfralde. E descobri uma porção de coisas.

Por exemplo: como para tudo o mais que diz respeito às crianças, como o desmame, dormir a noite inteira e outros afins igualmente importantes, o desfralde começa quando os pequenos estão prontos. Psíquica e fisicamente. O que quer dizer que o desfralde não começa quando a gente quer ou quando a escola exige, mas quando as crianças podem. Ou, ao menos, seria mais respeitoso se fosse assim.

Imagina quantas mudanças, quantas revoluções, quantas experiências inacreditáveis ocorrem na vida de nossos pequenos desde que eles nascem até alguns poucos anos depois. Cada dia deve ser algo como o equivalente a dez anos nas nossas vidas de adultos em termos de descobertas e de feitos incríveis. Nos esquecemos e achamos uma banalidade coisas como andar ou fazer xixi na privada, mas não são. E os pequenos estão aí para nos lembrar disso, do quanto cada pequena obviedade demanda um esforço extraordinário.

Fato é que, como para todos os grandes saltos, todas as grandes mudanças na intensa vida desses pequenos, ser capaz de fazer xixi e cocô no pinico ou na privada é algo para o qual eles dão sinais quando estão prontos. Começam a se interessar, querem ver, falam a respeito, começam a avisar que fizeram, ou que vão fazer, querem arrancar a fralda, dizem que não querem mais fralda, pedem para usar o pinico ou a privada… enfim. E além desses indícios bem explícitos, há também outros mais laterais, outros indícios físicos que mostram que a criança teria maturidade fisiológica para ser desfraldada. Tipo ser capaz de correr, subir escadas… Como assim?

Nascemos imaturos e inacabados nós, os humanos. E muitas das capacidades que nos tornam autônomos e aptos para sobreviver de maneira independente são adquiridas depois do nascimento. Por isso nossos bebês são tão dependentes e vulneráveis, existem muitas coisas que eles ainda não sabem fazer. E que vão aprender ao longo dos primeiros meses e anos. Até o nosso cérebro nasce imaturo e precisa de um bom tempo para funcionar no seu “máximo” de capacidade.

Para sermos capazes de fazer xixi e cocô em algum lugar ou momento pré-estabelecidos, temos que ter condições de fazer algumas coisas que não são nada evidentes como, por exemplo: nos darmos conta de que estamos com um incômodo, termos noção de que esse incômodo significa vontade de fazer xixi ou cocô, sermos capazes de segurar o xixi e o cocô até chegarmos no “lugar apropriado” para eles, sermos capazes de fazer xixi e cocô nesse lugar. Parece fácil?

Se você é mulher e esteve ou está grávida, tem grandes chances de já ter experimentado aquela desagradável experiência de espirrar, dar uma gargalhada, tossir ou mesmo andar e o xixi escapar. Principalmente no final da gravidez, isso é bastante comum. E não adianta tentar segurar, torcer as pernas, nada, é uma tristeza, escapa mesmo. E isso tem, entre outros motivos, o de que a natureza muito sábia programa nosso corpo para se preparar para parir. Os ossos da bacia mudam um pouco, o cóccix também, a musculatura se afrouxa… Pois o bebê tem que sair e ele sai mais fácil quanto menos resistência nosso corpo oferecer contra isso.

Pois é, ali embaixo, o que sustenta o nosso corpo e os nossos órgãos é o assoalho pélvico, uma rede de músculos super forte e poderosa, que vai do ânus até a uretra e que ajuda a controlar, entre outras coisas, vejam só, o nosso controle sobre xixi e cocô. Quando essa musculatura relaxa, porque ninguém quer parir brigando contra um músculo poderoso que pode fechar quando teria que abrir, o que acontece? O xixi e até o cocô escapam. E a gente não consegue controlar.

Mas o que tem isso a ver com o desfralde?

Muito. Porque o pequeno rebento também precisa aprender a controlar essa musculatura para evitar que o xixi e o cocô saiam quando começam a pressionar ali dentro. E do mesmo jeito que para as grávidas, ou para os velhos, eles podem não conseguir se segurar. Não pelos mesmos motivos da gravidez e da velhice, mas também por uma impossibilidade física. E não adianta falar “segura, fulaninho”, que se o fulaninho não for ainda capaz desse controle muscular, ele não tem como segurar. Mesmo na maior boa vontade e querendo muito agradar a mamãe.

Então, como é que faz?

Espera. A gente espera o sujeitinho amadurecer e estar pronto. Sem querer decidir no lugar dele porque não estamos no corpo dele para saber se dá. Observando os sinais (coisas como poder correr ou subir escadas são indícios porque também dependem de uma capacidade muscular vizinha dessa do controle esfincteriano… viram só,como estudei?)

E como mente e corpo andam juntas e se influenciam tanto, às vezes a criança não pode por uma imaturidade física, às vezes por uma imaturidade psíquica. Ambas são legítimas e dignas de consideração. Nenhuma delas é frescura ou sacanagem com o adulto.

Outro exemplo? Criança que está começando a pedir para ir ao banheiro para fazer xixi e para de fazer isso quando nasce o irmão mais novo. Aconteceu aqui em casa. Nada mais justo, a pequena não quer ser mais tão autônoma quando descobre um irmãozinho sendo cuidado em toda a sua dependência. Quer aquele tipo de cuidado porque identifica aquilo com amor. E ainda não viveu a experiência de ser amada de outro jeito que sendo cuidada, porque também está nisso e está começando a sair disso. E não sabe que tem muito amor depois das fraldas. Amor de outro jeito, como tem amor depois do peito. Então, quer algo mais legítimo do que voltar atrás por um tempo e não querer mais saber de pinico, privada, calcinha e afins?

O usual é que uma criança desfralde entre 2 e 4 anos. Dois a quatro anos é um mundo de tempo, são dois anos de intervalo. E isso é a média, porque pode ser antes ou depois disso. O que quer dizer que não precisa ser aos dois anos. Nem no dia seguinte ao aniversário de dois anos. Nem antes de entrar na escola aos três. Pode ser quando puder ser ao longo desse imenso lapso de tempo.

Mas então não faço nada?

Claro que pode fazer. Pode falar, pode mostrar, pode comprar calcinha e cueca lindinhas. Mas não precisa levar no banheiro a cada 30 minutos, precisa? Nem botar pinico na sala e criança no pinico na frente da TV (qualquer semelhança com dar comida pros rebentos na frente da TV, enquanto eles não percebem o que estão fazendo, não me parece ser mera coincidência).

Como você se sentiria se alguém corresse atrás de você o tempo todo te falando sobre um mesmo assunto? Por exemplo, se um cara ficasse correndo atrás de você na balada o tempo todo insistindo para te beijar? Ou se um vendedor te ligasse todo dia para te oferecer um produto X? Provavelmente você teria vontade de sair correndo para longe do sujeito e pegaria uma antipatia por aquilo que ele estaria oferecendo, não? Agora imagina alguém correndo atrás de você com um pinico toda hora, falando de xixi e cocô toda hora, tensa, brigando contigo porque você tem que fazer, tem que fazer ali, tem que fazer agora… Não dá muita vontade, né?

Pois é. Eis o que tenho pensado sobre o desfralde, enquanto a pequena começa a voltar a gostar de idéia do pinico. E vocês, como têm sido?

Em tempo: aqui um texto sobre alguns sinais que a criança pode dar quando está madura o suficiente para desfraldar. Usem com moderação e não como uma cartilha a ser seguida, tá?

Em tempo 2: durante a gravidez da minha pequena, deparei com uma técnica chamada elimination communication que tem sido usada com bebês desde o nascimento para dispensar o uso de fraldas. Basicamente, consiste em estar tão atento e tão próximo à criança a ponto de perceber os sinais que ela dá, desde o começo, quando vai fazer xixi ou cocô e colocá-la num lugar apropriado para isso. O que acontece é que, logo que nasce, a criança percebe o que está fazendo e sinaliza (é fácil perceber isso bem nos primeiros dias, o bebezinho que fica quietinho, vermelhinho, fazendo força, por exemplo). Se a mãe está atenta e age nesse momento, tanto o bebê vai aprendendo desde cedo a identificar quando precisa urinar ou defecar quanto o adulto aprende a responder a seu sinal na hora e levá-lo a algum lugar. Isso queima uma etapa enorme do desfralde que é aquela da criança aprender a perceber quando está com vontade de fazer xixi ou cocô antes de começar a fazer. Pois essa é uma percepção que ela tem logo que nasce e vai perdendo, na medida que os adultos aqui no Ocidente não ligam muito para isso. A criança também não liga e passa a não perceber quando faz xixi e cocô e vai ter que reaprender na época do desfralde. Coisa maluca como as nossas opções de criação de nossas crianças resolvem um problema (usar fraldas, por exemplo) mas cria um outro logo em seguida (desfraldar). Enfim, eu não banquei experimentar essa técnica com nenhum dos dois, pois exige uma atenção permanente que eu não poderia dedicar. Mas parece que é algo comum em outro cantos do mundo, onde fraldas não existem e as crianças andam coladas no corpo de suas mães durante uns bons anos, o que cria uma grande conexão entre ambos e uma facilidade para a mãe em perceber quando o filho precisa fazer xixi e cocô e agir de acordo com isso.

Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

A intolerância à infância

Daí que eu ia escrever um post engraçadinho sobre 24 horas na vida de uma mãe de 2. Daí que vocês poderiam testemunhar o meu excêntrico senso de humor. Daí caiu na minha mão – ou na minha tela – um texto infâme de um sujeito que defende que o problema das crianças de hoje em dia não é a hiperatividade, mas a falta de educação. Não, eu não vou colocar link aqui porque não dou audiência para coisas que ultrapassam o campo da discordância e entram no terreno do ultraje. E, sim, acabei ficando de mau humor e o texto divertido deu lugar a esse que se segue. Sorry, queridos. Qualquer coisa, culpem o autor do texto infame.

Não sei dizer se aumentaram os casos de hiperatividade entre crianças no mundo atualmente. Não sou especialista na área e, a bem da verdade e da justiça frente aos especialistas que conheço, teria que dizer que aumentou, certamente, o número de diagnósticos de hiperatividade. Uma coisa não é igual à outra. Podemos concluir que haviam muitos casos mascarados, dos quais não se tinha notícia e que, com a popularização do diagnóstico, puderam ser identificados e levados a tratamento. Podemos concluir que, ao contrário, a popularização do diagnóstico fez com que muitas crianças começassem a ser tratadas por algo que não têm. A meu ver, as duas conclusões estão certas e erradas.

As patologias psiquiátricas, em geral, têm uma prevalência estatística mais ou menos estável na população. Isso quer dizer que o número de esquizofrênicos, por exemplo, não varia muito. Ou o de crianças autistas. O que não para de aumentar são os casos depressão. Ou, nas crianças, os casos de hiperatividade. Coincidência?

Olha só: eu, particularmente, não entendo as pessoas como entidades fechadas, que existem com suas qualidades e defeitos nelas mesmas e antes de tudo. Ou seja, eu não entendo um diagnóstico desse tipo como algo que pode ser jogado apenas na conta da predisposição genética. Se existem questões ligadas à herança e à biologia naquilo que somos, não há como recusar o enorme papel exercido pelo mundo que nos cerca naquilo que somos, que podemos ser ou que somos impedidos de ser. E o mundo que nos cerca, atualmente, é um mundo praticamente inviável.

A intolerância tem atingido níveis inimagináveis. Ninguém mais se dispõe a suportar o que quer que seja em nome de nenhum princípio de civilidade, ou do bem comum, ou de compaixão… whatever. A violência sem precedentes que vemos nas redes sociais, em que as pessoas se escondem atrás das telas para propagar todo ódio e toda intolerância de que sejam capazes transbordam pelas ruas, onde pessoas são agredidas cotidianamente por serem negras, mulheres, homossexuais, transgênero, de tal ou qual religião… Enfim, qualquer que seja a diferença em questão, ela é o suficiente para despertar o ultraje de um qualquer que – e isso me parece recente – se sente no direito de dizer o que pensa e de agir segundo a sua indignação. Que existam preconceituosos de todo tipo, racistas, xenófobos, misóginos, fanáticos religiosos, acho que dá para dizer que é tão antigo quanto o surgimento da espécie humana. Desde que existe o humano, existe o pior do humano, o pior que ele pode ser. Mas não sei se em algum momento anterior na nossa história o ser humano se sentiu tão à vontade para agir de forma tão violenta, intolerante e brutal ao seguir essas suas piores inclinações. Sim, é claro, temos muitas marcas na história desse pior do ser humano em ação. Mas quando é que foi assim tão generalizado, tão leviano, tão sem consequências, tão covarde e tão primário? Eu não saberia dizer.

Essa intolerância que vemos na internet está nas ruas, nas relações entre as pessoas, nas situações coletivas, na política e até no debate intelectual. Ela está na maneira como encaramos nossas dificuldades, nossas falhas, nossas frustrações, nossas perdas. Está na intolerância frente aos outros e à diferença, mas também na intolerância para com nós mesmos. Daí o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. E o consequente aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos. A indústria farmacêutica tem muito o que comemorar, certamente. Num mundo onde a intolerância é a regra, o sofrimento humano se torna intolerável. E intolerado. Qualquer “choramingo” e a gente já aconselha o outro a se tratar. Tomar um remedinho. Silenciar o barulho. E não nos incomodar mais.

Como é que em um mundo com uma lógica dessas haveria espaço para as crianças? As crianças, hoje em dia, são confrontadas a cada vez mais intolerância. Intolerância contra o ser criança. Intolerância contra aquilo mesmo que elas podem ser, sentir e fazer. Não existe espaço para elas existirem enquanto tal. O infantil, tanto quanto o sofrimento, são insuportáveis para a maioria das pessoas nos dias de hoje.

Por vezes tenho a impressão de que às crianças e aos adultos com bebês ou crianças pequenas caberá o mesmo destino que aos fumantes: primeiro uma ala reservada, depois um cercadinho na rua, depois a proibição total. Você é criança ou você tem uma criança pequena e, voilà, eis aí um pária social.

Estou exagerando? Crianças e adultos com crianças pequenas recebem olhares tortos, comentários tortos e más vibrações em restaurantes, bares, cinemas, teatros, concertos, lojas, museus… Nenhum lugar é considerado adequado para se ir com uma criança. A não ser os lugares “adaptados” para crianças: cinema adaptado, restaurante adaptado, loja adaptada, o espetáculo adaptado… a tal ala reservada. Ah, mas criança mexe, criança não se comporta, criança quebra, criança pula, faz barulho, atrapalha.

Parece que o problema está justamente aí: criança atrapalha. Quem? Quem não tem tolerância com o fato evidente de que criança só pode ser… criança.

Por que é que hoje em dia, quando uma criança “se comporta mal” em um lugar público, os pais olham para os lados e se apressam a dizer a desconhecidos: “ela é hiperativa”? Não, não é para arrumar uma desculpa para a falta de educação, para a incompetência deles em educar seus filhos e em dar umas boas palmadas e botar uns bons limites, como todo intolerante gosta logo de professar que deveria ser feito. Não, os pais fazem isso, eles se justificam frente a esses desconhecidos porque percebem ali o ódio, o julgamento, a condenação e a intolerância. E acreditam que um diagnóstico poderá salvá-los da execração pública e suscitar um pouco de compaixão de quem está ao redor. As pessoas expõe seus filhos, sua intimidade, sua vida por desespero, por vergonha, por constrangimento. Porque se sentem fracassadas e acreditam que dizer que é doença é melhor socialmente do que deixar passar como incompetência.

Penso que tem a ver com isso também, com essa intolerância, o fato de tantos pais procurarem um diagnóstico para seus filhos tido como hiperativos. Desde que a criança começa a dar sinais de existência, começa a querer falar, fazer, explorar, correr, brincar, rir, investigar, descobrir, reivindicar… ela se torna um problema. Um problema para os pais que, muitas vezes, não consideraram que ter filhos é botar no mundo outras pessoas que, na medida em que são outras e que são pessoas, estarão sujeitas a tudo aquilo que qualquer pessoa está: humores, vontades, indisposições. Filhos postos no mundo existem e vão manifestar essa existência. E essa existência, principalmente no início da vida, é extremamente física, corporal, visceral. A criança existe, ela conhece, ela investiga, ela expressa tudo corporalmente. Então, ela explora o espaço, as coisas, ela ocupa o espaço. Ela comunica como pode, ela demonstra as emoções que vive, ela existe com os recursos que tem. Não dá para imaginar que vai ser possível fazer uma criança desaparecer atrás de uma tela, de um tablet, de uma televisão ou de uma ritalina. Não sem graves consequências para essa criança.

Mas além de se tornarem um problema para muitos pais que não toleram a parte criança de seus filhos, esses pequenos parece que se tornam problema onde quer que estejam. Na escola, é preciso silenciá-los em nome de sabe-se-lá-o-que consideram como educação. Criança sendo criança não cabe na maior parte das escolas atualmente. E nem naquilo que se concebe como educação, que eu chamaria mais de um adestramento para se aprender a viver sem protestar contra um mundo inviável.

Em seguida, a criança não cabe em nenhum espaço coletivo, em nenhum espaço cultural, em lugar nenhum ela é bem vinda a não ser que possa se comportar como algo diferente do que é: venha ao restaurante quando puder ficar 3 horas sentada sem falar, sem reclamar, sem se mexer, sem derrubar sal na mesa ou quebrar um copo. Sinceramente, que criança suporta tamanho constrangimento corporal a ponto de ficar ali como se espera dela? Será que o que se exige de uma criança como sinônimo de boa educação é algo realmente factível?

Ah, mas antigamente… No meu tempo… as crianças eram educadas. Sabiam se comportar, diziam bom dia, por favor, obrigada. Sei, mas antes que você venha defender a palmada como tática educativa que provou sua eficácia no antigamente, deixa eu te perguntar: nessa época da palmada, dos limites e dos pais que sabiam educar, o mundo era assim intolerante com as crianças? Ou será que na sua época, ou na de seus pais, as crianças eram cuidadas onde quer que estivessem? Não tinha sempre um vizinho, o dono da padaria, o pessoal da rua, todo um monte de gente, de adultos, a dar uma olhada nos pequenos onde quer que fossem? Não tinha mais gente para dizer: cuidado com isso, menino, é perigoso, machuca, etc? Possivelmente as crianças não estavam mais inseridas nos meios sociais e nas ocasiões coletivas porque, certamente, haviam mais ocasiões a serem consideradas como “não sendo coisa de criança”. Mas onde elas apareciam, onde podiam aparecer, eram melhor recebidas, não? Ou você não lembra do seu pai ou do seu avô dizendo: “deixa… é criança”. Quantas vezes ouvimos algo parecido atualmente? Quantas vezes nos espaços coletivos as crianças são olhadas com a benevolência do deixa, é criança, o que quer que estejam fazendo?

Então como é que faz num mundo como o de hoje onde a criança não é bem vinda em lugar nenhum e onde os pais não possuem mais nenhuma rede de apoio que possa tolerar uma criança sendo criança? Ter filhos nos dias de hoje é se confinar em casa até eles completarem 18 anos? Como eles vão aprender sobre o mundo se não podem frequentá-lo?Qual a opção: forçar um comportamento em que eles se tornem invisíveis? Isso é educar? Ser invisível é o preço a pagar para poder circular pelo mundo? Bom, eis porque faz tanto sentido que o que mais se veja hoje em dia sejam diagnósticos de hiperatividade em crianças e ansiedade e depressão em adultos. Uma criança hiperativa é uma pessoa que existe em excesso. Um adulto ansioso é aquele que se aflige com o fato de existir. E um deprimido é aquele que renunciou à existência. Será que não estamos criando os deprimidos de amanhã?

Se vocês querem minha opinião, penso que existem sim crianças mal educadas. Como também existem crianças hiperativas. Mas penso que o que mais vemos nos dias de hoje são pessoas intolerantes com crianças sendo crianças. E pessoas intolerantes com os pais nos momentos em que eles estão em dificuldades com suas crianças sendo crianças. Sendo mais clara ainda: a culpa não é da doença que vira desculpa, nem dos pais que não sabem mais educar um filho. A culpa é da pessoa que, enquanto membro de uma coletividade, não suporta nada que incomode, que contrarie ou que vá contra seus desejos ou suas convicções. A “culpa” é do cara que escreve o texto dizendo que sua intolerância seria, na verdade, um defeito de uma criança mal educada e de pais que não sabem educar. Uma criança “se comportando mal” em público é apenas a triste consequência da pressão que você coloca, da intolerância que você impõe, da sua falta de acolhimento, do espaço que você não abre para que aquele sujeito possa existir.

Personal disclaimer, antes que comecem os comentários:

  • não estou dizendo aqui que não haja hiperatividade e nem crianças mal educadas. Estou apenas considerando que são a minoria dos casos e que a maioria é mais uma questão de um mundo intolerante do que das próprias crianças ou dos pais.
  • não estou dizendo aqui também que antes era melhor e que educação é dar palmada e limite (no sentido de subjugar o outro). Penso já ter escrito claramente que não entendo isso como educação. Estou apenas dizendo que, antigamente, as mesmas pessoas ou a mesma lógica que sustentava a palmada e a opressão sustentava, por incrível que pareça, que as crianças fossem mais aceitas em suas criancices naqueles lugares e momentos em que podiam aparecer.
  • também não estou dizendo que educar é não dar limites e deixar as crianças fazerem o que quiserem, quando quiserem. Ninguém faz o que quer, isso não é prerrogativa das crianças. Os limites existem e eles se impõem. Nenhuma criança ou adulto vai poder atravessar a rua correndo sem olhar para os lados, ou brincar com objetos perigosos e afins. Mas entre o que é limite e tudo o que as pessoas querem interditar porque simplesmente perturba a elas, ou atrapalha a elas, existe uma grande diferença. Se você não quer que uma criança quebre um copo num restaurante, basta não colocar um copo de vidro na frente dela à mesa. Se não quer que ela bagunce as coisas no supermercado, retire os produtos coloridos, podres e cheios de açúcar que você coloca ao alcance dos olhos e das mãos dos pequenos apenas para obrigar os pais a comprarem.
  • por fim, não estou dizendo que as crianças não teriam que se adaptar aos lugares que frequentam. Mas ter que falar baixo num museu? Sério? Ou não poder dançar num concerto? Ou não poder rir e comentar um filme? Ou não poder se sujar no restaurante, nem comer com as mãos? Francamente… Me parece que os doentes e mal educados não são as crianças não. Por que é que as crianças precisam se adaptar mais do que os lugares e as pessoas teriam que se adaptar a elas?

Finalizo com uma anedota: há pouco tempo atrás, fomos em família almoçar num restaurante. Um restaurante estrelado no guia Michelin, o que quer dizer um restaurante de comida requintada, um lugar que alguns diriam cheio de frescura e, portanto, “inadequado para crianças”. Tínhamos um de cinco, uma de dois e um de dois meses. O chef nos recebeu na porta, pois chegamos cedo ao local. Fizemos uma degustação que durou cerca de três horas. As crianças tiveram seu almoço trazido rapidamente. A comida deles era saudável e bem cuidada. A cada vez que traziam nossos pratos, tinham a delicadeza de dirigir a palavra às crianças, ou esperar que elas parassem de falar para nos servirem. O pequeno mamou. Sim. Mamou no peito duas vezes. A de dois desceu da cadeira, passeou pelo restaurante, foi olhar a adega com o pai, foi ver os cozinheiros. O de cinco foi no banheiro, puxou papo, pediu catchup. O único momento em que alguém se estressou foi quando a pequena foi mexer na cortina da janela. O maitre foi até ela e disse seriamente para ela que não podia. Ela já tinha andado, ela já tinha embaçado o vidro, ela já tinha brincado com seus adesivos, ela já tinha deixado marca de dedo no móvel ao lado da mesa. E. TUDO. BEM. No final do almoço, o chef estrelado estava novamente na entrada. E quis saber se tudo tinha corrido bem. Tudo com um sorriso no rosto. Ah, mas é porque a gente estava pagando? Será mesmo que ele precisa disso? Ou será que ele apenas considera que crianças têm todo o direito de comer sua excelente comida? Isso, meus caros, é boa educação.

Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.

Comendo e aprendendo

Já escrevi uma ou outra vezes sobre diversificação alimentar por aqui. Momento esquisito, pois é mais um passo do seu bebê em direção ao mundo, que se diversifica, se amplia, aumenta. Nada fácil encontrar um modo de apresentar esse mundo dos sabores para uma criança sem impor, sem forçar a barra e querer enfiar a colher goela abaixo, sem medo da quantia consumida, sem se preocupar se o sujeitinho está bem alimentado ou não… Enfim, um mundo que se abre para o bebê e também para nós, mães, que saímos do conforto do peito ou da mamadeira para um sem número de decisões cotidianas sobre o quê, como, quando….

Tenho percebido que a diversificação alimentar não segue uma linha reta e ascendente. Ela parece cheia de altos e baixos, idas e vindas. No começo, por aqui, era uma grande brincadeira. Brincar com o brócoli era a mesma coisa que brincar com o mordedor ou com o bichinho de pelúcia. Com a diferença de que, no caso do brócoli, a mamãe deixava engolir, enquanto que os papéis e os pedaços de livro sempre tinham que sair da boca.

Depois veio um momento em que comida virou comida. Algo que aparecia nos momentos de fome. Mas, como entender quando o chororô e o pedido de mamar era fome, sede, sono, chamego? Pois é, a mamada que era fome foi sendo substituída pela comida, por vezes em um timing perfeito, noutras de maneira totalmente equivocada. Mas, de algum modo funcionou para a pequena perceber que haviam outras coisas que também enchiam a pancinha com sabores e cores.

Mas aí a porca torceu o rabo e entramos nesse momento ambíguo. Comer é bom, mas também é não mamar. E não mamar é ficar longe da mamãe. E isso não é fácil pra ninguém, né? Assim, somamos essa angústia existencial a uma bela virose e dois resfriados e entramos no período dos testes. Papinha, que nunca foi muito o forte do cardápio aqui em casa foi totalmente banida e a pequena decidiu que só iria comer se ela mesma pudesse controlar a coisa toda. Um baby led weaning meio tortuoso foi o que deu para fazer: comida em pedaços virou regra, comer com as mãos, escolher o que comeria daquilo que estava sendo oferecido, comer no seu ritmo, na sua quantidade. Angustiante, pois às vezes era apenas arroz, noutros dias só feijão, noutros apenas carne e noutros ainda apenas uma fruta ou outra. E quando eu vinha com o feijão que ela tinha gostado no dia anterior era dia de comer só pão. E quando eu fazia brócoli era dia de comer porpeta… putz!

Eventualmente fomos nos entendendo melhor – o que quer dizer que eu fui aprendendo melhor a decifrar suas comunicações e seus sinais em relação à comida. Agora, vivemos o momento em que por vezes é necessário mamar antes de comer. E por vezes é necessário apenas mamar ao invés de comer outras coisas. O que deixa a mamãe maluca achando que voltamos para a estaca zero. Isso até a pequena comer uma pratada de arroz com feijão descomunal. Sem passar mal depois. Tem dias em que ela come com as mãos, noutros quer ajuda para comer com o garfo ou com a colher, noutros eu mesma posso dar a comida na colher, desde que seja ela a me mostrar o que é para colocar ali dentro. E têm momentos em que é hora de jogar tudo no chão. Ou cuspir. Porque ainda não existem outros meios de dizer que não quer. Ou que chega.

Quando eu era pequena, iam enfiando comida na minha boca até eu vomitar. Isso porque era obrigatório dar uma quantidade específica, de uma comida específica. Tudo indicado pela autoridade no assunto, claro. Que nunca era eu, nem minha mãe. Para nós sobrava o assujeitamento a quem sabia o que e como eu deveria comer. O resultado foi que eu me tornei uma péssima “comedora” durante anos a fio. Anos em que eu não comi manga, nem figo e nem mais uma série de frutas que hoje acho deliciosas. E nem peixe cru. Ou frutos do mar. Ou espinafre. Ou seja, quanto tempo perdido por pressa de fazer comer muito e de tudo, não?

Tenho achado que essa diversificação alimentar é mais um teste de tolerância para os pais, um teste da nossa capacidade de respeitar nossos filhos e o ritmo deles para embarcar nesse mundo novo. Enquanto eles descobrem sabores, nós precisamos descobrir como aguentar nossas ansiedades com tudo aquilo que comida e comer significa para a gente. Para não pesarmos com todas essas expectativas sobre os nossos filhos.

Uma coisa me parece óbvia: toda criança vai comer. Porque criança é curiosa. E criança vê os adultos comendo, vê os pais em torno da mesa colocando coisas em suas bocas, conversando, rindo… As crianças testemunham esses momentos e querem participar. Muito antes dos seis meses, têm muita criança querendo roubar pedaços de comida dos pratos dos pais. Porque parece tão divertido. E é aí que a porca torce o rabo: para que a criança coma “saudável”, não existe jeito mais eficaz do que os pais terem uma dieta equilibrada e variada. Minha filha me vê comendo frutas o dia inteiro. E ela sempre quer experimentar. Claro, quando ela me vê comendo chocolate ela quer também. E como é que fica para explicar que algumas coisas podem e outras não? Uma boa alimentação é aquela em que toda família se alimenta bem. Não funciona você passar o dia comendo chocolate, bolacha recheada e refrigerante e querer que seu filho coma verduras porque ele basicamente vai fazer o que você fizer. Comida não é bom senso, nem é racional e sensata. Ela é aquilo que vivemos, os cheiros e gostos que nos marcam, os encontros com as pessoas. E se a hora das refeições for estressada, na frente da TV ou com gente discutindo, fica difícil querer que os pequenos tenham prazer nisso. Ou que eles comam de maneira diferente.

Essa história da cama compartilhada

Aqui foi assim: desde o começo, pensei que o melhor seria a pequena dormir num bercinho ao lado da nossa cama. Facilitaria para mim, por conta da amamentação à noite, pois quem amamenta sabe o quanto pode ser exaustivo levantar-se e ir até um outro quarto, dar de mamar, colocar o bebê para dormir e voltar para a cama. Todo esse ritual consome tanto tempo que logo o rebento chora de novo e o ciclo recomeça. E seria bom para ela também, já que estaria ali do lado, sentindo cheiro de mãe e pai, ouvindo nossos barulhos (recém-nascido sai de uma barriga barulhenta e silêncio pode ser aterrador) e nós os dela. Nada mais tranquilizador para uma mãe do que saber que pode escutar qualquer barulhinho da filha bebê e acudir em caso de necessidade. Enfim, belos planos e tudo poderia ter sido lindo e sem complicações. Mas a vida teima em nos desobedecer, né?

O cara-metade, por questões pessoais e culturais, cismou que bebê tinha que dormir no quarto dela desde o primeiro dia. Dependesse dele, ela até choraria para aprender a se acalmar e dormir sozinha desde o início, tão convencido que estava de que isso não apenas era o certo, como também era possível de fazer com um recém-nascido sem gerar uma enorme violência para um bebê indefeso e que precisa, antes de mais nada, da presença, da proximidade e do aconchego dos pais o tempo todo, até se sentir em segurança. Nada poderia ser mais contrário às minhas concepções e a conclusão disso é que a bebê foi para o quarto dela e a babá eletrônica ficou ligada no último volume do lado da minha orelha. E que a cada suspiro eu acordava e ia ver, para que ela não chorasse abandonada. Tomei para mim a responsabilidade de tratar seus choros como penso que eles deveriam ser tratados: como pedidos de socorro que precisam ser atendidos e não ignorados para que ela aprenda a se virar sozinha. Deu certo e a pequena seguiu bem cuidada, bem atendida em suas necessidades e sentindo-se protegida. Mas deu também em uma mãe exausta, muito mais exausta do que ficaria se as coisas tivessem acontecido de modo a facilitar ao máximo a vida das duas nesse primeiro momento. Resumo da opéra: o vai e vem entre quartos durou o primeiro mês. Em seguida eu fui para o quarto dela e comecei a amamentar deitada durante a noite, descansando mais e dormindo melhor. Ela também pareceu poder ter um sono mais sereno. Após cerca de seis meses, o cara-metade entendeu que a prioridade ali não era adestrar nossa filha para que ela dormisse sozinha a noite inteira e se virasse sozinha caso acordasse durante a noite. Ele entendeu também que meu conforto e meu descanso eram essenciais para que tudo corresse bem, especialmente a amamentação. E a pequena veio para nossa cama. E assim está até o momento.

Acho muito complicado dizer que é perigoso e nocivo fazer cama compartilhada e que é importante que o bebê durma sozinho desde sempre para ser independente. Perigoso é algo que pode ser evitado tomando-se umas tantas precauções quando o bebê dorme na mesma cama com os pais. E há estudos que mostram que bebês dormindo em seus quartos sozinhos correm mais riscos do que aqueles que dormem em cama compartilhada. Portanto, perigos existem para ambos os lados e podem ser evitados.

Quanto à nocividade, me parece curiosa a idéia. O primeiro argumento é a vida sexual e a intimidade do casal, invadidas pela presença da criança. E a resposta sempre boa e válida é que sexo e intimidade não dependem apenas de uma cama pois, se fosse assim, a vida dos casais seria bem entediante, não? Além do mais, a realidade é que a vida sexual e a intimidade de um casal ficam seriamente afetados quando nasce uma criança, onde quer que ela durma. Ficam afetados porque a mulher se fecha em uma bolha com seu bebê no começo da maternidade e é necessário que ela faça isso. Disso depende esse bebê e sua sobrevivência, de alguém que possa se dedicar a ele. Ficam afetados porque se na maior parte do tempo estamos exaustas. E isso mesmo quando pai e mãe cuidam do bebê. E a dinâmica do casal muda. Até que os dois se reinventem enquanto casal, criem novas intimidades e descubram novos modos de fazer antigas coisas. Ou seja, partilhar uma cama é o menor dos problemas de um casal quando eles se tornam pais, acreditem.

Mas tem também a idéia de que a criança vai ficar dependente e nunca mais vai querer sair dali. Que é análoga à idéia de que a criança que mama fica dependente do peito e nunca vai querer desmamar. Quer dizer, são as suposições de que ninguém vai querer largar algo que é bom. Nem que seja por outra coisa que é boa também. Então. Todos os relatos que eu li até hoje de desmame natural, assim como relatos das crianças que começam a dormir em seus próprios quartos desmentem essa crendice (um exemplo). Porque, ao contrário das crianças que não têm aquilo de que elas precisam no momento em que elas precisam e que passam o resto da vida reivindicando o que elas não tiveram, crianças que têm o que precisam na hora em que precisam parecem muito mais seguras para seguir adiante e deixar essas coisas quando elas deixam de ser necessárias. Curioso? Para mim parece fazer sentido. E é o que vejo acontecer muitas vezes, com pacientes e amigos.

O fato é que crianças precisam ser cuidadas, protegidas, aconchegadas. Mas elas também gostam muito de adquirir autonomia e ficam visivelmente satisfeitas quando conquistam alguma nova possibilidade emocional, física, intelectual… Não precisamos nos preocupar tanto assim: do mesmo modo como elas vêm, elas vão, e vêm e vão naquilo que precisam. Basta lhes darmos ouvidos e estarmos atentos aos seus sinais. E respeitarmos suas necessidades e limites.

Bons textos sobre o tema: aqui, aqui, aqui e aqui.

E foi dada a largada!

Mal tivemos tempo de assoprar a velinha de um ano e comer um pedaço de bolo. A pequena mal teve tempo de começar a andar e explorar seus presentes de aniversário. E eis que surge a inevitável pergunta:

– Ainda mama?

– Mama.

– Vai mamar até quando?

– Até quando ela quiser.

– Mas então ela não vai parar nunca. Se a gente não desmama, o bebê não para sozinho.

Silêncio… Tentando imaginar de onde pode ter surgido uma idéia tão absurda que supõe que um bebê que é capaz de mamar quando precisa e não mamar quando não precisa, cotidianamente, persistiria mamando em nome de sei lá o quê até sei lá quando.

– Claro que vai.

– Sei. Mas desse jeito você vai ter que fazer uma plástica quando ela parar porque seus peitos vão ficar no chão.

Silêncio estupefato tentando imaginar um ser que vai mamar até a idade adulta em meus seios caídos varrendo o chão da sala.

Queria entender o que leva as pessoas a esse tipo de convicção. E mais ainda o que as leva a deixarem escorregar boca afora antes mesmo de pensar naquilo que vão dizer. Então um bebê não desmama sozinho, se respeitarmos seu tempo e seu ritmo, tão somente porque deixa de ser necessário, já que ele encontra outras formas de nutrição, de proteção e de afeto? Então temos que impor um fim numa data qualquer tirada da cartola e que nos parece ser a data em que bebês deveriam parar de mamar? Então somos nós que decidimos essa data?

Não vou entrar aqui na discussão a respeito das mães que decidem parar de amamentar em um determinado momento, por qualquer razão que seja. Não vou entrar no mérito das mães que acham que devem conduzir o desmame ou impor algum limite. O desmame, assim como a amamentação, é do bebê e da mãe e apenas aos dois cabe decidir. Ninguém tem nada com isso. Ou não deveria ter. Nem com peitos arrastando no chão pois, sejamos francas, não é esse o destino de todas nós? Ou quem não amamenta ou para de amamentar com medo dos peitos caírem acha que passou incólume pelas leis da gravidade? E, convenhamos, se isso é insuportável, cirurgia plástica existe e está aí para todo mundo que quiser consumir e puder pagar, né?

Por que é que a chegada do primeiro ano libera nas pessoas uma impressão de que, a partir dali, tudo é permitido? Parar de mamar? Demorou. Comer doces, chocolate, tudo o que for bem cheio de açúcar e não trouxer nenhum benefício para o bebê? Claro, porque, afinal, ele vai acabar comendo mesmo. Ver TV, vídeos no iPad, joguinhos no celular? Sim, afinal, é entretenimento de excelente qualidade e totalmente apropriado para uma criança, especialmente uma criança bem pequena que está formando todas as suas conexões cerebrais e constituindo seu modo de conhecer o mundo. Esses tapa-buraco eletrônicos estão realmente oferecendo tudo o que ela precisa nesse momento: contato, presença de outros, interação… Ah, mas ela gosta, olha só, ela fica olhando entretida. Claro, meu bem, quem não olharia entretido para algo que é feito para ser hipnotizante? Assumamos: é só um cala-a-boca, fica quieto aí, que faz as vezes de sossega-leão quando o que os adultos querem é ter sossego. E uma criança de um ano que começa a andar é tudo menos sossego. O mesmo vale para o açúcar e toda sorte de porcarias que as pessoas acreditam piamente que devem ser apresentadas à criança tão logo a primeira velinha se apague.

Funciona assim: até agora toleramos mais ou menos que você, mãe, cuide do seu filho como acredita ser o melhor. Mas agora ele não é mais um bebê e deve ser introduzido ao mundo real, aquele no qual vai viver para toda vida. E o mundo real é feito de decisões arbitrárias a seu respeito, onde a única coisa que não conta são suas necessidades e possibilidades. E muito açúcar, muita TV, muitos eletrônicos, muito consumo de coisas sem substância. Em todos os sentidos. Esse é o mundo real que aguardamos tão ansiosamente apresentar para nossos filhos que mal eles completam um ano já temos que enfiá-lo goela abaixo? Putz!

Foi dada a largada. Salve-se quem puder.

Deixem o gesto livre!

Noutro dia, na PMI, minha pequena decide se aproximar de um outro bebê dois meses mais velho do que ela. Eles se olham interessados, ele tenta tocar no rosto dela. O pai do menino diz a ele que não pode. Ele insiste, o pai insiste. Ele insiste, o pai bate na mão dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e diz que vai cortar os dedos dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e dá um tranco no menino, que chora.

Ah, mas é um pai. Os pais, esses eternos vilões…

Outra cena, mesmo dia, mesmo local. Minha filha vê um bebê da mesma idade que ela brincando com um brinquedo todo cheio de luzes, sons e movimentos. Ela chega perto dele. A mãe já fica em estado de alerta. Ela descobre que o cabelo dele é muito mais interessante do que o brinquedo e decide passar a mão nos cabelos do menino. A mãe tira a mão dela dizendo: assim não, machuca, meninas são terríveis! Minha filha fica perplexa e tenta outras vezes. Mesma reação da mãe, cujo filho estava todo interessado nesse contato. A pequena acaba desistindo e vai brincar de outra coisa.

Qual o problema nessas cenas?

Crianças pequenas conhecem o mundo experimentando o mundo. E quando encontram um igual – outro bebê – querem entender como é que é. Chegam sorrindo, estendendo o braço e querendo fazer um carinho, toque, puxão de cabelo, tapa que são as formas desajeitadas de um gesto que ainda não está tão apurado a ponto de acariciar quando quer e bater quando deseja. Então, evidentemente, os movimentos saem meio desajeitados. Mas nunca vi nenhum bebê sair gravemente ferido por conta disso.

Corta para outra cena, dessa vez no Brasil.

Nos dois encontros com bebês de amigas queridas que tivemos, minha filha ficou ali do lado do rebento de cada uma e eles se entenderam e se descobriram como quiseram. Lógico, nada de dedada no olho nem mordida. Mas teve carinho no rosto, troca de brinquedo, puxar brinquedo, lambida no braço, chegar perto, se afastar, reclamar, rir, chorar. Lembro da alegria da pequena com esses encontros.

Podemos pensar que é diferente quando você conhece a mãe do coleguinha e quando se trata de um completo estranho. Você não sabe a medida de tolerância daquela pessoa e não sabe até onde pode ir ou deixar seu bebê ir, para não causar desconforto. Mas daí vem minha perplexidade: quando foi que as experiências de descobertas de nossos bebês passaram a ser reguladas por nossa vontade, enquanto adultos, de não incomodar ninguém?

Não sei se é coincidência ou se é realmente uma diferença, mas aqui temos tido esse mesmo tipo de experiência nos mais diversos contextos. Até com conhecidos que têm filhos pequenos. Basta um bebê chegar perto de outro e lá vem os adultos ficar em cima, marcação cerrada, segurando mãos e dizendo com voz suave: “doucement”, “com cuidado”. Resultado disso? Na maior parte das vezes, os bebês e crianças acabam desistindo e tenho visto muitos deles brincando sozinhos com seus brinquedos. Ou com os adultos. Em um lugar repleto de crianças, muitas delas brincam sozinhas e não umas com as outras. E basta se aproximarem para que um adulto chegue para mediar o “conflito”.

De onde foi que tiramos a idéia de que crianças quando se encontram vão acabar invariavelmente ferindo umas às outras? Que coisa estranha é essa de esperar violência e agressividade de crianças que não possuem nem ainda coordenação motora para isso? Ou de decodificar todo e qualquer gesto delas como agressão?

Claro, crianças maiores. Claro, crianças menores com maiores. Pode ser que seja. Mas também pode ser que não. E o que acontece numa situação dessas? Acontece que boa parte dos bebês ficam no colo das suas mães, brincando com elas e com seus brinquedinhos. Que desperdício em um lugar cuja riqueza seria justamente a de poderem se encontrar com outros bebês, não?

Outra cena, agora em um parque para crianças. Uma menina que deve ter uns 2 ou 3 anos tenta puxar a bicicleta da outra, que chora. A mãe da primeira vem gritando de longe, com um bebê no braço. Berra com a filha, consola a outra garota. A mãe dessa chega, elas conversam, ela oferece algo para a menina, cheia de sorrisos e mimos. Enquanto isso sua filha fica ali, esquecida. A mãe está visivelmente mais preocupada em agradar a filha da outra e, por tabela, essa outra mãe do que dizer algo para sua filha, que continua por ali distribuindo pancada para todo lado.

Corta para daqui três ou quatro anos, quando essas crianças vão para a escola.

Já escutei mais de uma pessoa contando histórias de como as crianças são agressivas na escola. Só brincam de tapas, meninos e meninas. Se estapeiam, voltam arrebentados para casa, mães reclamam, professores e diretores não sabem o que fazer com tanta violência entre pares, desde o começo de sua escolarização. Tenho uma amiga que contou que quando mudaram para a Austrália, sua filha continuava no registro francês de brincar de bater em todo mundo, o que causou muitos problemas na escola até ela descobrir que poderia brincar de outra coisa.

O que eu quero dizer com tudo isso?

Quero dizer que não me parece um mero acaso que as crianças maiores sejam tão agressivas com seus pares, uma vez que elas parecem estar sendo ensinadas desde bebês que todos os seus gestos devem ser contidos pois eles são sinônimos de agressão. Tolhidas em seus movimentos, muitas delas nem olham mais para as outras, contentando-se com objetos que não respondem da maneira que um outro humano é capaz de responder: surpreendentemente, tal qual um outro. E daí, essas crianças que já começam tolhidas, contidas e isoladas vão vendo os adultos em torno delas traduzirem o que elas fazem como agressão. E vão vendo esses mesmos adultos reagirem a essas pretensas agressões tomando sempre o partido do outro, enquanto elas ficam desamparadas com aquilo que sentiram e que fizeram, sem ninguém que as ajude a entender ou nomear. Então vão para a escola e explodem em pancadarias mútuas todos aqueles gestos que não podem ser diferentes, que não podem ter outros nomes, que não podem acontecer em outros lugares, que não podem ser acolhidos como bons, interessantes, belos ou curiosos.

Não quero, com isso,estabelecer uma relação rasa de causa e efeito entre os bebês que não podem tocar e a agressividade das crianças maiores. Mas estou dizendo que uma coisa me parece ter muito a ver com a outra.

Não sei exatamente porque adquirimos a convicção de que um bebê é uma “besta fera” que tem que ser educada. E educada aqui funciona como sinônimo de domesticada. Um bebê tem que ser adestrado em seus atos, gestos, movimentos, comportamentos, reações para se comportar tal qual se espera dele. Brincamos com nossos filhos querendo mostrar o que eles devem fazer com as coisas, qual o jeito certo de jogar, como é que se deve comer ou o que quer que seja. Somos normatizadores e temos pouca ou nenhuma tolerância para qualquer ato que fuja do esperado. Queremos gestos precisos, específicos. Queremos comportamentos “adaptados”. Queremos filhos “educados”, limpos, amáveis, sorridentes, bons alunos e que não nos causem problemas com os outros adultos pais. Não queremos constrangimentos. Nem queremos incomodar.

Queremos que nossos filhos sejam tão discretos que eles nem existam.

Cada vez sinto mais admiração por algumas mães que remam contra a corrente e permitem que seus filhos existam. Que inventem mil e uma coisas para se fazer com um pedaço de papel, que possam passar muitos minutos olhando uma simples folha seca, ou que consigam descobrir a infinidade em cada um de seus gestos. É algo bonito de acompanhar e sinto uma profunda tristeza de ver bebês e crianças tão tolhidos e de constatar que eles são a maioria desinteressante e deprimente com a qual minha filha terá contato. O que isso vai significar para ela? Será que ela também passará a acreditar que seus gestos são maus e perigosos? Será que ela vai acabar desistindo? Será que eu ficarei com medo de desagradar as pessoas e vou acabar pressionando-a para que ela se “comporte”?

Nossos filhos vão para o mundo. Começam cedo a mostrar uma necessidade de fazê-lo. E a gente começa a olhar esse mundo e a se inquietar muito com as experiências que estão ali para eles. E com o que elas possam significar em suas vidas.