Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

O oitavo mês

Nunca pensei que fosse usar uma imagem dessas em um post, mas acho que vocês vão me entender e perdoar minha licença poética brega assim que terminarem a leitura.

Sabe aquele malfadado filme, o Titanic, aquele mesmo do malfadado Di Caprio e da Kate diva que fez toda uma geração chorar oceanos gelados no cinema ouvindo aquela aguda daquela Celine Dion?

Então.

Sabe aquela cena um pouco antes do navio afundar de vez em que eles vão subindo feito uns malucos, escalando objetos, madeiras, gente e tudo o mais até chegar lá no topo de um navio bizarramente vertical?

Eis o oitavo mês de gestação.

É assim. É o pega pra capar. O salve-se quem puder.

Eu aceitaria feliz uma gravidez de elefante que durasse uns dois anos se a gente pudesse pular o oitavo mês. Quem em sã consciência inventou esse oitavo mês, minha gente? Foi a natureza querendo tirar uma com a nossa cara?

Explico-me.

Você acorda um dia e se olha no espelho e a sensação que tem é que a partir daquele momento, ali, em você, naquele seu corpitcho não cabe mais nem um suspiro. Não cabe mais nada ali dentro. E ainda falta um mês! Aonde é que vai caber mais um mês de bebê crescendo nessa barriga?

Aliás, você simplesmente nem mais suspira, porque o pequeno rebento, quando sente algum espacinho extra, alonga os pés nas suas costelas e daí, colega, é uma briga de foice para ver quem vai ficar com aquele vão que se desocupou quando o ar saiu de seus pulmões. É meu! Não, é meu, meus pulmões estavam aí primeiro, espertinho, eles voltam para aí assim que forem inspirar novamente!

Andar sem pensar na cena do T-Rex do Jurassic Park? E consciente de que o T-Rex é você? Oitavo mês. Pois é, eu disse que esse post estava infame em termos de referências filmográficas. Nenhum Bergman, nenhum Tarantino, nenhum Woody Allen. Só o T-Rex e você tentando pisar leve e não acordar a casa toda nas 50 vezes em que precisar fazer pipi.

Aliás, quem inventou o oitavo mês podia ter inventado o pipi que evapora ao invés de ter que sair pelas vias urinárias, né? Uma visita ao banheiro, para cada ml. de água consumido. Mas não é para ficar hidratada? Não pode mesmo tentar fazer o camelo e estocar água numa corcova qualquer para não ter que expelir? Ah, pois é, tinha esquecido, tem o bebê na corcova, não tem espaço pra estocar nenhuma água além do líquido amniótico que o rebentinho bebe e solta ali mesmo, sem ter que levantar para ir no banheiro 50 vezes por noite. Sortudo do caramba.

E fora a água, não tem mais muito o que possa entrar no corpão. Comida? Para por onde, minha gente? Entra um biscoito, seguem-se cinco horas de azia, tudo entalado na garganta, que o bebê ainda não conseguiu alongar as pernas até ali. Você já consegue se solidarizar com todos os seres com refluxo dessa terra, já considera que há alguma lógica na bulimia e tem absoluta certeza que seu estômago está mais comprimido que o ar daquele cilindro de mergulho que sempre te juraram que dava para usar por mais de uma hora, de tanto ar que tinha ali dentro compactado.

Hormônios? Hahaha, pelo menos aqui encaixo uma referência cult. Sabe o Jack do Iluminado? Ele sairia correndo de você com o rabinho entre as pernas. Oitavo mês, don’t mess with me. Nessa hora, cara-metade que for espertinho já entendeu que melhor não contrariar, melhor não argumentar, melhor nem existir muito. E continuar comprando papel higiênico, pão para o café da manhã e biscoitos. Porque, vai que, né? Dormiu bem? Conseguiu descansar, meu amor? Cuidado, você corre um sério risco de tornar-se a próxima vítima do Jack, the ripper.

E os olhares de piedade das pessoas a cada vez que te encontram? Nossa, você está enooooorme! Faz quanto tempo que a gente não se vê? Uma semana, dez dias? Sim, dez dias de oitavo mês, seus pentelhos. Aquela expressão de temor de que você exploda ali do lado a qualquer minuto e voe bebê, placenta e todos os biscoitos que ficaram entalados e que eles precisem ajudar em algo. Valeu, gente. Valeu, mesmo. Tô me sentindo bem melhor agora.

Ah, mas é o último mês… É a reta final…

Justamente, é como naquele game maneiro em que você chega na fase bonus master plus. Você é praticamente uma mestre Jedi da gravidez, já encarou enjôo, sono, ganho de peso, mudanças hormonais, desejos estranhos, exames mil, decisões importantes, apreensões desnecessárias, comentários infames? Lide com o oitavo mês, minha cara, e depois a gente conversa. Um mês sem enxergar seus artelhos, seus pentelhos, seus joelhos e vamos ver quem não pede para sair. Você pede, mas o bebê parece não estar nem um pouco apressado para sair da sua barrigota. Putz!

A loucura da faxina? Foi no sétimo mês. Você já varreu, já limpou, já montou o berço, já decorou o quarto, já lavou as roupas, secou, passou, separou por tamanho, depois tirou tudo, mediu uma por uma porque as numerações não significam nada, arrumou de novo, preparou a mala da maternidade, sentou, pensou na vida, tricotou um gorrinho, arrumou o quarto de novo que começava a pegar poeira, lembrou de umas três ou quatro coisas que faltavam… Nada mais para fazer a não ser esperar. O médico solta aquela pérola: à partir de agora, é com ele. Pois é. Oitavo mês.

Seria uma espécie de humor negro da natureza esse tal de oitavo mês? Um mês que dura uns 365 dias de 48 horas cada um não pode ser algo normal, vai…

A espetacularização do nascimento

Tem uma coisa que me incomoda um bocado, que é essa espetacularização do nascimento que temos hoje em dia. E que não deixa de fora os partos normais humanizados, muito pelo contrário.

Talvez vocês se lembrem daquela matéria que apareceu nos jornais pelos idos de 2012 sobre uma maternidade carioca que revolucionava sua oferta de serviços colocando um telão para que os parentes pudessem acompanhar o parto. Sim, um telão mostrava o parto – cesariana, na sua maioria – naquilo que uma cesariana tem de possível de ser mostrada: mãe deitada, amarrada, envelopada, panos cobrindo a “área de trabalho” dos médicos, bebê saindo embrulhado, bebê aproximado da mãe para ela dar um beijinho, já que não pode carregar, primeiros “cuidados” e por aí vai. Os convidados todos ali no salão, em frente à tela, assistindo em tempo real a esse nascimento, com direito a um buffet, comes e bebes, festa e muita diversão. Lembro do quanto essa “excelente idéia” gerou comentários e discussões na época, muitas em torno disso que estou citando agora, essa idéia da espetacularização. A imagem que fica mais importante do que a experiência, a exposição máxima que deixa de escanteio toda a intimidade, toda uma possível necessidade de privacidade, o superficial tomando conta de um acontecimento em que o foco deveria ser naquilo que realmente importa.

Guardadas as devidas proporções – e as devidas diferenças, que são muitas – algo dessa mentalidade do espetáculo respinga também em muitos dos partos humanizados.

Criou-se uma moda, a partir do momento em que o parto normal, natural, humanizado começou a aparecer mais e mais nas discussões sobre parto e no desejo das mulheres em garantir um nascimento digno e respeitoso para seus filhos, de que esse tal parto humanizado deveria acontecer de um certo jeito. Em casa. Na água. Com o pai ali do lado, de mão dada, junto na piscina, enfim, participando ativamente. E com alguma espécie de registro visual da beleza da coisa toda. Fotos. Vídeos. Pronto. O pacote parto humanizado ideal passou a incluir a enfermeira obstétrica, a piscina inflável, a doula, a fotógrafa e o pai da criança como itens de igual importância e todos de extrema necessidade.

Penso que, num campo tão novo, tão cheio de dificuldades, em que conseguir um parto digno revelou-se um percurso do combatente para as poucas mulheres que toparam o desgaste de passar por vezes uma gravidez inteira brigando contra o mundo, era importante buscar modelos, pontos de apoio, possibilidades de compartilhar desejos, anseios, angústias, informações, alternativas. E que bom que isso aconteceu e que hoje em dia dispomos de mais e mais sites, grupos, fóruns, blogs, lugares, pessoas, referências e escritos sobre o tema. Temos essa demanda de pensar o nascimento de nossos filhos, de desejar algo diferente, de buscar uma possibilidade mais humana de viver uma gravidez e um parto. E temos a quem recorrer para isso. Cada vez mais. E cada vez de maneira mais formalizada. Isso é um feito!

Pode ser que, para muitas dessas pioneiras do nosso tempo, um dos modos justamente de partilha e de apoio às outras mulheres que desejariam também viver a experiência de um parto humanizado tenha sido essa espécie de statement que a imagem pode oferecer: além de contar os partos, por que não mostrá-los? Um parto normal tem muito mais o que mostrar do que uma cesariana. Um parto sem violência tem muita beleza a desvelar. Nessa nossa época em que imagens falam mais do que palavras, essas imagens dos partos circulando por aí, que poder elas teriam?

Um imenso poder. Um poder de convencimento, um poder de exemplo, um poder de inspiração. A imagem é poderosa, sabemos disso. Basta lembrar da recente imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia e da comoção que isso causou no mundo inteiro, influenciando inclusive em uma série de movimentos populares por toda a Europa que pressionou por uma maior abertura na acolhida de refugiados em todo o continente para se dar conta que, sim, as imagens têm um imenso poder de persuasão. E que as mulheres gestantes, parturientes decidam usar disso para gritar para os quatro cantos do mundo que, sim, é possível parir e parir dignamente mesmo no Brasil dos dias de hoje, bem, isso é legítimo e louvável.

Minha questão não tem nada a ver com esse uso político da imagem e da imagem do parto humanizado. E não é uma crítica a quem faça ou tenha feito uso dessa estratégia. Meu incômodo é com a maneira como certas coisas, especialmente quando ligadas à imagem, se tornam rapidamente uma necessidade de mercado.

Me explico. Vendo essas imagens, muitas de nós, mulheres grávidas buscando um nascimento digno para nossos filhos e um atendimento cuidadoso da nossa própria experiência de gestantes e de parturientes, pudemos absorver, além da inspiração e da idéia de que é possível parir, uma espécie de receita de como isso deveria acontecer quando “acontece direito”.

Quando vemos as imagens dos partos naturais que desfilam em profusão pela net, podemos constatar que existem alguns recorrentes que praticamente criam uma receita: parto na água, marido ali do lado, toda equipe na borda da piscina observando a mulher, expressão de dor, expressão de êxtase, bebê peladinho no colo da mãe. E a pergunta que pode vir daí é: tem que ser assim?

Tenho visto muitas mulheres extremamente preocupadas com onde vão comprar a piscina para o nascimento. E onde vão colocá-la. Tenho visto muitas imagens muito parecidas, como se todos os partos humanizados fossem a mesma coisa. E tenho visto muitas imagens. Uma invasão de imagens que praticamente se torna uma injunção: “veja, é assim que se faz!” Será?

Talvez sejamos incapazes de viver sem uma imagem à qual nos agarrar e, na medida em que recusamos a imagem da mulher asséptica amarrada na maca da sala de cirurgia em muitos tons de azul enquanto seu filho é extraído dela e exibido alegremente para a galera do telão tenhamos que nos agarrar a uma alternativa. Uma imagem alternativa, que nos oriente em como as coisas devem ser. E isso tem uma tal pregnância que, rapidamente, a imagem se torna mais importante que o conteúdo e nos vemos de novo na cilada do espetáculo, daquilo que tem que ser mostrado, do superficial e acessório tomando o lugar do que deveria ser o foco. Vivemos na sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde tudo é rapidamente tragado pela lógica da exibição. Exibição que garante a perpetuação de um jogo de poder.

Quem ganha com essa história de substituir uma imagem por outra? Um modo de um parto acontecer por outro? Uma regra por outra?

Ainda que nós mulheres e nossos filhos possamos lucrar e muito com a garantia de escolher um parto normal humanizado, até que ponto isso mesmo que conquistamos não se vê ameaçado pelo estabelecimento de uma receita?

Michel Odent fala de maneira bastante crítica desse modus operandi que se instaurou como tendência no parto humanizado. Para ele, essas diretrizes de parto na água, marido presente, registro fotográfico e todos os afins que acompanham o pacote devem ser pensados com muito, muito cuidado. O fundamental, para que um parto seja humanizado e que tudo corra bem para a mãe e para o bebê é que eles possam viver isso do jeito que precisarem.

Isso quer dizer, basicamente, que ao longo de todo o processo de parto o que deveria prevalecer é aquela parte mais primitiva do cérebro da mulher que a faz parir. E parir bem. Eis o que deveria ser favorecido e respeitado. Que a mulher possa entrar nesse estado outro e ficar ali. Que ela seja ajudada a ficar nesse estado. Calor, silêncio, pouca luz. É o que basta. Tudo o mais é acessório. Pode servir ou pode apenas atrapalhar o processo. E não deveria ser posto como artigo de primeira necessidade.

Nesse estado outro, que nenhuma mulher conhece antes dele se instaurar, não dá para prever se ela vai querer entrar na piscina, se vai querer sair da piscina, se vai querer o marido perto, se vai querer ele longe, se vai fazer assim ou assado. Ninguém tem como saber e projetar tudo isso serve, no fim das contas, apenas como um modo de se apaziguar acreditando que existe algum controle e alguma previsibilidade desse momento que é, antes de tudo, um desconhecimento absoluto, um vácuo de imagens.

Por vezes, ouço ou leio histórias de partos que corriam muito bem, até que empacaram e se tornaram lentos, lentos, lentos. Alguma coisa ali naquele cenário dificultou à mulher poder entrar ou ficar nesse seu estado segundo. Pode ser algo do encontro dela com ela mesma, aquelas coisas subterrâneas que teimam em aparecer justamente nessa hora, nossas assombrações, nossos medos, nossos desafios que encaramos ou não junto com o ato de parir. Mas muitas vezes o que dificulta – e muito – são exatamente esses modos obrigatórios de fazer as coisas que ficam martelando ali no fundo da cabeça ou na boca das pessoas em volta, cobrando da mulher que ela siga um plano que ela mesma construiu, desejou e pôs em prática. Então ela sai do seu casulo para pensar que deveria entrar na banheira, afinal, compraram a bendita da banheira que custou uma fortuna. E é melhor não sair da banheira, porque o bebê vai nascer na água, não é mesmo? Mesmo que a água tenha ficado fria e que o frio faça os músculos contraírem e o parto ficar mais lento… E melhor ficar ali onde está a banheira, porque é mais fácil para fazer as fotos do que se ela seguir aquele seu impulso intenso de ir se esconder no banheiro, longe de toda aquela gente. E toda aquela gente ali, olhando, olhando, esperando… começa a dar uma sensação de pressa, de ter que fazer algo, de ter que ir bem. E o marido tem que ficar ali do lado, apoiando, segurando a mão, abraçando, dizendo palavras bonitas, mesmo que isso gere uma irritação… Pronto, eis aí a receita, o “jeito ideal” de fazer tomando o lugar daquilo que aquela mulher, naquele momento, realmente precisa. Eis aí o parto novamente parasitado por fórmulas, por obrigações, pela necessidade de reproduzir aquela imagem linda que vimos na internet.

Tem mulheres que dão à luz muito bem no banheiro, debaixo do chuveiro, de porta fechada sem deixar ninguém entrar. Tem mulheres que mandam o marido ir catar coquinho e preparar uma sopa ou o que quer que seja. Tem mulheres que dão à luz quando a doula e o obstetra estão dormindo no sofá da sala. Tem mulheres que dão à luz embaixo do chuveiro, dentro da banheira, em cima da cama, no tapete da sala… até mesmo dentro do carro. Tem mulheres que dão à luz no escuro, num calor de 40°C, debaixo das cobertas. Ninguém sabe como vai ser até a hora em que acontece. E o melhor que podemos fazer é garantir que cada uma dessas mulheres possa ter aquilo que precisa, do jeito que precisa, da maneira mais respeitosa, cuidadosa e amorosa possível.

Podemos, nós que acompanhamos essa mulher e esse bebê, garantir que não há modelo, que não há receita e que, sim, ela pode fazer confiança em que ela vai saber o que fazer e vai fazer o que precisam ela e seu filho.E que isso será a prioridade que todos em volta buscarão respeitar e acompanhar. Ok fazer um plano de parto, ok ter um plano se isso tranquiliza o seu coração e a sua cabeça. Mas o melhor que pode acontecer é a cabeça esquecer o plano na hora H e deixar o mais primitivo em si agir. Dá um medo de se pelar, mas quem disse que é o nosso raciocínio e o nosso entendimento das coisas que faz um parto acontecer?

Posto isso, tudo o mais é acessório. Ou inspiração tornando-se rapidamente mercadoria. E pressão. E opressão. O contrário do apoio e da libertação que todas nós buscamos.

Isso é, a meu ver, o que pode ser de melhor um parto humanizado. O respeito por esse desconhecimento, por esse vácuo de imagens, por esse silêncio, por essa intimidade em grau máximo. A foto? Para quê? Deixa a foto para a caixola da memória guardar e o peito abrigar ali onde é tão quentinho e tão bom.

A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

*****

Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.