A intolerância à infância

Daí que eu ia escrever um post engraçadinho sobre 24 horas na vida de uma mãe de 2. Daí que vocês poderiam testemunhar o meu excêntrico senso de humor. Daí caiu na minha mão – ou na minha tela – um texto infâme de um sujeito que defende que o problema das crianças de hoje em dia não é a hiperatividade, mas a falta de educação. Não, eu não vou colocar link aqui porque não dou audiência para coisas que ultrapassam o campo da discordância e entram no terreno do ultraje. E, sim, acabei ficando de mau humor e o texto divertido deu lugar a esse que se segue. Sorry, queridos. Qualquer coisa, culpem o autor do texto infame.

Não sei dizer se aumentaram os casos de hiperatividade entre crianças no mundo atualmente. Não sou especialista na área e, a bem da verdade e da justiça frente aos especialistas que conheço, teria que dizer que aumentou, certamente, o número de diagnósticos de hiperatividade. Uma coisa não é igual à outra. Podemos concluir que haviam muitos casos mascarados, dos quais não se tinha notícia e que, com a popularização do diagnóstico, puderam ser identificados e levados a tratamento. Podemos concluir que, ao contrário, a popularização do diagnóstico fez com que muitas crianças começassem a ser tratadas por algo que não têm. A meu ver, as duas conclusões estão certas e erradas.

As patologias psiquiátricas, em geral, têm uma prevalência estatística mais ou menos estável na população. Isso quer dizer que o número de esquizofrênicos, por exemplo, não varia muito. Ou o de crianças autistas. O que não para de aumentar são os casos depressão. Ou, nas crianças, os casos de hiperatividade. Coincidência?

Olha só: eu, particularmente, não entendo as pessoas como entidades fechadas, que existem com suas qualidades e defeitos nelas mesmas e antes de tudo. Ou seja, eu não entendo um diagnóstico desse tipo como algo que pode ser jogado apenas na conta da predisposição genética. Se existem questões ligadas à herança e à biologia naquilo que somos, não há como recusar o enorme papel exercido pelo mundo que nos cerca naquilo que somos, que podemos ser ou que somos impedidos de ser. E o mundo que nos cerca, atualmente, é um mundo praticamente inviável.

A intolerância tem atingido níveis inimagináveis. Ninguém mais se dispõe a suportar o que quer que seja em nome de nenhum princípio de civilidade, ou do bem comum, ou de compaixão… whatever. A violência sem precedentes que vemos nas redes sociais, em que as pessoas se escondem atrás das telas para propagar todo ódio e toda intolerância de que sejam capazes transbordam pelas ruas, onde pessoas são agredidas cotidianamente por serem negras, mulheres, homossexuais, transgênero, de tal ou qual religião… Enfim, qualquer que seja a diferença em questão, ela é o suficiente para despertar o ultraje de um qualquer que – e isso me parece recente – se sente no direito de dizer o que pensa e de agir segundo a sua indignação. Que existam preconceituosos de todo tipo, racistas, xenófobos, misóginos, fanáticos religiosos, acho que dá para dizer que é tão antigo quanto o surgimento da espécie humana. Desde que existe o humano, existe o pior do humano, o pior que ele pode ser. Mas não sei se em algum momento anterior na nossa história o ser humano se sentiu tão à vontade para agir de forma tão violenta, intolerante e brutal ao seguir essas suas piores inclinações. Sim, é claro, temos muitas marcas na história desse pior do ser humano em ação. Mas quando é que foi assim tão generalizado, tão leviano, tão sem consequências, tão covarde e tão primário? Eu não saberia dizer.

Essa intolerância que vemos na internet está nas ruas, nas relações entre as pessoas, nas situações coletivas, na política e até no debate intelectual. Ela está na maneira como encaramos nossas dificuldades, nossas falhas, nossas frustrações, nossas perdas. Está na intolerância frente aos outros e à diferença, mas também na intolerância para com nós mesmos. Daí o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. E o consequente aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos. A indústria farmacêutica tem muito o que comemorar, certamente. Num mundo onde a intolerância é a regra, o sofrimento humano se torna intolerável. E intolerado. Qualquer “choramingo” e a gente já aconselha o outro a se tratar. Tomar um remedinho. Silenciar o barulho. E não nos incomodar mais.

Como é que em um mundo com uma lógica dessas haveria espaço para as crianças? As crianças, hoje em dia, são confrontadas a cada vez mais intolerância. Intolerância contra o ser criança. Intolerância contra aquilo mesmo que elas podem ser, sentir e fazer. Não existe espaço para elas existirem enquanto tal. O infantil, tanto quanto o sofrimento, são insuportáveis para a maioria das pessoas nos dias de hoje.

Por vezes tenho a impressão de que às crianças e aos adultos com bebês ou crianças pequenas caberá o mesmo destino que aos fumantes: primeiro uma ala reservada, depois um cercadinho na rua, depois a proibição total. Você é criança ou você tem uma criança pequena e, voilà, eis aí um pária social.

Estou exagerando? Crianças e adultos com crianças pequenas recebem olhares tortos, comentários tortos e más vibrações em restaurantes, bares, cinemas, teatros, concertos, lojas, museus… Nenhum lugar é considerado adequado para se ir com uma criança. A não ser os lugares “adaptados” para crianças: cinema adaptado, restaurante adaptado, loja adaptada, o espetáculo adaptado… a tal ala reservada. Ah, mas criança mexe, criança não se comporta, criança quebra, criança pula, faz barulho, atrapalha.

Parece que o problema está justamente aí: criança atrapalha. Quem? Quem não tem tolerância com o fato evidente de que criança só pode ser… criança.

Por que é que hoje em dia, quando uma criança “se comporta mal” em um lugar público, os pais olham para os lados e se apressam a dizer a desconhecidos: “ela é hiperativa”? Não, não é para arrumar uma desculpa para a falta de educação, para a incompetência deles em educar seus filhos e em dar umas boas palmadas e botar uns bons limites, como todo intolerante gosta logo de professar que deveria ser feito. Não, os pais fazem isso, eles se justificam frente a esses desconhecidos porque percebem ali o ódio, o julgamento, a condenação e a intolerância. E acreditam que um diagnóstico poderá salvá-los da execração pública e suscitar um pouco de compaixão de quem está ao redor. As pessoas expõe seus filhos, sua intimidade, sua vida por desespero, por vergonha, por constrangimento. Porque se sentem fracassadas e acreditam que dizer que é doença é melhor socialmente do que deixar passar como incompetência.

Penso que tem a ver com isso também, com essa intolerância, o fato de tantos pais procurarem um diagnóstico para seus filhos tido como hiperativos. Desde que a criança começa a dar sinais de existência, começa a querer falar, fazer, explorar, correr, brincar, rir, investigar, descobrir, reivindicar… ela se torna um problema. Um problema para os pais que, muitas vezes, não consideraram que ter filhos é botar no mundo outras pessoas que, na medida em que são outras e que são pessoas, estarão sujeitas a tudo aquilo que qualquer pessoa está: humores, vontades, indisposições. Filhos postos no mundo existem e vão manifestar essa existência. E essa existência, principalmente no início da vida, é extremamente física, corporal, visceral. A criança existe, ela conhece, ela investiga, ela expressa tudo corporalmente. Então, ela explora o espaço, as coisas, ela ocupa o espaço. Ela comunica como pode, ela demonstra as emoções que vive, ela existe com os recursos que tem. Não dá para imaginar que vai ser possível fazer uma criança desaparecer atrás de uma tela, de um tablet, de uma televisão ou de uma ritalina. Não sem graves consequências para essa criança.

Mas além de se tornarem um problema para muitos pais que não toleram a parte criança de seus filhos, esses pequenos parece que se tornam problema onde quer que estejam. Na escola, é preciso silenciá-los em nome de sabe-se-lá-o-que consideram como educação. Criança sendo criança não cabe na maior parte das escolas atualmente. E nem naquilo que se concebe como educação, que eu chamaria mais de um adestramento para se aprender a viver sem protestar contra um mundo inviável.

Em seguida, a criança não cabe em nenhum espaço coletivo, em nenhum espaço cultural, em lugar nenhum ela é bem vinda a não ser que possa se comportar como algo diferente do que é: venha ao restaurante quando puder ficar 3 horas sentada sem falar, sem reclamar, sem se mexer, sem derrubar sal na mesa ou quebrar um copo. Sinceramente, que criança suporta tamanho constrangimento corporal a ponto de ficar ali como se espera dela? Será que o que se exige de uma criança como sinônimo de boa educação é algo realmente factível?

Ah, mas antigamente… No meu tempo… as crianças eram educadas. Sabiam se comportar, diziam bom dia, por favor, obrigada. Sei, mas antes que você venha defender a palmada como tática educativa que provou sua eficácia no antigamente, deixa eu te perguntar: nessa época da palmada, dos limites e dos pais que sabiam educar, o mundo era assim intolerante com as crianças? Ou será que na sua época, ou na de seus pais, as crianças eram cuidadas onde quer que estivessem? Não tinha sempre um vizinho, o dono da padaria, o pessoal da rua, todo um monte de gente, de adultos, a dar uma olhada nos pequenos onde quer que fossem? Não tinha mais gente para dizer: cuidado com isso, menino, é perigoso, machuca, etc? Possivelmente as crianças não estavam mais inseridas nos meios sociais e nas ocasiões coletivas porque, certamente, haviam mais ocasiões a serem consideradas como “não sendo coisa de criança”. Mas onde elas apareciam, onde podiam aparecer, eram melhor recebidas, não? Ou você não lembra do seu pai ou do seu avô dizendo: “deixa… é criança”. Quantas vezes ouvimos algo parecido atualmente? Quantas vezes nos espaços coletivos as crianças são olhadas com a benevolência do deixa, é criança, o que quer que estejam fazendo?

Então como é que faz num mundo como o de hoje onde a criança não é bem vinda em lugar nenhum e onde os pais não possuem mais nenhuma rede de apoio que possa tolerar uma criança sendo criança? Ter filhos nos dias de hoje é se confinar em casa até eles completarem 18 anos? Como eles vão aprender sobre o mundo se não podem frequentá-lo?Qual a opção: forçar um comportamento em que eles se tornem invisíveis? Isso é educar? Ser invisível é o preço a pagar para poder circular pelo mundo? Bom, eis porque faz tanto sentido que o que mais se veja hoje em dia sejam diagnósticos de hiperatividade em crianças e ansiedade e depressão em adultos. Uma criança hiperativa é uma pessoa que existe em excesso. Um adulto ansioso é aquele que se aflige com o fato de existir. E um deprimido é aquele que renunciou à existência. Será que não estamos criando os deprimidos de amanhã?

Se vocês querem minha opinião, penso que existem sim crianças mal educadas. Como também existem crianças hiperativas. Mas penso que o que mais vemos nos dias de hoje são pessoas intolerantes com crianças sendo crianças. E pessoas intolerantes com os pais nos momentos em que eles estão em dificuldades com suas crianças sendo crianças. Sendo mais clara ainda: a culpa não é da doença que vira desculpa, nem dos pais que não sabem mais educar um filho. A culpa é da pessoa que, enquanto membro de uma coletividade, não suporta nada que incomode, que contrarie ou que vá contra seus desejos ou suas convicções. A “culpa” é do cara que escreve o texto dizendo que sua intolerância seria, na verdade, um defeito de uma criança mal educada e de pais que não sabem educar. Uma criança “se comportando mal” em público é apenas a triste consequência da pressão que você coloca, da intolerância que você impõe, da sua falta de acolhimento, do espaço que você não abre para que aquele sujeito possa existir.

Personal disclaimer, antes que comecem os comentários:

  • não estou dizendo aqui que não haja hiperatividade e nem crianças mal educadas. Estou apenas considerando que são a minoria dos casos e que a maioria é mais uma questão de um mundo intolerante do que das próprias crianças ou dos pais.
  • não estou dizendo aqui também que antes era melhor e que educação é dar palmada e limite (no sentido de subjugar o outro). Penso já ter escrito claramente que não entendo isso como educação. Estou apenas dizendo que, antigamente, as mesmas pessoas ou a mesma lógica que sustentava a palmada e a opressão sustentava, por incrível que pareça, que as crianças fossem mais aceitas em suas criancices naqueles lugares e momentos em que podiam aparecer.
  • também não estou dizendo que educar é não dar limites e deixar as crianças fazerem o que quiserem, quando quiserem. Ninguém faz o que quer, isso não é prerrogativa das crianças. Os limites existem e eles se impõem. Nenhuma criança ou adulto vai poder atravessar a rua correndo sem olhar para os lados, ou brincar com objetos perigosos e afins. Mas entre o que é limite e tudo o que as pessoas querem interditar porque simplesmente perturba a elas, ou atrapalha a elas, existe uma grande diferença. Se você não quer que uma criança quebre um copo num restaurante, basta não colocar um copo de vidro na frente dela à mesa. Se não quer que ela bagunce as coisas no supermercado, retire os produtos coloridos, podres e cheios de açúcar que você coloca ao alcance dos olhos e das mãos dos pequenos apenas para obrigar os pais a comprarem.
  • por fim, não estou dizendo que as crianças não teriam que se adaptar aos lugares que frequentam. Mas ter que falar baixo num museu? Sério? Ou não poder dançar num concerto? Ou não poder rir e comentar um filme? Ou não poder se sujar no restaurante, nem comer com as mãos? Francamente… Me parece que os doentes e mal educados não são as crianças não. Por que é que as crianças precisam se adaptar mais do que os lugares e as pessoas teriam que se adaptar a elas?

Finalizo com uma anedota: há pouco tempo atrás, fomos em família almoçar num restaurante. Um restaurante estrelado no guia Michelin, o que quer dizer um restaurante de comida requintada, um lugar que alguns diriam cheio de frescura e, portanto, “inadequado para crianças”. Tínhamos um de cinco, uma de dois e um de dois meses. O chef nos recebeu na porta, pois chegamos cedo ao local. Fizemos uma degustação que durou cerca de três horas. As crianças tiveram seu almoço trazido rapidamente. A comida deles era saudável e bem cuidada. A cada vez que traziam nossos pratos, tinham a delicadeza de dirigir a palavra às crianças, ou esperar que elas parassem de falar para nos servirem. O pequeno mamou. Sim. Mamou no peito duas vezes. A de dois desceu da cadeira, passeou pelo restaurante, foi olhar a adega com o pai, foi ver os cozinheiros. O de cinco foi no banheiro, puxou papo, pediu catchup. O único momento em que alguém se estressou foi quando a pequena foi mexer na cortina da janela. O maitre foi até ela e disse seriamente para ela que não podia. Ela já tinha andado, ela já tinha embaçado o vidro, ela já tinha brincado com seus adesivos, ela já tinha deixado marca de dedo no móvel ao lado da mesa. E. TUDO. BEM. No final do almoço, o chef estrelado estava novamente na entrada. E quis saber se tudo tinha corrido bem. Tudo com um sorriso no rosto. Ah, mas é porque a gente estava pagando? Será mesmo que ele precisa disso? Ou será que ele apenas considera que crianças têm todo o direito de comer sua excelente comida? Isso, meus caros, é boa educação.

Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.