Nasceu!

Eis que entre o dia das mulheres, uma filha que se rebela contra a Branca de Neve e diz preferir a madrasta e o monstro, um bebê que decide agarrar dragões e levá-los à boca sem dó nem piedade, uma valsa em sapatilhas, muito trabalho em várias frentes, muitas das quais ligadas à maternidade e muitas e muitas escrevinhações… nasceu uma cara nova para o blog. 

Novo logo, roupa nova, cores novas. Tudo feito com o maior carinho e profissionalismo pela Rachel Hoshino, essa minha amiga-irmã artista que tem a rara capacidade de ouvir o que você pede e te devolver aquilo que você precisa.

Tempos novos. É bom mudar e assumir as mudanças que vieram com a vida e principalmente com a maternidade dando novas cores a esse espaço pelo qual tenho tanto carinho. É um prazer escrever aqui. E um prazer quando essa escrita vira troca.

Espero que vocês curtam o novo guarda-roupa. Agora com licença que vou ali desfilar as roupinhas super originais do Barriga de Bebê.

ovo misto

Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

A publicidade e a informação

Tenho uma página do blog no Facebook, onde publico coisas que leio sobre gravidez amamentação, parto, maternidade, infância que encontro pela web e me parecem interessantes. Ontem, publiquei uma matéria que apareceu em vários veículos de comunicação sobre a regulamentação de uma lei que proíbe a propaganda de todo tipo de produtos que podem interferir na amamentação: leite em pó, mamadeiras, chupetas e afins. Em resumo, para que a lei possa ser aplicada, essa regulamentação proíbe que tais produtos sejam objeto de propaganda em qualquer tipo de meio, que sejam associados com quaisquer personagens infantis ou outras imagens que induzam o consumo, que sejam distribuídos como brindes ou que façam parte de qualquer tipo de ato promocional e que tragam a informação em suas embalagens de que podem afetar o aleitamento. Uma medida louvável, se levarmos em consideração as estatísticas vergonhosas no que diz respeito ao aleitamento materno no Brasil, onde a média de tempo que se amamenta uma criança é de 54 dias (!!!).

E qual a relação disso com esses produtos? Toda, se considerarmos que aleitamento misto, mamadeira noturna, uso de chupeta e afins podem interferir na amamentação, criando confusão de bicos e uma maior dificuldade do bebê em estabelecer a pega correta. E que isso não é nunca dito claramente pelos pediatras e outros profissionais que indicam o uso da mamadeira por qualquer motivo que seja a uma mãe, o que não dá a elas todos os elementos para que tomem uma decisão informada sobre amamentação. E, obviamente, isso aparece menos ainda nas campanhas publicitárias desses produtos que, ao contrário, insistem em divulgar idéias mentirosas, como a de que leite materno e leite em pó são a mesma coisa (dê uma olhada nessa tabela comparativa em inglês), ou que certas mamadeiras e chupetas seriam o equivalente do seio materno, ou que seriam concebidas de maneira “ergonômica”, para não prejudicar amamentação, desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos faciais, postura e tudo o mais que sabemos que mamadeiras e chupetas prejudicam sim. Enfim, se essas publicidades prestam um desserviço em geral, apresentando idéias equivocadas como sendo verdades, imagina o estrago que elas não provocam nas mães que encontram dificuldades em amamentar?

Sabemos que o sucesso da amamentação depende muito do entorno, da rede de apoio que essa mãe e seu bebê encontram para darem conta de instaurar esse equilíbrio delicado que amamentar exige. Depende muito do apoio da família, dos amigos, dos conhecidos com seus comentários tantas vezes desastrosos. Depende imensamente também daquilo que as “figuras de autoridade” vão dizer a essa mulher que quer e busca amamentar, se saberão orientá-la corretamente ou se lhe darão informações desencontradas, erradas e que terminarão contribuindo para que ela se veja em uma bola de neve que torne o aleitamento impossível. Proibir a propaganda é incidir sobre o lado mais perverso desse mecanismo que dificulta, deturpa ou impede o aleitamento materno: o lado que vê na amamentação uma oportunidade de mercado, de lucro e de incentivo ao consumo. E apenas isso.

Uma das coisas que mais me chocou em alguns comentários que esse post recebeu na página do facebook foram algumas pessoas argumentando que essa proibição as privaria de informação sobre as alternativas ao aleitamento materno, constrangendo-as a amamentar e dificultando o acesso a esses produtos. Como se proibir publicidade fosse uma sonegação de informação e um atentado à liberdade delas de escolha.

Como assim? Tem gente que pensa seriamente que publicidade traz informação sobre alguma coisa? Tem gente que se informa através dos meios publicitários? Tem gente que decide sobre como alimentar seu filho vendo propaganda? Putz!

Sim, tem. E meu espanto é muito mais estranho do que essa constatação. É evidente que tem gente que se acredita que se informa e que toma suas decisões, mesmo as mais importantes, baseada em argumentos publicitários. Isso apenas prova o quanto a publicidade é eficaz e bem sucedida em seus objetivos. Ela consegue se fazer passar pelo que não é: um argumento de venda disfarçado de informação. Tão eficaz que as pessoas acreditam que se a publicidade dos produtos relacionados à amamentação forem proibidas, elas não terão como saber que eles existem, nem como saber de suas qualidades, de seus benefícios e de seus efeitos. E, com isso, não poderão comprá-los. Gente, isso é ou não é um exemplo gritante da perversidade desse mercado que, apoiado pela publicidade, faz mulheres acreditarem que o que eles fazem é ajudá-las de alguma maneira?

A meu ver, a questão do leite em pó é muito próxima da questão da cesariana: duas opções criadas pelo desenvolvimento tecnológico a situações de dificuldades reais que foram apropriadas por uma lógica de consumo que vende às mulheres uma idéia de que isso seria o exercício de uma escolha, além de um progresso, um avanço nas maneiras de vir ao mundo e de alimentar um bebê que trariam muito mais vantagens do que aquilo que existe desde que a espécie humana existe. No caso da cesariana, um real risco de vida para a mãe e para o bebê ligados ao parto normal e no caso da amamentação, uma real impossibilidade de alimentar o bebê. Duas opções que surgiram para resolver reais e graves problemas deturpadas por uma ambição da indústria que se construiu em torno delas de conseguir o máximo de lucro possível na medida em que elas se tornem um comércio. Comércio de partos, comércio de alimentos. Com tudo o que implica a idéia de comercializar: ganhar dinheiro com isso, por todos os meios possíveis. E sem nenhum constrangimento em falsear a verdade ou em atacar a concorrência. Porque o importante não é informar. O importante não é ajudar ninguém. O importante é ganhar todo o dinheiro possível com isso.

Amiga querida, não se preocupe. Se você está indignada por não poder mais ver a propaganda de leite em pó na televisão no intervalo do desenho animado dos seus filhos, isso não vai te impedir de comprar esse leite no supermercado da esquina. O comércio desses produtos não vai parar porque a propaganda vai parar de existir. Mas veja direito de onde é que você tirou a idéia de que esses produtos são os melhores para você e para o seu filho. Pois, se foi de uma propaganda, posso te garantir que ela não foi feita nesse intuito de te ajudar a escolher o melhor. A propaganda desses produtos, assim como qualquer propaganda do que quer que seja, não se preocupa com você. Nem comigo. Nem com ninguém. Ela apenas sabe muito bem encontrar nossos pontos fracos e nos manipular para acreditarmos exatamente nisso que você está dizendo que acredita: que elas querem seu bem e estão te dizendo como você deve fazer para tê-lo.

Se essa proibição contribuir para que menos manipulação mascarada de informação sobre a amamentação circule e que, com isso, as mulheres tenham que buscar orientação sobre o aleitamento em outro lugar, sem ser bombardeadas por um monte de imagens, brindes e frases de efeito completamente equivocadas. E se isso puder ajudar aquelas que querem amamentar a encontrarem os caminhos para isso, já terá sido um enorme passo na valorização e na viabilização do aleitamento materno.

  • Em tempo: na discussão no facebook uma pessoa colocou um problema bastante pertinente em relação a essa lei, que dificultaria o acesso à informação sobre esses mesmos produtos, especialmente no que diz respeito ao leite em pó, o que acabaria prejudicando as mulheres que precisam fazer uso dele. Um caso que parece que a lei não contemplou. Ela me disse que vai sintetizar um pouco seus argumentos e depois eu publico por aqui. De todo modo, obrigada à Claudia Eirado pelo contraponto interessante (vocês podem acompanhar a discussão pelo post do facebook, se quiserem).
  • Em tempo 2: um dos melhores projetos de mães contra os usos e abusos da publicidade infantil é este aqui. Acompanhe as discussões do site e apoie, se para você também essa história de transformar nossos filhos em pequenos e demandantes consumidores for algo a ser evitado.

    Fim da publicidade para produtos que prejudicam na amamentação. Já não era sem tempo.

    Posted by Barriga de bebê: o que as mães não dizem. on Tuesday, November 3, 2015

Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

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Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Quarto e último post de dicas…

… de compras para mamães e bebês na França. Série que eu havia começado nessa intro geral, passando pelas roupas e pelos móveis, carrinho e meios de portagem do bebê. Mas, como ficaram faltando algumas coisas que eu poderia compartilhar com vocês sobre o que tem sido útil ou inútil nesses primeiros tempos de maternidade em termos de produtos, objetos e afins, demorou mais trago aqui o que espero seja o final da lista. Por enquanto.

Vamos a ela, no melhor estilo miscelânea:

  • No quesito fraldas, pois não temos como escapar delas, a não ser que a gente tope fazer algo no estilo Elimination Communication, vamos ter que escolher como lidar com a questão cocô-xixi-bebê. Não apenas não dei conta de fazer o EC, por achar que seria mais uma coisa de grandes dimensões com a qual lidar no início tão conturbado da maternidade, quando o que mais se necessita é sossego e que as coisas caminhem o mais facilmente possível (quem sabe mais para frente, ainda não desisti, porque a idéia é muito boa e simples, se for pensar bem), como também não dei conta de usar fralda lavável. Eu sei, eu sei, estou agindo diretamente contra o meio ambiente que gostaria de preservar para minha filha. No entanto, achei uma boa solução de compromisso com as fraldas descartáveis ecológicas. São algumas marcas que produzem fraldas com menos produtos químicos que agridem a pele do bebê e, ainda, com menos produtos que agridam o ambiente, sendo quase que totalmente biodegradáveis. Bom, já dá um alento, não? Testamos aqui três marcas: Naty Nature Babycare, Moltex e Wiona. Fico com a primeira, excelente. A Moltex também é muito boa, mas achei espessa demais (todas essas fraldas ecológicas serão mais espessas que as comuns porque não têm toneladas de produtos químicos e gel para transformar as cacas do bebê em sei lá o quê, por isso, precisam contar com camadas a mais, ok?). A Wiona, se você não ajusta milimetricamente as laterais, vaza que é uma beleza. E a gente não tem tempo de ficar ajustando laterais como um obssessivo compulsivo quando o bebê está mexendo para todo lado, né? Então, Naty tem sido a fralda por aqui.
  • Personal disclaimer: nunca fiz estoque de fraldas e acho que não precisa. As residências são minúsculas na França, ao menos em Paris. Imagina ficar estocando fralda? Não dá e é o tipo de coisa que você pode comprar assim que o último pacote for aberto. Mesmo comprando pela internet, no caso das fraldas ecológicas, você encomenda em um dia e está na sua casa no dia seguinte. Fora que estocar fralda faz com que você perca uma montanha de pacotes. Não tem como saber quanto tempo seu bebê vai usar RN, 1, 2, 3… Como dica, eu diria para, antes dele nascer, comprar dois pacotes do tamanho de recém nascido e dois do tamanho 1. Porque se o rebento for grande, é capaz de nem usar RN. E vai repondo conforme for acabando. Chá de fraldas, por aqui, só para quem tem muito espaço.
  • Em tempo, um ótimo site para comprar as tais fraldas ecológicas, já que apenas a Naty você encontra de vez em quando nos supermercados, é o Bébé-au-naturel. Os preços são bons, a entrega é muito rápida, vira e mexe tem descontos e promoções e eles vendem, além de fraldas, tudo quanto é produto natural ou bio ligado à maternidade. Inclusive aquele chá da mamãe da Weleda, que aqui chama tisane allaitement e que recomendo muito para todas as que precisem aumentar a produção.
  • Aproveitando carona do quesito amamentação, para aquelas que precisarem tirar o leite, por questão de trabalho ou o que quer que seja, recomendo uma bomba manual da Avent com a qual me adaptei muito bem. Concordo com quem me disse que bomba de tirar leite tem que ser simples e tem que dar para fazer com uma mão só porque, para algumas de nós, facilita na hora de tirar o leite se o bebê estiver mamando no outro peito. Essa bomba tem um bom preço, é fácil de montar e de usar e tem um kit em que já vem os potes para armazenamento, que você tampa e coloca na geladeira. Sem bisfenol A, aquele composto do plástico que é tóxico. Do kit, diria apenas para jogar fora o bico de mamadeira que você pode acoplar no pote de armazenamento e já dar o leite ali mesmo para o bebê. Acho que é melhor oferecer o leite no copinho, na colher ou, até, na mamadeira colher da Medela, por exemplo. Mas esse é o tipo de coisa que é possível comprar depois, quando surgir a necessidade.
  • ainda nesse assunto, bico de silicone, concha e toda essa parafernália não apenas são inúteis mas, ainda, atrapalham a amamentação (o bico de silicone) ou trazem risco de fungos e bactérias, como as tais conchas ou os absorventes para seios. Os seios têm que ficar arejados, secos e limpos, não úmidos e abafados. Das dicas salvadoras que recebi durante esse período, uma das mais importantes foi essa de deixar essas tralhas de lado, pois trazem mais problemas do que benefícios. Absorvente para seios, eu usei apenas em momentos de sair para fora de casa e, ainda assim, somente no começo, quando os seios realmente podem vazar muito (com o tempo, a produção regula com a necessidade do bebê e os seios praticamente não vazam). Nada de passar o dia com eles.
  • e aqueles cremes cicatrizantes, para o caso de fissuras ou machucados, tipo Lansinoh? Olha, comigo funcionou muito bem em momentos críticos, mas tem dois poréns que pouca gente vai te dizer. O primeiro é que não faz sentido algum usar esse tipo de creme ou qualquer outro tipo de produto no seio de forma preventiva. Seu seio é preparado pelo seu corpo e pela sucção do bebê, não precisa de mais nada. Nada de bucha, de estropiar o coitado, deixa ele sossegado ali que a natureza cuida do resto. O segundo porém é que passar esse tipo de creme de lanolina após cada mamada – como chegaram a me orientar – pode ser um tiro no pé. Porque esses cremes são super gordurosos e ficam na pele. E a pele do seu seio fica bem escorregadia. Junta isso com um bebê recém nascido que ainda não sabe pegar direito e que fica escorregando a boca e você poderá ter muito mais trabalho em ajustar a mamada. Ou seja, um produto que deveria te ajudar, mas que pode fazer a boca do seu pequeno escorregar, pegar errado, machucar ainda mais seu seio e dificultar muito mais para o pobre bebê faminto. Melhor usar apenas em casos críticos, né? Ou então passar o bom e velho leite materno mesmo nos bicos rachados, pois nosso leite tem alto poder de cicatrização.
  • o mesmo vale para os famigerados soutiens de amamentação. A menos que você tenha seios enormes, que fiquem ainda mais gigantescos com a amamentação, e precise de um suporte, uma sustentação para se sentir mais confortável, te digo: esses trambolhos só servem para atrapalhar. Pensa comigo: o bebê está com fome. Ele resmunga, chora, se irrita. Você levanta a blusa, baixa o soutien, isso quando conseguir encontrar o fecho que permite baixá-lo, claro, arranca o tal absorvente da frente, embola tudo isso num canto e, nesse ponto, o bebê já está mega estressado. Daí tenta aproximar ele do seu seio para fazer a pega correta com aquele monte de pano ali embolado, dificultando que vocês achem uma posição confortável. Se ainda tiver uma bela camada de creme de lanolina então… é a glória. Gente, não tem como funcionar, entende? É o seguinte: o peito vai cair, não tem soutien que segure. Vai cair mesmo que você não tenha filhos ou não amamente. Peito cai. Peito de quem amamenta cai também. Faz parte. Para quem se incomoda com isso, sugiro que guarde o dinheiro de toda essa porcariada para fazer plástica depois.
  • em tempo, ainda nesse quesito, havia me esquecido de um item super importante, que ficou tão incorporado na rotina que até me esqueci que faz parte do enxoval e só agora lembrei e voltei para editar o post. É a almofada de amamentação. Pode ser um travesseiro, uma almofada comum, ou uma daquelas específicas para amamentação, como essa maravilhosa da Boppy que herdamos da minha irmã e do meu sobrinho. Você amamenta uma vez meio desajeitada, noutra com os ombros encolhidos, noutra com as costas tortas, noutra sem apoio e, no final de um dia, dois, uma semana, um mês… você está arrebentada. Amamentamos de oito a doze vezes por dia e o bebê cresce, ganha peso e começa a pesar no braço. Então, tudo o que puder deixar essa experiência o mais confortável possível merece ser utilizado. Além disso, a mesma almofada de amamentação quebrou um galho durante o fina da gravidez quando, versátil, servia de apoio para a barriga na hora de dormir de lado. Foi o único modo de conseguir uma posição para dormir durante cerca de um mês… ou seja, essa almofadinha é salvadora.
  • por outro lado, no campo dos produtos de higiene para o bebê, por aqui nos demos muito bem com os produtos da Mustela. No Brasil eles custam uma fortuna, mas aqui são vendidos em qualquer farmácia por preços totalmente abordáveis. Os géis de banho, para corpo e cabelos são ótimos e práticos, assim como as barras de sabonete. O creme para a troca de fraldas também, funciona maravilhosamente quando começam vermelhões ou assaduras. Quando não tem nada disso, recomendo o liniment oléo-calcaire deles, dica boa de auxiliar de puericultura da maternidade. Aqui não se coloca uma camada de pomada para assaduras a cada troca de fralda a menos que o bebê tenha assaduras. Parece lógico, né? Eu, como sempre achei esquisita aquela crosta branca permanente em bumbum de bebê, gostei muito desse liniment, que é como um creme à base de óleo de oliva, bem gorduroso, que faz uma camada de proteção sem ficar grudento. Você pode investir em um frasco de liniment, outro de creme para assaduras e mais um gel de banho ou sabonete e, com isso, tem um belo kit básico para o bebê. Creme hidratante só usamos agora no frio, quando a pele fica mais ressecada como acontece com todos nós, mas não foi artigo de primeira necessidade. Protetor solar também, apenas quando fomos encarar o verão brazuca. Mas, ainda assim, preferi investir mais em chapéus que em cremes protetores para a pequena, porque pele de bebê é super sensível e ficar besuntando de produtos químicos assim logo de cara me pareceu um pouco demais. Pelo mesmo motivo, perfumes ou colônias para bebê é algo que me pareceu totalmente descabido. Bebê tem um cheiro delicioso, nada mais desnecessário que perfume para bebê (sim, tem isso aqui e os franceses parecem achar que é um ótimo presente, pois a pequena ganhou 3!!!).
  • ainda nesse tópico, de todas as coisas que vêm em um estojo de produtos de higiene para bebê, usamos apenas o cortador de unhas, a escova de cabelo e o termômetro. Aquele limpador de nariz fica pegando pó, já li que pode até machucar o nariz do bebê e, ainda por cima, aqui qualquer profissional de saúde vai te orientar a limpar o nariz do pequeno com soro fisiológico. Sempre. Nada de enfiar cotonete, limpador de nariz, limpador elétrico de nariz (sério, gente, como pode?), é soro fisiológico e pronto. E olha que resolve.
  • para as mamães, a Mustela também tem produtos maravilhosos. Um creme anti-estrias para passar ao redor dos seios, na barriga e nas coxas que foi meu companheiro por nove meses e deixou minha pele intacta e um creme de hidratação profunda para todo o corpo que também funcionou maravilhosamente. Acho que foram as melhores aquisições que fiz para mim durante a gravidez.
  • ainda para as mamães, além dos produtos de beleza, do chá da mamãe e dos famigerados soutiens, penso que no maravilhoso mundo da maternália não pode faltar uma calça jeans de grávida. Esse é o único item de roupa que eu achei fundamental ter comprado. Blusas largas, regatas, vestidinhos com corte capaz de acolher um barrigão… tudo isso foi possível encontrar em qualquer loja de qualquer marca por aqui. Coisas para usar antes, durante e depois. Mas a calça foi fudnamental. Porque chega uma hora que não dá mais para colocar alargador de fecho de calça. Nem deixar a dita cuja aberta mesmo. E não tem nada mais desconfortável do que roupa apertando o barrigão grande, é horrível. Então, se tiver que comprar uma única peça de roupa, invista na tal calça. Mesmo que não vá usar depois.
  • para tudo aquilo que pode ser comprado usado, recomendo o site leboncoin. Importante lembrar que aqui na França não existe nenhum preconceito contra comprar usados, não é coisa de pobre, nem nenhum desses preconceitos bregas de novo rico que a gente adora proferir na nossa terrinha, apenas coisa de gente que tenta consumir com menos desperdício. Enfim, no leboncoin você encontra de apartamento para alugar a gente vendendo tudo o que você puder imaginar. Inclusive artigos de bebê. Penso que para coisas que usamos tão pouco e que são reaproveitáveis e resistentes como berço, mobiliário de quarto, trocador, carrinho e afins, pode-se fazer excelentes negócios.
  • bom e barato você encontra também no Monoprix. Sim, o supermercado tem uma linha de roupas de boa qualidade a bons preços. Assim como a Hema. E a H&M, como me lembraram noutro post (obrigada!). E a Baby Gap, Vertbaudet e The essential one.
  • cadeirão, colheres, pratinhos, recipientes térmicos e afins? O bebê só vai começar a se preocupar com isso aos seis meses. Você pode fazer o mesmo.
  • brinquedos? Bom, a menos que você faça absoluta questão de dar um brinquedo específico para seu bebê, melhor economizar porque a maioria das pessoas vai dar brinquedos de presente. E está aí uma coisa que se acumula mais rapidamente do que os pequenos têm a capacidade de brincar e de realmente aproveitar cada uma daquelas coisinhas. Brinquedos, tapete de atividades, cadeiras, transats, móbiles com luz, música, barulhos… não sei não, mas começa a ficar um excesso de estímulos infernal, que muitas vezes mais estressa do que diverte. Bebês nascem mal conseguindo enxergar um palmo na frente do nariz, não vai adiantar colocá-los frente a um monte de brinquedos barulhentos, coloridos ou o que quer que seja. Leva um tempo até eles começarem a se interessar em olhar ao redor. E o que é bonito de ver é exatamente que o que parece atrair são luzes, sombras, movimentos, cores fortes… Não precisa correr com brinquedos, nem acumular uma montanha. Menos fraldas e menos brinquedos nesse mundo dos bebês, por favor!!!

Boas compras e, principalmente, boa maternidade. Se quiser saber o que é o mais importante providenciar para o bebê que vai nascer eu te digo, com toda seriedade e verdade, que não é nada disso que comentei ao longo desses posts. O mais importante a ser preparado é um lugar na vida dos pais para esse bebê, é preparar o coração para as mudanças e para as surpresas. E preparar-se para parir, para amamentar, para o corpo e a alma funcionarem, trabalharem em prol daquele pequeno que vai chegar. Todo o resto é supérfluo. E mais vale passar nove meses se preparando para esse acontecimento do que fazendo compras, arrumando quarto e outras distrações que, ainda que agradáveis, nunca vão dar conta do essencial.

Boa sorte nesse preparo de si, mamães!

Terceira parte das dicas de compras…

… para bebês e mamães aqui na França. Depois da intro geral e das roupas, vamos aos móveis e outros objetos do enxoval do bebê.

  • berço: essa é uma discussão mais de fundo, porque a importância do berço tem a ver com como você pretende criar seu bebê, especialmente no começo. Pretende fazer cama compartilhada? Então, um berço é o maior desperdício de dinheiro que você vai ter. Pretende deixar o pequenino dormindo ali do seu lado? Novamente, será um desperdício comprar um berço. Vai ficar pegando poeira, juntamente com tudo o mais do tal quartinho do bebê, que todo mundo diz que a gente tem que fazer mas que, na verdade, serve apenas para nosso exercício de vaidade ou de decoração. Sei que têm muitos pais que tentam e até deixam o bebê no seu próprio quarto desde o início. Mas além de não ser o melhor para o bebê, que fica totalmente desamparado naquele lugar solitário e silencioso, depois de ter passado nove meses aconchegado e quentinho na nossa barriga barulhenta, também não é o melhor para a mãe, especialmente aquela que amamenta e que vai ter que levantar dez mil vezes à noite, andar até o quarto, sentar em uma poltrona para amamentar e depois tentar voltar a dormir antes que o bebê acorde para outra mamada. OK, pode ser bonitinho, mas é zero em praticidade essa história de quarto do bebê. Além do mais, que mãe não fica com sono leve e querendo checar se o bebê está bem? A exaustão dos primeiros meses me fez perceber que cama compartilhada ou berço ao lado da cama, no quarto do casal, são muito mais adaptados para a realidade de ter um recém-nascido. Gastei dinheiro num belo quartinho de bebê todo mobiliado à toa. Penso que esse gasto vai fazer sentido bem mais tarde, quando o pequeno for capaz de dormir sozinho, o que pode levar um bom tempo. E, se forem anos, ele vai passar direto da sua cama para uma cama dele, o que torna o tal berço ainda mais obsoleto.
  • se não for berço e nem cama compartilhada, o que, então? Aqui, usamos muito uma excelente nacelle, aquele moisés de bebê que se usa no carrinho quando ele é recém-nascido e ainda não fica sentado. A nossa era essa aqui, da marca Bébéconfort de que gosto muito. Até agora, foi o que valeu outro investimento inútil e caro, que é o tal carrinho de bebê (falo disso já já). Enfim, a pequena dormiu abrigada e confortável ali até seus 4 meses. Foi MUITO melhor do que tentar colocá-la no berço gigante em que ela ficava perdida, mesmo envolta pela gigoteuse. Fora que melhorou demais para mim também a qualidade do descanso à noite, já que era apenas o caso de tirá-la da nacelle, deitá-la na cama e amamentar deitada, praticamente dormindo. E ainda, no caso de precisar transportá-la de carro, é um moisés adaptado a esse uso. A pequena vai deitada – o que eu particularmente achei bem melhor do que ir sentada, escorregando até virar um tatu-bola, porque bebê pequeno é todo molinho e não consegue se ajeitar naqueles bebês confortos de jeito nenhum. O pescoço vira pro lado, a cabeça cai para a frente e você tem que ficar fazendo mil manobras para o pobrezinho conseguir viajar com o mínimo de conforto. Então, nacelle para dormir e para transportar. Viva!
  • outra opção que achei muito boa e prática foi o que eles chamam de lit de voyage, aqueles berços desmontáveis um pouco menores que um berço comum. Usamos este aqui, da Chicco, que é caro, mas excelente. Fácil de montar e de desmontar, o colchão é muito bom, não daqueles super finos que se encontram normalmente nesses berços. Além disso, ele é mais alto, o que faz diferença especialmente no inverno, quando outros berços portáteis colocam o bebê praticamente encostado no chão. E daí, não tem jeito, o pequeno pega toda a friagem que sobe dali… nada bom isso. De todo modo, é importante ter em conta que esse tipo de berço é para um bebê até cerca de seis meses, ou quando eles aprendem a ficar sentados sozinhos, pois a partir daí, como eles não são muito fundos, ficam perigosos, como as nacelles.
  • mais uma opção, que dura bem mais tempo do que o moisés e o berço de viagem é o que eles chamam de lit parapluie, que também é um berço desmontável, mas justamente daqueles maiores, em que o bebê fica lá no fundo do berço, quase no chão. Se você tem tapete no seu quarto ou algum meio de proteger o rebento da friagem (estou parecendo uma avó com essa história de friagem, né?) ou se seu pequeno nasce no verão, acho que é o melhor investimento a fazer. Melhor que os outros dois porque dura mais tempo, melhor do que um berço comum que vai ficar te aporrinhando num quarto sem uso, esse ao menos pode ficar do lado da sua cama e pode ir para qualquer casa de sogra ou de mãe, quando a família viajar. O melhor que minha filha já usou, justamente em uma dessas andanças em terras brasilis, foi um da marca Burigotto, que não vende aqui, mas vende no Brasil.
  • trocador: a table à langer, a meu ver, não é essencial. Mas também não é um desperdício. A gente acaba trocando o bebê em mil lugares diferentes, na cama, no sofá, no tapete, nas cadeiras do restaurante (não perguntem, por favor…) e fazemos isso mil vezes por dia. O que significa que, para as nossas costas, um trocador na altura adequada é uma MARAVILHA. Então, o que eu diria é que, se der para gastar com isso, vá em frente. Nós usamos esse aqui, da marca Sauthon, que é bem sólida e duradoura em termos de móveis de bebê. Fora que todos se transformam em outra coisa, berço que vira cama, trocador que vira banco, o que ameniza um pouco os gastos, pois serão usados mais tempo.
  • banheira: eu diria que vale o mesmo que para o trocador. É totalmente possível dar banho em um bebê no chuveiro – ainda que eu sempre fique com aquela aflição de que o bichinho vai escorregar – ou mesmo na banheira normal da casa. Mas ter uma banheirinha com pé, que coloca o pequeno naquela altura ótima para poupar seu lombo combalido de um milhão de “abaixa-levanta” diários é bem, bem bom.
  • carrinho de bebê: de novo, merece discussão. O carrinho aqui tem enfeitado a sala, depois que parou de servir como berço para a pequena. Nada mais. Eu não uso o carrinho para transportar minha filha. Por quê? Primeiro, porque Paris é uma péssima cidade para grávidas e mães de bebês de colo. Tem escada demais e gente solidária de menos. O pior pesadelo de uma mãe é ter que carregar bebê e carrinho nas intermináveis escadarias do metrô parisiense e a maior parte das estações não possuem elevador. O que eu faço, então? Portagem. Além de resolver problemas práticos como esse, penso que é a melhor maneira de transportar um bebê. Lugar de bebê, como já disse anteriormente, é no colo. Bebê precisa do contato com a mãe, do calor, do cheiro, do coração batendo. E a mãe precisa ter uma certa mobilidade para transportar seu rebento. Nossas antepassadas e nossas atuais latinas, asiáticas e africanas sabem das coisas: bebê no colo é mais tranquilo, tem menos cólica, chora bem menos e mais um monte de benefícios que eu, entre outras pessoas, já enumerei. Fora que é tão mais prático.
  • então, se for se aventurar no maravilhoso mundo da portagem, aqui nos adaptamos muito bem ao sling de pano e não muito ao sling de argola. A pequena se adaptou bem também ao canguru, mas vale lembrar que, se for investir em um deles, verifique sempre se é ergonômico, fisiológico, ou seja, se permite ao bebê ser carregado na posição correta, que é com os joelhos na altura dos quadris. No quesito écharpe de portage, recomendo os wrap slings super bem feitos da Storchenwiege, uma marca alemã excelente, resistente e duradoura, ou os bem fresquinhos da Fil’Up francesa. Esses últimos cedem um pouco no tecido, mas são bem confortáveis para o verão, quando um tecido muito grosso pode incomodar um tanto, fazendo mãe e bebê transpirarem em bicas. No caso da opção ser o canguru, a melhor opção que encontrei foi a Ergobaby. Bebê fica ótima ali dentro… e descobri noutro dia que até a Gisele usa…
  • mamadeiras e chupetas: aqui nem é caso de ser necessário ou inútil, mas sim caso de comprar algo que é contraproducente e joga contra você. Meu conselho mais sincero, se você pretende amamentar, é NÃO, NÃO e NÃO. Eu ganhei de presente e nunca usei. E concordo com quem diz que ter essas porcarias em casa só serve para te desanimar e te deixar mais insegura quanto à sua real capacidade de alimentar o seu filho. Eu cheguei até a comprar uma lata de leite em pó, por orientação de uma pediatra que não entende nada de amamentação. Guardo a dita cuja junto com mamadeiras e chupetas, tudo fechado, como um troféu e dou uma olhada nelas sempre que preciso reunir forças para fazer frente a esse mundo desinformado que insiste em afirmar que não faz diferença dar leite materno ou em pó para um bebê. Faz. E enfiar uma chupeta no meio disso tudo ainda ajuda mais a confundir o bebê, que aprende a pegar chupeta e mamadeira e passa a ter mais e mais dificuldade em pegar o seio. Tenho escrito muito sobre isso e indico muitas outras leituras a respeito ao longo do blog e proponho que cada mãe se informe realmente a respeito de mamadeiras e chupetas antes de tomar uma decisão. E, te garanto que se você precisar mesmo, mesmo, mesmo de mamadeira e leite em pó, pode mandar o maridão em qualquer farmácia que ele encontra. Na França, mamadeiras e leite em pó ficam expostos nas vitrines das farmácias, então, nenhuma dúvida de que o lobby da indústria do leite em pó vai muito bem por aqui, obrigada e que seu rebento não vai passar fome. E quanto à chupeta, melhor ler ao menos isso aqui antes de decidir.

Sigo com as dicas de um pouco de tudo no próximo post, para finalizar, ok?

Segunda parte das dicas de compras…

… para mamães e bebês, aqui na França, e que começaram nesse post aqui.

Então, depois dos princípios gerais, vamos a uma lista subjetiva do que comprar. Isso porque cada mãe é uma, cada filho é um e eu, na gravidez, também li muitas listas de blogs amigos sobre o que tinha sido verdadeiramente útil ou não para cada mãe é bebê e isso varia um tanto, dependendo de como você cria seu rebento e do que é prioridade para você. De todo modo, segue aqui o que tenho achado importante como investimento e o que achei balela inútil.

Roupas:

  • primeira coisa é pensar em quando o seu rebento vai nascer, se no inverno ou no verão, para tentar comprar as roupas no tamanho certo para cada época. Digo tentar porque, como você vai perceber, numeração de roupa de criança é a coisa mais sem sentido do mundo. Tem roupa de RN que minha filha foi usar com três meses e tem roupa de 6 meses que ela usou aos 4. Comprei muita coisa baseada em numeração e estação do ano apenas para me dar conta, quando fui arrumar tudo, que as roupinhas não correspondiam a seus tamanhos e que o melhor jeito de organizar era medindo umas em relação às outras (momento de loucura obssessiva, vão vendo) e arrumar segundo os tamanhos reais das ditas cujas e não pelo que está marcado na etiqueta. Deu certo e, apesar da trabalheira e de parecer uma maluca, perdemos muito pouca coisa sem usar. Mas como faz na hora de comprar? Pois é, você vai ter que se basear no que está escrito na etiqueta e, se estiver comprando presencialmente, vai pegando a prática de olhar e ver se é pequena ou grande o suficiente. De todo modo, apenas como parâmetro, saiba que a maioria das marcas brasileiras fazem as numerações MUITO maiores do que as marcas daqui. Tem uma diferença gigantesca, que muitas vezes me fez pensar se no Brasil a gente tem filhos imensos ou se vestimos eles como um saco de batatas por um bom tempo até as roupinhas ficarem de fato certas para o tamanho dos pequenos. OK, ok, outra obssessão minha, eu acho mesmo que roupa tem que ser do tamanho de quem veste, detesto aquela história de gente que engorda e não compra roupa nova para “ter um incentivo” para perder peso e, enquanto isso, fica transbordando em roupa apertada e desconfortável, que só faz com que ela se sinta pior e, com isso, tenha mais dificuldade de emagrecer, ou seja… contra-producente pra caramba. Assim como detesto essa coisa de bebê e criança vestidos “de saco”, mesmo entendendo que isso permite economizar uma grana com roupas que vão se perder depressa. Mas, gente, no Brasil é um exagero. E economizar pode ser feito de outras formas (mais dicas sobre isso logo mais). Que bebê recém-nascido não fica nadando naqueles bodies? Eles também precisam de conforto, o que não quer dizer roupas apertadas, mas também não quer dizer uma massaroca de panos e tecidos amarfanhados contra a sua pele sensível, em muitas camadas que embolam umas nas outras, até o coitadinho ficar todo prensado. Enfim, o que provavelmente corresponde ao que seu bebê vai usar enquanto recém-nascido, a menos que ele seja muito grande, é realmente o tamanho RN daqui. Ou o tamanho seguinte, o 1. Se ele for pequenininho demais – ou prematuro – existem marcas que fazem numeração especial e vale investir em uma peça ou outra. Marcas como Petit Bateau, Chicco e The Essential One foram as que mais usei para minha filha recém-nascida, pois tinham as medidas mais corretas. Outra dica: por aqui, muitas marcas além de colocarem a numeração na etiqueta, colocam também o tamanho do bebê em centímetros que usaria aquela peça. Isso ajuda muito na hora de comprar, porque é bem mais preciso que os tamanhos.
  • quanto? Bom, eu concordo com aquela história de que, depois que o bebê nascer, lojas, farmácias e afins não vão deixar de existirem, o que significa que não é preciso fazer estoque de roupa e afins como se o mundo fosse acabar. MAS… e existe sim um mas. Depois que o bebê nascer, você provavelmente não vai ter todo o tempo do mundo para comprar as coisas de que precisar. Nem tempo, nem toda a tranquilidade para flanar entre lojas e aproveitar liquidações lotadas de gente. Então, mesmo que exista marido, família e amigos que poderão ir em busca de uma coisa ou outra, eu acho sensato você preparar ao menos o básico para os primeiros seis meses do bebê. Porque até lá você estará tranquila sabendo que pode abrir o armário e pegar o que precisa no meio da correria e, ainda, você terá um tempo para entender como funciona o dia-a-dia, o que precisa comprar a mais, o que não precisa, o que deu certo ou não e, com isso, fará as comprinhas pós-parto com o rebento a tiracolo, sabendo melhor o que necessita. O que poderá até tornar-se um passeio interessante para tomar um ar. Mas, no começo, a gente fica muito atrapalhada, não sei se faz sentido somar a isso uma lista de compras de coisas que estão faltando e são urgentes. Na minha opinião, com exceção das fraldas, que precisam ser compradas toda hora (o que qualquer um pode fazer por você, eu garanto, pois é mais fácil do que acertarem na compra dos absorventes, juro) é bom ter o básico em mãos.
  • e o que é o básico: em termos de roupa, são os bodies, as calças e os pijamas. E as meias, se as calças forem sem pé. Bodies de manga comprida e curta, dependendo da estação do ano, ao menos uma meia dúzia de cada. E uma meia dúzia de calças que tenham pezinho. Meia dúzia de cada, de cada tamanho, de RN até seis meses, ok? Tudo bem que você possivelmente vai ganhar mais um tanto, porque muita gente gosta de dar bodies, calças e pijamas como presente. Mas amenos que você ganhe uns 30 deles, te garanto que vai usar todos, muito, porque bebê é imprevisível, passa um dia inteiro com uma roupinha num dia e, no seguinte, suja três em duas horas, entre cocôs, vômitos e mais cocôs. Aqui na França é difícil de encontrar calça de algodão com pezinho (encontrei na Hema, são boas), porque eles já enfiam meia calça nas crianças desde cedo, ou então calça sem pé com meia. Os bodies podem ser bem básicos também, ou mais engraçadinhos, com desenhos coloridos e tiradas divertidas. Se estiver frio, provavelmente eles nunca vão aparecer, pois estarão escondidos debaixo do pijama, de um casaco ou de outra peça, então, invista no simples para o inverno. A Petit Bateau tem uma linha básica excelente, que dura horrores. Assim como a The Essential One, uma marca inglesa que é excelente para peças básicas, simples e resistentes. E a Noukie’s, uma excelente marca belga. No verão, têm bodies divertidíssimos e super coloridos da Desigual, Spoilt Rotten e Dirty Fingers (outras duas marcas inglesas, mas caras) ou Catimini. A Chicco, além de carrinhos e outras traquitanas, faz uma excelente linha de roupas, com pijamas quentinhos e duradouros para o inverno. Para pijamas, a The essential one também é ótima, assim como a linha da Vertbaudet, que é um site que tem tudo para criança, muita coisa bem interessante. Eles têm ótimas calças também, mas sem pé. E as gigoteuses são bem boas. Mas falo delas abaixo, num item exclusivo, porque gigoteuse é FUNDAMENTAL aqui, especialmente no inverno.
  • na França, como no Brasil, infelizmente ainda existe uma grande diferença entre as roupas “para menina” e “para menino”. Primeiro que ainda dividem assim, o que me parece muito questionável mas, enfim… Segundo que muitas lojas ficam no rosa, azul e branco e é um tédio que dói essas roupinhas de bebê. Se você busca cores, sugiro as marcas que falei acima. Ou pode ser que descubra outras e, se for o caso, passe aqui para me avisar, por favor. Mas você vai sempre encontrar uma roupa mais colorida para menina do que para menino, o que é de um sexismo bem chato e tacanho.
  • ainda na categoria roupas básicas: casaquinhos. Bom, é preciso considerar que aqui, os interiores são todos aquecidos. Então, mesmo no inverno o bebê ficará dentro de casa e dos outros lugares com um pijama quentinho. Ou com um body, uma calça e um casaquinho leve. Assim, você não vai precisar de mais do que uns dois ou três para usar nos ambientes fechados no inverno ou para jogar em cima da roupa em um dia de meia estação ou de verão em que sair com o bebê e bater aquele friozinho de final de tarde. Casaco de lã de vó é o melhor, nesses casos.
  • no mais, quando o frio aperta mesmo, esses casacos não servem de nada e você vai ter que ter casacos de verdade para o bebê, que, no caso, ou são casacos grossos, forrados, de malha, de lã ou de nylon, como esse aqui, com direito a capuz e luvas. Ou então, as famosas combinaisons pilote. Eu costumo colocar as de veludo na minha pequena quando está frio, mas que o dia está bonito, sem vento e chuva. A da The essential one é ótima. E quando faz frio úmido, com chuva e vento, coloco uma de nylon, como as doudounes de adulto, forradas, que protegem, bloqueiam o vento e aquecem. A da Chicco é excelente. Muitas marcas fazem esses macacões de inverno, os preços são sempre um tanto mais caros que os macacões normais. Mas é o melhor investimento em roupa de frio que você vai fazer e é necessário. É uma roupa que você coloca por cima da roupa que o bebê vai vestir e que vai ter que tirar cada vez que entrar em um lugar fechado porque, sim, do mesmo jeito que você tira o seu casaco vai ter que tirar o macacão do bebê, porque é quente mesmo. E, sim, tem que colocar as luvas, o sapatinho e, quanto ao capuz, eu coloco um gorro de lã que protege melhor e fica colado na cabeça, protegendo os ouvidos e suspendo o capuz apenas em caso de muito vento ou chuva. Bebês gostam de olhar e de virar o pescoço, o que fica complicado com o capuz da roupinha de astronauta (aliás, eles quase não se mexem nessa roupa, a minha pequena reclamava um monte no começo, mas depois que entendeu que isso serve para ela poder sair na rua, ela fica sossegada ali dentro, parecendo uma estátua, mas animadona porque vai tomar um ar). Além disso, perdem muito calor pela cabeça, então, penso que vale investir num gorro de lã. Penso que uma combinaison pilote em nylon e um casaco ou uma segunda combinaison em tecido bem quente e mais um bom gorro dão conta do recado. As luvas e sapatos vêm com o macacão, não precisa de outras. Com sorte o inverno não será tão longo e interminável e você terá que comprar apenas um tamanho de cada.
  • gigoteuse. Também acho que é peça fundamental no vestuário do bebê. Minha irmã carinhosamente a apelidou de “o saquinho”. De dormir. Porque é exatamente para isso que ela serve. Ao invés de enrolar o bebê em mil cobertores, o que é perigoso porque o bebê pequeno não tem o reflexo de se desvencilhar de um pedaço de tecido caso ele venha para cima de seu nariz e boca, aqui na França eles colocam o bebê para dormir na tal gigoteuse. Que é nada mais nada menos do que um saco de dormir, com ou sem manga, em tecido mais quente ou mais fresco, servindo para inverno e verão, em vários tamanhos, até a criança estar maior. Eu achava estranho no começo, acostumada que sou com uma cama feita, com lençol e cobertor por cima e, ainda mais, sempre tendo visto os berços dos bebês no Brasil cheios daquelas almofadas contornando o berço inteiro e um monte de travesseirinhos fofos, rolinhos, cobertas, tudo combinando. Enfim, aqui, em qualquer maternidade, eles vão te dizer que nada disso é recomendado, que é perigoso para o bebê e que bebê dorme deitado de costas, sem travesseiro, bem agasalhado de acordo com a época do ano e com uma gigoteuse. Para evitar acidentes. Para mim, faz sentido. E quando vi que minha pequena fica super bem “no saquinho” e que, ainda mais no começo, isso limita um pouco o espaço e os movimentos, fazendo as vezes de útero e deixando ela um pouco mais contida do que na imensidão do berço (afinal, quem teve a brilhante idéia de colocar um bebê que estava ali todo apertadinho na barriga num berço gigante onde ele se exaspera cercado de vazio e de ar por quase todos os lados? Isso não tem como funcionar, né? Vide o tal doutor Karp, que nos relembra que bebê fica melhor quando está mais contornado) adotei a gigoteuse como roupa básica de dormir, por cima do pijama. Serve para quem usa berço, moisés, ou até em cama compartilhada, pois não é possível puxar o cobertor até as orelhas quando a gente dorme com um bebê também por questões de segurança e qualquer texto que explique cama compartilhada vai sempre reforçar a necessidade de que todo mundo esteja agasalhado a contento para não deixar nenhum tecido dando sopa ali perto do rosto do bebê. Então, as gigoteuses também se encontram em tudo quanto é loja e marca aqui na França. Gosto muito das Vertbaudet, bom preço e boa qualidade. Têm também as da marca Moulin Roty, que são maravilhosas, mas muito mais caras. Como é algo que o bebê vai usar todo santo dia, pode ser que valha a pena o investimento, se for possível. E aqui entra a exceção à regra não comprar uma coisa gigante que deixa o bebê vestido de saco de batatas para que dure mais tempo. Já é um saco mesmo, compra um só, bom e quentinho para o inverno, de um tamanho grande e deixa o rebento ali. Veja apenas se a peça escolhida tem ajuste, daquelas que você pode diminuir o tamanho do buraco dos braços enquanto ele é menor, para evitar que ele se enfie inteiro lá dentro. Algumas permitem até que você regule o comprimento da parte em que ficam os pés. Enfim, é possível ter uma boa gigoteuse de inverno, acolchoada como um edredon e uma mais leve para as noites mais quentes. Mas essa nem é necessária, porque se você agasalhar o bebê o suficiente, ele pode dormir apenas de pijama e estará abrigado e confortável.
  • dentro do básico, já tem muita coisa, né? Por isso, e também pelo fato de que a maior parte dos presentes que você vai ganhar não são as roupas básicas, mas aquelas coisas lindas e sofisticadas, tipo roupa de festa, eu acho meio inútil sair comprando muita coisa sofisticada demais. Penso que o bebê deve, antes de tudo, estar confortável e coisas como vestidinhos, sapatos, laços na cabeça e afins servem apenas para a gente brincar de boneca, porque deixam os pequenos altamente incomodados. Existem roupas básicas e confortáveis muito bonitas, coloridas e alegres, que deixam seu bebê uma graça. Aliás, ele estará sempre lindinho e gracioso de qualquer jeito, não se preocupe. Assim, penso que é um certo desperdício gastar com vestidos, por exemplo. Minha pequena praticamente nunca usou nenhum vestido enquanto era recém nascida. Foi começar a colocar vestido lá pelos quatro meses e, ainda assim, apenas aqueles bem leves e confortáveis, molinhos, nada daquelas coisas cheia de laço, de pano, de fita e de coisas que deixam os bebês estressados, com calor e chorando. O mesmo vale para calça jeans e blazer em meninos bebês. Eita coisa incômoda, judiação! É claro, um vestido lindo para uma festa, ou para o ano novo, é muito legal. Não é necessário, mas é fofo. Especialmente se você fica de olho na criança e troca a roupa dela por algo mais macio e gostoso assim que ela começa a se irritar.
  • o mesmo, a meu ver, vale para os sapatos. Bebê não precisa de sapato, não serve para nada e ainda atrapalha os movimentos que ele está tentando descobrir como fazer. Coloque um sapato no seu bebê e veja como isso dificulta para que ele consiga bater um pé no outro, ou puxar o pé para a boca, ou apoiar o pé no chão para tentar se empurrar. Ah, mas ele precisa acostumar! Ele vai se acostumar, não se preocupe. Quando ele começar a andar você começa a cuidar de acostumá-lo aos sapatos. Até lá, pode deixar os pezinhos livres, pois o bebê precisa deles para testar as superfícies, o equilíbrio do corpo e os apoios. Se eu pudesse, deixava minha filha descalça o tempo todo. Como com o frio não dá (os pés dela ficam bem gelados no inverno, mesmo dentro de casa e ela começa a espirrar), eu deixo ela apenas com o tecido do pijama ou da calça cobrindo o pé, ou de uma meia, quando a calça não tem pé. E, sempre que vou trocá-la ou depois do banho, deixo-a um bom tempo brincando com os pés. Para fazer uma graça, claro, vale botar um sapatinho no dia em que coloca o vestido de festa. Mas o que vale para um vale para o outro: pouco tempo e sem insistir e estressar o bebê com isso. Não é confortável, eles não gostam, eles se irritam, incomoda. Só nós, adultos, é que gostamos. Então, na categoria das roupas inúteis e do desperdício de dinheiro, incluo roupas de festa, sapatos, laços e lacinhos de cabeça (os laços pequenos, a bebê pode engolir, é um perigo)…
  • e aquelas malfadadas luvinhas de algodão que as pessoas colocam para o bebê não se arranhar com as unhas. Gente, do mesmo jeito que a criança precisa poder usar os pés, ela precisa ter as mãos livres para aprender a pegar, sentir o mundo em volta dela e até para sentir o próprio corpo. Colocar luvas em um bebê é impedir uma parte super importante das experiências que ele é capaz de ter, ainda mais logo que nasce, quando não enxerga praticamente nada e só pode confiar nos cheiros e sons que sente e naquilo que começa a aprender a tocar. O toque é fundamental para um bebê. Melhor investir em um cortador de unha e aprender a cortar a unha do pequeno, com muito cuidado, porque é uma das coisas mais chatas e difíceis de se fazer do que ficar cobrindo as mãozinhas dele. Cobrir mão de bebê, a meu ver, só quando está um frio do cão e você tem que sair com ele vestido de astronauta e, ainda por cima, apenas pelo tempo em que estão ao ar livre.
  • por fim, outra inutilidade: babador. Não sei como vai ser quando minha pequena começar a comer sólidos mas, até agora, com quase seis meses, babador é algo que ela NUNCA usou. Não vejo muito sentido em ter mais um pano amarrado no pescoço dela para tirar ela do sério e, além disso, nunca vi vômito, baba ou regurgitada de bebê obedecerem à minha vontade e irem cair apenas na área que o babador protege. Sinceramente, bebês babam, vomitam, espirram, soltam cracas de todos os tipos e devem cuspir leite ou comida em algum momento. E isso tudo só vai cair em cima de um babador se você ficar puxando o babador para tentar alcançar a meleca da vez. O que significa: puxar o babador junto com o pescoço do bebê onde ele está amarrado. O que significa bebê resmungando e meleca caindo ali onde o babador não alcança. E você vai acabar tendo que trocar a roupa do mesmo jeito, se for uma meleca muito grande. E ainda vai ter que trocar de babador. Eu acho mais vantagem investir em ter toneladas e toneladas de paninhos de boca e fraldas de pano. Eles servem para tudo e mais um pouco, servem para forrar o trocador, servem para forrar qualquer lugar onde você vai ter que colocar o bebê, em qualquer lugar que vá, servem para proteger do sol ou de um ventinho eventual, servem para limpar meleca, secar meleca, secar bumbum, limpar baba, passar na roupa vomitada… enfim… paninhos são o grande coringa da maternidade, hehehe.

Bom, no próximo post escrevo sobre os móveis e outros objetos de primeira utilidade e inutilidade. Abraços e boa preparação de enxoval.