Mas no meu tempo…

Vou começar pelo óbvio, que parece que as pessoas que adoram esse mote desconsideram: o seu tempo é hoje. Isso posto, vamos aos fatos.

Vira e mexe vejo pessoas discutindo a respeito da infância e de seus filhos utilizar esse argumento: “ah, mas no meu tempo é que era bom, era assim, era assado”. De que tempo estão falando? Podem estar se referindo ao tempo de suas infâncias. Mas esse era mesmo o seu tempo?

Quem argumenta dessa maneira desconsidera que o tempo de nossa infância é tudo menos o nosso tempo. Ele é, essencialmente, o tempo de nossos pais, de nossos avós, daqueles que são os adultos daquele tempo e que fazem com que a vida seja tal qual ela é. Aquele tempo é o tempo de quem tomou as decisões, não de quem as vive de forma passiva.

O nosso tempo é o de hoje, quando nos tornamos adultos e participamos ativamente na criação desse mundo que nos cerca. E é aí que talvez possamos entender melhor porque existem pessoas que gostam tanto de dizer “no meu tempo…”

No meu tempo te libera de qualquer responsabilidade pela vida tal qual ela é hoje, como se o mundo atual fosse um acaso que tivesse despencado sobre a sua cabeça sem que você nada tenha feito para isso. No meu tempo as crianças brincavam livres pela rua. E quem é que guarda as crianças de hoje em dia trancadas em apartamentos e condomínios fechados, coladas na TV, no tablet e no celular? Ah, mas hoje em dia é muito perigoso deixar as crianças na rua. Sim, e de quem é a responsabilidade por esse perigo, de um mundo que ficou assim a sua revelia ou de escolhas que fizemos, enquanto sociedade, por manter desigualdades e criar tensões sociais que aumentam diretamente a violência? Escolhas e decisões das quais você participa e as quais você reforça quando opta por se encastelar no seu prédio cheio de câmeras e fios de arame farpado como uma vítima impotente de um destino cruel ao invés de reivindicar a rua e de agir para que ela possa ser ocupada até mesmo pelas crianças.

A pessoa que argumenta com o famoso “no meu tempo” se exime de pensar, de se implicar no tempo em que ela é adulta e potencialmente agente da situação, se acomoda e se acovarda numa situação dada, que ela alegremente transmite aos seus filhos na maneira como os educa. Sem nenhum questionamento, sem nenhuma rebelião, apenas aceitação. Dizemos “no meu tempo” como se o passado que parece tão melhor fosse obra nossa e o presente fosse fruto de qualquer um menos de nós mesmos.

Não foram os seus filhos que fizeram o tempo de hoje, eles farão os tempos de amanhã e talvez possam fazê-lo muito melhor do que aquilo que fizemos. Mas se o tempo atual está tão pior do que o tempo da sua infância é muito provavelmente porque você trabalhou muito menos do que os seus pais para construí-lo bem. Ou porque se acomodou na idéia do “meu tempo” como um tempo sempre passado e não se deu conta que precisaria agir e fazer um grande esforço para ter um tempo que julgasse bom.

As pessoas que gostam de dizer “no meu tempo” para discutir infância e crianças são as mesmas que gostam de dizer “nós fizemos isso e sobrevivemos”. O argumento do sobrevivente é a sequência óbvia para o argumento da nostalgia do tempo que passou. E ao mesmo tempo é sua negação. Porque quem viveu num tempo tão maravilhoso não precisaria ser um sobrevivente, né? Não teria que justificar que passou por situações difíceis ou que foi o alvo de decisões questionáveis e que conseguiu ultrapassá-las. Se “o meu tempo” tivesse sido tão bom assim, por que você teria que ter “vivido e sobrevivido” a ele?

A infância é uma fase da qual guardamos lembranças que misturam realidade e ficção. Muito do que foi nossa infância nos resta como memória à partir do que nos contam os adultos. São os adultos, os verdadeiros senhores daquele tempo, que nos repetem o que aconteceu através de seus relatos, de fotos, de vídeos, de testemunhos. E nós acreditamos nessa versão porque ela é parte importante da colcha de retalhos que precisamos montar cada um de nós a fim de termos alguma referência do que foi que vivemos. Boa parte, sobretudo de nossa primeira infância, fica em algum lugar recôndito de nosso ser, esquecida, presente apenas em traços que quase não são memórias… um cheiro, um gosto, um clima, um déjà vu. Existe aquilo de que lembramos e aquilo que criamos como lembrança e tudo isso nos compõe. Muitas vezes em análise as pessoas chegam por conta de um sofrimento decorrente entre essa memória criada e alguma sensação dissonante de que algo ali não bate e o trabalho é feito no sentido de aproximar essa sensação de discrepância de algo que pareça uma memória mais coerente com aquilo que a pessoa sente ou intui. Tudo isso para dizer que “no meu tempo” desconsidera também que esse tempo tão bom é uma construção, repleta de muitas verdades e de muitas farsas, que serve para quem você é hoje mas que pode conter em si muitas áreas de desconhecimento, de sombra ou, até mesmo, de mentira.

Uma mentira possível é aquela que os advogados do “no meu tempo” também gostam muito de propagar: a de que nas suas infâncias tão felizes, seus pais eram muito mais relaxados, tranquilos e menos pressionados do que os pais de hoje em dia em relação à educação de seus filhos. Como se os pais tivessem, naquela época, a sabedoria de deixar seus filhos brincando entre si enquanto conversavam alegremente entre adultos, cada qual livre para viver sua vida de criança ou de adulto sem que um interferisse no prazer do outro. As pessoas que lançam essas memórias de pretensa liberdade de adultos em relação aos seus próprios filhos, como se nos pais sim tivessem tido a capacidade de não ficarem escravizados ou assombrados pela infância e por suas crianças, esquecem de perguntar a esses mesmos pais e, especialmente, às suas mães, como é que era realmente o cotidiano de seus cuidados.

Quem se dá ao trabalho de confrontar idealização com realidade indo falar com os próprios pais talvez perceba que, sim, eles tinham a tranquilidade de deixar os filhos brincar na rua. Ou brincar longe deles durante uma reunião entre amigos. Mas essa aparente descontração não significa que eles não estivessem repletos de preocupações ou de pressões em relação aos seus filhos e à sua criação. Se na época de nossos avós o melhor que se podia oferecer para uma criança era que ela fosse à escola e pudesse ao menos saber ler e escrever, é justamente na geração de nossos pais, aquela em que há um salto por conta dos estudos para muitas e muitas famílias, que oferecer aos filhos apenas a alfabetização não é mais suficiente. É importante ir além, é importante ir para a faculdade. E poder trabalhar e ganhar a vida decentemente. Então, possivelmente nossos pais não estavam preocupados com agrotóxicos na comida (porque isso apenas começava a existir) ou com excesso de hormônios no leite de vaca (porque o leite era melhor e menos turbinado naquela época). Mas eles se preocupavam, se estressavam, se sentiam pressionados por eles e por seus pares a nos darem o melhor daquilo que se concebia como melhor naquela época. Ou seja, a maternidade e a paternidade nunca foi algo sem pressão, sem questionamentos, sem críticas ou sem dúvidas.

Ou talvez sim, tenha sido. Historicamente, ter filhos era outra coisa até o momento em que a infância passou a ocupar o centro das atenções das famílias. Mas isso aconteceu quando a família, que era extensa e englobava várias gerações e vários graus de parentesco passou a se centrar na família nuclear. E as crianças, que eram mini adultos considerados apenas como mão de obra se tornaram, pouco a pouco, crianças na acepção que se tem do termo nos dias de hoje. Só que essa mudança não aconteceu da geração anterior para a nossa, como parecem pensar os defensores do “meu tempo”, um tempo onde a infância seria totalmente diferente do que se vê nos dias de hoje. Não, a idéia de infância como existe hoje, assim como a idéia de família e até a idéia de centralidade da infância são construções históricas que começaram mais ou menos no século XVI. Para quem tem dúvidas, basta ler Philippe Ariès. Já faz alguns séculos que a infância e as crianças estão “no centro” das atenções das famílias, mesmo que o que possa ser considerado como foco de atenção possa variar de uma geração a outra.

Então, as pessoas do “no meu tempo” e do “fiz e sobrevivi” parecem precisar desses argumentos que as colocam em um passado ideal sem nenhuma responsabilidade pelo hoje que existe para fazer frente a algo que as angustia muito, assim como angustia a qualquer que tenha filhos e que elas chamam de “centralidade dos filhos” na vida familiar atual. E, para isso, elas citam exemplos de pessoas preocupadas com educação, alimentação e todos os outros aspectos da criação dos filhos como potenciais escravos dessas crianças, que se tornariam tiranos. Além de ser um argumento de gente que não quer se mexer e que parece ficar incomodada que outros queiram, me espanta a cada vez que o escuto, principalmente quando usado para falar de nosso filhos, sua mediocridade e sua pobreza de espírito.

Se formos traduzir, esse argumento das pessoas que se irritam com quem busca informações, alternativas, referências e, em suma, se questiona permanentemente é uma espécie de elogio da ignorância e do imobilismo. Como “no meu tempo” era diferente e minha memória construída desse tempo é boa e como, corroborando o que eu acredito está o fato de que eu estou aqui, estou vivo e me julgo alguém legal, logo, no que diz respeito aos meus filhos, basta replicar o que eu vivi. Não importa que se passaram 30 anos entre a minha infância e a dos meus filhos, não importa que nesse meio tempo descobriu-se que açúcar causa obesidade, por exemplo. Se eu tomava refrigerante e estou aqui, o pimpolho também vai tomar. Porque, de que importa que as informações surjam, que pesquisas sejam feitas, que pessoas questionem, que novos modos de entender apareçam?

O que essas pessoas fazem é um elogio da ignorância e da mediocridade contra quem quer que pense ou aja diferente. E que é rapidamente taxado de excessivo, escravo dos filhos, criador de tiranos em potencial. Na sua preguiça em rever a si e aos seus conceitos, na sua inércia em agir no mundo e no tempo atuais, acomodam-se no “seu tempo” e no “eu vivi” e se regozijam uns com os outros a cada vez que aparece um novo texto sobre maternidade sem complexos, sem cobranças e sem neuras. Todos os outros ficando do lado das neuras e da cagação de regra.

Será mesmo que os pais dessas pessoas, os pais e as mães dessas pessoas que pregam a coolitude a qualquer preço em relação à maternidade e à paternidade estavam assim tão tranquilos no tempo deles? Ou será que são esses pais que estavam se esforçando em tudo aquilo que eles julgavam essencial na época para mudar o mundo, para construir um mundo melhor e para dar a esses filhos melhores condições e um ponto de partida diferente do que tiveram? Se os pais dessas pessoas tivessem ficado com essa lógica que elas adoram do “no meu tempo”, eles não teriam ido para a escola além da quarta série, nem teriam ido para a faculdade, não teriam viajado para conhecer o mundo, nem teriam ido a museus, peças de teatro ou concertos de música. Porque “no tempo” dos nossos pais, nossos avós tinham outras preocupações, outras prioridades, outras pressões e, portanto, outras ações em relação aos seus filhos.

Se toda gente ficasse acomodada nessa lógica do “meu tempo”, crianças não seriam vacinadas porque houveram gerações de pessoas para as quais não haviam vacinas e que, mesmo assim, sobreviveram. Crianças nem iriam à escola porque houveram gerações de crianças que iam diretamente ao trabalho e, quando muito, a centros de formação técnica, que é o que existia na Idade Média tardia. Crianças cujos pais foram apenas alfabetizados se preocupariam apenas que seus filhos soubessem assinar seus nomes. E pais que viveram a fome se preocupariam que seus filhos pudessem apenas comer e não comer o mais saudavelmente que cada época pode proporcionar. Apenas para viajar em alguns exemplos.

E é bom lembrar que estamos falando apenas de uma certa camada da sociedade, de uma certa parte desse país. Essa camada que mais ou menos compõe a classe média atual das grandes cidades. Porque em muitos lugares do Brasil (e até mesmo do mundo) crianças brincam nas ruas livremente, crianças brincam entre si enquanto seus pais conversam, crianças andam descalça e não ficam na frente do computador, da TV e nem cumprindo agenda de ministro. Aliás, se essas pessoas do “meu tempo” olhassem um pouco para além de seus próprios umbigos, veriam que as questões delas são também questões específicas, não generalizáveis, nem historicamente e nem ao menos em um mesmo país, em uma mesma classe social, em uma mesma cidade. São questões preguiçosas de gente que, ao invés de assumir suas escolhas por ficar na lógica do “meu tempo”, do “fiz e não morri” para se oporem às crianças tiranas que tanto as assombram, preferem ainda uma vez não assumir responsabilidade nenhuma, nem por suas posições na vida e em relação aos filhos, criticando e jogando a culpa nos outros, que são mostrados como os equivocados.

Nos tempos de hoje temos a vantagem e ao mesmo tempo a condenação de termos em mãos o acesso à muitas e desencontradas informações. E isso, em todos os domínios, inclusive no que diz respeito à infância. Para muitos de nós, isso funciona como uma espécie de fantasma, como se tivéssemos que dar conta de tudo o tempo todo sem errar. Consequências do nosso tempo, que se torna angústia e sofrimento para muitos e essa reação tosca de recusa para outros. Será mesmo que para acabar com a angústia é necessário se fechar nesse passado ideal e nessa recusa em se mexer? Se isso funcionasse para acabar com essa angústia, por que então as pessoas do “no meu tempo” se sentem tão propensas a escrever sua defesa permanente de sua posição?

Em tempo, as pessoas falam da centralidade da infância como se a criança de hoje fosse o centro do mundo e tudo girasse em torno dela. E, para defender esse argumento, usam o exemplo das crianças que fazem milhares de atividades e cujos pais passam os dias a levar e trazer e a seguir crianças em atividades e programas de crianças sem fim. Nem vou mencionar novamente o quanto isso é uma realidade parcial, localizada no tempo e no espaço e totalmente diferente do que ocorre na imensa maioria do Brasil. Limito-me à perguntar o que sempre penso quando escuto essas afirmações: será que isso é mesmo uma prova da centralidade da criança nas famílias atuais? Será isso mesmo uma demonstração da tirania das crianças e das infâncias que escravizam os adultos? Ou será que é justamente o contrário, uma demonstração de um modo de agir no qual a criança é apenas refém de um leva e traz infinito, através do qual ela é delegada a tudo e a todos, na esperança e na aposta de que toda essa ação, de que todas essas atividades, de que todas essas outras pessoas consigam preencher um vazio daquilo que justamente não podemos, não queremos ou não conseguimos dar, a condição e a importância central que essa criança deveria ter substituída por uma performance que serve de vitrine e de justificativa para os outros? Será que a criança tirana não é, na realidade, a criança que, frente a essa ausência, frente a essa falta do essencial, começa a adoecer, a se rebelar, a dar trabalho e dar problema, convulsionando frente a esse contexto que mais a violenta do que a leva em consideração?

O que será que essas crianças de hoje vão dizer do “seu tempo”?

 

Maternidade e psicanálise

A experiência da maternidade, somada ao fato de vir morar na França, mudaram muito o meu jeito de conceber a psicanálise. Isso e a própria passagem do tempo que, segundo dizem por aí, é o que faz com que psicanalistas e vinhos se assemelhem. Eis algumas coisinhas que aprendi nesses mais de 20 anos de profissão, em dois países diferentes, dois filhos depois.

  • Psicanálise tem a ver com acolhimento e escuta. Em um mundo tão árido e pouco solidário como o nosso, acolhimento e escuta tornaram-se artigos de luxo. Quem se dispõe a escutar? Quem se dispõe a acolher? A estar junto? A acompanhar uma pessoa em uma parte de seu caminho? O psicanalista se dispõe. Ou deveria. Receber um total desconhecido na sua sala para que essa pessoa fale de dentro das suas entranhas é como um presente. Pode ser um presente de grego algumas vezes, mas é uma preciosidade que deveria ser tratada com o maior respeito. Frente ao outro no seu lugar mais vulnerável, mais frágil, mais aberto, o silêncio acolhedor do analista é como uma espécie de alento para alguém que sofre. Quando alguém chega e te endereça esse tipo de fala, essa fala profunda e doída, o melhor que você pode fazer é recebê-lo com o cuidado e o respeito de quem acolhe uma pessoa em um dia de chuva com um cobertor, um chá quente e um lugar confortável onde se pousar. Anna Freud atendia seus pacientes tricotando e isso não tem nada a ver com uma desatenção ou um desrespeito. Era sua maneira inteligente de prestar atenção no que diziam e de criar um ambiente acolhedor para que pudessem dizer.
  • Escutar é… escutar. Mesmo. O exercício mais difícil do mundo para qualquer pessoa. Mas para os analistas, ainda mais. Quantas pessoas nos escutam, quantas pessoas realmente escutamos? Será que escutamos realmente nossos filhos, por exemplo? Escutar é aceitar ser arrancado de si mesmo e de suas certezas e mergulhar num mundo de palavras do outro. Quando a gente ouve o que alguém tem a dizer sentindo o peso de dar uma resposta ou uma solução, não queremos escutar nada. O que estamos fazendo é tentar calar a fala do outro com uma resposta que faça ele parar. Você está sofrendo, triste, em carne viva? É isso. Pronto, a pessoa se cala acomodada à sua resposta, acreditando por um momento que seja a solução para o que ela diz. Até que, invariavelmente, ela termine por descobrir, cedo ou tarde, que sua resposta foi uma espécie de violência contra o que ela dizia, que ela foi interrompida em suas palavras e que você, de uma certa maneira, a calou. Freud dizia que o analista só fala nos momentos em que o paciente tem sua fala calada. O analista fala para o paciente poder continuar falando. Se o analista o cala, alguma coisa está fora de lugar.
  • Escutar também não tem nada a ver com dizermos para nós mesmos: ah, é isso. Não é uma resposta para o outro e muito menos para nós analistas. Isso que os analistas falam, isso que os analistas sabem… ai, ai, ai. A teoria serve, ou deveria servir apenas como inspiração para pensar, para ajudar a pensar. A teoria não é uma certeza. No momento em que começamos a ter certeza de que entendemos alguma coisa de uma pessoa é porque paramos de escutar. Nós sabemos tão pouco sobre o outro, que quando ele abre a boca é, na imensa maioria das vezes, uma grande surpresa. Uma pessoa é um universo particular. E mesmo que as questões humanas não sejam tão infinitas quanto os humanos sobre a Terra, a colcha de retalhos que cada um faz para dar conta das mesmas questões é totalmente individual. Então, a teoria em psicanálise serve à clínica, e não o contrário. Não é o paciente que tem que se encaixar em alguma coisa que Freud, Lacan, Winnicott ou quem quer que seja disseram. São esses psicanalistas que podem ter dito coisas úteis para entender uma ou outra coisa sobre tal pessoa. Ou não. E daí, é preciso inventar novos escritos para pensar as pessoas que estão por aí, falando. Freud – ele novamente – nunca hesitou em reformular suas teorias a cada vez que sua experiência clínica mostrava que não era aquilo. Freud era capaz de uma humildade e de uma honestidade intelectual que a imensa maioria dos psicanalistas hoje em dia não possuem. Infelizmente.
  • Mas então o que a gente pode dizer? Antes de dizer qualquer coisa, melhor se dar conta do quão pouco sabemos. E de que não temos nenhuma verdade a oferecer para ninguém. A famigerada interpretação, que muitos analistas esqueceram que é algo a ser usado com parcimônia, nada mais é do que dizer para o sujeito aquilo que ele disse, aquilo que ele acabou de dizer sem dizer. Uma interpretação é uma fala estranha que fala ao mesmo tempo do que já foi dito e do que vai se descobrir no instante seguinte. É como uma ponte entre dois tempos aqui e agora. Nós interpretamos quando aparece uma ponte entre esses dois tempos, quando aparece algo que a pessoa sabe e não sabe, que ela acabou de dizer e não disse. Nós fazemos a ponte com a nossa fala. E é só. Nada de pregação, nada de aula, nada de ocupar um lugar indevido de quem adivinhou o que quer que seja. Não somos magos, adivinhos, nem nada que o valha. E aceitar que uma pessoa nos coloque nesse lugar e que fique nos idolatrando enquanto lambemos alegremente a nós mesmos em uma espécie de auto-satisfação orgulhosa é algo como uma obscenidade. Uma impostura, diria Lacan. Lacan, esse mesmo que falou sobre ocupar o lugar do mestre e pouca gente lhe deu ouvidos. Colocaram o próprio Lacan nesse lugar de mestre, colocaram-se a si mesmos nesse lugar de mestre. E o resultado disso foi um bando de psicanalistas mais preocupados com a sua performance do que com quem está ali na sua frente.
  • Uma pessoa que chega para uma análise não chega para uma análise. Ela não quer nem saber de análise. Ela está ali porque está sofrendo e não consegue mais se desviar das consequências desse sofrimento. E o que ela quer encontrar é um meio de desviar. Ninguém quer mudar nada sobre si mesmo nessa vida, o que queremos é que o nosso entorno mude e se acomode ao nosso desejo. Ponto. Quando isso não acontece, o que quer dizer, sempre, e quando esse abismo entre o que queremos e o que a vida é se torna insuportável, por vezes vamos até um analista. E o que queremos dele é que ele nos ajude a negociar com a morte, como aquele personagem maravilhoso de O sétimo selo do Bergman, que passa um filme inteiro jogando xadrez com a morte. Eis uma das metáforas mais potentes do que tentamos a vida inteira: queremos negociar com a morte. Então, quando chegamos no consultório do analista, não queremos mudar. Mesmo que digamos dessa maneira o que estamos ali buscando. Queremos que tudo se acomode. Queremos encontrar um desvio. Queremos o máximo possível com o mínimo de esforço. Que é o mesmo que pedimos ao psiquiatra, ao padre, ao guru e a todos os seres que pensamos que poderão nos ajudar com algo do tipo.
  • Mas… esse é um pedido que nenhum analista tem condições de atender. Ou melhor, que nenhum analista que tenha sido minimamente marcado pela vida tem condições de atender. Até poderia dizer, que nenhum analista que tenha feito uma análise tem condições de atender. Mas isso seria um risco de supor que um analista que tenha feito uma análise pessoal teria feito realmente uma análise. O que nem sempre é o caso. Porque um analista em análise é alguém que chegou tentando negociar como qualquer outro. Alguém que quis se desviar o quanto pode. E que muitas vezes conseguiu, sob o olhar conivente de um outro analista. Do mesmo modo que muitos pacientes encontram seu desvio sob o olhar conivente de seus analistas, todo mundo sai feliz e satisfeito, uns elogiando aos outros. E a máquina se retro-alimenta sem que ninguém tenha que pagar com o seu pedaço de carne.
  • Enfim, tem alguns analistas que não podem atender a esse pedido. Sorte ou azar seu se foi parar na sala de um deles. Porque ele vive e sofre e percebe na sua própria carne que viver tem um preço. Estar vivo tem um preço. E custa muito caro. Então, a menos que esse analista seja ele também uma pessoa que passou a vida desviando, tegiversando, negociando com a morte, engambelando para não pagar o preço da vida, ele não vai poder ajudar o sujeito a negociar, engambelar e se desviar. Isso é a única coisa que temos a oferecer, essa ferida que é comum a ambos e a todos nós, esse preço que se paga pela vida. Tudo o mais é farsa, teatro. Perda de tempo.
  • E então acontecem às vezes uns belos encontros entre analistas que não negociam e pessoas que chegam em carne viva, querendo desviar… mas que não desviam. E pagam o preço da vida. E conseguem existir de maneira encarnada. Se alguém me perguntasse o que faz um analista, eu diria que tudo o que podemos fazer é acompanhar uma pessoa que decida percorrer o árduo caminho entre ela e ela mesma. E que sabemos que isso aconteceu quando essa pessoa encarna no próprio corpo. Quando cada palavra é substância, quando existe uma coerência entre a fala, a ação e a carne. Isso é o que um analista “faz”. Tudo o mais é perfumaria. Ou, como dizia o perspicaz Winnicott, tudo o mais é o que o analista pode fazer quando uma análise não é possível. Ou nos diversos momentos de uma análise em que uma análise não é possível. São esses momentos ou esses encontros em que uma análise é possível que fazem todo o resto valer à pena. Do ponto de vista de quem trabalha com isso, claro.
  • Em tempo, Freud, Lacan, Klein, Winnicott e todos os outros eram e são… pessoas. Pessoas que viveram e vivem em um certo lugar, numa certa época. Pessoas por vezes geniais mas, também… pessoas. Ninguém, nem mesmo o Freud todo poderoso, tem a capacidade de olhar de outro lugar que não sejam seus olhos. E ignorar isso e tomar o que quer que tenham escrito como uma verdade absoluta em qualquer tempo, para qualquer pessoa, em qualquer lugar, é ignorar uma das maiores preciosidades que a psicanálise nos trouxe, que foi levar em consideração quem fala. Respeitar até as últimas consequências que quem fala é aquele ali e que sua fala só pode sair da sua boca e não de nenhum lugar divino onde estaria a verdade nua e crua. Quem fala é Freud, é Lacan… e eles são gênios e são uns tremendos idiotas. Têm coisas que eles disseram que não servem para absolutamente nada hoje em dia. E coisas que dão um alento no coração para pensar nos nossos tempos e no nosso sofrimento. Uma coisa não anula a outra. Mas ninguém nem nenhuma teoria são um pacote completo e acabado que tem que ser comprado, aceito, comido e engolido em sua totalidade. As ditas “ciências duras” vivem nos dando provas disso, revendo, desdizendo, mudando e retomando uma porção de suas teorias o tempo todo. Ninguém tem pudores de questionar Einstein, Darwin ou quem seja. Esse desendeusamento respeitoso que, infelizmente, nós psicanalistas não aprendemos.
  • A França tem uma das psicanálises mais potentes e ao mesmo tempo mais engessadas do mundo. Contrariamente ao que acontece na Inglaterra, ou até mesmo no Brasil, por aqui o fantasma Lacan todo poderoso imobiliza e empobrece grande parte do que é dito, escrito e feito em termos de psicanálise. Criaram por aqui uma linguagem que ninguém entende, para falar como Eco, a deusa grega, que tem apenas a si mesma como resposta. Eco reverbera por entre muralhas surdas em uma fala que se repete num infinito de palavras mesmas, palavras sem sentido e sem fim. Uma chatice, uma pobreza, uma incapacidade de transitar que sufocam qualquer um. São poucos os psicanalistas franceses que conheci, encontrei ou li – até hoje – que conseguiram escapar dessa assombração Lacan que deixou a maioria burra, chata, pretensiosa e… surda. Stein, Zygouris, Plon, Didier-Weill, Oury, Pontalis… nem cheguem a se empolgar porque a lista é curta. E, se forem ver bem, são praticamente todos de uma velha guarda, gente que escreveu pouco, gente econômica nas palavras, mas muito produtivas em sua prática clínica. A experiência realmente tornou alguns analistas tão bons quanto os melhores vinhos. Mas também tão raros quanto. Gente que parece ter entendido que o melhor do legado de Lacan é justamente essa palavra que não diz nada, essa palavra que é chiste, que é jogo. O melhor do que Lacan disse ou do que ele escreveu foram essa escrita e essa palavra que são a coisa mesma, que são aquilo mesmo de que ele está falando, que são o inconsciente como linguagem. Não tem nada para entender. Não tem nada a que se agarrar como uma verdade, um modo de pensar, saber, fazer, dizer as coisas. Não tem nada para usar como pregação. Tudo é brincadeira, Lacan seu fanfarrão. Talvez se você tivesse nascido no Brasil as pessoas te entendessem com o devido senso de humor.
  • Aliás, passou da hora da psicanálise brasileira parar de pedir benção para a psicanálise francesa. 90% do que se produz e, temo dizer, do que se faz aqui em termos de psicanálise poderia ir direto para a lata do lixo do esquecimento total e absoluto da história. Muita gente que ouve sem escutar, cheia de certezas, de tempos lógicos fora de lugar, de interpretações exibicionistas, de compreensões incompreensíveis. Muita gente tentando impor o tempo, o corte, a castração, a função paterna, o diabo a quatro. Muito silêncio indiferente, muita distância de descaso. Muita falta de empatia e de humildade. Muita gente acreditando piamente que interpretar é como dar uma lição no outro. Muita violência. Bom, talvez, pensando bem, não seja muito diferente do que aconteça na maioria esmagadora dos divãs brasileiros também. Essa violência da arrogância, do saber, da certeza. Essa incapacidade de se colocar em uma posição de vulnerabilidade. Aqui, isso gerou uma repulsa à psicanálise que é tão grande quanto sua própria influência e que, a meu ver, é consequência direta, entre outras coisas, dessa psicanálise surda, burra e narcisista que impera por aqui.
  • Mas se não tem muita diferença, nem na prática, nem na teoria, no Brasil ainda temos uma capacidade de andar nas fronteiras, uma mestiçagem que, mesmo problemática em vários campos, trouxe para a psicanálise e para alguns psicanalistas um jogo de cintura, um rebolado, um molejo que são um tesouro raro. Que saudades tenho das pessoas fazendo arte psicanálise. Aqui não existe E, a França é uma cultura de especialidades e de pessoas que se encaixam em suas especialidades e que nunca mais podem sair do lugar. Isso vale do ponto de vista da formação, isso vale para os percursos profissionais e isso vale, especialmente, para o trabalho do pensamento. A França não tem mestiços, ela tem franceses e/ou estrangeiros. Aqui não existe isso de você ser francês descendente de brasileiro. Você é francês. Percebem que isso impede a fronteira, impede de ser dois, de ser múltiplo? Isso vale para as subjetividades, vale para a psicanálise e encerra pessoas e psicanálise em um terreno bem restrito. Sim, existem exceções.
  • Então, um pouco de cautela da próxima vez que te apresentarem a Bíblia psicanalítica do momento. Ou O cara. Uma das coisas que aprendi é que isso é tudo menos psicanalítico. Isso é religião. E o “santo” Freud tinha muita coisa não muito simpática a dizer sobre religiões, lembram?

Uma pessoa que chega no consultório em carne viva e se confia a um total desconhecido quer negociar. Mas também quer ser acolhida. E escutada. Na verdade e na legitimidade da sua dor. Existe uma dimensão de humanidade, de solidariedade e de compaixão no trabalho psicanalítico que se perdeu historicamente e que se perdeu na fala, nos escritos e nas ações da maioria dos psicanalistas. Uma das psicanalistas mais admiráveis que conheço – brasileira, viveu na França muito tempo e, não, não sou eu e não foi minha analista – é capaz de acompanhar seus pacientes ao longo de uma sessão com seu silêncio acolhedor, sua escuta que não sabe nada e suas palavras econômicas para, ao fim da sessão, sair da sala e acompanhá-los papeando sobre corte de cabelo, viagem, netos… Ela é assim, como a vida. Como os encontros possíveis entre humanos. Como a psicanálise, a meu ver, poderia ou deveria ser, se fosse minimamente coerente consigo mesma. Capaz de escutar a dor mais profunda do ser humano e falar da chuva lá fora. Psicanalistas que se levam a sério demais não são psicanalistas. São apenas… chatos. Ops!

No mundo da maternidade, muita gente critica, e por vezes até teme a psicanálise. Como se a psicanálise fosse inimiga da mulher e da mulher mãe. Se pensarmos no modo como se leva ao pé da letra muita coisa do que Freud escreveu sobre o feminino invejoso e incompleto e sobre a mulher histérica até hoje, e se pensarmos no modo como a idéia da função paterna lacaniana ressoou e ressoa como uma condenação ao laço entre mãe e filho, entendido como uma ameaça a ser combatida, não espanta essa repulsa. E chegaria a dizer que ela tem até um lado bem fundado em querer distância desse discurso.

Mas não podemos esquecer que foi Freud o primeiro a dizer que as histéricas diziam a verdade, que seu discurso era uma fala legítima e digna de ser escutada e levada em consideração. Muita água passou por debaixo dessa ponte desde que Freud escutou essas mulheres sem preconceitos, sem pressupostos e sem amarras. Muita coisa do que Freud descobriu virou saber, virou regra e virou jaula, novamente, para as mulheres e para as mães. Essa é uma das deturpações que mais me impressiona no discurso e na prática psicanalíticas: o quanto eles podem ser violentos com as mulheres. Violentos nas suas proposições e, pior ainda, na clínica. Sem quase nunca se botar em questão, sem nenhuma auto-crítica. Aqui na França, onde o discurso analítico tem uma força imensa, já tive a triste oportunidade de receber mais de uma mulher arrebentada por esse discurso. Em nome de que? Em nome do Pai Lacan?

Um dia quero escrever mais sobre isso, sobre mulheres, mães e psicanálise. Porque poucas coisas se aproximam tanto da prática analítica quanto a experiência da maternidade. Coisa que, talvez, Winnicott tenha percebido. Um dia, quem sabe.

Desacorçoada – ou como parei de gritar com a minha filha

Algumas vezes, quando perguntava à minha avó como ela estava, ela respondia: “ah, hoje estou desacorçoada…”, o que era algo entre o desanimada e o triste e sem esperanças, sem precisar assumir nenhum deles. Desacorçoada era o bom termo para ninguém encher o saco dela dizendo que ela devia estar bem ou pedindo explicações de seu desacorçoamento. Desacorçoada ela ficava em paz para estar triste, sem esperanças ou desanimada o quanto quisesse. Ou precisasse.

Então, eu andei desacorçoada nos últimos tempos. Não o cansaço de ser mãe de dois, não a gastura do verão de dias quentes daqui do sul da França, que eu nunca gostei de verão, mesmo sendo brasileira… não, desacorçoada mesmo. Eu explico.

Nessa história de educação com apego, que é simplesmente você tentar educar os seus filhos de forma respeitosa, tratando-os como seres humanos, respeitando suas vontades, seus limites, suas necessidades e tudo o mais que o respeito a um ser humano inclui ou deveria incluir, muitas vezes nos vemos confrontadas com um desafio hercúleo que é aquele de tentar dar o que não tivemos: como educar sem violência se não temos nenhum registro disso na nossa própria experiência?

Dizem que ninguém dá aquilo que não tem e estou convencida de que aquilo que temos para dar se constrói ao longo de nossas experiências, de nossa história, de nossa vivência, especialmente da infância e da primeira infância. O que temos para dar se constrói na dependência dos outros, do que recebemos, da forma como fomos recebidos nesse mundo e a ele fomos apresentados. Então, o que podemos dar ao mundo será sempre um bom tanto em consequência disso que tivemos desde o início. O que não quer dizer uma condenação, como se uma experiência ruim pudesse colocar absolutamente tudo a perder. Felizmente, não somos apenas uma única experiência, quer ela se chame nascimento, amamentação ou qualquer outra coisa de igual importância nesse começo de vida. Mas… que conta um bocado, conta.

E daí a gente vira adulto e decide que quer dar um monte de coisas aos nossos filhos, o que significa, nesse meu contexto aqui, não materialidades, mas dar um certo tipo de criação, apresentar o mundo de uma certa maneira, receber e se relacionar com essas crianças de um certo jeito que é o que acreditamos ser o melhor para nós e para eles… o mais ético, o mais respeitoso, o mais cuidadoso, o mais amoroso… E aí a gente descobre o quanto é difícil. E um dos motivos – e atentem bem ao “um dos”, porque não é o único – é que possivelmente é nessa hora de querer oferecer algo que a gente se dá conta que não sabe muito bem de onde tirar.

Vejam bem, eu não vou fazer aqui um relato de uma infância infeliz e violenta, porque não é esse o caso. Existem infâncias muito mais radicalmente violentas e complicadas do que a que eu vivi, então é sempre importante nuançar as coisas. Digamos que, na minha história, um bom resumo estaria na frase ouvida à exaustão durante toda a minha infância “mas criança não tem querer”.

Criança não tem querer e a pessoa aqui foi virar psicanalista, sacaram? Na psicanálise, o que move o ser humano, do primeiro ao último suspiro é justamente o querer. Sem desejo, não há nada que se possa chamar de vida ou de humanidade em uma existência. Que tal? Ah, para evitar equívocos, em psicanálise, a primazia do desejo não significa dizer que o ser humano faz tudo o que ele quer, ou que ele faz tudo o que for preciso para alcançar o que quer. Seria assim – e muitas vezes é mesmo – se não fosse por conta de outra coisa linda que o ser humano tem que é a capacidade de renunciar ao todo de seu desejo realizado em prol de uma coletividade. Ou melhor, não é que cada humano generosamente renuncia ao seu desejo totalmente satisfeito em prol de satisfações parciais partilhadas por todos, que nós não somos esses seres altruístas não. Mas somos forçados a isso pelo fato de termos inteligência o suficiente para perceber que esse desejo que tenta se realizar a qualquer preço é sinônimo de vencer pela força e subjugar os mais fracos. E, nesse outro jeito de funcionar do mundo, haveria apenas um mais forte que subjugaria todos os demais, ou seja, só um que teria tudo o que deseja enquanto que os outros ficariam com aquilo que eu ouvia quando criança, sem ter querer. Freud, Totem e Tabu. Leiam, é um belo mito das origens, no sentido mítico mesmo, daquilo que fundaria um pacto civilizatório. Pois bem.

Todo mundo tem querer, até mesmo as crianças. E os velhos. E os loucos. E os deficientes de todos os tipos. Isso é, em suma, o que aceitamos quando aceitamos viver em sociedade. Todos têm querer e então não vai dar para todos terem tudo o que querem. Então vamos compartilhar esses quereres, e que cada um realize um bocadinho do seu. O que é melhor do que o domínio do mais forte sobre o mais fraco. A não ser para o mais forte que pode facilmente esquecer que mesmo no mundo dos animais bem mais inteligentes que nós, como por exemplo entre os leões, o mais forte um dia também envelhece e vai ser vencido pelo próximo mais forte e assim por diante numa tirania sem fim até o fim dos tempos. Melhor todo mundo ter um pouco e uns cuidarem dos quereres dos outros com zelo, respeito e consideração, não? Contemplando o que é possível, ajudando a lidar com o que é da ordem do interdito ou do inalcançável.

Que tal? Parece pouco? Digamos que talvez o melhor dessa nossa civilização tenha se baseado nesse acordo. Por quê? Porque se a gente não tem mais que passar a vida inteira brigando e se matando para ver quem é o mais forte e quem é que pode ter o seu querer, podemos nos dedicar a coisas, digamos, mais interessantes como, por exemplo, produzir cultura, criar história, inventar tecnologia… em suma, melhorar nossos modos e meios de vida. Sacaram? Se não precisa se matar, dá para fazer outra coisa. Inclusive amar, viajar, fazer nada, ler um livro, inventar novos modos de preparar batatas, ou criar o futebol e o rugby… you name it, amiguinho. Porque se a gente for parar para pensar que o que entendemos por civilização e cultura é uma criação humana e que isso depende de que o ser humano possa se dedicar a inventar modos e meios de vida, a gente logo se dá conta que abrir mão de um tanto da nossa realização de desejo em prol de tantas conquistas coletivas que melhoram a vida de todo mundo pode ser um baita negócio, certo?

Certo e errado. Porque infelizmente nós seres humanos não somos tão lisos e tão limpos assim. E se aceitamos de bom grado as vantagens desse pacto civilizatório e se ficamos bem contentes em poder tomar um bom vinho, em assistir o último filme do Almodovar ou em poder contar com todos os recursos da ciência e da medicina para tratar de uma doença… paradoxalmente não ficamos assim tão convencidos nem satisfeitos de que isso deva supostamente beneficiar a todos igualmente. Em outras palavras, estamos felizes que a civilização pague pelos nossos benefícios sociais, pelo nosso carro novo na garagem, pela nossa garagem, pela nossa viagem pra Zooropa nas férias de julho… mas começamos a nos sentir bem explorados se essa tal civilização começa a querer pagar também pelas cotas nas universidades, pelo bolsa família, pela demarcação das terras indígenas, pela criminalização da homofobia ou pela legalização do aborto… E de repente começamos a sentir que essa tal civilização é injusta e que deveríamos dobrar os acordos aos quais todos cederam lá em algum ponto inicial e mítico em prol de uma “justiça” mais para o nosso lado, mais a nossa maneira. Eis o retorno insidioso e sorrateiro da lei do mais forte que, na verdade, parece ter sempre funcionado para colocar um grupo de humanos contra outros, ou para federar um tanto de humanos contra o restante, como nos contam todas as guerras, conflitos e explorações de uns povos por outros ao longo da história. E como constatamos com amargura nos tempos recentes, essa tal lei da força nem tinha sido tão deixada de lado assim, ao menos quando se trata de Brasil, esse nosso país onde aparentemente o tal pacto civilizatório foi apenas de fachada, um truque, uma gambiarra qualquer que alguém fez, muitos acreditaram, mas que era “de mentirinha”. Coisa de gente sem lei. Ou coisa de quem nunca se preocupou em pagar o preço de ter uma.

Mas calma que estou me desviando sem me desviar realmente dessa história de desacorçoada, criação com apego e criança não tem querer.

Pois bem, quando começamos a tentar educar os nossos filhos de uma maneira mais respeitosa e menos violenta é quando a porca torce o rabo e quando nos damos conta do tanto de violência mais ou menos declarada, mais ou menos subterrânea à qual fomos submetidas ao longo de nossa existência, muitas vezes sem percebermos. E não sabemos de onde tirar um modo não violento de lidar com os filhos.

Criança não tem querer. Uma expressão da vontade, uma expressão do simples fato de existir que nunca teve lugar nem legitimidade. Criança não tinha nenhuma autorização para existir enquanto ser querente. Criança não tinha nenhuma autorização para simplesmente existir. Poderia ser pior e é para muitas crianças que são literalmente massacradas em suas existências de todos os modos possíveis. Física, moral e psicologicamente. Em nome de justificativas toscas como “educação” ou “amor”. My ass.

Criança não tem querer pode se tornar, num piscar de olhos, tapas, beliscões, objetos arremessados e, ainda noutro piscar de olhos, palavras duras, especialmente quando vindas de uma mãe ou de um pai, aqueles seres quase divinos que toda criança acredita serem os portadores da verdade: “você é chata”, “você é egoísta”, “você é estranha”, “como você é boba”, “você é feia”, “você não é bonita, mas é inteligente”… Daí para se olhar no espelho e começar a se achar estranha, feia é apenas mais um piscar de olhos. E que criança não chorou a dor de se ver aquilo que o adulto amado diz e de se ver de repente algo que não tem valor, algo que não serve, algo que pode ser deixado de lado? Choro, dor e medo… como é que faz para ser alguém que esse adulto ame?

Pouco a pouco, essa criança vai acostumando com esses dizeres que são ela, com essas ações dirigidas a ela. Existe algo errado e esse algo é ela. Ela é que tem que mudar, melhorar, ser alguém amável aos olhos do outro. O que acontece? A criança agora precisa ser para alguém, precisa agradar alguém para ser amada. Ou ao menos foi o que a fizeram acreditar. E quando a gente começa a precisar ser para o outro, acabou-se a nossa condição de ser coerente com a gente mesmo. Ensurdecemos para os nossos quereres, pois temos que saber o que o outro quer. Para atendê-lo e, quem sabe, termos seu amor em troca. Uma criança que não tem querer é uma criança que deveria estar conformada a apenas querer atender o querer do adulto. Como se ela tivesse sido criada para isso. No dia em que ela crescer, quem sabe, poderá querer, quem sabe até poderá querer subjugar um outro alguém que atenda aos seus quereres. Mas o que pode ela querer se ela nunca teve querer nenhum? Como ela vai saber o que quer?

O jeito como somos educados parece que nos atravessa quando temos filhos, mesmo à nossa revelia. E nos pegamos fazendo com os pequenos aquilo que fizeram conosco, repetindo os mesmos mantras, respondendo com a mesma violência. E então um dia minha filha diz que quer alguma coisa, em alto e bom tom. E uma fúria cega toma conta de mim e eu digo não apenas por dizer e ela insiste e eu grito. Grito mesmo toda a minha raiva. E penso “criança não tem querer”. E cada uma dessas palavras cheias de ódio dessa frase odiosa quase saem pela minha boca. Mas eu consigo conter cada uma e engolir cada letrinha de cada uma delas e saborear o gosto horrendo dessa sopa de letras e palavras até elas borbulharem no meu estômago, gerando um asco imenso por mim mesma, por cada uma dessas palavras, por cada um dos gritos que já escapou da minha boca em direção à minha filha, por cada vez que explodi.

E então vem a notícia podre da menina que foi estuprada por cerca de 30 homens. Não vou colocar o link aqui, todo mundo está sabendo. E ao absurdo desse acontecimento se junta o impensável dos comentários das pessoas. Das pessoas que pensam que o que quer que seja no comportamento, nas palavras, na história, nas atitudes dessa menina poderiam justificar a violência à qual ela foi submetida. Todo o espectro das obscenidades do “ela pediu”, “ela não disse não”, “ela era isso ou aquilo”… todo o desfile de horrores que os homens e mulheres podem demonstrar numa situação dessas. Homens e mulheres se comprazendo em pensar que a violência contra essa menina era merecida. E foi aí que eu fiquei realmente desacorçoada.

Eu poderia escrever uma tese aqui e talvez algum dia a escreva, mas o importante a reter é que, ao ler essa notícia, pensei imediatamente na minha filha. Poderia ser minha filha, não poderia ser minha filha… quem não pensa isso tendo uma filha num mundo como esse? Mas não apenas isso. Pior que isso. Pensei, percebi, talvez pela primeira vez, que eu poderia ser uma influência direta para que esse tipo de violência acontecesse com a minha filha. De que modo? Gritando com ela.

Nossa, Alessandra, agora você viajou, nada a ver isso que você está falando. A menina era uma vagabunda, favelada, drogada, tua filha é uma criança, um anjo, uma graça.

Pois é, minha filha é tudo de melhor que existe nesse mundo. E cada vez que eu grito com ela, o que talvez ela aprenda é que “a mamãe me ama” e “a mamãe grita comigo”. E talvez com isso ela aprenda que eu fazê-la se sentir mal e triste faz parte do amor. E talvez ela aprenda que amar e fazer sentir mal e triste são duas coisas que andam juntas. Afinal, se até a mamãe faz… Talvez ela aprenda que é normal ela ser tratada com gritos. E daí ela poderá achar normal ser tratada com outros tipos de violência. E talvez ela poderá achar normal ser xingada, menosprezada, insultada. Ou até mesmo apanhar. E poderá achar que tudo isso vem junto com o amor. Ou que se isso existe numa relação qualquer, existe nesse mesmo lugar ou nessa mesma pessoa amor também. Talvez isso faça com que ela comece a aceitar ser tratada menos bem do que poderia reivindicar, talvez ela comece a aceitar pequenas violências cotidianas, pequenas ofensas, pequenas feridas. E talvez ela comece a esperar no meio disso as manifestações do amor que viriam junto. Talvez minha pequena vá começar então a mendigar os sinais de amor das pessoas por quem ela tem carinho. E talvez ela vá aceitar qualquer pequena migalha que essas pessoas lhe ofereçam. E talvez ela não consiga mais nem perceber que são migalhas envoltas em tudo isso que é violência, mas para o que ela nem atribui mais esse nome. Pois aprendeu na pele que era assim. Que a vida era assim. Que o amor era assim. Que as relações são assim. E então quando ela souber da notícia de uma menina estuprada, talvez ela pense que nem foi estupro. Ou que a menina mereceu, porque não era boa o suficiente para ser tratada com respeito, cuidado e amor. Como ela mesma. Ou como qualquer outro ser humano.

Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com ela é normal e nem é violência? Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com o outro nem é violência, ou é uma violência justificada? Pois é, no caminho a conta-gotas que leva a essa normalização que um dia pode fazer com que minha filha ache normal que a tratem de forma violenta e que meu filho ache normal ser violento com as pessoas está, bem lá no comecinho de tudo, entre outras coisas, eu gritando com eles. Será que não? Se eu fizer um apanhado da minha vida e das pequenas violências cotidianas do “criança não tem querer” que me ajudaram a tornar-me uma pessoa que, durante muito tempo, não entendeu violência como tal e que achou normal ter sofrido vários tipos dela, sempre na espera de ser amada, então sinto dizer que minha hipótese tem um grande risco de estar correta. Se for juntar à minha própria história outras histórias de outras mulheres que passaram a vida aceitando migalhas e sofrendo abusos os mais variados sem nem ao menos entendê-los pelo que são – abuso e violência – então realmente minha hipótese parece estar bem, bem certa.

Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres que carregam na sua história um monte de insultos, de desvalorizações, de humilhações, de tapas, de abusos, de estupros dentro de relacionamentos que deveriam ser amorosos… Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres taxadas de putas, de vagabundas, de não merecedoras de cuidado, respeito e amor como se fosse qualquer coisa nelas que autorizasse a violência dos outros sobre elas. Qualquer coisa no que elas são. Ou fazem. Ou dizem. Ou vestem. Ou pensam. Ou defendem. Como se a violência fosse válida para todo mundo que não se inscreve nos parâmetros traçados por aquele que decide quem é merecedora de violência ou não: o mais forte. Isso é a barbárie. Isso é a lei sem lei da violência. Da mesma violência dos gritos, das palmadas e das humilhações. Imaginar que é isso que vai educar e proteger nossos filhos é algo que só pode parecer lógico na cabeça de um imbecil ou de alguém para quem a violência foi dada a conta-gotas, desde o berço, até essa pessoa deixar de vê-la como tal. Essa pessoa que ficou cega para a violência sou eu, é você, é toda uma geração criada dentro dessa lógica insensata de que educar é adestrar e de que um tapinha não dói. Nunca. Até o dia em que o tapinha te mata e daí é tarde demais para perceber que se tratava de um tapa.

Mas eu sobrevivi! Sei, que bom, eu também. E conheço gente que sobreviveu a coisas que talvez teriam matado a mim e a você. E qual é a sua proposta? Que criemos mais uma geração de sobreviventes que, como nós, não saibam mais como resolver as coisas a não ser no grito, na porrada, até chegar à submissão do outro? Mais uma geração que, como a nossa, seja capaz de rir e de arrumar desculpa e justificativa para 30 caras estuprando uma menina? Esse é o projeto para nossas filhas e filhos? Isso é o melhor que podemos oferecer para eles?

Olha, se esse é o seu projeto e se isso te basta, sinto muito, mas não estamos nessa juntos. Eu vou tirar alguma coisa de onde não tive e vou aprender, nem que seja nesse embate cotidiano doloroso comigo mesma e com os meus próprios limites, a poder oferecer outra coisa à minha filha. E ao meu filho, que também está crescendo e que também corre o risco dos gritos. Eu parei de gritar com a minha filha porque é impensável dar mais um passo que seja na perpetuação desse círculo vicioso de pequenas imensas violências cotidianas destruidoras de esperanças e de subjetividades inteiras. Chega, não dá mais.

Então, a partir de hoje, aqui em casa criança tem querer. Já tinha antes, mas agora digamos que a coisa se radicalizou e acabou a gritaria para tentar abafar os quereres das crianças que nos causam espécie. E a gente vai vendo o que faz com isso. Com os quereres deles e com os meus ranços de respostas violentas. Porque a violência é como um vício e para se desintoxicar tem que fazer como os alcóolicos anônimos, um dia de cada vez, uma crise de cada vez, uma situação difícil de cada vez.

Para aqueles que vão entender dessa pequena reflexão que a idéia é, consequentemente, deixar a criançada fazer o que quer até se tornarem tiranos, mimados e começarem a mandar nos adultos, sugiro uma boa encerada na cara de pau do seu cinismo, um pouco de estudo e que dêem uma olhada no excelente documentário: Si j’aurais su… je serais né en Suède. E um pequeno disclaimer, só para te ajudar.

Veja, admitir o óbvio de que toda e qualquer criança e até mesmo os bebês recém nascidos têm querer não significa dizer que todo e qualquer querer de um bebê, de uma criança, ou até mesmo de um adulto poderá ser atendido. Isso só existe nas baboseiras hollywoodianas que insistem em vender para a gente que querer é poder. Ideologia marotinha que serve apenas para você acreditar que se você quiser algo, você consegue e, se não conseguir, o defeito é seu, e não um problema de uma sociedade feita para poucos conseguirem muito e o resto morrer tentando, ok? Fora desse mundo de conto de fadas que serve para o que serve isto é, vender sonhos impossíveis, com ênfase para o verbo VENDER, a questão dos quereres e de seus limites é um tanto mais democrática.

Existem quereres possíveis e existem quereres impossíveis para todos. Ao menos em uma sociedade que se pretenda civilizada. E não estamos falando do querer ter e do querer consumir, ok? Estamos falando do querer amor, querer cuidado, querer afeto, querer proteção, querer conforto, querer beleza, querer silêncio, querer presença, querer privacidade, querer atenção, querer ajudar, querer fazer, querer saber, querer aprender, querer autonomia, querer espaço, querer proximidade, querer respeito… todos os quereres ligados ao que é mais básico e vital para cada ser humano. São esses quereres que são possíveis, impossíveis, às vezes possíveis, às vezes impossíveis, parcialmente possíveis, momentaneamente possíveis… E talvez seja isso que os pais deveriam poder ensinar aos aos filhos. Que a gente quer e precisa de muita coisa, muita coisa que no fundo parece até bem simples e óbvia. E que o Freud lá de alguns parágrafos acima resumiu em outro livro como: a gente quer, no fundo, no fundo, ser feliz. A gente quer muito, quer mesmo, com toda força. E às vezes não dá. E é um aborrecimento. E a gente aprende a fazer algo desse aborrecimento. E a continuar querendo. E a tentar outras vias. E a deslocar para outros quereres. E realizar algumas vezes esse querer. E noutras não.

E esse é o erro ou o cinismo puro e simples de quem pensa que educar é algo que se aproxima de um adestramento e que prefere se apegar no que concebe como “dar limites”, como se os limites não estivessem aí postos para toda e qualquer pessoa. Quer coisa mais limitada e limitante do que ser um bebê e ter que se haver o tempo todo com a frustração de ter seus quereres atendidos em permanência por um outro que pode estar ali para responder ou não, que pode entender ou não, que pode estar a fim ou não? Se tem alguém que sabe bem dos limites são os bebês e as crianças, acreditem. Esses pequenos que não podem nem trocar uma fralda de cocô sozinhos e se livrarem do desconforto de um bumbum molhado e assado. Então, você acha que precisa mesmo ensinar para eles que existem quereres que eles não vão poder realizar? Você acha mesmo que eles não constatam isso todos os dias, do mesmo modo que você?

Pois é, uma hora dá um insight e a gente percebe que isso não faz nenhum sentido e que qualquer ação violenta direcionada aos nossos filhos sob pretexto de “educação” deve ser urgentemente repensada. E aqui não falo apenas em palmadas, mas em gritos, humilhações, palavras ofensivas, xingamentos e todo tipo de desvalorização. Violências de vários tipos, nenhuma sem consequências. Elas fazem parte de um mundo que eu, pessoalmente, não faço nenhuma questão de transmitir para a próxima geração.

Em tempo: todo o meu respeito, meu carinho e meu cuidado a essa menina que sofreu tão abominável violência desses 30 dejetos. Você é uma pessoa tão digna de respeito, cuidado e afeição quanto eu, meus filhos e tudo quanto é gente que eu conheço e amo. Você não é mais, nem menos do que nenhum deles. E eu lamento no fundo da minha alma aquilo que você viveu. Conte comigo e com o meu apoio.

 

 

Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

A intolerância à infância

Daí que eu ia escrever um post engraçadinho sobre 24 horas na vida de uma mãe de 2. Daí que vocês poderiam testemunhar o meu excêntrico senso de humor. Daí caiu na minha mão – ou na minha tela – um texto infâme de um sujeito que defende que o problema das crianças de hoje em dia não é a hiperatividade, mas a falta de educação. Não, eu não vou colocar link aqui porque não dou audiência para coisas que ultrapassam o campo da discordância e entram no terreno do ultraje. E, sim, acabei ficando de mau humor e o texto divertido deu lugar a esse que se segue. Sorry, queridos. Qualquer coisa, culpem o autor do texto infame.

Não sei dizer se aumentaram os casos de hiperatividade entre crianças no mundo atualmente. Não sou especialista na área e, a bem da verdade e da justiça frente aos especialistas que conheço, teria que dizer que aumentou, certamente, o número de diagnósticos de hiperatividade. Uma coisa não é igual à outra. Podemos concluir que haviam muitos casos mascarados, dos quais não se tinha notícia e que, com a popularização do diagnóstico, puderam ser identificados e levados a tratamento. Podemos concluir que, ao contrário, a popularização do diagnóstico fez com que muitas crianças começassem a ser tratadas por algo que não têm. A meu ver, as duas conclusões estão certas e erradas.

As patologias psiquiátricas, em geral, têm uma prevalência estatística mais ou menos estável na população. Isso quer dizer que o número de esquizofrênicos, por exemplo, não varia muito. Ou o de crianças autistas. O que não para de aumentar são os casos depressão. Ou, nas crianças, os casos de hiperatividade. Coincidência?

Olha só: eu, particularmente, não entendo as pessoas como entidades fechadas, que existem com suas qualidades e defeitos nelas mesmas e antes de tudo. Ou seja, eu não entendo um diagnóstico desse tipo como algo que pode ser jogado apenas na conta da predisposição genética. Se existem questões ligadas à herança e à biologia naquilo que somos, não há como recusar o enorme papel exercido pelo mundo que nos cerca naquilo que somos, que podemos ser ou que somos impedidos de ser. E o mundo que nos cerca, atualmente, é um mundo praticamente inviável.

A intolerância tem atingido níveis inimagináveis. Ninguém mais se dispõe a suportar o que quer que seja em nome de nenhum princípio de civilidade, ou do bem comum, ou de compaixão… whatever. A violência sem precedentes que vemos nas redes sociais, em que as pessoas se escondem atrás das telas para propagar todo ódio e toda intolerância de que sejam capazes transbordam pelas ruas, onde pessoas são agredidas cotidianamente por serem negras, mulheres, homossexuais, transgênero, de tal ou qual religião… Enfim, qualquer que seja a diferença em questão, ela é o suficiente para despertar o ultraje de um qualquer que – e isso me parece recente – se sente no direito de dizer o que pensa e de agir segundo a sua indignação. Que existam preconceituosos de todo tipo, racistas, xenófobos, misóginos, fanáticos religiosos, acho que dá para dizer que é tão antigo quanto o surgimento da espécie humana. Desde que existe o humano, existe o pior do humano, o pior que ele pode ser. Mas não sei se em algum momento anterior na nossa história o ser humano se sentiu tão à vontade para agir de forma tão violenta, intolerante e brutal ao seguir essas suas piores inclinações. Sim, é claro, temos muitas marcas na história desse pior do ser humano em ação. Mas quando é que foi assim tão generalizado, tão leviano, tão sem consequências, tão covarde e tão primário? Eu não saberia dizer.

Essa intolerância que vemos na internet está nas ruas, nas relações entre as pessoas, nas situações coletivas, na política e até no debate intelectual. Ela está na maneira como encaramos nossas dificuldades, nossas falhas, nossas frustrações, nossas perdas. Está na intolerância frente aos outros e à diferença, mas também na intolerância para com nós mesmos. Daí o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. E o consequente aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos. A indústria farmacêutica tem muito o que comemorar, certamente. Num mundo onde a intolerância é a regra, o sofrimento humano se torna intolerável. E intolerado. Qualquer “choramingo” e a gente já aconselha o outro a se tratar. Tomar um remedinho. Silenciar o barulho. E não nos incomodar mais.

Como é que em um mundo com uma lógica dessas haveria espaço para as crianças? As crianças, hoje em dia, são confrontadas a cada vez mais intolerância. Intolerância contra o ser criança. Intolerância contra aquilo mesmo que elas podem ser, sentir e fazer. Não existe espaço para elas existirem enquanto tal. O infantil, tanto quanto o sofrimento, são insuportáveis para a maioria das pessoas nos dias de hoje.

Por vezes tenho a impressão de que às crianças e aos adultos com bebês ou crianças pequenas caberá o mesmo destino que aos fumantes: primeiro uma ala reservada, depois um cercadinho na rua, depois a proibição total. Você é criança ou você tem uma criança pequena e, voilà, eis aí um pária social.

Estou exagerando? Crianças e adultos com crianças pequenas recebem olhares tortos, comentários tortos e más vibrações em restaurantes, bares, cinemas, teatros, concertos, lojas, museus… Nenhum lugar é considerado adequado para se ir com uma criança. A não ser os lugares “adaptados” para crianças: cinema adaptado, restaurante adaptado, loja adaptada, o espetáculo adaptado… a tal ala reservada. Ah, mas criança mexe, criança não se comporta, criança quebra, criança pula, faz barulho, atrapalha.

Parece que o problema está justamente aí: criança atrapalha. Quem? Quem não tem tolerância com o fato evidente de que criança só pode ser… criança.

Por que é que hoje em dia, quando uma criança “se comporta mal” em um lugar público, os pais olham para os lados e se apressam a dizer a desconhecidos: “ela é hiperativa”? Não, não é para arrumar uma desculpa para a falta de educação, para a incompetência deles em educar seus filhos e em dar umas boas palmadas e botar uns bons limites, como todo intolerante gosta logo de professar que deveria ser feito. Não, os pais fazem isso, eles se justificam frente a esses desconhecidos porque percebem ali o ódio, o julgamento, a condenação e a intolerância. E acreditam que um diagnóstico poderá salvá-los da execração pública e suscitar um pouco de compaixão de quem está ao redor. As pessoas expõe seus filhos, sua intimidade, sua vida por desespero, por vergonha, por constrangimento. Porque se sentem fracassadas e acreditam que dizer que é doença é melhor socialmente do que deixar passar como incompetência.

Penso que tem a ver com isso também, com essa intolerância, o fato de tantos pais procurarem um diagnóstico para seus filhos tido como hiperativos. Desde que a criança começa a dar sinais de existência, começa a querer falar, fazer, explorar, correr, brincar, rir, investigar, descobrir, reivindicar… ela se torna um problema. Um problema para os pais que, muitas vezes, não consideraram que ter filhos é botar no mundo outras pessoas que, na medida em que são outras e que são pessoas, estarão sujeitas a tudo aquilo que qualquer pessoa está: humores, vontades, indisposições. Filhos postos no mundo existem e vão manifestar essa existência. E essa existência, principalmente no início da vida, é extremamente física, corporal, visceral. A criança existe, ela conhece, ela investiga, ela expressa tudo corporalmente. Então, ela explora o espaço, as coisas, ela ocupa o espaço. Ela comunica como pode, ela demonstra as emoções que vive, ela existe com os recursos que tem. Não dá para imaginar que vai ser possível fazer uma criança desaparecer atrás de uma tela, de um tablet, de uma televisão ou de uma ritalina. Não sem graves consequências para essa criança.

Mas além de se tornarem um problema para muitos pais que não toleram a parte criança de seus filhos, esses pequenos parece que se tornam problema onde quer que estejam. Na escola, é preciso silenciá-los em nome de sabe-se-lá-o-que consideram como educação. Criança sendo criança não cabe na maior parte das escolas atualmente. E nem naquilo que se concebe como educação, que eu chamaria mais de um adestramento para se aprender a viver sem protestar contra um mundo inviável.

Em seguida, a criança não cabe em nenhum espaço coletivo, em nenhum espaço cultural, em lugar nenhum ela é bem vinda a não ser que possa se comportar como algo diferente do que é: venha ao restaurante quando puder ficar 3 horas sentada sem falar, sem reclamar, sem se mexer, sem derrubar sal na mesa ou quebrar um copo. Sinceramente, que criança suporta tamanho constrangimento corporal a ponto de ficar ali como se espera dela? Será que o que se exige de uma criança como sinônimo de boa educação é algo realmente factível?

Ah, mas antigamente… No meu tempo… as crianças eram educadas. Sabiam se comportar, diziam bom dia, por favor, obrigada. Sei, mas antes que você venha defender a palmada como tática educativa que provou sua eficácia no antigamente, deixa eu te perguntar: nessa época da palmada, dos limites e dos pais que sabiam educar, o mundo era assim intolerante com as crianças? Ou será que na sua época, ou na de seus pais, as crianças eram cuidadas onde quer que estivessem? Não tinha sempre um vizinho, o dono da padaria, o pessoal da rua, todo um monte de gente, de adultos, a dar uma olhada nos pequenos onde quer que fossem? Não tinha mais gente para dizer: cuidado com isso, menino, é perigoso, machuca, etc? Possivelmente as crianças não estavam mais inseridas nos meios sociais e nas ocasiões coletivas porque, certamente, haviam mais ocasiões a serem consideradas como “não sendo coisa de criança”. Mas onde elas apareciam, onde podiam aparecer, eram melhor recebidas, não? Ou você não lembra do seu pai ou do seu avô dizendo: “deixa… é criança”. Quantas vezes ouvimos algo parecido atualmente? Quantas vezes nos espaços coletivos as crianças são olhadas com a benevolência do deixa, é criança, o que quer que estejam fazendo?

Então como é que faz num mundo como o de hoje onde a criança não é bem vinda em lugar nenhum e onde os pais não possuem mais nenhuma rede de apoio que possa tolerar uma criança sendo criança? Ter filhos nos dias de hoje é se confinar em casa até eles completarem 18 anos? Como eles vão aprender sobre o mundo se não podem frequentá-lo?Qual a opção: forçar um comportamento em que eles se tornem invisíveis? Isso é educar? Ser invisível é o preço a pagar para poder circular pelo mundo? Bom, eis porque faz tanto sentido que o que mais se veja hoje em dia sejam diagnósticos de hiperatividade em crianças e ansiedade e depressão em adultos. Uma criança hiperativa é uma pessoa que existe em excesso. Um adulto ansioso é aquele que se aflige com o fato de existir. E um deprimido é aquele que renunciou à existência. Será que não estamos criando os deprimidos de amanhã?

Se vocês querem minha opinião, penso que existem sim crianças mal educadas. Como também existem crianças hiperativas. Mas penso que o que mais vemos nos dias de hoje são pessoas intolerantes com crianças sendo crianças. E pessoas intolerantes com os pais nos momentos em que eles estão em dificuldades com suas crianças sendo crianças. Sendo mais clara ainda: a culpa não é da doença que vira desculpa, nem dos pais que não sabem mais educar um filho. A culpa é da pessoa que, enquanto membro de uma coletividade, não suporta nada que incomode, que contrarie ou que vá contra seus desejos ou suas convicções. A “culpa” é do cara que escreve o texto dizendo que sua intolerância seria, na verdade, um defeito de uma criança mal educada e de pais que não sabem educar. Uma criança “se comportando mal” em público é apenas a triste consequência da pressão que você coloca, da intolerância que você impõe, da sua falta de acolhimento, do espaço que você não abre para que aquele sujeito possa existir.

Personal disclaimer, antes que comecem os comentários:

  • não estou dizendo aqui que não haja hiperatividade e nem crianças mal educadas. Estou apenas considerando que são a minoria dos casos e que a maioria é mais uma questão de um mundo intolerante do que das próprias crianças ou dos pais.
  • não estou dizendo aqui também que antes era melhor e que educação é dar palmada e limite (no sentido de subjugar o outro). Penso já ter escrito claramente que não entendo isso como educação. Estou apenas dizendo que, antigamente, as mesmas pessoas ou a mesma lógica que sustentava a palmada e a opressão sustentava, por incrível que pareça, que as crianças fossem mais aceitas em suas criancices naqueles lugares e momentos em que podiam aparecer.
  • também não estou dizendo que educar é não dar limites e deixar as crianças fazerem o que quiserem, quando quiserem. Ninguém faz o que quer, isso não é prerrogativa das crianças. Os limites existem e eles se impõem. Nenhuma criança ou adulto vai poder atravessar a rua correndo sem olhar para os lados, ou brincar com objetos perigosos e afins. Mas entre o que é limite e tudo o que as pessoas querem interditar porque simplesmente perturba a elas, ou atrapalha a elas, existe uma grande diferença. Se você não quer que uma criança quebre um copo num restaurante, basta não colocar um copo de vidro na frente dela à mesa. Se não quer que ela bagunce as coisas no supermercado, retire os produtos coloridos, podres e cheios de açúcar que você coloca ao alcance dos olhos e das mãos dos pequenos apenas para obrigar os pais a comprarem.
  • por fim, não estou dizendo que as crianças não teriam que se adaptar aos lugares que frequentam. Mas ter que falar baixo num museu? Sério? Ou não poder dançar num concerto? Ou não poder rir e comentar um filme? Ou não poder se sujar no restaurante, nem comer com as mãos? Francamente… Me parece que os doentes e mal educados não são as crianças não. Por que é que as crianças precisam se adaptar mais do que os lugares e as pessoas teriam que se adaptar a elas?

Finalizo com uma anedota: há pouco tempo atrás, fomos em família almoçar num restaurante. Um restaurante estrelado no guia Michelin, o que quer dizer um restaurante de comida requintada, um lugar que alguns diriam cheio de frescura e, portanto, “inadequado para crianças”. Tínhamos um de cinco, uma de dois e um de dois meses. O chef nos recebeu na porta, pois chegamos cedo ao local. Fizemos uma degustação que durou cerca de três horas. As crianças tiveram seu almoço trazido rapidamente. A comida deles era saudável e bem cuidada. A cada vez que traziam nossos pratos, tinham a delicadeza de dirigir a palavra às crianças, ou esperar que elas parassem de falar para nos servirem. O pequeno mamou. Sim. Mamou no peito duas vezes. A de dois desceu da cadeira, passeou pelo restaurante, foi olhar a adega com o pai, foi ver os cozinheiros. O de cinco foi no banheiro, puxou papo, pediu catchup. O único momento em que alguém se estressou foi quando a pequena foi mexer na cortina da janela. O maitre foi até ela e disse seriamente para ela que não podia. Ela já tinha andado, ela já tinha embaçado o vidro, ela já tinha brincado com seus adesivos, ela já tinha deixado marca de dedo no móvel ao lado da mesa. E. TUDO. BEM. No final do almoço, o chef estrelado estava novamente na entrada. E quis saber se tudo tinha corrido bem. Tudo com um sorriso no rosto. Ah, mas é porque a gente estava pagando? Será mesmo que ele precisa disso? Ou será que ele apenas considera que crianças têm todo o direito de comer sua excelente comida? Isso, meus caros, é boa educação.

Culpa, culpas, me desculpa

Então você engravida e começa a pensar sobre tudo o que se relaciona à gravidez, ao parto, à criação dos filhos. Se dá conta de que era uma alienada e que apenas tinha feito seguir a manada até então. Mas com a perspectiva de um bebê real, de um filho real, de botar realmente uma criança no mundo, não deu mais para ficar como um avestruz com a cabeça dentro de um buraco e você teve que se abrir, teve que olhar, teve que pensar a respeito de tudo o que cerca a maternidade. A sua, a desse filho esperado, aquela que você viveu.

Você passou nove meses gestando e se gestando enquanto mulher, enquanto futura mãe, enquanto pessoa crítica desse modo das coisas funcionarem nesse mundo. Passou todo esse tempo que poderia ter sido mais tranquilo, mais contemplativo, mais encasulado se preocupando com coisas que nunca antes tinha percebido: o mundo anda estranho, perigoso, as pessoas se pautam por valores que você não consegue mais endossar. Uma vida baseada no consumo, em que o importante é ter, perde o sentido frente à perspectiva da existência dessa criança. Você se sente responsável pelo mundo que está aí, sente-se responsável por ter feito tão pouco para que o mundo em que seu filho vai chegar fosse melhor. Tantos anos de indiferença, de falta de empatia, de despreocupação com o outro, de foco apenas naquilo que lhe cabe e agora eis aí você, obrigada a olhar para um outro que é esse bebê, sentindo um peso enorme que lhe cai sobre os ombros, o peso de cuidar, de proteger. Que mundo você vai apresentar para o seu filho?

Em nove meses você vira militante de todas as causas justas. Uma urgência de mudar o mundo, de que ele seja ao menos um tantinho melhor. Um medo que te invade cada vez que você pensa que sua cria não vai estar segura e que você não poderá poupar-lhe de todos os riscos. Frio na barriga constante, você não dorme mais.

E nesse processo que alguns chamam de emponderamento, você se dá conta de que pode fazer algumas coisas, de que pode ao menos cuidar da maneira como vive essa gravidez, como cuida dela, como cuida do bebê na barriga, como cuida da forma como ele virá ao mundo, como cuida da forma de criá-lo. Os nove meses de gestação produzem um bebê e produzem também uma mulher bem cansada que, no entanto, sente-se vitoriosa por ter tido a coragem de se abrir, de pensar, de criticar e de criticar-se, de tomar consciência e de indignar-se e, enfim, de lutar para fazer diferente e fazer alguma diferença. Para mudar o mundo, você percebe que um bom ponto de partida é justamente mudar a forma como gestamos, como nascemos, como parimos e como criamos nossos filhos.

Você pode fazer a sua parte, mudando o mundo precisamente ao mudar o modo de olhar para o que seja ter e criar uma criança. Menos ter, porque um outro ser não lhe pertence e mais acompanhar, descobrir, encontrar-se com esse outro que já chega com o potencial de causar uma pequena revolução. Uma mãe que muda, uma mulher que muda, se questiona, se empondera e vai buscar novos caminhos já é um mundo inteiro que se convulsiona e pode se transformar em algo melhor. Se pudermos ser melhores com nossos filhos, se pudermos criar crianças melhores para esse mundo ao mesmo tempo em que tentamos criar um mundo melhor para nossas crianças… bom, quem sabe aí haja uma real esperança para nossa espécie, não?

Então os nove meses passam e o resultado de todo esse processo de turbilhão e de emponderamento é que nasce um bebê. E você se dá conta de que o nascimento não é reta de chegada, mas ponto de partida. E que toda a sua luta por uma gravidez vivida de maneira respeitosa e por um parto e um nascimento humanizados foram apenas uma pequena ponta de um iceberg gigante. Perto do que se segue, engravidar e parir foi fácil.

A criança está ali na sua frente. O bebê. O sujeitinho. O pequeno. Você sente amor, você sente gratidão, você se emociona e chora à toa. É um acontecimento de tão grandes proporções que você não encontra palavras para isso. Não é um clichê, é mais forte do que um clichê, mais intenso, mais visceral. Você é mãe e nada do que diga dá conta de expressar o que isso significa.

Você continua naquele processo que começou durante a gravidez, você se questiona, se informa, pensa antes de tomar as decisões. A coisa se complica quando você percebe que são muitas decisões à cada dia. Vai amamentar? Em livre demanda? Vai fazer cama compartilhada? Quarto compartilhado? Como vai fazer com o bebê que acorda de noite? Como vai fazer com a criança que prefere dormir contigo? Vai colocá-la para dormir no seu quarto? Vai fazer treinamento de sono? Vai carregar no sling? No porta-bebê? Vai usar fralda? De pano ou descartável? Vai dar vacinas? Quais? Quando? Quando ficar doente, como vai tratar? Vai levar no médico? No homeopata? Vai dar antitérmico quando tiver febre ou deixar a febre agir e tratar com banhos mornos? Vai diversificar a alimentação com que idade? Vai dar papinha ou comida em pedaços? Vai cozinhar? Vai tirar o leite quando tiver que sair? Vai dar o leite no copinho ou na mamadeira? Vai lidar como quando os dentes começarem a sair? Vai dar chupeta? Vai voltar a trabalhar? Vai ficar em casa cuidando da criança? Até quando? Vai trabalhar em casa? Vai deixar a criança com a babá? Na creche? Na escolinha? Com os avós? Como vai fazer se a babá, a creche, a escolinha ou os avós não tiverem os mesmos ideais no cuidado com uma criança que você? Como vai fazer com os comentários dos amigos? Com os doces oferecidos na casa dos outros? Com os tablets, os celulares e os desenhos na televisão? Como vai fazer com as brincadeiras e os brinquedos ditos de menino e de menina? Com que idade vai colocar na escola? Que tipo de escola vai ser? Melhor uma escola para a criança passar no vestibular? Melhor uma escola para a criança ser “bem relacionada”? Melhor uma escola para a criança construir sua autonomia e sua capacidade de pensar? Vai colocar a criança no inglês? No espanhol? No curso de dança? Natação? Judô? Esportes? Vai tirar a fralda quando? E como? Vai esperar a criança desfraldar ou vai tirar a fralda aos dois anos quando dizem que é a época? Vai ensinar religião? Vai batizar a criança? Vai furar a orelha e colocar brincos? Como vai reagir quando a criança fizer algo que apresente um perigo para ela? E quando ela fizer algo que te contrariar? Quando ela não quiser fazer algo que você proponha? Ou quando gritar, chorar, se jogar no chão? E quando ela bater em alguém? E quando apanhar de um coleguinha? Como vai fazer com as coisas para as quais tiver que dizer não? Vai gritar? Vai bater? Vai colocar de castigo?

Eis a lista não exaustiva de uma parte das questões e das decisões que chegam junto com o nascimento da criança. Muito, mas muito mais difícil do que decidir ter um parto normal humanizado. Uma avalanche de questões importantes, urgentes, que se colocam a cada dia. E, para cada uma dessas questões, dependendo de qual seja a resposta, mais uma batalha pela frente. Quanto mais fora da curva forem as escolhas dessa mãe, mais trabalho ela vai ter. Para encontrar informações, para encontrar alternativas, para encontrar apoio, para tão somente fazer o que decidiu, para dar conta de sustentar essas opções e para fazer frente à imensa resistência que o mundo e as pessoas desse mundo que se portam como gado e simplesmente seguem sem pensar o que está estabelecido podem opor a quem é diferente.

E quanto mais sejam escolhas pensadas e apropriadas por essa mãe, quanto mais elas tomem em consideração a subjetividade e as necessidades do seu filho, quanto mais elas se proponham a serem respeitosas, cuidadosas, quanto mais essa mãe se proponha a escutar, a estar presente, a estar inteira, a se colocar em questão e a fazer o seu melhor, mais trabalho ela vai ter. Não apenas com o mundo, com os outros, com a resistência desse mundo ao diferente. Não, esse trabalho é pequeno perto do trabalho que ela vai ter com ela mesma e com a sua constante sensação de culpa.

Culpa porque cada uma dessas questões é imensa e tem tantas implicações que mereceria horas, dias, meses de reflexão. Culpa porque a vida acontece antes que a gente consiga pensar sobre ela e sobre como vai fazer e logo nos vemos fazendo sem pensar e pensamos depois de fazer e percebemos que fizemos algo que nada tem a ver com nossos valores e com nossas intenções. Culpa porque cada dia traz todas essas decisões a serem tomadas e cada um desses assuntos tem milhares de textos, de pesquisas, de livros, de páginas de internet, de blogs, de sites, de especialistas… Culpa de ter que decidir fazendo uma aposta, sem conseguir dar conta de tudo, de todas as informações, sem nunca chegar no “fim” ou no âmago da questão. Culpa por nutrir a ilusão permanente de que seria possível saber tudo, chegar em uma resposta, chegar em uma verdade, descobrir o que é o melhor e somente então aplicar. Decidir com 100% de certeza, isso não seria uma decisão. Decisão é o que fazemos quando temos escolha. E termos escolha significa que temos uma larga margem de erro a cada vez que vamos por um caminho e deixamos outro de lado.

Quem sabe se estamos tomando as melhores decisões? Quem pode nos garantir? Ninguém. Nem nada. E o bebê, a criança, nosso filho não é quem vai se responsabilizar pelo que decidimos por ele. Ele vai certamente arcar com isso. Mas a responsabilidade é inteiramente nossa. E isso pesa. E traz mais culpa.

Você está esgotada no final do dia, sem paciência, sem disponibilidade, querendo largar tudo e correr, pensando que estava maluca quando decidiu ter filhos? Culpa. Você se propõe a estar com seu filho, a brincar, a passar um bom momento, a estar ali com ele e acaba ficando o tempo todo com um olho no celular e outro na criança, que se irrita com a sua pseudo- presença e acaba rasgando o livro, derrubando o vaso, batendo no irmão e tudo o mais que te tira do sério até você gritar e ser aquela pessoa abominável que você jurou que nunca seria? Culpa. Você lê na internet algum texto que critica a alimentação que você dá ao seu filho? Culpa. Você tenta mudar e não consegue? Culpa. Você desiste e coloca ele na frente da televisão com um suco de caixinha numa mão, um chocolate na outra e corre para frente do computador, para o banho, para chorar debaixo do chuveiro ou para tirar uma soneca? Culpa. Culpa, culpa, culpa. Mil culpas. Mil desculpas que você pede no final do dia, com medo de ter estragado tudo em definitivo, com medo de ter estragado seu filho, de ter estragado algo para seu filho, de ter estragado o caminho que vinham fazendo.

O mundo da maternidade está cheio de culpas, de culpabilizações, de desculpas que sentimos obrigação de pedir, de desculpas que inventamos para não pensar. Culpas e desculpas que jogamos em nossos ombros. Culpas e desculpas que jogam em cima da gente. Os outros, o pai da criança, os avós, a família, os amigos, a sociedade como um todo, o tal do status quo. É sempre muito mais fácil destruir uma pessoa com críticas do que apoiá-la naquilo que ela escolhe como seu caminho.

Então algumas mães se revoltam e lançam uma “maternidade sem culpa”, que a meu ver é uma espécie de síndrome de Estocolmo do maternar, quando a vítima defende o agressor. A idéia do “eu fiz isso e não morri”, a afirmação do “meu filho comeu isso e está bem”, ou do “eu apanhei na infância e sou grata a meus pais por isso”. A culpa virada do avesso, a culpa na sua mais perversa forma de destruição: para não culpar os outros, para não culpar a mim mesma por não ter pensado e por não ter agido até agora, eu desculpo todo mundo acreditando e querendo convencer de que é bom que seja assim. Que esse mundo do jeito que está é ótimo, que o modo como se criam as crianças é saudável e amoroso, que o que nos ofereceram e o que oferecemos a nossos filhos é o melhor possível. Contra todas as evidências, a ignorância pura e simples. Para evitar a culpa que já sentimos, um milhão de desculpas esfarrapadas. Culpa, culpa, mil desculpas.

Quanto mais pensamos que sabemos o que é certo, quanto mais acreditamos que encontramos as melhores opções, mais medo temos de falharmos. Quanto mais nos dizem que existem outras opções, mais medo temos de termos falhado. Em cada uma dessas situações, sentimos culpa.

Culpa de que? De sermos humanos? De falharmos? De errarmos? De contrariarmos nossas melhores intenções? De sermos ignorantes? Mal informados? Enganados? Culpa de desistirmos? De cansarmos? De não sermos capazes de lutarmos todas as lutas com igual empenho? Culpa de não darmos conta? De precisarmos facilitar por vezes nossos caminhos e nossos cotidianos?

Em nome dessa tal culpa, penso que estamos nos martirizando demais com aquilo que é impossível, na busca de uma maternidade perfeita que não existe e que ninguém vive. E acabamos paralisadas, com dificuldades para decidir, para agir, como se cada passo tivesse que ser milimetricamente calculado. Ou então agimos o tempo todo tentando reparar alguma culpa, tentando consertar um erro que nem sabemos o que foi. Nos sacrificamos para suplantar uma falta que acreditamos que poderia ter sido evitada. Será que essa mãe que queremos tanto ser não acaba soterrando a mãe que poderíamos ser numa avalanche de exigências e de culpas?

 

O dia em que fiquei com raiva do Freud por ele ter razão

Aqui, o segundo atentado em Paris em um mesmo ano mata mais de 120 pessoas e fere mais de 250. O 2015 que começou com Charlie Hebdo e os reféns do supermercado kasher termina com um tipo de terrorismo em que o alvo é qualquer um em qualquer lugar. Não importa mais mirar em mensagens que vão contra nossa ideologia ou em grupos-alvo historicamente visados. O que importa é semear a certeza de que ninguém está seguro em lugar nenhum. Nem na mesa de um restaurante, nem no terraço de um café, nem em um show de rock num clube de uma grande cidade, nem em um estádio… Você pode até mesmo estar na bela, romântica e glamourosa Paris e receber um tiro gratuito no meio das ventas. Mundo, estranho vasto mundo imundo.

Aí, um pseudo-acidente faz romper uma barragem de uma grande mineradora e cidades são invadidas por uma lama podre, envenenada, que leva gente, bicho e natureza embora. Um rio morre para sempre. Tudo e todos que dependem desse rio morrem ou estão condenados. Lama podre e envenenada, a imagem perfeita de um país inteiro que vira as costas rapidamente e volta seu olhar para cá, para a nossa “elegante” desgraça.

Aqui, três horas depois do início do massacre, um presidente fala na televisão para todos os cidadãos. Quatro horas depois do massacre, ele e seus principais ministros estão no local mais atingido. Jogo de cena. Mas a imagem é fundamental nessa hora, para dar ao menos a ilusão de que não se está sozinho.

Aí, uma semana depois da catástrofe, uma presidente nem ao menos visitou o local do crime. Os donos da empresa divulgam notas. Cada qual culpa um outro pelo acontecido. Multas vergonhosamente insignificantes serão pagas naquele que é reconhecido como o Fukushima brasileiro em termos de gravidade. Toda uma área é impedida de acesso até mesmo pelo poder público. Ninguém sabe nada. Ninguém sabe da gravidade do acidente. Ninguém sabe o que ele acarreta. Ninguém tem água para beber. A água podre virou cimento em vários cantos, a muitos quilômetros de distância. Ninguém está nem aí. Palavras que significam mais do que querem dizer falam em “acidente”, “fatalidade”. Contra o acaso, quem senão Deus pode algo, não?

O que me parece que os franceses estão descobrindo de maneira contundente, ou o que estão sendo obrigados a recordar e que nós, aí, já sabemos há tanto tempo de maneira inequívoca, é que a vida não vale absolutamente nada nesse mundo que criamos. Ou melhor, nós sabemos não. Pois nós, a elite, pensávamos há até bem pouco tempo que éramos tão intocáveis quanto os franceses nos cafés de Paris. E estamos levando  porrada da vida quase ao mesmo tempo que nossos modelos de vida e de civilidade, os franceses. A vida que não valia nada era essa de 90% da população: os índios, os negros, os pobres, as mulheres, os homossexuais, os loucos… Mas até então, quem se importava? Eles que se fodessem, como sempre ocorreu, desde que escolhemos como mito de fundação a falácia de um país descoberto há 500 anos.

Aí, praticamente em todo canto não cercado de arame, vigias, guaritas, alarmes, câmeras e vidros blindados, a vida já não vale nada há umas boas centenas de anos. As pessoas protestam contra o aumento das passagens de ônibus? Bota a polícia na rua. As pessoas se insurgem contra os gastos astronômicos e fraudulentos de um campeonato de futebol? Manda a polícia arrebentar. Mas longe dos estádios e das câmeras. Que o Brasil é o país da alegria e do carnaval. Os alunos de escolas que ameaçam serem fechadas por uma pretensa reforma do ensino ocupam essas escolas em protesto? Manda a polícia para a porta das escolas. Reintegração de posse.

A quem pertence o poder? É isso que está em jogo, não? Em uma São Paulo sem água em que governador recebe prêmio por gestão hídrica, o que está em jogo é claro: em nome da segurança-pública, vamos bater até dobrar. Todos vocês. Se tivéssemos um mínimo de memória, lembraríamos com certeza de como os militares dobraram seus opositores, de como os colonizadores dobraram seus escravos, de como os “descobridores” dobraram os índios. Não, não é necessário lembrar nada. Aprendemos com todos esses que nos antecederam a fazer o que têm que ser feito para dobrar o inimigo. Aprendemos a sermos o pior.

Aí, o estado laico tornou-se uma licença-poética. Legislam sobre o corpo da mulher como sempre o fizeram, mas de maneira ainda mais crua, cruel e abjeta, pois nosso tempo assim o permite: o estupro tem que ser provado pela vítima. Assistimos às manifestações explícitas de incentivo à pedofilia em cadeia nacional e ainda tem quem ache graça. O primeiro assédio da devastadora maioria das mulheres brasileiras posto a nu em plena web escancara o nosso descaso com aquelas vidas que nunca valeram nada mesmo, aquelas que deixam de valer primeiro, as primeiras a serem sacrificadas: mulheres e crianças. Alguns debocham, outros desdenham o feminismo, outros ainda mais perversos respondem com um meaculpa hipócrita, ao invés de irem para a cadeia. O racismo antes e sempre escondido atrás da imagem do país de todas as raças, de todas as cores, de todas as crenças cai por terra. Pessoas se permitem insultos racistas em plena luz do dia, sob a proteção da tela de um computador que as faz crer serem inatingíveis. A tecnologia autorizou o monstro dentro de nós a mostrar todos os seus dentes, todas as suas garras, todo o seu horror, toda a sua agressividade, todo o seu ódio, ódio, ódio, ódio. Contra tudo e contra todos. O que incomodar, a gente extirpa da face da terra. Pessoas se permitem apedrejar alguém de outra religião em nome do seu deus. Pessoas se permitem linchamentos. Pessoas se permitem acreditar que tudo será melhor quando crianças forem para a cadeia. E quando o governo cair. E quando o dólar baixar. Pessoas em algum lugar devem rir da nossa cara.

Aqui, ninguém ri de mais nada há um bom tempo. O país do pensamento, da abertura, das luzes foi engolido por uma espessa treva, consequência direta de seus atos, de sua política externa, de sua arrogância frente ao outro, de sua incapacidade de integrar, de sua resistência a se colocar em questão, do seu medo em se posicionar criticamente, de sua covardia em seguir a maré, navegar a onda do que dizem os bancos, o dinheiro, os grandes interesses de mercado e as grandes indústrias do medo e da guerra. Esses sim, os verdadeiros donos do poder. Ninguém ri de mais nada nessa guinada cada vez mais clara à direita, ao conservadorismo, ao estrangeiro como inimigo, ao outro como bode expiatório inevitável. É isso ou perder o poder. E ninguém quer perder poder nenhum, nem sair do conforto desse lugar tão conhecido onde estão há décadas ou séculos: França, país da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do droit de l’homme, da defesa dos direitos humanos. Da defesa do humano no homem. Será mesmo?

Aqui, as guerras criadas nesse mundo em que vivemos e que servem apenas a uns poucos, especialmente a europeus e americanos, finalmente apresentam a conta: pessoas percebem que é mais seguro entrar numa “barca furada” e atravessar um oceano de desespero com família, mulher e filhos do que ficar onde estão. Quem nesse mundo pode chegar a apostar que uma travessia em um barco lotado é melhor do que sua própria casa? O horror, o horror traduzido em gente, em corpos, em crianças mortas na praia. O pior do humano chega no velho mundo com uma fatura alta para cobrar: o preço é impagável.

Aí, fazemos de conta que a conta não existe. Rimos da conta, debochamos da conta. Sem lei que somos, assumimos que a conta não é nossa e seguimos com a vida que nada vale, em que nenhuma violência mais tem peso o suficiente para criar o horror e fazer gritarem as pessoas. Um urro de desespero, de indignação. Uma tentativa de mudança. Seguimos anestesiados nesse “deixa disso” eterno, nessa tentativa de conciliação pelas aparências. Somos os experts da indiferença. E da covardia. Ninguém quer pagar o preço da conta.

Aqui, não dá para fazer de conta que a conta não existe. Um certo pudor, um certo constrangimento, um certo lastro de uma vergonha na cara tão necessária ao humano ainda parece existir. As fronteiras se abrem. Os refugiados entram. Jogo lindo entre abrir-se ao outro e o discurso do medo do outro, da ameaça do outro. Jogo lindo que dura pouco. Bombas explodem fora do estádio onde o jogo acontece. Amistoso França e Alemanha. Para quem gosta do poder simbólico das imagens…

Quem atira de metralhadora em pessoas no terraço de um restaurante? Quem atira em pessoas em um lugar fechado, no meio de um show de música? Quem manda a polícia para cima dos seus cidadãos, para cima de suas crianças? Quem torna a vida tão inviável que faz ser melhor partir morrer noutro lugar? Quem joga de maneira inconsequente a culpa no outro? Quem mascara negligência em acidentes, negócios milionários em guerras, fanatismo religioso em projeto de lei?

No final da vida, Freud estava refugiado um Londres, para onde se mudou às pressas por conta de perseguição aos judeus que tomava proporções mais e mais perigosas lá na sua Áustria natal. Áustria fim de século, berço do pensamento mais sofisticado de toda a Europa e do mundo ocidental por consequência. A língua alemã que falava com orgulho e defendia com convicção, a língua de todo o pensamento moderno, a língua em que escreveu seu otimismo em acreditar possível curar as neuroses. Freud otimista que pensava que o homem estava às voltas com o seu desejo, com os seus conflitos e cisões por conta do desejo, por conta das intensidades que o atravessavam.

Esse Freud que, no final da vida, e por conta da própria vida, teve que reconhecer que seu otimismo, sua crença no homem, no desejo e na força civilizatória eram por demasiado condescendentes com aquilo que o humano trazia dentro de si. Freud que viu, na sua língua, nascer a possibilidade de um humano excluído da possibilidade de toda a humanidade. O horror, essa nossa experiência do horror inominável nasceu ali, nessa época e nesse otimismo de Freud e da sua geração. O melhor nos deu a conhecer o pior.

Freud escreveu o meu livro predileto, Mal-estar na civilização, nos anos 30. Um pouco antes do pior se instaurar. Mas com uma lucidez e uma dor de fundo das quais não cesso de compartilhar desde a primeira vez que o li. É como se ele baixasse os braços sem entregar os pontos realmente. Ali, no mal-estar, ele entende que o pior do homem não é o seu desejo, mas sua propensão ao pior, a deixar-se levar pelo pior, a chafurdar prazerosamente na lama do pior. O pior do homem é o que ele chama de pulsão de morte, uma espécie de tendência ao zero, ao vazio de desejo, à anulação das intensidades. Uma tendência da vida em direção à morte que nos atravessa e que, no melhor dos casos, ao invés de nos afogar rapidamente sai em direção ao outro como agressividade e destruição.

Para pagarmos o preço da vida, precisamos agir em permanência contra essa tendência de destruir ou de se autodestruir, aceitando um compromisso civilizatório no qual ninguém se autodestrói, apostando em que construir uma vida é mais desejável do que se deixar definhar e, também, em que ninguém destrói ninguém e todos inventam outros destinos para essa força bruta que pode virar qualquer coisa: literatura, ciência, trabalho, arte… O mundo civilizado seria exatamente fruto da briga entre esse escorrer para a morte e essa teimosia da vida. Mundo civilizado, construção possível, invenção do homem que poderia apostar em pagar um preço para ser o melhor. Tempos de Freud, apostas possíveis nos tempos de Freud, compromissos possíveis dos homens possíveis nos tempos de Freud.

Hoje em dia, pagar o preço da civilização seria ainda possível? Pagar o preço – e a conta – da nossa humanidade, seria algo que ainda poderíamos nos prontificar a fazer? Nesse mundo em que pessoas atiram nos seus semelhantes sem mais nenhuma justificativa além da ação pura e simples de matar, nesse mundo em que o ódio às crianças, às mulheres, aos negros, aos homossexuais, aos estrangeiros, aos que têm outras convicções religiosas pode ser bradado sem vergonha e sem constrangimento aos quatro ventos sem que nada nos delimite uma fronteira à partir da qual não se pode mais falar ou agir por se tratar de um crime… nesse mundo onde pessoas são tocadas como gado em barcos, dentro e fora de fronteiras, marcadas como gado, exiladas de sua língua, de sua vida e privadas de qualquer olhar de empatia… Será que nesse mundo existe ainda lugar para algo além do pior de cada um?

Sou psicanalista há pouco mais de 20 anos. Entre consultório e instituições, o que sempre me moveu a persistir – na vida e na profissão – foi o encontro com algumas pessoas, cada vez mais raras, que fizeram e fazem o imenso esforço cotidiano de pagar o preço da vida. São pessoas que, muitas vezes contra tudo e contra todos, contra sua própria história, contra seus pais, sua família, seu entorno, sua cultura, contra tudo o que viveram lutam e pagam – a longo de suas análises e em todas as dimensões da sua existência – o preço de apostar na vida. Essas pessoas, que parecem estar em vias de extinção, se recusam a chafurdar na lama imunda do pior que poderiam ser. Recusam-se a seguir o caminho que lhes foi traçado e a seguirem como gado para o abatedouro. Essas pessoas recusam-se a não questionar, a não pensar e a apenas reagir com o pior do ódio em que vivem e o qual legitimamente sentem, negam-se à vingança, rejeitam a resposta cruel. São pessoas de imenso valor, que me ensinam cotidianamente sobre o pouco que resta do melhor do ser humano, da sua capacidade de humanidade, de seu imenso esforço, todos os dias, para acordar e lutar contra tudo nelas mesmas até conseguir extrair dali algo de diferente.

São pessoas que me impedem de desistir do ser humano, de desistir da humanidade em mim mesma, de deixar-me levar pela impotência, pelo cansaço, pela desesperança e pela vergonha. E pelo ódio. Especialmente pelo ódio.

Poderia ser qualquer outro acontecimento. O mundo está infestado de acontecimentos terríveis. Poderia ser pelo rio Doce tanto quanto por qualquer uma das muitas mulheres que morrem assassinadas por seus maridos. Poderia ser pelo menino amarrado ao poste e linchado. Poderia ser pelos milhares de comentários que transbordam todos os dias as redes sociais: comentários contra os outros, comentários que buscam apenas chegar como uma saraivada de balas que acerte seu alvo até ele simplesmente deixar de existir. Poderiam ser muitos fatos, muitos acontecimentos, muitas demonstrações do pior do ser humano, muitos exemplos do quanto Freud estava desesperadoramente certo em nos alertar sobre nossa dificuldade em aceitarmos pagar a conta da vida.

Freud dizia, ainda nesse texto magistral, que o homem pode se entristecer com os percalços e limites impostos pela natureza ou pelo próprio corpo. Pode se entristecer, se afligir, se revoltar. Mas aceita como inevitável esses que são limites da vida. O que o homem não engole, o que ele não consegue suportar são os limites impostos pelo outro, pela necessidade de conviver e de ceder ao outro uma parcela da sua crença de que ele é o centro do mundo e que tudo deveria girar em torno daquilo que é o seu desejo. O homem não tolera os limites impostos pelo viver coletivo, ele urra de ódio por ter que renunciar a algo que se julga no direito de ter para que um outro também possa ter um pouco e, assim, todos possam ter um pouco e que ninguém fique privado da possibilidade de ter. De ter uma existência, quero dizer. Para um poder existir, todos precisam poder existir dignamente. Se isso não fica garantido por uma espécie de pacto em que todos renunciam à satisfação absoluta, então estamos no pior dos mundos, em meio ao caos e à barbárie, no lugar onde as palavras não valem mais nada, onde o cinismo impera e onde cada qual pode exercer sua própria lei perversa.

Será esse o ponto a que chegamos? Será essa a fronteira que estamos atravessando cega e negligentemente nos nossos tempos? Será que já somos, tantos de nós, outra espécie de humanos desprovidos da capacidade de humanidade? E gozando disso? Que aterradora banalidade do mal é essa que se instaurou como modo de existir em nosso tempo? Como podemos resistir?

Quem consegue ter filhos hoje em dia sem se sentir na obrigação de lutar, não apenas por eles, mas pelo mundo inteiro? Que sentido faz a maternidade em nossos tempos sem uma tomada contundente de posição?

Talvez porque tenha um bebê aqui na barriga que vai chegar em pouco tempo a esse mundo. Talvez porque tenha uma pequena aqui do meu lado que insiste em dançar, cantar e olhar a vida com um olhar de encantamento… talvez por isso tenha sido a sexta-feira 13 de ontem que fez o copo transbordar. A revolta contra esse caminhar cego do mundo me arrebenta por dentro. A vergonha pesa, pois sinto em cada atrocidade dessas o peso da minha responsabilidade. Responsabilidade em ter feito tão pouco, em não ter lutado o suficiente, em não ter oferecido resistência hercúlea a tudo o que está aí, agora, instaurado e mais difícil de combater. Responsabilidade que divido com todos que me cercam, com todos da minha espécie.

Aqui, no dia de hoje, andamos cabisbaixos de vergonha. Vergonha pelo nosso comodismo. Vergonha pela nossa fácil desistência.

E medo. Medo pelo mundo que vamos deixar aos nossos filhos. Medo pelos filhos que estamos deixando para esse mundo. Medo de não termos feito o suficiente, nem pelo mundo, nem pelos filhos. Medo porque, no mundo todo, descobrimos o que boa parte do mundo já sabia: que não estamos a salvo em lugar nenhum.

Meu cara-metade chorou hoje ao descobrir que não pode proteger nossos filhos desse mundo. Eu chorei por esse mundo tão triste, tão sombrio, tão cruel, tão injusto.

E por aí? Como vão vocês?

A espetacularização do nascimento

Tem uma coisa que me incomoda um bocado, que é essa espetacularização do nascimento que temos hoje em dia. E que não deixa de fora os partos normais humanizados, muito pelo contrário.

Talvez vocês se lembrem daquela matéria que apareceu nos jornais pelos idos de 2012 sobre uma maternidade carioca que revolucionava sua oferta de serviços colocando um telão para que os parentes pudessem acompanhar o parto. Sim, um telão mostrava o parto – cesariana, na sua maioria – naquilo que uma cesariana tem de possível de ser mostrada: mãe deitada, amarrada, envelopada, panos cobrindo a “área de trabalho” dos médicos, bebê saindo embrulhado, bebê aproximado da mãe para ela dar um beijinho, já que não pode carregar, primeiros “cuidados” e por aí vai. Os convidados todos ali no salão, em frente à tela, assistindo em tempo real a esse nascimento, com direito a um buffet, comes e bebes, festa e muita diversão. Lembro do quanto essa “excelente idéia” gerou comentários e discussões na época, muitas em torno disso que estou citando agora, essa idéia da espetacularização. A imagem que fica mais importante do que a experiência, a exposição máxima que deixa de escanteio toda a intimidade, toda uma possível necessidade de privacidade, o superficial tomando conta de um acontecimento em que o foco deveria ser naquilo que realmente importa.

Guardadas as devidas proporções – e as devidas diferenças, que são muitas – algo dessa mentalidade do espetáculo respinga também em muitos dos partos humanizados.

Criou-se uma moda, a partir do momento em que o parto normal, natural, humanizado começou a aparecer mais e mais nas discussões sobre parto e no desejo das mulheres em garantir um nascimento digno e respeitoso para seus filhos, de que esse tal parto humanizado deveria acontecer de um certo jeito. Em casa. Na água. Com o pai ali do lado, de mão dada, junto na piscina, enfim, participando ativamente. E com alguma espécie de registro visual da beleza da coisa toda. Fotos. Vídeos. Pronto. O pacote parto humanizado ideal passou a incluir a enfermeira obstétrica, a piscina inflável, a doula, a fotógrafa e o pai da criança como itens de igual importância e todos de extrema necessidade.

Penso que, num campo tão novo, tão cheio de dificuldades, em que conseguir um parto digno revelou-se um percurso do combatente para as poucas mulheres que toparam o desgaste de passar por vezes uma gravidez inteira brigando contra o mundo, era importante buscar modelos, pontos de apoio, possibilidades de compartilhar desejos, anseios, angústias, informações, alternativas. E que bom que isso aconteceu e que hoje em dia dispomos de mais e mais sites, grupos, fóruns, blogs, lugares, pessoas, referências e escritos sobre o tema. Temos essa demanda de pensar o nascimento de nossos filhos, de desejar algo diferente, de buscar uma possibilidade mais humana de viver uma gravidez e um parto. E temos a quem recorrer para isso. Cada vez mais. E cada vez de maneira mais formalizada. Isso é um feito!

Pode ser que, para muitas dessas pioneiras do nosso tempo, um dos modos justamente de partilha e de apoio às outras mulheres que desejariam também viver a experiência de um parto humanizado tenha sido essa espécie de statement que a imagem pode oferecer: além de contar os partos, por que não mostrá-los? Um parto normal tem muito mais o que mostrar do que uma cesariana. Um parto sem violência tem muita beleza a desvelar. Nessa nossa época em que imagens falam mais do que palavras, essas imagens dos partos circulando por aí, que poder elas teriam?

Um imenso poder. Um poder de convencimento, um poder de exemplo, um poder de inspiração. A imagem é poderosa, sabemos disso. Basta lembrar da recente imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia e da comoção que isso causou no mundo inteiro, influenciando inclusive em uma série de movimentos populares por toda a Europa que pressionou por uma maior abertura na acolhida de refugiados em todo o continente para se dar conta que, sim, as imagens têm um imenso poder de persuasão. E que as mulheres gestantes, parturientes decidam usar disso para gritar para os quatro cantos do mundo que, sim, é possível parir e parir dignamente mesmo no Brasil dos dias de hoje, bem, isso é legítimo e louvável.

Minha questão não tem nada a ver com esse uso político da imagem e da imagem do parto humanizado. E não é uma crítica a quem faça ou tenha feito uso dessa estratégia. Meu incômodo é com a maneira como certas coisas, especialmente quando ligadas à imagem, se tornam rapidamente uma necessidade de mercado.

Me explico. Vendo essas imagens, muitas de nós, mulheres grávidas buscando um nascimento digno para nossos filhos e um atendimento cuidadoso da nossa própria experiência de gestantes e de parturientes, pudemos absorver, além da inspiração e da idéia de que é possível parir, uma espécie de receita de como isso deveria acontecer quando “acontece direito”.

Quando vemos as imagens dos partos naturais que desfilam em profusão pela net, podemos constatar que existem alguns recorrentes que praticamente criam uma receita: parto na água, marido ali do lado, toda equipe na borda da piscina observando a mulher, expressão de dor, expressão de êxtase, bebê peladinho no colo da mãe. E a pergunta que pode vir daí é: tem que ser assim?

Tenho visto muitas mulheres extremamente preocupadas com onde vão comprar a piscina para o nascimento. E onde vão colocá-la. Tenho visto muitas imagens muito parecidas, como se todos os partos humanizados fossem a mesma coisa. E tenho visto muitas imagens. Uma invasão de imagens que praticamente se torna uma injunção: “veja, é assim que se faz!” Será?

Talvez sejamos incapazes de viver sem uma imagem à qual nos agarrar e, na medida em que recusamos a imagem da mulher asséptica amarrada na maca da sala de cirurgia em muitos tons de azul enquanto seu filho é extraído dela e exibido alegremente para a galera do telão tenhamos que nos agarrar a uma alternativa. Uma imagem alternativa, que nos oriente em como as coisas devem ser. E isso tem uma tal pregnância que, rapidamente, a imagem se torna mais importante que o conteúdo e nos vemos de novo na cilada do espetáculo, daquilo que tem que ser mostrado, do superficial e acessório tomando o lugar do que deveria ser o foco. Vivemos na sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde tudo é rapidamente tragado pela lógica da exibição. Exibição que garante a perpetuação de um jogo de poder.

Quem ganha com essa história de substituir uma imagem por outra? Um modo de um parto acontecer por outro? Uma regra por outra?

Ainda que nós mulheres e nossos filhos possamos lucrar e muito com a garantia de escolher um parto normal humanizado, até que ponto isso mesmo que conquistamos não se vê ameaçado pelo estabelecimento de uma receita?

Michel Odent fala de maneira bastante crítica desse modus operandi que se instaurou como tendência no parto humanizado. Para ele, essas diretrizes de parto na água, marido presente, registro fotográfico e todos os afins que acompanham o pacote devem ser pensados com muito, muito cuidado. O fundamental, para que um parto seja humanizado e que tudo corra bem para a mãe e para o bebê é que eles possam viver isso do jeito que precisarem.

Isso quer dizer, basicamente, que ao longo de todo o processo de parto o que deveria prevalecer é aquela parte mais primitiva do cérebro da mulher que a faz parir. E parir bem. Eis o que deveria ser favorecido e respeitado. Que a mulher possa entrar nesse estado outro e ficar ali. Que ela seja ajudada a ficar nesse estado. Calor, silêncio, pouca luz. É o que basta. Tudo o mais é acessório. Pode servir ou pode apenas atrapalhar o processo. E não deveria ser posto como artigo de primeira necessidade.

Nesse estado outro, que nenhuma mulher conhece antes dele se instaurar, não dá para prever se ela vai querer entrar na piscina, se vai querer sair da piscina, se vai querer o marido perto, se vai querer ele longe, se vai fazer assim ou assado. Ninguém tem como saber e projetar tudo isso serve, no fim das contas, apenas como um modo de se apaziguar acreditando que existe algum controle e alguma previsibilidade desse momento que é, antes de tudo, um desconhecimento absoluto, um vácuo de imagens.

Por vezes, ouço ou leio histórias de partos que corriam muito bem, até que empacaram e se tornaram lentos, lentos, lentos. Alguma coisa ali naquele cenário dificultou à mulher poder entrar ou ficar nesse seu estado segundo. Pode ser algo do encontro dela com ela mesma, aquelas coisas subterrâneas que teimam em aparecer justamente nessa hora, nossas assombrações, nossos medos, nossos desafios que encaramos ou não junto com o ato de parir. Mas muitas vezes o que dificulta – e muito – são exatamente esses modos obrigatórios de fazer as coisas que ficam martelando ali no fundo da cabeça ou na boca das pessoas em volta, cobrando da mulher que ela siga um plano que ela mesma construiu, desejou e pôs em prática. Então ela sai do seu casulo para pensar que deveria entrar na banheira, afinal, compraram a bendita da banheira que custou uma fortuna. E é melhor não sair da banheira, porque o bebê vai nascer na água, não é mesmo? Mesmo que a água tenha ficado fria e que o frio faça os músculos contraírem e o parto ficar mais lento… E melhor ficar ali onde está a banheira, porque é mais fácil para fazer as fotos do que se ela seguir aquele seu impulso intenso de ir se esconder no banheiro, longe de toda aquela gente. E toda aquela gente ali, olhando, olhando, esperando… começa a dar uma sensação de pressa, de ter que fazer algo, de ter que ir bem. E o marido tem que ficar ali do lado, apoiando, segurando a mão, abraçando, dizendo palavras bonitas, mesmo que isso gere uma irritação… Pronto, eis aí a receita, o “jeito ideal” de fazer tomando o lugar daquilo que aquela mulher, naquele momento, realmente precisa. Eis aí o parto novamente parasitado por fórmulas, por obrigações, pela necessidade de reproduzir aquela imagem linda que vimos na internet.

Tem mulheres que dão à luz muito bem no banheiro, debaixo do chuveiro, de porta fechada sem deixar ninguém entrar. Tem mulheres que mandam o marido ir catar coquinho e preparar uma sopa ou o que quer que seja. Tem mulheres que dão à luz quando a doula e o obstetra estão dormindo no sofá da sala. Tem mulheres que dão à luz embaixo do chuveiro, dentro da banheira, em cima da cama, no tapete da sala… até mesmo dentro do carro. Tem mulheres que dão à luz no escuro, num calor de 40°C, debaixo das cobertas. Ninguém sabe como vai ser até a hora em que acontece. E o melhor que podemos fazer é garantir que cada uma dessas mulheres possa ter aquilo que precisa, do jeito que precisa, da maneira mais respeitosa, cuidadosa e amorosa possível.

Podemos, nós que acompanhamos essa mulher e esse bebê, garantir que não há modelo, que não há receita e que, sim, ela pode fazer confiança em que ela vai saber o que fazer e vai fazer o que precisam ela e seu filho.E que isso será a prioridade que todos em volta buscarão respeitar e acompanhar. Ok fazer um plano de parto, ok ter um plano se isso tranquiliza o seu coração e a sua cabeça. Mas o melhor que pode acontecer é a cabeça esquecer o plano na hora H e deixar o mais primitivo em si agir. Dá um medo de se pelar, mas quem disse que é o nosso raciocínio e o nosso entendimento das coisas que faz um parto acontecer?

Posto isso, tudo o mais é acessório. Ou inspiração tornando-se rapidamente mercadoria. E pressão. E opressão. O contrário do apoio e da libertação que todas nós buscamos.

Isso é, a meu ver, o que pode ser de melhor um parto humanizado. O respeito por esse desconhecimento, por esse vácuo de imagens, por esse silêncio, por essa intimidade em grau máximo. A foto? Para quê? Deixa a foto para a caixola da memória guardar e o peito abrigar ali onde é tão quentinho e tão bom.

Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.