Vida lá, vida aqui

Ou coisas que ganhamos e que perdemos vivendo fora do país. Ou as fases pelas quais passamos vivendo fora. Ou, os dilemas de ser estrangeiro. Ou… ah, chega de prolegômenos e vamos ao que interessa!

Vira e mexe aparecem uns textos de pessoas contando como é viver fora do Brasil e sobre o que aprenderam com isso. De pessoas que viveram em algum outro país por um curto período de tempo, por conta de estudos ou trabalho, ou de gente que foi por algum motivo e acabou ficando. O mais recente falava que viver fora é para os fortes. Depois de mais um período de férias no Brasil, diria que não sei. Talvez viver ali seja para os fortes. Talvez simplesmente viver seja para os fortes. Ou, talvez, viver seja apenas viver. E ninguém precisa de uma medalha de força e coragem por conta disso. É o que fazemos.

Logo que chegamos a um outro país, das duas, uma: ou nos fechamos num queixume sem fim e vivemos num gueto, fazendo programas brasileiros, entre brasileiros, falando português, comendo comida brasileira e comparando tudo sempre entre lá e cá. Ou temos a impressão de estarmos em um lugar que corresponde a algo profundo em nós mesmos, como se estivéssemos no lugar certo pela primeira vez na vida e finalmente pudéssemos viver. Conheço histórias dos dois tipos, de gente que foi e voltou sem nunca ter realmente vivido onde estava, gente que queria recriar sua realidade brasileira em um novo lugar, sem se abrir para absolutamente nada de novo. E histórias de gente que chegou e mergulhou nessa diferença que traz o delicioso sabor de uma liberdade inesperada. Uma espécie de coerência entre o lugar em que você vive e você mesmo. No meu caso específico, pertenço ao segundo grupo.

Quem vai para outro país por conta de estudos ou pesquisa parte em um contexto bastante privilegiado. As universidades, em qualquer lugar do mundo, costumam ser lugares em que a troca e a abertura ao outro é bem recebida e até incentivada. Por todo canto do mundo existem programas de intercâmbio, bolsas de estudo, pesquisadores convidados, parcerias entre universidades… Então temos uma chegada pela “porta da frente”, facilitada, bem vista, felicitada.

Mas esse modo de chegar, de início provisório, também cria uma bolha tão sectária quanto a do gueto: quem chega para passar um tempo, por maior que seja, como estudante, doutorando, pesquisador, estagiário não vai se confrontar com muitas facetas da realidade da vida em um outro país. Apenas quando você precisa lidar com tarefas muito cotidianas como declarar impostos, solicitar documentos, utilizar serviços de saúde, trabalhar é que começa a sair dessa zona de conforto de estar com um pé aqui e outro lá – estar em lugar nenhum – para se encontrar no lugar de estrangeiro vivendo noutro lugar.

Na minha experiência foi impactante a mudança desse lugar de estudante e pesquisadora convidada por uma universidade, o que me trouxe até aqui, para o lugar de alguém que iria ficar. Um choque de realidades. E ter que, de uma hora para outra, reaprender a viver.

Morar em outro país é ter que reaprender a viver. Em outra língua, em outra cultura, com outros códigos. Coisas evidentes como autenticar um documento ou chamar um encanador para desentupir um encanamento tornam-se, de um dia para outro, complicações praticamente insolúveis. Onde precisa ir? Com quem precisa falar? Como é que diz cano entupido em francês? Putz!

Então, depois dessa lua-de-mel que pode ser o começo de vida fora do seu país de origem, e que pode durar mais ou menos tempo, quanto mais sua situação pareça provisória e quanto mais seu encontro com o lugar onde vive seja superficial e não resvale muito nos aspectos difíceis… bem, depois do romance, vem a realidade. E ela parece tão menos agradável quanto menos você a compreenda.

Aquilo que você não entende e não sabe como fazer, como pedir ou como acessar esbarra, muitas vezes, na falta de abertura e na insensibilidade dos “locais”. Desencontros de costumes e linguísticos se misturam com preconceitos, racismo, xenofobia e você acaba acreditando que aquela recusa, aquele atendimento grosseiro, aquela dificuldade em fazer o óbvio são contra você. E leva muito tempo para conseguir distinguir o que é xenofobia do que é apenas um funcionamento burocrático e burro ao qual todos daquele país estão igualmente sujeitos. E isso se repete tantas vezes que você fica desencantada, com raiva, ressentida. Aquelas pessoas, aquele país, não te querem ali.

Isso é uma verdade que cedo ou tarde todo estrangeiro descobre. Quem quer estar ali é você. Então cabe à você uma boa parte do trabalho e do esforço. Isso não exime o país que te acolhe de fazê-lo de fato. E não exime as pessoas de aprenderem sobre hospitalidade. Mas você também vai ter que se mexer se quiser criar uma vida possível em outro lugar que não onde tudo era mais confortável. E, nossa, como tudo parece mais fácil e mais simples e mais bonito e mais saboroso e mais simpático e mais colorido e mais tudo de bom no Brasil desde que você não vive mais ali.

Um dia você acorda e se passaram três, quatro, cinco anos. Você finalmente percebe que o que era provisório tornou-se mais permanente do que imaginava. E então começa aquele período de arrumar a casa. Você se instala aqui, você se desinstala acolá. Casa permanente é diferente de casa provisória, onde você acampa. Você quer suas coisas, não todo aquele mundo de objetos, trecos e cacarecos que a vida fora te ensinou que são superficiais e dos quais você aprendeu a separar-se tão bem. Quer aqueles objetos de família, aquelas poucas preciosidades que deixou guardadas em algum lugar seguro, esperando que algum dia pudesse ter algo que novamente fosse próximo do que considera um lar. Quer as fotos, os papéis velhos e empoeirados, quer os livros, os quadros, os móveis da avó. Você fecha aquelas contas no banco que ficaram penduradas por lá, na esperança do “vai que”, você muda seu título de eleitor, seu domicílio fiscal e até seu domicílio no facebook. E abre conta, e declara imposto, e começa a trabalhar mais seriamente do que os “bicos” daquela vida provisória que não eram para durar mesmo.

E quando vai ao Brasil, acontece uma coisa estranha. Você se dá conta que a vida daquelas pessoas tão queridas, tão amigas, tão próximas acontece. E que você não faz parte dela. Vocês se falam, vocês trocam mensagens, e quando se encontram é uma alegria, uma celebração. Mas elas estão ali, prisioneiras do dia-a-dia que não é mais o seu. E você, pouco a pouco, passa a ter um dia-a-dia que lhes escapa também. Cursos que você não fez, encontros aos quais não foi, livros dos quais não participou, festas nas quais não esteve, mudanças, acontecimentos, oportunidades. Concursos para professor, vagas de emprego que são a sua cara… essas coisas chegam na sua caixa de mensagens quase como uma ofensa, uma lembrança daquilo que você não vai viver. E é quando você começa a se dar conta do que está perdendo.

Para morar em um outro país, é preciso perder o futuro que a gente teria no nosso país de origem. É preciso aceitar perder e, para isso, é preciso perceber que perdemos. Perdemos o que poderia ter sido se tivéssemos voltado. Perdemos onde teríamos chegado, perdemos o que poderia ter acontecido. Perdemos o famoso e angustiante “e se…”.E pouca gente se dá conta, no idílio amoroso dos começos de vida fora, ou nos meios revoltantes do choque de realidade de uma vida que se instaura que há algo que estão, constantemente, perdendo. E que cada dia a mais em um lugar estrangeiro é uma camada a mais de distância daquilo que poderia ter sido se você tivesse ficado. E então, quando você de repente se dá conta, vem a deprê.

Ou a crença no famoso plano B. Conheço gente que vive falando que está cansada do jeito como as coisas são no Brasil e que vai embora do país, sabe como é? Já falei disso antes e expliquei que esse é o alento que temos em acreditar em um plano B, em guardar a idéia de que basta estalarmos os dedos e irmos embora para reinventarmos a vida. Pois é, a crença no plano B de quem mora fora é o inverso, é aquela idéia guardada em algum lugar de que essa é uma situação provisória e que vamos voltar. Cedo ou tarde vamos voltar e vamos retomar tudo aquilo que ficou nos esperando e do qual temos lembrança.

Mas… pessoas, lugares e oportunidades não ficaram no esperando. Porque a vida não fica em standby para a gente ir ali ver se algo funciona ou se a grama do vizinho é mesmo mais verdinha. E, o que é mais difícil se dar conta e assumir, provavelmente nem vamos voltar.

Morar em um outro país é a prova de que se pode mudar a vida, mudar de lugar, criar recomeços. Então, claro que sabemos que não existe situação definitiva. E quando falo aqui de que não vamos mais voltar, isso não é um absoluto, uma certeza absoluta, uma imobilização. É apenas uma tomada de posição, uma mudança de mentalidade que acontece com todo mundo que decide, em algum momento da vida, investir seus esforços em algo tão grande ou importante quanto construir uma vida em algum canto. Porque mesmo que isso possa em algum momento mudar, seu estado de espírito ao fazer aquele investimento, ao fazer aquela aposta, é de que seria como um casamento, é de que seria “para sempre, até que a morte os separe”. E aí, você se joga. Mas antes de se jogar, ou enquanto está se jogando, ou depois mesmo de ter se jogado, olha e descobre que não vai viver umas tantas coisas. Que pareciam ser o seu destino ali onde estava. O que, por si só, é uma ilusão. Que você acalenta do mesmo modo que todo mundo acalenta em si ao menos uma certeza absoluta baseada em nada além de muita vontade: “se eu estivesse lá, seria isso ou aquilo”, “se eu tivesse ficado…”.

Quantas vezes você vai imaginar, no final do dia, como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai ter certeza de que sabe como seria se tivesse ficado? E quantas vezes vai acreditar que teria sido muito melhor se tivesse ficado… se embrenhando em uma espiral de constatações de perdas e de lutos e de tristezas por tudo o que perdeu e tudo o que não foi e que teria sido se tivesse ficado… Nossa, todo estrangeiro em um país outro que o seu vive, penso eu, essa fase dolorosa do “se eu tivesse ficado…”. E para alguns isso parece durar para sempre, a pessoa se fecha em um lamento e em um ressentimento sem fim, como se culpasse a vida, o mundo e todas as pessoas de uma escolha que foi só dela. Vira melancolia. Saudosismo. Outras tantas vezes, um patriotismo exagerado e fora de lugar. E nessas horas também as pessoas se fecham no gueto e se ufanam de serem brasileiras e comem e bebem e saem e falam e tudo é Brasil, Brasil de um Brasil que elas nunca viveram porque ele, simplesmente, não existe. É o Brasil ideal no lugar onde antes ficava o outro país ideal, o país dos sonhos. Que agora é bem real, cheio de paradoxos, de burocracias, de chatices e de desafios cotidianos. Infernal. Como é a vida, para aqueles que esperavam viver outra coisa que não aquilo que ela pode ser. Até que… um dia… muda.

Um dia você está voltando para casa depois do trabalho, ou de buscar as crianças na creche ou do que quer que seja e, de repente, se dá conta de que gosta dali. Você gosta daquela vida. Você gosta daquele lugar. Não, não do lugar do glamour da imagem que as pessoas fazem de onde você vive e de como é a sua vida mas do lugar mesmo, daquelas pedras ali no chão, da cor dos prédios no final da tarde quando tem sol, do gosto do pão que você come de manhã, do modo como a luz entra pelos galhos das árvores em cada estação do ano… Você gosta mais do que desgosta. E depois de pensar e acalentar e acariciar por um minuto ou dois mais uma daquelas imagens “e se” na sua cabeça, você enjoa e acha que seria muito, muito chato. Se “qualquer outra coisa”, você ainda preferiria estar ali. E é quando descobre que está voltando a habitar seu presente.

Um dos lutos mais difíceis para quem mora fora do Brasil é construir uma família em outro país e se dar conta de que seus filhos, mesmo sendo brasileiros, nunca serão realmente brasileiros como você. Eles falarão português com sotaque, no melhor dos casos. E seus gostos, seus cheiros, seus lugares, suas histórias e seus trajetos, suas cidades, seus percursos serão, para eles, apenas “as histórias da mamãe”. Não serão as marcas deles pois eles não estarão nos mesmos lugares, nos mesmos gostos, nos mesmos percursos, nas mesmas praias nas férias para terem, eles também, suas marcas e suas histórias ali, onde tudo para você foi tão importante. Talvez eles olhem tudo o que você apresenta para eles a cada viagem de férias no Brasil com o interesse, o carinho e o apreço de… um estrangeiro. Num certo ponto, eles serão sempre um pouco estrangeiros na sua casa e você na deles. Tem coisa mais estranha e difícil de lidar?

Mas você está aqui, ou ali, ou lá, ou como quer que se chame esse lugar que você escolheu. E a vida foi sendo vivida e você criou raízes. Para além da paixonite aguda e meio boba do princípio, para além da revolta dos confrontos e das diferenças, para além das perdas e dos lutos… eis você ali, ainda ali. Vivendo. E alguma coisa muda sempre que a gente decide viver o que está vivendo.

Quando fui ao Brasil dessa vez, sentia um medo de chegar lá e não encontrar o país que conhecia. Por motivos óbvios, ligados ao momento atual, à surrealidade do que se vive no meu país, ao absurdo, ao grotesco da conjuntura política, das relações violentas que se instauraram entre as pessoas, dass mentalidades podres e pobres que se desvelaram e que nunca imaginei tão podres e tão pobres… enfim… Tantas coisas aconteceram por ali que eu nem sonhava possíveis. E às quais eu só conseguia responder com perplexidade, apreensão e desesperança. Mas esse medo tinha não apenas uma justificativa macro, como também micro, pessoal, subjetiva… de chegar ali e não encontrar mais aquele futuro que eu tinha, não encontrar mais o meu “e se”. Não me encontrar mais ali.

Pois um dia, cedo ou tarde, depois que você vai embora, você não se encontra mais naquele seu lugar quando volta. Você não se encontra, pois já está em outro lugar. E tudo fica muito estranho, tudo ganha ares de despedida. Porque você foi indo, foi indo, foi indo tanto que, finalmente, foi.

“Um dia eu volto, quem sabe…” diz a música. Toda música de quem foi e um dia vai voltar é lamento. E tem uma hora que, de tanto ir e voltar, você vira de lugar nenhum. O que talvez seja um alento para algumas gentes. E uma aflição para outras.

A vida por aqui é. Bem. Normal. Com os prós e contras que todo lugar tem. Tem conta para pagar, tem casa para cuidar, tem filho para levar na escola, tem dia de chuva, tem momentos de tédio, tem passeios, tem descobertas, tem resfriado, vinho ruim, bad hair day, brincadeiras, livros, gente interessante, conversas… A vida por aqui tem um monte de saudades de quem está longe. E um pensamento para cada um deles a cada dia. E uma vontade de compartilhar umas tantas coisas. E de se queixar de outras e poder reclamar e terminar rindo junto. Porque tudo é tão besta quando se está entre amigos. E tanta coisa fica leve com a família por perto.

Então, obrigada para vocês do lado de lá por existirem, por não serem apenas memória e continuarem vivos e presentes. A distância te ensina, quando você mora em outro país, sobre o que é realmente essencial e que você não perdeu quando foi embora: as pessoas. As pessoas estão aí. E aqui. E lá. E acolá. Elas estão para você. E você para elas. E o resto não tem, na verdade, nenhuma importância.

Fui.

 

Amamentação: 8 meses and counting…

Eis que passaram os seis meses de amamentação exclusiva. Eis que começou a diversificação alimentar. E então eu li por esses dias três coisas que me fizeram pensar que estava na hora de desentalar esse texto aqui e mais uns outros bem desaforados que, espero, virão em seguida.

Comecemos pelo pior, que foi uma discussão em um grupo privativo da Leche League sobre uma mulher aqui na França que ouviu de sua advogada que, caso ela não pare de amamentar seu filho de três anos até a próxima audiência, a guarda da criança será atribuída ao pai. Sim, você não leu errado, uma mãe é ameaçada de perder a guarda do filho porque ainda o amamenta aos três anos de idade e isso, aqui na França, é considerado como algo absurdo, uma espécie de manipulação da mãe, que visa apenas manter a dependência da criança e afastá-la do convívio com o pai. Nos comentários dessa discussão, dezenas de casos parecidos, em que juízes e juízas decidem por uma guarda compartilhada – o que é praxe nos casos de divórcio por aqui – independentemente da idade da criança e independentemente do fato dela ser amamentada. Em muitos casos, inclusive, a amamentação funcionou como argumento contra a mãe.

Devo confessar que esse tipo de situação me deixa em um misto de tristeza infinita e revolta furiosa porque, vamos combinar, é algo incompreensível para além do terreno da perversidade pura e simples. O que me faz pensar que em algum momento vou conseguir escrever sobre como é ser mulher aqui na França. Mas continuemos aqui apenas no tema da amamentação.

Pois é, por aqui amamentar um bebê é algo opcional e ninguém acha estranho que você decida não fazê-lo porque, segundo a mentalidade francesa, isso entra na conta das liberdades de escolha de uma mulher. A indústria alimentícia e os fabricantes de leite em pó agradecem. Ainda mais na medida em que, junto a esse discurso da liberdade da mulher em escolher se amamenta ou não, veio se agregar um discurso bastante distorcido sobre a dependência entre um filho e sua mãe. E aqui as pessoas parecem ter pavor da dependência, a tal ponto que propostas como deixar o bebê chorando até dormir desde recém nascido encontram eco e são tomadas como boas orientações de conduta.

As pessoas parecem tão assombradas com essa idéia de que a dependência é uma espécie de veneno perigoso que sua maior preocupação, desde que os bebês nascem, é garantir que eles sejam autônomos. Não parece desejável e nem mesmo suportável cogitar que esses bebês, que certamente caminharão rumo à autonomia, dado que isso faz parte da vida, precisem viver um momento de dependência absoluta que vai funcionar como aquilo que lhes traz segurança para poderem se aventurar mundo afora. Como já dizia o bom e velho Winnicott. Mas ele não era francês. Infelizmente para os franceses.

Assim, não causa espanto, em uma sociedade onde a preocupação principal quando o assunto é a infância se centra na independência a qualquer custo das crianças de qualquer idade, que um comportamento qualquer que crie e mantenha laços fortes entre duas pessoas possa ser entendido como contrário ao que se almeja e tenha que ser, consequentemente, combatido. Por isso, uma mãe que amamenta por um longo período é vista como alguém que faz isso em detrimento da criança, visando apenas manter o filho colado, dependente e, com isso, distante dos outros e da sociabilização. Uma mulher que amamenta é um mal a ser combatido aqui na França.

Nem vou entrar no mérito de todas as pesquisas que comprovam que uma amamentação longa traz benefícios importantes para o bebê e para a mãe. Nem vou detalhar as recomendações feitas pela OMS sobre o tema e a ênfase que dão em que se amamente até, no mínimo, dois anos de idade. Por aqui, o pessoal não respeita as diretrizes da OMS, como se fossem mais sábios que isso. Coisas da arrogância francesa.

Ao invés de repisar todas essas informações, ou de falar novamente sobre a importância da dependência na primeira infância justamente para criar pessoas seguras, confiantes e autônomas, prefiro dessa vez falar sobre a segunda leitura que mencionei logo acima, um texto lindo de um sociólogo defendendo a amamentação. Além do fato de ser um homem que defende o amamentar – o que é não apenas raro, mas basicamente o contrário do que a maioria dos homens fazem – seus argumentos são formulados de uma maneira muito inteligente e perspicaz. Leiam o texto, está em francês e em inglês.

Basicamente, o que o Akré mostra, a partir de dados, estudos e pesquisas, é que a questão principal para se apoiar o aleitamento materno é que não podemos realizar nosso pleno potencial se não consumirmos o primeiro alimento feito especificamente para nós, humanos. E assim ele mostra como a amamentação contribui significativamente para que o ser humano possa se desenvolver no melhor de suas capacidades. Ou seja, não é que a amamentação faz com que sejamos mais inteligentes, por exemplo. É que a não-amamentação faz com que não consigamos utilizar todo o nosso potencial de inteligência. Nas palavras de Akré: “Os bebês humanos não realizarão jamais seu potencial genético consumindo fast-food pediátrico – eu falo aqui dos leites industrializados – fabricados à partir de uma espécie que nos é estrangeira”. Em resumo, sua perspectiva é que a amamentação não nos dá um “a mais” em relação aos bebês que não são amamentados. Não faz sentido falar em vantagens da amamentação, pois isso seria como falar das vantagens de andar em pé e não sobre quatro patas. A amamentação permite apenas o desenvolvimento máximo daquilo que temos potencialmente em nós. Coisa que o leite em pó não permite. E, não, não é uma mágica ou uma crença, é questão de composição mesmo.

Vale a pena lembrar que o leite em pó surgiu para resolver uma situação de urgência, ou seja, para servir como alimento substituto nos casos em que o aleitamento materno não fosse possível. É como a cesariana, que surgiu para solucionar casos de urgência em que um parto normal não fosse possível. Não são opções, no sentido de que não são escolhas entre duas coisas equivalentes. São alternativas piores para os casos em que aquilo que é o melhor, o mais indicado e, por que não, o mais natural, não funciona. Têm uma função de remédio e não de algo para ser utilizado rotineiramente.

Em uma sociedade em que amamentar tornou-se questão de escolha sob o falacioso argumento em prol da liberdade da mulher (porque isso não tem necessariamente a ver com liberdade, mas explico num outro texto, prometo) e em que amamentar tornou-se perigo de cultivar uma dependência perniciosa para as crianças em relação às suas mães, ninguém parece preocupado com aquilo que se perde – ou que se impede – quando se adota esse descaso pela amamentação como regra. E essa perda é não apenas emocional, psicológica, mas também cognitiva, imunológica e em vários outros níveis.

Então, chega o terceiro texto, os resultados de uma pesquisa brasileira mostrando o perfil das mulheres que amamentam por dois anos ou mais. Segundo as pesquisadoras, existem algumas características comuns às mulheres que conseguem amamentar de maneira prolongada. Entre elas estão permanecer em casa por pelo menos seis meses de licença maternidade, não dar bicos artificiais como chupetas ou mamadeira ao bebê, fazer a diversificação alimentar apenas à partir do sexto mês e, vejam só, não viverem com o pai da criança.

Retornamos ao início, por um outro viés. O que quer dizer isso de que as mulheres que amamentam prolongadamente (em geral, né, gente, não é a regra absoluta) serem mulheres que não vivem com o pai da criança? Podemos interpretar, seguindo a linha francesa, de que são provavelmente mães que superinvestem os vínculos com seus bebês e os mantém em uma relação de dependência, infantilizando-os tanto quanto possível através da amamentação. Ou podemos pensar, seguindo a linha do Akré, que um dos maiores obstáculos para a amamentação e para o sucesso da amamentação prolongada consiste na falta de apoio das pessoas próximas da mãe e de bebê, principalmente o marido.

No mundo não tão cor-de-rosa da maternidade tem muita mulher tendo que batalhar sozinha para conseguir amamentar. Já ouvi um número desolador de relatos de pais enciumados, que entram em competição com a cria, que se mostram infantis e contrariados por deixarem de ser o centro das atenções daquela relação do que era antes apenas um casal, ou daqueles seios que eram anteriormente apenas “dele”. Já ouvi pais argumentarem que o fato da esposa amamentar impede que eles possam também construir uma relação com o bebê. Sim, exatamente como no argumento usado por pais, advogados e juízes para impor um final de amamentação forçado para uma criança sob risco da mãe perder a guarda, lembram? Já ouvi mães cogitarem dar mamadeira para seus bebês por acreditarem nesse argumento do interesse dos pais em criarem um vínculo com seus filhos e de que esse seria o melhor e mesmo o único modo de fazerem isso. Dar mamadeira seria a única forma de se aproximarem de um bebê, que tal? Já ouvi homens e mulheres argumentando que amamentar é um ato de egoísmo da mulher que tenta, assim, conservar o bebê apenas “para ela”. Conclusão: muitas vezes, a maior dificuldade de uma mulher em amamentar seu bebê é o clima hostil e conflitual criado pelo pai da criança em torno da amamentação. Que coisa triste que uma das primeiras pessoas que deveria entender e valorizar o esforço da mulher em dar o melhor para aquele que, em última instância, é filho de ambos seja um dos maiores empecilhos justamente para que essa criança possa ter o melhor, não? Que mundo estranho e deturpado é esse em que dificultar ou impedir a amamentação é visto como salvar o filho de uma ameaçadora dependência, esse mal terrível encarnado pela mãe?

Aqui nesse mundo estranho, chegamos aos 8 meses de amamentação, seis dos quais em exclusividade. A segunda vez foi mais fácil, pois teve o apoio da experiência da primeira. O que fez com que eu já soubesse quem pode realmente ajudar, a quem realmente dar ouvidos e a quem jamais procurar em busca de conselhos quando o assunto é amamentação.

Ainda na maternidade, as enfermeiras vieram perguntar como eu alimentaria o bebê – pergunta de rotina por essas bandas quando você chega para parir. Disse que amamentaria e me perguntaram se eu precisava de ajuda ou orientação. Disse que não. Me perguntaram se tinha amamentado a primeira e eu disse que sim. Por quanto tempo? Até seus 20 meses. Ah, então você tem experiência. Sim, tenho.

O importante dessa conversa não é que eu estivesse mais ou menos emponderada em relação ao tema, mas que eu tinha mais noção dessa vez sobre com quem valia à pena conversar. O primeiro mês de vida da minha pimpolha foi um calvário de enfermeiras obstétricas, auxiliares de puericultura, sage-femmes e pediatras todos dando pitacos desencontrados sobre uma amamentação que quase foi para o beleléu por conta disso. Complementa, faz intervalo de 3 horas, acorda para dar de mamar, faz em tal posição, muda de peito, espera esvaziar um peito, deixa dormir no peito, acorda para continuar mamando… Quase enlouqueci. E a coisa só começou realmente a funcionar quando eu parei de escutar todas essas pessoas que na realidade não entendem nada de amamentação porque não possuem nenhuma formação específica sobre o assunto e falam a partir de preconceitos, senso comum e informações errôneas. E passei a me orientar com consultores de amamentação, grupos sobre o tema, o pessoal da Leche League e, especialmente, com mães que amamentaram longamente. Dali em diante foi uma experiência muito linda, tocante e rica de emoções para ambas. Aprendi muito amamentando minha filha, tanto sobre mim mesma, minhas possibilidades e meus limites quanto sobre ela, sobre como é nascer, sobre como é depender, sobre como é contar com o outro, sobre como é crescer, confiar, amar…

Nessa segunda vez já nem abri brechas para o azar. Coisa que não poderia ter feito na primeira, pois nunca tinha amamentado, não conhecia tanta gente próxima que o tivesse feito, não tinha muito em quem me espelhar – e, sim, amamentar, tanto quanto parir, é mais fácil quanto mais você tem modelos no seu entorno – e tinha toda a insegurança da primeira vez, do primeiro filho, da inexperiência. Então tive que aprender rápido, tomar as rédeas dessa história, cuidar para fazer o melhor possível com as informações que eu tinha, confiar na minha capacidade e na capacidade da minha filha… E tudo isso eu trouxe para o segundinho que, sortudo, não passou muito perrengue. Mesmo tendo uma pegada bem ruim no começo, mesmo mamando esbaforido, mesmo engolindo tanto ar que achei que ele fosse inflar e sair voando como balãozinho de gás… Eu respirava fundo, arrumava a pega do menino desesperado e acreditava piamente que ia dar tudo certo. E deu. E quem olha as dobrinhas branquicelas das perninhas desse pequeno hoje em dia nunca que iria imaginar que ele foi um bebezinho que no começo nem sabia mamar direito. E que ele aprendeu mamando e que a mamãe aprendeu como é que era para dar de mamar para ele. E que foi a confiança e a aceitação da dependência que ajudaram para que essa história de amamentação pudesse correr bem.

Vai por mim, se você busca algum conselho sobre amamentar: discuta com quem amamentou durante um longo período. Discuta sobre como a pessoa fez, sobre o que funcionou para ela e para o bebê dela. Provavelmente essa pessoa, quem quer que seja, vai te dizer quase as mesmas coisas que qualquer outra pessoa que teve a mesma longa experiência de amamentação diria: amamentar em livre demanda, seguir e confiar no ritmo do bebê, não julgar se ele está com fome ou não, se é manha ou não e dar o peito sempre que ele pedir, não dar chupeta, mamadeira, não usar bico de silicone nem nada que o valha, confiar que tem leite porque a imensa maioria do leite que o bebê mama é produzido durante a mamada e um peito mais cheio ou mais murcho não quer dizer grande coisa, descansar, deixar a casa bagunçada mesmo, deixar-se levar… confiar. Mães que amamentaram seus filhos prolongadamente sabem mais sobre o assunto do que a maior parte dos auto proclamados especialistas porque apenas nas situações de exceção a teoria importa mais do que a experiência.

 

Ele está criando, mamãe! – parte 2

Então, o post anterior era para ser sobre bilinguismo. Porque se tem uma coisa na qual a gente pensa bastante, quando é mãe na gringa, é em como vai ser quando os filhos começarem a falar. E, mesmo quando não pensa, sempre aparece alguém para pensar pela gente.

  • Você fala português com eles?
  • E o pai fala francês?
  • E eles falam que língua?
  • As duas?
  • E não dá confusão não?
  • Não demora mais para falar?

Ora, ora, ora. Não sou linguista, nem fonoaudióloga, nem especialista em bilinguismo. Tudo o que sei é que, aqui, desde a gravidez da primeira, estava claro que falaríamos as duas línguas com ela. Porque vivemos na França e seu pai é francês. E eu sou brasileira.

Não se trata apenas da aparente vantagem nesse mundo capitalista e competitivo em ter um filho imerso em duas línguas desde o berço. Vantagem essa que faz muitos pais procurarem escolas bilingues, creches bilingues, babás bilingues… afe! O que motivou essa decisão foram considerações afetivas e não mercadológicas.

A primeira coisa que levei em consideração é que uma língua é mais do que um instrumento de comunicação. É toda uma cultura, um modo de sentir e de ver as coisas, um jeito de se relacionar com o mundo. Quem estuda outras línguas sabe disso. É a saudade que só se diz em português, é um ritmo, um tom… Não falar a minha língua com meus filhos seria privá-los de conhecer essa cultura, essa musicalidade, esse jeito de ser e de se expressar. Privá-los pois, diferentemente de quando decidimos que o filho vai ser bilingue em uma segunda língua que não é a dos pais ou a do país em que vivemos simplesmente porque aquela língua é importante para o futuro dele (oi?), o que se privilegia é partilhar com eles algo que faz parte de suas origens. E a língua é fundamental na transmissão dessas origens.

Sim, existem pessoas que não querem transmitir suas origens. Por vergonha, muitas vezes. Mas também por intimidação, por confundir integração em um outro país com tornar-se idêntico àqueles que dali são originários, por preconceito sentido, por julgarem que não falar outra língua com os filhos vai fazê-los falar melhor, integrar-se mais e mais rapidamente, sair-se melhor nessa vida tão dura de imigrante. Não é verdade. Uma língua não transmitida vira uma espécie de tabu, algo inacessível que muitas vezes impede a criança de saber sobre si, sobre sua história, sobre a história dos seus pais. Impede-a de perguntar, de saber e dificulta, consequentemente, seu acesso à cultura e à língua do país em que vive. Se não temos como saber de onde viemos, como podemos ser alguém ou estar em algum lugar?

Noutro dia ouvi uma história de um menininho que não falava aos dois ou três anos. Os pais, de língua árabe, falavam mal o francês. Receberam a orientação no serviço de saúde de que deveriam falar apenas em francês com ele, para não atrapalhar seu desenvolvimento escolar. Coisa muito comum, orientação das mais corriqueiras, dada por aqui por pediatras, cuidadores de crianças de todo tipo, professores… Um grande equívoco, na opinião de muitos especialistas, seja em linguagem, seja em transculturalismo ou em migração. A última coisa que se deve fazer no caso de crianças bilingues é condenar ou impedir o uso da língua materna ou paterna.

Resumo da ópera: o menino não falava. Na creche em que foi acolhido, era silêncio. E isso só começou a mudar quando as educadoras, muito sensíveis e acertadamente, começaram a falar algumas palavras em árabe com ele. Bom dia. Tudo bem? Tchau… O suficiente para o garoto perceber que a língua da família era possível, aceita e valiosa. Ele podia ser quem ele é, não tinha que soterrar uma parte sua num canto qualquer em nome de integração ou de falar bem o francês. Até mesmo porque o resultado era o contrário do que se pretendia: o menino não falava mais e melhor, falava menos. Voltou a falar. Francês com quem fala francês, árabe com quem fala árabe.

Então, aqui em casa, julguei fundamental transmitir minha língua aos meus filhos. E com isso minha cultura, meu jeito de ver o mundo, de pensar, de existir.

Segundo aspecto que pesou na decisão: minha família é brasileira e vive no Brasil. Como seria triste ir passar as férias lá com as crianças ou ter minha família aqui para uma visita e eles não conseguirem se comunicar. Já pensou não compreender os mimos de avós? Já pensou eles não entenderem as gracinhas dos pequenos e não poderem contar orgulhosos aos amigos?

Imaginei-os encontrando os filhos dos meus amigos queridos sem poder trocar uma palavra, sem poder fazer aquelas aproximações tímidas que as crianças pequenas adoram fazer “qual o seu nome?” “aquela é sua mãe?” “vamos brincar?”. Não, uma língua é uma riqueza e mesmo que não vivamos no Brasil, o Brasil vive na gente por meio dessas pessoas e do que elas dizem.

terceira coisa em que pensei foi bem banal. Imagina que você está passeando na rua com os rebentos, todo mundo feliz. O pequeno vai andando na frente e chega perto da rua. Você vai lembrar de gritar: “attention! arrête!”? Não, minha gente, em situações extremas a gente volta para a nossa língua de origem, por mais fluente que seja em outra. E daí vai gritar “para! cuidado!”. E é melhor que o pimpolho entenda, né?

Assim como não dá para fazer sexo em outra língua, nem falar palavrão quando estamos furiosos, ou contar piada… tem coisas que só dá para comunicar a um filho na nossa língua materna. Algo urgente quando há um risco, um susto. Mas também uma canção de ninar. Ou os sons que os animais fazem. Cachorro aqui não faz au-au, faz ouaf-ouaf… pode? Não, não pode não.

Então, aqui em casa, os pequenos escutam português da mamãe e francês do papai. A pequena fala as duas línguas. Desde o princípio. O português ganhava em vocabulário no começo, ficou um pouco para trás quando ela começou a conviver com outras crianças, voltou a se enriquecer quando passou um tempão de férias com a família. E assim vamos vivendo. E conversando. Eu falo em português com ela, a não ser em conversas compartilhadas com outras pessoas que não falem nossa língua, pois sempre detestei essa coisa de duas pessoas falando uma língua que os outros não compreendem e deixando outros excluídos da conversa. Acho falta de educação e de consideração. Lemos histórias em português. E em francês. O mesmo com as canções. A pequena demorou um tempo para entender que cada coisa tem duas palavras para ela. Mas agora me diz algo e traduz em seguida para o pai, mesmo que ele tenha entendido, o que o deixa bem zangado. De brincadeirinha, claro, ele já se conformou que ela fala melhor o português que ele.

No fim das contas, ela fala português, francês, tudo junto e misturado e alguma coisa no meio disso tudo absolutamente incompreensível. E conjuga os verbos franceses na conjugação do português, como na frase do título. Ele está criando é o irmão gritando (crier, em francês). Mas não é que ela tem razão nas duas línguas?

Sites e blogs sobre bilinguismo:

 

 

Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

Morar fora

Feliz ano novo, meus queridos!

E aí? Já estão de malas prontas para deixar o Brasil que não começou 2016 tão diferente do que terminou 2015?

Decidi começar o ano por um post daquela série “maternidade na gringa“. Porque sempre me perguntam como é viver for do Brasil. Mais do que como é ser mãe fora do país, as pessoas parece que querem saber como é viver o “sonho de morar fora”. Então, aí vai. Vocês que pediram, hein?

Em uma época de tantas crises e decepções no Brasil, o que mais ouço são amigos e conhecidos dizendo que vão embora do país. Se em 2009, a cada vez que escutava essa intenção me prontificava imediatamente a ajudar a pessoa com mil dicas e encorajamentos, hoje apenas me limito a sorrir.

Morar fora – ou dizer que vai fazê-lo – é ter o conforto de poder contar sempre com um plano B. É a carta na manga, a insolência de poder dizer: “ah é? Então não brinco mais!”, pegar a bola do jogo e virar as costas. É manter sempre uma porta de saída imaginária no fundo da cabeça da gente, para acreditarmos que basta um estalar de dedos e podemos nos materializar numa realidade outra em que tudo seja melhor, mais bonito e mais feliz.

A verdade? A maioria esmagadora das pessoas que passam boa parte do tempo dizendo que vão embora do Brasil não vão fazê-lo. E isso pelos mais variados motivos. Motivos práticos, motivos econômicos, motivos afetivos e, principalmente, pelo simples motivo de que ir embora do seu país e reconstruir sua vida num outro lugar é para bem poucos. E aqui não há nem um cheiro de esnobismo, como se o mundo se dividisse entre os fortes, aqueles que vão embora, e os covardes, aqueles que ficam. Até porque poderíamos adjetivar justamente da maneira contrária: fortes são os que ficam, covardes os que vão. Não, não se trata de um julgamento de quem é melhor, nem de se é melhor ir ou ficar. Trata-se de uma constatação feita a duras e dolorosas penas de que, para deixar o seu país e, principalmente, para se instalar em um outro lugar, é necessário ter uma certa condição. Psíquica. Em outras palavras: é preciso ter estômago, muita determinação e nervos de aço.

Então como é morar fora? É legal? É demais? É melhor do que aqui?

Todas as pessoas que conheço que vieram morar na França endureceram. É bem estranho encontrar outros brasileiros porque todos – ou todas – qualquer que seja sua história e os motivos e meios que os trouxeram até aqui, são num primeiro contato pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas do que os primeiros encontros que sempre tive no Brasil. Ok, o sorriso trai a brasilidade. Mas não se  engane: os brasileiros que conheço por aqui são bem mais sérios que os de lá. Durões. Circunspectos. A ponto de escutarem comentários a cada vez que visitam nosso país de origem do quanto se tornaram esnobes. Não nos tornamos esnobes. Nem tampouco franceses. Endurecemos. Criamos casca e carapaça. Como todas as outras, não consegui fugir à regra e endureci igual minhas amigas. Acabei desenvolvendo a teoria de que morar fora endurece a gente.

Não, não é isso que você escuta ou lê quando aparecem aqueles relatos lindos na internet de como morar um ano fora mudou a cabeça da pessoa, abriu os olhos, libertou, criou novas perspectivas e tudo o mais que parece tão revolucionário que faz te sentir menor apenas pelo fato de ainda não ter feito as malas e largado tudo para passear mundo afora. E ficam os sites estilo matadorhypeness e sei lá mais quais publicando listas e listas das dez razões pelas quais você precisa morar fora, ou das dez coisas que aprendi quando larguei tudo e fui morar no X (preencha aqui com o nome da sua cudade-sonho-de-consumo), grandes responsáveis por te fazer se sentir um lixo. E ficam os seus amigos que moram fora do país postando fotos da escapada de final de semana em Barcelona, ou da balada em Berlim, ou do verão numa ilha grega paradisíaca de mar azul turquesa e que te fazem passar por um bobalhão tirando férias em Ubatuba. E ainda têm os reaças de plantão ameaçando mudar para Miami a cada vez que algum acontecimento político os desagrada. Não, morar em qualquer outro lugar é sonho de consumo, é ideal, é bem melhor do que aqui, é bom demais, não? Pois é, meu caro ou minha cara, desculpa ser eu a te contar isso mas, a coisa, na verdade, não é bem assim. Ou não é apenas isso.

Quem coloca a mochila nas costas e passa um ano fora, faz um sabático, um doutorado sanduíche, um curso de línguas ou o que quer que sirva de pretexto para um período fora do país dificilmente ultrapassa a superfície em que tudo pode ser encantador, surpreendente e promotor de descobertas e mudanças. E esse encantamento pode mesmo acontecer, quando a pessoa que chega se abre para o desconhecido, se redescobre outra em novos itinerários, noutra cultura, noutros costumes, noutra língua. Que bom que é assim! Que bom poder viver isso! Mas experimente ficar um pouco mais de tempo e viver uma vida mais banal e você vai perceber que o glamour da vida na gringa não é nada glamouroso não.

Chegar e se instalar noutro país mexe demais com qualquer um. Tem gente que se vicia nessa sensação de se reinventar e nunca mais quer ter raízes em lugar nenhum. É a euforia da novidade: quem, por exemplo, não imagina que seja um imenso prazer morar em Paris e ter todos os dias aquela beleza toda ao alcance dos olhos? E poder descobrir cada cantinho, explorar cada museu, cada monumento, cada construção, cada restaurante, cada esquina, cada detalhe? Como se viver em Paris fosse o equivalente de fazer todos os dias aquilo que a gente faz durante uma semana quando vem à passeio, como turista, como se fosse turistar em Paris em férias eternas. As pessoas em geral parecem ter um sonho de Paris, um mito de Paris, um anseio de Paris como o lugar mais belo, mais chique e mais maravilhoso para se viver nesse mundo. É o sonho do turista que idealiza o lugar pelo qual passa como aquele que seria o melhor para se instalar e viver a vida. Posso dizer, com todo o amor que sinto por Paris e mesmo sem levar em consideração a ameaça terrorista que paira sobre todos indiscriminadamente desde o ano recém terminado: não é. O lugar onde a gente vive é diferente do lugar onde a gente passeia.

Experimente ter horário em Paris. Ter que correr para um compromisso sem poder olhar as maravilhas do caminho. Correr para pegar o metrô, o ônibus, o trem. Correr e perder metrô, ônibus ou trem e ter que esperar o próximo, sabendo que vai se atrasar. Correr na rua do ponto de metrô, trem, ônibus até o lugar onde vai. Correr na rua em dia de frio, debaixo de chuva e neve. Ter que botar a cara na rua em dia de frio, chuva, vento e neve porque precisa cumprir algum compromisso. Ter que pagar aluguel (caríssimo) para morar num lugar minúsculo em que não cabe nem um terço das coisas que você acumulou no Brasil. Morar num prédio sem elevador e ter que subir com malas e compras. Fazer faxina. Lavar roupa. Passar roupa. Cozinhar (quando a cozinha tem um tamanho que permite fazer algo mais do que um miojo, claro). Experimente desentupir uma privada ou limpar o sifão da pia da cozinha porque esses serviços quase não existem, não funcionam 24 horas e, quando você encontra um encanador, custa uma fábula. Experimente a fila do titre de séjour e as burocracias da previdência social e da seguridade social. Experimente preencher formulários. Ou conseguir um emprego. Experimente pagar impostos na França. Todas essas banalidades podem deixar um estrangeiro maluco, simplesmente porque ele não nasceu e cresceu ali onde as respostas para essas tarefas quotidianas não precisam ser explicadas, de tão evidente que são.

Paris é uma cidade cara, que expulsa cada vez mais para seus arredores os jovens que não conseguem morar na cidade. Existem bairros inteiros que se tornaram casas de veraneio de ricos do mundo inteiro, bairros vazios, sem vida, sem graça. Existe a Paris dos turistas, sempre lotada, tumultuada, suja, intransitável, com gente se atropelando em todas as calçadas e filas intermináveis. Existem mil lugares lindos, graciosos e interessantes nessa cidade. Mas quem vive em Paris não passa a vida passeando. E isso você descobre apenas quando mora tempo o suficiente para que o encantamento cada vez que cruza uma ponte sobre o Sena ou dá de cara com alguma de suas maravilhas se mistura aos desafios cotidianos de ser um estrangeiro nessas terras.

Não apenas Paris, mas a França como um todo endurece a gente. Ou morar fora do seu país de origem, onde quer que seja, endurece. Caleja.

Porque, não, morar em Paris, morar na França não é como turistar indefinidamente nesse país. Basta precisar de algo banal e comum para se dar conta de que a maravilha acaba onde a vida quotidiana começa.

A França é um país cheio de burocracias e preconceitos. Sim, o país das Luzes tem seu lado escuro, racista, xenófobo, cheio de piadas com estrangeiros, atos de violência contra pessoas de certos países e/ou de certas religiões, intolerâncias quotidianas contra quem não fala ou fala mal o francês, julgamentos segundo as aparências os mais diversos. Foi numa das melhores universidades francesas que ouvi, pela primeira vez, um professor universitário falar mal de uma colega, pelo simples fato dela ser mulher. E melhor sucedida intelectualmente do que ele, diga-se de passagem.

A cada vez que você precisa renovar seu titre de séjour, ou abrir uma conta em um banco, ou solicitar um papel qualquer, trocar sua carta de motorista, validar seu diploma… enfim… cada vez que você precisa fazer algo banal e quotidiano, algo que não tem nenhum glamour e não participa do mito da vida maravilhosa na França você é confrontado com a burocracia francesa, o excesso de regras, de papéis, a falta de jogo de cintura e a indisponibilidade francesa em explicar aquilo que, para eles, parece óbvio. Tem quem diga que é assim para todo mundo. Até mesmo para os franceses. Mas a essa tacanhice se soma um certo gostinho por lembrar ao estrangeiro que ele está ali por uma concessão. Quem mora fora do seu país talvez passe a vida inteira com essa sensação de que estão lhe fazendo um favor. Maneira sorrateira de subjugar o outro.

Você é alguém no seu país? Tem trabalho, profissão, diploma, pós-graduação, mil especializações? Ok, aqui nada disso vale e você vai ter que validar seu diploma, refazer seu trabalho de conclusão de curso da graduação, fazer estágio… Conheço gente que, frente a essas exigências surrealistas desistiu e ficou cuidando da casa, dos filhos, ou foi trabalhar em subemprego, mudou de área. Não sem uma boa dose de depressão e revolta. Por isso as pessoas parecem duras, frias e distantes. É porque já tomaram muito na cabeça.

Quando você é estrangeiro, nunca sabe até que ponto as dificuldades que enfrenta para dar conta das tarefas mais banais se devem à sua condição ou se é assim para todo mundo. Tem gente que fica paranóico, achando que tudo é xenofobia. Tem quem desiste de tentar. E tem quem aceite as regras do jogo e faça o que dizem que deve ser feito. Para trabalhar, para ter documentos, para ter acesso aos serviços de saúde…

Morar fora do seu país de origem te confronta a um constante desconhecimento. O lado maravilhoso disso é se redescobrir ou se reinventar em um novo cenário, com novas pessoas, em outra língua. E poder fazer diferente, melhor. Ser surpresa em cada canto, a cada dia. O lado cansativo disso é ter que reaprender a andar, a existir, a viver com outras regras, outros papéis, outros jeitos de fazer as coisas, outros códigos que só aprendemos errando, derrapando e tendo que fazer e refazer gestos os mais banais.

Tem gente que se sente muito mal frente a tanto desconhecimento e tanta diferença e se fecha logo de cara. Tem quem se vicie nessa adrenalina do novo. Em ambos os casos, essa imersão inicial de quem acaba de mudar de país, superficial porque totalmente alienada das mazelas do dia-a-dia, parece que nos coloca frente a quem somos ou poderíamos ser se pudéssemos começar tudo de novo. Tem quem goste e se jogue na experiência. Tem quem deteste e passe o tempo todo se escondendo do contato com tudo o que é desse novo país, andando apenas com brasileiros, falando português, comendo comida brasileira, lamentando não estar em casa sem, no entanto, pegar as malas e voltar. Paradoxos de ser estrangeiro que só entende quem fica tempo o suficiente para sair da posição de turista permanente.

Se você pensa realmente em mudar de país, por qualquer motivo ou projeto que seja, e se vier me pedir conselho, acho que posso resumir todo esse texto longo em algumas poucas linhas: leve em consideração que nenhum lugar nesse mundo é o melhor lugar para se viver. O melhor lugar para se viver é o lugar onde você se sente melhor, não um lugar em si. Cada país, cada cidade tem suas vantagens e desvantagens e você ser feliz em um lugar ou outro depende mais da sua disponibilidade e do que é prioridade para você do que de qualquer outra coisa. Morar na França tem inúmeras vantagens. Mas tem o terrorismo. Morar no Brasil tem inúmeras vantagens. Mas tem corrupção, violência, falta de água, retrocessos… O que é mais importante para você?

Ninguém vai facilitar sua vida em um outro país. Você é quem foi, você é quem quis. Então, cabe a você se adaptar e não exigir que sejam eles que se adaptem. Claro que cabe exigir tolerância e abertura ao outro, o contrário da xenofobia. Mas querer que os franceses sejam sorridentes como a gente, que os serviços sejam rápidos e eficazes, que tenha pão de queijo e misto quente na padaria e mais um monte de coisas que são a nossa cara é ignorar que se está em um outro país. Se é para mudar de vida, mude de fato, não fique vivendo a vida velha na nova.

Agora, se é apenas para ter o conforto do plano B, tudo bem. Todo mundo precisa da ilusão de que pode fazer qualquer coisa. Lembre-se apenas, quando vier me perguntar como é viver na França, que minha resposta reclamona vai ser bem parecida com a que você daria se eu perguntasse como é viver no Brasil. Minha vida é bem parecida com a sua, não se preocupe. Mudar de país muda muita coisa e muda muito a gente. Mas não muda a vida em algo diferente do que seja viver.

Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.