Como a vida mudou!

Sinceramente, quando dizem que a maternidade muda a sua vida, eu posso te garantir que nem que você seja a pessoa mais criativa do mundo você dará conta de imaginar o quanto isso pode ser verdadeiro e radical. E muda de maneiras inesperadas, ainda por cima. Nada a ver com dormir menos ou coisa que o valha, porque disso todo mundo fala. Falo de mudanças nas entranhas, sabe? Aquelas com as quais você não contava. Senão, vejamos.

Sempre fui uma workaholic convicta, para quem o trabalho era a principal fonte de investimento prazer e inspiração. E agora desloquei tudo isso para a maternidade, certo? Não, cara pálida, errado. Agora estou há um ano sem trabalhar, o que quase me deixou maluca, mas também me fez pensar muito sobre o sentido em ter o trabalho como centro da vida.

Sim, é gratificante demais encontrar uma profissão que te encante, que te interesse diariamente e que te traga satisfação além do dinheiro em exercê-la. Ser independente, pagar as próprias contas e, ainda mais, fazendo algo que gosta soa como o auge da realização. Pois é, eu já vivi tudo isso, já estudei muito, já trabalhei feito maluca, já investi intensamente no meu trabalho, na minha carreira, nos meus projetos, com tudo o que isso sempre implicou, inclusive, em termos de vida pessoal: minha vida era o meu trabalho e, mesmo sem perceber, tiveram umas tantas coisas bem importantes que ficaram sacrificadas ao longo do caminho.

Tudo bem, não sou a primeira e nem serei a última mulher desse mundo que farão esse caminho. E ainda que muitas de nós pareçam estar satisfeitas com os resultados, vejo uma boa pitada de amargor em gente como eu que chega nesse mesmo ponto da vida e começa a se dar conta, por um ou outro acontecimentos marcantes, que nada faz muito sentido.

A questão não é trabalhar, ter uma carreira, valorizar e ser valorizada por isso. A questão é o momento em que atravessamos uma fronteira em que isso e torna o centro de nossas vidas e tudo o mais – e existe muito mais do que isso – fica pegando poeira ali do lado, definhando lentamente.

Nasci e vivi boa parte da minha vida em São Paulo. E enquanto estive por lá, o trabalho foi praticamente tudo na minha vida. Eu trabalhava umas 50 horas por semana, inclusive aos finais de semana. E adorava isso. Adorava o estresse, a correria, o desafio. A grande maioria dos meus amigos e conhecidos de lá faz o mesmo, não importa em que área trabalhem. E parecem satisfeitos.

Mas daí eu vim para a França e, na medida em que comecei a criar aqui uma rotina e a ter contato com outras pessoas, me deparei com um modo totalmente diferente de viver a vida e de encarar o trabalho. E esse modo diferente, em que existe espaço e condições para fazer outras coisas no seu cotidiano além de trabalhar me fez questionar até que ponto meu estilo centrada na carreira era escolha ou falta de opção.

Quero dizer: será que o fato de vivermos em uma cidade hostil como São Paulo, violenta, com poucos espaços públicos e sem nenhuma cultura de usufruir da cidade… Será que uma cidade onde mal se pode andar pela rua, onde boa parte das atividades de lazer se restringem ao consumo, onde programa com os amigos é fazer compras no shopping ou ir jantar em restaurante… Será que uma cidade em que se leva duas horas para chegar ao trabalho e duas horas para voltar dele, onde ninguém consegue terminar seu dia antes das dez horas da noite… Será que uma cidade cara, centrada no consumo, onde as atividades culturais custam, em sua maioria, os olhos da cara e onde as pessoas se sentem constrangidas em museus, galerias de arte e na Sala São Paulo… Será que uma cidade onde a educação “de qualidade” é paga e custa caro, onde a saúde “de qualidade” é paga e custa uma fortuna, onde todos os serviços essenciais são pagos, assim como o condomínio, todas as despesas de ter um carro… Será que uma cidade como essa, em que a vida é tão difícil, inóspita, violenta, complicada e segregada não nos empurra a acreditar que a vida é trabalho porque, no fim das contas, é só o que dá para fazer mesmo? Porque precisamos ganhar cada vez mais para bancar essa vida nessa cidade e nesse país e, no fim do mês, a conta quase não fecha?

Não discuto aqui que trabalhar pode ser projeto de vida de muitas pessoas e que pode ser um grande prazer e uma baita injeção de adrenalina. Nem discuto que existe saúde, educação, transporte e segurança públicos em São Paulo. E discuto ainda menos a qualidade dos mesmos, pois sei que existe muito serviço público de qualidade em meio a outros tantos bem ruins. O que estou discutindo é se não criamos ou embarcamos em uma mentalidade estressada, que vive correndo atrás de não sei qual prejuízo e que vive da vida muito pouco. E exige menos ainda. E ainda acha que essa vida é normal. Descobrir que pode ser muito diferente é um choque.

A primeira vez em que voltei de uma festa de madrugada, andando, sozinha, em pleno sabadão invernal parisiense percebi que alguma coisa havia mudado essencialmente nas minhas entranhas. Eu descobri que era possível viver diferente. E viver melhor. Andar nas ruas, que são de todos, poder circular, ocupar a cidade, usufruir daquilo que é de todos. E cuidar também, porque é de todos. E usar os serviços públicos, que são bons e funcionam. E poder contar com eles. E não precisar ter despesas astronômicas com saúde e educação. Nem com transporte.

Se tudo isso já bastou para me questionar sobre o porquê focalizei tanto da minha vida em torno do trabalho, engravidar veio reforçar e acentuar ainda mais essas indagações. Que sentido faz trabalhar tanto para ganhar tanto se o que se faz é passar a vida correndo atrás do próprio rabo dos próprios gastos? Que sentido faz nutrir toda essa maquinaria para começar a embarcar nela os próprios filhos, afastando-se deles para poder cuidar deles? Não parece um contra-senso? Para cuidar preciso estar longe, trabalhando de sol a sol a fim de garantir todas as coisas, todos os serviços, todas as necessidades que o pequeno rebento possa ter… com exceção de sua necessidade da minha presença. Trocamos presença por todas as outras coisas. Quando talvez devêssemos estar reivindicando o contrário: menos coisas, uma vida mais viável justamente para estarmos mais presentes.

Eis-me aqui então nesse ano sabático, constatando essa mudança de centro que jamais poderia suspeitar que um dia ocorreria comigo. Não estou trabalhando, mas estou trabalhando muito. Sem saber exatamente qual lugar o trabalho terá para mim em seguida. E bem contente em descobrir que a vida tem bem mais coisas a viver do que aquilo em torno do que a minha sempre girou. Por aqui, boa parte dos meus amigos tentam e conseguem se ver ou se falar ao menos uma vez por semana. E as pessoas saem juntas, se visitam, se encontram no final da tarde, batem papo, escolhem um entre milhares de programas, muitos dos quais de graça, viajam nas férias e nos finais de semana. Há tempo e lugar para muitas coisas além do trabalho mas, principalmente, há tempo e lugar para pessoas e relações.

E você? Quanto custa a vida que você escolheu viver por aí?

Deixem o gesto livre!

Noutro dia, na PMI, minha pequena decide se aproximar de um outro bebê dois meses mais velho do que ela. Eles se olham interessados, ele tenta tocar no rosto dela. O pai do menino diz a ele que não pode. Ele insiste, o pai insiste. Ele insiste, o pai bate na mão dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e diz que vai cortar os dedos dele. Ele insiste, o pai bate na mão dele e dá um tranco no menino, que chora.

Ah, mas é um pai. Os pais, esses eternos vilões…

Outra cena, mesmo dia, mesmo local. Minha filha vê um bebê da mesma idade que ela brincando com um brinquedo todo cheio de luzes, sons e movimentos. Ela chega perto dele. A mãe já fica em estado de alerta. Ela descobre que o cabelo dele é muito mais interessante do que o brinquedo e decide passar a mão nos cabelos do menino. A mãe tira a mão dela dizendo: assim não, machuca, meninas são terríveis! Minha filha fica perplexa e tenta outras vezes. Mesma reação da mãe, cujo filho estava todo interessado nesse contato. A pequena acaba desistindo e vai brincar de outra coisa.

Qual o problema nessas cenas?

Crianças pequenas conhecem o mundo experimentando o mundo. E quando encontram um igual – outro bebê – querem entender como é que é. Chegam sorrindo, estendendo o braço e querendo fazer um carinho, toque, puxão de cabelo, tapa que são as formas desajeitadas de um gesto que ainda não está tão apurado a ponto de acariciar quando quer e bater quando deseja. Então, evidentemente, os movimentos saem meio desajeitados. Mas nunca vi nenhum bebê sair gravemente ferido por conta disso.

Corta para outra cena, dessa vez no Brasil.

Nos dois encontros com bebês de amigas queridas que tivemos, minha filha ficou ali do lado do rebento de cada uma e eles se entenderam e se descobriram como quiseram. Lógico, nada de dedada no olho nem mordida. Mas teve carinho no rosto, troca de brinquedo, puxar brinquedo, lambida no braço, chegar perto, se afastar, reclamar, rir, chorar. Lembro da alegria da pequena com esses encontros.

Podemos pensar que é diferente quando você conhece a mãe do coleguinha e quando se trata de um completo estranho. Você não sabe a medida de tolerância daquela pessoa e não sabe até onde pode ir ou deixar seu bebê ir, para não causar desconforto. Mas daí vem minha perplexidade: quando foi que as experiências de descobertas de nossos bebês passaram a ser reguladas por nossa vontade, enquanto adultos, de não incomodar ninguém?

Não sei se é coincidência ou se é realmente uma diferença, mas aqui temos tido esse mesmo tipo de experiência nos mais diversos contextos. Até com conhecidos que têm filhos pequenos. Basta um bebê chegar perto de outro e lá vem os adultos ficar em cima, marcação cerrada, segurando mãos e dizendo com voz suave: “doucement”, “com cuidado”. Resultado disso? Na maior parte das vezes, os bebês e crianças acabam desistindo e tenho visto muitos deles brincando sozinhos com seus brinquedos. Ou com os adultos. Em um lugar repleto de crianças, muitas delas brincam sozinhas e não umas com as outras. E basta se aproximarem para que um adulto chegue para mediar o “conflito”.

De onde foi que tiramos a idéia de que crianças quando se encontram vão acabar invariavelmente ferindo umas às outras? Que coisa estranha é essa de esperar violência e agressividade de crianças que não possuem nem ainda coordenação motora para isso? Ou de decodificar todo e qualquer gesto delas como agressão?

Claro, crianças maiores. Claro, crianças menores com maiores. Pode ser que seja. Mas também pode ser que não. E o que acontece numa situação dessas? Acontece que boa parte dos bebês ficam no colo das suas mães, brincando com elas e com seus brinquedinhos. Que desperdício em um lugar cuja riqueza seria justamente a de poderem se encontrar com outros bebês, não?

Outra cena, agora em um parque para crianças. Uma menina que deve ter uns 2 ou 3 anos tenta puxar a bicicleta da outra, que chora. A mãe da primeira vem gritando de longe, com um bebê no braço. Berra com a filha, consola a outra garota. A mãe dessa chega, elas conversam, ela oferece algo para a menina, cheia de sorrisos e mimos. Enquanto isso sua filha fica ali, esquecida. A mãe está visivelmente mais preocupada em agradar a filha da outra e, por tabela, essa outra mãe do que dizer algo para sua filha, que continua por ali distribuindo pancada para todo lado.

Corta para daqui três ou quatro anos, quando essas crianças vão para a escola.

Já escutei mais de uma pessoa contando histórias de como as crianças são agressivas na escola. Só brincam de tapas, meninos e meninas. Se estapeiam, voltam arrebentados para casa, mães reclamam, professores e diretores não sabem o que fazer com tanta violência entre pares, desde o começo de sua escolarização. Tenho uma amiga que contou que quando mudaram para a Austrália, sua filha continuava no registro francês de brincar de bater em todo mundo, o que causou muitos problemas na escola até ela descobrir que poderia brincar de outra coisa.

O que eu quero dizer com tudo isso?

Quero dizer que não me parece um mero acaso que as crianças maiores sejam tão agressivas com seus pares, uma vez que elas parecem estar sendo ensinadas desde bebês que todos os seus gestos devem ser contidos pois eles são sinônimos de agressão. Tolhidas em seus movimentos, muitas delas nem olham mais para as outras, contentando-se com objetos que não respondem da maneira que um outro humano é capaz de responder: surpreendentemente, tal qual um outro. E daí, essas crianças que já começam tolhidas, contidas e isoladas vão vendo os adultos em torno delas traduzirem o que elas fazem como agressão. E vão vendo esses mesmos adultos reagirem a essas pretensas agressões tomando sempre o partido do outro, enquanto elas ficam desamparadas com aquilo que sentiram e que fizeram, sem ninguém que as ajude a entender ou nomear. Então vão para a escola e explodem em pancadarias mútuas todos aqueles gestos que não podem ser diferentes, que não podem ter outros nomes, que não podem acontecer em outros lugares, que não podem ser acolhidos como bons, interessantes, belos ou curiosos.

Não quero, com isso,estabelecer uma relação rasa de causa e efeito entre os bebês que não podem tocar e a agressividade das crianças maiores. Mas estou dizendo que uma coisa me parece ter muito a ver com a outra.

Não sei exatamente porque adquirimos a convicção de que um bebê é uma “besta fera” que tem que ser educada. E educada aqui funciona como sinônimo de domesticada. Um bebê tem que ser adestrado em seus atos, gestos, movimentos, comportamentos, reações para se comportar tal qual se espera dele. Brincamos com nossos filhos querendo mostrar o que eles devem fazer com as coisas, qual o jeito certo de jogar, como é que se deve comer ou o que quer que seja. Somos normatizadores e temos pouca ou nenhuma tolerância para qualquer ato que fuja do esperado. Queremos gestos precisos, específicos. Queremos comportamentos “adaptados”. Queremos filhos “educados”, limpos, amáveis, sorridentes, bons alunos e que não nos causem problemas com os outros adultos pais. Não queremos constrangimentos. Nem queremos incomodar.

Queremos que nossos filhos sejam tão discretos que eles nem existam.

Cada vez sinto mais admiração por algumas mães que remam contra a corrente e permitem que seus filhos existam. Que inventem mil e uma coisas para se fazer com um pedaço de papel, que possam passar muitos minutos olhando uma simples folha seca, ou que consigam descobrir a infinidade em cada um de seus gestos. É algo bonito de acompanhar e sinto uma profunda tristeza de ver bebês e crianças tão tolhidos e de constatar que eles são a maioria desinteressante e deprimente com a qual minha filha terá contato. O que isso vai significar para ela? Será que ela também passará a acreditar que seus gestos são maus e perigosos? Será que ela vai acabar desistindo? Será que eu ficarei com medo de desagradar as pessoas e vou acabar pressionando-a para que ela se “comporte”?

Nossos filhos vão para o mundo. Começam cedo a mostrar uma necessidade de fazê-lo. E a gente começa a olhar esse mundo e a se inquietar muito com as experiências que estão ali para eles. E com o que elas possam significar em suas vidas.

 

 

It takes a village…

… to raise a child. É o que diz o provérbio africano. Ou muitos provérbios africanos que levam a essa mesma conclusão: para criar  uma criança é necessário toda uma comunidade.

Não, isso não quer dizer que criança dá trabalho demais, embora dê. Quer dizer que cada criança precisa de todo um entorno que se ocupe dela e que lhe garanta os cuidados, a proteção e a atenção das quais ela necessita. Cuidando diretamente de cada criança ou dando aos pais todas as condições e toda a atenção para que eles se sintam cuidados e apoiados no cuidado que prestam aos filhos, o que uma comunidade faz – ou deveria fazer – é direcionar muito do seu investimento às suas crianças.

Sempre me surpreendo com o paradoxo escandaloso em nossa sociedade atual, que cuida mal do seu futuro e de sua própria preservação e perpetuação: uma sociedade em que crianças são deixadas sozinhas desde muito cedo, largadas à própria sorte diante de telas, mamadeiras e brinquedos ultra sofisticados, e onde tudo aquilo que lhes é mais peculiar e natural causa incômodo e deve ser eliminado o mais rapidamente possível. Sociedade essa que abandona as crianças e seus pais para se virarem logo que elas nascem: sem apoio para cuidar, sem orientação para amamentar, sem incentivo para estar junto. Que cada pai e mãe, ou que cada mãe sozinha, com seu bebê, resolvam-se por si mesmos na intimidade de seu lar. De preferência silenciosamente. E sem dar muitas notícias de suas dificuldades e de seu sofrimento. Afinal, não podemos ser incomodados com essas pequenezas, não é mesmo?

Nos anos 70, a psicanalista Françoise Dolto criou, junto com uma equipe, um dispositivo chamado Maison Verte. Trata-se de um espaço de acolhimento de bebês e crianças pequenas, junto com seus pais ou cuidadores. Um lugar em que as pessoas podem ir com suas crianças para passar um tempo juntos, conversar entre pais e com a equipe que acompanha esse momento, trocar idéias e experiências. E onde os pequenos podem brincar, encontrar outras crianças e se deparar com esse instigante mundo do outro que se oferece ali, a eles, para sua exploração e para sua curiosidade, em um ambiente seguro e na companhia de seus pais. Dolto entendeu perfeitamente aquilo de que carecia a sociedade extremamente individualista e distante de sua época, especialmente os pais e seus recém-nascidos: precisavam de um lugar para falar, respirar, trocar, se relacionar, ouvir… A coisa deu tão certo que a Maison Verte se espalhou por toda França e por muitos outros lugares do mundo. E, ainda na França, deu origem a muitas outras iniciativas semelhantes, dentre as quais os espaços de acolhimento das PMIs, os serviços de Proteção Materno Infantil que, entre outras coisas, oferece justamente um espaço de acompanhamento e de troca, cuidado por alguns membros de sua equipe e frequentado por quem quer que assim o deseje. Trata-se de um serviço público, gratuito e espalhado por toda a França, no qual para realizar sua inscrição é necessário apenas morar na região abrangida por sua PMI de referência.

Por inúmeros motivos, não fui com minha filha à PMI logo que ela nasceu, especialmente porque eles têm a conduta de pesar semanalmente os recém-nascidos, o que acho desnecessário e estressante, visto que baseia toda a avaliação do bebê no ganho de peso. Mas há cerca de dois meses, começamos a frequentar o serviço para o acompanhamento médico de rotina da minha filha. E, mais recentemente ainda, decidi levá-la nesses dias livres, em que as crianças vão apenas para brincar umas com as outras.

Vinha percebendo que minha pequena ficava muito melhor nos dias em que saíamos para dar uma volta e muito mais irritada quando passávamos muito tempo em casa, mesmo com atenção, brinquedos e entretenimento. E com a chegada do verão, finalmente pudemos invadir parques e praças especialmente montadas para crianças. Tem sido uma experiência e tanto. Além do deleite de poder tomar um ar e sentir o sol batendo no rosto (de chapéu, claro), ela mostrou-se muito interessada em tudo a seu redor, folhas, flores, grama e… gente. Todas as gentes e em particular as mini gentes como ela. Não vou colocá-la em uma creche tão cedo e menos ainda na escola. Então, o serviço de acolhimento da PMI me pareceu uma boa opção.

Que agradável surpresa. Tudo cuidado, pensado para receber as crianças e oferecer atividades adequadas a cada idade. Mães (pois na maioria das vezes são as mães e apenas elas que acompanham seus filhos) ficam ali com as crianças, brincam junto, conversam entre si. Funciona. Claro, como em toda comunidade, as tensões e conflitos do lado de fora não deixam de estar presentes: os preconceitos, os racismos, as intolerâncias. Mas não apenas isso, como também uma certa amabilidade, uma boa dose de abertura e bons momentos de troca. E a pequena está encantada em descobrir outras crianças e seus feitos.

Aqui tem gente preocupada em criar comunidades. Embora saibamos muito pouco sobre como é viver em uma.

O estranho patriotismo dos expatriados

Em tempos de Copa do Mundo, a primeira morando longe de casa, tenho visto exacerbado algo que já me chamava a atenção em muitas situações cotidianas por aqui: o patriotismo exacerbado, quase fanático, de quem está longe de suas origens.

Há pessoas que saem de seus países por conta de guerras ou de conflitos violentos ou perseguições políticas. Há pessoas que saem em busca de melhores condições de vida ali onde acreditam que seja possível aquilo que não é no lugar onde nasceram. E há aquelas que saem por oportunidades de trabalho, de estudo, por um investimento profissional. Qualquer que seja o motivo que tenhamos para transitar, me parece evidente que a humanidade é essencialmente nômade. E que as fronteiras e os empecilhos a essa livre circulação não são apenas de uma violência contra esse ser do humano quanto, também, de uma ignorância descarada acerca daquilo que contribui para a riqueza de um país ou de uma região.

Enfim…

O negócio é que as pessoas partem e chegam. E, cheias de esperanças e de ideais, constatam no dia-a-dia dessa nova vida nesse novo lugar que as coisas não são assim tão simples. Sonhar com a vida em um outro país é bem mais divertido do que vivê-la. Porque no sonho não existe a burocracia, as papeladas, as dificuldades de comunicação, tudo aquilo que você não sabe como funciona, os desencontros culturais… No sonho não existe o racismo e o preconceito com o qual o estrangeiro é olhado em qualquer lugar do mundo, sempre o primeiro a ser apontado como causa de todos os problemas de qualquer ordem, em qualquer lugar.

Então, o que acontece? Acontece que, expatriados, vivemos cotidianamente esses pequenos preconceitos, essas pequenas discriminações. E, mais ainda do que isso, essas milhares de pequenas dificuldades que atribuímos ao preconceito e à discriminação e que muitas vezes não são. São apenas o modo como as coisas são. E que não entendemos. E nessa experiência dura e oprimente de tentar se integrar versus a oposição para que isso aconteça, o que vemos é muitas vezes uma reação de total inadaptação. Uma recusa mesmo em se inserir, em fazer parte.

Me explico. E juro que isso tem a ver com a maternidade, ou ao menos com a maternidade fora de seu país de origem, tá?

Quantas vezes nos deparamos no Brasil mesmo com imigrantes de primeira geração que não falam português? Não aqueles que falam com sotaque carregado, mas aqueles que simplesmente não falam uma palavra? E quantas vezes nos deparamos com comunidades inteiras que ocupam bairros inteiros que passam a ter letreiros inteiros em outra língua, produtos vendidos em supermercados totalmente estranhos, gente que não se mistura e que te olha com desconfiança se você insiste em passar por ali? Não sei vocês mas eu, vivendo em São Paulo, tive essa experiência várias vezes de me deparar com pessoas ou com comunidades tão fechadas que ficava claro que não havia brecha alguma para entrar.

Pois é, o mesmo acontece por aqui. E o mesmo acontece conosco, os brasileiros. Nós, que parecemos um povo tão aberto ao estrangeiro, que parecemos sempre tão dispostos a recebê-los bem em nossa casa, que parecemos até subservientes, encantados com a estrangeirice alheia e invejando tudo de todos como se quiséssemos ser tudo menos aquilo que somos… Bem, nós, os brasileiros, somos acometidos muitas vezes de um curioso fechamento quando vamos viver fora de nosso país.

Vejo por aqui, quase cotidianamente, situações em que brasileiros simplesmente não se misturam. Pude conviver com pessoas que vieram para a França para seus estudos e que passaram todo o período de sua estadia convivendo apenas com outros estudantes brasileiros, frequentando bares e restaurantes brasileiros, comendo comida brasileira e… reclamando de tudo o que é tão diferente do Brasil. O tempo todo. Gente que terminou a bolsa sanduíche ou o que quer que seja praguejando que os franceses são chatos, mal educados, fechados. Gente que voltou sem falar uma palavra de francês, sem nenhuma experiência de abertura, sem nenhum momento em que tenham sido tocados por essa diferença para guardar na lembrança. Nada. Foram e voltaram sem sair do lugar.

Mais do que isso, vejo outros brasileiros que estão aqui há anos, quase décadas e que não falam a língua, frequentam apenas médicos e outros tipos de prestadores de serviço que sejam brasileiros ou que falem português, saem para fazer programas brasileiros, entre brasileiros. Pedem para quem vem do Brasil trazer remédio brasileiro, comida brasileira. Esmalte brasileiro, tintura de cabelo. E só. Não. Ainda reclamam da França e dos franceses. O tempo todo.

Vocês podem me dizer: ah, mas é o “mal do país”. Ou é saudades. Sim, pode ser mesmo. Como pode ser a reação meio paranóica ao que vivemos e identificamos como uma perseguição. Nos maltratam, não nos querem aqui? Ok, então ficamos por aqui sem olhar para eles.

Tenho uma colega argentina com quem convivi por um bom tempo e que vivia falando mal do Brasil. Detalhe: ela vivia no Brasil desde bem jovem, era casada com um brasileiro, tinha filhos brasileiros, fez seus estudos ali, tinha seu trabalho, ganhava seu sustento, tudo no Brasil. Sempre achei o fim da picada, uma falta de educação, de respeito e de gratidão pelo país que a acolheu sempre e bem. Mas vendo como são as coisas por aqui, posso compreender como acontece esse inevitável desencontro em qualquer país, com qualquer estrangeiro que viva fora de casa. E como tomamos esse desencontro como algo contra nós. E como temos que viver em constante defesa contra esse país que nos acolhe e nos maltrata ao mesmo tempo. Como se não fosse assim também em nosso país de origem, que se transforma então no lugar ideal onde tudo seria mais acolhedor, simpático, saboroso e fácil. Continuo achando falta de educação, de respeito e de gratidão. Mas muitas vezes faço o mesmo.

Penso que uma das maiores dificuldades de viver em outro país é manter um espírito de abertura e conseguir distinguir entre aquilo que é preconceito, racismo e xenofobia – dos quais a França está infelizmente infestada – daquilo que é apenas a estupidez cotidiana de um país que funciona mal em muitas coisas. Mas não apenas com os estrangeiros, com todo mundo. Um bom exemplo disso por aqui: a burocracia. Tente conseguir renovar seu visto uma vez por ano e você terá a forte impressão de que fazem de tudo para que você desista. Sim, deve ser verdade. Mas pergunte para o seu marido, amigo, colega, conhecido francês como é que é cada vez que ele precisa ir resolver uma coisa na prefeitura, buscar um papel em algum lugar, resolver algo simples como mudar um endereço para a entrega de uma conta… Hahahahaha, meus caros, é uma novela. De mau gosto.

Mas, ao mesmo tempo, tem tudo aquilo que funciona e que te fez vir / ficar por aqui, não? Existem muitas situações e muitos lugares em que esse país te acolheu e cuida de você e de seus interesses, não? Pois é, prós e contras. A vida está cheia disso e não importa muito aonde você viva.

Talvez o que seja difícil de lidar mesmo seja justamente essa constatação de que “a França não quer você”. Essa descoberta de que você está ali não porque é desejado, mas porque deseja. E tem que sustentar sua estadia apenas no seu desejo. E fazer um baita esforço por ele. Sem a apaziguadora idéia de que o outro faz a maior questão da sua presença. Não suportamos muito bem essa situação de não poder dizer que é por causa do outro que fazemos isso ou aquilo, mas apenas e tão somente por nossa vontade. E viver em outro país, qualquer que seja ele, te joga na cara essa verdade inabalável: você está ali porque você quer. Então, o esforço vai ter que ser seu.

Putz.

Não estou defendendo que os países recebam mal seus imigrantes, até mesmo porque eles precisam tantos da gente quanto precisamos deles. Mas são poucos os países que lançam campanhas para você vir se instalar, a demanda é quase sempre de quem vem, não? Então, como não assumi-la e aceitar o esforço que ela implica?

Mas o que isso tem a ver com o patriotismo? E com a maternidade?

Muito, porque nesse embate entre o nosso desejo de estar em um lugar para o qual não fomos convidados e a constatação de que não somos desejados e de que temos que construir nosso lugar ali por nós mesmos, vejo acontecer muitas e muitas vezes esse fechamento, essa recusa, essa idealização do país de origem e esse ódio do lugar em que se vive, que é negado de todas as formas possíveis, a começar pela recusa da língua. “No Brasil é que é bom”. Mesmo? Tem certeza? Não vou fazer aqui o discurso inverso de que no Brasil tudo é uma porcaria, mas o Brasil também tem lá suas mazelas, não? Não é flor que se cheire, como aqui, como nenhum outro lugar. E quem disse que haveria o lugar perfeito? E por que acreditamos nisso?

O mais curioso, engraçado, paradoxal nisso, contudo, é que esse fechamento nesse patriotismo meio xiita que vejo por aqui ignora totalmente que nada disso faz sentido para os próprios filhos. E aí entra a questão da maternidade, com algo que constatei noutro dia e que me deixou perplexa: para nossos filhos, os filhos dos expatriados, quer sejam eles brasileiros ou estrangeiros ou ambos, esse patriotismo não significa nada. Por quê? Porque a pátria deles é outra.

Vocês já pararam para pensar nisso, que para nossos filhos, o lugar de origem deles é e sempre vai ser esse onde nasceram e onde vivem? Que eles terão como referência uma língua outra que será a língua deles, mesmo que falemos português em casa e que eles também falem? Que eles terão outros sabores na boca, outras paisagens na retina, outros sons, outras impressões na memória? Que nossos filhos são os estrangeiros que recusamos ao recusar o país no qual eles nasceram e vivem e com o qual possivelmente terão a mesma relação afetiva de amor e ódio que temos com o Brasil?

Pois é, me dei conta disso noutro dia. Minha filha é francesa e brasileira. Mas enquanto vivermos aqui e quanto mais vivermos aqui, mais ela será francesa, marcada pela cultura, pelos hábitos, pelos costumes, pela língua desse país em que vivemos. E, claro, ela terá traços de Brasil nela. Mas mesmo que eu me torne uma patriota xiita e que ela se vista de verde e amarelo em dia de Copa, isso corre o risco de soar nela mais como exotismo do que como a defesa de uma certa identidade. Porque não é o que ela é. Porque eu escolhi estar e ficar aqui. E isso tem como consequência que ela seja outra coisa do que eu fui nascendo e vivendo no Brasil por anos e décadas.

Então, minha gente, acho que esse patriotismo exacerbado é meio que um tiro no pé. No nosso e no de nossos filhos. É não assumir que eles são outros e não deixá-los serem quem são, mesmo que isso signifique, dolorosamente, não-brasileiros. Então é fazer o contrário, se integrar e recusar totalmente nossas origens, nossa língua, nossa cultura? Claro que não. Isso apenas refaz o problema pelo seu avesso. Mas talvez se pudermos considerar que aquilo que somos não é o que nossos filhos são também nesse ponto, o das origens ou o do sentimento de pertencer a uma ou outra pátria… talvez isso nos ajude a sermos mais abertos e tolerantes com esse estrangeiro que nos acolhe e que, em certo ponto, são nossos próprios filhos.

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Continuando esse papo aqui, que pelo visto vai durar muito tempo, já que ser mãe é um festival de novidades e ser mãe “na gringa” soma ainda mais novidades ao pacote.

Concordo com um post que li noutro dia que diz que você só começa a se enveredar mesmo pelos meandros do país em que vive quando se torna mãe em outro país. Claro, essa não é a única condição, mas se tem um acontecimento que te obriga a entrar em contato com esse mundo em que vive de uma outra maneira é o tornar-se mãe.

Primeiro, ao menos aqui na França, por conta da burocracia. Os franceses que conhecem o Brasil dizem que somos extremamente burocráticos e nós dizemos o mesmo deles, é o roto falando do esfarrapado. Mas, na verdade, acho que toda burocracia é particularmente difícil quando não é a do seu país, já que você vai ter sempre muito mais trabalho tanto para entender o que precisa fazer quanto para dar conta de todos os extras que te exigem justamente pelo fato de ser estrangeiro.

Antes de engravidar eu – por sorte – não tinha precisado nem ir ao médico. Então, fui descobrir todas as maravilhas e problemas do sistema de saúde francês estando grávida. E, em seguida, tendo que buscar o acompanhamento de rotina para um bebê recém-nascido. Modos de atendimento, modos de acompanhamento, seguridade-social, coberturas de planos de saúde, reembolsos… Até sobre calendário de vacinação, que é um pouco diferente do Brasil, tive que me informar (só para constar, a BCG não é obrigatória na França. Todas as outras vacinas são basicamente as mesmas, só que dadas em épocas diferentes).

O que acho interessante é que parece que os franceses buscaram criar um roteiro prevendo todos os casos possíveis. E para cada situação prevista tem algo que pode ser feito, um serviço que é oferecido e um modo de proceder. Quero dizer que, ao contrário do Brasil, aqui eles tentam cercar toda a primeira infância de uma série de cuidados e prescrições. Meio arbitrário às vezes, mas muito tranquilizador também. Me dá a impressão de que a mentalidade francesa é de que os filhos das pessoas são filhos da França e que eles levam muito à sério isso de cuidar dos filhos “da França”. A tal ponto que pode vir alguém bater na sua porta caso você não leve seu bebê nas consultas de rotina, ou se não o levar na escola.

Tenho gostado muito desse acompanhamento de maneira geral. Tudo o que os franceses são medicalizantes quando o assunto é gravidez, por exemplo, eles não são quando se trata de bebês ou crianças. Criança com nariz escorrendo, resfriada? Soro no nariz e só. Nada de antibiótico desnecessário, nada de mil remedinhos. Vejo muita mãe brasileira doida com isso, porque parece que temos mais arraigada em nós essa cultura da medicalização da infância e desde o começo já queremos medicar bebê que é “agitado”, bebê resfriado, bebê que não engorda bastante… Enfim, médicos generalistas, pediatras ou dos serviços de atendimento à infância, que são os que cuidam de bebês e crianças, medicam bem pouco essas bobeirinhas cotidianas. E não ficam pedindo mil exames invasivos para investigar suspeitas mirabolantes de diagnósticos complicados a não ser que tenham muitos motivos para tanto. E, a meu ver, isso é bem vindo.

Por outro lado, têm verdadeira fixação pela curva de crescimento e parecem obcecados com ela a tal ponto que só se preocupam se o bebê engordou e está na curva, especialmente nos primeiros meses. Não têm nenhum pudor em indicar complemento em leite em pó, sendo completamente equivocados quando o assunto é amamentação. Acreditem, a coisa aqui é grave, a França é um dos países com as taxas de amamentação mais baixas do mundo. E os profissionais de saúde são totalmente despreparados para lidar com o assunto seguindo, no mínimo, as diretrizes da OMS. Ou seja, se o assunto for amamentação, melhor procurar ajuda especializada. E especializada não é sinônimo de “o seu médico”, ok?

Contudo, amamentar em público é muito mais tranquilo por aqui do que parece ser em terras brasilis. Não sei se por pudor, por um certo respeito à liberdade do outro, ou simplesmente porque eles não estão mesmo nem aí, poucas vezes notei algum constrangimento da parte dos franceses com o fato de amamentar. E de amamentar em lugares públicos. Nunca ouvi nenhum comentário crítico ou desdenhoso e as únicas duas vezes que senti algum constrangimento foram em viagens de trens em que homens babacas ficaram olhando de um jeito nada terno enquanto eu amamentava minha filha. E só. Ninguém me falou para me retirar, como acontece com uma vergonhosa frequência no Brasil, ninguém sugeriu que eu fosse amamentar minha filha no banheiro, aquele lugar tão apetitoso, higiênico e estimulante para se fazer uma refeição, ninguém me acusou por atentado ao pudor, como os Facebooks da vida insistem em fazer cada vez que uma mulher posta uma foto amamentando, pornografia das pornografias em um mundo repleto de indecências… Já amamentei em parque, em museu, em restaurante, em trem, em ônibus, em metrô, em loja… enfim… toda hora é hora, todo lugar é lugar. E parece que está todo mundo de boa com isso.

E para quem acha que os franceses são frios, distantes ou pouco solidários, tenho a dizer que eles se mostram, sim, muito solícitos e atenciosos quando você chega com um bebê em qualquer lugar. Confesso que tinha uma péssima impressão e uma má expectativa, especialmente depois do perrengue que vi um casal de amigos passar quando vieram para cá de férias com a filha de dois anos. E do número de vezes em que fui a única a ajudar mulheres a descerem ou subirem as infernais e intermináveis escadarias do metrô com seus bebês em seus carrinhos. Paris é uma cidade hostil para grávidas e mães de crianças pequenas. Sim, é mesmo. Mas nunca deixaram de me oferecer lugar em nenhum transporte público quando estou com a bebê. E penso que o fato de eu não andar por aí com ela no carrinho e sim no sling ajuda muito, porque boa parte do mau humor dos franceses não é com a criança e sim com o espaço que aquele trambolho do carrinho de bebê ocupa no metrô, no ônibus, no elevador, no restaurante, em todo lugar de uma cidade em que espaço não existe tanto assim.

Fila preferencial aqui não existe. Quer dizer, não existe uma indicação de fila preferencial, a não ser nos supermercados e em alguns museus. Mas você pode chegar em qualquer lugar e perguntar onde é a entrada preferencial – tanto para gestante quanto para mãe com criança de colo – e o sujeito vai te passar na frente de todo mundo. E ninguém vai reclamar. A não ser no supermercado, onde as pessoas podem usar o caixa preferencial desde que não haja nenhuma preferência ali e, por isso, quando você chega com o seu bebê ou com a sua barrigona, muitos adoram fazer de conta que não te viram. Ah, a cara de pau… parece que é universal, não?

Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

O marido gringo (BC – Papo de mãe)

O marido gringo é um artigo que provoca fascínio e inveja. Não sei se por conta de nossa mentalidade de colonizados que olham gulosos para tudo aquilo que vem de fora como se fosse melhor e mais interessante, temos essa idéia fixa de que quem vive fora do país leva uma vida hollywoodiana. Se a pessoa se casa com um gringo, então, é motivo para alvoroço e histeria generalizados. E muito falatório pelas costas depois.

Pouca gente tem noção dos percalços de uma vida fora do país de origem. A maioria nem sequer imagina como é viver fora da própria cidade onde nasceu. Olhando com olhos de turista tudo parece bonito, agradável e glamouroso. Os relacionamentos com estrangeiros, então, parecem a chave do paraíso. Não são. Relacionamentos são bons e são ruins sem exceção e nenhum é o ideal, mesmo que passemos a vida pensando que alguém consegue ter aquela vida de casal de propaganda de margarina que fizeram com que acreditássemos que é possível. Não é. E contos de fadas não existem. E o príncipe encantado não salva a donzela no final. O que o relacionamento com um gringo faz é escancarar mais explicitamente essas impossibilidades, mostrando no dia-a-dia que amor e vida conjunta são decisão constante, acordos, conversa, trabalho e muita, muita paciência. O estrangeiro te coloca de cara com as diferenças e te obriga a encará-las. Se ele é teu marido, a provocação é cotidiana.

Putz!

Como é que é o marido gringo, então, esse sonho de consumo de tantas brasileiras?

Ele é um sujeito, um outro, muito mais diferente do que parecido, mesmo que em princípio hajam pontos em comum que os unam e distâncias atraentes, com o qual você se propõe a partilhar sua vida e que, além de todas as diferenças que qualquer outro teria, carrega consigo o fato de ser de outro país. Outra língua, outra cultura, outros costumes. Tudo o que pode ser extremamente charmoso no jogo de sedução, mas com o que você precisa lidar com muita abertura de espírito no dia-a-dia de uma vida a dois.

E quando ele se torna pai da sua filha, então? Minha nossa senhora, fujam para as montanhas!

Exemplos?

O marido gringo não vê necessidade de te acompanhar nas consultas do pré-natal. Nem nos exames de ultrasom. Ficar contigo na maternidade? Por quê? (Ouvi muitas histórias de maridos franceses que não ficaram com as esposas no período em que as mesmas estavam na maternidade, simplesmente porque não vêem nenhum sentido em ficar ali se elas não estão doentes e se eles podem muito bem seguir com a vida normal).

O marido gringo pensa que parto normal é aquele em que uma anestesia é obrigatória, pois não vê sentido algum em que alguém sinta dor em uma situação em que isso poderia ser evitado. Intervenções médicas são bem vindas e saudadas com alegria, pois elas servem para melhorar a vida de todos. ( A França é uma das campeãs em intervenções médicas, por conta do seu sistema de saúde em que as pessoas podem ter suas consultas, exames e intervenções pagas pela seguridade social. Isso criou uma perversão bastante bizarra que faz com que as pessoas vão ao médico o tempo todo, sem razão alguma. E o critério para decidir se um exame será feito ou não é se ele é reembolsado, não se ele é necessário).

O marido gringo acredita que bebês dormem no seu quarto desde a primeira noite. De preferência, a noite inteira. Pois precisam aprender a dormir. E a se acalmarem sozinhos. (O método nana nenê poderia perfeitamente ter sido inventado na França, onde os pais franceses costumam ser bem disciplinadores com seus filhos. Não é à toa que temos agora aquela avalanche de livros de americanos deslumbrados porque crianças francesas comem de tudo, não fazem manha e mais uma porção de coisas que as pessoas acham que sinalizam que as crianças francesas são educadíssimas. Esquecem apenas de se perguntar se elas são felizes. Ou seja, pais franceses disciplinadores não apenas no bom sentido, pois muitas vezes a criação envolve um modo frio e pouco afetivo de lidar com as crianças. Não é à toa que a França é uma das campeãs no uso de antidepressivos no mundo).

O marido gringo está convencido de que peito e mamadeira são a mesma coisa. E que uma chupeta não faz mal à ninguém e ainda ajuda o bebê a dormir e ficar calminho. (Na França, o aleitamento materno é uma tragédia, as mulheres amamentam pouquíssimo e por pouco tempo e algumas maternidades fazem muito esforço e até uma grande pressão para que as mulheres amamentem. Já ouvi de boca de pediatra que não é obrigatório amamentar e não importa qual deles te prescreve com facilidade um suplemento de leite em pó, o que faz com que muitas crianças saiam tomando mamadeira já da maternidade. E com chupeta na boca, claro).

Tudo isso para mostrar que às diferenças de concepção sobre mater/paternidade juntam-se contextos culturais outros, educações diferentes, outros costumes, outras formas de ver a vida que não apenas justificam as posições do marido gringo como tornam qualquer conversa muito mais complicada, já que ele estará sempre apoiado pelo discurso vigente no seu país. Que é justamente onde vocês moram. A menos que ele seja um peixe fora d’água com tanto senso crítico quanto você, né?

Claro que o marido gringo pode te ensinar coisas maravilhosas, como a liberdade que é poder pegar sua filha e sair de casa, não importa com que idade, não importa para onde. Como aqui não existe essa cultura das babás 24 horas por dia e as famílias não são necessariamente presentes e participativas mesmo quando há um bebê novo no pedaço, o jeito para viver a vida é, simplesmente, vivê-la. Sem muito drama, sem muita restrição, sem muita frescura. Botar a bebê no sling e sair para dar uma volta. Ou arriscar uma viagem. Ou andar na beira da praia. Ou jantar fora. Enfim, o que for razoável e puder agradar a todos.

Também é o marido gringo quem pode te ensinar a simplicidade de uma relação menos machista, em que ele se ocupa dos cuidados com a pequena tanto quanto você, sem que isso receba a estranha interpretação do “ele me ajuda”. Mesmo em uma França machista anos luz atrás dos anglo-saxões ou dos nórdicos, que guarda ainda bastante de sua latinidade no seu aspecto mais misógino, não há como comparar aquilo que o marido gringo faz com naturalidade com aquilo que muitos ogrinhos brasileiros fazem apenas sob os holofotes e com muito drama. Marido gringo cuida da bebê. Ponto.

 

Em resumo, marido, gringo ou não, traz ensinamentos e dificuldades. Como toda relação que funciona bem, demanda esforço e dá prazer. A chegada de um filho abala tudo o que estava assentado antes e, gringo ou não, ele vai ter que pensar muito bem no que está fazendo contigo. E você fará o mesmo. Pois nada suscita mais amor e mais dificuldades para um casal do que o nascimento de um filho. Ou, se suscita, eu ainda não sei e espero nem descobrir tão cedo.

Marido gringo que se torna pai de um filho seu causa toda uma revolução, pois à partir dali os dois sabem que não é apenas o exotismo, as diferenças interessantes ou o sotaque bonitinho que alegrarão o dia-a-dia. Desde que o rebento nasce, eis duas pessoas ligadas permanentemente e, mais ainda, dois países, duas culturas, duas distâncias oceânicas tendo agora que confluir para um único ser, fruto desses dois tão distintos. Haverá uma criança metade brasileira, metade gringa. Haverão duas línguas, dois temperos nas comidas, duas canções de ninar. Haverão duas formas de criar, haverão dois modos de amar. Com sorte, toda essa diferença será uma riqueza, e os pequenos sairão ganhando.

(Esse post foi inspirado pelo tema: “E os pais?” da blogagem coletiva Papo de mãe)

Os três patetas vão ao restaurante

Sabe aquelas idéias que a gente tem de vez em quando e que a gente sabe que são péssimas mas, mesmo assim, a gente encasqueta que vai dar certo e coloca em prática? Pois é. Ontem foi o momento de uma dessas epifanias, em que essa que vos fala concluiu que seria uma idéia genial sair para jantar com o cara-metade e a pequerrucha.

Vocês podem perguntar: qual é o problema?

Tenho uma conhecida que me disse, logo que a bebê nasceu, para aproveitar e sair muito no começo, que eles só dormem mesmo, porque depois teria que esperar uns bons anos para botar a cara em um restaurante novamente. Sábias palavras.

Que escolhi ignorar.

E lá fui toda pimpona, de preto sobre preto sobre preto, no melhor estilo francesa esbelta (ah, o preto, como ele nos ajuda nesse efeito trompe l’oeil, seu lindo!), cabelos ao vento, tipo mãe celebridade, cara-metade do lado, bonitão, com a pequena no canguru, toda colorida, olhos bem abertos, apreciando o passeio. Maravilha de comercial de margarina.

Então entramos no restau, somos acomodados em uma mesa simpática, olhamos ao redor com gostinho de quem está adorando sair de casa, ele pede um apéro, eu fico na água mesmo. Pedimos os pratos que parecem deliciosos, o garçon simpático nos convence que é uma boa comer uma entrada antes. E lá vamos nós, família feliz, rumo a um jantar comme il faut, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.

L-E-D-O E-N-G-A-N-O.

Uma coisa que aprendi é que devemos respeitar os horários, ritmos e limites dos nossos bebês. A primeira infância passa muito rápido e ninguém morre de passar um tempo sem fazer baladas infinitas pelo mundo afora. Porque, simplesmente, bebês cansam, sentem sono, sentem fome, ficam inquietos e esgotados dos estímulos do dia. E isso tudo ocorre especialmente à noite. Saímos pouquíssimas vezes com a pequena de noite até agora e, quando isso ocorreu, por conta de pequenas viagens e coisa que o valha, tudo correu muito bem, ela dormindo no sling, tranquilona, como se não houvesse amanhã.

Isso até ontem à noite. Quando ela decidiu simular uma mistura explosiva entre “Alien, o oitavo passageiro” e “O Exorcista”.

Sério.

O caldo começou a entornar logo depois da entrada. Animadona com toda aquela gente, aquele burburinho, aquelas cores, aqueles cheiros, a pequena ficou dividida entre olhar para todos os lados, tentar chamar a atenção da mesa vizinha (putos, como é que nem deram atenção para uma fofura dessas?) e resmungar que estava cansada. Até que deu uma regurgitadinha. Coisa pouca, pegou num canto da sua blusa e a mãe francesa esbelta de pretinho básico posando de celebridade discretamente limpou tudo com a perícia de um escultor polindo sua criação. Partimos para a estratégia infalível: a mamada que alimenta, relaxa, faz feliz e faz dormir gostoso no restaurante, no carro, no museu, onde quer que seja. Ainda mais que já era hora do soninho. Pensei: moleza! A gatinha mama e dorme antes do prato principal chegar. SO DAMN WRONG…

Então a pequena descobre que a parede é avermelhada e rugosa e… Wow! Que demais! Yupiiiii! E dá-lhe peitola esguichando leite pelo mundo afora. Putz!

Pronto, calma, ninguém viu, vamos em frente, ela vai mamar. Só que não porque tem a parede, os vizinhos da mesa ao lado, a iluminação do bar… Eu coloco ela sentada e de repente estou com o alien nos meus braços se jogando para todo lado e por que diabos os malditos vizinhos não falam com ela e fazem careta e distraem ela um pouco, minha gente?! Então ela lembra dos meus cabelos ao vento (ela adora cabelos ao vento) e gruda neles com aquele amor que só ela tem, catando um chumaço de cada lado com vontade, que é para mostrar que está perita mesmo nesse negócio de agarrar e puxar. E puxa, puxa, puxa toda a juba para a frente do meu rosto e enfia todo o chumação dentro da boca toda, aquela boca linda sorridente desdentada que eu amo e que engole toda minha cabeleira de starlet francesa esbelta e blasé ali no restaurante. E com muito custo eu consigo negociar a liberação dos cabelos reféns e ela, de boca vazia, começa de novo a resmungar porque está cansada, com fome, cheia de interesses e tudo isso já é mega over quando chega o prato principal, o cara-metade todo lindo cortando o magret de canard para minha pessoa, que com uma mão como tentando equilibrar magret, molho, acompanhamento em uma garfada torta dessa já não tão elegante à la francesa de pretinho básico, descabelada com chumaços babados inclinada para um lado tentando achar o caminho do garfo à boca enquanto equilibra a pequena alien divertida e resmungona no outro braço com ela exercitando todos os seus movimentos recém aprendidos para tentar chamar a atenção dos malditos cretinos vizinhos de mesa que não param de conversar um segundo sequer seus desalmados que não devem ter filhos e nem devem saber como é importante sair para jantar uma vez depois de tanto tempo e nem se solidarizam com a causa, bof, bof, bof, odeio todo mundo, a humanidade é fria e egoísta quando… Gente, ela vomita. Mas não aquela regurgitadinha discreta, aquela regurgitadinha fina, tipo arrotinho que a rainha da Inglaterra deve dar nos jantares oficiais segurando o guardanapo no canto da boca. Não. Ela vira a menina do “Exorcista”. Não vira o olho, nem gira a cabeça 360°C, calma, minha gente. Mas manda aquela famosa “gorfada em jato” que…

O mundo para. Em câmera lenta essa que vos fala tenta descobrir na velocidade de um raio onde foi parar o jato de leite vencido. Antes que alguém descubra. Olho por todos os lados, não sem antes tentar alcançar o guardanapo que a pequena habilmente tinha jogado no chão e ali está… na minha calça. Sim, na minha calça preta modelito ótimo que faz de conta que estou esbelta e fina e elegante à perfeição. Ali, naquela calça jaz uma poça de leite. Poça, eu juro.

O cara-metade pega a pequena enquanto eu tento enxugar a poça antes que a calça absorva tudo, numa corrida para ver quem é mais rápido e mais esperto, ela ou eu. A bebezinha resmungona senta no colo do pai ainda resmungando, meio indignada com aquilo tudo e ele dá a ela uma folha de alface.

Hahaha, minha gente! Porque tinha esquecido de falar, têm os dentinhos nascendo agora e qualquer um vira o demônio da Tasmânia com dentes nascendo e coçando e toda essa irritação e resmungação devia-se em boa parte a isso também. Que, claro, a patetona aqui não achou que fosse influenciar tanto na hora em que decidiu fazer saída noturna com jantar descolado com direito à entrada, prato principal e sobremesa. E, sim, acabamos de começar a diversificação alimentar e fazemos tudo bonitinho, os legumes orgânicos cozidos no vapor, temperados com ervas e um pingo de azeite, aquela descoberta cotidiana, sabores, cores, texturas, tudo um sonho sem fim até que alguém teve a bendita idéia de ir jantar fora e, no meio do caos, ofereceu uma azeitona para ela roer (what? sim, azeitona) seguida de perto em sua insanidade pelo cara-metade que não contente em oferecer uma folha de alface que não obteve muito sucesso, saiu-se com um bem sucedido pedaço de pão. Sim, meus queridos, um pedaço de pão. Pão bom, que aqui na França tem pão ótimo mas… pão. Putz!

A pequena aquietou com o pão antes do cara-metade ter um momento de lucidez e concluir que era melhor irmos embora, pois não seria nada prudente mandar uma baguette na mão da menina e entregar para Deus enquanto pedíssemos a sobremesa. Conclusão: nada de provar o tal creme de chocolate branco com maracujá…

Voltamos andando para casa, a pequena sossegada no colo do pai, eu meditando sobre quem teve a idéia de Jerico de sair para jantar à noite fazendo a diva da nouvelle vague apenas para retornar com o rabinho entre as pernas, os cabelos em tufos babados e a calça vomitada, sem nem um consolo de açúcar para a situação. Chegando em casa, a pequena se agita. É hora de trocar de fralda, de roupa, mamar e dormir. Eu corro para trocar de calça. O cara-metade me pergunta se era tão urgente trocar de calça (vomitada… oi?) que eu não podia dar de mamar logo. Isso vindo de quem falava fazendo cócegas na barriga da pequena. Pois é, a maternidade e a paternidade tem seus momentos surrealistas.

Não sei se porque no meu prato tinha uma redução de cerveja ou se porque a noitada foi toda montada num cenário cômico delirante, aquela cena ali me deu um acesso de riso incontrolável. E lá fui trocar a pequena e amamentar sem conseguir parar de gargalhar. Somos absurdos. Somos ridículos. Isso tudo é divertido demais.

Claro que foi menos engraçado hoje pela manhã, quando tive que sair e constatei que minhas opções de vestimenta eram: uma calça molhada recém lavada, duas calças de antes da gravidez que haviam rasgado, uma calça de grávida gigante. Ou a calça vomitada. Putz!

Quarto e último post de dicas…

… de compras para mamães e bebês na França. Série que eu havia começado nessa intro geral, passando pelas roupas e pelos móveis, carrinho e meios de portagem do bebê. Mas, como ficaram faltando algumas coisas que eu poderia compartilhar com vocês sobre o que tem sido útil ou inútil nesses primeiros tempos de maternidade em termos de produtos, objetos e afins, demorou mais trago aqui o que espero seja o final da lista. Por enquanto.

Vamos a ela, no melhor estilo miscelânea:

  • No quesito fraldas, pois não temos como escapar delas, a não ser que a gente tope fazer algo no estilo Elimination Communication, vamos ter que escolher como lidar com a questão cocô-xixi-bebê. Não apenas não dei conta de fazer o EC, por achar que seria mais uma coisa de grandes dimensões com a qual lidar no início tão conturbado da maternidade, quando o que mais se necessita é sossego e que as coisas caminhem o mais facilmente possível (quem sabe mais para frente, ainda não desisti, porque a idéia é muito boa e simples, se for pensar bem), como também não dei conta de usar fralda lavável. Eu sei, eu sei, estou agindo diretamente contra o meio ambiente que gostaria de preservar para minha filha. No entanto, achei uma boa solução de compromisso com as fraldas descartáveis ecológicas. São algumas marcas que produzem fraldas com menos produtos químicos que agridem a pele do bebê e, ainda, com menos produtos que agridam o ambiente, sendo quase que totalmente biodegradáveis. Bom, já dá um alento, não? Testamos aqui três marcas: Naty Nature Babycare, Moltex e Wiona. Fico com a primeira, excelente. A Moltex também é muito boa, mas achei espessa demais (todas essas fraldas ecológicas serão mais espessas que as comuns porque não têm toneladas de produtos químicos e gel para transformar as cacas do bebê em sei lá o quê, por isso, precisam contar com camadas a mais, ok?). A Wiona, se você não ajusta milimetricamente as laterais, vaza que é uma beleza. E a gente não tem tempo de ficar ajustando laterais como um obssessivo compulsivo quando o bebê está mexendo para todo lado, né? Então, Naty tem sido a fralda por aqui.
  • Personal disclaimer: nunca fiz estoque de fraldas e acho que não precisa. As residências são minúsculas na França, ao menos em Paris. Imagina ficar estocando fralda? Não dá e é o tipo de coisa que você pode comprar assim que o último pacote for aberto. Mesmo comprando pela internet, no caso das fraldas ecológicas, você encomenda em um dia e está na sua casa no dia seguinte. Fora que estocar fralda faz com que você perca uma montanha de pacotes. Não tem como saber quanto tempo seu bebê vai usar RN, 1, 2, 3… Como dica, eu diria para, antes dele nascer, comprar dois pacotes do tamanho de recém nascido e dois do tamanho 1. Porque se o rebento for grande, é capaz de nem usar RN. E vai repondo conforme for acabando. Chá de fraldas, por aqui, só para quem tem muito espaço.
  • Em tempo, um ótimo site para comprar as tais fraldas ecológicas, já que apenas a Naty você encontra de vez em quando nos supermercados, é o Bébé-au-naturel. Os preços são bons, a entrega é muito rápida, vira e mexe tem descontos e promoções e eles vendem, além de fraldas, tudo quanto é produto natural ou bio ligado à maternidade. Inclusive aquele chá da mamãe da Weleda, que aqui chama tisane allaitement e que recomendo muito para todas as que precisem aumentar a produção.
  • Aproveitando carona do quesito amamentação, para aquelas que precisarem tirar o leite, por questão de trabalho ou o que quer que seja, recomendo uma bomba manual da Avent com a qual me adaptei muito bem. Concordo com quem me disse que bomba de tirar leite tem que ser simples e tem que dar para fazer com uma mão só porque, para algumas de nós, facilita na hora de tirar o leite se o bebê estiver mamando no outro peito. Essa bomba tem um bom preço, é fácil de montar e de usar e tem um kit em que já vem os potes para armazenamento, que você tampa e coloca na geladeira. Sem bisfenol A, aquele composto do plástico que é tóxico. Do kit, diria apenas para jogar fora o bico de mamadeira que você pode acoplar no pote de armazenamento e já dar o leite ali mesmo para o bebê. Acho que é melhor oferecer o leite no copinho, na colher ou, até, na mamadeira colher da Medela, por exemplo. Mas esse é o tipo de coisa que é possível comprar depois, quando surgir a necessidade.
  • ainda nesse assunto, bico de silicone, concha e toda essa parafernália não apenas são inúteis mas, ainda, atrapalham a amamentação (o bico de silicone) ou trazem risco de fungos e bactérias, como as tais conchas ou os absorventes para seios. Os seios têm que ficar arejados, secos e limpos, não úmidos e abafados. Das dicas salvadoras que recebi durante esse período, uma das mais importantes foi essa de deixar essas tralhas de lado, pois trazem mais problemas do que benefícios. Absorvente para seios, eu usei apenas em momentos de sair para fora de casa e, ainda assim, somente no começo, quando os seios realmente podem vazar muito (com o tempo, a produção regula com a necessidade do bebê e os seios praticamente não vazam). Nada de passar o dia com eles.
  • e aqueles cremes cicatrizantes, para o caso de fissuras ou machucados, tipo Lansinoh? Olha, comigo funcionou muito bem em momentos críticos, mas tem dois poréns que pouca gente vai te dizer. O primeiro é que não faz sentido algum usar esse tipo de creme ou qualquer outro tipo de produto no seio de forma preventiva. Seu seio é preparado pelo seu corpo e pela sucção do bebê, não precisa de mais nada. Nada de bucha, de estropiar o coitado, deixa ele sossegado ali que a natureza cuida do resto. O segundo porém é que passar esse tipo de creme de lanolina após cada mamada – como chegaram a me orientar – pode ser um tiro no pé. Porque esses cremes são super gordurosos e ficam na pele. E a pele do seu seio fica bem escorregadia. Junta isso com um bebê recém nascido que ainda não sabe pegar direito e que fica escorregando a boca e você poderá ter muito mais trabalho em ajustar a mamada. Ou seja, um produto que deveria te ajudar, mas que pode fazer a boca do seu pequeno escorregar, pegar errado, machucar ainda mais seu seio e dificultar muito mais para o pobre bebê faminto. Melhor usar apenas em casos críticos, né? Ou então passar o bom e velho leite materno mesmo nos bicos rachados, pois nosso leite tem alto poder de cicatrização.
  • o mesmo vale para os famigerados soutiens de amamentação. A menos que você tenha seios enormes, que fiquem ainda mais gigantescos com a amamentação, e precise de um suporte, uma sustentação para se sentir mais confortável, te digo: esses trambolhos só servem para atrapalhar. Pensa comigo: o bebê está com fome. Ele resmunga, chora, se irrita. Você levanta a blusa, baixa o soutien, isso quando conseguir encontrar o fecho que permite baixá-lo, claro, arranca o tal absorvente da frente, embola tudo isso num canto e, nesse ponto, o bebê já está mega estressado. Daí tenta aproximar ele do seu seio para fazer a pega correta com aquele monte de pano ali embolado, dificultando que vocês achem uma posição confortável. Se ainda tiver uma bela camada de creme de lanolina então… é a glória. Gente, não tem como funcionar, entende? É o seguinte: o peito vai cair, não tem soutien que segure. Vai cair mesmo que você não tenha filhos ou não amamente. Peito cai. Peito de quem amamenta cai também. Faz parte. Para quem se incomoda com isso, sugiro que guarde o dinheiro de toda essa porcariada para fazer plástica depois.
  • em tempo, ainda nesse quesito, havia me esquecido de um item super importante, que ficou tão incorporado na rotina que até me esqueci que faz parte do enxoval e só agora lembrei e voltei para editar o post. É a almofada de amamentação. Pode ser um travesseiro, uma almofada comum, ou uma daquelas específicas para amamentação, como essa maravilhosa da Boppy que herdamos da minha irmã e do meu sobrinho. Você amamenta uma vez meio desajeitada, noutra com os ombros encolhidos, noutra com as costas tortas, noutra sem apoio e, no final de um dia, dois, uma semana, um mês… você está arrebentada. Amamentamos de oito a doze vezes por dia e o bebê cresce, ganha peso e começa a pesar no braço. Então, tudo o que puder deixar essa experiência o mais confortável possível merece ser utilizado. Além disso, a mesma almofada de amamentação quebrou um galho durante o fina da gravidez quando, versátil, servia de apoio para a barriga na hora de dormir de lado. Foi o único modo de conseguir uma posição para dormir durante cerca de um mês… ou seja, essa almofadinha é salvadora.
  • por outro lado, no campo dos produtos de higiene para o bebê, por aqui nos demos muito bem com os produtos da Mustela. No Brasil eles custam uma fortuna, mas aqui são vendidos em qualquer farmácia por preços totalmente abordáveis. Os géis de banho, para corpo e cabelos são ótimos e práticos, assim como as barras de sabonete. O creme para a troca de fraldas também, funciona maravilhosamente quando começam vermelhões ou assaduras. Quando não tem nada disso, recomendo o liniment oléo-calcaire deles, dica boa de auxiliar de puericultura da maternidade. Aqui não se coloca uma camada de pomada para assaduras a cada troca de fralda a menos que o bebê tenha assaduras. Parece lógico, né? Eu, como sempre achei esquisita aquela crosta branca permanente em bumbum de bebê, gostei muito desse liniment, que é como um creme à base de óleo de oliva, bem gorduroso, que faz uma camada de proteção sem ficar grudento. Você pode investir em um frasco de liniment, outro de creme para assaduras e mais um gel de banho ou sabonete e, com isso, tem um belo kit básico para o bebê. Creme hidratante só usamos agora no frio, quando a pele fica mais ressecada como acontece com todos nós, mas não foi artigo de primeira necessidade. Protetor solar também, apenas quando fomos encarar o verão brazuca. Mas, ainda assim, preferi investir mais em chapéus que em cremes protetores para a pequena, porque pele de bebê é super sensível e ficar besuntando de produtos químicos assim logo de cara me pareceu um pouco demais. Pelo mesmo motivo, perfumes ou colônias para bebê é algo que me pareceu totalmente descabido. Bebê tem um cheiro delicioso, nada mais desnecessário que perfume para bebê (sim, tem isso aqui e os franceses parecem achar que é um ótimo presente, pois a pequena ganhou 3!!!).
  • ainda nesse tópico, de todas as coisas que vêm em um estojo de produtos de higiene para bebê, usamos apenas o cortador de unhas, a escova de cabelo e o termômetro. Aquele limpador de nariz fica pegando pó, já li que pode até machucar o nariz do bebê e, ainda por cima, aqui qualquer profissional de saúde vai te orientar a limpar o nariz do pequeno com soro fisiológico. Sempre. Nada de enfiar cotonete, limpador de nariz, limpador elétrico de nariz (sério, gente, como pode?), é soro fisiológico e pronto. E olha que resolve.
  • para as mamães, a Mustela também tem produtos maravilhosos. Um creme anti-estrias para passar ao redor dos seios, na barriga e nas coxas que foi meu companheiro por nove meses e deixou minha pele intacta e um creme de hidratação profunda para todo o corpo que também funcionou maravilhosamente. Acho que foram as melhores aquisições que fiz para mim durante a gravidez.
  • ainda para as mamães, além dos produtos de beleza, do chá da mamãe e dos famigerados soutiens, penso que no maravilhoso mundo da maternália não pode faltar uma calça jeans de grávida. Esse é o único item de roupa que eu achei fundamental ter comprado. Blusas largas, regatas, vestidinhos com corte capaz de acolher um barrigão… tudo isso foi possível encontrar em qualquer loja de qualquer marca por aqui. Coisas para usar antes, durante e depois. Mas a calça foi fudnamental. Porque chega uma hora que não dá mais para colocar alargador de fecho de calça. Nem deixar a dita cuja aberta mesmo. E não tem nada mais desconfortável do que roupa apertando o barrigão grande, é horrível. Então, se tiver que comprar uma única peça de roupa, invista na tal calça. Mesmo que não vá usar depois.
  • para tudo aquilo que pode ser comprado usado, recomendo o site leboncoin. Importante lembrar que aqui na França não existe nenhum preconceito contra comprar usados, não é coisa de pobre, nem nenhum desses preconceitos bregas de novo rico que a gente adora proferir na nossa terrinha, apenas coisa de gente que tenta consumir com menos desperdício. Enfim, no leboncoin você encontra de apartamento para alugar a gente vendendo tudo o que você puder imaginar. Inclusive artigos de bebê. Penso que para coisas que usamos tão pouco e que são reaproveitáveis e resistentes como berço, mobiliário de quarto, trocador, carrinho e afins, pode-se fazer excelentes negócios.
  • bom e barato você encontra também no Monoprix. Sim, o supermercado tem uma linha de roupas de boa qualidade a bons preços. Assim como a Hema. E a H&M, como me lembraram noutro post (obrigada!). E a Baby Gap, Vertbaudet e The essential one.
  • cadeirão, colheres, pratinhos, recipientes térmicos e afins? O bebê só vai começar a se preocupar com isso aos seis meses. Você pode fazer o mesmo.
  • brinquedos? Bom, a menos que você faça absoluta questão de dar um brinquedo específico para seu bebê, melhor economizar porque a maioria das pessoas vai dar brinquedos de presente. E está aí uma coisa que se acumula mais rapidamente do que os pequenos têm a capacidade de brincar e de realmente aproveitar cada uma daquelas coisinhas. Brinquedos, tapete de atividades, cadeiras, transats, móbiles com luz, música, barulhos… não sei não, mas começa a ficar um excesso de estímulos infernal, que muitas vezes mais estressa do que diverte. Bebês nascem mal conseguindo enxergar um palmo na frente do nariz, não vai adiantar colocá-los frente a um monte de brinquedos barulhentos, coloridos ou o que quer que seja. Leva um tempo até eles começarem a se interessar em olhar ao redor. E o que é bonito de ver é exatamente que o que parece atrair são luzes, sombras, movimentos, cores fortes… Não precisa correr com brinquedos, nem acumular uma montanha. Menos fraldas e menos brinquedos nesse mundo dos bebês, por favor!!!

Boas compras e, principalmente, boa maternidade. Se quiser saber o que é o mais importante providenciar para o bebê que vai nascer eu te digo, com toda seriedade e verdade, que não é nada disso que comentei ao longo desses posts. O mais importante a ser preparado é um lugar na vida dos pais para esse bebê, é preparar o coração para as mudanças e para as surpresas. E preparar-se para parir, para amamentar, para o corpo e a alma funcionarem, trabalharem em prol daquele pequeno que vai chegar. Todo o resto é supérfluo. E mais vale passar nove meses se preparando para esse acontecimento do que fazendo compras, arrumando quarto e outras distrações que, ainda que agradáveis, nunca vão dar conta do essencial.

Boa sorte nesse preparo de si, mamães!