Um ano

Há um ano atrás, nossas vidas mudavam mais uma vez. Chegava o menino loiro do sorriso largo repousado em covinhas e do olhar doce, terno e profundo.

Há um ano atrás, eu descobria que amor multiplica.

Há um ano atrás, teu pai descobria o aconchego dos braços largos que fazem dormir em total confiança.

Há um ano atrás, tua irmã descobria a alegria de ter um amigo da vida inteira.

Como você cresceu, meu menino!

As memórias relampeiam acontecimentos desse ano… as mamadas, os sonos da tarde tranquilos ao meu lado, as descobertas das luzes, das sombras, dos movimentos. Os primeiros sorrisos já anunciando os grandes sorrisos largos que iluminam o rosto inteiro e todos os corações em volta. O balançar animado, os primeiros jogos por vezes desajeitados com a irmã. O encantamento com essa irmã tão pequena e tão grande. O dedo na boca, o esforço conquistado em segurar objetos e cores e sons tão interessantes… o amor pelos sons, pela música que faz sacolejar o corpo. A tranquilidade de cada momento e os choros das necessidades, dos incômodos, dos desconhecimentos. Os passeios pelos campos e pela beira do mar. Teu prazer com o vento batendo no rosto, os olhos meio apertados. Poder tocar as folhas, as flores, os pezinhos na água fresca do mar, a vontade de comer areia.Os encontros com a família, com os amigos, os colos, os encontros entre bebês. Tentar virar, tentar sentar, engatinhar e rir e sorrir e rir de poder conquistar o mundo inteiro, de poder ir e vir, de poder conhecer novamente todos os lugares pelas próprias pernas. Os armários abertos, os objetos encontrados, as batucadas com a louça da cozinha. As histórias e os livros de história, passar um tempão em silêncio concentrado, observando, aprendendo, olhando, sentindo até entender. Buscar entender o mundo. O conforto dos abraços, a graça dos beijos, as cócegas dos sopros na barriga que você mesmo aprendeu a fazer. As risadas… ah, as risadas francas e declaradas com a irmã. Os dois deitados olhando os brinquedos, os dois sentados brincando, uma testa na outra, dois sorrisos, duas risadas francas, a cumplicidade. Os passeios de bicicleta com o papai, a convivência com os amiguinhos da creche, as reclamações quando sentiu saudades demais, as reivindicações de atenção e presença.

Um dia, em um final de tarde, brincava ao meu lado sentado no tapete. E então me distraí um pouco até sentir um cutucão em uma das pernas. Você estava de pé, segurando na borda do sofá com seu olhar imenso pregado em mim e um sorriso estampado na cara como quem espera meu olhar apenas para dizer: “olha, mãe, consegui!”.

Você conseguiu, meu filho. Você conseguiu nos ensinar que nenhuma tristeza resta indissolúvel no amor do seu sorriso.

Parabéns pelo dia de hoje. E por todos os dias.

E ele engatinhou… para trás 

Aconteceu antes com a pequena, mas não sei se é assim com todos os bebês. Ou apenas com aqueles que gostam de experimentar tudo à sua maneira. Mas aqui temos dois casos em dois de pimpolhos engatinhadores de marcha à ré.

Ele exercitou, sacolejou o corpo todo, esticou os braços feito gato que espreguiça, levantou o bumbum com os pés cruzados no ar. Ficou apoiado só na barriga, tipo um pirocóptero, e eu imaginei que ele ia sair girando, um dançarino de breakdance. E daí apoiou os pés no chão, esticou as pernas, levantou a buzanfa nas alturas, ajudou com o queixo e as mãos e… deu ré.

Ficou meio contrariado quando, uns três movimentos depois, estava mais distante de onde queria chegar do que no começo. Avermelhou resmungando.

Eu ri. Ele me olhou e sorriu com o rosto inteiro. Aquele rosto de covinhas de sorriso. E riu. E foi tentar de novo.

Ter irmão…

Enquanto me arrumo, a pequena sentada no chão cola adesivos em uma grande folha de papel, cantando e conversando. O pequeno ali perto, cantarola olhando um tanto as folhas agitando raios de sol pela janela, um tanto os brinquedos ao seu redor, um tanto a irmã. O tempo passa, ela concentrada em sua obra, ele se impacienta. Resmunga, resmunga, começa a querer chorar. Chora um pouco, ela concentrada. Chora mais um pouco, ela na dela. Penso em pedir para ela ir até ele levar um brinquedo, mas fico quieta e me apresso em terminar o famigerado banho.

Ela se levanta e desaparece do meu campo de visão lá para os lados dele. Silêncio. Pé ante pé vou dar uma olhada, segurando um: “o que vocês estão fazendo?” que espera alguma molecagem do outro lado. Ainda bem.

Eles não me vêem, mas eu os vejo. Ela faz um cafuné na cabeça dele, ele olha para ela chupando um dedo e dando risada, ela dá risada e um beijinho na cabeça dele, ele ri alto e se balança feliz. Ela volta para sua colagem, senta e continua falando, cantarolando e colando seus geometrismos coloridos. Ele resmunga de novo, ela vai ali para os lados dele e diz algo como: “não precisa chorar”. Ele sorri, outro cafuné, ela volta para a colagem. E decide que é divertido correr de um lado para o outro. Corre até ele, corre de volta para sua colagem. Ele decide que isso é extremamente engraçado e gargalha. Ela decide que é muito divertido fazer ele gargalhar e continua correndo. Eles se entendem.

E estão apenas no começo.

Ter irmãos é muita sorte.

Ele está criando, mamãe! – parte 2

Então, o post anterior era para ser sobre bilinguismo. Porque se tem uma coisa na qual a gente pensa bastante, quando é mãe na gringa, é em como vai ser quando os filhos começarem a falar. E, mesmo quando não pensa, sempre aparece alguém para pensar pela gente.

  • Você fala português com eles?
  • E o pai fala francês?
  • E eles falam que língua?
  • As duas?
  • E não dá confusão não?
  • Não demora mais para falar?

Ora, ora, ora. Não sou linguista, nem fonoaudióloga, nem especialista em bilinguismo. Tudo o que sei é que, aqui, desde a gravidez da primeira, estava claro que falaríamos as duas línguas com ela. Porque vivemos na França e seu pai é francês. E eu sou brasileira.

Não se trata apenas da aparente vantagem nesse mundo capitalista e competitivo em ter um filho imerso em duas línguas desde o berço. Vantagem essa que faz muitos pais procurarem escolas bilingues, creches bilingues, babás bilingues… afe! O que motivou essa decisão foram considerações afetivas e não mercadológicas.

A primeira coisa que levei em consideração é que uma língua é mais do que um instrumento de comunicação. É toda uma cultura, um modo de sentir e de ver as coisas, um jeito de se relacionar com o mundo. Quem estuda outras línguas sabe disso. É a saudade que só se diz em português, é um ritmo, um tom… Não falar a minha língua com meus filhos seria privá-los de conhecer essa cultura, essa musicalidade, esse jeito de ser e de se expressar. Privá-los pois, diferentemente de quando decidimos que o filho vai ser bilingue em uma segunda língua que não é a dos pais ou a do país em que vivemos simplesmente porque aquela língua é importante para o futuro dele (oi?), o que se privilegia é partilhar com eles algo que faz parte de suas origens. E a língua é fundamental na transmissão dessas origens.

Sim, existem pessoas que não querem transmitir suas origens. Por vergonha, muitas vezes. Mas também por intimidação, por confundir integração em um outro país com tornar-se idêntico àqueles que dali são originários, por preconceito sentido, por julgarem que não falar outra língua com os filhos vai fazê-los falar melhor, integrar-se mais e mais rapidamente, sair-se melhor nessa vida tão dura de imigrante. Não é verdade. Uma língua não transmitida vira uma espécie de tabu, algo inacessível que muitas vezes impede a criança de saber sobre si, sobre sua história, sobre a história dos seus pais. Impede-a de perguntar, de saber e dificulta, consequentemente, seu acesso à cultura e à língua do país em que vive. Se não temos como saber de onde viemos, como podemos ser alguém ou estar em algum lugar?

Noutro dia ouvi uma história de um menininho que não falava aos dois ou três anos. Os pais, de língua árabe, falavam mal o francês. Receberam a orientação no serviço de saúde de que deveriam falar apenas em francês com ele, para não atrapalhar seu desenvolvimento escolar. Coisa muito comum, orientação das mais corriqueiras, dada por aqui por pediatras, cuidadores de crianças de todo tipo, professores… Um grande equívoco, na opinião de muitos especialistas, seja em linguagem, seja em transculturalismo ou em migração. A última coisa que se deve fazer no caso de crianças bilingues é condenar ou impedir o uso da língua materna ou paterna.

Resumo da ópera: o menino não falava. Na creche em que foi acolhido, era silêncio. E isso só começou a mudar quando as educadoras, muito sensíveis e acertadamente, começaram a falar algumas palavras em árabe com ele. Bom dia. Tudo bem? Tchau… O suficiente para o garoto perceber que a língua da família era possível, aceita e valiosa. Ele podia ser quem ele é, não tinha que soterrar uma parte sua num canto qualquer em nome de integração ou de falar bem o francês. Até mesmo porque o resultado era o contrário do que se pretendia: o menino não falava mais e melhor, falava menos. Voltou a falar. Francês com quem fala francês, árabe com quem fala árabe.

Então, aqui em casa, julguei fundamental transmitir minha língua aos meus filhos. E com isso minha cultura, meu jeito de ver o mundo, de pensar, de existir.

Segundo aspecto que pesou na decisão: minha família é brasileira e vive no Brasil. Como seria triste ir passar as férias lá com as crianças ou ter minha família aqui para uma visita e eles não conseguirem se comunicar. Já pensou não compreender os mimos de avós? Já pensou eles não entenderem as gracinhas dos pequenos e não poderem contar orgulhosos aos amigos?

Imaginei-os encontrando os filhos dos meus amigos queridos sem poder trocar uma palavra, sem poder fazer aquelas aproximações tímidas que as crianças pequenas adoram fazer “qual o seu nome?” “aquela é sua mãe?” “vamos brincar?”. Não, uma língua é uma riqueza e mesmo que não vivamos no Brasil, o Brasil vive na gente por meio dessas pessoas e do que elas dizem.

terceira coisa em que pensei foi bem banal. Imagina que você está passeando na rua com os rebentos, todo mundo feliz. O pequeno vai andando na frente e chega perto da rua. Você vai lembrar de gritar: “attention! arrête!”? Não, minha gente, em situações extremas a gente volta para a nossa língua de origem, por mais fluente que seja em outra. E daí vai gritar “para! cuidado!”. E é melhor que o pimpolho entenda, né?

Assim como não dá para fazer sexo em outra língua, nem falar palavrão quando estamos furiosos, ou contar piada… tem coisas que só dá para comunicar a um filho na nossa língua materna. Algo urgente quando há um risco, um susto. Mas também uma canção de ninar. Ou os sons que os animais fazem. Cachorro aqui não faz au-au, faz ouaf-ouaf… pode? Não, não pode não.

Então, aqui em casa, os pequenos escutam português da mamãe e francês do papai. A pequena fala as duas línguas. Desde o princípio. O português ganhava em vocabulário no começo, ficou um pouco para trás quando ela começou a conviver com outras crianças, voltou a se enriquecer quando passou um tempão de férias com a família. E assim vamos vivendo. E conversando. Eu falo em português com ela, a não ser em conversas compartilhadas com outras pessoas que não falem nossa língua, pois sempre detestei essa coisa de duas pessoas falando uma língua que os outros não compreendem e deixando outros excluídos da conversa. Acho falta de educação e de consideração. Lemos histórias em português. E em francês. O mesmo com as canções. A pequena demorou um tempo para entender que cada coisa tem duas palavras para ela. Mas agora me diz algo e traduz em seguida para o pai, mesmo que ele tenha entendido, o que o deixa bem zangado. De brincadeirinha, claro, ele já se conformou que ela fala melhor o português que ele.

No fim das contas, ela fala português, francês, tudo junto e misturado e alguma coisa no meio disso tudo absolutamente incompreensível. E conjuga os verbos franceses na conjugação do português, como na frase do título. Ele está criando é o irmão gritando (crier, em francês). Mas não é que ela tem razão nas duas línguas?

Sites e blogs sobre bilinguismo:

 

 

Ele está criando, mamãe!

Quando a pimpolha começou a falar, há um bom ano e meio atrás… que deleite! Palavras, uma a uma, conquistadas pelo árduo trabalho cotidiano de buscar se exprimir. Pois, não se enganem, se tem algo que as crianças almejam mais que tudo é poder se comunicar e serem entendidos.

O choro comunica, mas tão precariamente… Com o choro, um bebê pode informar que algo não vai nada bem. Mas ele expressa apenas as linhas gerais do seu mal-estar. Os detalhes e sutilezas… bom, para isso ele precisa aprender a falar.

Um bebê sente frio, fome, sono, tédio, carência, sede, necessidade de carinho, frustração por não conseguir fazer algo, irritação na gengiva… ele chora. Mas como passa disso para “eu quero a saia violeta, mamãe?” Vocês já pararam para pensar no quão sofisticado é poder dizer que quer colocar a saia violeta? Ou que adora a saia violeta?

Para poder falar, uma criança precisa ter toda uma condição e uma maturidade física e neurológica. Mas também precisa ter um desejo e uma necessidade de comunicar sutilezas.

Os choros viram gritinhos e barulhos de alegria ou de prazer. Ensaios de palavras, sons familiares são interpretados pelos adultos como “mamãe”, “papai”, “bebê”. Eventualmente esses esboços se tornam palavras e a princípio, eles fazem milagre com tão pouco vocabulário… uma proeza!

Os bichos são seus sons “au au”, “miau”… Depois tudo vira um nome só. Todos os bichos são “gatinho”, tudo o que voa é passarinho, tudo o que nada é peixe. E a coisa se sofistica ainda mais quando podem haver gatos, cães e cavalos. Galinhas, patos, pássaros e borboletas. Peixes, tubarão e tartaruga. Depois vêm as cores, tudo era vermelho, depois podia ser também violeta, depois juntou-se o rosa, o azul, o verde, o laranja… Pequenas frases, “qué”, “não”, “qué água”, “qué pão”.

A coisa vai num crescendo até que parece que explode e a pequena, de repente, já tem muitas palavras, muitas frases. Em duas línguas. Francês e português que se confundem a princípio, muito mais fácil falar a língua materna no começo dessa falação toda. Mas o convívio com outras crianças torna o francês igualmente importante e as palavras e frases vão surgindo, se acumulando e começam a sair por todos os poros.

Parece que no momento em que a criança entende que pode comunicar algo e que um adulto atento pode ouvi-la e atendê-la ou responder a ela, isso opera uma pequena revolução. Eles querem falar… Finalmente poderão sentir-se incluídos e participantes daqueles infindáveis almoços em família, finalmente poderão dizer algo também ao longo das conversas, finalmente serão ouvidos e as pessoas reagirão ao que dizem… oba! Mas como a coisa não é fácil, a criança vai falando daquilo que já sabe falar. E muitas vezes a tentativa de dizer algo termina em uma impossibilidade frustrante: “mamãe, nho nhé nho nha nhi?” “O que, filha? Do que você está falando?” “Nho nhé nho nha nhi?” “Aqui? O que aqui, filha?” A coisa se complica, ela desiste. Puxa…

Vêm então as perguntas, deliciosa faculdade do querer saber, exercício prazeroso da curiosidade, que deixa mães e pais malucos, mas que é tão importante para os pequenos em plena descoberta do mundo. “Mãe, que é isso?”. A gente responde e os bichinhos parecem um computador superaquecendo de tanto trabalho. “E por que?”

“Olha, apagou, mamãe!” “O que, filha?” “O céu apagou, mamãe! Por quê?” “Ah, ficou escuro, é de noite. O sol se pôs.” “Ele foi onde, mamãe?” “Ele se escondeu agora que ficou de noite, ele volta amanhã”. Essa foi a pergunta maravilhosa feita pela minha pequena há uns dias atrás. Ela tinha acabado de descobrir a noite. E queria saber como funcionava essa luz que apaga deixando tudo escuro. No dia seguinte, no final do dia, ela foi contar ao pai que o sol tinha desligado, que era de noite, que era hora de dormir. E ficou muito feliz em saber que o sol voltava no dia seguinte, na hora de acordar.

Talvez por vício da profissão ou porque sempre fui uma curiosa perguntadeira, as perguntas da minha filha só fazem me encantar. Com ela, com a descoberta dela pensando o mundo em que vive, com essa pessoa sendo cada vez mais pessoa na medida em que se descobre a descobrir, a perguntar. E a afirmar.

Não sei se podemos considerar que um sujeito fala se ele não for capaz de se colocar dentro do seu discurso. Sem que exista alguém que diga “eu quero”, quem é que quer? Pois um passo essencial nessa falação toda é a criança poder dizer “eu” e “você”. E, para chegar nisso, ter efetuado o colossal trabalho de saber-se um “eu”. E de enunciar algo em nome próprio.

Vocês já imaginaram o quanto uma criança já caminhou numa certa consciência de que ela existe quando chega ao ponto de dizer: “tô triste”, “tô brava”, “tô contente”? Aí já não é mais fome, sono, calor, sede… são estados de alma, coisas que muitas vezes nós adultos temos dificuldades em perceber e em expressar.

Ou seja, palavras, frases, por quês e estados de almas ditos pelas crianças deveriam ser comemorados como grandes conquistas que são. E não tomados como encheção de saco, imposição da sua vontade, tirania ou qualquer outra interpretação infeliz que fazemos de nossas crianças no momento em que elas começam a dar provas contundentes de que estão ali, de que pensam, de que sentem e de que existem. E tem gente que se incomoda, se irrita, acha melhor que elas se calem, que parem de perguntar, que parem de falar tanto.

Eu adoro conversar com minha filha de dois anos e meio. Ela tem umas sacadas maravilhosas, como essa do sol da qual falei logo acima. E muitas outras que eu deveria anotar mas não anoto, pois não quero estragar o momento de partilha com uma preocupação em correr atrás de papel, gravar no celular ou o que quer que seja.

Agora, além de dizer que está triste, feliz ou brava, ela deu para perguntar como estamos. Nós, os outros. E, mais do que isso, deu para consolar, apoiar. “Calma, irmão. Não chora, não fica triste. Vai ficar tudo bem. Você quer um abraço?”

Crianças descobrindo o mundo através da palavra. Tão precária e tão maravilhosa palavra. Que permite chegar ao outro. Mesmo capenga. Mesmo com falhas e malentendidos. Palavra que é tão frágil quanto a nossa humanidade. E, por isso mesmo, tão preciosa.

Vou ali comemorar com minha pequena que descobriu que o sol desliga à noite. E volto daqui a pouco porque esse post, nas suas origens, era para falar sobre bilinguismo. Eita palavra que desliza por caminhos tortuosos!

Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.

Ontem e hoje…

… você saiu andando e foi olhar pela janela. Uma menina feita. Suas expressões, seus sorrisos, sua ânsia em comunicar… tudo aponta para a menina que você é, outra que a mamãe, outra que qualquer outro, tornando-se uma pessoa única e surpreendente. Tão novinha e já é gente, minha avó diria. É gente, é gente, é uma boa gente.

… você pega um dos livros do seu pai e senta na beira da cama. Durante muitos minutos, em silêncio, folheia o livro, olhando os desenhos cuidadosamente, como se eles te contassem uma história. Que história te contam que você escuta assim, tão concentrada?

… andar não é mais suficiente. É preciso tentar correr. Mesmo caindo, é preciso tentar correr. Ou ao menos andar depressa. Especialmente quando você pega alguma coisa que a mamãe pede que devolva. Daí é andar rapidinho, segurando firme, até chegar em algum canto sem saída e ficar dando voltas, como se pudesse fazer um helicóptero e levantar vôo.

… aliás, quantos nãos! E quantos olhares sapecas e sorrisos marotos para tentar transformá-los em sins.

… agora levanta do berço, desce, pega os sapatos e vêm andando me procurar. E, por vezes, decide que quer outros sapatos, especialmente os vermelhos. Meninas e seus sapatos vermelhos.

… e os livros? Ah, os livros! Podemos passar uma manhã toda lendo. Um atrás do outro, você busca na estante e senta ao meu lado para lermos a história. A vaca faz mu, o gato faz miau, o pato diz quaquá, a galinha diz cocoricó, o cachorro diz au-au. O leão faz grrrr. E a ovelha faz bá. E noutro dia, quando um mar de ovelhas estava na beira da estrada, você foi ali ver. E ficou ali no meio delas, meio assustada, meio fascinada, as bichinhas chegaram até a lamber sua mão. Imagino o coração batendo acelerado nesse mundo imenso de ovelhas gigantes e você ali no meio, tão pequenina e tão desamparada e tão curiosa e tão corajosa…

… pegou uma boneca e abraçou delicadamente, balançando de um lado para o outro. Falou: nana, neném, nana. E desde então coloca todas as bonecas pra dormir. Até mesmo o curupira que tem as pernas ao contrário, o cabelo cor de fogo e a boca gigante. Até mesmo o curupira nana neném.

… a cada vez que escuta o barulho da porta embaixo no térreo abrindo, pergunta: “papa?”. Papai está trabalhando. Faz tchau com a mão, tchau, papai. Bom trabalho.

… aponta o canguru quando quer passear. E noutro dia pegou um copo de plástico, chegou no meu lado, me cutucou e disse “ága”, mostrando o dito cujo. Mais clara, impossível.

… aprendeu a dizer “aqui”. Da maneira mais doce e sorridente do mundo. Como se o sorriso tivesse o som do aqui. Mas ainda não entendeu para que serve. A palavra, pois o sorriso que se derrete em aqui serve para fazer a vida feliz.

… como o “não”, que anda servindo para quando não quer mais comer como, também, para quando está aguardando a próxima colherada. Ou quando não quer água. Ou quando quer água.

… parece que você decidiu que todas as roupas se vestem pela cabeça. E assim calças, meias e até fios de lã viram cachecóis, todos em torno do pescoço. E os algodões viram algodão doce. Só que com gosto ruim. E o pente vira um excelente mordedor. Como a pasta de dente. E a cabeça da boneca.

… noutro dia teve mais um encontro com um cachorrinho, dessa vez um filhote. Acarinhou, abraçou, deitou na barriga dele. Os animais te cativam. As plantas e as flores também. Basta estar ao ar livre para estar feliz. E sorri quando o vento chacoalha os seus cabelos.

… ainda faz a simpaticona séria e a simpaticona sorridente. Mas não faz mais a sapinha no colo, só quando dorme na cama. E quando dorme, é a paz encarnada.

… escovar os dentes é um dos highlights do dia. Como o banho. De chuveiro. Tipo menina grande. Essa menina que parece gente, e que é uma gente tão boa, tão divertida, tão curiosa e tão amada.

… sua carinha de choro e seu olhar de desespero arrebentam o coração da mamãe. E seu sorriso ilumina uma vida toda.

… aprendeu a mandar beijo, a dar abraço e a fazer tchau. Tudo com um delay de alguns minutos. Assim, os amigos sempre perdem a melhor parte.

… na praia, quis botar os pés na água fria do mar. E estranhou a textura da areia. Pegou conchinhas. E pedrinhas. Tudo serve como presente, que você nos oferece. Ou às crianças do parquinho, que nem sempre percebem o valor da sua oferta e te deixam falando sozinha, perplexa. Mas alguns aceitam teu sorriso e sorriem de volta. E agora que você virou craque em subir nos brinquedos e descer no escorregador, então… quem te segura, cheia de confiança, toda pequena entre os grandes, andando agarrada às grades para chegar no alto dos brinquedos. Do alto de seu ano e dois meses.

Frio na barriga

E lá fomos nós ao parque. E lá se foi você, andando sozinha até os brinquedos. Da última vez que ali estivemos, você precisava se apoiar ou engatinhar. E eis que um ano e um mês apenas depois de nascida você sai do colo assim, andando, toda cheia de sorrisos e alegria de reencontrar seu parque. Olha para trás uma vez e sorri para mim.

Pela primeira vez você sobe no brinquedo que leva ao escorregador. Sobe e desce as rampas, apoiada nas grades laterais, grudada nelas. Cada vez que um pezinho procura um apoio meu coração gela. Tenho medo que você caia, que se machuque. Tenho medo por você. O mais difícil é não me precipitar em te proteger e deixar você descobrir as coisas. O mais estranho é essa ambivalente sensação de orgulho, alegria e tristeza em te ver superando obstáculos. Você é marruda e insiste, vai se agarrando e consegue percorrer o brinquedo todo. Chega no escorregador orgulhosa e me sorri. Te ajudo a escorregar. Você recomeça tudo novamente.

Cada criança que passa você abre um largo sorriso, nariz franzido, carinha aberta e iluminada, sua maneira de dizer olá. Alguns sorriem de volta e você fica nesse jogo dos sorrisos trocados. Outros não te olham, mas você insiste. A maior parte das crianças é mais velha, mas você não se inibe. Se intromete em brincar junto, se aproxima, não tem medo.

Um garoto pequeno vem com uma mamadeira em punho te dar um abraço. Você perde o equilíbrio e os dois caem no chão. Ele levanta e você fica ali deitada, carinha estupefata, não sabe se quer levantar de novo ou ficar por ali mesmo. Não ri, não chora, apenas fica ali deitada na grama. A vida é surpreendente.

Um ano

Um ano é um tempo no tempo. Um tempo curto, um tempo longo. Borboletas não duram nem um ano. Elefantes duram mais de uma centena. O universo nem se importa com um mísero ano. Mas você fez um ano. E um ano é uma vida inteira de alegrias, descobertas e invenções. Têm coisas que não se dizem. Em um ano, a maioria das coisas não há como dizer. Sentimos. Vivemos. Estávamos lá. Estamos aqui.

Poderíamos falar de um ano em um ano de acontecimentos. Daquela noite em que mamou pela primeira vez me olhando nos olhos. Dos momentos de paz e plenitude dormindo no sling. Do primeiro banho de mar com a vovó. Das histórias que o papai lê para você em português com sotaque. Das exposições de arte e dos piqueniques. Dos cuidados da Jurema. E das roupas de astronauta para esquentar no inverno. Do seu sorriso num dia de sol, chapeuzinho na cabeça, corada, na beira do mar. Do dia que engatinhou para frente pela primeira vez, depois de engatinhar de ré um tempão. Do primeiro mamãe, ao acordar, no Brasil. Do discurso que fez no avião, falando na sua língua bebezística, dedinho levantado, metade das pessoas encantadas. De sair no terraço e gritar pra todo mundo ouvir. Das sonecas deliciosas no colo do vovô ou da tatavó. Da titia te inventando apelidos. Das gatinhas que te encantam e que fizeram você falar “cat” (gato com chat) e “lolô”. Da carinha de sapeca sorridente. Da carinha de simpaticona séria. Do chorinho de diva, jogando a cabeça para trás. Você atenta descobrindo algo. A comedora de livros. A ouvidora de histórias. A contadora de histórias. O riso estampado no rosto, a gargalhada. O cheirinho, o beijo estalado. O abraço. Você engatinhando sem tocar os joelhos no chão. Ou com apenas três apoios. As idas ao parque e seu encontro com outras crianças. Sua alegria em descobrir outras crianças. Seu jeito divertido de dançar. Os pés descalços. Seu amor pela música. E pelo “parabéns pra você”. Sua surpresa ao ver formigas. A água que você gosta de beber no copo e que virou “apa”. Mamar fazendo alongamento. Mamar sorrindo. Rir das minhas palhaçadas. As descobertas culinárias. Seu gosto por mangas, bananas, melancia, morangos, cerejas, pêssegos, ameixas, abricots, abacaxis, laranjas… Sua cara lambuzada de iogurte. Seu amor bem francês por tudo quanto é queijo. E pelos pães. E por tomates, pimentões, peixe e espinafre. Os dentes coçando na boca. As gavetas abertas com tudo esparramado pelo chão. O dia em que você aprendeu a guardar, tirar e por. O dia em que aprendeu a apontar. Comer uma flor. Descobrir as folhas secas no chão. O vento batendo nos seus cabelos e você tranquila dormindo. Não. Um ano de acontecimentos não são tradução suficiente deste tempo.

Você pegou uma sacola de presente e saiu andando sozinha sem apoio nenhum pela primeira vez na sua festa de um ano. Festa em que estávamos todos presentes, ali. Sua família, os amigos-irmãos, os filhos dos amigos que, espero, amigos serão também. A Cecília e você batendo papo de bebê. Como sempre. A Bebel que te adora. O Davi, seu primeiro amor. A Luíza, miudinha, pequenina e olhando tudo bem atenta. O Marquinhos correndo para todo lado, montando e desmontando a festa, fazendo banda e brincando com os mais velhos. Você andando apoiada numa bicicletinha do seu primo, que te ajudou a abrir todos os presentes. Atenta, sorridente, séria, simpática. Feliz. Teve festa e festejamos. Festejamos esse seu tempo. Festejamos essa eternidade de um ano. O melhor tempo.

Te amo, minha filha. Parabéns!

Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.