Frio na barriga

E lá fomos nós ao parque. E lá se foi você, andando sozinha até os brinquedos. Da última vez que ali estivemos, você precisava se apoiar ou engatinhar. E eis que um ano e um mês apenas depois de nascida você sai do colo assim, andando, toda cheia de sorrisos e alegria de reencontrar seu parque. Olha para trás uma vez e sorri para mim.

Pela primeira vez você sobe no brinquedo que leva ao escorregador. Sobe e desce as rampas, apoiada nas grades laterais, grudada nelas. Cada vez que um pezinho procura um apoio meu coração gela. Tenho medo que você caia, que se machuque. Tenho medo por você. O mais difícil é não me precipitar em te proteger e deixar você descobrir as coisas. O mais estranho é essa ambivalente sensação de orgulho, alegria e tristeza em te ver superando obstáculos. Você é marruda e insiste, vai se agarrando e consegue percorrer o brinquedo todo. Chega no escorregador orgulhosa e me sorri. Te ajudo a escorregar. Você recomeça tudo novamente.

Cada criança que passa você abre um largo sorriso, nariz franzido, carinha aberta e iluminada, sua maneira de dizer olá. Alguns sorriem de volta e você fica nesse jogo dos sorrisos trocados. Outros não te olham, mas você insiste. A maior parte das crianças é mais velha, mas você não se inibe. Se intromete em brincar junto, se aproxima, não tem medo.

Um garoto pequeno vem com uma mamadeira em punho te dar um abraço. Você perde o equilíbrio e os dois caem no chão. Ele levanta e você fica ali deitada, carinha estupefata, não sabe se quer levantar de novo ou ficar por ali mesmo. Não ri, não chora, apenas fica ali deitada na grama. A vida é surpreendente.

Um ano

Um ano é um tempo no tempo. Um tempo curto, um tempo longo. Borboletas não duram nem um ano. Elefantes duram mais de uma centena. O universo nem se importa com um mísero ano. Mas você fez um ano. E um ano é uma vida inteira de alegrias, descobertas e invenções. Têm coisas que não se dizem. Em um ano, a maioria das coisas não há como dizer. Sentimos. Vivemos. Estávamos lá. Estamos aqui.

Poderíamos falar de um ano em um ano de acontecimentos. Daquela noite em que mamou pela primeira vez me olhando nos olhos. Dos momentos de paz e plenitude dormindo no sling. Do primeiro banho de mar com a vovó. Das histórias que o papai lê para você em português com sotaque. Das exposições de arte e dos piqueniques. Dos cuidados da Jurema. E das roupas de astronauta para esquentar no inverno. Do seu sorriso num dia de sol, chapeuzinho na cabeça, corada, na beira do mar. Do dia que engatinhou para frente pela primeira vez, depois de engatinhar de ré um tempão. Do primeiro mamãe, ao acordar, no Brasil. Do discurso que fez no avião, falando na sua língua bebezística, dedinho levantado, metade das pessoas encantadas. De sair no terraço e gritar pra todo mundo ouvir. Das sonecas deliciosas no colo do vovô ou da tatavó. Da titia te inventando apelidos. Das gatinhas que te encantam e que fizeram você falar “cat” (gato com chat) e “lolô”. Da carinha de sapeca sorridente. Da carinha de simpaticona séria. Do chorinho de diva, jogando a cabeça para trás. Você atenta descobrindo algo. A comedora de livros. A ouvidora de histórias. A contadora de histórias. O riso estampado no rosto, a gargalhada. O cheirinho, o beijo estalado. O abraço. Você engatinhando sem tocar os joelhos no chão. Ou com apenas três apoios. As idas ao parque e seu encontro com outras crianças. Sua alegria em descobrir outras crianças. Seu jeito divertido de dançar. Os pés descalços. Seu amor pela música. E pelo “parabéns pra você”. Sua surpresa ao ver formigas. A água que você gosta de beber no copo e que virou “apa”. Mamar fazendo alongamento. Mamar sorrindo. Rir das minhas palhaçadas. As descobertas culinárias. Seu gosto por mangas, bananas, melancia, morangos, cerejas, pêssegos, ameixas, abricots, abacaxis, laranjas… Sua cara lambuzada de iogurte. Seu amor bem francês por tudo quanto é queijo. E pelos pães. E por tomates, pimentões, peixe e espinafre. Os dentes coçando na boca. As gavetas abertas com tudo esparramado pelo chão. O dia em que você aprendeu a guardar, tirar e por. O dia em que aprendeu a apontar. Comer uma flor. Descobrir as folhas secas no chão. O vento batendo nos seus cabelos e você tranquila dormindo. Não. Um ano de acontecimentos não são tradução suficiente deste tempo.

Você pegou uma sacola de presente e saiu andando sozinha sem apoio nenhum pela primeira vez na sua festa de um ano. Festa em que estávamos todos presentes, ali. Sua família, os amigos-irmãos, os filhos dos amigos que, espero, amigos serão também. A Cecília e você batendo papo de bebê. Como sempre. A Bebel que te adora. O Davi, seu primeiro amor. A Luíza, miudinha, pequenina e olhando tudo bem atenta. O Marquinhos correndo para todo lado, montando e desmontando a festa, fazendo banda e brincando com os mais velhos. Você andando apoiada numa bicicletinha do seu primo, que te ajudou a abrir todos os presentes. Atenta, sorridente, séria, simpática. Feliz. Teve festa e festejamos. Festejamos esse seu tempo. Festejamos essa eternidade de um ano. O melhor tempo.

Te amo, minha filha. Parabéns!

Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.

Mais por aqui do que por lá.

Esta semana, você completou oficialmente mais tempo fora do que dentro da barriga. E quando te vejo toda serelepe explorando a casa inteira com um sorriso no rosto e mil sons na boca, só consigo me abismar e pensar: “nossa!” As pessoas costumam dizer que passa muito rápido, mas tenho a impressão de que passa em um tempo bem paradoxal: rápido, pois cada dia é uma revolução de descobertas e mudanças, e devagar, pois esse começo de vida é um tempo sem tempo, ao sabor da maré das mamadas, das sonecas, das brincadeiras, dos movimentos que desconsideram relógio ou agenda. O tempo da maternidade é um tempo ditado por necessidades e ritmos dessa bebê. E isso é tão fascinante quanto difícil.

Não teria como escolher um momento favorito. A cada dia, há pelo menos um momento sublime, daqueles em que o tempo para e você se percebe totalmente presente no presente, ali, vivendo algo incrível com essa pessoa inacreditável que está ali na sua frente. E nesse momento você mal pode acreditar na sorte que tem. Poder ter uma filha, que privilégio.

Mas existem também momentos ruins, quando a paciência se esgota, o cansaço fala mais alto e a vontade é de gritar, explodir, sair correndo… Quase sempre são coisas tão banais os estopins desse esgotamento. E, quase sempre, pouco têm a ver realmente com a pequena ali na sua frente. São as consequências das suas escolhas, suas dificuldades e limites jogados ali na sua cara, como se a vida te perguntasse: “e aí, vai encarar?”. Intensa convivência e amor imenso têm esse corolário: a gente sempre tende a descontar no outro aquilo que não cabe a ninguém além de nós mesmos. E, com um bebê que precisa, que demanda, que depende, o aprendizado é cotidiano para não pesar sobre ele tudo aquilo que não lhe cabe.

As pessoas também dizem que o começo é o mais difícil. Não sei se concordo. O começo tem as dificuldades do começo: a novidade, o desconhecimento, a reviravolta na vida. Mas, pouco a pouco, o bebezinho do começo ali quietinho deitado no berço, comendo, dormindo e fazendo cocô e xixi torna-se mais e mais um bebê acordado, curioso, atento, explorador. Começa a querer se mexer, começa a querer se virar, a levantar o pescoço, a olhar o mundo. Quer pegar, quer saber que gosto tem, quer ir até lá, quer engatinhar, ficar em pé, andar, comer… As dificuldades residem em que cada conquista é um recomeço: quando você começa a se entender com aquela pessoinha ali, ela muda e você tem que se reinventar de novo como mãe.

Mãe de recém-nascido não é a mesma mãe de uma bebê de nove meses. Mãe de bebê de nove meses tem que fazer comidinha, pensar no que vai cozinhar, virar chef de cozinha e tirar receitas da memória, das amigas, dos blogs e de onde mais puder… Tem que ligar o radar para possíveis perigos em cada lugar que vai, tampar tomadas, esconder fios, sumir com objetos pequenos… Tem que pensar em roupas confortáveis que permitam à pequena explorar esse mundo todo sem se enroscar nas próprias pernas nem escorregar nas próprias meias… Tem que aguentar a angústia de saber que existem tombos, existem topadas, existem arranhões em cada móvel, em cada degrau, em cada quina e que, mesmo assim, é preciso deixar andar… Tem que antecipar portas e gavetas que fecham sobre dedos e roladas de sofás mesmo com adultos por perto… Tem que acreditar que tudo o que vai ser temperado pelo chão antes de ir parar na boca entra como conhecimento em um corpinho protegido por litros e mais litros de anticorpos de leite materno.

Acho que mãe sente mesmo na carne esse tal dilema entre querer proteger e querer que seu filho descubra a vida. E que a vida descubra seu filho de maneira generosa e feliz. Porque a cada passo dá uma sensação doída de que mais uma conquista traz consigo mais um monte de riscos. E que você não vai poder proteger essa criança de tudo. Droga.

Mas, olha só, dá também um orgulho danado. Uma alegria verdadeira que explode em lágrimas quando cada conquista aparece. O sorriso no seu rosto quando consegue se equilibrar em pé sem apoio por cinco segundos traduz toda a sua satisfação. E eu não tenho como não transbordar de amor e de ternura.

Penso em tudo o que já caminhamos em apenas nove meses. Penso nessa construção cotidiana de uma mãe e de uma filha que, além de ser filha, se constrói como pessoa, como criança, como bebê. Quantos feitos, minha filha! Espero estar sendo um aconchego para você. Um porto seguro e uma fonte de alegria e de carinho. Esse é o meu trabalho cotidiano, que batalho a cada momento com o mesmo esforço com o qual você batalha seus primeiros passos e suas primeiras palavras.

Ter uma filha dá uma vontade imensa de ser alguém melhor.

 

Ontem e hoje…

… você acordou falando “mamain”. Sim, um “mamain” repetido e treinado durante minutos seguidos, há quase um mês atrás e que quase parou meu coração. Então ontem você achou por bem falar “daidai” também. Para o papai não ficar tão chateado. Mamãe tem um mês de prerrogativa sobre o papai. E uma língua inteira, porque essas palavrinhas estão banhadas na malemolência do português, viva!

… agora que engatinha, achou por bem também ficar em pé. Que é para nem dar tempo da gente se acostumar com essa filha que virou outra e ela já vira outra de novo. Engatinhando sobre três apoios você corre o mundo, o apartamento, o restaurante e tudo o mais que se apresentar. Em pé vai mais cabreira, olhando ao redor e investigando coisas.

… e como investiga! Curiosa, nenhum livro passa desapercebido. Faminta de histórias, devora ainda uns nacos dos seus prediletos, que é para ninguém dizer que não tem fome de intelectual.

… seu rosto são milhares de expressões e de sorrisos. Meu favorito é aquele de boca aberta, sorriso de rosto inteiro, mostrando os dentes e se aproximando do meu rosto para aquele beijinho de ventosa na bochecha. Ou no nariz, se me pegar desprevenida.

… já faz a francesa, resmungando enquanto brinca. Enquanto engatinha. Enquanto come. Enquanto mama. Resmungando ou contando uma interminável história, fica a dúvida. História para o peito, para os livros, para os brinquedos, para o chão, para a comida. E por vezes, bufa, como bufa! Bufa com carinha blasée, no melhor estilo “vocês são nuls“. Temo a adolescência.

… decidiu que a vida é muito curta para ficar parada enquanto troca de fraldas. Ou de roupa. Socorro! E que nenhuma tomada e nenhum fio são impedimentos o suficiente para suas explorações. Não, que palavra é essa mesmo?

… mamando, troca olhares cheio de vida. E quando dorme, tem a expressão mais tranquila deste mundo. Faz as caras mais engraçadas quando fica surpresa ou perplexa. Tem uma expressão bonachona quando está concentrada. Ruge como uma leoazinha quando tem um objetivo. Vive uma aventura a cada refeição. E gargalha com tanta verdade que me faz gargalhar junto. Chorando. O coração doído de tanta emoção.

Não sei se os filhos deixam as mães bobas. Ou se revelam beleza em coisas tão simples.

Ela gosta de música.

Mais ainda, gosta que cantem para ela. De preferência bem alto, com sons demorados e repetitivos como mantras. Gosta tanto que abre um sorriso imenso de dois dentes na boca. E coloca as mãos no rosto de quem canta. Chega o rosto meio vesguinha, sorrindo com os dois dentinhos e mergulha naquele som, naquela voz, naquela boca. Ela quer engolir a música! Menina que tudo o que ama tenta conhecer pela boca achou que era uma boa idéia degustar a canção. E ela tenta e ri e tenta e ri e tenta e ri, sempre surpresa com esse som tão saboroso que ela não consegue pegar. Menina linda entendeu tudo. Música é coisa que alimenta.

E sai sacolejando o esqueleto que bambeia mas para em pé. E cantando mil sons novos que sempre misturam espanto e alegria.

Ontem e hoje…

… você engatinhou. Não assim como uma chuva em um dia ensolarado. Você vinha se preparando, levantava-se sobre os braços, apoiava-se sobre os joelhos e as mãos, testava uma rebolada, tirava os joelhos do chão e… ia de ré. De ré escorregava no chão liso, resmungando que se afastava daquilo que queria alcançar, como se estivesse constantemente em um mar cujas ondas te levassem para longe. Brava, acabou dando um jeito tortuoso de chegar de ré onde queria. Isso quando não se enroscava em pernas de cadeiras ou em outras coisas pelo caminho. Ficou até mais silenciosa por semanas, tão concentrada estava nesse exercício cotidiano. Descobriu movimentos, subiu nas pontas dos pés apoiada pelas mãos com tanta maestria que pensei que sairia em cambalhotas pelo mundo. Minha ginasta concentrada, já te vi Diane dos Santos.

… entre brinquedos a serem descobertos e exercícios, a caminhada de ré foi se aperfeiçoando até tornar-se um caminho complexo de chegar a algum lugar. Foi quando você, atingindo a maestria, decidiu que era tempo de ir também para a frente.

Não sei como foi que descobriu o segredo da coisa, mas lá estava sobre o tapete, noutro dia, sobre mãos, pés e joelhos e, desse jeito levou os braços para a frente. Seguiram-se as pernas, meio hesitantes, cambaleando como se estivesse com a vertigem de quem descobre algo extraordinário. E foi. Sem se jogar, sem se arremessar, sem dar barrigada no chão, sem deslizar, sem cair para os lados. Seu pai chegou, sentou um pouco distante e eu perguntei se você não queria ir lá dar um abraço nele. Você foi.

Minha menininha deu um passo em direção ao mundo. Com toda a autonomia. Ousada. Segura. Sorrindo e dando gritinhos de celebração.

Depois disso, tem achado boa a idéia de levar seus brinquedos favoritos consigo a cada balada pela sala, pelos quartos, pelo corredor. Não basta engatinhar, ainda dá carona, com direito a paradas pelo caminho para um merecido descanso. Olhares e sorrisos para quem estiver por perto. E muita concentração na maior parte do caminho. Fora os gritinhos.

Há tantos novos sons, expressões, caretas, carinhas, carinhos e chamegos nessa menina que engatinha… Fico aqui admirada que em seis meses se possa conquistar tantos gestos, tantas experiências, tantos gostos, tantas descobertas. Meus olhos transbordam o que meu coração nem consegue abarcar.

Os três patetas vão ao restaurante

Sabe aquelas idéias que a gente tem de vez em quando e que a gente sabe que são péssimas mas, mesmo assim, a gente encasqueta que vai dar certo e coloca em prática? Pois é. Ontem foi o momento de uma dessas epifanias, em que essa que vos fala concluiu que seria uma idéia genial sair para jantar com o cara-metade e a pequerrucha.

Vocês podem perguntar: qual é o problema?

Tenho uma conhecida que me disse, logo que a bebê nasceu, para aproveitar e sair muito no começo, que eles só dormem mesmo, porque depois teria que esperar uns bons anos para botar a cara em um restaurante novamente. Sábias palavras.

Que escolhi ignorar.

E lá fui toda pimpona, de preto sobre preto sobre preto, no melhor estilo francesa esbelta (ah, o preto, como ele nos ajuda nesse efeito trompe l’oeil, seu lindo!), cabelos ao vento, tipo mãe celebridade, cara-metade do lado, bonitão, com a pequena no canguru, toda colorida, olhos bem abertos, apreciando o passeio. Maravilha de comercial de margarina.

Então entramos no restau, somos acomodados em uma mesa simpática, olhamos ao redor com gostinho de quem está adorando sair de casa, ele pede um apéro, eu fico na água mesmo. Pedimos os pratos que parecem deliciosos, o garçon simpático nos convence que é uma boa comer uma entrada antes. E lá vamos nós, família feliz, rumo a um jantar comme il faut, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.

L-E-D-O E-N-G-A-N-O.

Uma coisa que aprendi é que devemos respeitar os horários, ritmos e limites dos nossos bebês. A primeira infância passa muito rápido e ninguém morre de passar um tempo sem fazer baladas infinitas pelo mundo afora. Porque, simplesmente, bebês cansam, sentem sono, sentem fome, ficam inquietos e esgotados dos estímulos do dia. E isso tudo ocorre especialmente à noite. Saímos pouquíssimas vezes com a pequena de noite até agora e, quando isso ocorreu, por conta de pequenas viagens e coisa que o valha, tudo correu muito bem, ela dormindo no sling, tranquilona, como se não houvesse amanhã.

Isso até ontem à noite. Quando ela decidiu simular uma mistura explosiva entre “Alien, o oitavo passageiro” e “O Exorcista”.

Sério.

O caldo começou a entornar logo depois da entrada. Animadona com toda aquela gente, aquele burburinho, aquelas cores, aqueles cheiros, a pequena ficou dividida entre olhar para todos os lados, tentar chamar a atenção da mesa vizinha (putos, como é que nem deram atenção para uma fofura dessas?) e resmungar que estava cansada. Até que deu uma regurgitadinha. Coisa pouca, pegou num canto da sua blusa e a mãe francesa esbelta de pretinho básico posando de celebridade discretamente limpou tudo com a perícia de um escultor polindo sua criação. Partimos para a estratégia infalível: a mamada que alimenta, relaxa, faz feliz e faz dormir gostoso no restaurante, no carro, no museu, onde quer que seja. Ainda mais que já era hora do soninho. Pensei: moleza! A gatinha mama e dorme antes do prato principal chegar. SO DAMN WRONG…

Então a pequena descobre que a parede é avermelhada e rugosa e… Wow! Que demais! Yupiiiii! E dá-lhe peitola esguichando leite pelo mundo afora. Putz!

Pronto, calma, ninguém viu, vamos em frente, ela vai mamar. Só que não porque tem a parede, os vizinhos da mesa ao lado, a iluminação do bar… Eu coloco ela sentada e de repente estou com o alien nos meus braços se jogando para todo lado e por que diabos os malditos vizinhos não falam com ela e fazem careta e distraem ela um pouco, minha gente?! Então ela lembra dos meus cabelos ao vento (ela adora cabelos ao vento) e gruda neles com aquele amor que só ela tem, catando um chumaço de cada lado com vontade, que é para mostrar que está perita mesmo nesse negócio de agarrar e puxar. E puxa, puxa, puxa toda a juba para a frente do meu rosto e enfia todo o chumação dentro da boca toda, aquela boca linda sorridente desdentada que eu amo e que engole toda minha cabeleira de starlet francesa esbelta e blasé ali no restaurante. E com muito custo eu consigo negociar a liberação dos cabelos reféns e ela, de boca vazia, começa de novo a resmungar porque está cansada, com fome, cheia de interesses e tudo isso já é mega over quando chega o prato principal, o cara-metade todo lindo cortando o magret de canard para minha pessoa, que com uma mão como tentando equilibrar magret, molho, acompanhamento em uma garfada torta dessa já não tão elegante à la francesa de pretinho básico, descabelada com chumaços babados inclinada para um lado tentando achar o caminho do garfo à boca enquanto equilibra a pequena alien divertida e resmungona no outro braço com ela exercitando todos os seus movimentos recém aprendidos para tentar chamar a atenção dos malditos cretinos vizinhos de mesa que não param de conversar um segundo sequer seus desalmados que não devem ter filhos e nem devem saber como é importante sair para jantar uma vez depois de tanto tempo e nem se solidarizam com a causa, bof, bof, bof, odeio todo mundo, a humanidade é fria e egoísta quando… Gente, ela vomita. Mas não aquela regurgitadinha discreta, aquela regurgitadinha fina, tipo arrotinho que a rainha da Inglaterra deve dar nos jantares oficiais segurando o guardanapo no canto da boca. Não. Ela vira a menina do “Exorcista”. Não vira o olho, nem gira a cabeça 360°C, calma, minha gente. Mas manda aquela famosa “gorfada em jato” que…

O mundo para. Em câmera lenta essa que vos fala tenta descobrir na velocidade de um raio onde foi parar o jato de leite vencido. Antes que alguém descubra. Olho por todos os lados, não sem antes tentar alcançar o guardanapo que a pequena habilmente tinha jogado no chão e ali está… na minha calça. Sim, na minha calça preta modelito ótimo que faz de conta que estou esbelta e fina e elegante à perfeição. Ali, naquela calça jaz uma poça de leite. Poça, eu juro.

O cara-metade pega a pequena enquanto eu tento enxugar a poça antes que a calça absorva tudo, numa corrida para ver quem é mais rápido e mais esperto, ela ou eu. A bebezinha resmungona senta no colo do pai ainda resmungando, meio indignada com aquilo tudo e ele dá a ela uma folha de alface.

Hahaha, minha gente! Porque tinha esquecido de falar, têm os dentinhos nascendo agora e qualquer um vira o demônio da Tasmânia com dentes nascendo e coçando e toda essa irritação e resmungação devia-se em boa parte a isso também. Que, claro, a patetona aqui não achou que fosse influenciar tanto na hora em que decidiu fazer saída noturna com jantar descolado com direito à entrada, prato principal e sobremesa. E, sim, acabamos de começar a diversificação alimentar e fazemos tudo bonitinho, os legumes orgânicos cozidos no vapor, temperados com ervas e um pingo de azeite, aquela descoberta cotidiana, sabores, cores, texturas, tudo um sonho sem fim até que alguém teve a bendita idéia de ir jantar fora e, no meio do caos, ofereceu uma azeitona para ela roer (what? sim, azeitona) seguida de perto em sua insanidade pelo cara-metade que não contente em oferecer uma folha de alface que não obteve muito sucesso, saiu-se com um bem sucedido pedaço de pão. Sim, meus queridos, um pedaço de pão. Pão bom, que aqui na França tem pão ótimo mas… pão. Putz!

A pequena aquietou com o pão antes do cara-metade ter um momento de lucidez e concluir que era melhor irmos embora, pois não seria nada prudente mandar uma baguette na mão da menina e entregar para Deus enquanto pedíssemos a sobremesa. Conclusão: nada de provar o tal creme de chocolate branco com maracujá…

Voltamos andando para casa, a pequena sossegada no colo do pai, eu meditando sobre quem teve a idéia de Jerico de sair para jantar à noite fazendo a diva da nouvelle vague apenas para retornar com o rabinho entre as pernas, os cabelos em tufos babados e a calça vomitada, sem nem um consolo de açúcar para a situação. Chegando em casa, a pequena se agita. É hora de trocar de fralda, de roupa, mamar e dormir. Eu corro para trocar de calça. O cara-metade me pergunta se era tão urgente trocar de calça (vomitada… oi?) que eu não podia dar de mamar logo. Isso vindo de quem falava fazendo cócegas na barriga da pequena. Pois é, a maternidade e a paternidade tem seus momentos surrealistas.

Não sei se porque no meu prato tinha uma redução de cerveja ou se porque a noitada foi toda montada num cenário cômico delirante, aquela cena ali me deu um acesso de riso incontrolável. E lá fui trocar a pequena e amamentar sem conseguir parar de gargalhar. Somos absurdos. Somos ridículos. Isso tudo é divertido demais.

Claro que foi menos engraçado hoje pela manhã, quando tive que sair e constatei que minhas opções de vestimenta eram: uma calça molhada recém lavada, duas calças de antes da gravidez que haviam rasgado, uma calça de grávida gigante. Ou a calça vomitada. Putz!

Há seis meses atrás…

… eu não tinha como saber que a maternidade é assim: uma compilação de alegrias inomináveis e de medos aterradores. Seis meses de uma revolução permanente, em que cada dia traz o desafio de estar ali, presente, viva e capaz de viver, contigo, toda a surpresa que um mero dia pode conter. Seis meses de introspecção e de trabalho constante para estar disponível. Aquela força descomunal que fazemos para dilatar o colo do útero e para o bebê sair é mais ou menos a mesma força de abertura que temos que fazer todo dia, para deixá-lo existir, ser, descobrir, manifestar-se. E para ser companhia e porto seguro nesse cotidiano de descobertas.

Há seis meses atrás, eu não sabia o que poderia ser o amor, esse amor que transborda com um olhar, um sorriso banguela, um som perto de dizer mamãe, uma expressão de tranquilidade durante o sono… Esse amor que não é dado, nem óbvio, mas que se constrói nessa convivência tão íntima com tal força que não conseguimos mais lembrar de como era quando ele não existia.

Sua existência traçou uma linha divisória na minha vida, dando a tudo o que era antes o nome de passado e me mergulhando em um presente cheio de gestos, onde tudo ganhou ares de simplicidade. Como é difícil viver simples e verdadeiramente, encarnada no próprio corpo e nos acontecimentos de cada dia! Como é difícil apenas estar ali!

Seis meses de amamentação exclusiva, uma vitória para nós duas, uma vitória desse contato, dessa intimidade, desse olho no olho, desse conhecer-se mútuo que se fazem no silêncio pele-a-pele. Vitória desse tempo que corre pastoso como lava, do desconhecimento em que se tem que apostar. E confiar. Vitória de um saber visceral sobre os saberes e os poderes de outros, que nada tinham a ver com isso. Confiar em mim e em você.

Há seis meses atrás eu não sabia que a maternidade não é algo dado, nem evidente. Não sabia que podemos seguir os estereótipos e nos deixarmos levar ou tomar as rédeas da própria vida também nesse ponto e pensar com cuidado em cada decisão. Mas a sua existência me encheu de uma tal responsabilidade que não teria como seguir o vai-da-valsa como gado. E cada decisão cotidiana tornou-se uma reflexão, busca de informações e, principalmente, um combate contra os outros que prefeririam ter a facilidade de não ter que se colocar em questão. E contra eu mesma, minha preguiça, a vontade de deixar tudo quieto e não enfrentar nenhum demônio. Porque lutar, dá tanto trabalho… Mas te olhando todos os dias nos olhos e vendo o quanto você precisa e conta comigo, não pude me furtar a todas as questões, todas as tomadas de decisão, todas as apostas.

Quiseram te deixar em um berço no seu quarto desde o primeiro dia e eu tive que dizer não.

Quiseram te deixar chorar para você aprender a dormir sozinha e eu tive que dizer não.

Quiseram te dar mamadeira antes mesmo que tivéssemos a oportunidade de aprender a amamentar e a mamar. Eu tive que dizer não.

Quiseram que você vivesse em um ambiente cheio de gritos, desrespeito e hostilidade e eu tive que dizer não.

Quiseram que você não fosse prioridade. Eu disse não.

Com isso nos afastamos de muita gente. E eu enfrentei várias batalhas, muitas vezes sozinha, apoiada pelas informações que tinha, pelo meu julgamento, por minha aposta e por umas poucas pessoas, bem poucas, que estavam em sua maioria longe. Mas perto, ainda bem que elas estavam por aí, ligadas, capazes de ouvir e de falar, disponíveis. E isso trouxe muitas idas e vindas, muitas viagens, muitas decisões. E muitas mudanças. E, não, não foi um sacrifício que fiz por você, pois não acredito nisso, em carregar um fardo por você, minha pequena. Nem acredito em sacrifício. Acredito em lutar por si mesma e em lutar por alguém que precisa que lutemos por ela. Acredito ter descoberto que a maternidade também é isso, essa disposição em lutar, em virar bicho, em mostrar os dentes e em proteger a cria de tudo e de todos que representem uma ameaça. Até conseguir um lugar seguro e poder pousar. E jamais será sua a responsabilidade pelo que decidi e fiz. São minhas as decisões e minha a responsabilidade. Você terá as suas apenas no momento em que puder tê-las, nada vai te cair nos ombros antes disso. Maternidade também implica em não despejar em cima de um bebê as escolhas e os atos de uma mãe. O que eu faço por você, eu faço por mim também e por minha livre e espontânea vontade. Enquanto isso, sua responsabilidade é a de descobrir o mundo, olhar tudo com olhos curiosos, lamber o gosto do mundo e da existência. E tentar entender como seus pés e pernas funcionam para ver se consegue finalmente coordená-los com seus braços e seus quadris e, quem sabe, sair engatinhando por aí, em busca dessas coisas todas que te interessam tanto.

Há seis meses atrás eu não sabia de tantas escolhas, do medo de errar, da preocupação em fazer o melhor, dos temores que acompanham esse amor tão imenso: medo que você sofra, medo que adoeça, medo de te perder, medo que te façam mal… Medo dos perigos e das dores do mundo. Depois de mãe, pela primeira vez olhei para um garoto pedindo dinheiro no farol e chorei da dor de pensar em como seria se fosse minha filha ali e em como meu coração ficaria em pedaços se ela passasse por uma situação dessa. Não há como ser mãe e não se inquietar pela humanidade inteira, sabendo que seu filho vive nesse mundo e que, para que ele possa ser bem recebido, o mundo precisa estar tão bem cuidado quanto você cuida dele, do seu pequeno. Minha urgência por um mundo generoso e por pessoas mais éticas cresceu imensamente depois do seu nascimento.

Não sabia que ser mãe é uma das coisas mais democráticas que existe: ela te coloca, como mãe e mulher, em pé de igualdade com qualquer outra mãe. Vocês partilham uma experiência do parto, da amamentação, de cada gesto e de cada conquista do filho. Mesmo tendo vivido experiências diferentes quanto a cada uma dessas coisas. E mesmo que cada mãe tenha ideais e valores diferentes. Existe algo visceral que nos une e que permite uma conversa, uma proximidade, um encontro. Compaixão e cuidado com o outro: esses foram os gestos mais tocantes que descobri entre mães.

Não, nem tudo são flores. Tem cansaço, tem saco cheio, tem um sentimento de ser arrancada de si mesma e de perder as rédeas da própria vida, tem uma sensação de impotência, tem o desconhecimento do futuro, tem o não saber o que fazer, tem projetos que explodem, tem a vida fora do Brasil, tem solidão e incompreensão… Tem tudo isso. E tem muitas mudanças, muitas apostas e a construção de algo que nem sabemos ainda o que é. Mas, como poderia ser diferente? A vida mudou totalmente com a sua chegada e isso é bom. De verdade. E o que é bom não é viver em um comercial de margarina. O que é bom é justamente esse desconhecido diário que traz surpresas e obrigada a trabalhar, a pensar, a decidir. Ser mãe me obriga a estar viva e a viver. Bem.

Seis meses depois, minha filha, o que posso te dizer é que sinto um orgulho imenso em poder te acompanhar nessa vida e uma alegria igualmente imensa em que você exista. Você me colocou vários desafios e várias questões pelo simples fato de ter nascido. E isso me torna uma pessoa melhor. Não apenas para mim mesma mas, espero, para o mundo e, principalmente, para você. Onde vai dar nossa jornada eu não faço idéia. Mas tem sido um privilégio esses intensos seis meses juntas.

Ontem e hoje você…

… tornou-se uma expert da virada de bruços, libera os braços e se ergue sobre eles como se fosse óbvio. Só não sabe ainda o que fazer com a buzanfa e as pernas para ir a algum lugar. Mas conseguiu dar marcha ré umas duas ou três vezes. E tornou-se uma exímia apanhadora de pacotes de algodão fora do alcance. E de mordedores que são empurrados pelos pés até chegar às mãos. Gênio! Com o corpo inteiro ajudando fica bem mais fácil.

… seus sorrisos lindos têm se tornado gargalhadas. E a expressão mais doce e terna que já vi, quando você sorri com o rosto um pouco inclinado e um olhar de amor, tentando tocar o meu rosto. O coração da mamãe transborda, o tempo para. A felicidade toda é traduzida nesse seu sorriso, nessa sua expressão e nesse seu gesto.

… tudo vai na boca babenta, sem discriminação: mãos, pés, roupas, cabelos dos outros, um queixo que esteja passando por ali, ou até mesmo uma bochecha. Os dedos dos outros servem para coçar gengivas irritadas. E você solta gritinhos e gritões, empolgada com a novidade.

… em tempo, como fala! São mais e mais sons diferentes a cada dia, de todos os tons, em todas as alturas, uns resmungões, outros delicados, uns protestando, outros contando histórias. Qual será a primeira palavra que vai dizer? E em qual língua? Eu, boba de cá, escuto sempre uns mamãe e neném… mas deve ser meu ouvido que alucina meu desejo.

… já é cheia de marra com seus quereres. Diz bem o que quer e sabe empurrar braços, mãos e rostos que te aporrinham quando prefere concentrar-se noutra coisa. Brinca entretida com brinquedos que descobre. Passa um tempo olhando, estudando, experimentando vistas, paisagens, luzes, gostos, sons, sensações com todo cuidado. Adora bater papo pela manhã, logo que acorda sorridente. Detesta que te atrapalhem enquanto mama. A hora do banho e as trocas de fralda são puro deleite…

… olha as palavras escritas como quem lê hieróglifos. Por vezes, olha no vazio, mirando ao longe e para dentro. O que será que pensa?

… e aquela dancinha que fazemos contigo sentada na minha barriga, hein? Equilíbrio, gingado, corpo que vai para todos os lados e você sorrindo expectativa, divertindo-se com cada movimento. Basta eu começar a cantar o tututuru-tututuru-tututuru-tututuru que as bochechas vão longe empurradas pela boca larga e banguela que diz tanta felicidade.

… te olhando tão linda, tão comprida, esperta, curiosa, atenta, sorridente e tranquila, sinto como se sempre tivesse sido assim. A bebezinha pequena das fotos é a bebê grande que está no meu colo. Que vontade de viver nesse tempo de hoje por muito tempo!