Amamentação: 8 meses and counting…

Eis que passaram os seis meses de amamentação exclusiva. Eis que começou a diversificação alimentar. E então eu li por esses dias três coisas que me fizeram pensar que estava na hora de desentalar esse texto aqui e mais uns outros bem desaforados que, espero, virão em seguida.

Comecemos pelo pior, que foi uma discussão em um grupo privativo da Leche League sobre uma mulher aqui na França que ouviu de sua advogada que, caso ela não pare de amamentar seu filho de três anos até a próxima audiência, a guarda da criança será atribuída ao pai. Sim, você não leu errado, uma mãe é ameaçada de perder a guarda do filho porque ainda o amamenta aos três anos de idade e isso, aqui na França, é considerado como algo absurdo, uma espécie de manipulação da mãe, que visa apenas manter a dependência da criança e afastá-la do convívio com o pai. Nos comentários dessa discussão, dezenas de casos parecidos, em que juízes e juízas decidem por uma guarda compartilhada – o que é praxe nos casos de divórcio por aqui – independentemente da idade da criança e independentemente do fato dela ser amamentada. Em muitos casos, inclusive, a amamentação funcionou como argumento contra a mãe.

Devo confessar que esse tipo de situação me deixa em um misto de tristeza infinita e revolta furiosa porque, vamos combinar, é algo incompreensível para além do terreno da perversidade pura e simples. O que me faz pensar que em algum momento vou conseguir escrever sobre como é ser mulher aqui na França. Mas continuemos aqui apenas no tema da amamentação.

Pois é, por aqui amamentar um bebê é algo opcional e ninguém acha estranho que você decida não fazê-lo porque, segundo a mentalidade francesa, isso entra na conta das liberdades de escolha de uma mulher. A indústria alimentícia e os fabricantes de leite em pó agradecem. Ainda mais na medida em que, junto a esse discurso da liberdade da mulher em escolher se amamenta ou não, veio se agregar um discurso bastante distorcido sobre a dependência entre um filho e sua mãe. E aqui as pessoas parecem ter pavor da dependência, a tal ponto que propostas como deixar o bebê chorando até dormir desde recém nascido encontram eco e são tomadas como boas orientações de conduta.

As pessoas parecem tão assombradas com essa idéia de que a dependência é uma espécie de veneno perigoso que sua maior preocupação, desde que os bebês nascem, é garantir que eles sejam autônomos. Não parece desejável e nem mesmo suportável cogitar que esses bebês, que certamente caminharão rumo à autonomia, dado que isso faz parte da vida, precisem viver um momento de dependência absoluta que vai funcionar como aquilo que lhes traz segurança para poderem se aventurar mundo afora. Como já dizia o bom e velho Winnicott. Mas ele não era francês. Infelizmente para os franceses.

Assim, não causa espanto, em uma sociedade onde a preocupação principal quando o assunto é a infância se centra na independência a qualquer custo das crianças de qualquer idade, que um comportamento qualquer que crie e mantenha laços fortes entre duas pessoas possa ser entendido como contrário ao que se almeja e tenha que ser, consequentemente, combatido. Por isso, uma mãe que amamenta por um longo período é vista como alguém que faz isso em detrimento da criança, visando apenas manter o filho colado, dependente e, com isso, distante dos outros e da sociabilização. Uma mulher que amamenta é um mal a ser combatido aqui na França.

Nem vou entrar no mérito de todas as pesquisas que comprovam que uma amamentação longa traz benefícios importantes para o bebê e para a mãe. Nem vou detalhar as recomendações feitas pela OMS sobre o tema e a ênfase que dão em que se amamente até, no mínimo, dois anos de idade. Por aqui, o pessoal não respeita as diretrizes da OMS, como se fossem mais sábios que isso. Coisas da arrogância francesa.

Ao invés de repisar todas essas informações, ou de falar novamente sobre a importância da dependência na primeira infância justamente para criar pessoas seguras, confiantes e autônomas, prefiro dessa vez falar sobre a segunda leitura que mencionei logo acima, um texto lindo de um sociólogo defendendo a amamentação. Além do fato de ser um homem que defende o amamentar – o que é não apenas raro, mas basicamente o contrário do que a maioria dos homens fazem – seus argumentos são formulados de uma maneira muito inteligente e perspicaz. Leiam o texto, está em francês e em inglês.

Basicamente, o que o Akré mostra, a partir de dados, estudos e pesquisas, é que a questão principal para se apoiar o aleitamento materno é que não podemos realizar nosso pleno potencial se não consumirmos o primeiro alimento feito especificamente para nós, humanos. E assim ele mostra como a amamentação contribui significativamente para que o ser humano possa se desenvolver no melhor de suas capacidades. Ou seja, não é que a amamentação faz com que sejamos mais inteligentes, por exemplo. É que a não-amamentação faz com que não consigamos utilizar todo o nosso potencial de inteligência. Nas palavras de Akré: “Os bebês humanos não realizarão jamais seu potencial genético consumindo fast-food pediátrico – eu falo aqui dos leites industrializados – fabricados à partir de uma espécie que nos é estrangeira”. Em resumo, sua perspectiva é que a amamentação não nos dá um “a mais” em relação aos bebês que não são amamentados. Não faz sentido falar em vantagens da amamentação, pois isso seria como falar das vantagens de andar em pé e não sobre quatro patas. A amamentação permite apenas o desenvolvimento máximo daquilo que temos potencialmente em nós. Coisa que o leite em pó não permite. E, não, não é uma mágica ou uma crença, é questão de composição mesmo.

Vale a pena lembrar que o leite em pó surgiu para resolver uma situação de urgência, ou seja, para servir como alimento substituto nos casos em que o aleitamento materno não fosse possível. É como a cesariana, que surgiu para solucionar casos de urgência em que um parto normal não fosse possível. Não são opções, no sentido de que não são escolhas entre duas coisas equivalentes. São alternativas piores para os casos em que aquilo que é o melhor, o mais indicado e, por que não, o mais natural, não funciona. Têm uma função de remédio e não de algo para ser utilizado rotineiramente.

Em uma sociedade em que amamentar tornou-se questão de escolha sob o falacioso argumento em prol da liberdade da mulher (porque isso não tem necessariamente a ver com liberdade, mas explico num outro texto, prometo) e em que amamentar tornou-se perigo de cultivar uma dependência perniciosa para as crianças em relação às suas mães, ninguém parece preocupado com aquilo que se perde – ou que se impede – quando se adota esse descaso pela amamentação como regra. E essa perda é não apenas emocional, psicológica, mas também cognitiva, imunológica e em vários outros níveis.

Então, chega o terceiro texto, os resultados de uma pesquisa brasileira mostrando o perfil das mulheres que amamentam por dois anos ou mais. Segundo as pesquisadoras, existem algumas características comuns às mulheres que conseguem amamentar de maneira prolongada. Entre elas estão permanecer em casa por pelo menos seis meses de licença maternidade, não dar bicos artificiais como chupetas ou mamadeira ao bebê, fazer a diversificação alimentar apenas à partir do sexto mês e, vejam só, não viverem com o pai da criança.

Retornamos ao início, por um outro viés. O que quer dizer isso de que as mulheres que amamentam prolongadamente (em geral, né, gente, não é a regra absoluta) serem mulheres que não vivem com o pai da criança? Podemos interpretar, seguindo a linha francesa, de que são provavelmente mães que superinvestem os vínculos com seus bebês e os mantém em uma relação de dependência, infantilizando-os tanto quanto possível através da amamentação. Ou podemos pensar, seguindo a linha do Akré, que um dos maiores obstáculos para a amamentação e para o sucesso da amamentação prolongada consiste na falta de apoio das pessoas próximas da mãe e de bebê, principalmente o marido.

No mundo não tão cor-de-rosa da maternidade tem muita mulher tendo que batalhar sozinha para conseguir amamentar. Já ouvi um número desolador de relatos de pais enciumados, que entram em competição com a cria, que se mostram infantis e contrariados por deixarem de ser o centro das atenções daquela relação do que era antes apenas um casal, ou daqueles seios que eram anteriormente apenas “dele”. Já ouvi pais argumentarem que o fato da esposa amamentar impede que eles possam também construir uma relação com o bebê. Sim, exatamente como no argumento usado por pais, advogados e juízes para impor um final de amamentação forçado para uma criança sob risco da mãe perder a guarda, lembram? Já ouvi mães cogitarem dar mamadeira para seus bebês por acreditarem nesse argumento do interesse dos pais em criarem um vínculo com seus filhos e de que esse seria o melhor e mesmo o único modo de fazerem isso. Dar mamadeira seria a única forma de se aproximarem de um bebê, que tal? Já ouvi homens e mulheres argumentando que amamentar é um ato de egoísmo da mulher que tenta, assim, conservar o bebê apenas “para ela”. Conclusão: muitas vezes, a maior dificuldade de uma mulher em amamentar seu bebê é o clima hostil e conflitual criado pelo pai da criança em torno da amamentação. Que coisa triste que uma das primeiras pessoas que deveria entender e valorizar o esforço da mulher em dar o melhor para aquele que, em última instância, é filho de ambos seja um dos maiores empecilhos justamente para que essa criança possa ter o melhor, não? Que mundo estranho e deturpado é esse em que dificultar ou impedir a amamentação é visto como salvar o filho de uma ameaçadora dependência, esse mal terrível encarnado pela mãe?

Aqui nesse mundo estranho, chegamos aos 8 meses de amamentação, seis dos quais em exclusividade. A segunda vez foi mais fácil, pois teve o apoio da experiência da primeira. O que fez com que eu já soubesse quem pode realmente ajudar, a quem realmente dar ouvidos e a quem jamais procurar em busca de conselhos quando o assunto é amamentação.

Ainda na maternidade, as enfermeiras vieram perguntar como eu alimentaria o bebê – pergunta de rotina por essas bandas quando você chega para parir. Disse que amamentaria e me perguntaram se eu precisava de ajuda ou orientação. Disse que não. Me perguntaram se tinha amamentado a primeira e eu disse que sim. Por quanto tempo? Até seus 20 meses. Ah, então você tem experiência. Sim, tenho.

O importante dessa conversa não é que eu estivesse mais ou menos emponderada em relação ao tema, mas que eu tinha mais noção dessa vez sobre com quem valia à pena conversar. O primeiro mês de vida da minha pimpolha foi um calvário de enfermeiras obstétricas, auxiliares de puericultura, sage-femmes e pediatras todos dando pitacos desencontrados sobre uma amamentação que quase foi para o beleléu por conta disso. Complementa, faz intervalo de 3 horas, acorda para dar de mamar, faz em tal posição, muda de peito, espera esvaziar um peito, deixa dormir no peito, acorda para continuar mamando… Quase enlouqueci. E a coisa só começou realmente a funcionar quando eu parei de escutar todas essas pessoas que na realidade não entendem nada de amamentação porque não possuem nenhuma formação específica sobre o assunto e falam a partir de preconceitos, senso comum e informações errôneas. E passei a me orientar com consultores de amamentação, grupos sobre o tema, o pessoal da Leche League e, especialmente, com mães que amamentaram longamente. Dali em diante foi uma experiência muito linda, tocante e rica de emoções para ambas. Aprendi muito amamentando minha filha, tanto sobre mim mesma, minhas possibilidades e meus limites quanto sobre ela, sobre como é nascer, sobre como é depender, sobre como é contar com o outro, sobre como é crescer, confiar, amar…

Nessa segunda vez já nem abri brechas para o azar. Coisa que não poderia ter feito na primeira, pois nunca tinha amamentado, não conhecia tanta gente próxima que o tivesse feito, não tinha muito em quem me espelhar – e, sim, amamentar, tanto quanto parir, é mais fácil quanto mais você tem modelos no seu entorno – e tinha toda a insegurança da primeira vez, do primeiro filho, da inexperiência. Então tive que aprender rápido, tomar as rédeas dessa história, cuidar para fazer o melhor possível com as informações que eu tinha, confiar na minha capacidade e na capacidade da minha filha… E tudo isso eu trouxe para o segundinho que, sortudo, não passou muito perrengue. Mesmo tendo uma pegada bem ruim no começo, mesmo mamando esbaforido, mesmo engolindo tanto ar que achei que ele fosse inflar e sair voando como balãozinho de gás… Eu respirava fundo, arrumava a pega do menino desesperado e acreditava piamente que ia dar tudo certo. E deu. E quem olha as dobrinhas branquicelas das perninhas desse pequeno hoje em dia nunca que iria imaginar que ele foi um bebezinho que no começo nem sabia mamar direito. E que ele aprendeu mamando e que a mamãe aprendeu como é que era para dar de mamar para ele. E que foi a confiança e a aceitação da dependência que ajudaram para que essa história de amamentação pudesse correr bem.

Vai por mim, se você busca algum conselho sobre amamentar: discuta com quem amamentou durante um longo período. Discuta sobre como a pessoa fez, sobre o que funcionou para ela e para o bebê dela. Provavelmente essa pessoa, quem quer que seja, vai te dizer quase as mesmas coisas que qualquer outra pessoa que teve a mesma longa experiência de amamentação diria: amamentar em livre demanda, seguir e confiar no ritmo do bebê, não julgar se ele está com fome ou não, se é manha ou não e dar o peito sempre que ele pedir, não dar chupeta, mamadeira, não usar bico de silicone nem nada que o valha, confiar que tem leite porque a imensa maioria do leite que o bebê mama é produzido durante a mamada e um peito mais cheio ou mais murcho não quer dizer grande coisa, descansar, deixar a casa bagunçada mesmo, deixar-se levar… confiar. Mães que amamentaram seus filhos prolongadamente sabem mais sobre o assunto do que a maior parte dos auto proclamados especialistas porque apenas nas situações de exceção a teoria importa mais do que a experiência.

 

Amamentando

Nem sei quantas vezes já escrevi sobre amamentação. Porque acho importante. Para o bebê e para a mãe. Porque gosto de amamentar. Ou melhor. Gostei muito. Depois desgostei. Agora gostei de novo. Mas pode acontecer que desgoste, vai saber…

No começo, não tinha nada pensado a respeito. Lia apenas uma coisa aqui, outra ali e concluía que era importante amamentar. Minha filha nasceu e assim foi. Não sem percalços.

Com ela pude constatar que de tudo aquilo que falam que ajuda a amamentação, o item mais essencial é o APOIO. Sem uma rede de apoio, amamentar um bebê se torna uma das tarefas mais penosas e estressantes que existem. E, infelizmente, apoio é o item mais escasso quando o assunto é amamentação. Temos informação, mas onde está o apoio cotidiano das pessoas que nos circundam: pai, avós, amigos, médicos, equipe de saúde?

O primeiro mês de vida da minha filha foi muito difícil no que diz respeito à amamentação. Informações desencontradas, gente dizendo para fazer intervalo de três horas, gente dizendo para dar quinze minutos cada peito, gente dizendo para anotar o horário e tempo de cada mamada, gente dizendo para pesar a bebê todo dia para ver se ganha peso, gente dizendo que ela tinha que dormir a noite toda e, consequentemente, não chorar para mamar, gente dizendo que se ela ganhou pouco peso durante um mês tinha que complementar com mamadeira… Gente dizendo. O tempo todo. Gente é capaz de deixar uma mãe completamente maluca com seus dizeres. No final desse primeiro mês, eu estava esgotada, desesperada, sem saber o que fazer. Precisei de um mês para decidir mandar todo mundo às favas e priorizar minha filha. E foi quando parei de anotar horários, parei de me preocupar com os intervalos entre as mamadas, parei de buscar saber o peso dela, adotei os melhores modos de amamentar, de descansar, as posições que funcionavam para a gente, os jeitos que davam certo para nós. Ela ganhou peso, cresceu, ficou forte e saudável. E nós ficamos nessa durante um ano e oito meses.

A cada mudança, como na época da introdução alimentar, por exemplo, havia um novo confronto com estereótipos, um novo período em que a coisa desandava e em que eu tinha que voltar a me conectar com minha filha ao invés de ficar pressionada pela enorme lista de obrigações e de jeitos de fazer que vêm junto com cada acontecimento da vida de um ser humano. Começou a comer? Quem disse que começar a colocar outros alimentos na boca significa comer? A criança come a primeira frutinha, legume, papinha ou o que seja e já vem aquela pressão para que coma uma pratada de adulto. E que pare de mamar ou diminua drasticamente, lógico. Come outras coisas? Para de mamar. Tem dentes? Para de mamar. Anda? Para de mamar. Fala? Para de mamar. A verdade cruel e perversa de nossa sociedade é que todo mundo está o tempo todo querendo desmamar as crianças. Pois mamar é sinal de dependência. E dependência é algo ruim e doentio. E o vínculo entre mãe e bebê escancarado assim na cara das pessoas é uma ofensa. Não pode existir vínculo. Nem dependência. Nem amor. Tudo parece concebido para que tenhamos filhos e os abandonemos o mais rápido possível nas mãos dos especialistas. Ai daquela que ousar querer criar o próprio filho.

Um ano e oito meses depois, a pequena mamava durante o dia. De noite já não mais, pois eu cheguei em um ponto em que me sentia exausta em acordar durante à noite, em dormir picado por tanto tempo. Meu corpo já não dava mais conta e meu humor dava mostras de impaciência e intolerância. Foi difícil decidir parar as mamadas noturnas, porque me parecia algo unilateral. E eu pensava que tinha que partir da criança essa mudança de ritmo. Ou ser, no mínimo um acordo. Nada feito. Fui eu mesma quem cheguei num limite e tive que estabelecer um, explicando a ela da melhor maneira que pude, acatando os protestos, choros e reclamações legítimos. Passou.

As mamadas diurnas por vezes eram frequentes, noutras mais espaçadas. Algumas vezes eram trocadas por outras coisas, quando dava para imaginar o que aquela mamada queria dizer. Está com fome, quer uma fruta? Está com sono, vamos tirar uma soneca? Está entediada, vamos brincar juntas? Muitas vezes ela topava essa alternativa que ia de encontro ao que queria e precisava. Noutras não, era a mamada mesmo e tudo bem.

Mas um ano e oito meses depois fiquei grávida novamente. E amamentar se tornou algo insuportável. Eu havia lido a respeito, sabia que isso acontece com algumas mulheres, que ficam com muita dor nos seios com a nova gravidez e criam uma repulsa pela amamentação. Li sobre isso mas nem liguei, minha cabeça já idealizando uma amamentação em tandem, que é quando a mãe amamenta a criança e o recém nascido. Nunca tinha imaginado fazer isso também, mas me pareceu uma evidência, com duas gravidezes tão próximas e tão determinada a fazer um desmame no ritmo da minha filha. Hehehe, meu corpo tinha outros planos.

Estou convencida de que, quando se escreve sobre as dificuldades que uma mulher pode enfrentar em relação ao parto e à amamentação, as pessoas ignoram sistematicamente as dificuldades psicológicas. Como se aquilo que atravessa nossas entranhas psíquicas fosse algo contornável, algo menor. Se você tem um impedimento físico para ter um parto normal ou para amamentar, ok. Mas e se o impedimento for psíquico? O que fazer disso?

Uma nova gravidez pode criar esse impedimento psíquico, essa barreira intransponível que só aquilo que vem da mente da gente é capaz de fazer. Aquele bloqueio que parece que você poderia resolver com um simples ato de vontade, mas que se rebela, impassível, cada vez que você tenta negociar com ele.

Eu li, reli, participei dos fóruns de discussão. Eu tentei, esperei para ver se passava, negociei comigo, negociei com ela. Reduzi as mamadas para apenas 3 vezes ao dia, tentava me convencer de que logo tudo estaria bem e seria lindo amamentar novamente. Não colou. Não era minha filha, não era nada do que ela fazia, nada havia mudado. Mas algo havia mudado em mim e eu simplesmente não conseguia amamentar. Começava, doía demais, isso me deixava num estado de irritação furiosa, tinha que interromper, ela não entendia, ficava magoada, chorava, eu me sentia péssima… uma bola de neve.

Uma hora me dei conta de que isso estava transformando uma experiência que sempre foi linda e prazerosa para nós duas em um pesadelo. E comecei a temer que minha filha ficasse com essa lembrança em mente, essa lembrança do pior momento. E que isso botasse a perder toda a beleza, o acolhimento, o carinho, a doçura do que tinha sido mamar até então. Era hora de parar. E a adulta sou eu. E o motivo era meu. Então era eu quem ia ter que fazer isso, e não esperar que ela desistisse, que cansasse, que deixasse para lá, para dividir comigo o peso dessa responsabilidade. Ou da culpa. Ou da frustração.

Uma amiga querida me disse algo que me deu força o suficiente para assumir minha decisão: amamentar, quando está ruim para uma das duas pessoas envolvidas, é porque não está funcionando para as duas. Que exemplo eu estaria dando à minha filha sobre respeitar a si mesma se eu não estava respeitando meu próprio limite? Como ela veria isso, essa mãe que tentava deixar de lado a si mesma para agradá-la, para contentá-la, para satisfazê-la? Será que com isso ela aprenderia que ela é tão importante que eu me dispunha a me sacrificar para que ela mamasse (outro clichê, aquela de que maternidade é sacrifício) ou será que aprenderia que aquilo que a gente sente e vive não conta frente ao que temos que fazer para o outro?

Expliquei para minha filha muitas vezes por que não iria amamentá-la mais. Peguei no colo, abracei, consolei. Aos poucos ela foi experimentando outro jeito de ser consolada, outros modos de receber afeto, outros cuidados, outros gestos de afeição. Passou. Passamos. Dentro de mim guardava um temor e uma esperança: o temor de que ela, quando me visse amamentar o seu irmão, pensasse que eu deixei de amamentá-la para amamentá-lo e visse isso como uma troca, um abandono. A esperança de que quando ele nascesse e começasse a mamar, que ela teria vontade de mamar também e retomaria. E daí só pararia quando decidisse. Ah, como nossa mente e nosso coração buscam reparar as feridas, né? As nossas ou as deles?

Nasceu o segundinho e, contrariamente ao que foi o primeiro mês de minha pequena, com ele nem perdi tempo em escutar quem quer que seja. Não deixei ninguém falar e quem tentou comentar qualquer coisa sobre amamentação ao meu lado ouviu respostas atravessadas e logo sossegou o facho. Muito melhor assim. Se não há apoio o suficiente, ao menos aprender a se blindar das pessoas e de seus comentários destrutivos ajuda um bocado. Nada de ouvir por educação. Nada de perder tempo com conversas inúteis que a gente já sabe onde vão parar. Uma das vantagens de ter um segundo filho é que a gente aprendeu alguma coisa com o primeiro e pode, se tiver força e coragem o bastante, usar desse aprendizado para se poupar uma série de situações dolorosas. É o que tenho feito.

Segundinho mama como se não houvesse amanhã. Como sua irmã, mas de um jeito mais estabanado, mais esfomeado, menos zen. Cada amamentação é uma, cada filho é tão diferente do outro, mesmo sendo um bebezinho que acaba de nascer. Ele gosta de mamar e eu voltei a gostar de amamentar tão logo ele nasceu e mamou. Mágica dos hormônios, mistérios das entranhas da gente.

A pequena olhou, fez que não viu, mas uma hora teve que ver. Quis mamar, tentou algumas vezes, mas não sabe mais. Ou não quis saber. Aquele saber do corpo, da boca, dos músculos… aquilo tudo se foi, virou alguma outra coisa. Fiquei triste. Talvez ela também. Ou talvez estivesse fazendo isso apenas para me agradar, vai saber… Claro, ela ficou com ciúmes de ver o pequeno mamando. E se jogou em cima da gente, e ficou pedindo colo e precisando de toda a atenção do mundo justamente nessa hora do casulo entre a mamãe e o filhote que mama. Ela sabe do que se trata, também quer isso para ela. E não para ele.

Crianças não são ciumentas e invejosas. Crianças reagem àquilo que esperamos delas. Eu esperava seu ciúmes e sua vontade de voltar a mamar. Ela tentou me presentear com os dois. Mas isso sou eu, não ela. E filho não está nesse mundo para atender nossas necessidades e expectativas, né? Então minha pequena dá de mamar a todas as suas bonecas. Noutro dia, deu um beijo no meu peito e meio que se despediu. E logo foi fazer outras coisas. Outras coisas incríveis que ela tem conquistado fazer desde então, como falar, cantar, danças. E pular em poças de água. Ela pede colo sim. E quer dengo, chamego e atenção. E fica zangada com o irmão. Que é pequeno, chora, não fala, não anda e faz muito xixi e cocô. Minha pequena ficou grande. Uma grande pequena.

Quanto ao pequeno, seguimos amamentando. Ele tem aquele olhar, faz boca de peixinho, barulhinhos enquanto mama e todo aquele combo que derrete qualquer coração e faz tudo valer à pena. Gosto muito de amamentar meu filho. Como já gostei demais de amamentar minha filha. E depois desgostei. E depois gostei de novo. Amamentar é coisa de dois. É coisa entre dois. E a gente deveria ter mais liberdade de viver a amamentação com todos os seus altos e baixos, com suas idas e vindas, com suas superações e seus limites. Sem tanta regra, sem tanta obrigação. Apenas aquilo que fazemos porque faz sentido.

A publicidade e a informação

Tenho uma página do blog no Facebook, onde publico coisas que leio sobre gravidez amamentação, parto, maternidade, infância que encontro pela web e me parecem interessantes. Ontem, publiquei uma matéria que apareceu em vários veículos de comunicação sobre a regulamentação de uma lei que proíbe a propaganda de todo tipo de produtos que podem interferir na amamentação: leite em pó, mamadeiras, chupetas e afins. Em resumo, para que a lei possa ser aplicada, essa regulamentação proíbe que tais produtos sejam objeto de propaganda em qualquer tipo de meio, que sejam associados com quaisquer personagens infantis ou outras imagens que induzam o consumo, que sejam distribuídos como brindes ou que façam parte de qualquer tipo de ato promocional e que tragam a informação em suas embalagens de que podem afetar o aleitamento. Uma medida louvável, se levarmos em consideração as estatísticas vergonhosas no que diz respeito ao aleitamento materno no Brasil, onde a média de tempo que se amamenta uma criança é de 54 dias (!!!).

E qual a relação disso com esses produtos? Toda, se considerarmos que aleitamento misto, mamadeira noturna, uso de chupeta e afins podem interferir na amamentação, criando confusão de bicos e uma maior dificuldade do bebê em estabelecer a pega correta. E que isso não é nunca dito claramente pelos pediatras e outros profissionais que indicam o uso da mamadeira por qualquer motivo que seja a uma mãe, o que não dá a elas todos os elementos para que tomem uma decisão informada sobre amamentação. E, obviamente, isso aparece menos ainda nas campanhas publicitárias desses produtos que, ao contrário, insistem em divulgar idéias mentirosas, como a de que leite materno e leite em pó são a mesma coisa (dê uma olhada nessa tabela comparativa em inglês), ou que certas mamadeiras e chupetas seriam o equivalente do seio materno, ou que seriam concebidas de maneira “ergonômica”, para não prejudicar amamentação, desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos faciais, postura e tudo o mais que sabemos que mamadeiras e chupetas prejudicam sim. Enfim, se essas publicidades prestam um desserviço em geral, apresentando idéias equivocadas como sendo verdades, imagina o estrago que elas não provocam nas mães que encontram dificuldades em amamentar?

Sabemos que o sucesso da amamentação depende muito do entorno, da rede de apoio que essa mãe e seu bebê encontram para darem conta de instaurar esse equilíbrio delicado que amamentar exige. Depende muito do apoio da família, dos amigos, dos conhecidos com seus comentários tantas vezes desastrosos. Depende imensamente também daquilo que as “figuras de autoridade” vão dizer a essa mulher que quer e busca amamentar, se saberão orientá-la corretamente ou se lhe darão informações desencontradas, erradas e que terminarão contribuindo para que ela se veja em uma bola de neve que torne o aleitamento impossível. Proibir a propaganda é incidir sobre o lado mais perverso desse mecanismo que dificulta, deturpa ou impede o aleitamento materno: o lado que vê na amamentação uma oportunidade de mercado, de lucro e de incentivo ao consumo. E apenas isso.

Uma das coisas que mais me chocou em alguns comentários que esse post recebeu na página do facebook foram algumas pessoas argumentando que essa proibição as privaria de informação sobre as alternativas ao aleitamento materno, constrangendo-as a amamentar e dificultando o acesso a esses produtos. Como se proibir publicidade fosse uma sonegação de informação e um atentado à liberdade delas de escolha.

Como assim? Tem gente que pensa seriamente que publicidade traz informação sobre alguma coisa? Tem gente que se informa através dos meios publicitários? Tem gente que decide sobre como alimentar seu filho vendo propaganda? Putz!

Sim, tem. E meu espanto é muito mais estranho do que essa constatação. É evidente que tem gente que se acredita que se informa e que toma suas decisões, mesmo as mais importantes, baseada em argumentos publicitários. Isso apenas prova o quanto a publicidade é eficaz e bem sucedida em seus objetivos. Ela consegue se fazer passar pelo que não é: um argumento de venda disfarçado de informação. Tão eficaz que as pessoas acreditam que se a publicidade dos produtos relacionados à amamentação forem proibidas, elas não terão como saber que eles existem, nem como saber de suas qualidades, de seus benefícios e de seus efeitos. E, com isso, não poderão comprá-los. Gente, isso é ou não é um exemplo gritante da perversidade desse mercado que, apoiado pela publicidade, faz mulheres acreditarem que o que eles fazem é ajudá-las de alguma maneira?

A meu ver, a questão do leite em pó é muito próxima da questão da cesariana: duas opções criadas pelo desenvolvimento tecnológico a situações de dificuldades reais que foram apropriadas por uma lógica de consumo que vende às mulheres uma idéia de que isso seria o exercício de uma escolha, além de um progresso, um avanço nas maneiras de vir ao mundo e de alimentar um bebê que trariam muito mais vantagens do que aquilo que existe desde que a espécie humana existe. No caso da cesariana, um real risco de vida para a mãe e para o bebê ligados ao parto normal e no caso da amamentação, uma real impossibilidade de alimentar o bebê. Duas opções que surgiram para resolver reais e graves problemas deturpadas por uma ambição da indústria que se construiu em torno delas de conseguir o máximo de lucro possível na medida em que elas se tornem um comércio. Comércio de partos, comércio de alimentos. Com tudo o que implica a idéia de comercializar: ganhar dinheiro com isso, por todos os meios possíveis. E sem nenhum constrangimento em falsear a verdade ou em atacar a concorrência. Porque o importante não é informar. O importante não é ajudar ninguém. O importante é ganhar todo o dinheiro possível com isso.

Amiga querida, não se preocupe. Se você está indignada por não poder mais ver a propaganda de leite em pó na televisão no intervalo do desenho animado dos seus filhos, isso não vai te impedir de comprar esse leite no supermercado da esquina. O comércio desses produtos não vai parar porque a propaganda vai parar de existir. Mas veja direito de onde é que você tirou a idéia de que esses produtos são os melhores para você e para o seu filho. Pois, se foi de uma propaganda, posso te garantir que ela não foi feita nesse intuito de te ajudar a escolher o melhor. A propaganda desses produtos, assim como qualquer propaganda do que quer que seja, não se preocupa com você. Nem comigo. Nem com ninguém. Ela apenas sabe muito bem encontrar nossos pontos fracos e nos manipular para acreditarmos exatamente nisso que você está dizendo que acredita: que elas querem seu bem e estão te dizendo como você deve fazer para tê-lo.

Se essa proibição contribuir para que menos manipulação mascarada de informação sobre a amamentação circule e que, com isso, as mulheres tenham que buscar orientação sobre o aleitamento em outro lugar, sem ser bombardeadas por um monte de imagens, brindes e frases de efeito completamente equivocadas. E se isso puder ajudar aquelas que querem amamentar a encontrarem os caminhos para isso, já terá sido um enorme passo na valorização e na viabilização do aleitamento materno.

  • Em tempo: na discussão no facebook uma pessoa colocou um problema bastante pertinente em relação a essa lei, que dificultaria o acesso à informação sobre esses mesmos produtos, especialmente no que diz respeito ao leite em pó, o que acabaria prejudicando as mulheres que precisam fazer uso dele. Um caso que parece que a lei não contemplou. Ela me disse que vai sintetizar um pouco seus argumentos e depois eu publico por aqui. De todo modo, obrigada à Claudia Eirado pelo contraponto interessante (vocês podem acompanhar a discussão pelo post do facebook, se quiserem).
  • Em tempo 2: um dos melhores projetos de mães contra os usos e abusos da publicidade infantil é este aqui. Acompanhe as discussões do site e apoie, se para você também essa história de transformar nossos filhos em pequenos e demandantes consumidores for algo a ser evitado.

    Fim da publicidade para produtos que prejudicam na amamentação. Já não era sem tempo.

    Posted by Barriga de bebê: o que as mães não dizem. on Tuesday, November 3, 2015

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

E foi dada a largada!

Mal tivemos tempo de assoprar a velinha de um ano e comer um pedaço de bolo. A pequena mal teve tempo de começar a andar e explorar seus presentes de aniversário. E eis que surge a inevitável pergunta:

– Ainda mama?

– Mama.

– Vai mamar até quando?

– Até quando ela quiser.

– Mas então ela não vai parar nunca. Se a gente não desmama, o bebê não para sozinho.

Silêncio… Tentando imaginar de onde pode ter surgido uma idéia tão absurda que supõe que um bebê que é capaz de mamar quando precisa e não mamar quando não precisa, cotidianamente, persistiria mamando em nome de sei lá o quê até sei lá quando.

– Claro que vai.

– Sei. Mas desse jeito você vai ter que fazer uma plástica quando ela parar porque seus peitos vão ficar no chão.

Silêncio estupefato tentando imaginar um ser que vai mamar até a idade adulta em meus seios caídos varrendo o chão da sala.

Queria entender o que leva as pessoas a esse tipo de convicção. E mais ainda o que as leva a deixarem escorregar boca afora antes mesmo de pensar naquilo que vão dizer. Então um bebê não desmama sozinho, se respeitarmos seu tempo e seu ritmo, tão somente porque deixa de ser necessário, já que ele encontra outras formas de nutrição, de proteção e de afeto? Então temos que impor um fim numa data qualquer tirada da cartola e que nos parece ser a data em que bebês deveriam parar de mamar? Então somos nós que decidimos essa data?

Não vou entrar aqui na discussão a respeito das mães que decidem parar de amamentar em um determinado momento, por qualquer razão que seja. Não vou entrar no mérito das mães que acham que devem conduzir o desmame ou impor algum limite. O desmame, assim como a amamentação, é do bebê e da mãe e apenas aos dois cabe decidir. Ninguém tem nada com isso. Ou não deveria ter. Nem com peitos arrastando no chão pois, sejamos francas, não é esse o destino de todas nós? Ou quem não amamenta ou para de amamentar com medo dos peitos caírem acha que passou incólume pelas leis da gravidade? E, convenhamos, se isso é insuportável, cirurgia plástica existe e está aí para todo mundo que quiser consumir e puder pagar, né?

Por que é que a chegada do primeiro ano libera nas pessoas uma impressão de que, a partir dali, tudo é permitido? Parar de mamar? Demorou. Comer doces, chocolate, tudo o que for bem cheio de açúcar e não trouxer nenhum benefício para o bebê? Claro, porque, afinal, ele vai acabar comendo mesmo. Ver TV, vídeos no iPad, joguinhos no celular? Sim, afinal, é entretenimento de excelente qualidade e totalmente apropriado para uma criança, especialmente uma criança bem pequena que está formando todas as suas conexões cerebrais e constituindo seu modo de conhecer o mundo. Esses tapa-buraco eletrônicos estão realmente oferecendo tudo o que ela precisa nesse momento: contato, presença de outros, interação… Ah, mas ela gosta, olha só, ela fica olhando entretida. Claro, meu bem, quem não olharia entretido para algo que é feito para ser hipnotizante? Assumamos: é só um cala-a-boca, fica quieto aí, que faz as vezes de sossega-leão quando o que os adultos querem é ter sossego. E uma criança de um ano que começa a andar é tudo menos sossego. O mesmo vale para o açúcar e toda sorte de porcarias que as pessoas acreditam piamente que devem ser apresentadas à criança tão logo a primeira velinha se apague.

Funciona assim: até agora toleramos mais ou menos que você, mãe, cuide do seu filho como acredita ser o melhor. Mas agora ele não é mais um bebê e deve ser introduzido ao mundo real, aquele no qual vai viver para toda vida. E o mundo real é feito de decisões arbitrárias a seu respeito, onde a única coisa que não conta são suas necessidades e possibilidades. E muito açúcar, muita TV, muitos eletrônicos, muito consumo de coisas sem substância. Em todos os sentidos. Esse é o mundo real que aguardamos tão ansiosamente apresentar para nossos filhos que mal eles completam um ano já temos que enfiá-lo goela abaixo? Putz!

Foi dada a largada. Salve-se quem puder.

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?

Tem horas em que a gente simplesmente não sabe…

… o que fazer, o que dizer, para onde ir. Parece que é assim. Na maternidade e na vida, existem vários momentos em que simplesmente não sabemos.

Não que pudéssemos saber tudo, eis aí uma onipotência que é desconstruída dia a dia quando nos tornamos mães. Isso se ela já não havia sido desfeita antes pela própria vida. Não tem como saber, não tem como controlar. No final, o que podemos é muito pouco. E o cotidiano é o permanente jogo entre esse pouco que podemos e o que tentamos fazer com ele. Para ver se estica, se puxa e se chega até ali.

Escrevo com frequência sobre a saga da amamentação. Porque adoro amamentar. Porque acho importante. Porque percebo que um dos fatores que mais a dificultam é que não pensamos sobre ela, achando que é fácil, natural e que vai acontecer em um passe de mágica. Contando com essa naturalidade e mais um monte de informações desencontradas, quando não errôneas, eis uma boa receita para o bolo desandar na hora em que aparecer o primeiro grão de real nessa idealização cheia de facilidade. Enfim…

Por aqui e por aí, amamentar é um projeto de vida, daqueles que você precisa abraçar e se dedicar com afinco para que dê certo. Para aprender, para que seu filho aprenda, para que aprendam juntos, para que tudo se meta em andamento e funcione. E depois de uns dois meses você se descobre mais leve e apaziguada com a amamentação, alguma coisa entrou nos eixos e passa a caminhar por si. Bebê pede, bebê mama, tudo fica mais fácil. A meta são os seis meses, os seis meses de aleitamento exclusivo, que indicam que vocês venceram o grande desafio e podem celebrar tanta persistência e tanta dedicação. Podem mesmo. Mas não acaba aí.

Se podemos contar com a blogosfera e com uma série de referências e grupos que buscam informar e apoiar mães que querem amamentar sobre como fazer nesses primeiros meses, um silêncio enorme se faz depois disso, com a diversificação alimentar. Como é que fica amamentar depois que o bebê começa a comer outros alimentos?

No começo desses pós seis meses, fica tudo muito parecido com o que era antes, tendo em vista que o pequeno nem percebe que está comendo. Os alimentos vão para a boca como tudo o mais, numa espécie de brincadeira divertida com gostos, texturas e cores. Comida vai para a boca e é engolida eventualmente enquanto que outras coisas não. Ou espera-se que não, né? Porque tem pequenos que adoram engolir um papel aqui, uma folhinha acolá…

Mas passam-se novamente uns dois meses e comer outros alimentos entra em velocidade cruzeiro. E, como tudo mais nesse planeta maternália, basta que algo se estabilize e nos acostumemos a ele para que tudo mude novamente. Putz, não tem linha de chegada não?

Não.

Fato é que são praticamente inexistentes informações sobre como amamentar depois dos primeiros seis. Livre demanda? Continua. A menos que você queira começar a arbitrar sobre algo em que, até então, tinha optado por respeitar ritmo e necessidade do rebento. Mas e quando livre demanda significa bebê comer e mamar em seguida? E quando livre demanda significa bebê não querer comer e querer mamar? E quando significa bebê voltar a querer mamar duas ou três vezes por noite?

Pois é, você achando que quando algo engrena é sempre um movimento de progressão, onde o adquirido permanece e novos desafios surgem. Mas e se o movimento não é progressivo, evolutivo ou qualquer outro adjetivo desinvolvimentista para definir como os bebês deveriam ser? E se têm idas e vindas, retornos inesperados, isso quer dizer que há um problema? Ou é apenas assim, tão incerto como a vida?

Nesses dias, entre hipóteses de salto de desenvolvimento, dentes, angústia de separação ou fracasso na estratégia da diversificação alimentar, me dei conta do quão pouco sabemos sobre como se chega de um lugar a outro. Como é que um bebê come ou dorme a noite inteira sem o uso de técnicas de adestramento, sem imposições que desconsiderem o que ele precisa ou pode?

Isso atrapalha!

Continuando a conversa sobre amamentação nessa semana mundial do aleitamento materno, uma lista dos conselhos e orientações que, na minha experiência, mais atrapalham do que ajudam nesse projeto de amamentar nossos bebês. Porque adoramos uma lista de vez em quando, né?

  • tomar nota: dos horários em que o bebê mama, em qual peito, por quanto tempo. Traz uma falsa sensação de controle, como se conseguíssemos garantir com isso que sabemos o que está acontecendo quando, na verdade, não. Anotar para contar para o pediatra, a enfermeira, a família ou afins para que eles digam se está tudo bem cria muita confusão, porque cada qual vai ter uma opinião diferente sobre o que está escrito ali. O bebê mama muitas vezes, poucas, por tempo demais, por tempo de menos… Tudo isso se baseia sobre a idéia de que haveria um ritmo ideal de mamadas o que, por sua vez, ignora que cada bebê é um e o ritmo ideal é aquele que melhor se adapta ao que ele precisa. Passei os primeiros meses feito doida anotando tudo e tentando achar um padrão. Sinceramente, é muito estresse e sofrimento até você finalmente se dar conta de que o melhor a fazer é justamente o inverso: se deixar guiar pela livre demanda e pelas solicitações do bebê.
  • controlar peso: aqui as pessoas têm uma obsessão ainda maior que no Brasil com o ganho de peso do bebê, a ponto de sugerirem que as mães aluguem balanças para controlar o peso em casa. Já cheguei a ver mãe, na PMI, que pedia para pesarem seu filho de poucos dias antes e depois da mamada, para ver se ele tinha se alimentado bem. Novamente, o que isso garante? Claro que é tranquilizador saber que seu bebê está ganhando peso, pois ficou instituído nas nossas cabeças e nos nossos corações que esse seria um indício de que tudo vai bem. Pode realmente ser, quando somado a uma série de outros indícios, pois ganho de peso em si não garante boa saúde nem para os bebês, nem para ninguém. Se fosse o caso, todos os obesos desse mundo estariam em ótimas condições, né?
  • impor intervalos: quaisquer que sejam, tentar guiar a alimentação do bebê pelo relógio me parece um projeto fadado ao fracasso. Sim, existem bebês que se adaptam a isso e mamam a cada três horas e isso fica parecendo novamente um bom sinal de que eles estão alimentados e de que a amamentação vai bem. Mas você come com hora marcada, mesmo sem fome? Então por que aplicar essa lógica ao seu bebê? Deveria ser a fome a guiar os momentos das refeições e o quanto se come, já que ela é a fonte mais confiável de informação sobre o que se passa ali, dentro de nós, não? Ou aprendemos a ouvir e respeitar nossos corpos também quando o assunto é alimentação – e transmitimos isso a nossos filhos respeitando-os também – ou abrimos caminho para maneiras desconectadas e arbitrárias de comer.
  • substituir mamadas por refeições: no momento da introdução alimentar, quando acreditamos que o fato do bebê comer outras coisas fará com que ele mame menos ou diminua o ritmo. Sim, isso eventualmente acontece, mas não no início. No começo o bebê nem percebe muito bem que aquela brincadeira e que aquelas coisas que coloca na boca também alimentam além de divertir. Ele não associa necessariamente as refeições com alimentar-se. Por isso, não adianta dar a papinha na hora em que o pequeno chora pedindo peito porque há grandes chances de que ele continue chorando e não coma nada. Demora até que comer se torne comer e, nesse meio tempo, esteja preparada para intercalar mamadas e refeições, às vezes ao mesmo tempo.

Penso que todas essas orientações servem para nos dar uma sensação de controle, de que sabemos e governamos aquilo que acontece ali com nossos bebês, em seus corpos, em seus estômagos. Temos a impressão de que precisamos controlar para que tudo fique bem e que eles fiquem saudáveis. Acreditamos que controlar = cuidar. Nos parece muito misterioso e insondável esse modo opaco como a amamentação funciona. Peito não é mamadeira, não é transparente, não tem colher de medida, nem indicação de mililitros. Não sabemos muito bem o que está acontecendo ali, enquanto o bebê mama. Temos dúvidas instiladas perversamente há décadas de que nossos corpos sejam capazes de alimentar e de dar conta das necessidades de nossos bebês. Acreditamos mais nas orientações externas, nas medidas externas, nas propagandas e naquilo tudo que dizem que funciona muito melhor do que nós mesmos e do que nossos filhos. Então seguimos essas orientações e fazemos da alimentação um processo penoso, em que ninguém escuta o outro, em que ficamos surdos aos nossos bebês e tentamos todo tipo de violência e de imposição para garantir o que estaria garantido se simplesmente os respeitássemos e nos respeitássemos.

O mais difícil em amamentar é que sempre estamos prontas a seguir o que quer que digam que devemos fazer, morrendo de medo que nossos filhos passem fome. E ao invés de olharmos para eles para tentarmos perceber a fome, a saciedade, as necessidades e os ritmos, pegamos emprestado essas orientações furadas, como se elas fossem regras de conduta, infalíveis. Quem sabe se tentarmos o mais difícil, que é aprender a escutarmos nossos bebês, isso nos traga alguma convicção íntima e profunda de que eles estão alimentados e bem?

Outros textos sobre o tema: aqui.

O peito e o peito

Conheço ao menos três pessoas que detestaram amamentar. Quero dizer, ao menos três pessoas que detestaram amamentar e assumiram isso em voz alta. Uma delas dizia que aguentou até seis meses porque era importante e parou em seguida. Outra teve vários problemas, como ingurgitamentos, feridas e mastite e dizia que só conseguiu começar a ter uma boa relação com a filha quando abandonou a amamentação. E a terceira dizia que se sentia sugada, vampirizada pela filha, começou com a mamadeira à noite e acabou parando de amamentar pouco depois.

Estamos na Semana Mundial do Aleitamento Materno e, como em todos os anos anteriores, vejo uma série de propagandas e de ações buscando incentivar o aleitamento, apoiar as mulheres que o fazem, além de auxiliar com as dificuldades que possam encontrar as que queiram fazê-lo. Tudo extremamente pertinente e necessário se considerarmos que, no Brasil, as mulheres amamentam pouquíssimo tempo (uma média de 54 dias apenas), que são mal orientadas por médicos e profissionais de saúde, tendo informações desencontradas sobre como proceder caso encontrem dificuldades (muitas vezes a solução para qualquer problema é a sugestão do uso da mamadeira e do leite artificial) e, ainda, tendo em vista a falta de apoio que encontram nas pessoas próximas, na família, nos amigos e na sociedade em geral (mulheres sendo impedidas de amamentar em espaços públicos é apenas um dos péssimos exemplos dessa falta de suporte e acolhimento).

Na França, a coisa é ainda pior e esse é um dos países mais fracassados em termos de aleitamento materno. Nessa semana mundial do aleitamento, eles estão procurando depoimentos de mães que amamentaram mais do que uns poucos dias, para dar uma idéia da precariedade da coisa. As mulheres simplesmente não amamentam e isso não parece ser uma questão para ninguém. Os bebês saem da maternidade com chupeta, mamadeira e leite em pó, os pediatras e outros profissionais de saúde prescrevem o uso do leite artificial a qualquer época e frente a qualquer dificuldade das mães. Leite em pó que, por sua vez, fica na vitrine de qualquer farmácia e em lugar de destaque nos supermercados. Mesmo durante a gravidez, as mulheres aqui se mostram mais preocupadas em saber qual leite comprar e como preparar uma mamadeira nos cursos de preparação para o parto do que em saber como poderiam amamentar. A situação é tão precária que, apenas como exemplo, nesses onze meses de maternidade, frequentando outras mães e lugares repletos de mães e de bebês, deparei-me com apenas 5 outras mulheres amamentando. 5. Em um ano. Eles não têm problema com mulheres amamentando nos espaços públicos porque, simplesmente, ninguém amamenta. Noutro dia, em uma loja, uma mãe com um bebezinho de dois meses ficou extremamente emocionada de me ver amamentando minha filha e comentou com o pai dela. Depois veio falar comigo e me parabenizar e dizer o quanto estava feliz de encontrar outra mulher que, como ela, amamentava seu filho. Quase chorei. Entendo muito bem esse estado de solidão e de isolamento do qual ela falava, onde não se encontra nenhum semelhante, nenhum modelo, nenhuma companhia para trocar experiências. Triste.

A questão é que nesse mundo do aleitamento materno nunca ouço ninguém falar ou escrever sobre as dificuldades “psicológicas” em amamentar. As mulheres podem encontrar muitos obstáculos nessa experiência, vindo dos outros, do meio em que vivem, da relação com o bebê, da pega… enfim, obstáculos físicos, fisiológicos, sociais, interpessoais. Mas ninguém fala dos obstáculos dentro dela mesma e de tudo aquilo que temos que elaborar em nossas cabeças fumegantes para amamentar nossos filhos.

Primeiro: amamentar não é natural. Ou melhor, não é normal. No sentido de norma, daquilo que é entendido como norma, como regra, como o modo das coisas serem. Já foi assim, mas não é mais há umas boas décadas, desde que inventaram que dar mamadeira com um outro leite que não o nosso seria melhor ou, no mínimo, igual a amamentar. Bela balela fácil de ser desconstruída porque se trata disso mesmo, de uma construção, de uma invenção que atende aos interesses de muitas pessoas, dos fabricantes das mamadeiras à indústria do leite em pó. Mas que desconsideram descaradamente as necessidades do bebê, levando um monte de mulheres de várias gerações e lugares a acreditarem que “não faz diferença” e que “podem escolher”. Sim, podemos escolher. Mas, sim, faz diferença. Escolher amamentar ou dar mamadeira são opções diferentes. Não levam ao mesmo.

A amamentação desnaturalizada e equiparada a todas essas soluções outras foi se tornando optativa, desaparecendo da vista das pessoas, do campo social. Ao mesmo tempo que os discursos que falam da liberdade da mulher em relação ao seu próprio corpo chegaram para dizer que essa liberdade envolvia também seus peitos e o uso que faria deles. Nada mais justo, não?

Pois é, mas aí é que eu penso que existe uma pegadinha nessa história ou – como diria o bom e velho Freud – um ato falho, uma negação, quem sabe até uma recusa radical. Nessa construção recente sobre o amamentar e a sua anormalidade, o que ficou de fora foi o seu caráter erótico, sexual, ligado ao prazer. Ou seja: não é natural e é sexual. Putz!

Não, não precisa arrepiar os cabelos. Sexual, para Freud e para a psicanálise, é basicamente tudo o que move em direção à vida e não tem necessariamente como finalidade o ato sexual em si. Aliás, o ato sexual em si é uma mínima parcela do que seja a sexualidade humana, sem a qual não haveriam invenções, arte, ciência, civilização… Recomendo mesmo o velho Freud, é esclarecedor sobre o que seja a sexualidade que move o humano. Enfim. O que penso que fica negado nesse modo como a amamentação é percebida por nós nos tempos de hoje é justamente isso: que ela é um ato de prazer. Para a mãe e para o bebê.

O próprio Freud já dizia – sim, ele, de novo – que para o ser humano, nem o mais simples e básico ato de alimentar-se era executado apenas como uma necessidade. Bastava o humano estar cercado de outros humanos para que esse ato fosse envolvido de toda uma carga para além da necessidade pura e simples. Mesmo o bebezinho mamando vive muito mais do que saciar o incômodo que seu estômago vazio provoca. Ele vive o calor do corpo da mãe, os cheiros, o aconchego, a sensação de conforto e de proteção. Tantas outras sutilezas que vão junto com o leite para a boca e que fazem com que esse ato tão simples de alimentar-se torne-se um ato humano por natureza, complexo e ligado à experiência do prazer. Sexual, portanto.

Do outro lado desse encontro está a mãe, uma mulher que, a essa altura, já traz consigo uma infinidade de marcas do que seja para ela a experiência do prazer. Seu corpo e sua mente guardam a memória do que viveu, do que sentiu, das realizações e dos sofrimentos que deram a ela um sentido pessoal e intransferível para aquilo que vive como prazeroso, sexual. Em algum ponto de sua experiência, seus peitos foram investidos de algum modo como fonte de prazer: ou pelo social que coloca nas mulheres essa marca dos seios como atrativo ao olhar masculino, ou como zona erógena geradora de sensações prazerosas… enfim… Essa mulher que se torna mãe tem alguma história anterior à maternidade com seus peitos e eles ocupam algum lugar em seu imaginário como mulher, como zona erógena, como fonte de prazer e por aí vai.

Então o bebê nasce e essa mulher se vê, subitamente, arrancada de todos esses sentidos e de todas essas marcas que seus peitos tinham para ela e para os outros e lançada em uma via única, restritiva e oprimente: peito = leite, mulher = mamífera. E essa desvinculação do peito com o prazer é feita de forma tão abrupta e violenta e esse sentido único do peito como alimento é tão aprisionador que não é de se espantar que muitas mulheres – a maioria mesmo – reaja a tal imposição com uma recusa ainda mais violenta. Detestam amamentar, adoecem, os peitos adoecem, se ferem, sangram, elas ficam sugadas, despossuídas de si. A amamentação fracassa, elas partem para outra, os peitos retornam ao seu “devido lugar” e todos respiram aliviados. Será?

Quando digo que maternidade é tsunami e que revira a vida da gente do avesso, penso que isso se dá repetidas vezes, frente a inúmeras facetas do ser mãe. Amamentar pode ser uma delas e pode ser extremamente perturbador. E talvez esse fator, esse espanto, esse incômodo profundo, essa despossessão de si que pode ser vivida como terror quando se amamenta seja uma fonte importante de muitas dificuldades na amamentação que vem sendo negligenciada.

E aí é que está o mais profundo dessa pegadinha, a meu ver: ninguém fala disso, dessas dificuldades, desse terror porque ninguém quer mexer no vespeiro de ter que assumir que quando nos tornamos mães, não nos tornamos um bicho outro que aquele que já éramos. Ao contrário do que impõe nossa moral judaico-cristã, segundo a qual a maternidade só pode se dar em meio ao sofrimento e à dor, não é toda a verdade que as experiências da maternidade sejam apenas devoção sacrifício e entrega. Não é toda a verdade que nos tornamos mãe e nos deixamos de nós mesmas e nos doamos ao outro, nosso bebê. Não é verdade que nossos corpos erógenos e eróticos se tornam insensíveis com o parto e a maternidade. Somos jogadas na obrigação do natural – que nem existe – como se ele fosse sinônimo de a-sexual e de insensível, somos lançadas na obrigação de ter peitos que alimentam e apenas alimentam, somos empurradas para a equivalência mãe = sofrimento = sacrifício. E no dia-a-dia com nossos bebês, vemos que não é bem isso. Nem para eles, nem para nós. Nossos peitos, por exemplo: eles continuam erógenos e eróticos. E o que parece que perturba demais uma grande parte de nós, mulheres, é justamente nos darmos conta disso.

Penso que é justamente quando nos damos conta de que o parto não foi apenas sofrimento, mas foi bom. Ou que amamentar não é apenas doação e superação de obstáculos, mas que é gostoso. Talvez seja exatamente nessa constatação do prazer que muitas de nós encontremos tanta dificuldade, associando esse prazer com algo impróprio e ilegítimo. Como nos fizeram acreditar há um bom tempo. Acreditamos que ser mãe é sacrifício e que só é legítimo quando sofremos um bocado com cada aspecto da maternidade. Estamos aqui o tempo todo a falar disso, de tudo o que é difícil. Mas será que essa insistência no sofrimento e na dificuldade não servem, também, para mascarar isso que percebemos a cada vez que nossos bebês mamam, ou seja, que é um ato de prazer? Ou que é, no mínimo, ambíguo? Amor é prazer. Ou não?

Nós humanos temos uma série de tabus em relação ao prazer e penso que um dos mais intocáveis é este que envolve aquilo que podemos experimentar de bom naquilo que doamos de nós aos nossos filhos. Amamentar pode ser também prazeroso para a mãe e para o bebê. E isso é legítimo.

Outros textos sobre o tema: aqui.

Algumas confissões após seis meses de amamentação…

Amamentar…

… é como passar no vestibular, ou chegar na reta final de uma corrida, ou realizar um projeto importante. Enfim, um pouco disso tudo, só que totalmente diferente, porque amamentar não é uma prova de conhecimentos que te permite se sair bem apenas por estar bem informada, nem uma prova de habilidades físicas, que te permite conseguir por ter preparado seu corpo, nem tampouco uma competição com outras mães para ver quem amamenta mais e melhor e, menos ainda, um projeto do qual se dê conta sozinha.

Logo que a pequena nasceu, talvez como a maioria das mulheres, eu contava com a natureza e com a naturalidade da amamentação para garantir que tudo desse certo. Sabe essa história de que está nos genes e, portanto, basta deixar por conta deles que tudo se resolve? Pois bem, não é exatamente assim. Não sei se para todas as mulheres mas, pelo que vejo das queixas e das dores de tanta gente, para a grande maioria amamentar não é algo natural, instintivo e dado. Ou melhor, não do modo como concebemos algo que deveria ser natural e instintivo como dado.

Fato é que, desde que engravidamos, na medida em que tenhamos o desejo de uma gravidez, um parto e uma maternidade mais conscientes, apropriados, singulares e humanizados, vamos nos dando conta de que começa um longo e árduo trajeto de batalhas cotidianas. Sei que existem pessoas que se preparam antes e, ao engravidarem, já têm em mente com muita clareza o que querem e como querem mas, se a sua experiência for como a minha, possivelmente somos pessoas que vamos pensando conforme acontece e tentamos elaborar e entender o que queremos conforme cada situação nova se impõe. O que significa que temos que elaborar muita coisa em um tempo determinado e, ainda por cima, agira de acordo, no caso de uma gravidez, de um plano de parto ou da maternidade dos inícios da vida de nossos filhos. Não dá para ficar “esperando Godot” naquela reflexão punhetante que dura o quanto tiver que durar e nos vemos pressionadas e coletarmos informações, pensarmos e agirmos com prazo. Tarefa angustiante para uma psicanalista, sempre mergulhada no caldo das livres associações e dos tempos do inconsciente mas, nessa vida, há situações e momentos que pedem uma certa agilidade. Enfim…

Então, grávida, você descobre que precisa batalhar para viver sua gravidez com tranquilidade, sem muitas interferências, sem terrorismo e sem excesso de intervenções. Mais ainda, descobre que terá que lutar para ter um parto digno, humano, acolhedor para você e para seu bebê que chega. E que terá que brigar para ser bem tratada e para que seu filho seja bem recebido neste mundo. Terminados gravidez e parto, começam outras sagas e uma delas – ou a mais intensa delas, a meu ver – é a da amamentação. Porque você contou com a natureza ao longo da gravidez, aprendeu a confiar que seu corpo poderia abrigar bem uma vida ali dentro dele, aprendeu a não se sobressaltar, a não se inquietar com riscos e a escutar seu corpo e os sinais do bebê. Assim como você aprendeu a contar com essa mesma natureza na hora de parir, acreditando ainda uma vez que seu corpo saberia trazer seu filho ao mundo e, principalmente, que esse pequeno saberia vir ao mundo por seus próprios meios e no seu tempo. Então, como é que na hora em que começam os cuidados com o bebê essa tal de natureza não funciona assim tão bem?

Penso que temos uma idéia meio equivocada do que seja confiar na natureza, no instinto, no corpo e na sabedoria dele. Parece que isso significa que podemos relaxar e deixar tudo por conta de uma força que nos é alheia e que nada mais precisa ser feito, apenas estar entregue. Será que é mesmo isso?

Tenho minhas dúvidas. Pois se uma grande capacidade de entrega e de desconhecimento ajuda muito nesses momentos viscerais da existência, o fato de sermos nós, mulheres do século XXI, marcadas pela ciência, pela razão, pelo pensamento, pela lógica faz com que, feliz ou infelizmente, não possamos nos dar ao luxo de uma total inconsciência daquilo que vivemos nesses momentos em que a natureza tem que tomar a dianteira. Quero dizer que ficamos numa condição paradoxal de precisar se aproximar dessas experiências do jeito que somos capazes hoje em dia, ou seja, de um jeito super mediado, cheio de racionalizações, de conhecimentos, de falas, de idéias e assim por diante e, ao mesmo tempo, poder deixar tudo isso em segundo plano, a cabeça descansando em standby enquanto o corpo trabalha. Difícil, não?

Fato é que não vivemos mais gravidez, parto e maternidade como nossas avós e bisavós viviam. Não estamos mais cercadas de pessoas que pariram seus filhos, não escutamos mais suas histórias, dificilmente teremos visto um parto na vida antes do dia de viver o parto de nossos próprios filhos, assim como raramente teremos estado na companhia cotidiana de mães e seus bebês pequenos, acompanhando os cuidados e a amamentação dedicados a eles. Todas essas situações que faziam parte da vida mais banal de nossas avós, bisavós e antes delas, pelo simples fato das famílias serem grandes, das pessoas conviverem de perto com seus familiares de muitas gerações e, principalmente, do cuidado das crianças ser compartilhado entre muitas pessoas, inclusive no que diz respeito à gravidez, parto e puerpério, quando as mulheres mais experientes se encarregavam de cuidar e orientar as mais novas, bem… todo esse jeito de entender e de lidar com a maternidade deixou de existir. Ao menos para nós, mulheres ocidentais burguesas vivendo em certos cantos ditos desenvolvidos desse mundo. E, se não convivemos mais com grávidas, parturientes e mães, e se não as acompanhamos mais nesses momentos, como esperar que tenhamos de onde tirar esse conhecimento visceral que deveria agir nessas horas?

Então, na hora de contar com a natureza para amamentar, a “porca torce o rabo” e percebemos, muitas de nós, que nisso também haverá luta, esforço, batalha, busca de informação, ajuda, orientações desencontradas, violências e desrespeito. E nisso também teremos que fazer face a muitos desafios, muitas opiniões desencorajadoras, muita pressão. E muita insegurança. Ou seja, quando você acha que acabou o mais difícil e que agora pode relaxar e curtir a cria, a coisa está apenas começando.

Assim, muitos perrengues e desencontros depois, foi com muito orgulho e emoção que constatei nossa chegada aos seis meses de amamentação exclusiva. Emoção e gratidão, especialmente à minha filha, que foi quem me ensinou a amamentar. Eis aqui o grande segredo, a meu ver, dessa tal de amamentação e que ninguém conta porque pouca gente sabe: mesmo que nós, as mães, adultas, estejamos muito marcadas por toda a nossa história e nossa experiência de distanciamento de nós mesmas, de nossos corpos e de nossas potências enquanto mulheres parideiras e nutrizes, nossos bebês recém-nascidos sabem. Sabem muito mais que a gente, porque mais conectados ou menos perdidos. Então, se dermos um crédito a esses pequenos e tentarmos escutá-los, respeitá-los e seguir um pouco os ritmos e as demandas deles, muita coisa pode funcionar de um jeito surpreendente.

Claro que não é mágica. O bebê também aprende a mamar, ao mesmo tempo que aprendemos a amamentar. Ele aprende a pegar o seio, a sugar eficientemente. Mas ele tem, como nós também, todos os instrumentos para isso. Basta uma ajudinha ou outra no começo e uma boa dose de paciência que o sujeitinho faz o resto. Basta ouvi-lo, atendê-lo em suas demandas pelo seio, deixá-lo experimentar, ajustar com ele posições, buscar um conforto para ambos. Uma das coisas que aprendi, que parece tão simples de tão evidente, mas que quase me passa desapercebida, é que não se trata de você. Amamentar (como parir) não se trata de você. Não é um projeto seu, uma decisão sua, algo que diz respeito ao seu corpo, ao seu desejo e blábláblá. São dois, percebe? Você e o bebê. Existem duas pessoas aí, dois seres, dois corpos, dois desejos, duas existências que precisam se encontrar e entrar em alguma espécie de acordo sobre como viver tudo isso de uma maneira que seja boa para ambos. E de onde saiam ambos alimentados e felizes.

E, não, esse não é o fim dessa história. Ainda teremos amamentação pelo tempo que a pequerrucha precisar e eu puder. E temos introdução alimentar. Mas isso é outra saga, conto depois.

Outros textos sobre amamentação: aqui.