Quarto e último post de dicas…

… de compras para mamães e bebês na França. Série que eu havia começado nessa intro geral, passando pelas roupas e pelos móveis, carrinho e meios de portagem do bebê. Mas, como ficaram faltando algumas coisas que eu poderia compartilhar com vocês sobre o que tem sido útil ou inútil nesses primeiros tempos de maternidade em termos de produtos, objetos e afins, demorou mais trago aqui o que espero seja o final da lista. Por enquanto.

Vamos a ela, no melhor estilo miscelânea:

  • No quesito fraldas, pois não temos como escapar delas, a não ser que a gente tope fazer algo no estilo Elimination Communication, vamos ter que escolher como lidar com a questão cocô-xixi-bebê. Não apenas não dei conta de fazer o EC, por achar que seria mais uma coisa de grandes dimensões com a qual lidar no início tão conturbado da maternidade, quando o que mais se necessita é sossego e que as coisas caminhem o mais facilmente possível (quem sabe mais para frente, ainda não desisti, porque a idéia é muito boa e simples, se for pensar bem), como também não dei conta de usar fralda lavável. Eu sei, eu sei, estou agindo diretamente contra o meio ambiente que gostaria de preservar para minha filha. No entanto, achei uma boa solução de compromisso com as fraldas descartáveis ecológicas. São algumas marcas que produzem fraldas com menos produtos químicos que agridem a pele do bebê e, ainda, com menos produtos que agridam o ambiente, sendo quase que totalmente biodegradáveis. Bom, já dá um alento, não? Testamos aqui três marcas: Naty Nature Babycare, Moltex e Wiona. Fico com a primeira, excelente. A Moltex também é muito boa, mas achei espessa demais (todas essas fraldas ecológicas serão mais espessas que as comuns porque não têm toneladas de produtos químicos e gel para transformar as cacas do bebê em sei lá o quê, por isso, precisam contar com camadas a mais, ok?). A Wiona, se você não ajusta milimetricamente as laterais, vaza que é uma beleza. E a gente não tem tempo de ficar ajustando laterais como um obssessivo compulsivo quando o bebê está mexendo para todo lado, né? Então, Naty tem sido a fralda por aqui.
  • Personal disclaimer: nunca fiz estoque de fraldas e acho que não precisa. As residências são minúsculas na França, ao menos em Paris. Imagina ficar estocando fralda? Não dá e é o tipo de coisa que você pode comprar assim que o último pacote for aberto. Mesmo comprando pela internet, no caso das fraldas ecológicas, você encomenda em um dia e está na sua casa no dia seguinte. Fora que estocar fralda faz com que você perca uma montanha de pacotes. Não tem como saber quanto tempo seu bebê vai usar RN, 1, 2, 3… Como dica, eu diria para, antes dele nascer, comprar dois pacotes do tamanho de recém nascido e dois do tamanho 1. Porque se o rebento for grande, é capaz de nem usar RN. E vai repondo conforme for acabando. Chá de fraldas, por aqui, só para quem tem muito espaço.
  • Em tempo, um ótimo site para comprar as tais fraldas ecológicas, já que apenas a Naty você encontra de vez em quando nos supermercados, é o Bébé-au-naturel. Os preços são bons, a entrega é muito rápida, vira e mexe tem descontos e promoções e eles vendem, além de fraldas, tudo quanto é produto natural ou bio ligado à maternidade. Inclusive aquele chá da mamãe da Weleda, que aqui chama tisane allaitement e que recomendo muito para todas as que precisem aumentar a produção.
  • Aproveitando carona do quesito amamentação, para aquelas que precisarem tirar o leite, por questão de trabalho ou o que quer que seja, recomendo uma bomba manual da Avent com a qual me adaptei muito bem. Concordo com quem me disse que bomba de tirar leite tem que ser simples e tem que dar para fazer com uma mão só porque, para algumas de nós, facilita na hora de tirar o leite se o bebê estiver mamando no outro peito. Essa bomba tem um bom preço, é fácil de montar e de usar e tem um kit em que já vem os potes para armazenamento, que você tampa e coloca na geladeira. Sem bisfenol A, aquele composto do plástico que é tóxico. Do kit, diria apenas para jogar fora o bico de mamadeira que você pode acoplar no pote de armazenamento e já dar o leite ali mesmo para o bebê. Acho que é melhor oferecer o leite no copinho, na colher ou, até, na mamadeira colher da Medela, por exemplo. Mas esse é o tipo de coisa que é possível comprar depois, quando surgir a necessidade.
  • ainda nesse assunto, bico de silicone, concha e toda essa parafernália não apenas são inúteis mas, ainda, atrapalham a amamentação (o bico de silicone) ou trazem risco de fungos e bactérias, como as tais conchas ou os absorventes para seios. Os seios têm que ficar arejados, secos e limpos, não úmidos e abafados. Das dicas salvadoras que recebi durante esse período, uma das mais importantes foi essa de deixar essas tralhas de lado, pois trazem mais problemas do que benefícios. Absorvente para seios, eu usei apenas em momentos de sair para fora de casa e, ainda assim, somente no começo, quando os seios realmente podem vazar muito (com o tempo, a produção regula com a necessidade do bebê e os seios praticamente não vazam). Nada de passar o dia com eles.
  • e aqueles cremes cicatrizantes, para o caso de fissuras ou machucados, tipo Lansinoh? Olha, comigo funcionou muito bem em momentos críticos, mas tem dois poréns que pouca gente vai te dizer. O primeiro é que não faz sentido algum usar esse tipo de creme ou qualquer outro tipo de produto no seio de forma preventiva. Seu seio é preparado pelo seu corpo e pela sucção do bebê, não precisa de mais nada. Nada de bucha, de estropiar o coitado, deixa ele sossegado ali que a natureza cuida do resto. O segundo porém é que passar esse tipo de creme de lanolina após cada mamada – como chegaram a me orientar – pode ser um tiro no pé. Porque esses cremes são super gordurosos e ficam na pele. E a pele do seu seio fica bem escorregadia. Junta isso com um bebê recém nascido que ainda não sabe pegar direito e que fica escorregando a boca e você poderá ter muito mais trabalho em ajustar a mamada. Ou seja, um produto que deveria te ajudar, mas que pode fazer a boca do seu pequeno escorregar, pegar errado, machucar ainda mais seu seio e dificultar muito mais para o pobre bebê faminto. Melhor usar apenas em casos críticos, né? Ou então passar o bom e velho leite materno mesmo nos bicos rachados, pois nosso leite tem alto poder de cicatrização.
  • o mesmo vale para os famigerados soutiens de amamentação. A menos que você tenha seios enormes, que fiquem ainda mais gigantescos com a amamentação, e precise de um suporte, uma sustentação para se sentir mais confortável, te digo: esses trambolhos só servem para atrapalhar. Pensa comigo: o bebê está com fome. Ele resmunga, chora, se irrita. Você levanta a blusa, baixa o soutien, isso quando conseguir encontrar o fecho que permite baixá-lo, claro, arranca o tal absorvente da frente, embola tudo isso num canto e, nesse ponto, o bebê já está mega estressado. Daí tenta aproximar ele do seu seio para fazer a pega correta com aquele monte de pano ali embolado, dificultando que vocês achem uma posição confortável. Se ainda tiver uma bela camada de creme de lanolina então… é a glória. Gente, não tem como funcionar, entende? É o seguinte: o peito vai cair, não tem soutien que segure. Vai cair mesmo que você não tenha filhos ou não amamente. Peito cai. Peito de quem amamenta cai também. Faz parte. Para quem se incomoda com isso, sugiro que guarde o dinheiro de toda essa porcariada para fazer plástica depois.
  • em tempo, ainda nesse quesito, havia me esquecido de um item super importante, que ficou tão incorporado na rotina que até me esqueci que faz parte do enxoval e só agora lembrei e voltei para editar o post. É a almofada de amamentação. Pode ser um travesseiro, uma almofada comum, ou uma daquelas específicas para amamentação, como essa maravilhosa da Boppy que herdamos da minha irmã e do meu sobrinho. Você amamenta uma vez meio desajeitada, noutra com os ombros encolhidos, noutra com as costas tortas, noutra sem apoio e, no final de um dia, dois, uma semana, um mês… você está arrebentada. Amamentamos de oito a doze vezes por dia e o bebê cresce, ganha peso e começa a pesar no braço. Então, tudo o que puder deixar essa experiência o mais confortável possível merece ser utilizado. Além disso, a mesma almofada de amamentação quebrou um galho durante o fina da gravidez quando, versátil, servia de apoio para a barriga na hora de dormir de lado. Foi o único modo de conseguir uma posição para dormir durante cerca de um mês… ou seja, essa almofadinha é salvadora.
  • por outro lado, no campo dos produtos de higiene para o bebê, por aqui nos demos muito bem com os produtos da Mustela. No Brasil eles custam uma fortuna, mas aqui são vendidos em qualquer farmácia por preços totalmente abordáveis. Os géis de banho, para corpo e cabelos são ótimos e práticos, assim como as barras de sabonete. O creme para a troca de fraldas também, funciona maravilhosamente quando começam vermelhões ou assaduras. Quando não tem nada disso, recomendo o liniment oléo-calcaire deles, dica boa de auxiliar de puericultura da maternidade. Aqui não se coloca uma camada de pomada para assaduras a cada troca de fralda a menos que o bebê tenha assaduras. Parece lógico, né? Eu, como sempre achei esquisita aquela crosta branca permanente em bumbum de bebê, gostei muito desse liniment, que é como um creme à base de óleo de oliva, bem gorduroso, que faz uma camada de proteção sem ficar grudento. Você pode investir em um frasco de liniment, outro de creme para assaduras e mais um gel de banho ou sabonete e, com isso, tem um belo kit básico para o bebê. Creme hidratante só usamos agora no frio, quando a pele fica mais ressecada como acontece com todos nós, mas não foi artigo de primeira necessidade. Protetor solar também, apenas quando fomos encarar o verão brazuca. Mas, ainda assim, preferi investir mais em chapéus que em cremes protetores para a pequena, porque pele de bebê é super sensível e ficar besuntando de produtos químicos assim logo de cara me pareceu um pouco demais. Pelo mesmo motivo, perfumes ou colônias para bebê é algo que me pareceu totalmente descabido. Bebê tem um cheiro delicioso, nada mais desnecessário que perfume para bebê (sim, tem isso aqui e os franceses parecem achar que é um ótimo presente, pois a pequena ganhou 3!!!).
  • ainda nesse tópico, de todas as coisas que vêm em um estojo de produtos de higiene para bebê, usamos apenas o cortador de unhas, a escova de cabelo e o termômetro. Aquele limpador de nariz fica pegando pó, já li que pode até machucar o nariz do bebê e, ainda por cima, aqui qualquer profissional de saúde vai te orientar a limpar o nariz do pequeno com soro fisiológico. Sempre. Nada de enfiar cotonete, limpador de nariz, limpador elétrico de nariz (sério, gente, como pode?), é soro fisiológico e pronto. E olha que resolve.
  • para as mamães, a Mustela também tem produtos maravilhosos. Um creme anti-estrias para passar ao redor dos seios, na barriga e nas coxas que foi meu companheiro por nove meses e deixou minha pele intacta e um creme de hidratação profunda para todo o corpo que também funcionou maravilhosamente. Acho que foram as melhores aquisições que fiz para mim durante a gravidez.
  • ainda para as mamães, além dos produtos de beleza, do chá da mamãe e dos famigerados soutiens, penso que no maravilhoso mundo da maternália não pode faltar uma calça jeans de grávida. Esse é o único item de roupa que eu achei fundamental ter comprado. Blusas largas, regatas, vestidinhos com corte capaz de acolher um barrigão… tudo isso foi possível encontrar em qualquer loja de qualquer marca por aqui. Coisas para usar antes, durante e depois. Mas a calça foi fudnamental. Porque chega uma hora que não dá mais para colocar alargador de fecho de calça. Nem deixar a dita cuja aberta mesmo. E não tem nada mais desconfortável do que roupa apertando o barrigão grande, é horrível. Então, se tiver que comprar uma única peça de roupa, invista na tal calça. Mesmo que não vá usar depois.
  • para tudo aquilo que pode ser comprado usado, recomendo o site leboncoin. Importante lembrar que aqui na França não existe nenhum preconceito contra comprar usados, não é coisa de pobre, nem nenhum desses preconceitos bregas de novo rico que a gente adora proferir na nossa terrinha, apenas coisa de gente que tenta consumir com menos desperdício. Enfim, no leboncoin você encontra de apartamento para alugar a gente vendendo tudo o que você puder imaginar. Inclusive artigos de bebê. Penso que para coisas que usamos tão pouco e que são reaproveitáveis e resistentes como berço, mobiliário de quarto, trocador, carrinho e afins, pode-se fazer excelentes negócios.
  • bom e barato você encontra também no Monoprix. Sim, o supermercado tem uma linha de roupas de boa qualidade a bons preços. Assim como a Hema. E a H&M, como me lembraram noutro post (obrigada!). E a Baby Gap, Vertbaudet e The essential one.
  • cadeirão, colheres, pratinhos, recipientes térmicos e afins? O bebê só vai começar a se preocupar com isso aos seis meses. Você pode fazer o mesmo.
  • brinquedos? Bom, a menos que você faça absoluta questão de dar um brinquedo específico para seu bebê, melhor economizar porque a maioria das pessoas vai dar brinquedos de presente. E está aí uma coisa que se acumula mais rapidamente do que os pequenos têm a capacidade de brincar e de realmente aproveitar cada uma daquelas coisinhas. Brinquedos, tapete de atividades, cadeiras, transats, móbiles com luz, música, barulhos… não sei não, mas começa a ficar um excesso de estímulos infernal, que muitas vezes mais estressa do que diverte. Bebês nascem mal conseguindo enxergar um palmo na frente do nariz, não vai adiantar colocá-los frente a um monte de brinquedos barulhentos, coloridos ou o que quer que seja. Leva um tempo até eles começarem a se interessar em olhar ao redor. E o que é bonito de ver é exatamente que o que parece atrair são luzes, sombras, movimentos, cores fortes… Não precisa correr com brinquedos, nem acumular uma montanha. Menos fraldas e menos brinquedos nesse mundo dos bebês, por favor!!!

Boas compras e, principalmente, boa maternidade. Se quiser saber o que é o mais importante providenciar para o bebê que vai nascer eu te digo, com toda seriedade e verdade, que não é nada disso que comentei ao longo desses posts. O mais importante a ser preparado é um lugar na vida dos pais para esse bebê, é preparar o coração para as mudanças e para as surpresas. E preparar-se para parir, para amamentar, para o corpo e a alma funcionarem, trabalharem em prol daquele pequeno que vai chegar. Todo o resto é supérfluo. E mais vale passar nove meses se preparando para esse acontecimento do que fazendo compras, arrumando quarto e outras distrações que, ainda que agradáveis, nunca vão dar conta do essencial.

Boa sorte nesse preparo de si, mamães!

Há seis meses atrás…

… eu não tinha como saber que a maternidade é assim: uma compilação de alegrias inomináveis e de medos aterradores. Seis meses de uma revolução permanente, em que cada dia traz o desafio de estar ali, presente, viva e capaz de viver, contigo, toda a surpresa que um mero dia pode conter. Seis meses de introspecção e de trabalho constante para estar disponível. Aquela força descomunal que fazemos para dilatar o colo do útero e para o bebê sair é mais ou menos a mesma força de abertura que temos que fazer todo dia, para deixá-lo existir, ser, descobrir, manifestar-se. E para ser companhia e porto seguro nesse cotidiano de descobertas.

Há seis meses atrás, eu não sabia o que poderia ser o amor, esse amor que transborda com um olhar, um sorriso banguela, um som perto de dizer mamãe, uma expressão de tranquilidade durante o sono… Esse amor que não é dado, nem óbvio, mas que se constrói nessa convivência tão íntima com tal força que não conseguimos mais lembrar de como era quando ele não existia.

Sua existência traçou uma linha divisória na minha vida, dando a tudo o que era antes o nome de passado e me mergulhando em um presente cheio de gestos, onde tudo ganhou ares de simplicidade. Como é difícil viver simples e verdadeiramente, encarnada no próprio corpo e nos acontecimentos de cada dia! Como é difícil apenas estar ali!

Seis meses de amamentação exclusiva, uma vitória para nós duas, uma vitória desse contato, dessa intimidade, desse olho no olho, desse conhecer-se mútuo que se fazem no silêncio pele-a-pele. Vitória desse tempo que corre pastoso como lava, do desconhecimento em que se tem que apostar. E confiar. Vitória de um saber visceral sobre os saberes e os poderes de outros, que nada tinham a ver com isso. Confiar em mim e em você.

Há seis meses atrás eu não sabia que a maternidade não é algo dado, nem evidente. Não sabia que podemos seguir os estereótipos e nos deixarmos levar ou tomar as rédeas da própria vida também nesse ponto e pensar com cuidado em cada decisão. Mas a sua existência me encheu de uma tal responsabilidade que não teria como seguir o vai-da-valsa como gado. E cada decisão cotidiana tornou-se uma reflexão, busca de informações e, principalmente, um combate contra os outros que prefeririam ter a facilidade de não ter que se colocar em questão. E contra eu mesma, minha preguiça, a vontade de deixar tudo quieto e não enfrentar nenhum demônio. Porque lutar, dá tanto trabalho… Mas te olhando todos os dias nos olhos e vendo o quanto você precisa e conta comigo, não pude me furtar a todas as questões, todas as tomadas de decisão, todas as apostas.

Quiseram te deixar em um berço no seu quarto desde o primeiro dia e eu tive que dizer não.

Quiseram te deixar chorar para você aprender a dormir sozinha e eu tive que dizer não.

Quiseram te dar mamadeira antes mesmo que tivéssemos a oportunidade de aprender a amamentar e a mamar. Eu tive que dizer não.

Quiseram que você vivesse em um ambiente cheio de gritos, desrespeito e hostilidade e eu tive que dizer não.

Quiseram que você não fosse prioridade. Eu disse não.

Com isso nos afastamos de muita gente. E eu enfrentei várias batalhas, muitas vezes sozinha, apoiada pelas informações que tinha, pelo meu julgamento, por minha aposta e por umas poucas pessoas, bem poucas, que estavam em sua maioria longe. Mas perto, ainda bem que elas estavam por aí, ligadas, capazes de ouvir e de falar, disponíveis. E isso trouxe muitas idas e vindas, muitas viagens, muitas decisões. E muitas mudanças. E, não, não foi um sacrifício que fiz por você, pois não acredito nisso, em carregar um fardo por você, minha pequena. Nem acredito em sacrifício. Acredito em lutar por si mesma e em lutar por alguém que precisa que lutemos por ela. Acredito ter descoberto que a maternidade também é isso, essa disposição em lutar, em virar bicho, em mostrar os dentes e em proteger a cria de tudo e de todos que representem uma ameaça. Até conseguir um lugar seguro e poder pousar. E jamais será sua a responsabilidade pelo que decidi e fiz. São minhas as decisões e minha a responsabilidade. Você terá as suas apenas no momento em que puder tê-las, nada vai te cair nos ombros antes disso. Maternidade também implica em não despejar em cima de um bebê as escolhas e os atos de uma mãe. O que eu faço por você, eu faço por mim também e por minha livre e espontânea vontade. Enquanto isso, sua responsabilidade é a de descobrir o mundo, olhar tudo com olhos curiosos, lamber o gosto do mundo e da existência. E tentar entender como seus pés e pernas funcionam para ver se consegue finalmente coordená-los com seus braços e seus quadris e, quem sabe, sair engatinhando por aí, em busca dessas coisas todas que te interessam tanto.

Há seis meses atrás eu não sabia de tantas escolhas, do medo de errar, da preocupação em fazer o melhor, dos temores que acompanham esse amor tão imenso: medo que você sofra, medo que adoeça, medo de te perder, medo que te façam mal… Medo dos perigos e das dores do mundo. Depois de mãe, pela primeira vez olhei para um garoto pedindo dinheiro no farol e chorei da dor de pensar em como seria se fosse minha filha ali e em como meu coração ficaria em pedaços se ela passasse por uma situação dessa. Não há como ser mãe e não se inquietar pela humanidade inteira, sabendo que seu filho vive nesse mundo e que, para que ele possa ser bem recebido, o mundo precisa estar tão bem cuidado quanto você cuida dele, do seu pequeno. Minha urgência por um mundo generoso e por pessoas mais éticas cresceu imensamente depois do seu nascimento.

Não sabia que ser mãe é uma das coisas mais democráticas que existe: ela te coloca, como mãe e mulher, em pé de igualdade com qualquer outra mãe. Vocês partilham uma experiência do parto, da amamentação, de cada gesto e de cada conquista do filho. Mesmo tendo vivido experiências diferentes quanto a cada uma dessas coisas. E mesmo que cada mãe tenha ideais e valores diferentes. Existe algo visceral que nos une e que permite uma conversa, uma proximidade, um encontro. Compaixão e cuidado com o outro: esses foram os gestos mais tocantes que descobri entre mães.

Não, nem tudo são flores. Tem cansaço, tem saco cheio, tem um sentimento de ser arrancada de si mesma e de perder as rédeas da própria vida, tem uma sensação de impotência, tem o desconhecimento do futuro, tem o não saber o que fazer, tem projetos que explodem, tem a vida fora do Brasil, tem solidão e incompreensão… Tem tudo isso. E tem muitas mudanças, muitas apostas e a construção de algo que nem sabemos ainda o que é. Mas, como poderia ser diferente? A vida mudou totalmente com a sua chegada e isso é bom. De verdade. E o que é bom não é viver em um comercial de margarina. O que é bom é justamente esse desconhecido diário que traz surpresas e obrigada a trabalhar, a pensar, a decidir. Ser mãe me obriga a estar viva e a viver. Bem.

Seis meses depois, minha filha, o que posso te dizer é que sinto um orgulho imenso em poder te acompanhar nessa vida e uma alegria igualmente imensa em que você exista. Você me colocou vários desafios e várias questões pelo simples fato de ter nascido. E isso me torna uma pessoa melhor. Não apenas para mim mesma mas, espero, para o mundo e, principalmente, para você. Onde vai dar nossa jornada eu não faço idéia. Mas tem sido um privilégio esses intensos seis meses juntas.

Terceira parte das dicas de compras…

… para bebês e mamães aqui na França. Depois da intro geral e das roupas, vamos aos móveis e outros objetos do enxoval do bebê.

  • berço: essa é uma discussão mais de fundo, porque a importância do berço tem a ver com como você pretende criar seu bebê, especialmente no começo. Pretende fazer cama compartilhada? Então, um berço é o maior desperdício de dinheiro que você vai ter. Pretende deixar o pequenino dormindo ali do seu lado? Novamente, será um desperdício comprar um berço. Vai ficar pegando poeira, juntamente com tudo o mais do tal quartinho do bebê, que todo mundo diz que a gente tem que fazer mas que, na verdade, serve apenas para nosso exercício de vaidade ou de decoração. Sei que têm muitos pais que tentam e até deixam o bebê no seu próprio quarto desde o início. Mas além de não ser o melhor para o bebê, que fica totalmente desamparado naquele lugar solitário e silencioso, depois de ter passado nove meses aconchegado e quentinho na nossa barriga barulhenta, também não é o melhor para a mãe, especialmente aquela que amamenta e que vai ter que levantar dez mil vezes à noite, andar até o quarto, sentar em uma poltrona para amamentar e depois tentar voltar a dormir antes que o bebê acorde para outra mamada. OK, pode ser bonitinho, mas é zero em praticidade essa história de quarto do bebê. Além do mais, que mãe não fica com sono leve e querendo checar se o bebê está bem? A exaustão dos primeiros meses me fez perceber que cama compartilhada ou berço ao lado da cama, no quarto do casal, são muito mais adaptados para a realidade de ter um recém-nascido. Gastei dinheiro num belo quartinho de bebê todo mobiliado à toa. Penso que esse gasto vai fazer sentido bem mais tarde, quando o pequeno for capaz de dormir sozinho, o que pode levar um bom tempo. E, se forem anos, ele vai passar direto da sua cama para uma cama dele, o que torna o tal berço ainda mais obsoleto.
  • se não for berço e nem cama compartilhada, o que, então? Aqui, usamos muito uma excelente nacelle, aquele moisés de bebê que se usa no carrinho quando ele é recém-nascido e ainda não fica sentado. A nossa era essa aqui, da marca Bébéconfort de que gosto muito. Até agora, foi o que valeu outro investimento inútil e caro, que é o tal carrinho de bebê (falo disso já já). Enfim, a pequena dormiu abrigada e confortável ali até seus 4 meses. Foi MUITO melhor do que tentar colocá-la no berço gigante em que ela ficava perdida, mesmo envolta pela gigoteuse. Fora que melhorou demais para mim também a qualidade do descanso à noite, já que era apenas o caso de tirá-la da nacelle, deitá-la na cama e amamentar deitada, praticamente dormindo. E ainda, no caso de precisar transportá-la de carro, é um moisés adaptado a esse uso. A pequena vai deitada – o que eu particularmente achei bem melhor do que ir sentada, escorregando até virar um tatu-bola, porque bebê pequeno é todo molinho e não consegue se ajeitar naqueles bebês confortos de jeito nenhum. O pescoço vira pro lado, a cabeça cai para a frente e você tem que ficar fazendo mil manobras para o pobrezinho conseguir viajar com o mínimo de conforto. Então, nacelle para dormir e para transportar. Viva!
  • outra opção que achei muito boa e prática foi o que eles chamam de lit de voyage, aqueles berços desmontáveis um pouco menores que um berço comum. Usamos este aqui, da Chicco, que é caro, mas excelente. Fácil de montar e de desmontar, o colchão é muito bom, não daqueles super finos que se encontram normalmente nesses berços. Além disso, ele é mais alto, o que faz diferença especialmente no inverno, quando outros berços portáteis colocam o bebê praticamente encostado no chão. E daí, não tem jeito, o pequeno pega toda a friagem que sobe dali… nada bom isso. De todo modo, é importante ter em conta que esse tipo de berço é para um bebê até cerca de seis meses, ou quando eles aprendem a ficar sentados sozinhos, pois a partir daí, como eles não são muito fundos, ficam perigosos, como as nacelles.
  • mais uma opção, que dura bem mais tempo do que o moisés e o berço de viagem é o que eles chamam de lit parapluie, que também é um berço desmontável, mas justamente daqueles maiores, em que o bebê fica lá no fundo do berço, quase no chão. Se você tem tapete no seu quarto ou algum meio de proteger o rebento da friagem (estou parecendo uma avó com essa história de friagem, né?) ou se seu pequeno nasce no verão, acho que é o melhor investimento a fazer. Melhor que os outros dois porque dura mais tempo, melhor do que um berço comum que vai ficar te aporrinhando num quarto sem uso, esse ao menos pode ficar do lado da sua cama e pode ir para qualquer casa de sogra ou de mãe, quando a família viajar. O melhor que minha filha já usou, justamente em uma dessas andanças em terras brasilis, foi um da marca Burigotto, que não vende aqui, mas vende no Brasil.
  • trocador: a table à langer, a meu ver, não é essencial. Mas também não é um desperdício. A gente acaba trocando o bebê em mil lugares diferentes, na cama, no sofá, no tapete, nas cadeiras do restaurante (não perguntem, por favor…) e fazemos isso mil vezes por dia. O que significa que, para as nossas costas, um trocador na altura adequada é uma MARAVILHA. Então, o que eu diria é que, se der para gastar com isso, vá em frente. Nós usamos esse aqui, da marca Sauthon, que é bem sólida e duradoura em termos de móveis de bebê. Fora que todos se transformam em outra coisa, berço que vira cama, trocador que vira banco, o que ameniza um pouco os gastos, pois serão usados mais tempo.
  • banheira: eu diria que vale o mesmo que para o trocador. É totalmente possível dar banho em um bebê no chuveiro – ainda que eu sempre fique com aquela aflição de que o bichinho vai escorregar – ou mesmo na banheira normal da casa. Mas ter uma banheirinha com pé, que coloca o pequeno naquela altura ótima para poupar seu lombo combalido de um milhão de “abaixa-levanta” diários é bem, bem bom.
  • carrinho de bebê: de novo, merece discussão. O carrinho aqui tem enfeitado a sala, depois que parou de servir como berço para a pequena. Nada mais. Eu não uso o carrinho para transportar minha filha. Por quê? Primeiro, porque Paris é uma péssima cidade para grávidas e mães de bebês de colo. Tem escada demais e gente solidária de menos. O pior pesadelo de uma mãe é ter que carregar bebê e carrinho nas intermináveis escadarias do metrô parisiense e a maior parte das estações não possuem elevador. O que eu faço, então? Portagem. Além de resolver problemas práticos como esse, penso que é a melhor maneira de transportar um bebê. Lugar de bebê, como já disse anteriormente, é no colo. Bebê precisa do contato com a mãe, do calor, do cheiro, do coração batendo. E a mãe precisa ter uma certa mobilidade para transportar seu rebento. Nossas antepassadas e nossas atuais latinas, asiáticas e africanas sabem das coisas: bebê no colo é mais tranquilo, tem menos cólica, chora bem menos e mais um monte de benefícios que eu, entre outras pessoas, já enumerei. Fora que é tão mais prático.
  • então, se for se aventurar no maravilhoso mundo da portagem, aqui nos adaptamos muito bem ao sling de pano e não muito ao sling de argola. A pequena se adaptou bem também ao canguru, mas vale lembrar que, se for investir em um deles, verifique sempre se é ergonômico, fisiológico, ou seja, se permite ao bebê ser carregado na posição correta, que é com os joelhos na altura dos quadris. No quesito écharpe de portage, recomendo os wrap slings super bem feitos da Storchenwiege, uma marca alemã excelente, resistente e duradoura, ou os bem fresquinhos da Fil’Up francesa. Esses últimos cedem um pouco no tecido, mas são bem confortáveis para o verão, quando um tecido muito grosso pode incomodar um tanto, fazendo mãe e bebê transpirarem em bicas. No caso da opção ser o canguru, a melhor opção que encontrei foi a Ergobaby. Bebê fica ótima ali dentro… e descobri noutro dia que até a Gisele usa…
  • mamadeiras e chupetas: aqui nem é caso de ser necessário ou inútil, mas sim caso de comprar algo que é contraproducente e joga contra você. Meu conselho mais sincero, se você pretende amamentar, é NÃO, NÃO e NÃO. Eu ganhei de presente e nunca usei. E concordo com quem diz que ter essas porcarias em casa só serve para te desanimar e te deixar mais insegura quanto à sua real capacidade de alimentar o seu filho. Eu cheguei até a comprar uma lata de leite em pó, por orientação de uma pediatra que não entende nada de amamentação. Guardo a dita cuja junto com mamadeiras e chupetas, tudo fechado, como um troféu e dou uma olhada nelas sempre que preciso reunir forças para fazer frente a esse mundo desinformado que insiste em afirmar que não faz diferença dar leite materno ou em pó para um bebê. Faz. E enfiar uma chupeta no meio disso tudo ainda ajuda mais a confundir o bebê, que aprende a pegar chupeta e mamadeira e passa a ter mais e mais dificuldade em pegar o seio. Tenho escrito muito sobre isso e indico muitas outras leituras a respeito ao longo do blog e proponho que cada mãe se informe realmente a respeito de mamadeiras e chupetas antes de tomar uma decisão. E, te garanto que se você precisar mesmo, mesmo, mesmo de mamadeira e leite em pó, pode mandar o maridão em qualquer farmácia que ele encontra. Na França, mamadeiras e leite em pó ficam expostos nas vitrines das farmácias, então, nenhuma dúvida de que o lobby da indústria do leite em pó vai muito bem por aqui, obrigada e que seu rebento não vai passar fome. E quanto à chupeta, melhor ler ao menos isso aqui antes de decidir.

Sigo com as dicas de um pouco de tudo no próximo post, para finalizar, ok?

Dicas de compras…

… para grávidas que moram na França. Ou que passam por aqui de férias em período de gestação. Atendendo a pedidos, segue aqui em dois ou três posts uma pequena lista de descobertas úteis que fiz durante a gravidez.

Mas antes, dois personal disclaimers super importantes para você entender a tal lista.

Primeiro: este não é um post pago, eu não aceito e não recebo por divulgar nenhum produto aqui neste blog (sim, já me propuseram e, não, eu disse não) e qualquer indicação que você encontre neste post baseia-se apenas na minha experiência com o que tem dado certo por aqui, ok?

Segundo: gravidez e maternidade se tornaram uma mina de fazer dinheiro para uma indústria bem pouco escrupulosa em inventar milhões de necessidades que não existem. Eles querem te convencer de que você precisa de tudo aquilo que está nas listas e nas propagandas. E que toda aquela tralha é fundamental para você e seu rebento. Acredite: não é. E eu não tenho nenhuma vontade de incentivar o consumo pelo consumo ou o consumo superficial, porque não acho que isso leve a nada além do desperdício de dinheiro, de energia pessoal e de recursos do nosso planeta. Então, vou dividir essa lista em três partes: 1) como comprar na França e tirar o máximo proveito do seu dinheiro, 2) o que, nesse vasto mundo dos artigos para bebê, eu – pessoalmente – realmente utilizei e, 3) quais marcas e bom negócios encontrei por aqui.

Assim, sem mais delongas, a lista.

Como comprar:

  • Primeiro de tudo: aproveite as soldes. Aqui na França, as pessoas vêem aquilo que querem comprar nas lojas e esperam a liquidação para fazê-lo. Ninguém sai gastando rios de dinheiro sabendo que pode comprar mais barato dali a pouco tempo. As soldes são regulamentadas pelo governo (povo organizado é isso aí), sendo cinco semanas no inverno, começando na segunda quarta-feira do mês de janeiro e cinco semanas no verão, começando na última quarta-feira do mês de junho. Além disso, os comerciantes têm direito a fazer algumas outras soldes durante o ano, menores. Mas o conselho é: se puder, aproveite as liquidações, pois os preços compensam para a compra de qualquer tipo de produto.
  • Outra dica geral: aproveite as lojas de destockage, ou as lojas comuns que colocam em suas vitrines o anúncio de destockage que significa, basicamente, algo como “queima de estoque”. Também é um momento em que você pode encontrar excelentes ofertas. Fique atenta apenas para, caso pense em comprar coisas grandes, como móveis e afins, que na maior parte das vezes a destockage implica em que o cliente lev o produto. Veja com o vendedor se é possível fazer entrega, ou você corre o risco de ter que sair carregando a cômoda linda e barata do seu bebê nas costas pelo metrô afora.
  • Mais uma: aproveite os outlets. Não, aqui não é Miami e não existe um outlet em cada esquina. Mas até existem alguns. Um dos mais conhecidos, em que você encontra ótimas marcas de produtos de bebê por excelentes preços, próximo de Paris, é o de Marne-la-Vallée. Mas, novamente, vale o alerta: se estiver de carro é mais tranquilo do que ter que pegar o RER lotado para ir até lá e, especialmente, para voltar cheia de pacotes. Veja se vale à pena, se tem como contar com a ajuda de alguém para carregar peso e, principalmente, se você está em condições de enfrentar lugar lotado (são dicas para grávidas e grávidas não precisam passar perrengue, né?).
  • Outra dica geral (e minha predileta): aproveite os sites de internet. Na Europa, como nos EUA, uma infinidade de sites entregam em casa, a preços baixos, muitas vezes sem nem cobrar taxa de entrega, com segurança tanto no envio dos seus dados quanto no envio dos produtos e com a vantagem, no caso da França, de você poder comprar em toda a comunidade européia sem pagar imposto. Verifique, faça uma pesquisa. Os próprios sites de suas lojas e marcas preferidas, em sua maioria, fazem venda online e fazem inclusive promoções que só valem para compras online. Em termos de conforto e praticidade, não tem nada melhor.
  • Meus sites favoritos para compras online por sua praticidade, qualidade e seriedade: o amazon francês, que tem uma seção bébés et puériculture com tudo, tudo, tudo, de roupas a móveis, de fraldas a objetos de decoração. Resolve, entrega rápido e você encontra boa parte das boas marcas de produtos para bebês à venda ali. Se for navegar pela amazon, observe que nem todos os produtos são vendidos diretamente por eles (eles intermediam vendas com outras lojas, atualmente). Assim, logo abaixo do produto, está sempre escrito quem está vendendo. Clique sobre o vendedor apenas para dar uma olhada se ele já foi avaliado pelos consumidores e se tem boas notas. Isso ajuda a saber se é um vendedor confiável, se entrega rápido e etc. Ajuda ainda a saber de onde virá seu produto, se a loja não estiver na França e se você vai ter que pagar pelo envio e o quanto (você pode encontrar algo fantástico, a preço de banana, mas se ele vem dos EUA e você vai ter que pagar 30€ de envio, já não parece tão em conta assim, né?). Ah, veja também o prazo de entrega, que sempre aparece logo abaixo do produto e do vendedor e veja se já foi avaliado pelos consumidores. O produto em si, quero dizer. Como toda compra pela internet, ainda mais se você não conhece a marca que está comprando, nada como passar os olhos pelas opiniões de quem já adquiriu aquilo. Isso já me poupou umas tantas vezes de gastar com produto de má qualidade ou com coisa que não servia exatamente para o que eu precisava ou para a idade da minha bebê. Em tempo, a amazon francesa também faz liquidação e tira até 70% dos preços das coisas. Como são muitos os gastos nesse momento, vale aproveitar.
  • Meu outro site de compras favorito: vente-privée. Você se cadastra e, todo dia, abrem as vendas de uma série de marcas, com descontos que tiram até 50%, às vezes 70% dos preços. Eles possuem parcerias com todas as marcas de roupas de bebês e crianças européias conhecidas no Brasil (Petit Bateau, Jacadi, Tartine & Chocolat, Chicco…) e muitas outras ótimas que não são conhecidas por aí (Catimini, Vertbaudet, Noukies, Du pareil au même…). Fora as vendas de grandes estilistas que fazem roupas para os pequenos, como Agatha Ruiz de la Prada, Kenzo, John Galliano… Há também as vendas de sapatos para crianças, de carrinhos de bebê, móveis, roupa de cama, de banho, objetos de decoração, brinquedos… As vendas aparecem no site, com data para começar e terminar. Preste atenção nos tamanhos (a numeração na França é diferente da do Brasil, tanto para roupas quanto para sapatos, consulte uma tabela aqui.) Veja também a data provável da entrega, já que precisa acabar a venda e, depois disso, ainda leva um tempo para eles separarem tudo e te enviarem. Normalmente o site te envia um email quando a mercadoria é enviada e o correio te envia outro dizendo quando vai chegar. É bem eficiente e vale a pena. Basta ter paciência para aguardar as vendas que te interessam começarem e, ainda, sangue frio para não sair comprando tudo e mais um pouco, dados os preços.

Logo mais, o post sobre as coisas que têm sido úteis ou totalmente inúteis por aqui. E os achados, marcas e objetos legais que descobri nesse planeta maternidade. Boas compras e consuma com cuidado e consciência.

Esse post continua aqui.

Amamentação: o que tem…

… e o que não tem funcionado. Para minha filha e eu, claro. Porque a singularidade dos envolvidos nesse ato certamente há de influenciar naquilo que dá certo ou não. Feita a ressalva, vamos em frente.

Acho que posso resumir em duas palavras aquilo que tem funcionado conosco: livre demanda.

No começo da amamentação, recebi as orientações mais desencontradas possíveis… E se tivesse persistido por um longo tempo nelas, certamente teria complicado ainda mais um começo tão delicado. Ou, talvez, até inviabilizado a amamentação. Então, vou falar sobre como descobrimos a duras penas o que é livre demanda através de tudo aquilo que não funcionou, ok?

Amamentar a cada 3 horas, por exemplo. Por que não funciona? Você come com hora marcada e em intervalos regulares? Pois é. E por conta desse intervalo imposto tinha choro que eu achava que não podia ser fome e ficava tentando enrolar – outra sugestão totalmente furada. E por que não dá certo enrolar e tentar seguir os horários? Porque o bebê fica chorando, com fome, estressado, pode até dormir um tempinho de cansaço e logo em seguida volta a chorar, mais estressado ainda. E quanto mais se perpetua esse ciclo, mais difícil de acalmá-lo. Uma tortura para ambos. O bichinho chorou ou começou a te cheirar, fazer boquinha, mamar o ar, a mão, o braço de quem está com ele no colo? Fome. Peito. Pronto.

Oferecer cada peito por 5 minutos, ou por 15 minutos, ou por x minutos quaisquer. Por que não funciona? Porque cada um tem seu ritmo para comer, não? Imagina se te dissessem que você deve comer em 5 minutos? Você engoliria tudo para passar mal depois? Ou seria arrancado da mesa e ficaria com fome até a refeição seguinte?Chegaram ao ponto de me orientar que x minutos era pouco, uma meia hora era bom e mais do que isso ela estaria perdendo, pelo esforço, tudo o que ganhou com a mamada. OK, então você pega um cronômetro, senta para amamentar seu bebê e reza para ele passar do ponto em que terá mamado pouco mas não ultrapassar a marca do perde tudo. Diga, alguém se alimenta assim? Penso que essa história de inventar tempo para amamentar é ranço de quem gosta mesmo é de uma mamadeirinha, onde a gente coloca uma quantidade determinada e o rebento que se vire para engolir o tanto que é o certo. Daí, basta tirar a média de tempo que os bebês levam para tomar a tal quantidade ideal e… voilà! Mamãe que amamenta só precisa que seu rebentinho siga a média. Mas como peito não é mamadeira e nem transparente para a gente calcular quanto o bebê está ingerindo, o que além de deixá-lo mamar quando precisar e pelo tempo que quiser poderia garantir uma quantidade suficiente? Nada. Então, peitos pra que te quero! Na hora em que o sujeitinho largar o peito, isso quer dizer que acabou.

Outra orientação capciosa é a que tenta cercar o número de mamadas… amamentar 8 vezes, 10, 12… Se não há como controlar pelo intervalo entre mamadas, nem por sua duração, vamos tentar pela quantidade, né? Por que não funciona? Justamente porque essa quantidade não se espalha de modo uniforme pelas 24 horas. E não significa que o bebê mama a mesma quantidade a intervalos regulares. Então, o que ela garante? Nada. Percebi que esse número varia de tempos em tempos, nos picos de crescimento, em dias mais tranquilos ou mais agitados… Ficava maluca pensando que ela não tinha mamado as dez vezes. O que fazer? Acordar? Enfiar o peito na boca? Fazer mamar à força? O bebê sabe mais do que nós sobre quando sente fome, melhor confiar nele.

E quanto a essa de acordar, tanto quando passa das tais lendárias três horas de intervalo quanto quando o bebê mamou por poucos minutos? Também tentei. Carinho na cabecinha, mexer na mãozinha, trocar a fralda… Não deixar o bebê dormir enquanto não tiver mamado o suficiente. Mas quanto é o suficiente? E caímos novamente nas medidas, nas médias, nas arbitrariedades que não dizem nada. Minha bebê não estava nem aí, afastava a minha mão e dormia. Mamar cansa, e muito. Não só a mãe, mas o bebê também. Principalmente no começo, quando eles ainda não sabem fazer isso muito bem juntos. Repare no rostinho do bebê mamando. Tudo mexe, todos os músculos. É um baita exercício e um esforço enorme até o sujeitinho virar craque. Então, tem horas que tem mesmo que dar um cochilo e recomeçar logo mais. Sim, isso atrapalha o sono da gente, que quer mais é que os pequenos mamem logo, tanto quanto possível, o mais rápido possível, para a gente poder dormir um pouco. Que desespero. Mas aporrinhar o sono do seu bebê não vai resolver isso, porque ele pode mamar demais e soltar tudo depois. Ou acordar, se irritar e chorar porque está exausto e precisa dormir. Melhor deixar o pequeno em paz e resolver o cansaço de outra maneira. O que vai resolver? O tempo, o bebê começar a espaçar as mamadas na medida em que vai se tornando expert nisso e consegue o máximo de leite, sem se exaurir, podendo fazer outras coisas com o tempo e a energia que lhe sobram como… dormir!

Então vem uma das minhas orientações prediletas: dá uma mamadeirona que ela dorme a noite inteira. Por que não funciona? Eu tenho apenas um comentário: foie gras. Sabe o foie gras, aquela iguaria francesa de fígado de ganso? Sabe como é feito? Os franceses descobriram que os gansos gordos tinham fígados gordos e um pouco inflamados e que isso era DE-LI-CI-O-SO. E tiveram a brilhante idéia de forçar os tais gansos a comer, para que eles ficassem mais gordos, com fígados mais inflamados e que tivesse mais foie gras pra galera. Essa alimentação forçada tem um nome aqui: a gavage, que fez com que eu deixasse de comer a iguaria, assim como muitas outras pessoas. Então, sempre que ouço essa historinha de dar uma mamadeirona para a minha filha ficar entupida de leite artificial e precisar passar horas dormindo para digerir algo que é muito mais indigesto que o leite materno, lembro da gavage. Por que não funciona? Pois é, parece até que funciona, mas eu pessoalmente não estou a fim de garantir minhas horas de sono a esse preço. Prefiro esperar o tempo da minha bebê alcançar essas noites dormidas por meio de seu próprio desenvolvimento.

Existem inúmeras pesquisas comprovando que a introdução da mamadeira (bem como da chupeta, por sinal) causa confusão de bicos e pode favorecer um desmame precoce. Então, se a mamadeira entope eficazmente e a chupeta acalma eficazmente, penso que o preço que se paga por essas eficácias não vale o benefício. No nosso caso. Não me interessa acalmar a todo custo ou sobrealimentar minha bebê e arriscar, com isso, a amamentação. Porque o leite materno é o melhor alimento para o começo de vida de um bebê humano. E porque a relação que se constrói a partir desse cotidiano de amamentação é de extrema importância. Para ambos.

Putz, mas isso quer dizer que eu tenho que ficar ali, à disposição? Pois é, amamentar exige mesmo essa disponibilidade de estar por conta do tempo do outro. E me parece que essa é uma das maiores dificuldades do nosso tempo: estar para o outro e não para si mesmo, priorizar um outro. Esse tempo de amamentação exclusiva é tão curto. E essa dedicação não é um fardo, se você pode encará-la como um prazer e vivê-la com a surpresa das descobertas. Surpreender-se quanto ao que você pode oferecer. Ser mamífera é uma constatação espantosa para nós, mulheres ocidentais burguesas do século XXI. Surpreender-se também quanto ao que seu bebê comunica. Conhecê-lo, criar proximidade, trocar afeto. Tantas coisas lindas acontecem ao longo dos primeiros seis meses, muitas das quais enquanto amamentamos. Será que vale arriscar tudo isso por uma necessidade de controle?

Correndo atrás de seguir receita de bolo de como dar de mamar, quase botei tudo a perder pois o que descobri, a duras penas, é que essas regras de ritmos, intervalos e duração das mamadas só servem para deixar as mães tensas. Anotar o horário das mamadas, o tempo de duração, procurar nos números alguma regularidade, uma luz, algum padrão em um momento inicial em que tudo é ensaio, tudo é improviso, tudo é descoberta? Não funciona. Ficar de olho no relógio e nos números não faz com que o bebê comece a se enquadrar neles. Pois, a única coisa que tais procedimentos almejam – como todos os outros que mencionei até agora – é o controle.

Saber, com certeza, quanto o bebê come, como se isso pudesse garantir a 100% seu bem estar, sua saúde ou – medida das medidas – seu peso. Peso virou sinônimo de saúde e controlando o peso acredita-se estar controlando e garantindo a saúde do bebê. E, como a amamentação escapa a esse controle das mamadeiras, dos horários e das quantidades, tenta-se fazer com que ela funcione do mesmo modo e segundo os mesmos parâmetros do aleitamento artificial. Estipulando intervalos, tempos e ritmos, nossos “orientadores”, e nós mesmas, acreditamos que estamos garantindo alguma coisa. Mas… não funciona. Não funciona, esse é um controle que está nas mãos – e no estômago – do bebê. Ele é o único que pode saber, com certeza, se e quando tem fome. E de quanto leite precisa. Aprendi a confiar na minha filha. Se ela está reclamando para mamar é porque tem fome e/ou precisa sugar. E ambas necessidades são válidas.

Amamentar em livre demanda é, a meu ver, um gesto de respeito ao pequeno ser que acaba de chegar ao mundo. Sinaliza que estamos ali, disponíveis, para acompanhá-lo e descobrir com ele como cuidar de suas necessidades. É algo muito bom para se oferecer a alguém que faz transbordar nosso peito de amor, não?

O que aprendi sobre a amamentação…

… até agora. (ou: uma resposta a um certo post de uma certa blogueira em uma certa revista que, de tão medíocres, não merecem nem ser citados, a não ser como instigadores de respostas boas)

Digamos que ele é como um ser vivo, extremamente delicado e sensível ao entorno, o ato de amamentar. Quer dizer, é algo poroso, que se contagia de tudo que o cerca – e que nos cerca, mãe e bebê. Ambiente ruim, gente dizendo coisas desencontradas, falas sobre leite fraco, pouco leite, baixo ganho de peso… tudo isso pesa, influencia, mexe no tênue equilíbrio que exige o amamentar. Aprendi que, sem apoio e – pior ainda – com gente próxima ou distante falando contra, duvidando, criticando, persistir na amamentação é quase que um ato de heroísmo.

Antigamente, até bem poucas décadas atrás, contávamos com a sabedoria dos mais velhos. Mulheres pariam cercadas de mulheres, mulheres criavam seus filhos entre outras mulheres, mulheres amamentavam sob os olhos cuidadosos de outras mulheres. Mulheres mais experientes estavam sempre por perto, cuidando daquilo que elas sabiam muito bem por experiência própria: conceber, gestar, parir, amamentar, cuidar… Ninguém ficava sozinha, sem cuidado e sem orientação numa hora dessas. Em alguns cantos do nosso mundo, ainda existe essa rede de cuidados. Mas, infelizmente para nós, mulheres do mundo ocidental capitalista, o discurso da experiência e da rede de apoio foi desacreditado em nome de um saber médico / técnico e científico que saberia e poderia mais sobre a maternidade. E – coisa estranha – nós mesmas compramos esse discurso que, na medida em que tirava o saber da experiência de nossas avós, mães e tias, o tirava também de nós. E ficamos sozinhas e ignorantes, todo esse saber depositado nas mãos de um outro: a medicina, a ciência, a indústria. São essas as companhias que temos, hoje em dia, para gestar, parir e alimentar nossos filhos. Então, quando eles dizem que nosso corpo é falho e que não somos mais capazes de fazermos o que sempre fizemos, na falta de uma rede de apoio e de cuidado que nos ajude a contestar essa nossa pretensa incapacidade, capitulamos. Fragilizadas, aceitamos justificativas duvidosas para todo tipo de intervenção. E não parimos mais. E não amamentamos mais. E acreditamos que é assim mesmo, que é “normal”. E nos confortamos na idéia de que dar mamadeira não é tão mal assim. Não é tão mal assim quando realmente se necessita. Como uma cesariana pode ser uma benção quando realmente se necessita. Mas na medida em que ficamos sozinhas e destituídas de qualquer poder frente aos donos desse poder que servem, prioritariamente, a outros interesses opostos e conflitantes com o bem-estar da mãe e do bebê, como saber quando é que realmente se necessita? Aprendi que, hoje em dia, nosso esforço é muito maior em encontrar uma rede de apoio e de acolhimento que faça as vezes da “voz da experiência” de nossas mães, avós, bisavós e afins. Ela pode estar na internet, no encontro com outras mães, no trabalho das doulas e das enfermeiras obstetrizes, na existência de consultoras de lactação… há substitutos possíveis. Mas há que se buscar ativamente essas outras vozes discordantes que te ajudem realmente a poder amamentar.

Nada de natural existe nisso. Amamentar é natural. Tão natural como parir. Mas acontece que nós, humanos no século XXI, passamos por tantas mediações em nossa formação como humanos que estamos muito, mas muito distanciados de nossa natureza. Então, não adianta ouvir dizer que é algo instintivo e acreditar que isso significa que você vai chegar lá, na hora H, e vai conseguir fazer, tomada e possuída pela força das suas próprias entranhas. Até pode ser que seja assim. Mas pode ser também que as suas entranhas fiquem submetidas à sua razão, ao seu pensamento, ao seu medo e a tudo aquilo que acostumamos a priorizar em nossas existências mais cotidianas. Se baseamos toda a nossa vida em conhecimentos, informações, pensamentos lógicos e  afins – ou, ao menos, se acreditamos que é assim que vivemos e que fazemos escolhas – o que faria com que, na hora de parir e de amamentar pudéssemos conseguir reverter toda essa racionalidade que rege nossa experiência e nos abandonarmos ao desconhecido, confiando apenas em nossa intuição e em nossa sabedoria ancestral? Aprendi que para poder acessar essa sabedoria ancestral e poder se abandonar nessas horas em que o abandono é necessário – e quanta entrega é necessária para amamentar! – precisamos justamente jogar com todas as armas que temos a favor disso. Informação, pesquisa, conversas, preparo do corpo… tudo, todas as ferramentas podem e devem ser usadas. Ficar sentada no sofá esperando que algo em você faça todo o serviço é pedir para dar errado. Porque do mesmo modo que ali dentro das entranhas existe um instinto capaz de fazer parir, de fazer amamentar e tudo o mais, também existe o medo, as dúvidas… E quem vai ganhar nesse jogo de forças? Melhor botar todas as chances do lado que você deseja, não?

Até mesmo porque, vira e mexe precisamos discutir com os outros. Ou, ao menos, ter bons argumentos que nos fortaleçam na hora em que nos dizem para dar complemento por baixo ganho de peso ou coisas afins. Precisamos saber que bebês são diferentes, que muitos perdem peso ou ganham pouco no início e que cada qual encontra seu ritmo de mamar e de ganhar peso. E que não é apenas a curva de peso que conta na hora de avaliar o estado de saúde de um bebê. Muitos outros fatores contam. Aprendi que, se o bebê vai bem, o ritmo com o qual ele ganha peso é apenas mais um dado daquela singularidade que ele é.

Aliás, até mesmo quando a preguiça ou a ignorância falam mais alto e o médico decide avaliar seu filho apenas pelo ganho de peso – quando ele deveria é estar fazendo um belo de um exame clínico bem geral e abrangente que incluísse até mesmo informações sobre o estado da mãe e uma observação da mamada com vistas a orientar em caso de dificuldade – são poucos os que sabem interpretar que “normal” é todo o bebê que está dentro da curva, seguindo o seu desenho. Da parte mais baixa à mais alta, tudo é “normal”. Ou seja, mesmo que seu bebê não ganhe um quilo por mês e não fique explodindo de dobrinhas, está na curva, está “normal”. Aprendi a interpretar curvas de crescimento e mais um tanto de coisas que me fariam uma PhD no assunto. Como a maioria das mães que conheço que precisam brigar para poder amamentar.

Aqui na França, amamentação passou muitas décadas fora de moda. Condenada mesmo como um fardo para as mulheres. E só voltou a ser levada em consideração, segundo me explicaram, quando foi associada à diminuição do câncer de mama. Veja só: que seja o melhor e mais completo alimento para seu bebê, isso não foi argumento suficiente para as francesas, que só reabilitaram esse ato “primitivo” quando foi aventado algum benefício para elas. Digo isso apenas para dar uma idéia da mentalidade que circula por aqui. Assim, quando fui com uma amiga no simpático Le Poussette Café noutro dia, que estava lotado de pequenos e grandes rebentos, eu era a única mulher amamentando. Todas as outras pessoas sacavam suas mamadeiras de suas sacolas cedo ou tarde. Ou seja, essa história de que amamentar está na moda é um argumento bem perverso de quem prefere ignorar a realidade e se deixar levar por discursos pré-fabricados justamente para desviar daquilo que um simples olhar pode constatar no dia-a-dia: a maior parte das mulheres não amamenta. Não quer, não pode, não sei. Mas não amamenta. E causa surpresa que uma entre elas tire o peito para fora e dê de mamar à sua bebê. Surpresa discreta porque os franceses são educados demais em sua grande maioria para praguejar contra o “politicamente correto” em voz alta. Fora os caras de mente tortuosa que ficam te encarando com olhos nada generosos, num país onde o topless na praia é permitido, vai entender… Mas isso é outra conversa. A questão, aqui, é a predominância do leite artificial e da mamadeira em todos os lugares por onde circulam pimpolhos franceses e suas mães. Isso porque, nas maternidades francesas, há um incentivo quase excessivo por parte de enfermeiras, sage-femmes e auxiliares de puericultura para que as mães amamentem. Mas basta ter alta e sair para o mundo e você vai topar com muitos profissionais de saúde tentados a te indicar leite artificial na primeira consulta. Assim como seus amigos, sua família, e todas as francesas que vão sempre te dizer que você não é obrigada a amamentar. Aprendi que, para amamentar, você tem que ter uma firmeza de intenções e uma clareza a toda prova. Porque será posta à prova o tempo todo.

E leva tempo! Como leva tempo! Quando dizem que existe um tempo de adaptação entre você e o bebê para que a amamentação entre em um certo piloto automático em que ela funciona bem, você pensa que esse tempo é o tempo até sair da maternidade, ou o tempo de alguns dias. Mas podem ser semanas. Ou meses. Cada bebê é um e cada mãe é uma e o tempo que cada qual vai precisar varia muito. Mas é sempre um bom tempo. E aprendi que quanto menos pressa temos, melhor e mais rápido a coisa engrena. Porque basta ficar tomada por aquela urgência estalando no peito para o bebê se inquietar. E bebê inquieto não mama bem, não descansa enquanto mama, não se apazigua com uma mãe botando pilha ali do lado. Do mesmo jeito que menos é mais para muitas coisas na vida, acho que na amamentação mais lento vai mais rápido do que ter pressa.

Pega, posição correta, tantas posições para amamentar… livre demanda, uma atenção aos sinais do bebê, às suas necessidades. Aprendi que o bebê sabe mais sobre mamar do que nós. Não apenas porque tem um reflexo de sucção, já que isso sozinho não garante nada, uma vez que tem a mãe ali do outro lado e o pequeno vai ter que se entender com ela para poder sugar e garantir que o leite do qual precisa seja produzido. Então, a mãe tem que confiar que o pequeno sabe quando tem fome, sabe quando precisa mamar, sabe onde lhe aperta o calo e quando precisa de aconchego, de calor, de companhia, de abrigo… e de leite. Se nos disponibilizarmos a atender essas demandas de nossos bebês, a amamentação transcorre de um jeito bem mais sossegado para ambos.

Não é um jogo de forças, você irritada porque sabe como tem que ser (um peito, outro peito, tanto tempo, a cada tantas horas, uma determinada quantidade) versus um bebê irritado porque precisa se encaixar em um ritmo que não é o dele e que ele ignora totalmente. Se você se aborrece porque não está funcionando, imagina o que ele sente ao ser alimentado quando e como você quer e não como ele precisa? Aprendi que amamentar é encontro, um encontro de duas pessoas que mal se conhecem e que precisam uma da outra de um modo muito íntimo. E que precisam se entender falando línguas desconhecidas um para o outro. Ou seja, um encontro quase impossível, a não ser que cada qual confie no outro e na sua capacidade de estar ali e de dar conta. Sem essa disponibilidade, amamentar vira um martírio. O que é uma pena, pois pode ser tão prazeroso, tão bonito como são todos os encontros de alma, os encontros verdadeiros e profundos.

Fico de coração partido a cada vez que ouço alguma história de alguém que parou de amamentar e passou à mamadeira. Por má informação, por falta de informação, por pressão dos outros, por falta de apoio… ou seja, por todos os motivos “errados”. Tenho uma amiga cujos olhos se enchem de lágrimas a cada vez que ela conta como se sentiu aterrorizada com a perspectiva de que a filha estivesse passando fome e passou ao leite artificial. Conheço uma outra que, a cada vez que me vê amamentando conta com tristeza como, mesmo sendo seu segundo filho e tendo amamentado a primeira, acreditou nas palavras do pediatra sobre pouco leite e baixo peso e passou à mamadeira. E o quanto se arrepende de ter ouvido a ele e não a si mesma. Por que nos despossuímos assim?

Tem um texto lindo da Anne Rammi do Super Duper sobre amamentação em que ela começa escrevendo sobre o que nós mulheres perdemos quando renunciamos sem motivos realmente impeditivos a essa experiência. Ela posta uma foto e fala de um olhar, um olhar do bebê que mama e que é só para a mãe. É esse encontro de almas do qual escrevi há pouco. Um bebê te olha no fundo da alma e faz teu coração revirar do avesso, de tanto sentimento que pode carregar em um mero olhar. E isso não acontece no comecinho, também leva um tempo, é a recompensa a ambos pelo trabalho bem feito. E esse olhar vem um dia. Por um instante todo o cansaço, as dificuldades, os conflitos passam. Parece piegas e parece mágica e, no entanto, acontece. É o tal encontro. Será que não vale o esforço?

Leia mais a respeito da amamentação nesse blog clicando aqui.

Rapidinhas da maternidade

Mais descobertas sobre a maternidade entre fraldas, sonecas, banhos, sorrisos, brincadeiras e tudo o mais:

  • depois dos sorrisos dormindo, vêm os sorrisos acordada, olhando no olho, diretos para você… coisa de fazer o amor aumentar de forma exponencial, quando você imaginava que nem teria como amar mais aquele serzinho ali.
  • roupinhas se perdem de um dia para outro, nessa época em que 1cm a mais ou  menos faz uma enorme diferença.
  • quando você diz que depois da mamada vai tomar um banho, ou jantar, ou ambos, isso pode querer dizer dali a 5 horas. Ou no dia seguinte.
  • aliás, é bom relativizar tudo aquilo que você concebe como um prazo sensato para qualquer coisa: quando dizem que o bebê cria um ritmo e uma rotina, isso não significa que vai acontecer no tempo que você julga plausível para tanto, mas no tempo que o bebê precisa para isso. Quer dizer: é no ritmo dele, não no seu, ok?
  • das perguntas idiotas, “você já voltou a trabalhar?” está no meu top 3 da cretinice. De onde vêm essa necessidade das pessoas de te pressionar para que você retome uma vida que já mudou e que aja como se um acontecimento de tão grandes proporções como ter um filho pudesse ser equacionado em poucos meses a ponto de você voltar ao trabalho linda, leve e solta? Parece que acreditam que voltar ao trabalho sinalizaria que o furacão já passou e que tudo, inclusive você, já está de volta no quadradinho dos rótulos em que haviam te colocado.
  • outra do meu top 3, que normalmente segue a anterior: “mas você não se entedia? não faz alguma coisa para se ocupar?” Quer dizer que eu fico em casa de pernas pro ar o dia inteiro e preciso de ocupação, né? Pergunta que vem, usualmente, de pessoas que julgam que, já que você está em casa o dia inteiro, sem trabalhar, ao menos poderia fazer uma comidinha, dar uma adiantada na faxina, passar umas roupas… se ocupar, pô! Quer dizer, por que você não faria, não está trabalhando, está cheia de tempo livre…
  • frequentemente, as perguntas cretinas são feitas por pessoas que julgam a maternidade como um calvário que cada qual tem que suportar. Quer dizer, trabalhar é um prazer, férias são um prazer, a balada é um prazer, mas ter filhos não pode ser, entende? Assim, o sujeito fica ali testando o quanto você está tão mal nessa situação quanto ele está, ou quanto ele supõe que você deveria estar. Não passa pela cabeça desses seres que, talvez, para você ser mãe possa ser uma escolha, um prazer, uma alegria e que, mesmo descabelada e cansada, você está realmente bem com isso e não queria estar em outro lugar nesse momento.
  • aliás, diga à maior parte das pessoas, em resposta ao “como andam as coisas?”, que está cansada e ouvirá um sermão culpabilizante sobre as maravilhas da maternidade. Diga que está bem, tranquila e feliz e ouvirá um discurso sobre: 1) os erros que está cometendo, 2) tudo o que você está perdendo de legal, 3) como ter filhos é uma coisa tão chata e limitante.
  • a curva de crescimento é mais importante do que a constatação de que seu bebê está bem. Nenhuma conversa com mães escapa do momento: “ela pesa quanto?”, “ganhou quantos quilos?”, “mede quanto?”. De repente, todo mundo virou pós-doutor em estatística.
  • amamentar pode dar certo. Mas é preciso muito amor e paciência. Não só com o rebento mas, especialmente, consigo mesma. O ritmo é o dele, lembra? E, provavelmente, vai demorar mais par engrenar do que o prazo que você botou na sua cabeça. Ninguém manda ser acelerada em um mundo acelerado. A criança que acabou de chegar nem sabe disso – que bom! – e vai fazer as coisas conforme puder e precisar. Quem sabe seja uma boa oportunidade para desacelerar ritmos e expectativas, não?
  • se alguém anda precisando de argumentos pró-amamentação, e não se contenta com todos aqueles que falam em prol da saúde do bebê, só tenho uma coisa a dizer: 10 quilos perdidos em menos de 3 meses. Pense nisso.
  • o que são esses homens nojentos que ficam olhando enquanto você amamenta? Pois além dos olhares de censura, como se um peito para fora fosse mais pornográfico do que as imagens de guerra, miséria e corrupção com as quais somos bombardeados cotidianamente sem o menor pudor, existe o olhar bizarro de adultos tortuosos que babam enquanto você amamenta como se fossem psicopatas. Ainda estou tentando pensar em como Freud explicaria essa.
  • Paris é uma cidade hostil para mulheres grávidas e para mães de bebês e crianças de colo. Muitas escadas, muita gente, muito perrengue, espaço zero em restaurantes, bares, cafés, metrô, ônibus… Mas os parisienses se revelam em toda sua gentileza inesperada quando você carrega um bebê. Acho que todos sabem do perrengue que todos passamos no dia-a-dia não tão cor-de-rosa da cidade luz.
  • aliás, wrap, sling e todos os meios de portagem são essenciais por aqui (ainda vou escrever uma ode a eles). Tirando todos os benefícios que trazem em termos de reconforto e segurança par ao bebê, nada mais prático para circular por essa cidade do que algo que não triplique de tamanho o espaço que você ocupa nos lugares. Franceses parecem detestar gente muito espaçosa.
  • assim como parecem detestar bebês que choram, como se fosse uma aberração da natureza. Pois é, chorar é que é esquisito, não ter um dos maiores índices de consumo de antidepressivos do mundo. Acho que os franceses choram pouco, vai ver é isso. Excesso de discrição.
  • contudo, a França possui um sistema de acompanhamento do recém nascido durante toda a sua primeira infância que é IN-VE-JÁ-VEL. Mesmo.
  • amor de mãe só aumenta. E aumenta. E quando você acha que está no cume da montanha, aumenta ainda um pouco mais.

Outras descobertas: aqui.

Desmitificando…

… alguns mitos sobre gravidez, parto e maternidade. Porque as pessoas têm algumas crenças bem estranhas, que tomam como verdades, sem nem ao menos se dar ao trabalho de colocar certezas em questão.

Por exemplo, o mito de que o corpo fica deformado, despencado, feio depois de gravidez, parto e amamentação. Que é largamente reforçado pela mídia caça-celebridades que sempre estampa em suas manchetes mulheres que acabam de parir já com barriga tanquinho, peso de antes da gravidez, tintura do cabelo feita, unhas impecáveis e por aí vai. Tivemos recentemente um novo capítulo dessa discussão quando a princesa Kate Middleton decidiu sair da maternidade um dia após dar à luz de vestido azul e barriguinha pós-parto à mostra, o que muita gente achou criticável. Ainda bem que muitas outras acharam lindo, uma bela homenagem ao parto e à mulher “normal”. Me incluo entre essas.

Mas, será assim mesmo tão deteriorante para o corpo a experiência da gravidez e da maternidade a ponto de justificar que mulheres optem por uma cesariana para não tê-lo “danificado”?

A meu ver, isso se discute. E muito. Minha hipótese, baseada apenas na minha experiência e no que ouvi como relato de algumas outras mães, é que parir de um parto respeitoso e humanizado te devolve a seu corpo e te ajuda a fazer as pazes com ele, escapando dessa ditadura das aparências, das formas, das gorduras. Ou seja, eis mais uma vantagem do parto humanizado que periga desgostar o mercado que lucra em cima de nossa insegurança e de nosso desconforto em nossa própria pele: para que cirurgias estéticas, dietas absurdas, ditadura da magreza, obsessão com a boa forma se, através de uma experiência como parir você se der conta que tem um corpo – e não um vazio desagradável que tem que preencher e controlar – e que esse corpo é bom, bonito, potente e cheio de saúde? Putz! Guarda esse segredo aí, minha gente.

Eu fiz ballett clássico por toda a minha infância e adolescência e, em seguida, vários tipos de dança até a época em que comecei a trabalhar. Sempre fiz o estilo “tábua” antes de ser fashion. E nunca fui alta o bastante para ser modelo. E isso me incomodava sobremaneira, essa ausência de curvas. Porque, ao menos no Brasil e naquela época, desejável era ser mulher violão, né? Naquela época não, até hoje. Podemos pensar que eu destoava mas, na verdade, não fossem as curvas, seria outra coisa, os cabelos castanhos, ondulados, os olhos castanhos… vai saber. O que sei é que sempre haveria algo porque não existe uma mulher nesse mundo de hoje a quem não seja atribuído um defeito em relação à sua aparência. Ou seja, nenhuma mulher escapa de ter alguma de suas características que a tornam singular e contribuem para que ela seja quem é tachada de “defeito”, de feiúra, de inadequação a um dito padrão de beleza e desejabilidade. Padrão esse que nunca é posto em questão, como se fosse natural, evidente, obrigatório e estivesse estado aí desde a aurora dos tempos. Mas é gosto. E gosto se discute. Ou, ao menos deveria-se discutir porque, aqui em nosso mundo e em nosso tempo, ao invés de problematizar essas verdades do que se diz ser a beleza, joga-se o peso delas sobre cada indivíduo que, obviamente, não tem como fazer frente a um ideal. Já dizia o bom e velho Freud: o ideal é algo inalcançável que criamos apenas para nos atormentarmos eternamente em relação a ele.

Toda essa insanidade que recai sobre cada um e faz sofrer a todos só faz a alegria do mercado: em cima desse vazio criado pelo abismo entre seu ideal e você muita gente lucra, criando a ilusão de que um produto qualquer vai te ajudar a chegar lá onde você falhou. Dietas, cirurgias plásticas que deixam todo mundo com a mesma cara, produtos de beleza, roupas, sapatos, ginástica… uma corrida contra o tempo, as marcas da vida, o envelhecimento, as formas únicas de cada um. Como se ficar com a cara do Coringa (sim, aquele, o arqui-inimigo do Batman) e o corpo de uma anoréxica fosse te apaziguar das tuas aflições em não ser aquele ideal, aquele padrão, aquilo que não existe.

Pois é… o que tem o parto, a amamentação e afins a ver com essa história?

Gravidez, parto, amamentação incidem diretamente sobre o corpo. Eles acontecem no corpo e, me parece, quando não se passam de forma violenta, têm o poder de te devolver a quem você é. Na mesma medida em que escuto relato de cesarianas e partos normais repletos de violência, que alienam mais as mulheres de seus corpos, trazendo dor, sofrimento e trauma, tenho escutado também muitas histórias de partos em que as mulheres saem transformadas. Foi o que aconteceu comigo.

Engravidar, parir e amamentar trouxeram para mim – que sempre fui tão atenta ao corpo, meu e dos outros – uma percepção totalmente nova. No dia seguinte ao parto, me olhando no espelho, descobri um corpo do qual eu gostava. E muito. Um corpo que me deu orgulho, em que cada marca, curva, gordurinha ou o que seja contavam e contam a história dessa experiência tão importante. Um corpo que, pela primeira vez, não foi um corpo insuficiente e em dívida constante com esse fantasma do “deveria ser”. Um corpo bem legal. Um corpo capaz, potente o bastante para abrigar uma vida, para dar à luz, para alimentar um bebê. Fala sério, isso não deveria ser incluído naquelas listas que fazem sobre as vantagens de um parto normal humanizado? Algo do tipo: isso muda a percepção, a experiência e a imagem que você tem do seu corpo.

Então, não é certo que quem engravida, dá à luz e amamenta fica com um corpo pior do que era antes. Fica melhor. E penso que não sou a única a sentir-me assim. Sou?

Quem tem medo da dependência?

Cena 1 – na consulta pediátrica antes da alta na maternidade:

– Os bebês choram, especialmente no final do dia, para evacuar o estresse. Pode deixar chorar que faz bem, viu?

Cena 2 – alguém da família, em relação a uma bebê que não tinha nem um mês de vida:

– Ela deve dormir no quarto dela. E se ela acorda de noite e não for fome, pode aprender a voltar a dormir sozinha.

– Você precisa descansar, vá dormir e deixe ela chorando que ela se acalma.

Cena 3 – visita da sage-femme:

– A partir dos três meses, o bebê tem que estar dormindo no próprio quarto.

Cena 4 – outras pérolas de pessoas da família:

– Mas está mamando de novo?

– Ela não está mamando, ela só quer ficar brincando com o peito.

– Se fica no colo o tempo todo, vai ficar mal acostumada e daí quero ver ela acostumar a dormir no berço.

– Se ontem ela fez um intervalo de duas horas entre as mamadas, hoje já pode começar a espaçar, né?

Cena 5 – no consultório da pediatra número 1:

– Sua filha não ganhou peso suficiente, você precisa complementar com leite artificial.

– Mas se eu completar, ela vai parar de mamar no seio e vai acabar ficando apenas na mamadeira.

– Isso pode ou não acontecer. Mas não se deve fazer heroísmos com a amamentação, tem que completar para ela ganhar peso. Dê um seio por cinco minutos, o outro por mais cinco e complemente a mamada com a mamadeira.

Cena 6 –  Outras pérolas dos amigos e familiares:

– Que gulosa!

– Por que não dá uma mamadeira de noite, para você descansar?

– Essa menina vai ficar grudada com você, quero ver como vai fazer quando for voltar a trabalhar.

– Se desse uma chupetinha, ela acalmava e dormia.

– Se desse uma mamadeira, ela dormia a noite inteira.

*****

O que essas cenas todas têm em comum?

Além de serem pitacos, mais ou menos revestidos de argumentos de autoridade, são falas de uma extrema violência. Sem levar em consideração aquela a que se dirigem, nem a pequena recém-nascida à qual fazem referência, cada pessoa, em cada uma dessas falas, não hesita nem por um minuto em propor algo como solução para todos os problemas e tumultos que um bebê novinho provoca: uma separação. Pois é disso que se trata: dos pediatras aos profissionais de saúde, dos amigos aos familiares, todos parecem muito preocupados que o bebê se torne muito dependente da mãe e, com isso, a solicite demais.

Parece que as pessoas têm um pavor da dependência, dessa quase simbiose que ocorre no início da vida entre uma mãe e seu bebê. Tomam isso como algo nocivo, prejudicial, que deve ser evitado, abreviado, terminado tão rapidamente quanto possível. Médicos, profissionais de saúde, família e amigos repetindo clichês do senso comum baseados em uma psicologia de botequim segundo a qual depender seria errado e apenas tolerável em pequenas doses em circunstâncias para lá de extraordinárias. E, às vezes, nem mesmo assim.

Um bebê recém-nascido, desamparado e desconhecendo totalmente os meandros desse mundo deveria, pela lógica dessas pessoas, rapidamente “aprender” a se virar sozinho, a se auto consolar, a se auto acalmar e a gerir suas próprias ansiedades. E tais pessoas sustentam essa posição apoiadas por um sem número de discursos, livros, textos e métodos que, pretensamente, guiariam seu rebento rumo à autonomia e, consequentemente, a uma vida mais plena e feliz. Um bebê independente tão cedo quanto possível… foi dada a largada. E cada um que publique orgulhosamente as conquistas de seus pequenos como grandes aquisições: chorar e se acalmar, dormir sozinho, mamar na mamadeira sozinho, brincar sozinho… Ficar sozinho. Sozinho é sinônimo de autonomia?

Nem podemos dizer muita coisa, tendo em vista que o que apoia essa crendice do senso comum é uma psicologia revisitada e vulgarizada em que o percurso da dependência rumo à independência foi totalmente deturpado. Mea culpa, senhores psicanalistas, mea maxima culpa. Porque essa história de que filho grudado na mãe não pode e de que o pai tem que entrar na conversa e botar um limite virou argumento para o exercício de toda e qualquer violência contra a relação mãe-bebê. Por que isso?

As pessoas parecem aterrorizadas com uma das ocasiões em que a dependência e o seu corolário, o desamparo, aparecem de forma mais explícita e incontestável: a ocasião de uma mãe e seu bebê recém-nascido. Porque quem diz dependência diz desamparo. E nada maior e mais angustiante do que o desamparo de um bebê pequenino que chora. Ele chora e teme porque tem algo que o perturba. Ele se apavora e precisa de socorro. E, frente a esse desamparo, que mostra o quanto somos todos tão precários, tão indefesos, tão frágeis quanto esse bebê, mesmo que tenhamos nos esquecido e que tenhamos inventado camadas de proteção contra isso… Bom, frente a esse desamparo que o desamparo do bebê nos lembra, muita gente não aguenta.

Os comentários de pediatras, sage-femmes, familiares e amigos têm isso em comum: eles não aguentam constatar a dependência da bebezinha de sua mãe e o quanto essa dependência demanda, dessa mãe, um esforço, uma dedicação, uma atenção quase constante. Eles não aguentam porque essa dependência que eles rotulam de mimo mostra a eles o quanto essa bebezinha é precária e precisa, muito, de muita ajuda para as coisas mais básicas. E eles não aguentam porque isso lembra a eles que eles têm também muitas precariedades. E que eles muitas vezes se enxergam no choro dessa bebezinha. E que eles muitas vezes precisariam demais de chorar e de alguém que os consolasse.

Mais, paradoxo dos paradoxos, o que eles propõem é justamente o contrário daquilo que eles mesmos necessitariam frente ao próprio desamparo. Frente ao terror que essa precariedade provoca, frente à angústia que um choro de bebê traz, a solução de cada pessoa, mais ou menos revestida de argumentos de autoridade é: a independência. Independência não como uma conquista que se faz passo-a-passo, com a segurança de uma criança que aprende a andar, mas como uma imposição que se faz cada vez mais cedo na vida de um bebê. Se a dependência é um problema porque ela inquieta, tornemos as crianças independentes cada vez mais cedo. Se a dependência nos incomoda, tornemos ela um erro e façamos com que todos se ocupem de tornarem seus filhos independentes. Para que a gente não tenha mais que ver cenas de desamparo. Para que não tenhamos que escutar mais os choros doídos de um bebê.

Ser mãe é escutar muitas histórias de outras mães. E tenho ouvido muitas histórias dos pavores frente ao desamparo e à dependência. Mães que se sentem vampirizadas pelas necessidades de seu bebê, mães que se sentem tolhidas em sua vida, que se perdem de quem são. Nós mesmas, as mães, nos apavoramos com tanta precariedade. É assustador. E se alguém ainda nos diz que isso é errado, que isso vai prejudicar nosso bebê, que vai torná-lo incapaz de se separar e de ter uma vida para si, à angústia frente ao desamparo soma-se a culpa pela dependência que esse bebê tem em relação a nós e, mais ainda, à revolta: por que diabos ele precisa tanto de mim? Por que não se vira sozinho? Por que não dorme? Por que precisa de tantas coisas? Por que não para de chorar e espera um pouco?

Uma mãe violentada por tantos comentários que atacam justamente essa ligação tão intensa que ela tem e precisa ter com seu filho – para que esse viva, simplesmente – é uma mãe acuada, aflita e com raiva. E, nessa hora, se aparecem pessoas com soluções que propõem ainda mais distância entre ela e seu bebê – como a mamadeira que qualquer um pode dar, como o deixar chorar para dormir, como o dormir no próprio quarto ou como o não ficar muito no colo – ela corre o risco de aceitar, de bom grado, a solução. Afinal, como é que uma mãe sem apoio e com todos falando contra ela e seu bebê vai conseguir fazer frente a isso?

Depois do parto, começa a parte mais difícil da maternidade, que é o confronto cotidiano com seus próprios demônios, as necessidades extremamente demandantes que possui um bebê recém-nascido e o inferno que são os outros com suas opiniões e orientações sempre contra aquilo que é um fato nesse período: um bebê depende de sua mãe. Ele precisa dela. Muito. Por vezes, desesperadamente. E é uma exigência enorme essa necessidade. E é angustiante o desamparo desse serzinho. E é pesada a responsabilidade. E dói.

Nem vou comentar as orientações equivocadas de médicos apressados e despreocupados com o bem-estar de seus pacientes bebês e de suas mães. Nem vou comentar a falta de bom senso das pessoas que comentam antes de perguntar e dos que querem sugerir antes de buscar saber. Isso tudo é ignorância e estou aqui falando de uma outra coisa: da recusa das pessoas em apoiar e dar espaço àquilo que todo humano precisa no começo da vida: depender.

E, claro, você pode se desincumbir disso tudo com maior ou menor facilidade apostando na independência de seu bebê, tão rápido quanto possível. E você pode adotar todas as técnicas de encantadores de bebês e afins. E você pode seguir todas as orientações de pediatras e psis que dizem que é fundamental que o bebê se vire sozinho. E você pode acreditar que isso é que é autonomia. E que é disso que ele precisa.

Ou você pode ler o belo texto de D.W.Winnicott sobre a dependência absoluta que ruma para a independência, no livro: “O ambiente e os processos de maturação”. Entre outros que escreveram sobre o assunto de maneira séria e cuidadosa. Isso para trazer apenas uma entre muitas referências, em psicanálise ou fora dela, ou no campo daquilo que hoje se chama de criação com apego. Porque ainda tem quem se pergunta de que as crianças necessitam. E ainda existe quem não se sinta ameaçado pela precariedade de si e do outro.

Ou você pode apenas se perguntar se faz sentido isso. Essa pressa, essa pressão para que mãe e filho se separem logo ou, se possível, nem cheguem a se juntar. Essa repulsa do desamparo e da dependência. Essa culpabilização. E quais consequências isso traz para as crianças impedidas ou abreviadas na vivência dessa quase simbiose?

Noutro dia li em algum blog ou comentário desse mundo www da maternidade que filho mimado a vida conserta, filho carente, não. Faz sentido. Porque essa história de precisar muito rapidamente botar limite pro rebento não crescer mal acostumado e não sofrer é, muitas vezes, você criar um sofrimento a mais em relação a algo que a vida mesma vai providenciar. Que vida não tem limites e frustrações? Até mesmo a de um bebê recém-nascido, que sente fome, frio, calor, tédio, sede, sono e mais uma porção de coisas que a mãe dele não entende, nunca, completamente. Ou rapidamente. Então, por que acrescentar mais separação naquilo que, inevitavelmente, já está separado? E já o será ainda mais pela ação da própria vida?

Por que evitar o que a criança precisa: o colo, o peito, o aconchego, o consolo, o carinho? Será que é por que a gente não aguenta e não exatamente porque vai estragar a criança? Será que estraga? Ou estraga o nosso sossego, acostumados que estamos a não termos nenhum outro compromisso além do que temos conosco? Será que não somos nós que simplesmente não queremos tamanha ligação com um outro?

Por que uma mãe e um bebê incomodam na mesma medida em que fascinam? Por que todos, até mesmo as próprias mães, querem logo dar cabo desse vínculo?

Mais sobre a amamentação…

… numa biografia não extensiva e meio aleatória dos melhores textos que andei lendo pela web. Vou adicionando aos poucos, conforme reencontrá-los ou descobrir novos, ok?