Aquela história de ter ou não filhos…

Noutro dia fiquei sabendo que existe um movimento childfree. Foi por meio de um post do blog da Isa, que eu leio e do qual eu gosto muito. E ao mesmo tempo que fui informada sobre o movimento, descobri também uma querela entre as mulheres childfree e as mães, ofendidas pelo modo como as primeiras se referem à maternidade, às mães e a seus filhos. Não contente, dei uma olhada também em algumas dessas páginas childfree. E encontrei alguns posts bem interessantes sobre legalização do aborto, controle de natalidade, anticoncepção e sobre a dificuldade em se ter acesso à uma laqueadura, coisa da qual nem desconfiava. Mas a parte menos interessante da história foram os posts, montagens e comentários bastante agressivos, cheios de ódio às mães e às crianças, como se a culpa da obrigação em ser mãe fosse das mulheres que são mães e de seus filhos e não uma construção social, cultural, histórica a qual todos endossamos de alguma maneira. E, lógico, os contra-ataques das mães alegando que mulheres que não têm filhos não são completas, não se realizam, são mal amadas, não tem Deus no coração, vão morrer sozinhas e mais um tanto de coisas que são de um clichê, de uma falta de reflexão que nem sei se preciso explicar. Ou se quero. Fato é que lendo tudo isso me deu uma vontade de escrever algumas coisas, não sobre a parte bobinha, infantil e quase ridícula desses insultos que eu li por aí atribuídos ao movimento childfree, nem das respostas ainda mais tolas e sem inteligência alguma, mas sobre algumas coisas bem legais que essa discussão permite pensar. E que dizem respeito a poder se questionar sobre querer ou não ter um filho. Porque, sim, mulher, uma das coisas que você precisa aprender a começar a se perguntar, cada vez que a idéia passar pela sua cabeça é: por que eu quero ter um filho? Você não apenas precisa ter o direito de se colocar essa questão, como tem a obrigação de fazê-lo. E de se virar para encontrar uma resposta. Difícil? É. Então, vamos por partes.

Em uma outra vida eu fui casada. Sim, pois é, tive um casamento anterior ao meu encontro com o cara-metade, com o qual tenho dois rebentos. Então, nessa época desse primeiro casamento, passamos muitos e muitos anos sem querer ter filhos. E por que? Porque a cada vez que pensávamos e discutíamos a respeito, parecia não fazer o menor sentido.

O mundo está superpovoado, já não temos mais nenhuma obrigação de garantir a sobrevivência da espécie. E, enquanto espécie, a humanidade não tem se mostrado tão viável assim, né? Usamos, exploramos e destruímos tudo ao nosso redor, muitas vezes sem necessidade. Matamos, sujamos, poluímos, extinguimos… o planeta, a natureza, os recursos naturais, as outras espécies vivas…  E nem podemos dizer que entre nós somos melhores do que com tudo o mais que nos cerca, se considerarmos a maneira como o ser humano trata o seu semelhante. Nesse quesito também não estamos para dar exemplo de espécie que cuida ao menos da própria preservação. Violência, desonestidade, mentira, desigualdade, exploração, crueldade, humilhação, preconceito, racismo, misoginia, xenofobia, homofobia… para que impor tudo isso a um outro ser? Para que criar alguém e colocá-lo nessa fria? Apenas para compartilhar nossa própria desgraça? Colocando tudo isso na balança, com o primeiro marido, encerrávamos cada conversa com um tom de perplexidade, nos perguntando por que mesmo teríamos filhos em um contexto nefasto como esse. E não encontrávamos respostas.

Algumas vezes, amigos com filhos participavam dessa discussão. Começavam animados com ganas de nos convencer e terminavam deprimidos. Na época eu sentia uma forma de desespero dos casais amigos com filhos em tentar convencer todos ao redor a, com o perdão da palavra, chafurdar na mesma merda que eles. Porque todo mundo na mesma merda é desgraça compartilhada. E, mais do que isso, porque quando todo mundo segue os mesmos rumos que a gente, não nos sentimos obrigados a questionar nossas decisões. Se tem uma coisa que perturba essa nossa espécie humana é a diferença, porque quando alguém pensa diferente isso nos obriga a pensar na vida que levamos. E nem sempre chegamos a boas conclusões quando nos embrenhamos nessa auto-análise.

Uma época a dúvida veio. Convencidos que estávamos, abrimos uma brecha e cogitamos… e se? Ao menos para mim, bateu o medo do arrependimento. E se não tivesse filhos e mudasse de idéia depois, quando fosse tarde demais? Porque para muita coisa nessa vida a gente pode guardar a ilusão de que sempre podemos voltar atrás, mudar de idéia, mudar de rumo e essa ilusão nos dá o consolo de que nossas decisões não seriam tão definitivas, tão drásticas. Mas quando o assunto é filhos, mesmo com as aberrações e com as inovações tecnológicas que tentam empurrar esse limite cada vez mais para frente, existe um fato e existe um limite, um limite do próprio corpo da mulher que, mesmo turbinado, uma hora não dá mais conta. Fim. Acabou. Não vai acontecer. Quem segura a onda de uma decisão assim? Ah, mas sempre pode adotar. Claro que pode. Mas adotar dificilmente é a primeira opção na cabeça de qualquer pessoa que em algum momento da vida cogita ter filhos. Sigamos.

Eu por medo, ele por não sei que motivação, certamente com um monte de clichês agindo nas nossas cabeças, um monte de pressão social, familiar e o escambau para dar um up nas nossas dúvidas e nos nossos receios, enfim, tudo junto e misturado e eis que decidimos mudar de idéia e… não veio filho nenhum. Isso sim é um golpe na nossa onipotência, né? Achamos que podemos decidir se sim ou se não, por quais motivos, quando, como e com quem e daí decidimos tudo e a vida, essa danada, se encarrega de não seguir o nosso script. E a paulada foi tão grande que o casamento acabou. Não por isso, minha gente, que nenhum casamento acaba por não poder ter filhos assim como nenhum casamento fica em pé quando temos filhos apenas pelo fato deles existirem. Mas esse golpe somado a outros, à vida, às mudanças… fim de uma história. Que foi muito boa e feliz. E que não teve filhos.

Roda o filme e lá vou eu pela vida elaborando esse luto de não poder ter filhos. Não queria, depois quis e não deu. E isso doeu. A contrariedade doeu mais do que o fato em si, provavelmente. Isso de querer e não poder. Somos mimadinhos, nós humanos, né? E o tempo foi passando e eu me assentei com essa história e criei uma vida que me fazia muito feliz. Feliz mesmo, não aquela felicidade de foto em rede social para parecer a mais feliz do mundo e ganhar muitos likes. Amava meu trabalho, meus amigos, minhas gatas, minha casa, minha família, meus amores, minhas viagens… Tudo ia bem, estava bem na minha própria pele, coisa mais rara dessa vida de se conquistar. Vão por mim, eu sei do que estou falando não apenas por experiência pessoal como também por vício profissional, encontrar gente verdadeiramente bem encarnado na própria pele é mais raro que encontrar trevo de quatro folhas, ver uma estrela cadente ou ganhar na loteria.

Nessa época boa, conheci o cara-metade. E ficamos juntos. E o bonito disso foi que ficamos juntos quando eu não estava “precisando de homem”, “desesperada para casar”, “com medo de morrer solteira” nem nada dessas frases atrozes com as quais as pessoas em geral insistem em presentear qualquer mulher que, a partir de uma certa idade, não esteja casada e com filhos. Já tinha vivido essa fase, já tinha ido embora, já estava em outra. Pessoalmente, profissionalmente e, o mais importante, emocionalmente, eu já não me sentia mais na obrigação de provar nada para ninguém. Nem para mim mesma. Vim, vi, venci. Ponto. E encontrar um cara-metade nesse estado de alma é como um bônus, não é uma necessidade, nem uma busca. É um acontecimento.

Quando, certo dia, esse sujeito me disse que teria filhos comigo, acendeu uma luzinha ali dentro do meu ser: “filhos? como assim? por quê?”. A vida estava tão boa, onde os filhos se encaixavam nessa equação? E então aconteceu uma coisa meio inesperada (calma, não fiquei grávida, não nesse dia). O inesperado foi que, pela primeira vez, eu pensei que gostaria de construir uma família com esse homem. E esse motivo, que foi menos uma racionalização do que uma evidência, foi o que me serviu como resposta para a questão do por que ter um filho.

Essa é a resposta? Não, essa é a minha resposta. Poderia ter sido outra. Poderia ter sido qualquer uma que me levasse à conclusão oposta. Respostas são pessoais e não merecem ser generalizadas. Minha resposta serve apenas para ilustrar uma coisa que penso que esse movimento childfree provoca com sua postura por vezes tão agressivamente contra a maternidade: é obrigatório colocar a questão.

Para sustentarmos posições e decisões nessa vida que vão contra a maioria, contra o estereótipo, contra as convenções sociais, somos obrigadas a pensar muito, a nos munir de argumentos e, principalmente, a termos um razoável grau de conhecimento de nós mesmas e daquilo que nos mobiliza. Por quê? Porque para defender uma posição dissonante, que vai ser atacada das formas as mais baixas e por todos os lados, é preciso força. E a força vem da reflexão, do pensamento, do autoconhecimento e, ouso dizer, da coerência consigo mesma. Então, só posso supor que talvez uma boa parte das mulheres que aderem a esse movimento childfree tenham um razoável conhecimento delas mesmas, uma razoável experiência de reflexão, de luta consigo mesmas até terem chegado ao ponto de decidirem não ter filhos. Porque decidir isso, afirmar isso, na nossa sociedade e nos dias de hoje que parecem tão bizarros e obscurantistas, é quase uma heresia.

E elas deveriam apenas ter o direito de decidir não terem filhos. Sem que ninguém tenha que questionar, opinar, condenar, criticar. Ninguém tem nada com isso. É um direito das mulheres não ter filhos. Simples assim. Que elas tenham que se agrupar para se apoiar mutuamente contra essa enxurrada de condenações moralistas, cruéis e equivocadas, só prova o quanto é difícil sustentar uma posição dissonante. E o quanto precisamos de companhia para não sucumbirmos sozinhas.

As mulheres que são mães, ou as que querem ser mães, teriam muito a aprender sobre esse questionamento de si com as mulheres que não querem ter filhos. Sobre perguntar de onde veio essa vontade, sobre se indagar até que ponto somos manipuladas, condicionadas, educadas, pressionadas, seduzidas e obrigadas à maternidade, como se essa fosse a única via para uma mulher existir. Deveríamos poder nos perguntar a cada momento sobre o que condiciona nossas decisões, o que está em jogo, o que movimenta os nossos quereres. O que norteia o nosso desejo? O quanto da gente? O quanto do outro?

E aí eu penso que também as mulheres childfree poderiam e deveriam se desarmar um pouco em relação às mulheres que são mães. E orientar os ataques a quem de direito. Porque mulheres mães alienadas, que são levadas pelo mar dos acontecimentos sem pensar, sem se perguntar, achando que tem que ser assim porque disseram, porque seus pais, porque Deus, porque o filme romântico que assistiram… bom, isso tem de monte. E é muito chato mesmo ter que argumentar com quem nem ao menos se dá conta de que está fazendo papel de boneco de ventríloquo. Mas… agredir essas pessoas, serve para o que exatamente? Ironizar suas escolhas, que nem escolhas são, a quem serve essa e outras tantas guerrinhas entre as mulheres?

Na experiência da maternidade existe o insondável. Você pode se colocar em risco, pode se colocar em questão, pode decidir ter ou não ter filhos. E nada disso garante que você vai ser feliz o tempo todo com a decisão que tomou. Senão não seria a vida, seria mais um filminho bobo, né? Pode ser que mulheres que decidam não ter filhos se arrependam. Pode ser que mulheres que decidam ter filhos se arrependam. Isso não tem nada a ver com a decisão, isso pode ser apenas o curso da vida. As coisas mudam, decisões acertadas em uma época podem não fazer mais sentido depois. E, com filhos, essa mudança não faz com que se possa voltar atrás, nem para quem teve, nem para quem não teve. E tudo bem. Ou não.

Sou feliz com a decisão de ter tido filhos. Principalmente, sou feliz com a conjuntura de tê-los tido mais tarde, e de não ter a sensação de que perdi coisas, de que deixei de fazer coisas, pois vejo tudo o que fiz e não gostaria de ser aquela pessoa que tinha aquela vida mais do que gosto da vida que tenho hoje. Tem momentos difíceis? Tem. Tem perrengues? Tem. Mas fiz a melhor escolha.

O que vale para mim não precisa valer para nenhuma outra mulher. Tenho grandes amigas que não tiveram filhos. E outras tão próximas quanto e com filhos. Nenhuma delas escapa de seus momentos de dúvidas, de arrependimento, de questionamento. Nenhuma. Nenhuma delas vive uma vida sem dificuldades. Mas nenhuma delas está totalmente infeliz. Qual a dificuldade, ao menos entre mulheres, de respeitarmos e apoiarmos que cada mulher tenha o direito de ser e de viver como quiser?

 

Mas no meu tempo…

Vou começar pelo óbvio, que parece que as pessoas que adoram esse mote desconsideram: o seu tempo é hoje. Isso posto, vamos aos fatos.

Vira e mexe vejo pessoas discutindo a respeito da infância e de seus filhos utilizar esse argumento: “ah, mas no meu tempo é que era bom, era assim, era assado”. De que tempo estão falando? Podem estar se referindo ao tempo de suas infâncias. Mas esse era mesmo o seu tempo?

Quem argumenta dessa maneira desconsidera que o tempo de nossa infância é tudo menos o nosso tempo. Ele é, essencialmente, o tempo de nossos pais, de nossos avós, daqueles que são os adultos daquele tempo e que fazem com que a vida seja tal qual ela é. Aquele tempo é o tempo de quem tomou as decisões, não de quem as vive de forma passiva.

O nosso tempo é o de hoje, quando nos tornamos adultos e participamos ativamente na criação desse mundo que nos cerca. E é aí que talvez possamos entender melhor porque existem pessoas que gostam tanto de dizer “no meu tempo…”

No meu tempo te libera de qualquer responsabilidade pela vida tal qual ela é hoje, como se o mundo atual fosse um acaso que tivesse despencado sobre a sua cabeça sem que você nada tenha feito para isso. No meu tempo as crianças brincavam livres pela rua. E quem é que guarda as crianças de hoje em dia trancadas em apartamentos e condomínios fechados, coladas na TV, no tablet e no celular? Ah, mas hoje em dia é muito perigoso deixar as crianças na rua. Sim, e de quem é a responsabilidade por esse perigo, de um mundo que ficou assim a sua revelia ou de escolhas que fizemos, enquanto sociedade, por manter desigualdades e criar tensões sociais que aumentam diretamente a violência? Escolhas e decisões das quais você participa e as quais você reforça quando opta por se encastelar no seu prédio cheio de câmeras e fios de arame farpado como uma vítima impotente de um destino cruel ao invés de reivindicar a rua e de agir para que ela possa ser ocupada até mesmo pelas crianças.

A pessoa que argumenta com o famoso “no meu tempo” se exime de pensar, de se implicar no tempo em que ela é adulta e potencialmente agente da situação, se acomoda e se acovarda numa situação dada, que ela alegremente transmite aos seus filhos na maneira como os educa. Sem nenhum questionamento, sem nenhuma rebelião, apenas aceitação. Dizemos “no meu tempo” como se o passado que parece tão melhor fosse obra nossa e o presente fosse fruto de qualquer um menos de nós mesmos.

Não foram os seus filhos que fizeram o tempo de hoje, eles farão os tempos de amanhã e talvez possam fazê-lo muito melhor do que aquilo que fizemos. Mas se o tempo atual está tão pior do que o tempo da sua infância é muito provavelmente porque você trabalhou muito menos do que os seus pais para construí-lo bem. Ou porque se acomodou na idéia do “meu tempo” como um tempo sempre passado e não se deu conta que precisaria agir e fazer um grande esforço para ter um tempo que julgasse bom.

As pessoas que gostam de dizer “no meu tempo” para discutir infância e crianças são as mesmas que gostam de dizer “nós fizemos isso e sobrevivemos”. O argumento do sobrevivente é a sequência óbvia para o argumento da nostalgia do tempo que passou. E ao mesmo tempo é sua negação. Porque quem viveu num tempo tão maravilhoso não precisaria ser um sobrevivente, né? Não teria que justificar que passou por situações difíceis ou que foi o alvo de decisões questionáveis e que conseguiu ultrapassá-las. Se “o meu tempo” tivesse sido tão bom assim, por que você teria que ter “vivido e sobrevivido” a ele?

A infância é uma fase da qual guardamos lembranças que misturam realidade e ficção. Muito do que foi nossa infância nos resta como memória à partir do que nos contam os adultos. São os adultos, os verdadeiros senhores daquele tempo, que nos repetem o que aconteceu através de seus relatos, de fotos, de vídeos, de testemunhos. E nós acreditamos nessa versão porque ela é parte importante da colcha de retalhos que precisamos montar cada um de nós a fim de termos alguma referência do que foi que vivemos. Boa parte, sobretudo de nossa primeira infância, fica em algum lugar recôndito de nosso ser, esquecida, presente apenas em traços que quase não são memórias… um cheiro, um gosto, um clima, um déjà vu. Existe aquilo de que lembramos e aquilo que criamos como lembrança e tudo isso nos compõe. Muitas vezes em análise as pessoas chegam por conta de um sofrimento decorrente entre essa memória criada e alguma sensação dissonante de que algo ali não bate e o trabalho é feito no sentido de aproximar essa sensação de discrepância de algo que pareça uma memória mais coerente com aquilo que a pessoa sente ou intui. Tudo isso para dizer que “no meu tempo” desconsidera também que esse tempo tão bom é uma construção, repleta de muitas verdades e de muitas farsas, que serve para quem você é hoje mas que pode conter em si muitas áreas de desconhecimento, de sombra ou, até mesmo, de mentira.

Uma mentira possível é aquela que os advogados do “no meu tempo” também gostam muito de propagar: a de que nas suas infâncias tão felizes, seus pais eram muito mais relaxados, tranquilos e menos pressionados do que os pais de hoje em dia em relação à educação de seus filhos. Como se os pais tivessem, naquela época, a sabedoria de deixar seus filhos brincando entre si enquanto conversavam alegremente entre adultos, cada qual livre para viver sua vida de criança ou de adulto sem que um interferisse no prazer do outro. As pessoas que lançam essas memórias de pretensa liberdade de adultos em relação aos seus próprios filhos, como se nos pais sim tivessem tido a capacidade de não ficarem escravizados ou assombrados pela infância e por suas crianças, esquecem de perguntar a esses mesmos pais e, especialmente, às suas mães, como é que era realmente o cotidiano de seus cuidados.

Quem se dá ao trabalho de confrontar idealização com realidade indo falar com os próprios pais talvez perceba que, sim, eles tinham a tranquilidade de deixar os filhos brincar na rua. Ou brincar longe deles durante uma reunião entre amigos. Mas essa aparente descontração não significa que eles não estivessem repletos de preocupações ou de pressões em relação aos seus filhos e à sua criação. Se na época de nossos avós o melhor que se podia oferecer para uma criança era que ela fosse à escola e pudesse ao menos saber ler e escrever, é justamente na geração de nossos pais, aquela em que há um salto por conta dos estudos para muitas e muitas famílias, que oferecer aos filhos apenas a alfabetização não é mais suficiente. É importante ir além, é importante ir para a faculdade. E poder trabalhar e ganhar a vida decentemente. Então, possivelmente nossos pais não estavam preocupados com agrotóxicos na comida (porque isso apenas começava a existir) ou com excesso de hormônios no leite de vaca (porque o leite era melhor e menos turbinado naquela época). Mas eles se preocupavam, se estressavam, se sentiam pressionados por eles e por seus pares a nos darem o melhor daquilo que se concebia como melhor naquela época. Ou seja, a maternidade e a paternidade nunca foi algo sem pressão, sem questionamentos, sem críticas ou sem dúvidas.

Ou talvez sim, tenha sido. Historicamente, ter filhos era outra coisa até o momento em que a infância passou a ocupar o centro das atenções das famílias. Mas isso aconteceu quando a família, que era extensa e englobava várias gerações e vários graus de parentesco passou a se centrar na família nuclear. E as crianças, que eram mini adultos considerados apenas como mão de obra se tornaram, pouco a pouco, crianças na acepção que se tem do termo nos dias de hoje. Só que essa mudança não aconteceu da geração anterior para a nossa, como parecem pensar os defensores do “meu tempo”, um tempo onde a infância seria totalmente diferente do que se vê nos dias de hoje. Não, a idéia de infância como existe hoje, assim como a idéia de família e até a idéia de centralidade da infância são construções históricas que começaram mais ou menos no século XVI. Para quem tem dúvidas, basta ler Philippe Ariès. Já faz alguns séculos que a infância e as crianças estão “no centro” das atenções das famílias, mesmo que o que possa ser considerado como foco de atenção possa variar de uma geração a outra.

Então, as pessoas do “no meu tempo” e do “fiz e sobrevivi” parecem precisar desses argumentos que as colocam em um passado ideal sem nenhuma responsabilidade pelo hoje que existe para fazer frente a algo que as angustia muito, assim como angustia a qualquer que tenha filhos e que elas chamam de “centralidade dos filhos” na vida familiar atual. E, para isso, elas citam exemplos de pessoas preocupadas com educação, alimentação e todos os outros aspectos da criação dos filhos como potenciais escravos dessas crianças, que se tornariam tiranos. Além de ser um argumento de gente que não quer se mexer e que parece ficar incomodada que outros queiram, me espanta a cada vez que o escuto, principalmente quando usado para falar de nosso filhos, sua mediocridade e sua pobreza de espírito.

Se formos traduzir, esse argumento das pessoas que se irritam com quem busca informações, alternativas, referências e, em suma, se questiona permanentemente é uma espécie de elogio da ignorância e do imobilismo. Como “no meu tempo” era diferente e minha memória construída desse tempo é boa e como, corroborando o que eu acredito está o fato de que eu estou aqui, estou vivo e me julgo alguém legal, logo, no que diz respeito aos meus filhos, basta replicar o que eu vivi. Não importa que se passaram 30 anos entre a minha infância e a dos meus filhos, não importa que nesse meio tempo descobriu-se que açúcar causa obesidade, por exemplo. Se eu tomava refrigerante e estou aqui, o pimpolho também vai tomar. Porque, de que importa que as informações surjam, que pesquisas sejam feitas, que pessoas questionem, que novos modos de entender apareçam?

O que essas pessoas fazem é um elogio da ignorância e da mediocridade contra quem quer que pense ou aja diferente. E que é rapidamente taxado de excessivo, escravo dos filhos, criador de tiranos em potencial. Na sua preguiça em rever a si e aos seus conceitos, na sua inércia em agir no mundo e no tempo atuais, acomodam-se no “seu tempo” e no “eu vivi” e se regozijam uns com os outros a cada vez que aparece um novo texto sobre maternidade sem complexos, sem cobranças e sem neuras. Todos os outros ficando do lado das neuras e da cagação de regra.

Será mesmo que os pais dessas pessoas, os pais e as mães dessas pessoas que pregam a coolitude a qualquer preço em relação à maternidade e à paternidade estavam assim tão tranquilos no tempo deles? Ou será que são esses pais que estavam se esforçando em tudo aquilo que eles julgavam essencial na época para mudar o mundo, para construir um mundo melhor e para dar a esses filhos melhores condições e um ponto de partida diferente do que tiveram? Se os pais dessas pessoas tivessem ficado com essa lógica que elas adoram do “no meu tempo”, eles não teriam ido para a escola além da quarta série, nem teriam ido para a faculdade, não teriam viajado para conhecer o mundo, nem teriam ido a museus, peças de teatro ou concertos de música. Porque “no tempo” dos nossos pais, nossos avós tinham outras preocupações, outras prioridades, outras pressões e, portanto, outras ações em relação aos seus filhos.

Se toda gente ficasse acomodada nessa lógica do “meu tempo”, crianças não seriam vacinadas porque houveram gerações de pessoas para as quais não haviam vacinas e que, mesmo assim, sobreviveram. Crianças nem iriam à escola porque houveram gerações de crianças que iam diretamente ao trabalho e, quando muito, a centros de formação técnica, que é o que existia na Idade Média tardia. Crianças cujos pais foram apenas alfabetizados se preocupariam apenas que seus filhos soubessem assinar seus nomes. E pais que viveram a fome se preocupariam que seus filhos pudessem apenas comer e não comer o mais saudavelmente que cada época pode proporcionar. Apenas para viajar em alguns exemplos.

E é bom lembrar que estamos falando apenas de uma certa camada da sociedade, de uma certa parte desse país. Essa camada que mais ou menos compõe a classe média atual das grandes cidades. Porque em muitos lugares do Brasil (e até mesmo do mundo) crianças brincam nas ruas livremente, crianças brincam entre si enquanto seus pais conversam, crianças andam descalça e não ficam na frente do computador, da TV e nem cumprindo agenda de ministro. Aliás, se essas pessoas do “meu tempo” olhassem um pouco para além de seus próprios umbigos, veriam que as questões delas são também questões específicas, não generalizáveis, nem historicamente e nem ao menos em um mesmo país, em uma mesma classe social, em uma mesma cidade. São questões preguiçosas de gente que, ao invés de assumir suas escolhas por ficar na lógica do “meu tempo”, do “fiz e não morri” para se oporem às crianças tiranas que tanto as assombram, preferem ainda uma vez não assumir responsabilidade nenhuma, nem por suas posições na vida e em relação aos filhos, criticando e jogando a culpa nos outros, que são mostrados como os equivocados.

Nos tempos de hoje temos a vantagem e ao mesmo tempo a condenação de termos em mãos o acesso à muitas e desencontradas informações. E isso, em todos os domínios, inclusive no que diz respeito à infância. Para muitos de nós, isso funciona como uma espécie de fantasma, como se tivéssemos que dar conta de tudo o tempo todo sem errar. Consequências do nosso tempo, que se torna angústia e sofrimento para muitos e essa reação tosca de recusa para outros. Será mesmo que para acabar com a angústia é necessário se fechar nesse passado ideal e nessa recusa em se mexer? Se isso funcionasse para acabar com essa angústia, por que então as pessoas do “no meu tempo” se sentem tão propensas a escrever sua defesa permanente de sua posição?

Em tempo, as pessoas falam da centralidade da infância como se a criança de hoje fosse o centro do mundo e tudo girasse em torno dela. E, para defender esse argumento, usam o exemplo das crianças que fazem milhares de atividades e cujos pais passam os dias a levar e trazer e a seguir crianças em atividades e programas de crianças sem fim. Nem vou mencionar novamente o quanto isso é uma realidade parcial, localizada no tempo e no espaço e totalmente diferente do que ocorre na imensa maioria do Brasil. Limito-me à perguntar o que sempre penso quando escuto essas afirmações: será que isso é mesmo uma prova da centralidade da criança nas famílias atuais? Será isso mesmo uma demonstração da tirania das crianças e das infâncias que escravizam os adultos? Ou será que é justamente o contrário, uma demonstração de um modo de agir no qual a criança é apenas refém de um leva e traz infinito, através do qual ela é delegada a tudo e a todos, na esperança e na aposta de que toda essa ação, de que todas essas atividades, de que todas essas outras pessoas consigam preencher um vazio daquilo que justamente não podemos, não queremos ou não conseguimos dar, a condição e a importância central que essa criança deveria ter substituída por uma performance que serve de vitrine e de justificativa para os outros? Será que a criança tirana não é, na realidade, a criança que, frente a essa ausência, frente a essa falta do essencial, começa a adoecer, a se rebelar, a dar trabalho e dar problema, convulsionando frente a esse contexto que mais a violenta do que a leva em consideração?

O que será que essas crianças de hoje vão dizer do “seu tempo”?

 

Essas nossas crianças

Eu nunca entendi direito quando diziam que a esperança está nas nossas crianças. Que nossos filhos são o futuro. Ambiciosa que sou, queria ser também parte dessa esperança e desse futuro. Queria mudar o mundo.

Talvez apenas as crianças tenham a inocência de sonhar com mudar o mundo. E a ousadia de tentar fazê-lo. Costumamos dizer que depois vem a “maturidade”. Mas talvez tenha muito mais a ver com acomodação, cansaço, preguiça, covardia. Por quaisquer que sejam os motivos, e salvo algumas raras e louváveis exceções de pessoas que lutam a vida inteira, a maioria de nós, uma vez adultos, acabamos nos deixando seduzir ou amansar por uma vida em que vale mais garantir o que conquistamos do que arriscar tudo por um passo fora do esquadro. A vida é tão difícil, é tão duro lidar com tantas demandas e tantas restrições, por que sair de uma zona de conforto quando finalmente conseguimos chegar em uma? Talvez seja a isso que chamam velhice, quando, na nossa cabeça, chegamos em um ponto em que pensamos naquilo que podemos perder e nos vemos incapazes e sem forças de começar do zero mais uma vez.

As crianças não. Elas sentem que podem arriscar tudo. Não por ainda não terem nada, maldição da nossa sociedade em que ter é mais importante do que ser ou do que viver. Mas por acreditarem que o mundo tem espaço para elas, para seus desejos, para sua vontade de mudança. Elas acreditam naquilo que nos escapa.

Sorte a minha ter tido filhos e poder aprender com eles sobre esse olhar benevolente para com o mundo. Eles acreditam sempre, eles confiam. Neles, em nós, na vida. E esse encantamento, essa confiança, essa ousadia e quase arrogância de querer fazer, de querer dobrar o mundo à sua vontade, isso é uma riqueza. Infelizmente, desiludidos que somos nós, os adultos chamados realistas, acabamos acreditando que nossa tarefa seria domesticar esse olhar. Pensamos que estamos ajudando nossas crianças se ensinarmos a elas o mais rápido possível a se conformarem à realidade da vida. Acreditamos que nosso objetivo é torná-las ao máximo parecidas conosco.

Mas será mesmo que se adequar a esse mundo é sinal de maturidade e de sabedoria?

Vivemos reclamando que o mundo de hoje é feio, injusto, desigual. E, paradoxalmente, nos prestamos docilmente a “educar” nossas crianças para que elas se encaixem o mais perfeitamente nele. E sempre que, para aparar as arestas da liberdade, da insolência e da esperança, nos vemos obrigados a usar de qualquer tipo de violência, ainda conseguimos murmurar e nos convencer de que é assim que as coisas são. E de que é para o próprio bem deles que o fazemos. É por amor. E o amor justifica as maiores injustiças e agressões.

Se olhássemos com um mínimo de franqueza para nossa própria vida, talvez pudéssemos perceber o quão contraditório é desejar para nossos filhos, a quem amamos incondicionalmente, que aceitem e se adaptem a uma existência em um mundo como o nosso. Sem questionarem nada. Que apenas aceitem, se conformem e marchem, como gado, dia a dia, em direção a uma existência tão desacorçoada quanto a nossa. Em um mundo feio, injusto, violento, desigual. Por que eles teriam que se enquadrar nisso e ainda achar bom?

Mais ainda, com essa nossa atitude normativa, acreditamos estar salvando-os dos maiores perigos. Estamos, na verdade, salvando-os do risco. Do risco de uma vida sem previsão. Do risco de um salto no desconhecido. Quando começamos a querer salvar nossos filhos do desconhecido da vida fazendo-os se apaziguarem no conhecido desse mundo tão ruim, quando começamos a ter medo demais e a forçá-los para que se enquadrem a todo custo naquilo que poderíamos chamar de sobrevivência ou de “o menos pior”… bom, é aqui que sabemos que envelhecemos. E que não somos mais a esperança ou o futuro. E que agora apenas fazemos parte dessas forças que lutam contra a esperança e o futuro. De revolucionários a reacionários… triste fim.

Nesse mundo feio, injusto, violento e desigual que mostra os dentes e as garras com cada vez maior ferocidade em nossos dias, aqui na Europa, mas também aí no Brasil, de onde chegam sempre as notícias mais tristes e desalentadoras, vez ou outra chegam uns rasgos de esperança. E a esperança que chega daí, do outro lado do Atlântico, vem pela boca e pelos gestos das crianças.

Essas crianças que estão crescendo sem perder o olhar benevolente para com o mundo. Crianças que ainda acreditam que sua vontade vale algo. E que o mundo pode mudar. Que aquilo que as cerca é poroso e pode ser influenciado por sua vontade.

Não, não estamos vendo surgir uma nova geração de tiranos cujos pais atenderam a todos os caprichos desde a mais tenra infância. Qualquer sujeito pensante consegue perceber a perversidade desse argumento que pretende nos justificar na violência de nossos gestos contra nossos filhos.

Não, não são as crianças sem limite, que nunca ouviram um não na vida.

São crianças que querem mudar o mundo. Em nome de um bem maior.

As crianças que lutam por educação de qualidade.

Por comida decente na merenda da escola.

Por dignidade.

Por respeito para com as meninas-mulheres.

Crianças que se vêem livres e face a essa liberdade, olhem só, não saem quebrando, roubando, reivindicando o seu pirão primeiro como vemos cotidianamente no mau exemplo enraizado em nossa cultura de cima a baixo por tantos adultos corruptos e corruptores a defender sempre e apenas seus próprios interesses.

Essas crianças, quase que por um milagre, querem outra coisa. Querem mais, querem melhor. Querem o que nunca poderíamos imaginar que quisessem. Elas querem tudo. Elas querem mudar o mundo.

E elas tem razão. Esse mundo em que vivem é mesmo uma bela porcaria. Nossa total responsabilidade, nossa, dos adultos, que ao invés de mudarmos o mundo para todos, nos restringimos a garantir nossa sobrevivência cotidiana, a pequenez de nossas básicas aspirações e necessidades. Culpa nossa, problema deles. Que o assumem de peito aberto. Com coragem e ousadia. Desculpem nossa covardia e apatia, crianças. Desculpem querer convencê-los de que é esse nosso jeito que é certo e bom.

Essas crianças que esquecemos por aí, nas escolas públicas sucateadas, comendo comida de merda, abandonadas ao destino de serem gado e seguirem seus destinos sem reclamar. Ah, essas crianças agora se rebelam! Que ousadia! Que ultraje! E toca bala de borracha, cacetada, que nós, adultos, não podemos aceitar que esses seres pequenos se rebelem contra nossas verdades.

O que acontece hoje em dia nas escolas de São Paulo e Rio, e a forma como essas manifestações e ocupações são tratadas pelo poder público, são um perfeito reflexo daquilo que acreditamos, como pais, que seja educar um filho: educar é dobrar, domesticar, aparar todas as arestas até que não sobre nada de uma singularidade. Fazemos isso na nossa casa, no dia-a-dia. E não vemos com nenhuma surpresa que a polícia, o governo, os políticos façam o mesmo nas escolas e nos espaços que deveriam ser os de expressão da palavra, das necessidades e dos anseios das pessoas. Espaços em que os outros de nós, nossas crianças, deveriam poder existir e onde se deveria poder celebrar sua existência. Onde cada um deveria ter lugar para ser quem é no mais profundo respeito. Onde o futuro e a esperança de todos nós deveria ser cuidado e protegido. Mas não. Se não conseguimos nem olhar para nossos filhos como outra coisa que um serzinho desafiador que precisa ser “educado”, como é que poderíamos ver a escola como outra coisa que não a continuidade desse processo de domesticação? Consideramos até que é merecido que esse bando de crianças aprenda desde cedo quem é que manda. Chamamos de delinquentes na TV. E todos ficam aliviados em ter seu “estilo de vida” confirmado. Ufa! Afinal, se eles mandam na gente, por que esses fedelhos poderiam ousar querer escapar?

Domingo é dia das mães. Mais uma data para a qual olho com desconfiança, tanta quanto para o famigerado dia da mulher. Ser mulher e ser mãe, nesse nosso mundo, são apenas valorizados quando servem de pretexto para o consumo. Estamos muito longe de um tempo e de um lugar em que ser mulher seja algo pelo qual não se tenha que batalhar cotidianamente. Quanto a ser mãe então, único lugar pretensamente legítimo para uma mulher querer ocupar, esse não é sem dificuldades, sem sofrimento, sem violência ou solidão. Mesmo o lugar que nos permitem ocupar nesse mundo é um lugar violento. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mulheres. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mães.

Maternidade compulsória, falta do direito de escolha, condenação a cuidar dos filhos sozinha e sem recursos, obrigação de sacrifício, julgamento permanente por não cuidar bem, o que quer que se faça. Mãe é essa mulher julgada e condenada duplamente, não importa o quanto se esforce. Uma maneira vil de dobrá-la, de nos dobrar, de tirar nosso sangue até que não sobre força nenhuma de resistência.

Mas… temos os nossos filhos. E filhas.

Temos as nossas crianças.

Essas crianças aí, que tantos adultos agora repudiam. Essas crianças que botam medo nesse bando de marmanjo corrupto, bandido e covarde. Essas crianças que muitos querem dobrar à força.

Se tem um dia das mães que faz sentido, é o dia das mães dessas crianças. Todos os dias dessas mães dessas crianças que, visivelmente, conseguiram e conseguem criar jovens que fogem do esquadro. Vocês são mulheres as mais admiráveis. Parabéns por existirem. Parabéns por nos darem a esperança na forma dessas crianças.

Com carinho, de uma mãe que só pode acreditar num futuro graças a essas crianças. As suas. E as minhas.

Alessandra

Ocupação / ALESP

Ocupação / ALESP

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas SP em 2015

Ocupação escolas GO

Não fechem minha escola

 

 

As meninas

Essa semana foi celebrado o dia da mulher e eu sou daquelas que pensam que não temos nada que comemorar e muito ainda pelo que lutar. Acho que não é novidade para ninguém que essa data foi instituída depois que grupos de mulheres na Europa e nos EUA começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e um tratamento mais igualitário, no final do século XIX, início do século XX. Ou seja, trata-se de um dia que deveria servir como incitação para colocarmos os holofotes sobre tudo aquilo pelo que ainda passamos, nós mulheres, em um mundo que continua machista, misógino, violento e desigual. E onde ser mulher não é fácil e sem riscos. Onde é preciso encontrar forças para olhar para além dos rótulos com que insistem em nos tachar – a menina direita, a vadia, a mãe dedicada, a profissional eficiente, a loira burra, a caminhoneira, a cougar, a lolita, entre tantos outros. Rótulos que servem apenas para impor ideais inatingíveis e criar divisões e inimizades. Falsos papéis que só tornam ainda mais difícil e solitária a vida de tantas de nós, que nos fazem incapazes de empatia por conta de um julgamento sobre as mulheres em geral e até mesmo sobre o que é ser mulher que precede o encontro com qualquer mulher de carne e osso. Um filtro que acompanha e interfere em todas as nossas relações, deixando-nos menos permeáveis umas às outras, menos capazes de demonstrar solidariedade.

Tenho a sorte de ter encontrado algumas mulheres ao longo da vida que me ensinaram muito sobre essa comunidade e sobre a importância de estarmos juntas, de nos vermos, de nos ouvirmos e de nos apoiarmos mutuamente. Como as mulheres de uma mesma aldeia, como as mulheres de uma mesma família na época de nossas bisavós, como as mulheres de uma mesma vizinhança de uma cidade pequena de antigamente. Como na época e nos lugares em que mulheres sabiam estar juntas.

Essas mulheres talvez nem saibam o quanto aprendi com elas. Por meio de palavras, gestos, ações elas me fizeram experimentar essa comunhão que desconhecia. Me ajudaram a encontrar uma certa serenidade em existir. E um bocado de orgulho em ser quem sou. São mulheres que souberam dar tempo ao tempo, que cultivaram a paciência, que perseveraram contra doenças, que confrontaram graves depressões. Que carregam consigo uma sabedoria do silêncio, uma maleabilidade na escuta e nas palavras, um cuidado com o outro. Mulheres batalhadoras, não se enganem. Mulheres autoras, com idéias, com opiniões. Mas sem o caráter belicoso e hostilizador que muitas vezes a defesa de idéias e de posições carrega. Mulheres que, talvez não por coincidência, são entre outras tantas coisas, mães.

Ao menos no que me diz respeito, parir foi um acontecimento revolucionário. Parir minha filha e meu filho me deram uma espécie de confiança que nenhum discurso bem arrematado tinha podido me trazer até então. Uma segurança vinda das entranhas, algo visceral, um saber daquilo que sou capaz. Talvez seja por isso que tanto se faça contra o parto e que tantos dos defensores da medicalização, da intervenção e da retirada do protagonismo da mulher sejam homens. Quem vai querer uma mulher que confia em si mesma, que não se sente passiva, subjugada e servil, que entende o profundo laço que a une a todas as outras, que é capaz de solidariedade e de tomar posição para defender suas crias e suas iguais?

Pois é, por isso que o feminismo é algo tão atual e tão necessário nos dias de hoje. O feminismo que coloca as mulheres juntas, não aquele que divide entre mulheres conscientes e alienadas, aquele que advoga que só existe um jeito certo de ser mulher e que todas as outras escolhas são equivocadas. Enfim, um feminismo no sentido de defender a igualdade de direitos, o fim da violência de gênero e a garantia da liberdade de ser o que quer que se deseje. Mulheres parideiras têm tudo a ver com o feminismo e têm tudo a contribuir com ele porque conhecem nas suas entranhas o quão violenta é a máquina de moer carne contra a qual tiveram que lutar para poderem simplesmente existir enquanto mulheres que botam seus filhos no mundo. E, de quebra, elas sabem a força que essa luta contra o sistema no mais íntimo momento de ter um filho traz.

Passei dias escrevendo esse texto a conta-gotas e termino-o em um dia estranho. Um dia em que muita gente vai às ruas no Brasil pedir o fim da corrupção de braços dados com um bando de corruptos, sustentando um discurso de ódio tão explícito e tão sem projeto de futuro como poucas vezes vi. Gente querendo mudança sem querer mudar. Gente querendo mudança aliada a gente que nunca mudou. Gente querendo decapitar o rei para colocar um outro tirano no mesmo lugar. Uma tristeza sem fim ver o que acontece no meu país nesse momento.

Talvez nesse momento, mais do que em tantos outros, a voz das mulheres seja ainda mais necessária. Quase não as vejo falando algo a respeito. Talvez porque, em meio a tanta violência, conseguem ainda nos manter de boca fechada? Talvez porque tenhamos que gritar tanto por questões básicas como a de garantir a nossa própria sobrevivência? Talvez porque o sistema cuide para que estejamos tão esmagadas que nos sobre poucas forças e pouca voz para gritar contra esse mundo assustadoramente pleno de ódio que parece ter se inculcado em cada poro de cada milímetro do Brasil? Mulheres capazes de empatia, de cuidado, de pensamento, de questionamento. Mulheres capazes de recusar esse discurso de ódio e essa estranha capacidade que temos em nosso país de querer fundar algo “novo” apoiados por um monte de mentiras, de querer fabricar um castelo sobre um pântano. Onde está a voz das mulheres num dia como o de hoje, tão próximo do 08 de março? Onde está nossa força descomunal em gerar algo realmente novo? Onde foram parar valores como justiça, honestidade, solidariedade, cuidado?

Para mim, pessoalmente, são essas mulheres inspiradoras que me ajudam a seguir em frente e a acreditar que ainda é possível fazer algo para deixar um mundo melhor para meus filhos. E fazer algo para deixá-los também sendo pessoas melhores para esse mundo. Mulheres inspiradoras que estão aqui nos meus pensamentos e no meu coração no dia de hoje e em todos os dias. Mulheres com as quais sinto comungar algo de profundo e de profundamente revolucionário que, quem sabe, com o nosso esforço e com nosso trabalho, se torne cada vez mais inevitável e impossível de ser recusado. Somos mulheres. Somos capazes de tudo.

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Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

O pai participativo

Acho que posso contar nos dedos de uma mão apenas os pais que conheço que assumem plena e verdadeiramente a paternidade. A grande maioria defende-se ainda no mesmo lugar que nossos pais ou avós, para os quais ser pai, no melhor dos casos, era botar dinheiro / comida em casa e isso praticamente resolvia a questão. Ah, umas surras de vez em quando também podiam fazer parte do pacote, a cada vez que surgisse aquele ímpeto de educar amalgamado à disciplina que apenas um pai severo poderia aplicar nos seus filhos bestas-feras que a mãe era incapaz de controlar. Isso, no melhor dos casos, pois no pior o sujeito simplesmente se mandava – e ainda se manda – em algum momento da história como se não fosse com ele. Toma que o problema é seu. E segue com a vida. Mas há também uma outra tendência de pais que vem aumentando ultimamente, nas novas gerações, a do pai participativo. E é essa que tem me causado calafrios. E reflexões.

Pai participativo é um nome mais bonitinho para o pai que ajuda. É aquele carinha que troca uma fralda, dá uma mamadeira, dá um banho, troca uma roupinha. Levar para passear, no carrinho ou no sling, constitui-se no verdadeiro golpe de misericórdia desse tipo de pai, que arranca suspiros de admiração por onde passa, especialmente de mulheres e mães sobrecarregadas que olham e pensam: “ah, que exemplo de homem! Por que o meu traste não pode ser assim também?” Está feito o estrago: uma porção de mulheres desejosas do pai participativo e uma porção de homens pressionados a trocar ao menos uma fralda. E um bando de sujeitos que começam a vender sua imagem de pais sensacionais através da net, dos blogs, das fotos no Instagram, das postagens no Facebook.

Uma parte do segredo parece estar aí, nisso que passa desapercebido como um mero detalhe: o pai participativo é um pai público. E um pai que publica. Ele aparece na mídia na foto do pai que protege o filho da chuva em detrimento da sua própria figura molhada e atingida pelas intempéries inclementes. Ele é aplaudido por milhares de fãs quando advoga em prol de tratar sua filha como uma princesa. Ele se torna Deus quando é fotografado fazendo pele-a-pele com seu recém nascido. Qualquer uma dessas notícias e/ou imagens que tivesse no lugar do pai uma mãe não causaria – como em geral não causa – praticamente nenhum impacto. A mãe prioriza o filho em detrimento dela própria, ela advoga em prol de tratá-lo amorosamente e com respeito, ela cuida dele desde o nascimento, emprestando seu corpo, seus seios, seu calor, sua pele para acolhê-lo? Bem, isto não é mais do que sua obrigação.

Ser mãe não parece ser digno de nota até que o seja pelo seu contrário. Quando ela aborta, ou deixa a criança na portaria de um prédio de classe média alta, ou quando decide colocar na creche / na escola para voltar ao trabalho, ou quando decide deixar de trabalhar para cuidar da criança em casa… bem, aí aparecem muitas vozes para dizer que há algo errado. Já o pai não. Ele troca uma fralda, é ovacionado em praça pública e recebe o Nobel de pai do ano. Dois pesos, duas medidas, bem a cara dos nossos tempos e da nossa cultura, onde desigualdade de gênero é ainda onipresente e suscita poucas questões.

Fato é que para cada cem mulheres que falem seriamente sobre um assunto, será um homem que, dizendo o mesmo será reconhecido em sua sabedoria e apontado como o salvador da pátria. Basta ver, no meio acadêmico, em relação a qualquer tema em que existam muitas publicações e muitas reflexões feitas por mulheres, quem é que será considerado a referência no assunto. Grandes chances de que seja um homem. Quem será o professor livre docente chefe da cadeira do tema x, y ou z, a sumidade do assunto? Possivelmente, um homem. Mesmo que uma ou muitas mulheres tenham dito ou feito o mesmo antes.

Por que quando o assunto é mater / paternidade seria diferente? Criação com apego, quem são as referências? Uma série de mulheres. Mas o que “bomba na net” são as palavras de um homem.

Não estou aqui a defender um feminismo xiita no qual em nome do protagonismo feminino os homens deveriam ficar de boca fechada. Estou defendendo, tão somente, que aquilo que a maior parte desses tais pais participativos parece ter descoberto como a invenção da pólvora e que agora ficam bradando aos sete ventos como se fosse uma enormidade são apenas um básico, o mínimo, nada mais do que a obrigação. E que fica meio ridículo ficar se vangloriando por fazer o mínimo necessário por um filho. Ou não?

O pai participativo só pode existir e sair bem na foto porque, ao lado dele, na grande maioria dos casos, existe uma mãe sobrecarregada. Na sombra. Sem apoio. E sem nenhum reconhecimento.

Os poucos homens que conheço e dos quais falava no começo desse post como sendo aqueles que assumem de fato a paternidade não são esses pais participativos que jogam para a torcida. Na realidade, são até bem discretos. Na deles. Quase constrangidos como se tivessem que se desculpar por centenas e milhares de anos de desconsideração, de desrespeito, de desleixo, de negligência de todos os seus antecessores. São homens meio constrangidos que parecem finalmente ter entendido algo que a maioria das mulheres que são mães entendem tão rápido quanto um soco na cara, assim que o bebê nasce: que nós somos o tal do “último homem”, ou o “homem de frente”. Aquele que fica ali, no front ou no jogo, naquele lugar mais exposto, de total vulnerabilidade porque de responsabilidade absoluta. Depois de você, simplesmente não há. Não há para quem passar a bola, não há quem dê o tiro de defesa. Não há quem assuma o serviço no seu lugar.

Mulheres descobrem isso bem depressa e o peso inteiro do mundo recai sobre elas assim que o bebê nasce: se você não fizer, ninguém vai fazer. Você é aquela para quem todos se voltam a cada vez que for necessário lidar com algo que ninguém mais conseguiu. Que seja fome, sono, medo, mal-estar, tristeza, expectativa, frustração… o que quer que seja, ao fim e ao cabo, todo mundo sabe que, se não der para resolver, se cansar, se apertar, se a coisa ficar complicada, leva para a mãe que ela resolve. E a primeira vez que seu filho chora e vem parar no seu colo, você sente no fundo de você mesma que é assim: eis aí o limite, eis a situação em que toda a responsabilidade por esse sujeitinho e pelo que quer que esteja acontecendo com ele recai sobre mim.

Um pai, ou a maioria dos pais, nunca sentiu isso nas suas entranhas. Ele age com a leveza de quem tem sempre a quem recorrer em último caso. E assim pode se permitir chegar em casa no final do dia e decidir cuidar ou não da cria, dependendo do seu cansaço, da sua vontade, da sua paciência ou do que está passando na TV. Quantas mães podem se dar a esse luxo? Quantas mães podem ouvir o filho chorar e virar para o lado na cama se dizendo: “ah, deixa para lá, não vou não, estou cansada” sabendo que, de um jeito ou de outro, o bebê vai parar de chorar de exaustão ou porque outra pessoa foi lá acudir?

Sim, existem pais hoje em dia que fazem um enorme esforço para encontrar um lugar e uma maneira outra de serem pais, diferente daquela que viveram enquanto filhos, diferente da figura de autoridade para a qual disciplina equivale a violência. E, nessa busca, eles muitas vezes metem os pés pelas mãos. Do mesmo jeito que nós, mães, na medida em que buscamos também criar um outro modo de maternar mais cuidadoso e respeitoso com nossos filhos, fazemos. Pais e mães erram e acertam o tempo todo nessa caminhada. Então, qual o sentido de transformar as ações bem sucedidas em espetáculo? O que é mais importante: criar um modo de ser pai e viver essa experiência com os filhos ou criar cenas bonitas para gerar comentários, likes e admirações na web? Nessa hora percebemos claramente a diferença entre os pais que assumem e os pais “participativos”: uns focam nos filhos e na família, outros focam na torcida. Pai participativo é aquele que brinca com a criança quando tem visita em casa. Ou no parquinho. Um olho na criança e outro na audiência… Pffff…

Não, isso não é um texto contra pais que têm blogs ou que publicam imagens ou textos sobre sua experiência de paternidade na web. Conheço alguns bem legais, muito bons mesmo, com textos e imagens sempre tocantes e sensíveis. Isso é um texto de reflexão sobre porque, quando vejo alguns textos ou imagens de pais com seus filhos bombando na web, sinto um incômodo grande. Uma inquietude com aquele endeusamento que se segue a essas postagens, um incômodo com os comentários, especialmente das mulheres, muitas das quais mães, uma irritação mesmo com a idéia que fica por trás desse teatro todo de que qualquer coisinha que um homem faça basta. Não, meu caro, não basta. É preciso muito mais. É preciso se colocar no lugar do homem de frente. Do último homem. Qualquer coisa a menos do que isso, ainda por cima pedindo aplauso e adulação, ao menos para mim parece cinismo, arrogância e, pior de tudo, narcisismo. Deixem disso, meus caros. Façam melhor.

O dia em que fiquei com raiva do Freud por ele ter razão

Aqui, o segundo atentado em Paris em um mesmo ano mata mais de 120 pessoas e fere mais de 250. O 2015 que começou com Charlie Hebdo e os reféns do supermercado kasher termina com um tipo de terrorismo em que o alvo é qualquer um em qualquer lugar. Não importa mais mirar em mensagens que vão contra nossa ideologia ou em grupos-alvo historicamente visados. O que importa é semear a certeza de que ninguém está seguro em lugar nenhum. Nem na mesa de um restaurante, nem no terraço de um café, nem em um show de rock num clube de uma grande cidade, nem em um estádio… Você pode até mesmo estar na bela, romântica e glamourosa Paris e receber um tiro gratuito no meio das ventas. Mundo, estranho vasto mundo imundo.

Aí, um pseudo-acidente faz romper uma barragem de uma grande mineradora e cidades são invadidas por uma lama podre, envenenada, que leva gente, bicho e natureza embora. Um rio morre para sempre. Tudo e todos que dependem desse rio morrem ou estão condenados. Lama podre e envenenada, a imagem perfeita de um país inteiro que vira as costas rapidamente e volta seu olhar para cá, para a nossa “elegante” desgraça.

Aqui, três horas depois do início do massacre, um presidente fala na televisão para todos os cidadãos. Quatro horas depois do massacre, ele e seus principais ministros estão no local mais atingido. Jogo de cena. Mas a imagem é fundamental nessa hora, para dar ao menos a ilusão de que não se está sozinho.

Aí, uma semana depois da catástrofe, uma presidente nem ao menos visitou o local do crime. Os donos da empresa divulgam notas. Cada qual culpa um outro pelo acontecido. Multas vergonhosamente insignificantes serão pagas naquele que é reconhecido como o Fukushima brasileiro em termos de gravidade. Toda uma área é impedida de acesso até mesmo pelo poder público. Ninguém sabe nada. Ninguém sabe da gravidade do acidente. Ninguém sabe o que ele acarreta. Ninguém tem água para beber. A água podre virou cimento em vários cantos, a muitos quilômetros de distância. Ninguém está nem aí. Palavras que significam mais do que querem dizer falam em “acidente”, “fatalidade”. Contra o acaso, quem senão Deus pode algo, não?

O que me parece que os franceses estão descobrindo de maneira contundente, ou o que estão sendo obrigados a recordar e que nós, aí, já sabemos há tanto tempo de maneira inequívoca, é que a vida não vale absolutamente nada nesse mundo que criamos. Ou melhor, nós sabemos não. Pois nós, a elite, pensávamos há até bem pouco tempo que éramos tão intocáveis quanto os franceses nos cafés de Paris. E estamos levando  porrada da vida quase ao mesmo tempo que nossos modelos de vida e de civilidade, os franceses. A vida que não valia nada era essa de 90% da população: os índios, os negros, os pobres, as mulheres, os homossexuais, os loucos… Mas até então, quem se importava? Eles que se fodessem, como sempre ocorreu, desde que escolhemos como mito de fundação a falácia de um país descoberto há 500 anos.

Aí, praticamente em todo canto não cercado de arame, vigias, guaritas, alarmes, câmeras e vidros blindados, a vida já não vale nada há umas boas centenas de anos. As pessoas protestam contra o aumento das passagens de ônibus? Bota a polícia na rua. As pessoas se insurgem contra os gastos astronômicos e fraudulentos de um campeonato de futebol? Manda a polícia arrebentar. Mas longe dos estádios e das câmeras. Que o Brasil é o país da alegria e do carnaval. Os alunos de escolas que ameaçam serem fechadas por uma pretensa reforma do ensino ocupam essas escolas em protesto? Manda a polícia para a porta das escolas. Reintegração de posse.

A quem pertence o poder? É isso que está em jogo, não? Em uma São Paulo sem água em que governador recebe prêmio por gestão hídrica, o que está em jogo é claro: em nome da segurança-pública, vamos bater até dobrar. Todos vocês. Se tivéssemos um mínimo de memória, lembraríamos com certeza de como os militares dobraram seus opositores, de como os colonizadores dobraram seus escravos, de como os “descobridores” dobraram os índios. Não, não é necessário lembrar nada. Aprendemos com todos esses que nos antecederam a fazer o que têm que ser feito para dobrar o inimigo. Aprendemos a sermos o pior.

Aí, o estado laico tornou-se uma licença-poética. Legislam sobre o corpo da mulher como sempre o fizeram, mas de maneira ainda mais crua, cruel e abjeta, pois nosso tempo assim o permite: o estupro tem que ser provado pela vítima. Assistimos às manifestações explícitas de incentivo à pedofilia em cadeia nacional e ainda tem quem ache graça. O primeiro assédio da devastadora maioria das mulheres brasileiras posto a nu em plena web escancara o nosso descaso com aquelas vidas que nunca valeram nada mesmo, aquelas que deixam de valer primeiro, as primeiras a serem sacrificadas: mulheres e crianças. Alguns debocham, outros desdenham o feminismo, outros ainda mais perversos respondem com um meaculpa hipócrita, ao invés de irem para a cadeia. O racismo antes e sempre escondido atrás da imagem do país de todas as raças, de todas as cores, de todas as crenças cai por terra. Pessoas se permitem insultos racistas em plena luz do dia, sob a proteção da tela de um computador que as faz crer serem inatingíveis. A tecnologia autorizou o monstro dentro de nós a mostrar todos os seus dentes, todas as suas garras, todo o seu horror, toda a sua agressividade, todo o seu ódio, ódio, ódio, ódio. Contra tudo e contra todos. O que incomodar, a gente extirpa da face da terra. Pessoas se permitem apedrejar alguém de outra religião em nome do seu deus. Pessoas se permitem linchamentos. Pessoas se permitem acreditar que tudo será melhor quando crianças forem para a cadeia. E quando o governo cair. E quando o dólar baixar. Pessoas em algum lugar devem rir da nossa cara.

Aqui, ninguém ri de mais nada há um bom tempo. O país do pensamento, da abertura, das luzes foi engolido por uma espessa treva, consequência direta de seus atos, de sua política externa, de sua arrogância frente ao outro, de sua incapacidade de integrar, de sua resistência a se colocar em questão, do seu medo em se posicionar criticamente, de sua covardia em seguir a maré, navegar a onda do que dizem os bancos, o dinheiro, os grandes interesses de mercado e as grandes indústrias do medo e da guerra. Esses sim, os verdadeiros donos do poder. Ninguém ri de mais nada nessa guinada cada vez mais clara à direita, ao conservadorismo, ao estrangeiro como inimigo, ao outro como bode expiatório inevitável. É isso ou perder o poder. E ninguém quer perder poder nenhum, nem sair do conforto desse lugar tão conhecido onde estão há décadas ou séculos: França, país da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do droit de l’homme, da defesa dos direitos humanos. Da defesa do humano no homem. Será mesmo?

Aqui, as guerras criadas nesse mundo em que vivemos e que servem apenas a uns poucos, especialmente a europeus e americanos, finalmente apresentam a conta: pessoas percebem que é mais seguro entrar numa “barca furada” e atravessar um oceano de desespero com família, mulher e filhos do que ficar onde estão. Quem nesse mundo pode chegar a apostar que uma travessia em um barco lotado é melhor do que sua própria casa? O horror, o horror traduzido em gente, em corpos, em crianças mortas na praia. O pior do humano chega no velho mundo com uma fatura alta para cobrar: o preço é impagável.

Aí, fazemos de conta que a conta não existe. Rimos da conta, debochamos da conta. Sem lei que somos, assumimos que a conta não é nossa e seguimos com a vida que nada vale, em que nenhuma violência mais tem peso o suficiente para criar o horror e fazer gritarem as pessoas. Um urro de desespero, de indignação. Uma tentativa de mudança. Seguimos anestesiados nesse “deixa disso” eterno, nessa tentativa de conciliação pelas aparências. Somos os experts da indiferença. E da covardia. Ninguém quer pagar o preço da conta.

Aqui, não dá para fazer de conta que a conta não existe. Um certo pudor, um certo constrangimento, um certo lastro de uma vergonha na cara tão necessária ao humano ainda parece existir. As fronteiras se abrem. Os refugiados entram. Jogo lindo entre abrir-se ao outro e o discurso do medo do outro, da ameaça do outro. Jogo lindo que dura pouco. Bombas explodem fora do estádio onde o jogo acontece. Amistoso França e Alemanha. Para quem gosta do poder simbólico das imagens…

Quem atira de metralhadora em pessoas no terraço de um restaurante? Quem atira em pessoas em um lugar fechado, no meio de um show de música? Quem manda a polícia para cima dos seus cidadãos, para cima de suas crianças? Quem torna a vida tão inviável que faz ser melhor partir morrer noutro lugar? Quem joga de maneira inconsequente a culpa no outro? Quem mascara negligência em acidentes, negócios milionários em guerras, fanatismo religioso em projeto de lei?

No final da vida, Freud estava refugiado um Londres, para onde se mudou às pressas por conta de perseguição aos judeus que tomava proporções mais e mais perigosas lá na sua Áustria natal. Áustria fim de século, berço do pensamento mais sofisticado de toda a Europa e do mundo ocidental por consequência. A língua alemã que falava com orgulho e defendia com convicção, a língua de todo o pensamento moderno, a língua em que escreveu seu otimismo em acreditar possível curar as neuroses. Freud otimista que pensava que o homem estava às voltas com o seu desejo, com os seus conflitos e cisões por conta do desejo, por conta das intensidades que o atravessavam.

Esse Freud que, no final da vida, e por conta da própria vida, teve que reconhecer que seu otimismo, sua crença no homem, no desejo e na força civilizatória eram por demasiado condescendentes com aquilo que o humano trazia dentro de si. Freud que viu, na sua língua, nascer a possibilidade de um humano excluído da possibilidade de toda a humanidade. O horror, essa nossa experiência do horror inominável nasceu ali, nessa época e nesse otimismo de Freud e da sua geração. O melhor nos deu a conhecer o pior.

Freud escreveu o meu livro predileto, Mal-estar na civilização, nos anos 30. Um pouco antes do pior se instaurar. Mas com uma lucidez e uma dor de fundo das quais não cesso de compartilhar desde a primeira vez que o li. É como se ele baixasse os braços sem entregar os pontos realmente. Ali, no mal-estar, ele entende que o pior do homem não é o seu desejo, mas sua propensão ao pior, a deixar-se levar pelo pior, a chafurdar prazerosamente na lama do pior. O pior do homem é o que ele chama de pulsão de morte, uma espécie de tendência ao zero, ao vazio de desejo, à anulação das intensidades. Uma tendência da vida em direção à morte que nos atravessa e que, no melhor dos casos, ao invés de nos afogar rapidamente sai em direção ao outro como agressividade e destruição.

Para pagarmos o preço da vida, precisamos agir em permanência contra essa tendência de destruir ou de se autodestruir, aceitando um compromisso civilizatório no qual ninguém se autodestrói, apostando em que construir uma vida é mais desejável do que se deixar definhar e, também, em que ninguém destrói ninguém e todos inventam outros destinos para essa força bruta que pode virar qualquer coisa: literatura, ciência, trabalho, arte… O mundo civilizado seria exatamente fruto da briga entre esse escorrer para a morte e essa teimosia da vida. Mundo civilizado, construção possível, invenção do homem que poderia apostar em pagar um preço para ser o melhor. Tempos de Freud, apostas possíveis nos tempos de Freud, compromissos possíveis dos homens possíveis nos tempos de Freud.

Hoje em dia, pagar o preço da civilização seria ainda possível? Pagar o preço – e a conta – da nossa humanidade, seria algo que ainda poderíamos nos prontificar a fazer? Nesse mundo em que pessoas atiram nos seus semelhantes sem mais nenhuma justificativa além da ação pura e simples de matar, nesse mundo em que o ódio às crianças, às mulheres, aos negros, aos homossexuais, aos estrangeiros, aos que têm outras convicções religiosas pode ser bradado sem vergonha e sem constrangimento aos quatro ventos sem que nada nos delimite uma fronteira à partir da qual não se pode mais falar ou agir por se tratar de um crime… nesse mundo onde pessoas são tocadas como gado em barcos, dentro e fora de fronteiras, marcadas como gado, exiladas de sua língua, de sua vida e privadas de qualquer olhar de empatia… Será que nesse mundo existe ainda lugar para algo além do pior de cada um?

Sou psicanalista há pouco mais de 20 anos. Entre consultório e instituições, o que sempre me moveu a persistir – na vida e na profissão – foi o encontro com algumas pessoas, cada vez mais raras, que fizeram e fazem o imenso esforço cotidiano de pagar o preço da vida. São pessoas que, muitas vezes contra tudo e contra todos, contra sua própria história, contra seus pais, sua família, seu entorno, sua cultura, contra tudo o que viveram lutam e pagam – a longo de suas análises e em todas as dimensões da sua existência – o preço de apostar na vida. Essas pessoas, que parecem estar em vias de extinção, se recusam a chafurdar na lama imunda do pior que poderiam ser. Recusam-se a seguir o caminho que lhes foi traçado e a seguirem como gado para o abatedouro. Essas pessoas recusam-se a não questionar, a não pensar e a apenas reagir com o pior do ódio em que vivem e o qual legitimamente sentem, negam-se à vingança, rejeitam a resposta cruel. São pessoas de imenso valor, que me ensinam cotidianamente sobre o pouco que resta do melhor do ser humano, da sua capacidade de humanidade, de seu imenso esforço, todos os dias, para acordar e lutar contra tudo nelas mesmas até conseguir extrair dali algo de diferente.

São pessoas que me impedem de desistir do ser humano, de desistir da humanidade em mim mesma, de deixar-me levar pela impotência, pelo cansaço, pela desesperança e pela vergonha. E pelo ódio. Especialmente pelo ódio.

Poderia ser qualquer outro acontecimento. O mundo está infestado de acontecimentos terríveis. Poderia ser pelo rio Doce tanto quanto por qualquer uma das muitas mulheres que morrem assassinadas por seus maridos. Poderia ser pelo menino amarrado ao poste e linchado. Poderia ser pelos milhares de comentários que transbordam todos os dias as redes sociais: comentários contra os outros, comentários que buscam apenas chegar como uma saraivada de balas que acerte seu alvo até ele simplesmente deixar de existir. Poderiam ser muitos fatos, muitos acontecimentos, muitas demonstrações do pior do ser humano, muitos exemplos do quanto Freud estava desesperadoramente certo em nos alertar sobre nossa dificuldade em aceitarmos pagar a conta da vida.

Freud dizia, ainda nesse texto magistral, que o homem pode se entristecer com os percalços e limites impostos pela natureza ou pelo próprio corpo. Pode se entristecer, se afligir, se revoltar. Mas aceita como inevitável esses que são limites da vida. O que o homem não engole, o que ele não consegue suportar são os limites impostos pelo outro, pela necessidade de conviver e de ceder ao outro uma parcela da sua crença de que ele é o centro do mundo e que tudo deveria girar em torno daquilo que é o seu desejo. O homem não tolera os limites impostos pelo viver coletivo, ele urra de ódio por ter que renunciar a algo que se julga no direito de ter para que um outro também possa ter um pouco e, assim, todos possam ter um pouco e que ninguém fique privado da possibilidade de ter. De ter uma existência, quero dizer. Para um poder existir, todos precisam poder existir dignamente. Se isso não fica garantido por uma espécie de pacto em que todos renunciam à satisfação absoluta, então estamos no pior dos mundos, em meio ao caos e à barbárie, no lugar onde as palavras não valem mais nada, onde o cinismo impera e onde cada qual pode exercer sua própria lei perversa.

Será esse o ponto a que chegamos? Será essa a fronteira que estamos atravessando cega e negligentemente nos nossos tempos? Será que já somos, tantos de nós, outra espécie de humanos desprovidos da capacidade de humanidade? E gozando disso? Que aterradora banalidade do mal é essa que se instaurou como modo de existir em nosso tempo? Como podemos resistir?

Quem consegue ter filhos hoje em dia sem se sentir na obrigação de lutar, não apenas por eles, mas pelo mundo inteiro? Que sentido faz a maternidade em nossos tempos sem uma tomada contundente de posição?

Talvez porque tenha um bebê aqui na barriga que vai chegar em pouco tempo a esse mundo. Talvez porque tenha uma pequena aqui do meu lado que insiste em dançar, cantar e olhar a vida com um olhar de encantamento… talvez por isso tenha sido a sexta-feira 13 de ontem que fez o copo transbordar. A revolta contra esse caminhar cego do mundo me arrebenta por dentro. A vergonha pesa, pois sinto em cada atrocidade dessas o peso da minha responsabilidade. Responsabilidade em ter feito tão pouco, em não ter lutado o suficiente, em não ter oferecido resistência hercúlea a tudo o que está aí, agora, instaurado e mais difícil de combater. Responsabilidade que divido com todos que me cercam, com todos da minha espécie.

Aqui, no dia de hoje, andamos cabisbaixos de vergonha. Vergonha pelo nosso comodismo. Vergonha pela nossa fácil desistência.

E medo. Medo pelo mundo que vamos deixar aos nossos filhos. Medo pelos filhos que estamos deixando para esse mundo. Medo de não termos feito o suficiente, nem pelo mundo, nem pelos filhos. Medo porque, no mundo todo, descobrimos o que boa parte do mundo já sabia: que não estamos a salvo em lugar nenhum.

Meu cara-metade chorou hoje ao descobrir que não pode proteger nossos filhos desse mundo. Eu chorei por esse mundo tão triste, tão sombrio, tão cruel, tão injusto.

E por aí? Como vão vocês?

A publicidade e a informação

Tenho uma página do blog no Facebook, onde publico coisas que leio sobre gravidez amamentação, parto, maternidade, infância que encontro pela web e me parecem interessantes. Ontem, publiquei uma matéria que apareceu em vários veículos de comunicação sobre a regulamentação de uma lei que proíbe a propaganda de todo tipo de produtos que podem interferir na amamentação: leite em pó, mamadeiras, chupetas e afins. Em resumo, para que a lei possa ser aplicada, essa regulamentação proíbe que tais produtos sejam objeto de propaganda em qualquer tipo de meio, que sejam associados com quaisquer personagens infantis ou outras imagens que induzam o consumo, que sejam distribuídos como brindes ou que façam parte de qualquer tipo de ato promocional e que tragam a informação em suas embalagens de que podem afetar o aleitamento. Uma medida louvável, se levarmos em consideração as estatísticas vergonhosas no que diz respeito ao aleitamento materno no Brasil, onde a média de tempo que se amamenta uma criança é de 54 dias (!!!).

E qual a relação disso com esses produtos? Toda, se considerarmos que aleitamento misto, mamadeira noturna, uso de chupeta e afins podem interferir na amamentação, criando confusão de bicos e uma maior dificuldade do bebê em estabelecer a pega correta. E que isso não é nunca dito claramente pelos pediatras e outros profissionais que indicam o uso da mamadeira por qualquer motivo que seja a uma mãe, o que não dá a elas todos os elementos para que tomem uma decisão informada sobre amamentação. E, obviamente, isso aparece menos ainda nas campanhas publicitárias desses produtos que, ao contrário, insistem em divulgar idéias mentirosas, como a de que leite materno e leite em pó são a mesma coisa (dê uma olhada nessa tabela comparativa em inglês), ou que certas mamadeiras e chupetas seriam o equivalente do seio materno, ou que seriam concebidas de maneira “ergonômica”, para não prejudicar amamentação, desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos faciais, postura e tudo o mais que sabemos que mamadeiras e chupetas prejudicam sim. Enfim, se essas publicidades prestam um desserviço em geral, apresentando idéias equivocadas como sendo verdades, imagina o estrago que elas não provocam nas mães que encontram dificuldades em amamentar?

Sabemos que o sucesso da amamentação depende muito do entorno, da rede de apoio que essa mãe e seu bebê encontram para darem conta de instaurar esse equilíbrio delicado que amamentar exige. Depende muito do apoio da família, dos amigos, dos conhecidos com seus comentários tantas vezes desastrosos. Depende imensamente também daquilo que as “figuras de autoridade” vão dizer a essa mulher que quer e busca amamentar, se saberão orientá-la corretamente ou se lhe darão informações desencontradas, erradas e que terminarão contribuindo para que ela se veja em uma bola de neve que torne o aleitamento impossível. Proibir a propaganda é incidir sobre o lado mais perverso desse mecanismo que dificulta, deturpa ou impede o aleitamento materno: o lado que vê na amamentação uma oportunidade de mercado, de lucro e de incentivo ao consumo. E apenas isso.

Uma das coisas que mais me chocou em alguns comentários que esse post recebeu na página do facebook foram algumas pessoas argumentando que essa proibição as privaria de informação sobre as alternativas ao aleitamento materno, constrangendo-as a amamentar e dificultando o acesso a esses produtos. Como se proibir publicidade fosse uma sonegação de informação e um atentado à liberdade delas de escolha.

Como assim? Tem gente que pensa seriamente que publicidade traz informação sobre alguma coisa? Tem gente que se informa através dos meios publicitários? Tem gente que decide sobre como alimentar seu filho vendo propaganda? Putz!

Sim, tem. E meu espanto é muito mais estranho do que essa constatação. É evidente que tem gente que se acredita que se informa e que toma suas decisões, mesmo as mais importantes, baseada em argumentos publicitários. Isso apenas prova o quanto a publicidade é eficaz e bem sucedida em seus objetivos. Ela consegue se fazer passar pelo que não é: um argumento de venda disfarçado de informação. Tão eficaz que as pessoas acreditam que se a publicidade dos produtos relacionados à amamentação forem proibidas, elas não terão como saber que eles existem, nem como saber de suas qualidades, de seus benefícios e de seus efeitos. E, com isso, não poderão comprá-los. Gente, isso é ou não é um exemplo gritante da perversidade desse mercado que, apoiado pela publicidade, faz mulheres acreditarem que o que eles fazem é ajudá-las de alguma maneira?

A meu ver, a questão do leite em pó é muito próxima da questão da cesariana: duas opções criadas pelo desenvolvimento tecnológico a situações de dificuldades reais que foram apropriadas por uma lógica de consumo que vende às mulheres uma idéia de que isso seria o exercício de uma escolha, além de um progresso, um avanço nas maneiras de vir ao mundo e de alimentar um bebê que trariam muito mais vantagens do que aquilo que existe desde que a espécie humana existe. No caso da cesariana, um real risco de vida para a mãe e para o bebê ligados ao parto normal e no caso da amamentação, uma real impossibilidade de alimentar o bebê. Duas opções que surgiram para resolver reais e graves problemas deturpadas por uma ambição da indústria que se construiu em torno delas de conseguir o máximo de lucro possível na medida em que elas se tornem um comércio. Comércio de partos, comércio de alimentos. Com tudo o que implica a idéia de comercializar: ganhar dinheiro com isso, por todos os meios possíveis. E sem nenhum constrangimento em falsear a verdade ou em atacar a concorrência. Porque o importante não é informar. O importante não é ajudar ninguém. O importante é ganhar todo o dinheiro possível com isso.

Amiga querida, não se preocupe. Se você está indignada por não poder mais ver a propaganda de leite em pó na televisão no intervalo do desenho animado dos seus filhos, isso não vai te impedir de comprar esse leite no supermercado da esquina. O comércio desses produtos não vai parar porque a propaganda vai parar de existir. Mas veja direito de onde é que você tirou a idéia de que esses produtos são os melhores para você e para o seu filho. Pois, se foi de uma propaganda, posso te garantir que ela não foi feita nesse intuito de te ajudar a escolher o melhor. A propaganda desses produtos, assim como qualquer propaganda do que quer que seja, não se preocupa com você. Nem comigo. Nem com ninguém. Ela apenas sabe muito bem encontrar nossos pontos fracos e nos manipular para acreditarmos exatamente nisso que você está dizendo que acredita: que elas querem seu bem e estão te dizendo como você deve fazer para tê-lo.

Se essa proibição contribuir para que menos manipulação mascarada de informação sobre a amamentação circule e que, com isso, as mulheres tenham que buscar orientação sobre o aleitamento em outro lugar, sem ser bombardeadas por um monte de imagens, brindes e frases de efeito completamente equivocadas. E se isso puder ajudar aquelas que querem amamentar a encontrarem os caminhos para isso, já terá sido um enorme passo na valorização e na viabilização do aleitamento materno.

  • Em tempo: na discussão no facebook uma pessoa colocou um problema bastante pertinente em relação a essa lei, que dificultaria o acesso à informação sobre esses mesmos produtos, especialmente no que diz respeito ao leite em pó, o que acabaria prejudicando as mulheres que precisam fazer uso dele. Um caso que parece que a lei não contemplou. Ela me disse que vai sintetizar um pouco seus argumentos e depois eu publico por aqui. De todo modo, obrigada à Claudia Eirado pelo contraponto interessante (vocês podem acompanhar a discussão pelo post do facebook, se quiserem).
  • Em tempo 2: um dos melhores projetos de mães contra os usos e abusos da publicidade infantil é este aqui. Acompanhe as discussões do site e apoie, se para você também essa história de transformar nossos filhos em pequenos e demandantes consumidores for algo a ser evitado.

    Fim da publicidade para produtos que prejudicam na amamentação. Já não era sem tempo.

    Posted by Barriga de bebê: o que as mães não dizem. on Tuesday, November 3, 2015

Coisas curiosas e outras tantas incompreensíveis

Acho que um dos motivos que me fez querer ser psicóloga é que não entendo as pessoas. Não apenas não entendo a mim mesma, o que já seria motivo suficiente para uma grande perplexidade, mas não para querer ser psicóloga e sim para ir buscar análise. Não entendo os outros também, de maneira geral e quase irrestrita. Tudo bem que o outro é, por definição, opaco. Tendo em vista que nós só podemos olhar para os outros e para o mundo de nossa própria perspectiva, sempre teremos uma idéia muito parcial e tendenciosa do que seja estar na pele ou na vida de outro alguém. É por isso que existe a idéia e a experiência da empatia, que seria tentar se colocar no lugar do outro e olhar por sua perspectiva. Tentar. Tentar imaginar como o outro vive, como se sente e por que é como é. Difícil ter empatia, ainda mais em tempos tão áridos para as relações humanas. Por vezes não conseguimos nem ter empatia com os próprios filhos, que dirá com desconhecidos.

Daquilo que não entendo nas pessoas de maneira geral, uma das coisas que me deixa mais perplexa é essa característica de deixar nas mãos de um outro algo acerca da própria vida. Deixar que decidam, que digam, que saibam no seu lugar enquanto você não sabe nada, ignora, nem quer saber, se envolver, escolher ou decidir… eis um modo de ser que me deixa completamente estupefata. Quem em sã consciência pode preferir que outra pessoa decida no seu lugar sobre qualquer coisa? E quando essa coisa sobre a qual se decide tem imensa importância, então fico ainda mais perplexa.

Ok que alguém decida por você qual a cor do papel higiênico que terá no seu banheiro. Afinal, desde que nos tornamos adultos somos bombardeados com uma tal quantidade de escolhas a fazer que é sempre um alento não precisar pensar em tudo. Mas, e quando a decisão é algo um pouquinho mais importante do que isso, E quando é, por exemplo, algo que envolve sua vida e sua saúde? E quando envolve a vida e a saúde do seu filho?

Talvez nossa primeira tendência seria responder: ah, não! Claro que eu não deixaria alguém decidir no meu lugar sobre coisas tão fundamentais como a minha saúde ou a do meu filho. Eu quero o melhor para mim e para ele, quero o melhor para minha família e para aqueles que eu amo. Então, é claro, sou eu que vou escolher e vou escolher o melhor. E então, desse lugar de quem vai fazer uma escolha essa pessoa, muitas vezes, escolhe deixar sua saúde, sua vida e a do seu filho nas mãos de um outro. Entrega a si e aos seus a uma outra pessoa. Essa é a sua escolha. Essa é sua decisão. Aquilo que La Boétie chamou de servidão voluntária: eu, do alto da minha liberdade de escolha decido ser escravo do outro.

Não vou discutir aqui por que razões uma pessoa faz essa opção. Não vou discutir se é alienação, ignorância ou apenas a vontade de não ter que decidir sobre si para não ter nenhuma responsabilidade sobre o que acontecer depois. Não vou discutir sobre o conforto de ter sempre um outro a quem atribuir a culpa e nem sobre a falsa tranquilidade em poder dizer “não fui eu que fiz”. Muitos podem ser os motivos e todos eles podem ser compreensíveis e compreendidos. E que haja um motivo e que seja humano, isso não diminui minha perplexidade em nada. Será que a responsabilidade de falar em nome próprio é tão grande, tão pesada, tão oprimente que se largar na mão do outro parece uma melhor opção? Será que é tanta a angústia por essa impossibilidade de termos certeza absoluta sobre o que é a melhor escolha o que nos impede de decidirmos? Por medo do erro, de mudar de idéia, da culpa ou da impossibilidade de voltarmos atrás preferimos abdicar da decisão?

Vira e mexe leio alguns comentários que dizem: Deus decide, deixo nas mãos de Deus. Ou outros que dizem: o médico sabe, o médico decide. A mesma lógica de deixar para um outro uma decisão que seria de sua inteira responsabilidade. Sim, muita coisa nos escapa nessa vida e não conseguimos controlar quase nada, mas daí a colocar nas mãos de Deus uma decisão sobre sua vida e a do seu filho… como assim? E nas mãos dos médicos então? Então não é preciso fazer nada, informar-se sobre nada, tentar conseguir o melhor, lutar por algo que pareça humano porque Deus e seu emissário, o médico, cuidam de tudo?

Não, realmente não consigo entender.

Cagar regra ou tomar posição?

Uma das coisas que mais admiro nos franceses é a capacidade que eles têm de discordar. Foi na universidade que me dei conta disso pela primeira vez. Enquanto que, no Brasil, a grande maioria das discussões universitárias ou atividades afins se resume a uma conversinha estéril onde um elogia o outro, faz um comentário de trinta minutos para mostrar erudição e termina com uma pergunta retórica, aqui as pessoas não têm medo de discutir realmente o tema em torno do qual se agrupam. É até uma demonstração de respeito pelas idéias apresentadas, desde que você lhes dê algum valor, discuti-las e, se for o caso, discordar, argumentar, questionar. Os franceses adoram uma boa conversa e debater é com eles mesmos.

No Brasil, discordância é sinônimo de briga e já testemunhei nas mais diversas circunstâncias situações em que pessoas discordavam, ousavam dizer isso em voz alta e quem estava ao redor – e até mesmo as próprias pessoas – descreviam o acontecido como um conflito. Lembro de uma das melhores defesas de doutorado que assisti, em que um professor querido defendia sua tese e, na banca, ao menos três luminares da psicanálise debatiam com gosto suas idéias. Bem no estilo francês, coisa rara de se ver, muito longe do rapapé usual, chato e imbecilizante. Um colega que estava ao meu lado comentou, em certo momento: “mas eles estão brigando”. Respondi: “não, eles estão é se divertindo pra caramba”. E estavam. Debater idéias que julgamos serem boas dá um prazer imenso. Pensar é muito prazeroso e discutir pode ser extremamente divertido. E nada disso tem lugar na unanimidade forçada dessa nossa mentalidade cordial, em que nada é dito a não ser pelas costas.

Pois bem, essa associação entre discordância e rivalidade que eu presenciei na universidade milhares de vezes é apenas um reflexo, a meu ver, de algo que traduz bem o modo de ser usual da grande maioria de nós, brasileiros: frente à diferença, silenciamos, “deixamos quieto”. Ou, se dizemos algo, fazemos isso no nível da briga. Porque entendemos que o fato de alguém pensar diferente de nós é um ataque pessoal às nossas convicções, não uma diferença. E se o outro diz o que pensa e isso nos ataca, nossa resposta é atacarmos de volta.

A maior parte das discussões que vejo ou das quais participo nesse mundo maternália tem bem esse tom. Ou as pessoas se agrupam por seitas de iguais e cada um reforça o dito do outro com um elogio, um sorriso e mais do mesmo. Ou, pelo contrário, as pessoas de uma “seita” respondem a qualquer comentário publicado por algum diferente com um nível de violência e agressividade sem tamanho. O que foi escrito é tomado como um ataque pessoal e deve ser combatido à altura, a ponto de ser totalmente eliminado, para que a paz da igualdade volte a reinar. Assim como o silêncio.

Veja se não é estranho: uma pessoa lê um post, uma reportagem, uma publicação ou o que seja e entende que aquele sujeito – que ela nunca viu e que não a conhece – está criticando a ela, a seu modo de vida, às suas escolhas. Isso beira a prepotência, supor que uma pessoa escreva algo para te agredir, para te dizer que aquilo que você faz, o seu modo de criar seus filhos ou as suas escolhas em relação a isso são errados. Talvez não te ocorra pensar, especialmente porque nós temos muito pouca cultura e pouquíssimo hábito de debate, que a pessoa esteja apenas pensando, expondo uma idéia, qualquer que seja o valor e a relevância que ela tenha.

Então, quando mães defendem o parto normal, natural, humanizado, ou a amamentação, não estamos falando contra as mulheres que escolheram cesárea ou decidiram não amamentar os filhos. É como sempre digo: se você pensa a respeito de um assunto, se você se informa, se você tenta entender o que cada opção significa, se avalia os prós e contras e se decide por um certo caminho, parabéns. Assuma o que decidiu e vá ser feliz. Fique em paz. E tente considerar que ninguém está te condenando por suas decisões, ainda que existam pessoas nesse mundo que possam pensar que elas não são as melhores ou não são aquelas que essas pessoas fariam.

Ninguém é uma unanimidade. Nenhum modo de vida é “o certo”. O que podemos fazer de melhor é aprender a pensar, a questionar, a tentar entender o que significa aquilo que fazemos, o que decidimos, o que desejamos. Sondar o que está por trás do que acreditamos, do que defendemos, do que nos parece normal, ou melhor. E não ter medo de fazer essas perguntas. De ficar em dúvida. Nem de mudar de idéia. Essa é a posição de qualquer pensador, de todo cientista digno desse nome. E de qualquer pessoa que queira um pouco mais da vida do que passar por ela fazendo tudo no pilot automático, tomando o jeito como esse mundo é como uma obviedade, tendo certeza absoluta que tudo é do modo como pensa ser. De novo, muita prepotência acreditar que nós, em meio a tantos outros e no âmbito da imensidão que é esse mundo, esse universo e o tempo sejamos assim tão importantes para sabermos qual é a verdade. Mais realista ter um pouco de humildade, ser capaz de ouvir. E de debater.

Então, qual é a solução? Criar discursos neutros, que agradem a todos, bem leves, sem polêmica, para que ninguém se sinta atacado? É manter a nossa alma cordial reforçando o “deixa disso” e enchendo o mundo de idéias, textos e reflexões inócuas, irrelevantes e insossas? Isso equivale a dizer que sim, uma discordância é um ataque, uma diferença é uma ameaça e a melhor solução é chegarmos num pensamento único e nos pronunciarmos apenas dentro desse consenso. É dar razão para essa lógica de que debate é briga e que o pensamento é um ataque pessoal. Não conheço nada que tenha avançado num caldo da unanimidade, a não ser o fanatismo e a violência.

A solução é poder aguentar a discordância. E discutir quando achar que vale à pena. Lutar as boas batalhas. Sabendo que não é contigo ou comigo. É sobre algo que nos ultrapassa. Por isso, ao contrário do que fazemos tantas vezes quando queremos evitar conflitos, penso que o melhor seria assumir que eles existem e não vão desaparecer se formos gentis uns com os outros e falarmos apenas de assuntos superficiais. Melhor tomar posição e aprender a defendê-la. Mas o mais importante, ter em mente que, quando alguém publica algo em que defende uma posição, isso não é “cagar regra”, não é dizer como você deveria fazer, nem que aquilo que você faz é errado. Isso é, apenas, tomar uma posição. Baseada em muitas razões que talvez você desconheça mas que, possivelmente, existem. E precisamos de mais gente capaz de sair do discurso leve, elogioso e rapapé que tenta ficar “bonito na foto” com todo mundo. De mais gente capaz de dizer o que pensa e o porquê pensa assim. De mais gente que se dê ao trabalho de expor suas idéias. De mais discordâncias e mais consistência.

Não é contra você, mãe. É contra a lógica que governa muitas ações e escolhas nesse mundo da maternidade (talvez também as suas): a lógica da despossessão de si, da desvalorização da mulher, das potencialidades do seu corpo, do seu saber sobre si, sobre seu corpo, sobre seu bebê. É contra a medicalização daquilo que não é assunto médico, a não ser quando não ocorre como poderia: gravidez não é problema, nem doença, nem objeto da medicina. Isso é uma distorsão. Que aceitamos pacatamente, como se o médico pudesse mesmo saber mais do que nós mesmas sobre isso.

Assim como o parto, que também não é um assunto médico, a não ser quando há um problema. E os problemas são menores e em menor número do que dizem. Tudo isso virou assunto da medicina, por uma série de circunstâncias, mas não são assim em sua essência. Podem ser outra coisa, podem ser um espaço e uma experiência da mulher e do seu filho. Em que ambos sejam os principais agentes, os sujeitos da coisa toda.

Não é contra você, é contra a medicalização da gravidez, do parto, da maternidade, dos cuidados com o bebê, da infância. É contra mães e bebês tornados objetos de um saber que os exclui e os despreza. É contra não poder decidir e não poder saber de si.

Não é contra você, é contra a transformação da gravidez, do parto, da amamentação e da infância em uma indústria, em que o objetivo principal é gerar consumo, gastos, despesas. Em que o principal é consumir intervenções médicas, de preferência as mais caras e que pagam melhor. E leitos de hospitais. E mil e uma coisas que dizem que você precisa e que fazem melhor que você aquilo que dizem que você não tem competência para fazer. É consumir mamadeira, leite em pó, chupeta, brinquedos que deixem o bebê quietinho. É fazer a máquina rodar e mantê-la funcionando. A última prioridade é o seu bem estar. Ou o do seu filho. É contra essa inversão das prioridades.

Não há como ser cordial e defender uma posição. Defender uma posição é apresentar idéias, reflexões, informações, dados, argumentos. É assumir o risco de dizer que uma coisa é melhor que a outra. Ou que o que está por detrás de uma coisa é diferente do que parece e a torna suspeita e eticamente questionável. É correr esse risco. Não é um ataque. Não é cagar regra e tentar te dizer o que você deve fazer. Não é um julgamento da sua pessoa. É mais importante do que isso, do que eu e você. E vamos ter que lidar com essa nossa insignificância. Talvez discutindo?