Ter irmão…

Enquanto me arrumo, a pequena sentada no chão cola adesivos em uma grande folha de papel, cantando e conversando. O pequeno ali perto, cantarola olhando um tanto as folhas agitando raios de sol pela janela, um tanto os brinquedos ao seu redor, um tanto a irmã. O tempo passa, ela concentrada em sua obra, ele se impacienta. Resmunga, resmunga, começa a querer chorar. Chora um pouco, ela concentrada. Chora mais um pouco, ela na dela. Penso em pedir para ela ir até ele levar um brinquedo, mas fico quieta e me apresso em terminar o famigerado banho.

Ela se levanta e desaparece do meu campo de visão lá para os lados dele. Silêncio. Pé ante pé vou dar uma olhada, segurando um: “o que vocês estão fazendo?” que espera alguma molecagem do outro lado. Ainda bem.

Eles não me vêem, mas eu os vejo. Ela faz um cafuné na cabeça dele, ele olha para ela chupando um dedo e dando risada, ela dá risada e um beijinho na cabeça dele, ele ri alto e se balança feliz. Ela volta para sua colagem, senta e continua falando, cantarolando e colando seus geometrismos coloridos. Ele resmunga de novo, ela vai ali para os lados dele e diz algo como: “não precisa chorar”. Ele sorri, outro cafuné, ela volta para a colagem. E decide que é divertido correr de um lado para o outro. Corre até ele, corre de volta para sua colagem. Ele decide que isso é extremamente engraçado e gargalha. Ela decide que é muito divertido fazer ele gargalhar e continua correndo. Eles se entendem.

E estão apenas no começo.

Ter irmãos é muita sorte.

Essas nossas crianças

Eu nunca entendi direito quando diziam que a esperança está nas nossas crianças. Que nossos filhos são o futuro. Ambiciosa que sou, queria ser também parte dessa esperança e desse futuro. Queria mudar o mundo.

Talvez apenas as crianças tenham a inocência de sonhar com mudar o mundo. E a ousadia de tentar fazê-lo. Costumamos dizer que depois vem a “maturidade”. Mas talvez tenha muito mais a ver com acomodação, cansaço, preguiça, covardia. Por quaisquer que sejam os motivos, e salvo algumas raras e louváveis exceções de pessoas que lutam a vida inteira, a maioria de nós, uma vez adultos, acabamos nos deixando seduzir ou amansar por uma vida em que vale mais garantir o que conquistamos do que arriscar tudo por um passo fora do esquadro. A vida é tão difícil, é tão duro lidar com tantas demandas e tantas restrições, por que sair de uma zona de conforto quando finalmente conseguimos chegar em uma? Talvez seja a isso que chamam velhice, quando, na nossa cabeça, chegamos em um ponto em que pensamos naquilo que podemos perder e nos vemos incapazes e sem forças de começar do zero mais uma vez.

As crianças não. Elas sentem que podem arriscar tudo. Não por ainda não terem nada, maldição da nossa sociedade em que ter é mais importante do que ser ou do que viver. Mas por acreditarem que o mundo tem espaço para elas, para seus desejos, para sua vontade de mudança. Elas acreditam naquilo que nos escapa.

Sorte a minha ter tido filhos e poder aprender com eles sobre esse olhar benevolente para com o mundo. Eles acreditam sempre, eles confiam. Neles, em nós, na vida. E esse encantamento, essa confiança, essa ousadia e quase arrogância de querer fazer, de querer dobrar o mundo à sua vontade, isso é uma riqueza. Infelizmente, desiludidos que somos nós, os adultos chamados realistas, acabamos acreditando que nossa tarefa seria domesticar esse olhar. Pensamos que estamos ajudando nossas crianças se ensinarmos a elas o mais rápido possível a se conformarem à realidade da vida. Acreditamos que nosso objetivo é torná-las ao máximo parecidas conosco.

Mas será mesmo que se adequar a esse mundo é sinal de maturidade e de sabedoria?

Vivemos reclamando que o mundo de hoje é feio, injusto, desigual. E, paradoxalmente, nos prestamos docilmente a “educar” nossas crianças para que elas se encaixem o mais perfeitamente nele. E sempre que, para aparar as arestas da liberdade, da insolência e da esperança, nos vemos obrigados a usar de qualquer tipo de violência, ainda conseguimos murmurar e nos convencer de que é assim que as coisas são. E de que é para o próprio bem deles que o fazemos. É por amor. E o amor justifica as maiores injustiças e agressões.

Se olhássemos com um mínimo de franqueza para nossa própria vida, talvez pudéssemos perceber o quão contraditório é desejar para nossos filhos, a quem amamos incondicionalmente, que aceitem e se adaptem a uma existência em um mundo como o nosso. Sem questionarem nada. Que apenas aceitem, se conformem e marchem, como gado, dia a dia, em direção a uma existência tão desacorçoada quanto a nossa. Em um mundo feio, injusto, violento, desigual. Por que eles teriam que se enquadrar nisso e ainda achar bom?

Mais ainda, com essa nossa atitude normativa, acreditamos estar salvando-os dos maiores perigos. Estamos, na verdade, salvando-os do risco. Do risco de uma vida sem previsão. Do risco de um salto no desconhecido. Quando começamos a querer salvar nossos filhos do desconhecido da vida fazendo-os se apaziguarem no conhecido desse mundo tão ruim, quando começamos a ter medo demais e a forçá-los para que se enquadrem a todo custo naquilo que poderíamos chamar de sobrevivência ou de “o menos pior”… bom, é aqui que sabemos que envelhecemos. E que não somos mais a esperança ou o futuro. E que agora apenas fazemos parte dessas forças que lutam contra a esperança e o futuro. De revolucionários a reacionários… triste fim.

Nesse mundo feio, injusto, violento e desigual que mostra os dentes e as garras com cada vez maior ferocidade em nossos dias, aqui na Europa, mas também aí no Brasil, de onde chegam sempre as notícias mais tristes e desalentadoras, vez ou outra chegam uns rasgos de esperança. E a esperança que chega daí, do outro lado do Atlântico, vem pela boca e pelos gestos das crianças.

Essas crianças que estão crescendo sem perder o olhar benevolente para com o mundo. Crianças que ainda acreditam que sua vontade vale algo. E que o mundo pode mudar. Que aquilo que as cerca é poroso e pode ser influenciado por sua vontade.

Não, não estamos vendo surgir uma nova geração de tiranos cujos pais atenderam a todos os caprichos desde a mais tenra infância. Qualquer sujeito pensante consegue perceber a perversidade desse argumento que pretende nos justificar na violência de nossos gestos contra nossos filhos.

Não, não são as crianças sem limite, que nunca ouviram um não na vida.

São crianças que querem mudar o mundo. Em nome de um bem maior.

As crianças que lutam por educação de qualidade.

Por comida decente na merenda da escola.

Por dignidade.

Por respeito para com as meninas-mulheres.

Crianças que se vêem livres e face a essa liberdade, olhem só, não saem quebrando, roubando, reivindicando o seu pirão primeiro como vemos cotidianamente no mau exemplo enraizado em nossa cultura de cima a baixo por tantos adultos corruptos e corruptores a defender sempre e apenas seus próprios interesses.

Essas crianças, quase que por um milagre, querem outra coisa. Querem mais, querem melhor. Querem o que nunca poderíamos imaginar que quisessem. Elas querem tudo. Elas querem mudar o mundo.

E elas tem razão. Esse mundo em que vivem é mesmo uma bela porcaria. Nossa total responsabilidade, nossa, dos adultos, que ao invés de mudarmos o mundo para todos, nos restringimos a garantir nossa sobrevivência cotidiana, a pequenez de nossas básicas aspirações e necessidades. Culpa nossa, problema deles. Que o assumem de peito aberto. Com coragem e ousadia. Desculpem nossa covardia e apatia, crianças. Desculpem querer convencê-los de que é esse nosso jeito que é certo e bom.

Essas crianças que esquecemos por aí, nas escolas públicas sucateadas, comendo comida de merda, abandonadas ao destino de serem gado e seguirem seus destinos sem reclamar. Ah, essas crianças agora se rebelam! Que ousadia! Que ultraje! E toca bala de borracha, cacetada, que nós, adultos, não podemos aceitar que esses seres pequenos se rebelem contra nossas verdades.

O que acontece hoje em dia nas escolas de São Paulo e Rio, e a forma como essas manifestações e ocupações são tratadas pelo poder público, são um perfeito reflexo daquilo que acreditamos, como pais, que seja educar um filho: educar é dobrar, domesticar, aparar todas as arestas até que não sobre nada de uma singularidade. Fazemos isso na nossa casa, no dia-a-dia. E não vemos com nenhuma surpresa que a polícia, o governo, os políticos façam o mesmo nas escolas e nos espaços que deveriam ser os de expressão da palavra, das necessidades e dos anseios das pessoas. Espaços em que os outros de nós, nossas crianças, deveriam poder existir e onde se deveria poder celebrar sua existência. Onde cada um deveria ter lugar para ser quem é no mais profundo respeito. Onde o futuro e a esperança de todos nós deveria ser cuidado e protegido. Mas não. Se não conseguimos nem olhar para nossos filhos como outra coisa que um serzinho desafiador que precisa ser “educado”, como é que poderíamos ver a escola como outra coisa que não a continuidade desse processo de domesticação? Consideramos até que é merecido que esse bando de crianças aprenda desde cedo quem é que manda. Chamamos de delinquentes na TV. E todos ficam aliviados em ter seu “estilo de vida” confirmado. Ufa! Afinal, se eles mandam na gente, por que esses fedelhos poderiam ousar querer escapar?

Domingo é dia das mães. Mais uma data para a qual olho com desconfiança, tanta quanto para o famigerado dia da mulher. Ser mulher e ser mãe, nesse nosso mundo, são apenas valorizados quando servem de pretexto para o consumo. Estamos muito longe de um tempo e de um lugar em que ser mulher seja algo pelo qual não se tenha que batalhar cotidianamente. Quanto a ser mãe então, único lugar pretensamente legítimo para uma mulher querer ocupar, esse não é sem dificuldades, sem sofrimento, sem violência ou solidão. Mesmo o lugar que nos permitem ocupar nesse mundo é um lugar violento. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mulheres. Ainda é extremamente necessário lutar enquanto e por todas as mães.

Maternidade compulsória, falta do direito de escolha, condenação a cuidar dos filhos sozinha e sem recursos, obrigação de sacrifício, julgamento permanente por não cuidar bem, o que quer que se faça. Mãe é essa mulher julgada e condenada duplamente, não importa o quanto se esforce. Uma maneira vil de dobrá-la, de nos dobrar, de tirar nosso sangue até que não sobre força nenhuma de resistência.

Mas… temos os nossos filhos. E filhas.

Temos as nossas crianças.

Essas crianças aí, que tantos adultos agora repudiam. Essas crianças que botam medo nesse bando de marmanjo corrupto, bandido e covarde. Essas crianças que muitos querem dobrar à força.

Se tem um dia das mães que faz sentido, é o dia das mães dessas crianças. Todos os dias dessas mães dessas crianças que, visivelmente, conseguiram e conseguem criar jovens que fogem do esquadro. Vocês são mulheres as mais admiráveis. Parabéns por existirem. Parabéns por nos darem a esperança na forma dessas crianças.

Com carinho, de uma mãe que só pode acreditar num futuro graças a essas crianças. As suas. E as minhas.

Alessandra

Ocupação / ALESP

Ocupação / ALESP

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação Centro Paula Souza

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas RJ

Ocupação escolas SP em 2015

Ocupação escolas GO

Não fechem minha escola

 

 

Ele está criando, mamãe! – parte 2

Então, o post anterior era para ser sobre bilinguismo. Porque se tem uma coisa na qual a gente pensa bastante, quando é mãe na gringa, é em como vai ser quando os filhos começarem a falar. E, mesmo quando não pensa, sempre aparece alguém para pensar pela gente.

  • Você fala português com eles?
  • E o pai fala francês?
  • E eles falam que língua?
  • As duas?
  • E não dá confusão não?
  • Não demora mais para falar?

Ora, ora, ora. Não sou linguista, nem fonoaudióloga, nem especialista em bilinguismo. Tudo o que sei é que, aqui, desde a gravidez da primeira, estava claro que falaríamos as duas línguas com ela. Porque vivemos na França e seu pai é francês. E eu sou brasileira.

Não se trata apenas da aparente vantagem nesse mundo capitalista e competitivo em ter um filho imerso em duas línguas desde o berço. Vantagem essa que faz muitos pais procurarem escolas bilingues, creches bilingues, babás bilingues… afe! O que motivou essa decisão foram considerações afetivas e não mercadológicas.

A primeira coisa que levei em consideração é que uma língua é mais do que um instrumento de comunicação. É toda uma cultura, um modo de sentir e de ver as coisas, um jeito de se relacionar com o mundo. Quem estuda outras línguas sabe disso. É a saudade que só se diz em português, é um ritmo, um tom… Não falar a minha língua com meus filhos seria privá-los de conhecer essa cultura, essa musicalidade, esse jeito de ser e de se expressar. Privá-los pois, diferentemente de quando decidimos que o filho vai ser bilingue em uma segunda língua que não é a dos pais ou a do país em que vivemos simplesmente porque aquela língua é importante para o futuro dele (oi?), o que se privilegia é partilhar com eles algo que faz parte de suas origens. E a língua é fundamental na transmissão dessas origens.

Sim, existem pessoas que não querem transmitir suas origens. Por vergonha, muitas vezes. Mas também por intimidação, por confundir integração em um outro país com tornar-se idêntico àqueles que dali são originários, por preconceito sentido, por julgarem que não falar outra língua com os filhos vai fazê-los falar melhor, integrar-se mais e mais rapidamente, sair-se melhor nessa vida tão dura de imigrante. Não é verdade. Uma língua não transmitida vira uma espécie de tabu, algo inacessível que muitas vezes impede a criança de saber sobre si, sobre sua história, sobre a história dos seus pais. Impede-a de perguntar, de saber e dificulta, consequentemente, seu acesso à cultura e à língua do país em que vive. Se não temos como saber de onde viemos, como podemos ser alguém ou estar em algum lugar?

Noutro dia ouvi uma história de um menininho que não falava aos dois ou três anos. Os pais, de língua árabe, falavam mal o francês. Receberam a orientação no serviço de saúde de que deveriam falar apenas em francês com ele, para não atrapalhar seu desenvolvimento escolar. Coisa muito comum, orientação das mais corriqueiras, dada por aqui por pediatras, cuidadores de crianças de todo tipo, professores… Um grande equívoco, na opinião de muitos especialistas, seja em linguagem, seja em transculturalismo ou em migração. A última coisa que se deve fazer no caso de crianças bilingues é condenar ou impedir o uso da língua materna ou paterna.

Resumo da ópera: o menino não falava. Na creche em que foi acolhido, era silêncio. E isso só começou a mudar quando as educadoras, muito sensíveis e acertadamente, começaram a falar algumas palavras em árabe com ele. Bom dia. Tudo bem? Tchau… O suficiente para o garoto perceber que a língua da família era possível, aceita e valiosa. Ele podia ser quem ele é, não tinha que soterrar uma parte sua num canto qualquer em nome de integração ou de falar bem o francês. Até mesmo porque o resultado era o contrário do que se pretendia: o menino não falava mais e melhor, falava menos. Voltou a falar. Francês com quem fala francês, árabe com quem fala árabe.

Então, aqui em casa, julguei fundamental transmitir minha língua aos meus filhos. E com isso minha cultura, meu jeito de ver o mundo, de pensar, de existir.

Segundo aspecto que pesou na decisão: minha família é brasileira e vive no Brasil. Como seria triste ir passar as férias lá com as crianças ou ter minha família aqui para uma visita e eles não conseguirem se comunicar. Já pensou não compreender os mimos de avós? Já pensou eles não entenderem as gracinhas dos pequenos e não poderem contar orgulhosos aos amigos?

Imaginei-os encontrando os filhos dos meus amigos queridos sem poder trocar uma palavra, sem poder fazer aquelas aproximações tímidas que as crianças pequenas adoram fazer “qual o seu nome?” “aquela é sua mãe?” “vamos brincar?”. Não, uma língua é uma riqueza e mesmo que não vivamos no Brasil, o Brasil vive na gente por meio dessas pessoas e do que elas dizem.

terceira coisa em que pensei foi bem banal. Imagina que você está passeando na rua com os rebentos, todo mundo feliz. O pequeno vai andando na frente e chega perto da rua. Você vai lembrar de gritar: “attention! arrête!”? Não, minha gente, em situações extremas a gente volta para a nossa língua de origem, por mais fluente que seja em outra. E daí vai gritar “para! cuidado!”. E é melhor que o pimpolho entenda, né?

Assim como não dá para fazer sexo em outra língua, nem falar palavrão quando estamos furiosos, ou contar piada… tem coisas que só dá para comunicar a um filho na nossa língua materna. Algo urgente quando há um risco, um susto. Mas também uma canção de ninar. Ou os sons que os animais fazem. Cachorro aqui não faz au-au, faz ouaf-ouaf… pode? Não, não pode não.

Então, aqui em casa, os pequenos escutam português da mamãe e francês do papai. A pequena fala as duas línguas. Desde o princípio. O português ganhava em vocabulário no começo, ficou um pouco para trás quando ela começou a conviver com outras crianças, voltou a se enriquecer quando passou um tempão de férias com a família. E assim vamos vivendo. E conversando. Eu falo em português com ela, a não ser em conversas compartilhadas com outras pessoas que não falem nossa língua, pois sempre detestei essa coisa de duas pessoas falando uma língua que os outros não compreendem e deixando outros excluídos da conversa. Acho falta de educação e de consideração. Lemos histórias em português. E em francês. O mesmo com as canções. A pequena demorou um tempo para entender que cada coisa tem duas palavras para ela. Mas agora me diz algo e traduz em seguida para o pai, mesmo que ele tenha entendido, o que o deixa bem zangado. De brincadeirinha, claro, ele já se conformou que ela fala melhor o português que ele.

No fim das contas, ela fala português, francês, tudo junto e misturado e alguma coisa no meio disso tudo absolutamente incompreensível. E conjuga os verbos franceses na conjugação do português, como na frase do título. Ele está criando é o irmão gritando (crier, em francês). Mas não é que ela tem razão nas duas línguas?

Sites e blogs sobre bilinguismo:

 

 

Ele está criando, mamãe!

Quando a pimpolha começou a falar, há um bom ano e meio atrás… que deleite! Palavras, uma a uma, conquistadas pelo árduo trabalho cotidiano de buscar se exprimir. Pois, não se enganem, se tem algo que as crianças almejam mais que tudo é poder se comunicar e serem entendidos.

O choro comunica, mas tão precariamente… Com o choro, um bebê pode informar que algo não vai nada bem. Mas ele expressa apenas as linhas gerais do seu mal-estar. Os detalhes e sutilezas… bom, para isso ele precisa aprender a falar.

Um bebê sente frio, fome, sono, tédio, carência, sede, necessidade de carinho, frustração por não conseguir fazer algo, irritação na gengiva… ele chora. Mas como passa disso para “eu quero a saia violeta, mamãe?” Vocês já pararam para pensar no quão sofisticado é poder dizer que quer colocar a saia violeta? Ou que adora a saia violeta?

Para poder falar, uma criança precisa ter toda uma condição e uma maturidade física e neurológica. Mas também precisa ter um desejo e uma necessidade de comunicar sutilezas.

Os choros viram gritinhos e barulhos de alegria ou de prazer. Ensaios de palavras, sons familiares são interpretados pelos adultos como “mamãe”, “papai”, “bebê”. Eventualmente esses esboços se tornam palavras e a princípio, eles fazem milagre com tão pouco vocabulário… uma proeza!

Os bichos são seus sons “au au”, “miau”… Depois tudo vira um nome só. Todos os bichos são “gatinho”, tudo o que voa é passarinho, tudo o que nada é peixe. E a coisa se sofistica ainda mais quando podem haver gatos, cães e cavalos. Galinhas, patos, pássaros e borboletas. Peixes, tubarão e tartaruga. Depois vêm as cores, tudo era vermelho, depois podia ser também violeta, depois juntou-se o rosa, o azul, o verde, o laranja… Pequenas frases, “qué”, “não”, “qué água”, “qué pão”.

A coisa vai num crescendo até que parece que explode e a pequena, de repente, já tem muitas palavras, muitas frases. Em duas línguas. Francês e português que se confundem a princípio, muito mais fácil falar a língua materna no começo dessa falação toda. Mas o convívio com outras crianças torna o francês igualmente importante e as palavras e frases vão surgindo, se acumulando e começam a sair por todos os poros.

Parece que no momento em que a criança entende que pode comunicar algo e que um adulto atento pode ouvi-la e atendê-la ou responder a ela, isso opera uma pequena revolução. Eles querem falar… Finalmente poderão sentir-se incluídos e participantes daqueles infindáveis almoços em família, finalmente poderão dizer algo também ao longo das conversas, finalmente serão ouvidos e as pessoas reagirão ao que dizem… oba! Mas como a coisa não é fácil, a criança vai falando daquilo que já sabe falar. E muitas vezes a tentativa de dizer algo termina em uma impossibilidade frustrante: “mamãe, nho nhé nho nha nhi?” “O que, filha? Do que você está falando?” “Nho nhé nho nha nhi?” “Aqui? O que aqui, filha?” A coisa se complica, ela desiste. Puxa…

Vêm então as perguntas, deliciosa faculdade do querer saber, exercício prazeroso da curiosidade, que deixa mães e pais malucos, mas que é tão importante para os pequenos em plena descoberta do mundo. “Mãe, que é isso?”. A gente responde e os bichinhos parecem um computador superaquecendo de tanto trabalho. “E por que?”

“Olha, apagou, mamãe!” “O que, filha?” “O céu apagou, mamãe! Por quê?” “Ah, ficou escuro, é de noite. O sol se pôs.” “Ele foi onde, mamãe?” “Ele se escondeu agora que ficou de noite, ele volta amanhã”. Essa foi a pergunta maravilhosa feita pela minha pequena há uns dias atrás. Ela tinha acabado de descobrir a noite. E queria saber como funcionava essa luz que apaga deixando tudo escuro. No dia seguinte, no final do dia, ela foi contar ao pai que o sol tinha desligado, que era de noite, que era hora de dormir. E ficou muito feliz em saber que o sol voltava no dia seguinte, na hora de acordar.

Talvez por vício da profissão ou porque sempre fui uma curiosa perguntadeira, as perguntas da minha filha só fazem me encantar. Com ela, com a descoberta dela pensando o mundo em que vive, com essa pessoa sendo cada vez mais pessoa na medida em que se descobre a descobrir, a perguntar. E a afirmar.

Não sei se podemos considerar que um sujeito fala se ele não for capaz de se colocar dentro do seu discurso. Sem que exista alguém que diga “eu quero”, quem é que quer? Pois um passo essencial nessa falação toda é a criança poder dizer “eu” e “você”. E, para chegar nisso, ter efetuado o colossal trabalho de saber-se um “eu”. E de enunciar algo em nome próprio.

Vocês já imaginaram o quanto uma criança já caminhou numa certa consciência de que ela existe quando chega ao ponto de dizer: “tô triste”, “tô brava”, “tô contente”? Aí já não é mais fome, sono, calor, sede… são estados de alma, coisas que muitas vezes nós adultos temos dificuldades em perceber e em expressar.

Ou seja, palavras, frases, por quês e estados de almas ditos pelas crianças deveriam ser comemorados como grandes conquistas que são. E não tomados como encheção de saco, imposição da sua vontade, tirania ou qualquer outra interpretação infeliz que fazemos de nossas crianças no momento em que elas começam a dar provas contundentes de que estão ali, de que pensam, de que sentem e de que existem. E tem gente que se incomoda, se irrita, acha melhor que elas se calem, que parem de perguntar, que parem de falar tanto.

Eu adoro conversar com minha filha de dois anos e meio. Ela tem umas sacadas maravilhosas, como essa do sol da qual falei logo acima. E muitas outras que eu deveria anotar mas não anoto, pois não quero estragar o momento de partilha com uma preocupação em correr atrás de papel, gravar no celular ou o que quer que seja.

Agora, além de dizer que está triste, feliz ou brava, ela deu para perguntar como estamos. Nós, os outros. E, mais do que isso, deu para consolar, apoiar. “Calma, irmão. Não chora, não fica triste. Vai ficar tudo bem. Você quer um abraço?”

Crianças descobrindo o mundo através da palavra. Tão precária e tão maravilhosa palavra. Que permite chegar ao outro. Mesmo capenga. Mesmo com falhas e malentendidos. Palavra que é tão frágil quanto a nossa humanidade. E, por isso mesmo, tão preciosa.

Vou ali comemorar com minha pequena que descobriu que o sol desliga à noite. E volto daqui a pouco porque esse post, nas suas origens, era para falar sobre bilinguismo. Eita palavra que desliza por caminhos tortuosos!

Então as fraldas…

Aqui na França, o ensino é obrigatório à partir dos 6 anos de idade para todas as crianças. O que quer dizer que se seu filho não for à escola aos seis anos, vem um funcionário do equivalente do conselho tutelar bater na sua porta para saber o que está acontecendo. E eles levam isso bem a sério. Mas, na maioria dos casos, das casas e das famílias, as crianças não esperam até essa idade para começar a conviver “em coletividade”, como se diz por aqui. Muitas vezes os pequenos vão para a creche à partir dos dois meses e meio, que é a idade em que podem ser acolhidos nesses serviços ou em seus equivalentes. E a escola maternal pode ser frequentada pelos miúdos à partir dos três anos de idade.

Ok, Alessandra, você anunciou que ia falar de fraldas desde o post passado e acabou falando de se esconder no banheiro e, agora vem com essa de escolarização na França. O que é que isso tem a ver com aquilo?

Tudo.

Por aqui, quando uma criança é recebida na escola maternal aos três anos de idade, a escola tem a obrigação, por lei, de acolhê-la onde quer que ela esteja em relação ao seu desenvolvimento psicomotor. Em teoria, um criança que ainda usa fraldas pode ir à escola com as suas fraldas. Mas isso, em teoria. Porque na prática…

Na prática, antes mesmo do seu rebento completar dois anos, já começa um burburinho ao redor de vocês: e aí? Já vai no pinico? Já faz xixi na privada? Já tirou as fraldas? Como se ser criança não fosse estar submetida a um infinito de pressões e exigências, por vezes descabidas, eis que do dia para a noite todo mundo que cerca o seu pequeno parece decidido a investigar como, quando e onde ele faz aquelas coisas que são do campo da sua mais profunda intimidade.

Na prática, são muitas crianças na escola, uma professora e uma auxiliar e blá-blá-blá… é complicado dar conta de 30 pimpolhos de três anos e imagina só se ainda tiver que trocar as fraldas de todo mundo… blá-blá-blá… Está armado o cenário para uma pressão insidiosa que se torna cada vez mais explícita e invasiva quanto mais o sujeitinho se aproxima da data de início das aulas: afinal, esse pentelho vai sair das fraldas ou não?

E, sim, mesmo contra a lei, existem escolas que recusam a entrada de uma criança que ainda use fraldas no maternal. E lá se vão as mães desesperadas querendo a todo custo desfraldar seus filhos antes da famosa rentrée. Putz!

A conversa se repete mais ou menos dessa maneira:

“Estou desesperada, estou tentando tirar a fralda do fulaninho há dias, semanas, meses e não está dando certo! Não sei mais o que fazer. Ele se recusa a usar o penico, se recusa a sentar na privada, tiro a fralda e ele não faz xixi, boto a fralda e ele faz em seguida, pergunto se quer fazer xixi a cada meia hora, ele diz não e depois faz nas calças, faz xixi do lado do penico, não faz mais cocô, está há uma semana constipado… Já comprei calcinha, cueca colorida, penico que fala, canta, dança, sapateia, dou prêmio, presente, chocolate… nada funciona. Será que coloco o penico na frente da TV para quando ele estiver assistindo o desenho preferido? Será que coloco ele sentado na privada a cada meia hora?”

“Sei, mas que sinais ele deu de que estava pronto para começar o desfralde?”

“Como assim… que sinais?”

“Ele se interessa quando alguém da casa faz xixi ou cocô, quer ver, quer imitar, pede para tirar a fralda, coisas do tipo?”

“Não.”

“Ele diz que vai fazer cocô ou xixi antes de fazer?”

“Não.”

“Ele avisa depois que fez? Fica incomodado com a umidade, se irrita, pede para trocar a fralda?”

“Não.”

“Ele já corre, sobe escadas um pé depois do outro?”

“Não sei… Só sei que ele já vai fazer dois anos, vai entrar na escola daqui a um ano e eu PRECISO tirar ele das fraldas até lá.” Ou possivelmente o equivalente disso em termos de pressão social no Brasil: “Ele já tem dois anos e o fulaninho, a beltraninha e o ciclaninho amigos dele já não usam mais fralda nem para dormir, ele está ATRASADO!”

Calma. Respira.

Sério, gente, que pressa é essa? Que pressa é essa em uma sociedade que decide que uma criança passa a marca dos dois anos e um dia e assim se opera um milagre que faz com que ela largue as fraldas? E que se isso não acontecer, algo está errado?

Quando esse papo de desfralde começou a assombrar por aqui, fui fazer o que faço sempre que começa o bombardeio de clichês que não fazem muito sentido sobre coisas nas quais nunca antes havia pensado com verdadeiro cuidado e profundidade: ao invés de responder embarcando no clichê sem muita crítica, prefiro seguir minha tradição de ser a chata dos porquês e vou ler, me informar e pensar a respeito. Foi o que fiz no que diz respeito ao desfralde. E descobri uma porção de coisas.

Por exemplo: como para tudo o mais que diz respeito às crianças, como o desmame, dormir a noite inteira e outros afins igualmente importantes, o desfralde começa quando os pequenos estão prontos. Psíquica e fisicamente. O que quer dizer que o desfralde não começa quando a gente quer ou quando a escola exige, mas quando as crianças podem. Ou, ao menos, seria mais respeitoso se fosse assim.

Imagina quantas mudanças, quantas revoluções, quantas experiências inacreditáveis ocorrem na vida de nossos pequenos desde que eles nascem até alguns poucos anos depois. Cada dia deve ser algo como o equivalente a dez anos nas nossas vidas de adultos em termos de descobertas e de feitos incríveis. Nos esquecemos e achamos uma banalidade coisas como andar ou fazer xixi na privada, mas não são. E os pequenos estão aí para nos lembrar disso, do quanto cada pequena obviedade demanda um esforço extraordinário.

Fato é que, como para todos os grandes saltos, todas as grandes mudanças na intensa vida desses pequenos, ser capaz de fazer xixi e cocô no pinico ou na privada é algo para o qual eles dão sinais quando estão prontos. Começam a se interessar, querem ver, falam a respeito, começam a avisar que fizeram, ou que vão fazer, querem arrancar a fralda, dizem que não querem mais fralda, pedem para usar o pinico ou a privada… enfim. E além desses indícios bem explícitos, há também outros mais laterais, outros indícios físicos que mostram que a criança teria maturidade fisiológica para ser desfraldada. Tipo ser capaz de correr, subir escadas… Como assim?

Nascemos imaturos e inacabados nós, os humanos. E muitas das capacidades que nos tornam autônomos e aptos para sobreviver de maneira independente são adquiridas depois do nascimento. Por isso nossos bebês são tão dependentes e vulneráveis, existem muitas coisas que eles ainda não sabem fazer. E que vão aprender ao longo dos primeiros meses e anos. Até o nosso cérebro nasce imaturo e precisa de um bom tempo para funcionar no seu “máximo” de capacidade.

Para sermos capazes de fazer xixi e cocô em algum lugar ou momento pré-estabelecidos, temos que ter condições de fazer algumas coisas que não são nada evidentes como, por exemplo: nos darmos conta de que estamos com um incômodo, termos noção de que esse incômodo significa vontade de fazer xixi ou cocô, sermos capazes de segurar o xixi e o cocô até chegarmos no “lugar apropriado” para eles, sermos capazes de fazer xixi e cocô nesse lugar. Parece fácil?

Se você é mulher e esteve ou está grávida, tem grandes chances de já ter experimentado aquela desagradável experiência de espirrar, dar uma gargalhada, tossir ou mesmo andar e o xixi escapar. Principalmente no final da gravidez, isso é bastante comum. E não adianta tentar segurar, torcer as pernas, nada, é uma tristeza, escapa mesmo. E isso tem, entre outros motivos, o de que a natureza muito sábia programa nosso corpo para se preparar para parir. Os ossos da bacia mudam um pouco, o cóccix também, a musculatura se afrouxa… Pois o bebê tem que sair e ele sai mais fácil quanto menos resistência nosso corpo oferecer contra isso.

Pois é, ali embaixo, o que sustenta o nosso corpo e os nossos órgãos é o assoalho pélvico, uma rede de músculos super forte e poderosa, que vai do ânus até a uretra e que ajuda a controlar, entre outras coisas, vejam só, o nosso controle sobre xixi e cocô. Quando essa musculatura relaxa, porque ninguém quer parir brigando contra um músculo poderoso que pode fechar quando teria que abrir, o que acontece? O xixi e até o cocô escapam. E a gente não consegue controlar.

Mas o que tem isso a ver com o desfralde?

Muito. Porque o pequeno rebento também precisa aprender a controlar essa musculatura para evitar que o xixi e o cocô saiam quando começam a pressionar ali dentro. E do mesmo jeito que para as grávidas, ou para os velhos, eles podem não conseguir se segurar. Não pelos mesmos motivos da gravidez e da velhice, mas também por uma impossibilidade física. E não adianta falar “segura, fulaninho”, que se o fulaninho não for ainda capaz desse controle muscular, ele não tem como segurar. Mesmo na maior boa vontade e querendo muito agradar a mamãe.

Então, como é que faz?

Espera. A gente espera o sujeitinho amadurecer e estar pronto. Sem querer decidir no lugar dele porque não estamos no corpo dele para saber se dá. Observando os sinais (coisas como poder correr ou subir escadas são indícios porque também dependem de uma capacidade muscular vizinha dessa do controle esfincteriano… viram só,como estudei?)

E como mente e corpo andam juntas e se influenciam tanto, às vezes a criança não pode por uma imaturidade física, às vezes por uma imaturidade psíquica. Ambas são legítimas e dignas de consideração. Nenhuma delas é frescura ou sacanagem com o adulto.

Outro exemplo? Criança que está começando a pedir para ir ao banheiro para fazer xixi e para de fazer isso quando nasce o irmão mais novo. Aconteceu aqui em casa. Nada mais justo, a pequena não quer ser mais tão autônoma quando descobre um irmãozinho sendo cuidado em toda a sua dependência. Quer aquele tipo de cuidado porque identifica aquilo com amor. E ainda não viveu a experiência de ser amada de outro jeito que sendo cuidada, porque também está nisso e está começando a sair disso. E não sabe que tem muito amor depois das fraldas. Amor de outro jeito, como tem amor depois do peito. Então, quer algo mais legítimo do que voltar atrás por um tempo e não querer mais saber de pinico, privada, calcinha e afins?

O usual é que uma criança desfralde entre 2 e 4 anos. Dois a quatro anos é um mundo de tempo, são dois anos de intervalo. E isso é a média, porque pode ser antes ou depois disso. O que quer dizer que não precisa ser aos dois anos. Nem no dia seguinte ao aniversário de dois anos. Nem antes de entrar na escola aos três. Pode ser quando puder ser ao longo desse imenso lapso de tempo.

Mas então não faço nada?

Claro que pode fazer. Pode falar, pode mostrar, pode comprar calcinha e cueca lindinhas. Mas não precisa levar no banheiro a cada 30 minutos, precisa? Nem botar pinico na sala e criança no pinico na frente da TV (qualquer semelhança com dar comida pros rebentos na frente da TV, enquanto eles não percebem o que estão fazendo, não me parece ser mera coincidência).

Como você se sentiria se alguém corresse atrás de você o tempo todo te falando sobre um mesmo assunto? Por exemplo, se um cara ficasse correndo atrás de você na balada o tempo todo insistindo para te beijar? Ou se um vendedor te ligasse todo dia para te oferecer um produto X? Provavelmente você teria vontade de sair correndo para longe do sujeito e pegaria uma antipatia por aquilo que ele estaria oferecendo, não? Agora imagina alguém correndo atrás de você com um pinico toda hora, falando de xixi e cocô toda hora, tensa, brigando contigo porque você tem que fazer, tem que fazer ali, tem que fazer agora… Não dá muita vontade, né?

Pois é. Eis o que tenho pensado sobre o desfralde, enquanto a pequena começa a voltar a gostar de idéia do pinico. E vocês, como têm sido?

Em tempo: aqui um texto sobre alguns sinais que a criança pode dar quando está madura o suficiente para desfraldar. Usem com moderação e não como uma cartilha a ser seguida, tá?

Em tempo 2: durante a gravidez da minha pequena, deparei com uma técnica chamada elimination communication que tem sido usada com bebês desde o nascimento para dispensar o uso de fraldas. Basicamente, consiste em estar tão atento e tão próximo à criança a ponto de perceber os sinais que ela dá, desde o começo, quando vai fazer xixi ou cocô e colocá-la num lugar apropriado para isso. O que acontece é que, logo que nasce, a criança percebe o que está fazendo e sinaliza (é fácil perceber isso bem nos primeiros dias, o bebezinho que fica quietinho, vermelhinho, fazendo força, por exemplo). Se a mãe está atenta e age nesse momento, tanto o bebê vai aprendendo desde cedo a identificar quando precisa urinar ou defecar quanto o adulto aprende a responder a seu sinal na hora e levá-lo a algum lugar. Isso queima uma etapa enorme do desfralde que é aquela da criança aprender a perceber quando está com vontade de fazer xixi ou cocô antes de começar a fazer. Pois essa é uma percepção que ela tem logo que nasce e vai perdendo, na medida que os adultos aqui no Ocidente não ligam muito para isso. A criança também não liga e passa a não perceber quando faz xixi e cocô e vai ter que reaprender na época do desfralde. Coisa maluca como as nossas opções de criação de nossas crianças resolvem um problema (usar fraldas, por exemplo) mas cria um outro logo em seguida (desfraldar). Enfim, eu não banquei experimentar essa técnica com nenhum dos dois, pois exige uma atenção permanente que eu não poderia dedicar. Mas parece que é algo comum em outro cantos do mundo, onde fraldas não existem e as crianças andam coladas no corpo de suas mães durante uns bons anos, o que cria uma grande conexão entre ambos e uma facilidade para a mãe em perceber quando o filho precisa fazer xixi e cocô e agir de acordo com isso.

Ah, o banheiro…

… um dos melhores amigos das mães de filhos pequenos. Quem nunca correu para se refugiar ali no cubículo sob pretexto de banho, xixi ou cocô que passaram a demorar todo o tempo possível até que as crianças chorem, gritem, coloquem a casa abaixo e o maridão venha dar aquela checada discreta para ver se ainda estamos ali e se demora muito?

O banheiro, melhor rota de fuga, reduto último da sanidade mental cotidiana de cada mulher que precisa de ao menos alguns minutinhos de silêncio e solidão para se recompor, para respirar, para contar até dez. O banheiro como o lugar mais respirável da casa, quem diria?

Banheiro que só não funciona quando estamos sozinhas com as crias. Porque daí, banheiro é de porta aberta, cantando para acalmar choro de um, segurando a boneca da outra, um olho na pasta de dente que ela espreme até esparramar tudo pela pia, outro nos pezinhos equilibrando na banqueta, um ouvido no choro do pequeno, outro no telefone que parece estar tocando, uma mão segura a boneca, outra corre atrás do papel higiênico, do telefone… putz! Banheiro em momentos de dedicação exclusiva é só em último caso, naquele auge da emergência mais emergencial. Isso não inclui banhos nem dentes escovados, esses supérfluos aos quais nenhuma mãe de criança pequena pode se dar mais ao luxo.

A menos que haja outro adulto na casa. Aí sim, banheiro vira refúgio, seu melhor amigo, o lugar para ler aquele email em paz, onde é legítimo fazer o banho de gato cotidiano tornar-se uma chuveirada de meia hora. Deixa o cara metade ralar um pouco. Todo mundo sempre acostumado a apelar para a mãe quando a porca torce o rabo, como se mãe tivesse a solução mágica de todas as dores. E tem. Ou ao menos se vira. Mas tem horas que até a mãe mais xamânica da face da terra precisa de cinco minutinhos de silêncio. Para poder suspirar. Para praguejar. Se perder em devaneios. Lembrar de uma história engraçada de umas férias em 1994 na praia, quando teve que correr de camiseta e calcinha para o meio do corredor do prédio (não perguntem…). Lembrar da avó, pensar na família. Pensar na vida que tinha nessa época, em todas as mudanças que ocorreram desde então. Se perguntar uns dois ou três porquês nostálgicos. Pensar naquela festa maravilhosa de uns anos atrás. E da primeira vez que voltou a pé para casa sozinha de madrugada sem ter medo. Lembrar de tanta coisa que já viveu… E não desejar estar vivendo mais nada daquela vida. Por melhor que tenha sido. Por tanto que a tenha ensinado. Por mais que se saiba que houve ali muito de extraordinário.

Entre um xixi, um email, uma olhada no facebook, a gente se dá conta que não tem criança chorando, nem batendo na porta. Todos dormem? Saíram para dar um  volta? A gente hesita entre tirar um cochilo ali mesmo, tomar um banho longo, passar o dia todo trancafiada, com um pacote de biscoito, uma garrafa de água e um celular com carregador ou, como pesa na consciência de toda mãe preocupada, sair para dar uma olhadinha. Aquela checada básica, sabem?

Um dorme com sua carinha de anjo. Outra lê um livrinho, sentada, costas retas, atenta, contando para si mesma uma história em voz alta. Vozinha de criança cantante. Respiração pesada de bebê dormente. Paz. A gente se dá conta que ali também tem algo  de extraordinário. E que não gostaria de estar noutro lugar.

Mas que a rota de fuga para o banheiro… ah, o banheiro… que alento!

(Prometo para quem achou que esse post era sobre tirar as fraldas das crianças e ensinar a ir ao banheiro que escrevo isso logo mais, ok?)

As meninas

Essa semana foi celebrado o dia da mulher e eu sou daquelas que pensam que não temos nada que comemorar e muito ainda pelo que lutar. Acho que não é novidade para ninguém que essa data foi instituída depois que grupos de mulheres na Europa e nos EUA começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e um tratamento mais igualitário, no final do século XIX, início do século XX. Ou seja, trata-se de um dia que deveria servir como incitação para colocarmos os holofotes sobre tudo aquilo pelo que ainda passamos, nós mulheres, em um mundo que continua machista, misógino, violento e desigual. E onde ser mulher não é fácil e sem riscos. Onde é preciso encontrar forças para olhar para além dos rótulos com que insistem em nos tachar – a menina direita, a vadia, a mãe dedicada, a profissional eficiente, a loira burra, a caminhoneira, a cougar, a lolita, entre tantos outros. Rótulos que servem apenas para impor ideais inatingíveis e criar divisões e inimizades. Falsos papéis que só tornam ainda mais difícil e solitária a vida de tantas de nós, que nos fazem incapazes de empatia por conta de um julgamento sobre as mulheres em geral e até mesmo sobre o que é ser mulher que precede o encontro com qualquer mulher de carne e osso. Um filtro que acompanha e interfere em todas as nossas relações, deixando-nos menos permeáveis umas às outras, menos capazes de demonstrar solidariedade.

Tenho a sorte de ter encontrado algumas mulheres ao longo da vida que me ensinaram muito sobre essa comunidade e sobre a importância de estarmos juntas, de nos vermos, de nos ouvirmos e de nos apoiarmos mutuamente. Como as mulheres de uma mesma aldeia, como as mulheres de uma mesma família na época de nossas bisavós, como as mulheres de uma mesma vizinhança de uma cidade pequena de antigamente. Como na época e nos lugares em que mulheres sabiam estar juntas.

Essas mulheres talvez nem saibam o quanto aprendi com elas. Por meio de palavras, gestos, ações elas me fizeram experimentar essa comunhão que desconhecia. Me ajudaram a encontrar uma certa serenidade em existir. E um bocado de orgulho em ser quem sou. São mulheres que souberam dar tempo ao tempo, que cultivaram a paciência, que perseveraram contra doenças, que confrontaram graves depressões. Que carregam consigo uma sabedoria do silêncio, uma maleabilidade na escuta e nas palavras, um cuidado com o outro. Mulheres batalhadoras, não se enganem. Mulheres autoras, com idéias, com opiniões. Mas sem o caráter belicoso e hostilizador que muitas vezes a defesa de idéias e de posições carrega. Mulheres que, talvez não por coincidência, são entre outras tantas coisas, mães.

Ao menos no que me diz respeito, parir foi um acontecimento revolucionário. Parir minha filha e meu filho me deram uma espécie de confiança que nenhum discurso bem arrematado tinha podido me trazer até então. Uma segurança vinda das entranhas, algo visceral, um saber daquilo que sou capaz. Talvez seja por isso que tanto se faça contra o parto e que tantos dos defensores da medicalização, da intervenção e da retirada do protagonismo da mulher sejam homens. Quem vai querer uma mulher que confia em si mesma, que não se sente passiva, subjugada e servil, que entende o profundo laço que a une a todas as outras, que é capaz de solidariedade e de tomar posição para defender suas crias e suas iguais?

Pois é, por isso que o feminismo é algo tão atual e tão necessário nos dias de hoje. O feminismo que coloca as mulheres juntas, não aquele que divide entre mulheres conscientes e alienadas, aquele que advoga que só existe um jeito certo de ser mulher e que todas as outras escolhas são equivocadas. Enfim, um feminismo no sentido de defender a igualdade de direitos, o fim da violência de gênero e a garantia da liberdade de ser o que quer que se deseje. Mulheres parideiras têm tudo a ver com o feminismo e têm tudo a contribuir com ele porque conhecem nas suas entranhas o quão violenta é a máquina de moer carne contra a qual tiveram que lutar para poderem simplesmente existir enquanto mulheres que botam seus filhos no mundo. E, de quebra, elas sabem a força que essa luta contra o sistema no mais íntimo momento de ter um filho traz.

Passei dias escrevendo esse texto a conta-gotas e termino-o em um dia estranho. Um dia em que muita gente vai às ruas no Brasil pedir o fim da corrupção de braços dados com um bando de corruptos, sustentando um discurso de ódio tão explícito e tão sem projeto de futuro como poucas vezes vi. Gente querendo mudança sem querer mudar. Gente querendo mudança aliada a gente que nunca mudou. Gente querendo decapitar o rei para colocar um outro tirano no mesmo lugar. Uma tristeza sem fim ver o que acontece no meu país nesse momento.

Talvez nesse momento, mais do que em tantos outros, a voz das mulheres seja ainda mais necessária. Quase não as vejo falando algo a respeito. Talvez porque, em meio a tanta violência, conseguem ainda nos manter de boca fechada? Talvez porque tenhamos que gritar tanto por questões básicas como a de garantir a nossa própria sobrevivência? Talvez porque o sistema cuide para que estejamos tão esmagadas que nos sobre poucas forças e pouca voz para gritar contra esse mundo assustadoramente pleno de ódio que parece ter se inculcado em cada poro de cada milímetro do Brasil? Mulheres capazes de empatia, de cuidado, de pensamento, de questionamento. Mulheres capazes de recusar esse discurso de ódio e essa estranha capacidade que temos em nosso país de querer fundar algo “novo” apoiados por um monte de mentiras, de querer fabricar um castelo sobre um pântano. Onde está a voz das mulheres num dia como o de hoje, tão próximo do 08 de março? Onde está nossa força descomunal em gerar algo realmente novo? Onde foram parar valores como justiça, honestidade, solidariedade, cuidado?

Para mim, pessoalmente, são essas mulheres inspiradoras que me ajudam a seguir em frente e a acreditar que ainda é possível fazer algo para deixar um mundo melhor para meus filhos. E fazer algo para deixá-los também sendo pessoas melhores para esse mundo. Mulheres inspiradoras que estão aqui nos meus pensamentos e no meu coração no dia de hoje e em todos os dias. Mulheres com as quais sinto comungar algo de profundo e de profundamente revolucionário que, quem sabe, com o nosso esforço e com nosso trabalho, se torne cada vez mais inevitável e impossível de ser recusado. Somos mulheres. Somos capazes de tudo.

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Nasceu!

Eis que entre o dia das mulheres, uma filha que se rebela contra a Branca de Neve e diz preferir a madrasta e o monstro, um bebê que decide agarrar dragões e levá-los à boca sem dó nem piedade, uma valsa em sapatilhas, muito trabalho em várias frentes, muitas das quais ligadas à maternidade e muitas e muitas escrevinhações… nasceu uma cara nova para o blog. 

Novo logo, roupa nova, cores novas. Tudo feito com o maior carinho e profissionalismo pela Rachel Hoshino, essa minha amiga-irmã artista que tem a rara capacidade de ouvir o que você pede e te devolver aquilo que você precisa.

Tempos novos. É bom mudar e assumir as mudanças que vieram com a vida e principalmente com a maternidade dando novas cores a esse espaço pelo qual tenho tanto carinho. É um prazer escrever aqui. E um prazer quando essa escrita vira troca.

Espero que vocês curtam o novo guarda-roupa. Agora com licença que vou ali desfilar as roupinhas super originais do Barriga de Bebê.

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Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.