Ah, o banheiro…

… um dos melhores amigos das mães de filhos pequenos. Quem nunca correu para se refugiar ali no cubículo sob pretexto de banho, xixi ou cocô que passaram a demorar todo o tempo possível até que as crianças chorem, gritem, coloquem a casa abaixo e o maridão venha dar aquela checada discreta para ver se ainda estamos ali e se demora muito?

O banheiro, melhor rota de fuga, reduto último da sanidade mental cotidiana de cada mulher que precisa de ao menos alguns minutinhos de silêncio e solidão para se recompor, para respirar, para contar até dez. O banheiro como o lugar mais respirável da casa, quem diria?

Banheiro que só não funciona quando estamos sozinhas com as crias. Porque daí, banheiro é de porta aberta, cantando para acalmar choro de um, segurando a boneca da outra, um olho na pasta de dente que ela espreme até esparramar tudo pela pia, outro nos pezinhos equilibrando na banqueta, um ouvido no choro do pequeno, outro no telefone que parece estar tocando, uma mão segura a boneca, outra corre atrás do papel higiênico, do telefone… putz! Banheiro em momentos de dedicação exclusiva é só em último caso, naquele auge da emergência mais emergencial. Isso não inclui banhos nem dentes escovados, esses supérfluos aos quais nenhuma mãe de criança pequena pode se dar mais ao luxo.

A menos que haja outro adulto na casa. Aí sim, banheiro vira refúgio, seu melhor amigo, o lugar para ler aquele email em paz, onde é legítimo fazer o banho de gato cotidiano tornar-se uma chuveirada de meia hora. Deixa o cara metade ralar um pouco. Todo mundo sempre acostumado a apelar para a mãe quando a porca torce o rabo, como se mãe tivesse a solução mágica de todas as dores. E tem. Ou ao menos se vira. Mas tem horas que até a mãe mais xamânica da face da terra precisa de cinco minutinhos de silêncio. Para poder suspirar. Para praguejar. Se perder em devaneios. Lembrar de uma história engraçada de umas férias em 1994 na praia, quando teve que correr de camiseta e calcinha para o meio do corredor do prédio (não perguntem…). Lembrar da avó, pensar na família. Pensar na vida que tinha nessa época, em todas as mudanças que ocorreram desde então. Se perguntar uns dois ou três porquês nostálgicos. Pensar naquela festa maravilhosa de uns anos atrás. E da primeira vez que voltou a pé para casa sozinha de madrugada sem ter medo. Lembrar de tanta coisa que já viveu… E não desejar estar vivendo mais nada daquela vida. Por melhor que tenha sido. Por tanto que a tenha ensinado. Por mais que se saiba que houve ali muito de extraordinário.

Entre um xixi, um email, uma olhada no facebook, a gente se dá conta que não tem criança chorando, nem batendo na porta. Todos dormem? Saíram para dar um  volta? A gente hesita entre tirar um cochilo ali mesmo, tomar um banho longo, passar o dia todo trancafiada, com um pacote de biscoito, uma garrafa de água e um celular com carregador ou, como pesa na consciência de toda mãe preocupada, sair para dar uma olhadinha. Aquela checada básica, sabem?

Um dorme com sua carinha de anjo. Outra lê um livrinho, sentada, costas retas, atenta, contando para si mesma uma história em voz alta. Vozinha de criança cantante. Respiração pesada de bebê dormente. Paz. A gente se dá conta que ali também tem algo  de extraordinário. E que não gostaria de estar noutro lugar.

Mas que a rota de fuga para o banheiro… ah, o banheiro… que alento!

(Prometo para quem achou que esse post era sobre tirar as fraldas das crianças e ensinar a ir ao banheiro que escrevo isso logo mais, ok?)

As meninas

Essa semana foi celebrado o dia da mulher e eu sou daquelas que pensam que não temos nada que comemorar e muito ainda pelo que lutar. Acho que não é novidade para ninguém que essa data foi instituída depois que grupos de mulheres na Europa e nos EUA começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e um tratamento mais igualitário, no final do século XIX, início do século XX. Ou seja, trata-se de um dia que deveria servir como incitação para colocarmos os holofotes sobre tudo aquilo pelo que ainda passamos, nós mulheres, em um mundo que continua machista, misógino, violento e desigual. E onde ser mulher não é fácil e sem riscos. Onde é preciso encontrar forças para olhar para além dos rótulos com que insistem em nos tachar – a menina direita, a vadia, a mãe dedicada, a profissional eficiente, a loira burra, a caminhoneira, a cougar, a lolita, entre tantos outros. Rótulos que servem apenas para impor ideais inatingíveis e criar divisões e inimizades. Falsos papéis que só tornam ainda mais difícil e solitária a vida de tantas de nós, que nos fazem incapazes de empatia por conta de um julgamento sobre as mulheres em geral e até mesmo sobre o que é ser mulher que precede o encontro com qualquer mulher de carne e osso. Um filtro que acompanha e interfere em todas as nossas relações, deixando-nos menos permeáveis umas às outras, menos capazes de demonstrar solidariedade.

Tenho a sorte de ter encontrado algumas mulheres ao longo da vida que me ensinaram muito sobre essa comunidade e sobre a importância de estarmos juntas, de nos vermos, de nos ouvirmos e de nos apoiarmos mutuamente. Como as mulheres de uma mesma aldeia, como as mulheres de uma mesma família na época de nossas bisavós, como as mulheres de uma mesma vizinhança de uma cidade pequena de antigamente. Como na época e nos lugares em que mulheres sabiam estar juntas.

Essas mulheres talvez nem saibam o quanto aprendi com elas. Por meio de palavras, gestos, ações elas me fizeram experimentar essa comunhão que desconhecia. Me ajudaram a encontrar uma certa serenidade em existir. E um bocado de orgulho em ser quem sou. São mulheres que souberam dar tempo ao tempo, que cultivaram a paciência, que perseveraram contra doenças, que confrontaram graves depressões. Que carregam consigo uma sabedoria do silêncio, uma maleabilidade na escuta e nas palavras, um cuidado com o outro. Mulheres batalhadoras, não se enganem. Mulheres autoras, com idéias, com opiniões. Mas sem o caráter belicoso e hostilizador que muitas vezes a defesa de idéias e de posições carrega. Mulheres que, talvez não por coincidência, são entre outras tantas coisas, mães.

Ao menos no que me diz respeito, parir foi um acontecimento revolucionário. Parir minha filha e meu filho me deram uma espécie de confiança que nenhum discurso bem arrematado tinha podido me trazer até então. Uma segurança vinda das entranhas, algo visceral, um saber daquilo que sou capaz. Talvez seja por isso que tanto se faça contra o parto e que tantos dos defensores da medicalização, da intervenção e da retirada do protagonismo da mulher sejam homens. Quem vai querer uma mulher que confia em si mesma, que não se sente passiva, subjugada e servil, que entende o profundo laço que a une a todas as outras, que é capaz de solidariedade e de tomar posição para defender suas crias e suas iguais?

Pois é, por isso que o feminismo é algo tão atual e tão necessário nos dias de hoje. O feminismo que coloca as mulheres juntas, não aquele que divide entre mulheres conscientes e alienadas, aquele que advoga que só existe um jeito certo de ser mulher e que todas as outras escolhas são equivocadas. Enfim, um feminismo no sentido de defender a igualdade de direitos, o fim da violência de gênero e a garantia da liberdade de ser o que quer que se deseje. Mulheres parideiras têm tudo a ver com o feminismo e têm tudo a contribuir com ele porque conhecem nas suas entranhas o quão violenta é a máquina de moer carne contra a qual tiveram que lutar para poderem simplesmente existir enquanto mulheres que botam seus filhos no mundo. E, de quebra, elas sabem a força que essa luta contra o sistema no mais íntimo momento de ter um filho traz.

Passei dias escrevendo esse texto a conta-gotas e termino-o em um dia estranho. Um dia em que muita gente vai às ruas no Brasil pedir o fim da corrupção de braços dados com um bando de corruptos, sustentando um discurso de ódio tão explícito e tão sem projeto de futuro como poucas vezes vi. Gente querendo mudança sem querer mudar. Gente querendo mudança aliada a gente que nunca mudou. Gente querendo decapitar o rei para colocar um outro tirano no mesmo lugar. Uma tristeza sem fim ver o que acontece no meu país nesse momento.

Talvez nesse momento, mais do que em tantos outros, a voz das mulheres seja ainda mais necessária. Quase não as vejo falando algo a respeito. Talvez porque, em meio a tanta violência, conseguem ainda nos manter de boca fechada? Talvez porque tenhamos que gritar tanto por questões básicas como a de garantir a nossa própria sobrevivência? Talvez porque o sistema cuide para que estejamos tão esmagadas que nos sobre poucas forças e pouca voz para gritar contra esse mundo assustadoramente pleno de ódio que parece ter se inculcado em cada poro de cada milímetro do Brasil? Mulheres capazes de empatia, de cuidado, de pensamento, de questionamento. Mulheres capazes de recusar esse discurso de ódio e essa estranha capacidade que temos em nosso país de querer fundar algo “novo” apoiados por um monte de mentiras, de querer fabricar um castelo sobre um pântano. Onde está a voz das mulheres num dia como o de hoje, tão próximo do 08 de março? Onde está nossa força descomunal em gerar algo realmente novo? Onde foram parar valores como justiça, honestidade, solidariedade, cuidado?

Para mim, pessoalmente, são essas mulheres inspiradoras que me ajudam a seguir em frente e a acreditar que ainda é possível fazer algo para deixar um mundo melhor para meus filhos. E fazer algo para deixá-los também sendo pessoas melhores para esse mundo. Mulheres inspiradoras que estão aqui nos meus pensamentos e no meu coração no dia de hoje e em todos os dias. Mulheres com as quais sinto comungar algo de profundo e de profundamente revolucionário que, quem sabe, com o nosso esforço e com nosso trabalho, se torne cada vez mais inevitável e impossível de ser recusado. Somos mulheres. Somos capazes de tudo.

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Nasceu!

Eis que entre o dia das mulheres, uma filha que se rebela contra a Branca de Neve e diz preferir a madrasta e o monstro, um bebê que decide agarrar dragões e levá-los à boca sem dó nem piedade, uma valsa em sapatilhas, muito trabalho em várias frentes, muitas das quais ligadas à maternidade e muitas e muitas escrevinhações… nasceu uma cara nova para o blog. 

Novo logo, roupa nova, cores novas. Tudo feito com o maior carinho e profissionalismo pela Rachel Hoshino, essa minha amiga-irmã artista que tem a rara capacidade de ouvir o que você pede e te devolver aquilo que você precisa.

Tempos novos. É bom mudar e assumir as mudanças que vieram com a vida e principalmente com a maternidade dando novas cores a esse espaço pelo qual tenho tanto carinho. É um prazer escrever aqui. E um prazer quando essa escrita vira troca.

Espero que vocês curtam o novo guarda-roupa. Agora com licença que vou ali desfilar as roupinhas super originais do Barriga de Bebê.

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Aquela historinha da criança francesa

Criança francesa não faz manha. E ainda por cima come de tudo? Opa, me passa a receita, me vende, onde eu assino?

           Tentei começar um post a respeito desses livros sobre as crianças francesas há uns 4 meses atrás e nunca conseguia terminar, até receber o convite de uma amiga para responder a algumas perguntas sobre ser mãe na França e, entre elas, havia justamente uma que interrogava sobre esses clichês de criança francesa que come de tudo, criança francesa que se comporta bem, criança francesa que não faz manha. Daí saiu essa resposta aqui.
           Sinceramente, eu penso que toda generalização é burra. Tudo o que eu mesma digo sobre esses assuntos aqui no blog é a verdade de como é ser mãe na França de uma certa perspectiva. Eu não conheço todas as francesas e nem a França inteira e, mesmo que conhecesse, não poderia afirmar que é assim que a maternidade acontece aqui com certeza. Posso apenas falar do que vejo e, ainda assim, segundo o meu jeito de olhar, que sempre será subjetivo, marcado pela minha história, por minhas referências, etc. Ninguém consegue falar de outro lugar que não sua posição no mundo, né? E a minha é de uma brasileira, vinda de um certo lugar, de uma certa classe social, que chega aqui na França pela porta dos estudos e da pesquisa universitária, que circula por certos lugares, encontra certas pessoas e vive uma vida que eu definiria como, mesmo por aqui, privilegiada.
          Mesmo sendo capaz de andar por diferentes ambientes, mesmo tendo amigos de muitos cenários bem distintos, ainda assim sempre tive o privilégio da minha cor (o que aqui conta um pouco menos, pois sou estrangeira e sou latina), do meu percurso profissional (a França respeita os intelectuais, coisa que não se conhece muito no Brasil), de falar bem a língua (mesmo com sotaque) e de ter um certo conforto econômico por conta do meu trabalho. Então, é desse ponto de vista que escrevo. Sempre.
          Quando esses livros da americana apareceram e viraram uma febre mundial, comecei a me perguntar: mas de que diabos ela está falando? Crianças francesas comem de tudo. Crianças francesas não fazem manha. Que crianças são essas? Tenho amigas brasileiras e francesas que são mães aqui e que também encararam esse tipo de publicação com a mesma perplexidade. Ficamos nos perguntando em que França ela viveu para chegar a tais conclusões. Talvez se ela tivesse esclarecido seu contexto logo de cara, a leitura ficaria mais honesta e mais interessante.
           Do que eu observo, acho problemático, por exemplo, dizer que criança francesa come de tudo. Pelos motivos que falei logo acima, sobre as generalizações. Mas também pelo fato de que o cardápio destinado às crianças é de uma pobreza nutricional extrema. Eu não consigo perceber onde é que elas comem de tudo.
            Paradoxalmente, não posso dizer que a maioria das crianças aqui comam bem. Nem em casa, nem na escola. Ao contrário do mito que existe sobre a boa alimentação da criança francesa, o que vejo é que o cardápio delas é bem pobre. Se você quer tirar a prova disso, chegue em qualquer restaurante na França e pergunte o que é o menu enfant (o menu infantil). Em 95% dos lugares as opções serão: hamburguer com batatas fritas, nuggets com batatas fritas e macarrão com presunto, o que significa, aqui, um macarrão cozido na água e sal que eles colocam um pouco de manteiga depois de pronto e uma fatia de presunto cozido ao lado. Isso é o que muitas crianças comem em casa também. E, nas cantinas das escolas e creches, infelizmente não é muito diferente. Já vi algumas reportagens sobre as cantinas das escolas onde eles oferecem carne com batatas fritas. Sistematicamente. Diversos tipos de carne com batatas, num molho avermelhado e engordurado bem esquisito. Nunca uma salada. Como legume, servem vagem, que é comprada enlatada, nunca fresca. Muitos doces no lanche: madeleines, bolachas, coisas do tipo. Poucas frutas. E a justificativa é a de que é isso que as crianças comem. Bom, mas quem ensinou as crianças a comerem assim? É de uma pobreza incrível, ainda mais sabendo o quanto se pode comer bem na França. Por isso falei de paradoxo.
           Outro teste que vocês podem fazer é observar as crianças saindo da escola. Normalmente, na hora da saída as mães levam um lanchinho que os pequenos comem no caminho de casa, o famoso gouter. O que é o lanchinho? Doces, bolachas doces, suco de caixinha. Ver uma criança comendo uma fruta no gouter é uma raridade. Em qualquer idade. Muita gente aqui não cozinha, compra comida pronta. Geralmente por falta de tempo. E também porque aqui é cômodo comprar comida pronta e a oferta é imensa. Isso não seria em si um problema, não fosse o fato do cardápio girar em torno de massas mal temperadas, enlatados, embutidos, nada fresco. Em lugares como Paris, onde as pessoas moram em apartamentos minúsculos com cozinhas impraticáveis, pior ainda. Enfim, para quem é mãe e se preocupa com a alimentação do seu filho, uma das maiores discussões, que se renova a cada ano, é se devemos deixar o filho almoçar na cantina da escola ou se é melhor buscar para almoçar em casa e levar de volta para a escola em seguida, para os cursos da tarde. E conheço bastante gente que opta por buscar o filho para almoçar em casa. Em um mundo corrido como o nosso. Bem o contrário do que a gente imagina quando pensa na culinária francesa e em suas delícias, né?
            Penso que crianças cujos pais cozinham mais frequentemente em casa são mais expostas a uma maior variedade de comidas e, com isso, têm mais chances de comer de tudo. Isso acontece aqui também com frequência, famílias que cozinham em casa. Como acontece de ainda se preservar o momento das refeições para que todos sentem-se à mesa.
           Eis algo que me parece importante, e que talvez contribua para as crianças comerem melhor. Não vejo por aqui crianças fazendo as refeições na frente da televisão, do tablet ou do celular. A hora de almoçar ou jantar é a hora em que desligam os aparelhos e todo mundo vem para o redor da mesa. Isso me parece fundamental, pois nada mais triste do que ver uma criança comendo e olhando uma tela, sem nem perceber o que está comendo, de uma maneira automática, sem sentir o gosto, sem descobrir a comida, sem identificar quando está saciado. Triste e contraproducente. Ainda bem, isso não acontece. Que eu saiba.
            Então, sim, eu já presenciei aqui na minha casa e na casa de amigos crianças comendo coisas que nos pareceriam difíceis ou improváveis, cheias de apetite e de curiosidade: verduras, frutas, frutos do mar, queijos, comida apimentada, salada e por aí vai. Isso é tão bonito de se ver e impressiona tanto que a gente esquece de observar o contexto em que isso pode ocorrer. E atribui o feito a causas tão absurdas como o fato da criança ser francesa. Não, meu caro. Para a criança comer de tudo, tudo tem que ser ofertado a ela e, principalmente, ela tem que ver os adultos comendo, porque é nisso que vai se espelhar para comer ou não. Então, sim, isso acontece na França. Mas, não, não é uma regra geral. Tem muita criança comendo Nutella por aqui.
             Sobre a questão das crianças se comportarem bem, não fazerem manha, acho que é uma situação análoga ao que eu acabo de dizer sobre a comida. Ou seja, depende. Se você for num parquinho qualquer, vai ver criança se jogando no chão, gritando, esperneando. Andando na rua, fora dos lugares turísticos, você também pode testemunhar uma cena dessas. Ou num restaurante, numa loja, onde for. Crianças francesas fazem manha como fazem as crianças brasileiras. Talvez a diferença esteja em como se lida com isso por aqui.
           Na França houve uma tentativa de implantar a lei da palmada, como a que existe no Brasil. Não foi aprovada. As pessoas, aqui, acreditam que educar exige uma certa dose de violência. Se você for nesses mesmos parques, restaurantes e afins, vai ver que há grandes chances da mãe ou do pai dessa criança que se joga no chão darem um tapa nela, puxarem pelo braço, gritarem, dizerem palavras bem duras. Eu já testemunhei isso várias vezes, tanto em Paris quanto no sul da França, em lugares dos mais simples aos mais sofisticados. Já vi mãe estapear filho no parquinho, já vi mãe dar cascudo na cabeça do filho de uns 10 anos no restaurante, já vi mãe dizer coisas extremamente humilhantes para um filho de uns 20 anos numa mesa de um outro restaurante, em alto e bom som… Tenho uma coleção de cenas. O que isso quer dizer? Que aqui ainda impera uma concepção de educação bastante opressora, onde o objetivo é dobrar os filhos para que eles se comportem bem. Não é raro ouvir os pais definirem a educação dos filhos por aqui como mostrar a eles quem manda, ou formulações análogas. Qualquer coisa próxima de algo como uma criação com apego – que existe também, ainda bem – é considerada como laxista, coisa de pais que não saberiam mais dar limites a seus filhos.
           Os franceses, em geral, me parecem ter um certo pavor da dependência. Os filhos nascem e eles já estão preocupados que sejam autônomos. Eles vêem qualquer situação de dependência quase com repugnância. Aqui, a idéia mais difundida é que bebê deve dormir no seu berço, no seu quarto, desde o dia em que chega da maternidade. Pode deixar chorar. Já testemunhei comentários de profissionais de saúde dizendo que a mulher é problemática porque amamenta o filho, que assim o está prejudicando, pois impede com isso sua independência. Aqui não é incomum mulheres decidirem dar mamadeira para os pais poderem participar da alimentação dos filhos (oi?). É o tempo todo um pânico de que a criança fique colada. E com isso, a meu ver, eles precipitam uma série de desgrudes que poderiam acontecer de maneira menos violenta. E que aconteceriam de todo jeito. Com raras exceções, quantos adolescentes você vê por aí pendurados nos pais ou fazendo questão da presença deles? Pois é. Os filhos desmamam, queiramos ou não e não precisamos fazer muita força para isso. Basta deixá-los seguir seu ritmo e ampará-los e amá-los ao longo do percurso.
            Pois bem, o que acontece quando vemos essas crianças francesas que falam bom dia, por favor e obrigada, que sentam à mesa, comem o que tem no prato, pedem licença, falam baixinho e que achamos tão lindo é que estamos testemunhando os efeitos dessa educação mais difundida na França de evitar a todo custo que os filhos fiquem colados aos pais. Eu, particularmente, acho isso perfeito como meta a atingir quando seu filho estiver entrando na idade adulta. Acho uma maravilha que as crianças sejam incentivadas na sua autonomia, no melhor estilo Montessori. Mas, com um bebê? Com uma criança pequena? E, o principal, onde é que incentivar a autonomia quer dizer obrigar a criança a ações e situações para as quais suas reações mostram claramente que ela ainda não está preparada? Não sei se esse resultado das crianças bem comportadas e agora invejadas no mundo inteiro vale aquilo que a criança viveu para chegar a esse nível de domesticação.
            Basta pensar que a França das crianças bem comportadas também é a França dos adultos com algumas das taxas mais elevadas de consumo de antidepressivos. Será que não existe nenhuma relação? Aqui também é um dos países em que há muitos idosos vivendo sozinhos. Mesmo quando têm família, não são amparados por ela. Será que isso também não tem relação com essa independência precipitada? Não tenho resposta para isso, mas são questões que me faço.
            Então, comparando a maneira como em geral criamos nossas crianças na França e no Brasil, eu diria que no Brasil há uma maior tolerância à dependência do que aqui. O que faz com que talvez no Brasil tenhamos mais liberdade de sermos apegados aos nossos filhos e de expressar esse apego enquanto que aqui os pais se preocupam desde muito cedo em criar os filhos para que eles sejam autônomos. Os dois têm suas vantagens e desvantagens. Acho incrível a maneira como aqui, desde que o bebê nasce, os pais se permitem sair com ele, viajar, passear, enquanto que no Brasil os pais ficam confinados durante meses com os filhos em casa, preocupados com os perigos da rua. Mas isso tem razão de ser, né? Além de ser algo cultural, tem a ver com viver em um lugar em que você pode sair na rua ou não. Ou seja, é complexo demais esse tema da criação dos filhos, pois são muitos fatores em conta. Por isso que não dá para generalizar.
           Talvez antes de elegermos nossos novos ideais de criação de filhos e de ficarmos invejando e lamentando não estarmos na França, onde tudo seria perfeito e nossos filhos que comem mal e fazem “birra” e “fazem manha” e são impossíveis seriam outros, totalmente comportados e obedientes, e ainda por cima falariam francês – uhu! – talvez, apenas talvez, fosse o caso de olharmos mais para nossos filhos e tudo o que os cerca em termos de ofertas de alimento, de diversão, de companhia, de afeto. E, talvez, pudéssemos encontrar ali mesmo, nesse entorno e nessas ofertas, as razões para as dificuldades que enfrentamos assim como as condições de fazer diferente e de fazer melhor. Sem precisarmos nos assombrar e nos sentir diminuídos por esses exemplos tolos de crianças perfeitas que NUNCA existem.
           Em tempo: a entrevista, publicada em várias partes, começa nesse link aqui. Vocês podem aproveitar para navegar pelo site do projeto Casa de Viver, uma inciativa bem bacana para mamães trabalhadoras em São Paulo.
           Em tempo 2: estou mudando o layout do blog, com a ajuda de uma super amiga mais do que talentosa. Comentários serão bem vindos.

Essa tal de depressão pós-parto…

Esse post poderia tanto se chamar “sim, eu tive depressão pós-parto” quanto “não, eu não tive depressão pós-parto”. Prontas para uma desconstruçãozinha rápida? Vamos lá.

Freud – sim, ele mesmo, o bom e velho – escreveu um texto maravilhoso em 1917 chamado Luto e melancolia em que ele explica o que é um processo de luto. Basicamente, o luto é o que vivemos diante de uma perda de alguém ou de uma situação, um estado de recolhimento em que passamos pelo doloroso processo de retirar todos os investimentos que tínhamos colocado naquela coisa ou naquela pessoa. Em um estado de luto, nos fechamos para o mundo e ficamos ruminando aquilo que perdendo, ruminando no sentido literal mesmo, ficamos mastigando, mastigando, mastigando até a coisa se tornar passível de ser engolida. Pegamos cada lembrança, cada objeto, cada lugar associados aquilo que perdemos e sofremos, choramos, lamentamos e… deixamos ir. No final de um processo de luto, saímos capazes de começar de novo, ou de continuar vivos e vivendo a vida que se apresenta a nós. Com saudades, com lembranças mas, também, com condições de investir novamente em nossa vida, em novas pessoas, em novas situações, em novos objetos.

Agora pasmem: um processo de luto não é uma depressão. Isso é totalmente o oposto do que provavelmente te disseram o seu médico, os seus amigos, sua família, a revista feminina e afins. Mas, não, o luto não é uma depressão. Pode se tornar uma. Mas não é. O luto é um processo normal e esperado a cada vez que perdemos alguém ou alguma coisa de extrema importância para nós.

Uma depressão se aproxima mais do que o super Freud definiu nesse texto como melancolia. É o que acontece justamente quando não conseguimos passar pelo luto. Quando, por algum motivo, não conseguimos “aceitar” a perda, desinvestir tudo aquilo que tínhamos colocado nessa pessoa, nesse projeto, nessa coisa. Depressão – ou melancolia – é o que acontece quando não somos capazes de deixar ir. E de continuar vivendo e investindo a vida.

Como é que a gente sabe que um luto virou uma melancolia? Ou que passamos do luto à depressão?

Aí é que está, não é por conta de um prazo estabelecido por sei lá qual critério: um ano, um mês, dez dias… O que indica que passamos de uma coisa à outra tem mais a ver com essa recusa em perder do que com o ritmo em que elaboramos nossa perda.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais pressa e que pressiona incessantemente por resultados. Nesse mundo, não há lugar para processos, para ritmos, para os tempos que as experiências tomam. Tudo tem que estar superado para ontem. Não é de se estranhar que, num mundo desses, os índices de depressão explodam e, como consequência, as taxas de uso de antidepressivos subam estratosfericamente. Qualquer processo normal de luto passa a ser entendido como depressão. Qualquer tristeza frente a qualquer perda vira problema e vira doença. E a solução é medicar para que ela deixe imediatamente de existir. Não, o luto não é depressão. Mas é encarado como tal por um mundo que não suporta dor, tristeza, infelicidade e o tempo necessário para que tudo isso se cure.

O que transforma o luto em melancolia é justamente a recusa em que o luto seja feito. Em outras palavras: o que cria uma depressão é justamente a recusa em viver o luto. E essa recuse pode vir da pessoa, certamente. Mas pode vir do mundo que a cerca, esse mundo que não tem paciência para que lutos aconteçam, esse mundo que acabou com quase todos os rituais que antes tinham a ver com a perda, deixando o sujeito sozinho com sua pílula mágica para dar cabo daquilo que o atormenta e o entristece. Um spoiler: tentar eliminar o luto e seu tempo com medicamentos não cura ninguém, só gera depressão. Uma depressão que por vezes se arrasta por uma vida inteira, arrastando a pessoa para o fundo de um poço sem fundo. Onde entram mais medicamentos, mais tentativas de evitar perder, mais recusas do luto que deveria ser vivido e mais depressão, e mais, e mais…

Vou dizer algo bem claramente: ainda que possam haver algumas situações de depressão pós-parto, penso que maioria de nós vivemos, na verdade, um luto pós-parto. Estamos de luto, não estamos deprimidas. E o que muitas vezes empurra nosso luto tão necessário de ser vivido para uma depressão dolorosa, solitária e incapacitante é justamente a recusa em viver isso que o puerpério também é: um luto por aquilo que perdemos.

Como assim? Nascimento é amor. Nascimento é vida. Nascimento é ganho. Ganhamos um bebê. Ganhamos um filho. Somos mães.

Claro que sim. Mas isso é apenas um lado da moeda. Pois, como tudo na vida que é importante, ter um filho também é uma situação complexa e cheia de ambiguidades. E perdemos algo quando nos tornamos mães.

O que é que a gent perde? Em francês existe uma palavra que acho linda para definir isso: perdemos nossa insouciance. Nossa inconsequência, nossa leveza, nossa ligeireza. Perdemos a vida que tínhamos antes, as pessoas, as atividades, as baladas, o que seja, isso não tem lá tanta importância. Muitas vezes, nossa vida nem era tão extraordinária assim e nos damos logo conta que não trocaríamos a vida com os nossos filhos por voltar a termos a vida de outrora. Não, não é isso que acho que perdemos. Perdemos um certo estado de espírito que tínhamos até então. Um jeito leve de andar, de viver, de poder tomar decisões pensando exclusivamente em si e nos próprios interesses, desejos e possibilidades. O que dói nessa maternidade recém adquirida não é não poder ir naquela balada, mas se dar conta de que de agora em diante, antes de decidir se vai na balada, além de se perguntar se o dj é bom, se tem grana para ir e se dá para acordar mais tarde amanhã, vai ter também que se perguntar se o bebê vai mamar nesse meio tempo, se dá para tirar o leite para deixar com alguém, se alguém poderá dar esse leite ao bebê caso ele chore de fome, se alguém poderá ficar com o bebê e cuidar bem dele na sua ausência, se ao chegar cansada vai poder dormir ou terá que ficar acordada para amamentar ou cuidar do bebê, se poderá descansar no dia seguinte… O que era uma decisão fácil vira uma verdadeira estratégia de guerra. E isso é com toda e qualquer coisa que você fazia antes. Tchau, leveza. Tchau, inconsequência. Tchau, insouciance.

Depois que tive minha primeira, muitas vezes me via pensando: olha, tem uma exposição maravilhosa acontecendo ali, em Barcelona / Bilbao / Berlim / Londres / whatever. Acho que vou aproveitar o final de semana e me organizar para ir até lá dar uma olhada. Isso para me lembrar, um segundo depois, que tenho uma filha pequena. E pensar em tudo o que teria que prever e fazer para conseguir realizar um projeto desse com ela. E acabar concluindo que, putz, não dava para ir. Eu ficava arrasada a cada vez que raciocinava como quem não tem filhos para logo em seguida lembrar da existência da minha filha e concluir que aquele raciocínio e aquele modo de viver a vida não tinham mais lugar na minha realidade.

Não, isso não quer dizer que quando nos tornamos mães paramos de viver. Muitas de nós fazemos uma porção de coisas além daquelas ligadas exclusivamente à maternidade propriamente dita. Fiquem tranquilas, eu continuei indo em exposições, viajando e muitas outras coisas. Mas entendem que o que muda é a facilidade com que se pode fazer isso? Entendem que o que muda é o modo como se pode decidir o que fazer da própria vida? Voilà, é isso o que perdemos, esse modo de poder decidir e fazer a própria vida de quem não tem filhos. E isso dói. E precisamos de um tempo para elaborar cada uma dessas coisinhas que já não podemos mais. Ou que já não podemos mais do mesmo jeito.

As coisas não têm tanta importância, é mais a perda de um lugar, agora que, ainda por cima, estamos em um outro que nem entendemos direitos. Pensa bem: saímos da condição de mulher sem filhos e entramos na condição de mães e, além de termos perdido aquele lugar anterior, que construímos e no qual habitamos a vida inteira, chegamos num novo lugar que, especialmente no início, é total desconhecimento, caos e demanda incessante.

O bebê chora, o bebê depende, o bebê demanda, o bebê precisa. E percebemos com muita clareza, desde os primeiros minutos, que as necessidades desse pequeno ser são tão imperativas, tão importantes, tão fundamentais que não dá par nos darmos ao luxo de dizer ao bebê: calma, espera um pouquinho que eu também estou aqui cheia de necessidades, cheia de dificuldades, cheia de perdas a elaborar… volto quando estiver melhor. Não dá para fazer isso. É uma questão de sobrevivência. E mesmo que nosso luto seja também questão de vida ou morte, nós entendemos que existe ali uma prioridade e passamos por cima do que estamos vivendo e tiramos forças de não-sei-onde para mais uma mamada, mais um colo, mais uma fralda, mais um choro consolado. Eis aí uma outra perda: você perde a prioridade para você mesma. Isso pode ter a ver com convenção social, com tradição cultural, com imposição, com pressão, com idealização e com tudo o mais a que a gente queira atribuir esse deslocamento da prioridade posta em si para a prioridade dada ao outro, ao bebê. Gosto de pensar que, acima de tudo, existe ali uma pessoa adulta capaz de empatia e de compaixão, alguém que, vendo a extrema vulnerabilidade de um outro da sua espécie menor, mais frágil e mais exposto do que ela é capaz de deixar a sua dor de lado e priorizar a dele. Ser mãe é fazer isso. Mas ser humano também é ser capaz dessa doação. Enfim.

Então vai lá: estamos ali, mães recém paridas, vivendo um luto inesperado por essa perda de um lugar e de um estado de alma de quando ainda não tínhamos filhos juntamente com a angústia causada por esse encontro com esse ser desconhecido e demandante que é o bebê e que também não esperávamos. Na nossa cabeça, baseado em toda baboseira que bombardeiam nossos ouvidos, nossos olhos e nossos cérebros quase 100% do tempo quando o assunto é maternidade, o que imaginávamos é: vai ser tudo lindo, estarei felicíssima, será o melhor momento da minha vida, minha realização, saberei instintivamente o que fazer, tudo vai correr bem e seremos felizes para sempre.

Bullshit!

Não é nada disso e ninguém nos avisou e agora temos que encarar essa perda: de nós mesmas antes de termos filhos, do bebê ideal e dos ideais de maternidade. Luto pós-parto. Tempo para se desprender desse passado e de cada uma dessas idealizações de futuro. Tempo.

Mas onde é que isso desanda e vira depressão pós-parto?

Desanda quando esse nosso luto começa a ser nomeado pelas pessoas e até por nós mesmas como depressão. Você não está radiante, feliz e cheia de energia nessa sua nova vida física, mental e emocionalmente extenuante? Há algo de errado com você. Você suspeita que deveria estar feliz. Você suspeita que é a única a não estar feliz. Os outros te dizem que você deveria estar feliz. Você se cobra. Os outros cobram. Os textos, as reportagens, as imagens, os filmes sobre o quanto é linda a maternidade cobram. Jogam na sua cara que há algo de errado contigo. Além de chorar por suas perdas e pelo impacto que é ter um bebê, veja bem, uma outra pessoa totalmente dependente de você sob sua responsabilidade, você começa a chorar por não estar vivendo isso como deveria. Não consegue renunciar a esses ideais, acredita piamente que é assim que teria que ser, acredita piamente que se não é assim é um defeito seu e não uma impossibilidade da imagem que criou. Começa a sonhar em segredo com a vida que tinha antes, começa até a acreditar que aquela vida era melhor, começa a querer retomar aquela vida a qualquer preço, seja trabalhando como se não houvesse amanhã, seja passando um dia inteiro num museu lotado com uma criança recém nascida e outra pequena, cansadas, arrastadas, chorando por estarem numa situação completamente inadaptada ao que elas dão conta. Recusa em perder… depressão.

Engraçado que quando você está feito louca fazendo tudo o que pode para não sair daquele lugar de antes e nem dos ideais que construiu, quando está fazendo faxina, cozinhando, recebendo os amigos para uma festa ou correndo entre exposições, viagens e trabalho acumulado, todo mundo começa a achar que você está indo muito bem. Está melhor, está tirando de letra. Mas é quando você está mais deprimida, não podendo viver o tempo que precisa para elaborar essa enorme mudança que se deu na sua vida. Não tendo autorização própria e nem do mundo para se enlutar, para se fechar e para tomar seu tempo para caminhar até a saída, que é essa vida nova. Mas quanto mais você se fecha na sua recusa, se anestesiando em mil atividades ou em anti-depressivos, menos a coisa passa. O tempo congela, a vida congela e você não passa. Não consegue morrer para renascer.

O que desanda um puerpério e o transforma em depressão pós-parto somos nós coladas a nossas expectativas, tentando dar conta de tudo, tentando fazer tudo e negando que tem algo ali que não vai bem. O que desanda é não reconhecermos que sim, não estamos apenas felizes, mas também profundamente infelizes. E decepcionadas conosco e com os outros. E exaustas. E com raiva. E com vontade de fugir.

O que desanda, além de nós mesmos, são os outros e sua profunda intolerância para com as dores e fragilidades de uma mãe recente. Um mundo totalmente intolerante para com o que quer que seja dor, sofrimento ou fragilidade não seria diferente conosco, as recém-mães. Um mundo e as pessoas que impõem felicidade, mesmo que à base de medicamentos e de muita negação. Um mundo que não tolera ouvir de uma mulher que ela está triste, sofrendo, cansada em sua nova condição de mãe, que a condena por apenas enunciar essas palavras, que julga nisso uma falta de amor dessa mulher para com o seu filho e que a massacra entre a obrigação de um amor sem ambivalência e a condenação se ser má: má pessoa, péssima mãe, um lixo.

Quando eu tive minha primeira filha, eu tive um luto pós-parto. E também após o nascimento do meu segundo, pasmem! Porque também existem perdas quando três viram quatro, não se enganem, a coisa não se atenua nunca. Eu ruminei a pessoa que eu nunca mais poderia voltar a ser, eu lamentei a leveza perdida, eu me desesperei da minha impotência frente aos meus filhos tão pequenos e dependentes, eu chorei de desamparo de não poder cuidar de mim por ter que cuidar deles. E não tive ninguém que tenha me dirigido uma palavra, um olhar, um gesto de cuidado, de empatia e de compaixão em relação ao que eu estava vivendo. Da boca dos outros, só ouvia o que a maioria de nós escuta: você está feliz, né? Ao mesmo tempo que: agora nunca mais vai ter sossego, né? Ambas são polarizações de uma mesma incapacidade de olhar, de ouvir, de acolher. E de ajudar. Se juntarmos a isso alguns agravantes, como o fato de estar muito isolada por viver em outro país, sem família por perto nem nenhuma rede de apoio, digamos que o resultado tinha tudo para ser escabroso. Felizmente, posso dizer que não foi.

Por que não foi?

Porque eu me recusei a entrar nessa onda intolerante de ter que estar bem, de ter que estar performante, de ter que agir, de ter que tirar de letra. Recusei-me a recusar. Talvez por ter feito muitos anos de uma boa análise e por ser eu também analista, isso me fez ter menos medo de encarar monstros. Talvez por ter podido parir meus dois filhos, isso também me deu uma dose de confiança de que eu poderia enfrentar monstros. Talvez por uma combinação entre sorte, trabalho e força de vontade, eu pude me dar um tempo. Um tempo que durou o tempo que durou. E quando me perguntavam se estava tudo bem, se eu estava feliz, se estava lidando bem com a maternidade, eu respondia o que queriam ouvir. E guardava para mim as minhas batalhas. E me encontrava em algumas coisas que lia, em algumas conversas que tinha, em relatos de pessoas que também passaram por isso: também se tornaram mães e também se recusaram a entrar na caricatura da felicidade absoluta e absolutamente vazia. Engraçado o conforto que dá sabermos que não estamos sozinhas. E que não somos loucas. Nem más. Um dia, passou. E eu pude renascer e viver essa minha vida com vontade, com gana e com absoluta paixão. Pelos meus filhos, pela minha família, pelas minhas escolhas.

Não, eu não tive uma depressão pós-parto. E nem tiveram a maioria das mulheres que conheço através do meu trabalho ou na minha vida pessoal. Tive e tivemos um processo de luto, algo totalmente coerente com a experiência monumental que é tornar-se mãe. E viver esse luto foi a única saída para não deprimir, para não adoecer dessa doença que é a felicidade a qualquer custo e sem nenhuma substância. Dar tempo ao tempo é o melhor que podemos fazer para nós mesmas e para nossos filhos quando nos tornamos mães.

Em tempo: dedico esse texto a algumas pessoas que de um jeito ou de outro, e mesmo sem saber, me acompanharam nesse processo. Vão os primeiros nomes, para não expor ninguém: Sis, Ra, Bia, Flávia, Norma, Nelma, Gabi, Juliana, Jurema, Rafaela, Liliana, Sandrine.

Em tempo 2: uma das polêmicas recentes no mundo virtual foi o tal #desafiodamaternidade, onde as mães eram incentivadas a publicarem fotos que mostrassem a alegria da experiência da maternidade. Até aí, nada contra, até que uma garota, uma menina corajosa, como tantas meninas corajosas que têm aparecido ultimamente, a Juliana Reis, ousou publicar algo totalmente oposto ao que era esperado: no depoimento que anexou às fotos, dizia do quanto amava o seu filho, mas detestava ser mãe. Porque uma das coisas que justamente ferra com a nossa possibilidade de sermos mães é essa maternidade ideal, perversa, cruel e cheia de exigências, ela falou honestamente o quanto todas essas exigências eram detestáveis, o quanto era falso ter que ser feliz em ser mãe nas condições de intolerância em que vivemos hoje, com duplas ou triplas jornadas de trabalho, sozinhas, sem apoio algum, sem empatia, sem espaço ou legitimidade para estarmos perdidas, tristes, infelizes ou com raiva. O que aconteceu? A garota foi bombardeada por impropérios, taxada de irresponsável, negligente, deprimida, mãe de merda. Até perfil de facebook bloqueado ela teve, por conta de gente que não suporta escutar a dor do outro. Parabéns, menina, por ter se recusado a se encaixar e a jogar para debaixo do tapete todas as perdas que vivemos cotidianamente, todas nós, quer vejamos ou não, quer queiramos ou não, quando nos tornamos mães nesse mundo atual.

A bailarina

Passaram-se pelo menos vinte anos. As sapatilhas tornaram-se objeto de decoração, mancharam, desbotaram, impregnaram-se das marcas e da poeira do tempo. Foram morar em todos os lugares onde já vivi, ponto de referência para poder chamar um lugar de lar. Um dos pequenos lugares portáteis para que qualquer lugar seja “em casa”.

A dança continuou. Virou dança contemporânea, jazz, expressão corporal, dança do ventre, yoga, natação, Pilates, dança indiana… A nada mais pude estar tão ligada quanto ao sonho de ser bailarina, o primeiro sonho de menina de ser alguém quando fosse grande. As sapatilhas ficaram, depois do sonho abandonado em prol de outra vida, outros projetos, outros “quero ser”. Elas, as últimas recebidas como precioso presente, ficaram até mesmo não usadas. E não usadas permaneceram, símbolo do que já existiu um dia, daquela menina que só queria dançar.

Depois de duas gravidezes e um pós-parto parada, o corpo não aguentou mais. Muitos anos parada, o peso da barriga, dos colos e das noites mal dormidas em posições precárias cobraram sua conta. Corpo enferrujado que já se mexia tão somente em sonho, lugar em que agilmente seguia a música, todas as sensações do corpo em movimento renascidas num instante. Fora do sonho, o corpo reclamava a negligência.

O corpo envelhece e se deteriora de mansinho, a gente mal percebe. Até o dia em que senta no chão e sofre em levantar. E daí descobre que a agilidade ficou na cabeça, na ilusão de ser ágil, no sonho de agilidade da bailarina, agora apenas sonho distante. O corpo ficou esquecido.

Então começou assim, de mansinho. Sem planejamento nem cálculo. Em um dia de raiva dessa imobilidade passei na frente da escola. A escola de dança. Entrei, o pequeno no colo: quanto custa para voltar a dançar? Duas semanas se passaram, tempo de chegar novas sapatilhas. No dia e horário combinados, saio de casa sem olhar para trás, medo de ouvir pequeno chorando e fraquejar. Afinal, ir dançar não é como voltar ao trabalho, não é um motivo legítimo, né?

Toca a música, todos na barra, plié, grand plié… O corpo dói, chia um pouco sua ferrugem de tantos anos. Nem sempre acompanha o que a cabeça entende que deve ser feito. Ao mesmo tempo, lá vai ele que faz, faz o pé, faz o braço, faz como se nunca tivesse sido diferente.

A alegria de descobrir que sempre é tempo de ser bailarina outra vez. E que a mãe que volta para casa depois desse tempo dançando é uma mãe muito mais feliz para abraçar o seu pequeno, para dançar com sua pequena, para celebrar os caminhos curiosos e tortuosos que me levaram a eles, a esse lugar, e a poder calçar minhas sapatilhas novamente.

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A intolerância à infância

Daí que eu ia escrever um post engraçadinho sobre 24 horas na vida de uma mãe de 2. Daí que vocês poderiam testemunhar o meu excêntrico senso de humor. Daí caiu na minha mão – ou na minha tela – um texto infâme de um sujeito que defende que o problema das crianças de hoje em dia não é a hiperatividade, mas a falta de educação. Não, eu não vou colocar link aqui porque não dou audiência para coisas que ultrapassam o campo da discordância e entram no terreno do ultraje. E, sim, acabei ficando de mau humor e o texto divertido deu lugar a esse que se segue. Sorry, queridos. Qualquer coisa, culpem o autor do texto infame.

Não sei dizer se aumentaram os casos de hiperatividade entre crianças no mundo atualmente. Não sou especialista na área e, a bem da verdade e da justiça frente aos especialistas que conheço, teria que dizer que aumentou, certamente, o número de diagnósticos de hiperatividade. Uma coisa não é igual à outra. Podemos concluir que haviam muitos casos mascarados, dos quais não se tinha notícia e que, com a popularização do diagnóstico, puderam ser identificados e levados a tratamento. Podemos concluir que, ao contrário, a popularização do diagnóstico fez com que muitas crianças começassem a ser tratadas por algo que não têm. A meu ver, as duas conclusões estão certas e erradas.

As patologias psiquiátricas, em geral, têm uma prevalência estatística mais ou menos estável na população. Isso quer dizer que o número de esquizofrênicos, por exemplo, não varia muito. Ou o de crianças autistas. O que não para de aumentar são os casos depressão. Ou, nas crianças, os casos de hiperatividade. Coincidência?

Olha só: eu, particularmente, não entendo as pessoas como entidades fechadas, que existem com suas qualidades e defeitos nelas mesmas e antes de tudo. Ou seja, eu não entendo um diagnóstico desse tipo como algo que pode ser jogado apenas na conta da predisposição genética. Se existem questões ligadas à herança e à biologia naquilo que somos, não há como recusar o enorme papel exercido pelo mundo que nos cerca naquilo que somos, que podemos ser ou que somos impedidos de ser. E o mundo que nos cerca, atualmente, é um mundo praticamente inviável.

A intolerância tem atingido níveis inimagináveis. Ninguém mais se dispõe a suportar o que quer que seja em nome de nenhum princípio de civilidade, ou do bem comum, ou de compaixão… whatever. A violência sem precedentes que vemos nas redes sociais, em que as pessoas se escondem atrás das telas para propagar todo ódio e toda intolerância de que sejam capazes transbordam pelas ruas, onde pessoas são agredidas cotidianamente por serem negras, mulheres, homossexuais, transgênero, de tal ou qual religião… Enfim, qualquer que seja a diferença em questão, ela é o suficiente para despertar o ultraje de um qualquer que – e isso me parece recente – se sente no direito de dizer o que pensa e de agir segundo a sua indignação. Que existam preconceituosos de todo tipo, racistas, xenófobos, misóginos, fanáticos religiosos, acho que dá para dizer que é tão antigo quanto o surgimento da espécie humana. Desde que existe o humano, existe o pior do humano, o pior que ele pode ser. Mas não sei se em algum momento anterior na nossa história o ser humano se sentiu tão à vontade para agir de forma tão violenta, intolerante e brutal ao seguir essas suas piores inclinações. Sim, é claro, temos muitas marcas na história desse pior do ser humano em ação. Mas quando é que foi assim tão generalizado, tão leviano, tão sem consequências, tão covarde e tão primário? Eu não saberia dizer.

Essa intolerância que vemos na internet está nas ruas, nas relações entre as pessoas, nas situações coletivas, na política e até no debate intelectual. Ela está na maneira como encaramos nossas dificuldades, nossas falhas, nossas frustrações, nossas perdas. Está na intolerância frente aos outros e à diferença, mas também na intolerância para com nós mesmos. Daí o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. E o consequente aumento do uso de antidepressivos e ansiolíticos. A indústria farmacêutica tem muito o que comemorar, certamente. Num mundo onde a intolerância é a regra, o sofrimento humano se torna intolerável. E intolerado. Qualquer “choramingo” e a gente já aconselha o outro a se tratar. Tomar um remedinho. Silenciar o barulho. E não nos incomodar mais.

Como é que em um mundo com uma lógica dessas haveria espaço para as crianças? As crianças, hoje em dia, são confrontadas a cada vez mais intolerância. Intolerância contra o ser criança. Intolerância contra aquilo mesmo que elas podem ser, sentir e fazer. Não existe espaço para elas existirem enquanto tal. O infantil, tanto quanto o sofrimento, são insuportáveis para a maioria das pessoas nos dias de hoje.

Por vezes tenho a impressão de que às crianças e aos adultos com bebês ou crianças pequenas caberá o mesmo destino que aos fumantes: primeiro uma ala reservada, depois um cercadinho na rua, depois a proibição total. Você é criança ou você tem uma criança pequena e, voilà, eis aí um pária social.

Estou exagerando? Crianças e adultos com crianças pequenas recebem olhares tortos, comentários tortos e más vibrações em restaurantes, bares, cinemas, teatros, concertos, lojas, museus… Nenhum lugar é considerado adequado para se ir com uma criança. A não ser os lugares “adaptados” para crianças: cinema adaptado, restaurante adaptado, loja adaptada, o espetáculo adaptado… a tal ala reservada. Ah, mas criança mexe, criança não se comporta, criança quebra, criança pula, faz barulho, atrapalha.

Parece que o problema está justamente aí: criança atrapalha. Quem? Quem não tem tolerância com o fato evidente de que criança só pode ser… criança.

Por que é que hoje em dia, quando uma criança “se comporta mal” em um lugar público, os pais olham para os lados e se apressam a dizer a desconhecidos: “ela é hiperativa”? Não, não é para arrumar uma desculpa para a falta de educação, para a incompetência deles em educar seus filhos e em dar umas boas palmadas e botar uns bons limites, como todo intolerante gosta logo de professar que deveria ser feito. Não, os pais fazem isso, eles se justificam frente a esses desconhecidos porque percebem ali o ódio, o julgamento, a condenação e a intolerância. E acreditam que um diagnóstico poderá salvá-los da execração pública e suscitar um pouco de compaixão de quem está ao redor. As pessoas expõe seus filhos, sua intimidade, sua vida por desespero, por vergonha, por constrangimento. Porque se sentem fracassadas e acreditam que dizer que é doença é melhor socialmente do que deixar passar como incompetência.

Penso que tem a ver com isso também, com essa intolerância, o fato de tantos pais procurarem um diagnóstico para seus filhos tido como hiperativos. Desde que a criança começa a dar sinais de existência, começa a querer falar, fazer, explorar, correr, brincar, rir, investigar, descobrir, reivindicar… ela se torna um problema. Um problema para os pais que, muitas vezes, não consideraram que ter filhos é botar no mundo outras pessoas que, na medida em que são outras e que são pessoas, estarão sujeitas a tudo aquilo que qualquer pessoa está: humores, vontades, indisposições. Filhos postos no mundo existem e vão manifestar essa existência. E essa existência, principalmente no início da vida, é extremamente física, corporal, visceral. A criança existe, ela conhece, ela investiga, ela expressa tudo corporalmente. Então, ela explora o espaço, as coisas, ela ocupa o espaço. Ela comunica como pode, ela demonstra as emoções que vive, ela existe com os recursos que tem. Não dá para imaginar que vai ser possível fazer uma criança desaparecer atrás de uma tela, de um tablet, de uma televisão ou de uma ritalina. Não sem graves consequências para essa criança.

Mas além de se tornarem um problema para muitos pais que não toleram a parte criança de seus filhos, esses pequenos parece que se tornam problema onde quer que estejam. Na escola, é preciso silenciá-los em nome de sabe-se-lá-o-que consideram como educação. Criança sendo criança não cabe na maior parte das escolas atualmente. E nem naquilo que se concebe como educação, que eu chamaria mais de um adestramento para se aprender a viver sem protestar contra um mundo inviável.

Em seguida, a criança não cabe em nenhum espaço coletivo, em nenhum espaço cultural, em lugar nenhum ela é bem vinda a não ser que possa se comportar como algo diferente do que é: venha ao restaurante quando puder ficar 3 horas sentada sem falar, sem reclamar, sem se mexer, sem derrubar sal na mesa ou quebrar um copo. Sinceramente, que criança suporta tamanho constrangimento corporal a ponto de ficar ali como se espera dela? Será que o que se exige de uma criança como sinônimo de boa educação é algo realmente factível?

Ah, mas antigamente… No meu tempo… as crianças eram educadas. Sabiam se comportar, diziam bom dia, por favor, obrigada. Sei, mas antes que você venha defender a palmada como tática educativa que provou sua eficácia no antigamente, deixa eu te perguntar: nessa época da palmada, dos limites e dos pais que sabiam educar, o mundo era assim intolerante com as crianças? Ou será que na sua época, ou na de seus pais, as crianças eram cuidadas onde quer que estivessem? Não tinha sempre um vizinho, o dono da padaria, o pessoal da rua, todo um monte de gente, de adultos, a dar uma olhada nos pequenos onde quer que fossem? Não tinha mais gente para dizer: cuidado com isso, menino, é perigoso, machuca, etc? Possivelmente as crianças não estavam mais inseridas nos meios sociais e nas ocasiões coletivas porque, certamente, haviam mais ocasiões a serem consideradas como “não sendo coisa de criança”. Mas onde elas apareciam, onde podiam aparecer, eram melhor recebidas, não? Ou você não lembra do seu pai ou do seu avô dizendo: “deixa… é criança”. Quantas vezes ouvimos algo parecido atualmente? Quantas vezes nos espaços coletivos as crianças são olhadas com a benevolência do deixa, é criança, o que quer que estejam fazendo?

Então como é que faz num mundo como o de hoje onde a criança não é bem vinda em lugar nenhum e onde os pais não possuem mais nenhuma rede de apoio que possa tolerar uma criança sendo criança? Ter filhos nos dias de hoje é se confinar em casa até eles completarem 18 anos? Como eles vão aprender sobre o mundo se não podem frequentá-lo?Qual a opção: forçar um comportamento em que eles se tornem invisíveis? Isso é educar? Ser invisível é o preço a pagar para poder circular pelo mundo? Bom, eis porque faz tanto sentido que o que mais se veja hoje em dia sejam diagnósticos de hiperatividade em crianças e ansiedade e depressão em adultos. Uma criança hiperativa é uma pessoa que existe em excesso. Um adulto ansioso é aquele que se aflige com o fato de existir. E um deprimido é aquele que renunciou à existência. Será que não estamos criando os deprimidos de amanhã?

Se vocês querem minha opinião, penso que existem sim crianças mal educadas. Como também existem crianças hiperativas. Mas penso que o que mais vemos nos dias de hoje são pessoas intolerantes com crianças sendo crianças. E pessoas intolerantes com os pais nos momentos em que eles estão em dificuldades com suas crianças sendo crianças. Sendo mais clara ainda: a culpa não é da doença que vira desculpa, nem dos pais que não sabem mais educar um filho. A culpa é da pessoa que, enquanto membro de uma coletividade, não suporta nada que incomode, que contrarie ou que vá contra seus desejos ou suas convicções. A “culpa” é do cara que escreve o texto dizendo que sua intolerância seria, na verdade, um defeito de uma criança mal educada e de pais que não sabem educar. Uma criança “se comportando mal” em público é apenas a triste consequência da pressão que você coloca, da intolerância que você impõe, da sua falta de acolhimento, do espaço que você não abre para que aquele sujeito possa existir.

Personal disclaimer, antes que comecem os comentários:

  • não estou dizendo aqui que não haja hiperatividade e nem crianças mal educadas. Estou apenas considerando que são a minoria dos casos e que a maioria é mais uma questão de um mundo intolerante do que das próprias crianças ou dos pais.
  • não estou dizendo aqui também que antes era melhor e que educação é dar palmada e limite (no sentido de subjugar o outro). Penso já ter escrito claramente que não entendo isso como educação. Estou apenas dizendo que, antigamente, as mesmas pessoas ou a mesma lógica que sustentava a palmada e a opressão sustentava, por incrível que pareça, que as crianças fossem mais aceitas em suas criancices naqueles lugares e momentos em que podiam aparecer.
  • também não estou dizendo que educar é não dar limites e deixar as crianças fazerem o que quiserem, quando quiserem. Ninguém faz o que quer, isso não é prerrogativa das crianças. Os limites existem e eles se impõem. Nenhuma criança ou adulto vai poder atravessar a rua correndo sem olhar para os lados, ou brincar com objetos perigosos e afins. Mas entre o que é limite e tudo o que as pessoas querem interditar porque simplesmente perturba a elas, ou atrapalha a elas, existe uma grande diferença. Se você não quer que uma criança quebre um copo num restaurante, basta não colocar um copo de vidro na frente dela à mesa. Se não quer que ela bagunce as coisas no supermercado, retire os produtos coloridos, podres e cheios de açúcar que você coloca ao alcance dos olhos e das mãos dos pequenos apenas para obrigar os pais a comprarem.
  • por fim, não estou dizendo que as crianças não teriam que se adaptar aos lugares que frequentam. Mas ter que falar baixo num museu? Sério? Ou não poder dançar num concerto? Ou não poder rir e comentar um filme? Ou não poder se sujar no restaurante, nem comer com as mãos? Francamente… Me parece que os doentes e mal educados não são as crianças não. Por que é que as crianças precisam se adaptar mais do que os lugares e as pessoas teriam que se adaptar a elas?

Finalizo com uma anedota: há pouco tempo atrás, fomos em família almoçar num restaurante. Um restaurante estrelado no guia Michelin, o que quer dizer um restaurante de comida requintada, um lugar que alguns diriam cheio de frescura e, portanto, “inadequado para crianças”. Tínhamos um de cinco, uma de dois e um de dois meses. O chef nos recebeu na porta, pois chegamos cedo ao local. Fizemos uma degustação que durou cerca de três horas. As crianças tiveram seu almoço trazido rapidamente. A comida deles era saudável e bem cuidada. A cada vez que traziam nossos pratos, tinham a delicadeza de dirigir a palavra às crianças, ou esperar que elas parassem de falar para nos servirem. O pequeno mamou. Sim. Mamou no peito duas vezes. A de dois desceu da cadeira, passeou pelo restaurante, foi olhar a adega com o pai, foi ver os cozinheiros. O de cinco foi no banheiro, puxou papo, pediu catchup. O único momento em que alguém se estressou foi quando a pequena foi mexer na cortina da janela. O maitre foi até ela e disse seriamente para ela que não podia. Ela já tinha andado, ela já tinha embaçado o vidro, ela já tinha brincado com seus adesivos, ela já tinha deixado marca de dedo no móvel ao lado da mesa. E. TUDO. BEM. No final do almoço, o chef estrelado estava novamente na entrada. E quis saber se tudo tinha corrido bem. Tudo com um sorriso no rosto. Ah, mas é porque a gente estava pagando? Será mesmo que ele precisa disso? Ou será que ele apenas considera que crianças têm todo o direito de comer sua excelente comida? Isso, meus caros, é boa educação.

Culpa, culpas, me desculpa

Então você engravida e começa a pensar sobre tudo o que se relaciona à gravidez, ao parto, à criação dos filhos. Se dá conta de que era uma alienada e que apenas tinha feito seguir a manada até então. Mas com a perspectiva de um bebê real, de um filho real, de botar realmente uma criança no mundo, não deu mais para ficar como um avestruz com a cabeça dentro de um buraco e você teve que se abrir, teve que olhar, teve que pensar a respeito de tudo o que cerca a maternidade. A sua, a desse filho esperado, aquela que você viveu.

Você passou nove meses gestando e se gestando enquanto mulher, enquanto futura mãe, enquanto pessoa crítica desse modo das coisas funcionarem nesse mundo. Passou todo esse tempo que poderia ter sido mais tranquilo, mais contemplativo, mais encasulado se preocupando com coisas que nunca antes tinha percebido: o mundo anda estranho, perigoso, as pessoas se pautam por valores que você não consegue mais endossar. Uma vida baseada no consumo, em que o importante é ter, perde o sentido frente à perspectiva da existência dessa criança. Você se sente responsável pelo mundo que está aí, sente-se responsável por ter feito tão pouco para que o mundo em que seu filho vai chegar fosse melhor. Tantos anos de indiferença, de falta de empatia, de despreocupação com o outro, de foco apenas naquilo que lhe cabe e agora eis aí você, obrigada a olhar para um outro que é esse bebê, sentindo um peso enorme que lhe cai sobre os ombros, o peso de cuidar, de proteger. Que mundo você vai apresentar para o seu filho?

Em nove meses você vira militante de todas as causas justas. Uma urgência de mudar o mundo, de que ele seja ao menos um tantinho melhor. Um medo que te invade cada vez que você pensa que sua cria não vai estar segura e que você não poderá poupar-lhe de todos os riscos. Frio na barriga constante, você não dorme mais.

E nesse processo que alguns chamam de emponderamento, você se dá conta de que pode fazer algumas coisas, de que pode ao menos cuidar da maneira como vive essa gravidez, como cuida dela, como cuida do bebê na barriga, como cuida da forma como ele virá ao mundo, como cuida da forma de criá-lo. Os nove meses de gestação produzem um bebê e produzem também uma mulher bem cansada que, no entanto, sente-se vitoriosa por ter tido a coragem de se abrir, de pensar, de criticar e de criticar-se, de tomar consciência e de indignar-se e, enfim, de lutar para fazer diferente e fazer alguma diferença. Para mudar o mundo, você percebe que um bom ponto de partida é justamente mudar a forma como gestamos, como nascemos, como parimos e como criamos nossos filhos.

Você pode fazer a sua parte, mudando o mundo precisamente ao mudar o modo de olhar para o que seja ter e criar uma criança. Menos ter, porque um outro ser não lhe pertence e mais acompanhar, descobrir, encontrar-se com esse outro que já chega com o potencial de causar uma pequena revolução. Uma mãe que muda, uma mulher que muda, se questiona, se empondera e vai buscar novos caminhos já é um mundo inteiro que se convulsiona e pode se transformar em algo melhor. Se pudermos ser melhores com nossos filhos, se pudermos criar crianças melhores para esse mundo ao mesmo tempo em que tentamos criar um mundo melhor para nossas crianças… bom, quem sabe aí haja uma real esperança para nossa espécie, não?

Então os nove meses passam e o resultado de todo esse processo de turbilhão e de emponderamento é que nasce um bebê. E você se dá conta de que o nascimento não é reta de chegada, mas ponto de partida. E que toda a sua luta por uma gravidez vivida de maneira respeitosa e por um parto e um nascimento humanizados foram apenas uma pequena ponta de um iceberg gigante. Perto do que se segue, engravidar e parir foi fácil.

A criança está ali na sua frente. O bebê. O sujeitinho. O pequeno. Você sente amor, você sente gratidão, você se emociona e chora à toa. É um acontecimento de tão grandes proporções que você não encontra palavras para isso. Não é um clichê, é mais forte do que um clichê, mais intenso, mais visceral. Você é mãe e nada do que diga dá conta de expressar o que isso significa.

Você continua naquele processo que começou durante a gravidez, você se questiona, se informa, pensa antes de tomar as decisões. A coisa se complica quando você percebe que são muitas decisões à cada dia. Vai amamentar? Em livre demanda? Vai fazer cama compartilhada? Quarto compartilhado? Como vai fazer com o bebê que acorda de noite? Como vai fazer com a criança que prefere dormir contigo? Vai colocá-la para dormir no seu quarto? Vai fazer treinamento de sono? Vai carregar no sling? No porta-bebê? Vai usar fralda? De pano ou descartável? Vai dar vacinas? Quais? Quando? Quando ficar doente, como vai tratar? Vai levar no médico? No homeopata? Vai dar antitérmico quando tiver febre ou deixar a febre agir e tratar com banhos mornos? Vai diversificar a alimentação com que idade? Vai dar papinha ou comida em pedaços? Vai cozinhar? Vai tirar o leite quando tiver que sair? Vai dar o leite no copinho ou na mamadeira? Vai lidar como quando os dentes começarem a sair? Vai dar chupeta? Vai voltar a trabalhar? Vai ficar em casa cuidando da criança? Até quando? Vai trabalhar em casa? Vai deixar a criança com a babá? Na creche? Na escolinha? Com os avós? Como vai fazer se a babá, a creche, a escolinha ou os avós não tiverem os mesmos ideais no cuidado com uma criança que você? Como vai fazer com os comentários dos amigos? Com os doces oferecidos na casa dos outros? Com os tablets, os celulares e os desenhos na televisão? Como vai fazer com as brincadeiras e os brinquedos ditos de menino e de menina? Com que idade vai colocar na escola? Que tipo de escola vai ser? Melhor uma escola para a criança passar no vestibular? Melhor uma escola para a criança ser “bem relacionada”? Melhor uma escola para a criança construir sua autonomia e sua capacidade de pensar? Vai colocar a criança no inglês? No espanhol? No curso de dança? Natação? Judô? Esportes? Vai tirar a fralda quando? E como? Vai esperar a criança desfraldar ou vai tirar a fralda aos dois anos quando dizem que é a época? Vai ensinar religião? Vai batizar a criança? Vai furar a orelha e colocar brincos? Como vai reagir quando a criança fizer algo que apresente um perigo para ela? E quando ela fizer algo que te contrariar? Quando ela não quiser fazer algo que você proponha? Ou quando gritar, chorar, se jogar no chão? E quando ela bater em alguém? E quando apanhar de um coleguinha? Como vai fazer com as coisas para as quais tiver que dizer não? Vai gritar? Vai bater? Vai colocar de castigo?

Eis a lista não exaustiva de uma parte das questões e das decisões que chegam junto com o nascimento da criança. Muito, mas muito mais difícil do que decidir ter um parto normal humanizado. Uma avalanche de questões importantes, urgentes, que se colocam a cada dia. E, para cada uma dessas questões, dependendo de qual seja a resposta, mais uma batalha pela frente. Quanto mais fora da curva forem as escolhas dessa mãe, mais trabalho ela vai ter. Para encontrar informações, para encontrar alternativas, para encontrar apoio, para tão somente fazer o que decidiu, para dar conta de sustentar essas opções e para fazer frente à imensa resistência que o mundo e as pessoas desse mundo que se portam como gado e simplesmente seguem sem pensar o que está estabelecido podem opor a quem é diferente.

E quanto mais sejam escolhas pensadas e apropriadas por essa mãe, quanto mais elas tomem em consideração a subjetividade e as necessidades do seu filho, quanto mais elas se proponham a serem respeitosas, cuidadosas, quanto mais essa mãe se proponha a escutar, a estar presente, a estar inteira, a se colocar em questão e a fazer o seu melhor, mais trabalho ela vai ter. Não apenas com o mundo, com os outros, com a resistência desse mundo ao diferente. Não, esse trabalho é pequeno perto do trabalho que ela vai ter com ela mesma e com a sua constante sensação de culpa.

Culpa porque cada uma dessas questões é imensa e tem tantas implicações que mereceria horas, dias, meses de reflexão. Culpa porque a vida acontece antes que a gente consiga pensar sobre ela e sobre como vai fazer e logo nos vemos fazendo sem pensar e pensamos depois de fazer e percebemos que fizemos algo que nada tem a ver com nossos valores e com nossas intenções. Culpa porque cada dia traz todas essas decisões a serem tomadas e cada um desses assuntos tem milhares de textos, de pesquisas, de livros, de páginas de internet, de blogs, de sites, de especialistas… Culpa de ter que decidir fazendo uma aposta, sem conseguir dar conta de tudo, de todas as informações, sem nunca chegar no “fim” ou no âmago da questão. Culpa por nutrir a ilusão permanente de que seria possível saber tudo, chegar em uma resposta, chegar em uma verdade, descobrir o que é o melhor e somente então aplicar. Decidir com 100% de certeza, isso não seria uma decisão. Decisão é o que fazemos quando temos escolha. E termos escolha significa que temos uma larga margem de erro a cada vez que vamos por um caminho e deixamos outro de lado.

Quem sabe se estamos tomando as melhores decisões? Quem pode nos garantir? Ninguém. Nem nada. E o bebê, a criança, nosso filho não é quem vai se responsabilizar pelo que decidimos por ele. Ele vai certamente arcar com isso. Mas a responsabilidade é inteiramente nossa. E isso pesa. E traz mais culpa.

Você está esgotada no final do dia, sem paciência, sem disponibilidade, querendo largar tudo e correr, pensando que estava maluca quando decidiu ter filhos? Culpa. Você se propõe a estar com seu filho, a brincar, a passar um bom momento, a estar ali com ele e acaba ficando o tempo todo com um olho no celular e outro na criança, que se irrita com a sua pseudo- presença e acaba rasgando o livro, derrubando o vaso, batendo no irmão e tudo o mais que te tira do sério até você gritar e ser aquela pessoa abominável que você jurou que nunca seria? Culpa. Você lê na internet algum texto que critica a alimentação que você dá ao seu filho? Culpa. Você tenta mudar e não consegue? Culpa. Você desiste e coloca ele na frente da televisão com um suco de caixinha numa mão, um chocolate na outra e corre para frente do computador, para o banho, para chorar debaixo do chuveiro ou para tirar uma soneca? Culpa. Culpa, culpa, culpa. Mil culpas. Mil desculpas que você pede no final do dia, com medo de ter estragado tudo em definitivo, com medo de ter estragado seu filho, de ter estragado algo para seu filho, de ter estragado o caminho que vinham fazendo.

O mundo da maternidade está cheio de culpas, de culpabilizações, de desculpas que sentimos obrigação de pedir, de desculpas que inventamos para não pensar. Culpas e desculpas que jogamos em nossos ombros. Culpas e desculpas que jogam em cima da gente. Os outros, o pai da criança, os avós, a família, os amigos, a sociedade como um todo, o tal do status quo. É sempre muito mais fácil destruir uma pessoa com críticas do que apoiá-la naquilo que ela escolhe como seu caminho.

Então algumas mães se revoltam e lançam uma “maternidade sem culpa”, que a meu ver é uma espécie de síndrome de Estocolmo do maternar, quando a vítima defende o agressor. A idéia do “eu fiz isso e não morri”, a afirmação do “meu filho comeu isso e está bem”, ou do “eu apanhei na infância e sou grata a meus pais por isso”. A culpa virada do avesso, a culpa na sua mais perversa forma de destruição: para não culpar os outros, para não culpar a mim mesma por não ter pensado e por não ter agido até agora, eu desculpo todo mundo acreditando e querendo convencer de que é bom que seja assim. Que esse mundo do jeito que está é ótimo, que o modo como se criam as crianças é saudável e amoroso, que o que nos ofereceram e o que oferecemos a nossos filhos é o melhor possível. Contra todas as evidências, a ignorância pura e simples. Para evitar a culpa que já sentimos, um milhão de desculpas esfarrapadas. Culpa, culpa, mil desculpas.

Quanto mais pensamos que sabemos o que é certo, quanto mais acreditamos que encontramos as melhores opções, mais medo temos de falharmos. Quanto mais nos dizem que existem outras opções, mais medo temos de termos falhado. Em cada uma dessas situações, sentimos culpa.

Culpa de que? De sermos humanos? De falharmos? De errarmos? De contrariarmos nossas melhores intenções? De sermos ignorantes? Mal informados? Enganados? Culpa de desistirmos? De cansarmos? De não sermos capazes de lutarmos todas as lutas com igual empenho? Culpa de não darmos conta? De precisarmos facilitar por vezes nossos caminhos e nossos cotidianos?

Em nome dessa tal culpa, penso que estamos nos martirizando demais com aquilo que é impossível, na busca de uma maternidade perfeita que não existe e que ninguém vive. E acabamos paralisadas, com dificuldades para decidir, para agir, como se cada passo tivesse que ser milimetricamente calculado. Ou então agimos o tempo todo tentando reparar alguma culpa, tentando consertar um erro que nem sabemos o que foi. Nos sacrificamos para suplantar uma falta que acreditamos que poderia ter sido evitada. Será que essa mãe que queremos tanto ser não acaba soterrando a mãe que poderíamos ser numa avalanche de exigências e de culpas?

 

Amamentando

Nem sei quantas vezes já escrevi sobre amamentação. Porque acho importante. Para o bebê e para a mãe. Porque gosto de amamentar. Ou melhor. Gostei muito. Depois desgostei. Agora gostei de novo. Mas pode acontecer que desgoste, vai saber…

No começo, não tinha nada pensado a respeito. Lia apenas uma coisa aqui, outra ali e concluía que era importante amamentar. Minha filha nasceu e assim foi. Não sem percalços.

Com ela pude constatar que de tudo aquilo que falam que ajuda a amamentação, o item mais essencial é o APOIO. Sem uma rede de apoio, amamentar um bebê se torna uma das tarefas mais penosas e estressantes que existem. E, infelizmente, apoio é o item mais escasso quando o assunto é amamentação. Temos informação, mas onde está o apoio cotidiano das pessoas que nos circundam: pai, avós, amigos, médicos, equipe de saúde?

O primeiro mês de vida da minha filha foi muito difícil no que diz respeito à amamentação. Informações desencontradas, gente dizendo para fazer intervalo de três horas, gente dizendo para dar quinze minutos cada peito, gente dizendo para anotar o horário e tempo de cada mamada, gente dizendo para pesar a bebê todo dia para ver se ganha peso, gente dizendo que ela tinha que dormir a noite toda e, consequentemente, não chorar para mamar, gente dizendo que se ela ganhou pouco peso durante um mês tinha que complementar com mamadeira… Gente dizendo. O tempo todo. Gente é capaz de deixar uma mãe completamente maluca com seus dizeres. No final desse primeiro mês, eu estava esgotada, desesperada, sem saber o que fazer. Precisei de um mês para decidir mandar todo mundo às favas e priorizar minha filha. E foi quando parei de anotar horários, parei de me preocupar com os intervalos entre as mamadas, parei de buscar saber o peso dela, adotei os melhores modos de amamentar, de descansar, as posições que funcionavam para a gente, os jeitos que davam certo para nós. Ela ganhou peso, cresceu, ficou forte e saudável. E nós ficamos nessa durante um ano e oito meses.

A cada mudança, como na época da introdução alimentar, por exemplo, havia um novo confronto com estereótipos, um novo período em que a coisa desandava e em que eu tinha que voltar a me conectar com minha filha ao invés de ficar pressionada pela enorme lista de obrigações e de jeitos de fazer que vêm junto com cada acontecimento da vida de um ser humano. Começou a comer? Quem disse que começar a colocar outros alimentos na boca significa comer? A criança come a primeira frutinha, legume, papinha ou o que seja e já vem aquela pressão para que coma uma pratada de adulto. E que pare de mamar ou diminua drasticamente, lógico. Come outras coisas? Para de mamar. Tem dentes? Para de mamar. Anda? Para de mamar. Fala? Para de mamar. A verdade cruel e perversa de nossa sociedade é que todo mundo está o tempo todo querendo desmamar as crianças. Pois mamar é sinal de dependência. E dependência é algo ruim e doentio. E o vínculo entre mãe e bebê escancarado assim na cara das pessoas é uma ofensa. Não pode existir vínculo. Nem dependência. Nem amor. Tudo parece concebido para que tenhamos filhos e os abandonemos o mais rápido possível nas mãos dos especialistas. Ai daquela que ousar querer criar o próprio filho.

Um ano e oito meses depois, a pequena mamava durante o dia. De noite já não mais, pois eu cheguei em um ponto em que me sentia exausta em acordar durante à noite, em dormir picado por tanto tempo. Meu corpo já não dava mais conta e meu humor dava mostras de impaciência e intolerância. Foi difícil decidir parar as mamadas noturnas, porque me parecia algo unilateral. E eu pensava que tinha que partir da criança essa mudança de ritmo. Ou ser, no mínimo um acordo. Nada feito. Fui eu mesma quem cheguei num limite e tive que estabelecer um, explicando a ela da melhor maneira que pude, acatando os protestos, choros e reclamações legítimos. Passou.

As mamadas diurnas por vezes eram frequentes, noutras mais espaçadas. Algumas vezes eram trocadas por outras coisas, quando dava para imaginar o que aquela mamada queria dizer. Está com fome, quer uma fruta? Está com sono, vamos tirar uma soneca? Está entediada, vamos brincar juntas? Muitas vezes ela topava essa alternativa que ia de encontro ao que queria e precisava. Noutras não, era a mamada mesmo e tudo bem.

Mas um ano e oito meses depois fiquei grávida novamente. E amamentar se tornou algo insuportável. Eu havia lido a respeito, sabia que isso acontece com algumas mulheres, que ficam com muita dor nos seios com a nova gravidez e criam uma repulsa pela amamentação. Li sobre isso mas nem liguei, minha cabeça já idealizando uma amamentação em tandem, que é quando a mãe amamenta a criança e o recém nascido. Nunca tinha imaginado fazer isso também, mas me pareceu uma evidência, com duas gravidezes tão próximas e tão determinada a fazer um desmame no ritmo da minha filha. Hehehe, meu corpo tinha outros planos.

Estou convencida de que, quando se escreve sobre as dificuldades que uma mulher pode enfrentar em relação ao parto e à amamentação, as pessoas ignoram sistematicamente as dificuldades psicológicas. Como se aquilo que atravessa nossas entranhas psíquicas fosse algo contornável, algo menor. Se você tem um impedimento físico para ter um parto normal ou para amamentar, ok. Mas e se o impedimento for psíquico? O que fazer disso?

Uma nova gravidez pode criar esse impedimento psíquico, essa barreira intransponível que só aquilo que vem da mente da gente é capaz de fazer. Aquele bloqueio que parece que você poderia resolver com um simples ato de vontade, mas que se rebela, impassível, cada vez que você tenta negociar com ele.

Eu li, reli, participei dos fóruns de discussão. Eu tentei, esperei para ver se passava, negociei comigo, negociei com ela. Reduzi as mamadas para apenas 3 vezes ao dia, tentava me convencer de que logo tudo estaria bem e seria lindo amamentar novamente. Não colou. Não era minha filha, não era nada do que ela fazia, nada havia mudado. Mas algo havia mudado em mim e eu simplesmente não conseguia amamentar. Começava, doía demais, isso me deixava num estado de irritação furiosa, tinha que interromper, ela não entendia, ficava magoada, chorava, eu me sentia péssima… uma bola de neve.

Uma hora me dei conta de que isso estava transformando uma experiência que sempre foi linda e prazerosa para nós duas em um pesadelo. E comecei a temer que minha filha ficasse com essa lembrança em mente, essa lembrança do pior momento. E que isso botasse a perder toda a beleza, o acolhimento, o carinho, a doçura do que tinha sido mamar até então. Era hora de parar. E a adulta sou eu. E o motivo era meu. Então era eu quem ia ter que fazer isso, e não esperar que ela desistisse, que cansasse, que deixasse para lá, para dividir comigo o peso dessa responsabilidade. Ou da culpa. Ou da frustração.

Uma amiga querida me disse algo que me deu força o suficiente para assumir minha decisão: amamentar, quando está ruim para uma das duas pessoas envolvidas, é porque não está funcionando para as duas. Que exemplo eu estaria dando à minha filha sobre respeitar a si mesma se eu não estava respeitando meu próprio limite? Como ela veria isso, essa mãe que tentava deixar de lado a si mesma para agradá-la, para contentá-la, para satisfazê-la? Será que com isso ela aprenderia que ela é tão importante que eu me dispunha a me sacrificar para que ela mamasse (outro clichê, aquela de que maternidade é sacrifício) ou será que aprenderia que aquilo que a gente sente e vive não conta frente ao que temos que fazer para o outro?

Expliquei para minha filha muitas vezes por que não iria amamentá-la mais. Peguei no colo, abracei, consolei. Aos poucos ela foi experimentando outro jeito de ser consolada, outros modos de receber afeto, outros cuidados, outros gestos de afeição. Passou. Passamos. Dentro de mim guardava um temor e uma esperança: o temor de que ela, quando me visse amamentar o seu irmão, pensasse que eu deixei de amamentá-la para amamentá-lo e visse isso como uma troca, um abandono. A esperança de que quando ele nascesse e começasse a mamar, que ela teria vontade de mamar também e retomaria. E daí só pararia quando decidisse. Ah, como nossa mente e nosso coração buscam reparar as feridas, né? As nossas ou as deles?

Nasceu o segundinho e, contrariamente ao que foi o primeiro mês de minha pequena, com ele nem perdi tempo em escutar quem quer que seja. Não deixei ninguém falar e quem tentou comentar qualquer coisa sobre amamentação ao meu lado ouviu respostas atravessadas e logo sossegou o facho. Muito melhor assim. Se não há apoio o suficiente, ao menos aprender a se blindar das pessoas e de seus comentários destrutivos ajuda um bocado. Nada de ouvir por educação. Nada de perder tempo com conversas inúteis que a gente já sabe onde vão parar. Uma das vantagens de ter um segundo filho é que a gente aprendeu alguma coisa com o primeiro e pode, se tiver força e coragem o bastante, usar desse aprendizado para se poupar uma série de situações dolorosas. É o que tenho feito.

Segundinho mama como se não houvesse amanhã. Como sua irmã, mas de um jeito mais estabanado, mais esfomeado, menos zen. Cada amamentação é uma, cada filho é tão diferente do outro, mesmo sendo um bebezinho que acaba de nascer. Ele gosta de mamar e eu voltei a gostar de amamentar tão logo ele nasceu e mamou. Mágica dos hormônios, mistérios das entranhas da gente.

A pequena olhou, fez que não viu, mas uma hora teve que ver. Quis mamar, tentou algumas vezes, mas não sabe mais. Ou não quis saber. Aquele saber do corpo, da boca, dos músculos… aquilo tudo se foi, virou alguma outra coisa. Fiquei triste. Talvez ela também. Ou talvez estivesse fazendo isso apenas para me agradar, vai saber… Claro, ela ficou com ciúmes de ver o pequeno mamando. E se jogou em cima da gente, e ficou pedindo colo e precisando de toda a atenção do mundo justamente nessa hora do casulo entre a mamãe e o filhote que mama. Ela sabe do que se trata, também quer isso para ela. E não para ele.

Crianças não são ciumentas e invejosas. Crianças reagem àquilo que esperamos delas. Eu esperava seu ciúmes e sua vontade de voltar a mamar. Ela tentou me presentear com os dois. Mas isso sou eu, não ela. E filho não está nesse mundo para atender nossas necessidades e expectativas, né? Então minha pequena dá de mamar a todas as suas bonecas. Noutro dia, deu um beijo no meu peito e meio que se despediu. E logo foi fazer outras coisas. Outras coisas incríveis que ela tem conquistado fazer desde então, como falar, cantar, danças. E pular em poças de água. Ela pede colo sim. E quer dengo, chamego e atenção. E fica zangada com o irmão. Que é pequeno, chora, não fala, não anda e faz muito xixi e cocô. Minha pequena ficou grande. Uma grande pequena.

Quanto ao pequeno, seguimos amamentando. Ele tem aquele olhar, faz boca de peixinho, barulhinhos enquanto mama e todo aquele combo que derrete qualquer coração e faz tudo valer à pena. Gosto muito de amamentar meu filho. Como já gostei demais de amamentar minha filha. E depois desgostei. E depois gostei de novo. Amamentar é coisa de dois. É coisa entre dois. E a gente deveria ter mais liberdade de viver a amamentação com todos os seus altos e baixos, com suas idas e vindas, com suas superações e seus limites. Sem tanta regra, sem tanta obrigação. Apenas aquilo que fazemos porque faz sentido.

Morar fora

Feliz ano novo, meus queridos!

E aí? Já estão de malas prontas para deixar o Brasil que não começou 2016 tão diferente do que terminou 2015?

Decidi começar o ano por um post daquela série “maternidade na gringa“. Porque sempre me perguntam como é viver for do Brasil. Mais do que como é ser mãe fora do país, as pessoas parece que querem saber como é viver o “sonho de morar fora”. Então, aí vai. Vocês que pediram, hein?

Em uma época de tantas crises e decepções no Brasil, o que mais ouço são amigos e conhecidos dizendo que vão embora do país. Se em 2009, a cada vez que escutava essa intenção me prontificava imediatamente a ajudar a pessoa com mil dicas e encorajamentos, hoje apenas me limito a sorrir.

Morar fora – ou dizer que vai fazê-lo – é ter o conforto de poder contar sempre com um plano B. É a carta na manga, a insolência de poder dizer: “ah é? Então não brinco mais!”, pegar a bola do jogo e virar as costas. É manter sempre uma porta de saída imaginária no fundo da cabeça da gente, para acreditarmos que basta um estalar de dedos e podemos nos materializar numa realidade outra em que tudo seja melhor, mais bonito e mais feliz.

A verdade? A maioria esmagadora das pessoas que passam boa parte do tempo dizendo que vão embora do Brasil não vão fazê-lo. E isso pelos mais variados motivos. Motivos práticos, motivos econômicos, motivos afetivos e, principalmente, pelo simples motivo de que ir embora do seu país e reconstruir sua vida num outro lugar é para bem poucos. E aqui não há nem um cheiro de esnobismo, como se o mundo se dividisse entre os fortes, aqueles que vão embora, e os covardes, aqueles que ficam. Até porque poderíamos adjetivar justamente da maneira contrária: fortes são os que ficam, covardes os que vão. Não, não se trata de um julgamento de quem é melhor, nem de se é melhor ir ou ficar. Trata-se de uma constatação feita a duras e dolorosas penas de que, para deixar o seu país e, principalmente, para se instalar em um outro lugar, é necessário ter uma certa condição. Psíquica. Em outras palavras: é preciso ter estômago, muita determinação e nervos de aço.

Então como é morar fora? É legal? É demais? É melhor do que aqui?

Todas as pessoas que conheço que vieram morar na França endureceram. É bem estranho encontrar outros brasileiros porque todos – ou todas – qualquer que seja sua história e os motivos e meios que os trouxeram até aqui, são num primeiro contato pessoas mais duras, desconfiadas e fechadas do que os primeiros encontros que sempre tive no Brasil. Ok, o sorriso trai a brasilidade. Mas não se  engane: os brasileiros que conheço por aqui são bem mais sérios que os de lá. Durões. Circunspectos. A ponto de escutarem comentários a cada vez que visitam nosso país de origem do quanto se tornaram esnobes. Não nos tornamos esnobes. Nem tampouco franceses. Endurecemos. Criamos casca e carapaça. Como todas as outras, não consegui fugir à regra e endureci igual minhas amigas. Acabei desenvolvendo a teoria de que morar fora endurece a gente.

Não, não é isso que você escuta ou lê quando aparecem aqueles relatos lindos na internet de como morar um ano fora mudou a cabeça da pessoa, abriu os olhos, libertou, criou novas perspectivas e tudo o mais que parece tão revolucionário que faz te sentir menor apenas pelo fato de ainda não ter feito as malas e largado tudo para passear mundo afora. E ficam os sites estilo matadorhypeness e sei lá mais quais publicando listas e listas das dez razões pelas quais você precisa morar fora, ou das dez coisas que aprendi quando larguei tudo e fui morar no X (preencha aqui com o nome da sua cudade-sonho-de-consumo), grandes responsáveis por te fazer se sentir um lixo. E ficam os seus amigos que moram fora do país postando fotos da escapada de final de semana em Barcelona, ou da balada em Berlim, ou do verão numa ilha grega paradisíaca de mar azul turquesa e que te fazem passar por um bobalhão tirando férias em Ubatuba. E ainda têm os reaças de plantão ameaçando mudar para Miami a cada vez que algum acontecimento político os desagrada. Não, morar em qualquer outro lugar é sonho de consumo, é ideal, é bem melhor do que aqui, é bom demais, não? Pois é, meu caro ou minha cara, desculpa ser eu a te contar isso mas, a coisa, na verdade, não é bem assim. Ou não é apenas isso.

Quem coloca a mochila nas costas e passa um ano fora, faz um sabático, um doutorado sanduíche, um curso de línguas ou o que quer que sirva de pretexto para um período fora do país dificilmente ultrapassa a superfície em que tudo pode ser encantador, surpreendente e promotor de descobertas e mudanças. E esse encantamento pode mesmo acontecer, quando a pessoa que chega se abre para o desconhecido, se redescobre outra em novos itinerários, noutra cultura, noutros costumes, noutra língua. Que bom que é assim! Que bom poder viver isso! Mas experimente ficar um pouco mais de tempo e viver uma vida mais banal e você vai perceber que o glamour da vida na gringa não é nada glamouroso não.

Chegar e se instalar noutro país mexe demais com qualquer um. Tem gente que se vicia nessa sensação de se reinventar e nunca mais quer ter raízes em lugar nenhum. É a euforia da novidade: quem, por exemplo, não imagina que seja um imenso prazer morar em Paris e ter todos os dias aquela beleza toda ao alcance dos olhos? E poder descobrir cada cantinho, explorar cada museu, cada monumento, cada construção, cada restaurante, cada esquina, cada detalhe? Como se viver em Paris fosse o equivalente de fazer todos os dias aquilo que a gente faz durante uma semana quando vem à passeio, como turista, como se fosse turistar em Paris em férias eternas. As pessoas em geral parecem ter um sonho de Paris, um mito de Paris, um anseio de Paris como o lugar mais belo, mais chique e mais maravilhoso para se viver nesse mundo. É o sonho do turista que idealiza o lugar pelo qual passa como aquele que seria o melhor para se instalar e viver a vida. Posso dizer, com todo o amor que sinto por Paris e mesmo sem levar em consideração a ameaça terrorista que paira sobre todos indiscriminadamente desde o ano recém terminado: não é. O lugar onde a gente vive é diferente do lugar onde a gente passeia.

Experimente ter horário em Paris. Ter que correr para um compromisso sem poder olhar as maravilhas do caminho. Correr para pegar o metrô, o ônibus, o trem. Correr e perder metrô, ônibus ou trem e ter que esperar o próximo, sabendo que vai se atrasar. Correr na rua do ponto de metrô, trem, ônibus até o lugar onde vai. Correr na rua em dia de frio, debaixo de chuva e neve. Ter que botar a cara na rua em dia de frio, chuva, vento e neve porque precisa cumprir algum compromisso. Ter que pagar aluguel (caríssimo) para morar num lugar minúsculo em que não cabe nem um terço das coisas que você acumulou no Brasil. Morar num prédio sem elevador e ter que subir com malas e compras. Fazer faxina. Lavar roupa. Passar roupa. Cozinhar (quando a cozinha tem um tamanho que permite fazer algo mais do que um miojo, claro). Experimente desentupir uma privada ou limpar o sifão da pia da cozinha porque esses serviços quase não existem, não funcionam 24 horas e, quando você encontra um encanador, custa uma fábula. Experimente a fila do titre de séjour e as burocracias da previdência social e da seguridade social. Experimente preencher formulários. Ou conseguir um emprego. Experimente pagar impostos na França. Todas essas banalidades podem deixar um estrangeiro maluco, simplesmente porque ele não nasceu e cresceu ali onde as respostas para essas tarefas quotidianas não precisam ser explicadas, de tão evidente que são.

Paris é uma cidade cara, que expulsa cada vez mais para seus arredores os jovens que não conseguem morar na cidade. Existem bairros inteiros que se tornaram casas de veraneio de ricos do mundo inteiro, bairros vazios, sem vida, sem graça. Existe a Paris dos turistas, sempre lotada, tumultuada, suja, intransitável, com gente se atropelando em todas as calçadas e filas intermináveis. Existem mil lugares lindos, graciosos e interessantes nessa cidade. Mas quem vive em Paris não passa a vida passeando. E isso você descobre apenas quando mora tempo o suficiente para que o encantamento cada vez que cruza uma ponte sobre o Sena ou dá de cara com alguma de suas maravilhas se mistura aos desafios cotidianos de ser um estrangeiro nessas terras.

Não apenas Paris, mas a França como um todo endurece a gente. Ou morar fora do seu país de origem, onde quer que seja, endurece. Caleja.

Porque, não, morar em Paris, morar na França não é como turistar indefinidamente nesse país. Basta precisar de algo banal e comum para se dar conta de que a maravilha acaba onde a vida quotidiana começa.

A França é um país cheio de burocracias e preconceitos. Sim, o país das Luzes tem seu lado escuro, racista, xenófobo, cheio de piadas com estrangeiros, atos de violência contra pessoas de certos países e/ou de certas religiões, intolerâncias quotidianas contra quem não fala ou fala mal o francês, julgamentos segundo as aparências os mais diversos. Foi numa das melhores universidades francesas que ouvi, pela primeira vez, um professor universitário falar mal de uma colega, pelo simples fato dela ser mulher. E melhor sucedida intelectualmente do que ele, diga-se de passagem.

A cada vez que você precisa renovar seu titre de séjour, ou abrir uma conta em um banco, ou solicitar um papel qualquer, trocar sua carta de motorista, validar seu diploma… enfim… cada vez que você precisa fazer algo banal e quotidiano, algo que não tem nenhum glamour e não participa do mito da vida maravilhosa na França você é confrontado com a burocracia francesa, o excesso de regras, de papéis, a falta de jogo de cintura e a indisponibilidade francesa em explicar aquilo que, para eles, parece óbvio. Tem quem diga que é assim para todo mundo. Até mesmo para os franceses. Mas a essa tacanhice se soma um certo gostinho por lembrar ao estrangeiro que ele está ali por uma concessão. Quem mora fora do seu país talvez passe a vida inteira com essa sensação de que estão lhe fazendo um favor. Maneira sorrateira de subjugar o outro.

Você é alguém no seu país? Tem trabalho, profissão, diploma, pós-graduação, mil especializações? Ok, aqui nada disso vale e você vai ter que validar seu diploma, refazer seu trabalho de conclusão de curso da graduação, fazer estágio… Conheço gente que, frente a essas exigências surrealistas desistiu e ficou cuidando da casa, dos filhos, ou foi trabalhar em subemprego, mudou de área. Não sem uma boa dose de depressão e revolta. Por isso as pessoas parecem duras, frias e distantes. É porque já tomaram muito na cabeça.

Quando você é estrangeiro, nunca sabe até que ponto as dificuldades que enfrenta para dar conta das tarefas mais banais se devem à sua condição ou se é assim para todo mundo. Tem gente que fica paranóico, achando que tudo é xenofobia. Tem quem desiste de tentar. E tem quem aceite as regras do jogo e faça o que dizem que deve ser feito. Para trabalhar, para ter documentos, para ter acesso aos serviços de saúde…

Morar fora do seu país de origem te confronta a um constante desconhecimento. O lado maravilhoso disso é se redescobrir ou se reinventar em um novo cenário, com novas pessoas, em outra língua. E poder fazer diferente, melhor. Ser surpresa em cada canto, a cada dia. O lado cansativo disso é ter que reaprender a andar, a existir, a viver com outras regras, outros papéis, outros jeitos de fazer as coisas, outros códigos que só aprendemos errando, derrapando e tendo que fazer e refazer gestos os mais banais.

Tem gente que se sente muito mal frente a tanto desconhecimento e tanta diferença e se fecha logo de cara. Tem quem se vicie nessa adrenalina do novo. Em ambos os casos, essa imersão inicial de quem acaba de mudar de país, superficial porque totalmente alienada das mazelas do dia-a-dia, parece que nos coloca frente a quem somos ou poderíamos ser se pudéssemos começar tudo de novo. Tem quem goste e se jogue na experiência. Tem quem deteste e passe o tempo todo se escondendo do contato com tudo o que é desse novo país, andando apenas com brasileiros, falando português, comendo comida brasileira, lamentando não estar em casa sem, no entanto, pegar as malas e voltar. Paradoxos de ser estrangeiro que só entende quem fica tempo o suficiente para sair da posição de turista permanente.

Se você pensa realmente em mudar de país, por qualquer motivo ou projeto que seja, e se vier me pedir conselho, acho que posso resumir todo esse texto longo em algumas poucas linhas: leve em consideração que nenhum lugar nesse mundo é o melhor lugar para se viver. O melhor lugar para se viver é o lugar onde você se sente melhor, não um lugar em si. Cada país, cada cidade tem suas vantagens e desvantagens e você ser feliz em um lugar ou outro depende mais da sua disponibilidade e do que é prioridade para você do que de qualquer outra coisa. Morar na França tem inúmeras vantagens. Mas tem o terrorismo. Morar no Brasil tem inúmeras vantagens. Mas tem corrupção, violência, falta de água, retrocessos… O que é mais importante para você?

Ninguém vai facilitar sua vida em um outro país. Você é quem foi, você é quem quis. Então, cabe a você se adaptar e não exigir que sejam eles que se adaptem. Claro que cabe exigir tolerância e abertura ao outro, o contrário da xenofobia. Mas querer que os franceses sejam sorridentes como a gente, que os serviços sejam rápidos e eficazes, que tenha pão de queijo e misto quente na padaria e mais um monte de coisas que são a nossa cara é ignorar que se está em um outro país. Se é para mudar de vida, mude de fato, não fique vivendo a vida velha na nova.

Agora, se é apenas para ter o conforto do plano B, tudo bem. Todo mundo precisa da ilusão de que pode fazer qualquer coisa. Lembre-se apenas, quando vier me perguntar como é viver na França, que minha resposta reclamona vai ser bem parecida com a que você daria se eu perguntasse como é viver no Brasil. Minha vida é bem parecida com a sua, não se preocupe. Mudar de país muda muita coisa e muda muito a gente. Mas não muda a vida em algo diferente do que seja viver.