O pai participativo

Acho que posso contar nos dedos de uma mão apenas os pais que conheço que assumem plena e verdadeiramente a paternidade. A grande maioria defende-se ainda no mesmo lugar que nossos pais ou avós, para os quais ser pai, no melhor dos casos, era botar dinheiro / comida em casa e isso praticamente resolvia a questão. Ah, umas surras de vez em quando também podiam fazer parte do pacote, a cada vez que surgisse aquele ímpeto de educar amalgamado à disciplina que apenas um pai severo poderia aplicar nos seus filhos bestas-feras que a mãe era incapaz de controlar. Isso, no melhor dos casos, pois no pior o sujeito simplesmente se mandava – e ainda se manda – em algum momento da história como se não fosse com ele. Toma que o problema é seu. E segue com a vida. Mas há também uma outra tendência de pais que vem aumentando ultimamente, nas novas gerações, a do pai participativo. E é essa que tem me causado calafrios. E reflexões.

Pai participativo é um nome mais bonitinho para o pai que ajuda. É aquele carinha que troca uma fralda, dá uma mamadeira, dá um banho, troca uma roupinha. Levar para passear, no carrinho ou no sling, constitui-se no verdadeiro golpe de misericórdia desse tipo de pai, que arranca suspiros de admiração por onde passa, especialmente de mulheres e mães sobrecarregadas que olham e pensam: “ah, que exemplo de homem! Por que o meu traste não pode ser assim também?” Está feito o estrago: uma porção de mulheres desejosas do pai participativo e uma porção de homens pressionados a trocar ao menos uma fralda. E um bando de sujeitos que começam a vender sua imagem de pais sensacionais através da net, dos blogs, das fotos no Instagram, das postagens no Facebook.

Uma parte do segredo parece estar aí, nisso que passa desapercebido como um mero detalhe: o pai participativo é um pai público. E um pai que publica. Ele aparece na mídia na foto do pai que protege o filho da chuva em detrimento da sua própria figura molhada e atingida pelas intempéries inclementes. Ele é aplaudido por milhares de fãs quando advoga em prol de tratar sua filha como uma princesa. Ele se torna Deus quando é fotografado fazendo pele-a-pele com seu recém nascido. Qualquer uma dessas notícias e/ou imagens que tivesse no lugar do pai uma mãe não causaria – como em geral não causa – praticamente nenhum impacto. A mãe prioriza o filho em detrimento dela própria, ela advoga em prol de tratá-lo amorosamente e com respeito, ela cuida dele desde o nascimento, emprestando seu corpo, seus seios, seu calor, sua pele para acolhê-lo? Bem, isto não é mais do que sua obrigação.

Ser mãe não parece ser digno de nota até que o seja pelo seu contrário. Quando ela aborta, ou deixa a criança na portaria de um prédio de classe média alta, ou quando decide colocar na creche / na escola para voltar ao trabalho, ou quando decide deixar de trabalhar para cuidar da criança em casa… bem, aí aparecem muitas vozes para dizer que há algo errado. Já o pai não. Ele troca uma fralda, é ovacionado em praça pública e recebe o Nobel de pai do ano. Dois pesos, duas medidas, bem a cara dos nossos tempos e da nossa cultura, onde desigualdade de gênero é ainda onipresente e suscita poucas questões.

Fato é que para cada cem mulheres que falem seriamente sobre um assunto, será um homem que, dizendo o mesmo será reconhecido em sua sabedoria e apontado como o salvador da pátria. Basta ver, no meio acadêmico, em relação a qualquer tema em que existam muitas publicações e muitas reflexões feitas por mulheres, quem é que será considerado a referência no assunto. Grandes chances de que seja um homem. Quem será o professor livre docente chefe da cadeira do tema x, y ou z, a sumidade do assunto? Possivelmente, um homem. Mesmo que uma ou muitas mulheres tenham dito ou feito o mesmo antes.

Por que quando o assunto é mater / paternidade seria diferente? Criação com apego, quem são as referências? Uma série de mulheres. Mas o que “bomba na net” são as palavras de um homem.

Não estou aqui a defender um feminismo xiita no qual em nome do protagonismo feminino os homens deveriam ficar de boca fechada. Estou defendendo, tão somente, que aquilo que a maior parte desses tais pais participativos parece ter descoberto como a invenção da pólvora e que agora ficam bradando aos sete ventos como se fosse uma enormidade são apenas um básico, o mínimo, nada mais do que a obrigação. E que fica meio ridículo ficar se vangloriando por fazer o mínimo necessário por um filho. Ou não?

O pai participativo só pode existir e sair bem na foto porque, ao lado dele, na grande maioria dos casos, existe uma mãe sobrecarregada. Na sombra. Sem apoio. E sem nenhum reconhecimento.

Os poucos homens que conheço e dos quais falava no começo desse post como sendo aqueles que assumem de fato a paternidade não são esses pais participativos que jogam para a torcida. Na realidade, são até bem discretos. Na deles. Quase constrangidos como se tivessem que se desculpar por centenas e milhares de anos de desconsideração, de desrespeito, de desleixo, de negligência de todos os seus antecessores. São homens meio constrangidos que parecem finalmente ter entendido algo que a maioria das mulheres que são mães entendem tão rápido quanto um soco na cara, assim que o bebê nasce: que nós somos o tal do “último homem”, ou o “homem de frente”. Aquele que fica ali, no front ou no jogo, naquele lugar mais exposto, de total vulnerabilidade porque de responsabilidade absoluta. Depois de você, simplesmente não há. Não há para quem passar a bola, não há quem dê o tiro de defesa. Não há quem assuma o serviço no seu lugar.

Mulheres descobrem isso bem depressa e o peso inteiro do mundo recai sobre elas assim que o bebê nasce: se você não fizer, ninguém vai fazer. Você é aquela para quem todos se voltam a cada vez que for necessário lidar com algo que ninguém mais conseguiu. Que seja fome, sono, medo, mal-estar, tristeza, expectativa, frustração… o que quer que seja, ao fim e ao cabo, todo mundo sabe que, se não der para resolver, se cansar, se apertar, se a coisa ficar complicada, leva para a mãe que ela resolve. E a primeira vez que seu filho chora e vem parar no seu colo, você sente no fundo de você mesma que é assim: eis aí o limite, eis a situação em que toda a responsabilidade por esse sujeitinho e pelo que quer que esteja acontecendo com ele recai sobre mim.

Um pai, ou a maioria dos pais, nunca sentiu isso nas suas entranhas. Ele age com a leveza de quem tem sempre a quem recorrer em último caso. E assim pode se permitir chegar em casa no final do dia e decidir cuidar ou não da cria, dependendo do seu cansaço, da sua vontade, da sua paciência ou do que está passando na TV. Quantas mães podem se dar a esse luxo? Quantas mães podem ouvir o filho chorar e virar para o lado na cama se dizendo: “ah, deixa para lá, não vou não, estou cansada” sabendo que, de um jeito ou de outro, o bebê vai parar de chorar de exaustão ou porque outra pessoa foi lá acudir?

Sim, existem pais hoje em dia que fazem um enorme esforço para encontrar um lugar e uma maneira outra de serem pais, diferente daquela que viveram enquanto filhos, diferente da figura de autoridade para a qual disciplina equivale a violência. E, nessa busca, eles muitas vezes metem os pés pelas mãos. Do mesmo jeito que nós, mães, na medida em que buscamos também criar um outro modo de maternar mais cuidadoso e respeitoso com nossos filhos, fazemos. Pais e mães erram e acertam o tempo todo nessa caminhada. Então, qual o sentido de transformar as ações bem sucedidas em espetáculo? O que é mais importante: criar um modo de ser pai e viver essa experiência com os filhos ou criar cenas bonitas para gerar comentários, likes e admirações na web? Nessa hora percebemos claramente a diferença entre os pais que assumem e os pais “participativos”: uns focam nos filhos e na família, outros focam na torcida. Pai participativo é aquele que brinca com a criança quando tem visita em casa. Ou no parquinho. Um olho na criança e outro na audiência… Pffff…

Não, isso não é um texto contra pais que têm blogs ou que publicam imagens ou textos sobre sua experiência de paternidade na web. Conheço alguns bem legais, muito bons mesmo, com textos e imagens sempre tocantes e sensíveis. Isso é um texto de reflexão sobre porque, quando vejo alguns textos ou imagens de pais com seus filhos bombando na web, sinto um incômodo grande. Uma inquietude com aquele endeusamento que se segue a essas postagens, um incômodo com os comentários, especialmente das mulheres, muitas das quais mães, uma irritação mesmo com a idéia que fica por trás desse teatro todo de que qualquer coisinha que um homem faça basta. Não, meu caro, não basta. É preciso muito mais. É preciso se colocar no lugar do homem de frente. Do último homem. Qualquer coisa a menos do que isso, ainda por cima pedindo aplauso e adulação, ao menos para mim parece cinismo, arrogância e, pior de tudo, narcisismo. Deixem disso, meus caros. Façam melhor.

O quarteto

Todo mundo diz que cada gravidez é uma e que cada parto é um parto. É verdade. Mas é aquele tipo de verdade que mesmo que você saiba, só entende mesmo na prática. Do nascimento da minha filha há dois anos e meio atrás até o nascimento do meu filho há alguns dias, um mundo de experiências, de descobertas, de alegrias e dificuldades se descortinou. Minha vida tornou-se outra, uma vida reinventada, em que a alegria de ser mãe da minha pequena, dessa minha “pequena ela mesma”, surpreendeu-me em cada mínimo detalhe do mais simples acontecimento cotidiano. Ser mãe dessa menina… que sorte, que privilégio. Poderia ter passado a vida sem ter filhos e nunca saberia o que teria perdido. E talvez isso não fosse um problema. Mas depois que ela chegou, impossível conceber a vida sem que minha menina faça parte dos planos, dos pensamentos e dos anseios. Parte fundamental, daquelas como um coração, ou um cérebro, ou um fígado. Você não vive sem.

Então, com o fim da segunda gravidez se aproximando, para minha surpresa comecei a sentir medo. Medo da mudança dessa vida tão repleta de alegrias, medo dessa “ordem” que eu sabia que iria desaparecer tão logo o rebentinho botasse a cabeça para fora do seu cafofo e começasse a respirar. Porque, sim, todo mundo diz que muda. E muda. E quem é que não vai ter medo de mudar algo que está tão bom? Quem mexe em time que está ganhando, né?

Nós mexemos e o pequenino ia ter que sair cedo ou tarde, de um jeito ou de outro. Causa, consequência. A não ser que ele decidisse ficar por ali até completar 18 anos e saísse direto para a faculdade mas, tendo em vista que eu e minha pancinha de 8 meses estávamos pedindo água, melhor que fosse logo.

Quando as contrações começaram no final da madrugada, passei um longo tempo olhando a pequena e o cara-metade que dormiam sem saber que aquela nossa vida tinha terminado. Para eles ainda era ontem, enquanto que para mim havia chegado o amanhã. Coisa estranha essa diferença de tempos. Coisa estranha colocar uma criança no mundo em tempos tão difíceis para onde quer que se olhe. Coisa estranha ficar feliz e triste ao mesmo tempo.

Quando o cara-metade acordou e me perguntou o que havia, me olhou bem e disse: “do jeito que você está calma, vai parir é hoje mesmo”. Aquela calma que invade a gente no dia do parto, quantas de nós a sentimos? Uma serenidade, um sorriso no rosto, aquela confiança de que tudo vai correr bem. Isso tudo é mais presente que o medo, a nostalgia, as preocupações. E é o que faz a gente confiar até o fim.

Como o segundo é diferente do primeiro, não tinha mala da maternidade preparada (hahaha, olha a “menas main” aí). Foi negligência ou uma vontade que durou até o finalzinho de ter o bebê ali em casa mesmo, apenas com a família, sem acompanhamento de nenhum profissional, já que isso se revelou impossível nesse canto onde moramos? Até o fim a esperança de um parto domiciliar. Para que sair de casa? Para que ir à maternidade? Para que colocar complicações em algo que pode ser tão simples? Perguntas que nunca pude responder totalmente e, sem poder ter certeza, e sem que o cara-metade bancasse junto para criar uma certeza forte e consistente, naquela madrugada decidi que na maternidade seria.

Uma das artes de parir nos nossos tempos e nas nossas condições, a meu ver, é conseguir o delicado equilíbrio entre saber e desconhecer. A partir do momento em que você decide fazer algo fora do padrão, precisa se informar. Pois são as informações que garantem aumentar suas chances de conseguir o parto humanizado que julga ser o melhor para o bebê e para você. Então, você passa o tempo todo coletando informações, aprendendo, pensando nas possibilidades, em onde ir, em como argumentar, em como fazer. Todo um trabalho cotidiano do que as pessoas chamam hoje em dia de “emponderamento”, que significa tomar decisões consciente do que está implicado nelas.

Mas, ao mesmo tempo, parir implica em se deixar levar por outra coisa em si que não o pensamento. Não é o que sabemos que faz o parto, não é o raciocínio, não é o que controlamos. É o que acontece ali, na brecha do que sabemos, na forma de uma ação que nos escapa. Ou seja, é preciso saber para poder parir e é preciso esquecer ou desconhecer para poder parir. Como é que faz, né?

Enquanto a noite ainda deixava tudo escuro lá fora e o silêncio das respirações dos sonolentos ali de casa faziam barulho de fundo, teve mala feita, teve banho, teve até café da manhã. E mais um longo cochilo. Até que o dia clareou e a pequena acordou. “Hoje é o dia em que seu irmão vai sair da barriga”. Lá foi ela para a casa da melhor amiga comendo um pãozinho. Lá fomos para a maternidade.

Domingão, dia de plantão. Não era o meu médico quem estava de guarda nesse dia, alguém que escolhi com muito cuidado porque aqui onde estamos são os obstetras que aparecem no final do parto, para o expulsivo apenas, enquanto as sage-femmes fazem todo o acompanhamento. Escolhi um sujeito bastante flexível e ao longo do pré-natal fui contando para ele em doses homeopáticas como gostaria que as coisas fossem no dia D. Ele pareceu aberto e disposto a deixar bebê e eu tranquilos, o que já é bastante coisa. O médico de plantão era, como disse gentilmente a enfermeira obstétrica que nos recebeu, “o oposto do Dr. Gente Boa”. Jeito suave de dizer que era o plantão de um obstetra que adora ser ator principal do parto alheio, adora romper bolsa, dar ocitocina sintética para acelerar trabalho de parto que corre bem, fazer fórceps… Eu fiquei tensa, com medo desse sujeito surgir na sala de parto e de eu ter que ter forças de brigar com ele, de dizer não. Conclusão: essa preocupação ficou ali junto com as informações e os saberes como um ruído de fundo que me acompanhou praticamente ao longo do parto inteiro, dificultando essa entrega para o desconhecido tão necessária.

sage-femme, pelo contrário, foi o anjo da guarda que caiu do céu para cuidar da gente. Um misto de enfermeira obstétrica comme il faut com doula por intuição, ela entendeu rapidamente e muito bem como queríamos viver esse parto e nos deu o que precisávamos: tomou para si a responsabilidade de não avisar o plantonista até depois do parto terminado, deixou-nos em paz, tranquilos, na sala de parto natural, sem luz hospitalar, com banheira, bola e copo d’água, sem monitoramento, sem nenhuma intervenção. Passou para nos ver duas vezes e depois voltou apenas quando chamamos… ah, a sorte dá uma mãozinha às vezes, não?

Dentro da barriga, o pequeno trabalhou como um valente. Descendo pouquinho a pouquinho a cada contração, lá foi ele se aproximando da hora de nos encontrarmos. Sem saber, sem conhecer, vivendo tudo pela primeira vez. Essa coisa incrível da primeira vez de tudo… como são corajosos os bebês que se lançam nessa de nascer sem terem lido um calhau de referências bibliográficas antes.

Respirar, abrir-se, deixar o bebê descer, deixar acontecer. Banheira, água quente, respiração… eis a magia de um parto sem anestesia e com dor no limite do suportável. Ou a magia do que funcionou nas duas vezes para mim. Isso e o milagre da posição deitada de lado…

Deitada de lado, quem diria que essa seria uma posição maravilhosa para fazer o bebê descer e nascer? Como a bolsa não rompeu até o último minuto, o pequeno desceu aos pouquinhos, bem malemolente, ao contrário da irmã com quem a bolsa rompeu de cara e ela logo desceu para apoiar a cabeça direto no meu colo. O pequeno não, ele veio na maciota, as contrações mais leves, o trabalho mais longo… Tudo diferente, assim eu não sabia parir.

É engraçado como a gente sempre precisa se apoiar em alguma coisa para brigar um pouco contra o desconhecido. Se não é nos saberes e nas informações, é no que viveu. A bolsa não rompeu, há que se confiar às contrações. Bebê desce aos poucos? Há que se confiar às contrações. E se abrir.

Sim, cada parto é um confronto entre você e seus próprios demônios. O bebê e você. E seus fantasmas. Do parto anterior, dos ideais, dos saberes…

Eu respirava, basculava a bacia e me abria. E pensava que o médico poderia chegar e querer usar um fórceps e tinha medo e me fechava. O pequeno descendo e eu no abre e fecha. Vem pra vida, meu filho, não vem não. Quem bota um filho num mundo desses?

Lá pelos 8 de dilatação as contrações mudam. O pequeno está ali embaixo, apoiado na bolsa que apóia no meu colo. Chamamos a sage-femme, ela sugere que eu sente no balão para ajudá-lo a descer. Cadê essa bolsa que não estoura? Estoura, explode, medo vai, medo vem, chega aquele momento do qual todo mundo fala, mas que a gente só entende quando vive. E depois esquece para lembrar no parto seguinte. Cansei, quero desistir, tira esse menino daí, quem teve a brilhante idéia de não querer anestesia, quero dormir, tô cansada, só quero que isso acabe, não chega não, seu plantonista, cara-metade, me faz um cafuné aqui, tô cansada, esse menino não vem não, chama o plantonista, por favor, tô delegando, lavo minhas mãos, quero nem saber… Tudo isso dentro da cabeça, por fora eu parecia a expressão mais perfeita da calma, da beatitude e da respiração profunda.

sage-femme anjo vem novamente e sugere um segundo milagre, deitar de lado sobre o lado esquerdo e respirar. Eu, querendo tirar um cochilo, topo experimentar. Deito de lado, três contrações no máximo e… tchibum… lá se vai a bolsa e, com ela, todos os medos, freios e afins.

Como é libertador berrar o filho que nasce. É o fundo mais profundo de quem você é, suas entranhas, sua vida. A vida que renasce e recomeça.

Ele nasce direto para os meus braços. Ele grita. Ele é… lindo. Aquele amor que inunda as narinas do cheiro do seu rebento, aquele que agora parece que sempre esteve ali. Aquele que você acaba de conhecer. Ele procura o peito e já começa a testar aquele delicioso encontro tão apaziguante de cheiros, de pele, de boca e peito, de calores, de leite. Tudo pela primeira vez.

Médico chegou depois que até mesmo a placenta já tinha saído. Quis reclamar com a sage-femme que deu uma resposta atravessada para ele. Como adoro essa capacidade tão francesa de responder à altura e sem subserviência…

8 horas de trabalho de parto. 5 para a minha pequena. Não é tanta diferença assim, mas o tempo é tão elástico, não? Ele se dobra e se desdobra com nossos sentimentos, nossos medos, nossos anseios, nossos freios e nossas aberturas. Um tempo tão diferente, um parto tão diferente. Mas igualmente maravilhoso. E igualmente desconhecido. E assustador. E maravilhoso. E maravilhoso. E maravilhoso.

Foi assim que a vida que parece valer tão pouco em nossos dias recomeçou aqui em casa. Provando que o amor e a vida persistem, insistem, existem. Há que se lutar por um mundo que faça jus a essa vida e a receba com generosidade, cuidado, carinho e respeito. Há que se lutar por que essas vidas façam jus a um mundo melhor e participem da criação dele. Muitas lutas ainda por vir, numa vida que esses dois pequenos fazem valer à pena.

O trio virou quarteto. Bem vindo, filho!

 

O dia em que fiquei com raiva do Freud por ele ter razão

Aqui, o segundo atentado em Paris em um mesmo ano mata mais de 120 pessoas e fere mais de 250. O 2015 que começou com Charlie Hebdo e os reféns do supermercado kasher termina com um tipo de terrorismo em que o alvo é qualquer um em qualquer lugar. Não importa mais mirar em mensagens que vão contra nossa ideologia ou em grupos-alvo historicamente visados. O que importa é semear a certeza de que ninguém está seguro em lugar nenhum. Nem na mesa de um restaurante, nem no terraço de um café, nem em um show de rock num clube de uma grande cidade, nem em um estádio… Você pode até mesmo estar na bela, romântica e glamourosa Paris e receber um tiro gratuito no meio das ventas. Mundo, estranho vasto mundo imundo.

Aí, um pseudo-acidente faz romper uma barragem de uma grande mineradora e cidades são invadidas por uma lama podre, envenenada, que leva gente, bicho e natureza embora. Um rio morre para sempre. Tudo e todos que dependem desse rio morrem ou estão condenados. Lama podre e envenenada, a imagem perfeita de um país inteiro que vira as costas rapidamente e volta seu olhar para cá, para a nossa “elegante” desgraça.

Aqui, três horas depois do início do massacre, um presidente fala na televisão para todos os cidadãos. Quatro horas depois do massacre, ele e seus principais ministros estão no local mais atingido. Jogo de cena. Mas a imagem é fundamental nessa hora, para dar ao menos a ilusão de que não se está sozinho.

Aí, uma semana depois da catástrofe, uma presidente nem ao menos visitou o local do crime. Os donos da empresa divulgam notas. Cada qual culpa um outro pelo acontecido. Multas vergonhosamente insignificantes serão pagas naquele que é reconhecido como o Fukushima brasileiro em termos de gravidade. Toda uma área é impedida de acesso até mesmo pelo poder público. Ninguém sabe nada. Ninguém sabe da gravidade do acidente. Ninguém sabe o que ele acarreta. Ninguém tem água para beber. A água podre virou cimento em vários cantos, a muitos quilômetros de distância. Ninguém está nem aí. Palavras que significam mais do que querem dizer falam em “acidente”, “fatalidade”. Contra o acaso, quem senão Deus pode algo, não?

O que me parece que os franceses estão descobrindo de maneira contundente, ou o que estão sendo obrigados a recordar e que nós, aí, já sabemos há tanto tempo de maneira inequívoca, é que a vida não vale absolutamente nada nesse mundo que criamos. Ou melhor, nós sabemos não. Pois nós, a elite, pensávamos há até bem pouco tempo que éramos tão intocáveis quanto os franceses nos cafés de Paris. E estamos levando  porrada da vida quase ao mesmo tempo que nossos modelos de vida e de civilidade, os franceses. A vida que não valia nada era essa de 90% da população: os índios, os negros, os pobres, as mulheres, os homossexuais, os loucos… Mas até então, quem se importava? Eles que se fodessem, como sempre ocorreu, desde que escolhemos como mito de fundação a falácia de um país descoberto há 500 anos.

Aí, praticamente em todo canto não cercado de arame, vigias, guaritas, alarmes, câmeras e vidros blindados, a vida já não vale nada há umas boas centenas de anos. As pessoas protestam contra o aumento das passagens de ônibus? Bota a polícia na rua. As pessoas se insurgem contra os gastos astronômicos e fraudulentos de um campeonato de futebol? Manda a polícia arrebentar. Mas longe dos estádios e das câmeras. Que o Brasil é o país da alegria e do carnaval. Os alunos de escolas que ameaçam serem fechadas por uma pretensa reforma do ensino ocupam essas escolas em protesto? Manda a polícia para a porta das escolas. Reintegração de posse.

A quem pertence o poder? É isso que está em jogo, não? Em uma São Paulo sem água em que governador recebe prêmio por gestão hídrica, o que está em jogo é claro: em nome da segurança-pública, vamos bater até dobrar. Todos vocês. Se tivéssemos um mínimo de memória, lembraríamos com certeza de como os militares dobraram seus opositores, de como os colonizadores dobraram seus escravos, de como os “descobridores” dobraram os índios. Não, não é necessário lembrar nada. Aprendemos com todos esses que nos antecederam a fazer o que têm que ser feito para dobrar o inimigo. Aprendemos a sermos o pior.

Aí, o estado laico tornou-se uma licença-poética. Legislam sobre o corpo da mulher como sempre o fizeram, mas de maneira ainda mais crua, cruel e abjeta, pois nosso tempo assim o permite: o estupro tem que ser provado pela vítima. Assistimos às manifestações explícitas de incentivo à pedofilia em cadeia nacional e ainda tem quem ache graça. O primeiro assédio da devastadora maioria das mulheres brasileiras posto a nu em plena web escancara o nosso descaso com aquelas vidas que nunca valeram nada mesmo, aquelas que deixam de valer primeiro, as primeiras a serem sacrificadas: mulheres e crianças. Alguns debocham, outros desdenham o feminismo, outros ainda mais perversos respondem com um meaculpa hipócrita, ao invés de irem para a cadeia. O racismo antes e sempre escondido atrás da imagem do país de todas as raças, de todas as cores, de todas as crenças cai por terra. Pessoas se permitem insultos racistas em plena luz do dia, sob a proteção da tela de um computador que as faz crer serem inatingíveis. A tecnologia autorizou o monstro dentro de nós a mostrar todos os seus dentes, todas as suas garras, todo o seu horror, toda a sua agressividade, todo o seu ódio, ódio, ódio, ódio. Contra tudo e contra todos. O que incomodar, a gente extirpa da face da terra. Pessoas se permitem apedrejar alguém de outra religião em nome do seu deus. Pessoas se permitem linchamentos. Pessoas se permitem acreditar que tudo será melhor quando crianças forem para a cadeia. E quando o governo cair. E quando o dólar baixar. Pessoas em algum lugar devem rir da nossa cara.

Aqui, ninguém ri de mais nada há um bom tempo. O país do pensamento, da abertura, das luzes foi engolido por uma espessa treva, consequência direta de seus atos, de sua política externa, de sua arrogância frente ao outro, de sua incapacidade de integrar, de sua resistência a se colocar em questão, do seu medo em se posicionar criticamente, de sua covardia em seguir a maré, navegar a onda do que dizem os bancos, o dinheiro, os grandes interesses de mercado e as grandes indústrias do medo e da guerra. Esses sim, os verdadeiros donos do poder. Ninguém ri de mais nada nessa guinada cada vez mais clara à direita, ao conservadorismo, ao estrangeiro como inimigo, ao outro como bode expiatório inevitável. É isso ou perder o poder. E ninguém quer perder poder nenhum, nem sair do conforto desse lugar tão conhecido onde estão há décadas ou séculos: França, país da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do droit de l’homme, da defesa dos direitos humanos. Da defesa do humano no homem. Será mesmo?

Aqui, as guerras criadas nesse mundo em que vivemos e que servem apenas a uns poucos, especialmente a europeus e americanos, finalmente apresentam a conta: pessoas percebem que é mais seguro entrar numa “barca furada” e atravessar um oceano de desespero com família, mulher e filhos do que ficar onde estão. Quem nesse mundo pode chegar a apostar que uma travessia em um barco lotado é melhor do que sua própria casa? O horror, o horror traduzido em gente, em corpos, em crianças mortas na praia. O pior do humano chega no velho mundo com uma fatura alta para cobrar: o preço é impagável.

Aí, fazemos de conta que a conta não existe. Rimos da conta, debochamos da conta. Sem lei que somos, assumimos que a conta não é nossa e seguimos com a vida que nada vale, em que nenhuma violência mais tem peso o suficiente para criar o horror e fazer gritarem as pessoas. Um urro de desespero, de indignação. Uma tentativa de mudança. Seguimos anestesiados nesse “deixa disso” eterno, nessa tentativa de conciliação pelas aparências. Somos os experts da indiferença. E da covardia. Ninguém quer pagar o preço da conta.

Aqui, não dá para fazer de conta que a conta não existe. Um certo pudor, um certo constrangimento, um certo lastro de uma vergonha na cara tão necessária ao humano ainda parece existir. As fronteiras se abrem. Os refugiados entram. Jogo lindo entre abrir-se ao outro e o discurso do medo do outro, da ameaça do outro. Jogo lindo que dura pouco. Bombas explodem fora do estádio onde o jogo acontece. Amistoso França e Alemanha. Para quem gosta do poder simbólico das imagens…

Quem atira de metralhadora em pessoas no terraço de um restaurante? Quem atira em pessoas em um lugar fechado, no meio de um show de música? Quem manda a polícia para cima dos seus cidadãos, para cima de suas crianças? Quem torna a vida tão inviável que faz ser melhor partir morrer noutro lugar? Quem joga de maneira inconsequente a culpa no outro? Quem mascara negligência em acidentes, negócios milionários em guerras, fanatismo religioso em projeto de lei?

No final da vida, Freud estava refugiado um Londres, para onde se mudou às pressas por conta de perseguição aos judeus que tomava proporções mais e mais perigosas lá na sua Áustria natal. Áustria fim de século, berço do pensamento mais sofisticado de toda a Europa e do mundo ocidental por consequência. A língua alemã que falava com orgulho e defendia com convicção, a língua de todo o pensamento moderno, a língua em que escreveu seu otimismo em acreditar possível curar as neuroses. Freud otimista que pensava que o homem estava às voltas com o seu desejo, com os seus conflitos e cisões por conta do desejo, por conta das intensidades que o atravessavam.

Esse Freud que, no final da vida, e por conta da própria vida, teve que reconhecer que seu otimismo, sua crença no homem, no desejo e na força civilizatória eram por demasiado condescendentes com aquilo que o humano trazia dentro de si. Freud que viu, na sua língua, nascer a possibilidade de um humano excluído da possibilidade de toda a humanidade. O horror, essa nossa experiência do horror inominável nasceu ali, nessa época e nesse otimismo de Freud e da sua geração. O melhor nos deu a conhecer o pior.

Freud escreveu o meu livro predileto, Mal-estar na civilização, nos anos 30. Um pouco antes do pior se instaurar. Mas com uma lucidez e uma dor de fundo das quais não cesso de compartilhar desde a primeira vez que o li. É como se ele baixasse os braços sem entregar os pontos realmente. Ali, no mal-estar, ele entende que o pior do homem não é o seu desejo, mas sua propensão ao pior, a deixar-se levar pelo pior, a chafurdar prazerosamente na lama do pior. O pior do homem é o que ele chama de pulsão de morte, uma espécie de tendência ao zero, ao vazio de desejo, à anulação das intensidades. Uma tendência da vida em direção à morte que nos atravessa e que, no melhor dos casos, ao invés de nos afogar rapidamente sai em direção ao outro como agressividade e destruição.

Para pagarmos o preço da vida, precisamos agir em permanência contra essa tendência de destruir ou de se autodestruir, aceitando um compromisso civilizatório no qual ninguém se autodestrói, apostando em que construir uma vida é mais desejável do que se deixar definhar e, também, em que ninguém destrói ninguém e todos inventam outros destinos para essa força bruta que pode virar qualquer coisa: literatura, ciência, trabalho, arte… O mundo civilizado seria exatamente fruto da briga entre esse escorrer para a morte e essa teimosia da vida. Mundo civilizado, construção possível, invenção do homem que poderia apostar em pagar um preço para ser o melhor. Tempos de Freud, apostas possíveis nos tempos de Freud, compromissos possíveis dos homens possíveis nos tempos de Freud.

Hoje em dia, pagar o preço da civilização seria ainda possível? Pagar o preço – e a conta – da nossa humanidade, seria algo que ainda poderíamos nos prontificar a fazer? Nesse mundo em que pessoas atiram nos seus semelhantes sem mais nenhuma justificativa além da ação pura e simples de matar, nesse mundo em que o ódio às crianças, às mulheres, aos negros, aos homossexuais, aos estrangeiros, aos que têm outras convicções religiosas pode ser bradado sem vergonha e sem constrangimento aos quatro ventos sem que nada nos delimite uma fronteira à partir da qual não se pode mais falar ou agir por se tratar de um crime… nesse mundo onde pessoas são tocadas como gado em barcos, dentro e fora de fronteiras, marcadas como gado, exiladas de sua língua, de sua vida e privadas de qualquer olhar de empatia… Será que nesse mundo existe ainda lugar para algo além do pior de cada um?

Sou psicanalista há pouco mais de 20 anos. Entre consultório e instituições, o que sempre me moveu a persistir – na vida e na profissão – foi o encontro com algumas pessoas, cada vez mais raras, que fizeram e fazem o imenso esforço cotidiano de pagar o preço da vida. São pessoas que, muitas vezes contra tudo e contra todos, contra sua própria história, contra seus pais, sua família, seu entorno, sua cultura, contra tudo o que viveram lutam e pagam – a longo de suas análises e em todas as dimensões da sua existência – o preço de apostar na vida. Essas pessoas, que parecem estar em vias de extinção, se recusam a chafurdar na lama imunda do pior que poderiam ser. Recusam-se a seguir o caminho que lhes foi traçado e a seguirem como gado para o abatedouro. Essas pessoas recusam-se a não questionar, a não pensar e a apenas reagir com o pior do ódio em que vivem e o qual legitimamente sentem, negam-se à vingança, rejeitam a resposta cruel. São pessoas de imenso valor, que me ensinam cotidianamente sobre o pouco que resta do melhor do ser humano, da sua capacidade de humanidade, de seu imenso esforço, todos os dias, para acordar e lutar contra tudo nelas mesmas até conseguir extrair dali algo de diferente.

São pessoas que me impedem de desistir do ser humano, de desistir da humanidade em mim mesma, de deixar-me levar pela impotência, pelo cansaço, pela desesperança e pela vergonha. E pelo ódio. Especialmente pelo ódio.

Poderia ser qualquer outro acontecimento. O mundo está infestado de acontecimentos terríveis. Poderia ser pelo rio Doce tanto quanto por qualquer uma das muitas mulheres que morrem assassinadas por seus maridos. Poderia ser pelo menino amarrado ao poste e linchado. Poderia ser pelos milhares de comentários que transbordam todos os dias as redes sociais: comentários contra os outros, comentários que buscam apenas chegar como uma saraivada de balas que acerte seu alvo até ele simplesmente deixar de existir. Poderiam ser muitos fatos, muitos acontecimentos, muitas demonstrações do pior do ser humano, muitos exemplos do quanto Freud estava desesperadoramente certo em nos alertar sobre nossa dificuldade em aceitarmos pagar a conta da vida.

Freud dizia, ainda nesse texto magistral, que o homem pode se entristecer com os percalços e limites impostos pela natureza ou pelo próprio corpo. Pode se entristecer, se afligir, se revoltar. Mas aceita como inevitável esses que são limites da vida. O que o homem não engole, o que ele não consegue suportar são os limites impostos pelo outro, pela necessidade de conviver e de ceder ao outro uma parcela da sua crença de que ele é o centro do mundo e que tudo deveria girar em torno daquilo que é o seu desejo. O homem não tolera os limites impostos pelo viver coletivo, ele urra de ódio por ter que renunciar a algo que se julga no direito de ter para que um outro também possa ter um pouco e, assim, todos possam ter um pouco e que ninguém fique privado da possibilidade de ter. De ter uma existência, quero dizer. Para um poder existir, todos precisam poder existir dignamente. Se isso não fica garantido por uma espécie de pacto em que todos renunciam à satisfação absoluta, então estamos no pior dos mundos, em meio ao caos e à barbárie, no lugar onde as palavras não valem mais nada, onde o cinismo impera e onde cada qual pode exercer sua própria lei perversa.

Será esse o ponto a que chegamos? Será essa a fronteira que estamos atravessando cega e negligentemente nos nossos tempos? Será que já somos, tantos de nós, outra espécie de humanos desprovidos da capacidade de humanidade? E gozando disso? Que aterradora banalidade do mal é essa que se instaurou como modo de existir em nosso tempo? Como podemos resistir?

Quem consegue ter filhos hoje em dia sem se sentir na obrigação de lutar, não apenas por eles, mas pelo mundo inteiro? Que sentido faz a maternidade em nossos tempos sem uma tomada contundente de posição?

Talvez porque tenha um bebê aqui na barriga que vai chegar em pouco tempo a esse mundo. Talvez porque tenha uma pequena aqui do meu lado que insiste em dançar, cantar e olhar a vida com um olhar de encantamento… talvez por isso tenha sido a sexta-feira 13 de ontem que fez o copo transbordar. A revolta contra esse caminhar cego do mundo me arrebenta por dentro. A vergonha pesa, pois sinto em cada atrocidade dessas o peso da minha responsabilidade. Responsabilidade em ter feito tão pouco, em não ter lutado o suficiente, em não ter oferecido resistência hercúlea a tudo o que está aí, agora, instaurado e mais difícil de combater. Responsabilidade que divido com todos que me cercam, com todos da minha espécie.

Aqui, no dia de hoje, andamos cabisbaixos de vergonha. Vergonha pelo nosso comodismo. Vergonha pela nossa fácil desistência.

E medo. Medo pelo mundo que vamos deixar aos nossos filhos. Medo pelos filhos que estamos deixando para esse mundo. Medo de não termos feito o suficiente, nem pelo mundo, nem pelos filhos. Medo porque, no mundo todo, descobrimos o que boa parte do mundo já sabia: que não estamos a salvo em lugar nenhum.

Meu cara-metade chorou hoje ao descobrir que não pode proteger nossos filhos desse mundo. Eu chorei por esse mundo tão triste, tão sombrio, tão cruel, tão injusto.

E por aí? Como vão vocês?

Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

O oitavo mês

Nunca pensei que fosse usar uma imagem dessas em um post, mas acho que vocês vão me entender e perdoar minha licença poética brega assim que terminarem a leitura.

Sabe aquele malfadado filme, o Titanic, aquele mesmo do malfadado Di Caprio e da Kate diva que fez toda uma geração chorar oceanos gelados no cinema ouvindo aquela aguda daquela Celine Dion?

Então.

Sabe aquela cena um pouco antes do navio afundar de vez em que eles vão subindo feito uns malucos, escalando objetos, madeiras, gente e tudo o mais até chegar lá no topo de um navio bizarramente vertical?

Eis o oitavo mês de gestação.

É assim. É o pega pra capar. O salve-se quem puder.

Eu aceitaria feliz uma gravidez de elefante que durasse uns dois anos se a gente pudesse pular o oitavo mês. Quem em sã consciência inventou esse oitavo mês, minha gente? Foi a natureza querendo tirar uma com a nossa cara?

Explico-me.

Você acorda um dia e se olha no espelho e a sensação que tem é que a partir daquele momento, ali, em você, naquele seu corpitcho não cabe mais nem um suspiro. Não cabe mais nada ali dentro. E ainda falta um mês! Aonde é que vai caber mais um mês de bebê crescendo nessa barriga?

Aliás, você simplesmente nem mais suspira, porque o pequeno rebento, quando sente algum espacinho extra, alonga os pés nas suas costelas e daí, colega, é uma briga de foice para ver quem vai ficar com aquele vão que se desocupou quando o ar saiu de seus pulmões. É meu! Não, é meu, meus pulmões estavam aí primeiro, espertinho, eles voltam para aí assim que forem inspirar novamente!

Andar sem pensar na cena do T-Rex do Jurassic Park? E consciente de que o T-Rex é você? Oitavo mês. Pois é, eu disse que esse post estava infame em termos de referências filmográficas. Nenhum Bergman, nenhum Tarantino, nenhum Woody Allen. Só o T-Rex e você tentando pisar leve e não acordar a casa toda nas 50 vezes em que precisar fazer pipi.

Aliás, quem inventou o oitavo mês podia ter inventado o pipi que evapora ao invés de ter que sair pelas vias urinárias, né? Uma visita ao banheiro, para cada ml. de água consumido. Mas não é para ficar hidratada? Não pode mesmo tentar fazer o camelo e estocar água numa corcova qualquer para não ter que expelir? Ah, pois é, tinha esquecido, tem o bebê na corcova, não tem espaço pra estocar nenhuma água além do líquido amniótico que o rebentinho bebe e solta ali mesmo, sem ter que levantar para ir no banheiro 50 vezes por noite. Sortudo do caramba.

E fora a água, não tem mais muito o que possa entrar no corpão. Comida? Para por onde, minha gente? Entra um biscoito, seguem-se cinco horas de azia, tudo entalado na garganta, que o bebê ainda não conseguiu alongar as pernas até ali. Você já consegue se solidarizar com todos os seres com refluxo dessa terra, já considera que há alguma lógica na bulimia e tem absoluta certeza que seu estômago está mais comprimido que o ar daquele cilindro de mergulho que sempre te juraram que dava para usar por mais de uma hora, de tanto ar que tinha ali dentro compactado.

Hormônios? Hahaha, pelo menos aqui encaixo uma referência cult. Sabe o Jack do Iluminado? Ele sairia correndo de você com o rabinho entre as pernas. Oitavo mês, don’t mess with me. Nessa hora, cara-metade que for espertinho já entendeu que melhor não contrariar, melhor não argumentar, melhor nem existir muito. E continuar comprando papel higiênico, pão para o café da manhã e biscoitos. Porque, vai que, né? Dormiu bem? Conseguiu descansar, meu amor? Cuidado, você corre um sério risco de tornar-se a próxima vítima do Jack, the ripper.

E os olhares de piedade das pessoas a cada vez que te encontram? Nossa, você está enooooorme! Faz quanto tempo que a gente não se vê? Uma semana, dez dias? Sim, dez dias de oitavo mês, seus pentelhos. Aquela expressão de temor de que você exploda ali do lado a qualquer minuto e voe bebê, placenta e todos os biscoitos que ficaram entalados e que eles precisem ajudar em algo. Valeu, gente. Valeu, mesmo. Tô me sentindo bem melhor agora.

Ah, mas é o último mês… É a reta final…

Justamente, é como naquele game maneiro em que você chega na fase bonus master plus. Você é praticamente uma mestre Jedi da gravidez, já encarou enjôo, sono, ganho de peso, mudanças hormonais, desejos estranhos, exames mil, decisões importantes, apreensões desnecessárias, comentários infames? Lide com o oitavo mês, minha cara, e depois a gente conversa. Um mês sem enxergar seus artelhos, seus pentelhos, seus joelhos e vamos ver quem não pede para sair. Você pede, mas o bebê parece não estar nem um pouco apressado para sair da sua barrigota. Putz!

A loucura da faxina? Foi no sétimo mês. Você já varreu, já limpou, já montou o berço, já decorou o quarto, já lavou as roupas, secou, passou, separou por tamanho, depois tirou tudo, mediu uma por uma porque as numerações não significam nada, arrumou de novo, preparou a mala da maternidade, sentou, pensou na vida, tricotou um gorrinho, arrumou o quarto de novo que começava a pegar poeira, lembrou de umas três ou quatro coisas que faltavam… Nada mais para fazer a não ser esperar. O médico solta aquela pérola: à partir de agora, é com ele. Pois é. Oitavo mês.

Seria uma espécie de humor negro da natureza esse tal de oitavo mês? Um mês que dura uns 365 dias de 48 horas cada um não pode ser algo normal, vai…

A publicidade e a informação

Tenho uma página do blog no Facebook, onde publico coisas que leio sobre gravidez amamentação, parto, maternidade, infância que encontro pela web e me parecem interessantes. Ontem, publiquei uma matéria que apareceu em vários veículos de comunicação sobre a regulamentação de uma lei que proíbe a propaganda de todo tipo de produtos que podem interferir na amamentação: leite em pó, mamadeiras, chupetas e afins. Em resumo, para que a lei possa ser aplicada, essa regulamentação proíbe que tais produtos sejam objeto de propaganda em qualquer tipo de meio, que sejam associados com quaisquer personagens infantis ou outras imagens que induzam o consumo, que sejam distribuídos como brindes ou que façam parte de qualquer tipo de ato promocional e que tragam a informação em suas embalagens de que podem afetar o aleitamento. Uma medida louvável, se levarmos em consideração as estatísticas vergonhosas no que diz respeito ao aleitamento materno no Brasil, onde a média de tempo que se amamenta uma criança é de 54 dias (!!!).

E qual a relação disso com esses produtos? Toda, se considerarmos que aleitamento misto, mamadeira noturna, uso de chupeta e afins podem interferir na amamentação, criando confusão de bicos e uma maior dificuldade do bebê em estabelecer a pega correta. E que isso não é nunca dito claramente pelos pediatras e outros profissionais que indicam o uso da mamadeira por qualquer motivo que seja a uma mãe, o que não dá a elas todos os elementos para que tomem uma decisão informada sobre amamentação. E, obviamente, isso aparece menos ainda nas campanhas publicitárias desses produtos que, ao contrário, insistem em divulgar idéias mentirosas, como a de que leite materno e leite em pó são a mesma coisa (dê uma olhada nessa tabela comparativa em inglês), ou que certas mamadeiras e chupetas seriam o equivalente do seio materno, ou que seriam concebidas de maneira “ergonômica”, para não prejudicar amamentação, desenvolvimento da arcada dentária e dos músculos faciais, postura e tudo o mais que sabemos que mamadeiras e chupetas prejudicam sim. Enfim, se essas publicidades prestam um desserviço em geral, apresentando idéias equivocadas como sendo verdades, imagina o estrago que elas não provocam nas mães que encontram dificuldades em amamentar?

Sabemos que o sucesso da amamentação depende muito do entorno, da rede de apoio que essa mãe e seu bebê encontram para darem conta de instaurar esse equilíbrio delicado que amamentar exige. Depende muito do apoio da família, dos amigos, dos conhecidos com seus comentários tantas vezes desastrosos. Depende imensamente também daquilo que as “figuras de autoridade” vão dizer a essa mulher que quer e busca amamentar, se saberão orientá-la corretamente ou se lhe darão informações desencontradas, erradas e que terminarão contribuindo para que ela se veja em uma bola de neve que torne o aleitamento impossível. Proibir a propaganda é incidir sobre o lado mais perverso desse mecanismo que dificulta, deturpa ou impede o aleitamento materno: o lado que vê na amamentação uma oportunidade de mercado, de lucro e de incentivo ao consumo. E apenas isso.

Uma das coisas que mais me chocou em alguns comentários que esse post recebeu na página do facebook foram algumas pessoas argumentando que essa proibição as privaria de informação sobre as alternativas ao aleitamento materno, constrangendo-as a amamentar e dificultando o acesso a esses produtos. Como se proibir publicidade fosse uma sonegação de informação e um atentado à liberdade delas de escolha.

Como assim? Tem gente que pensa seriamente que publicidade traz informação sobre alguma coisa? Tem gente que se informa através dos meios publicitários? Tem gente que decide sobre como alimentar seu filho vendo propaganda? Putz!

Sim, tem. E meu espanto é muito mais estranho do que essa constatação. É evidente que tem gente que se acredita que se informa e que toma suas decisões, mesmo as mais importantes, baseada em argumentos publicitários. Isso apenas prova o quanto a publicidade é eficaz e bem sucedida em seus objetivos. Ela consegue se fazer passar pelo que não é: um argumento de venda disfarçado de informação. Tão eficaz que as pessoas acreditam que se a publicidade dos produtos relacionados à amamentação forem proibidas, elas não terão como saber que eles existem, nem como saber de suas qualidades, de seus benefícios e de seus efeitos. E, com isso, não poderão comprá-los. Gente, isso é ou não é um exemplo gritante da perversidade desse mercado que, apoiado pela publicidade, faz mulheres acreditarem que o que eles fazem é ajudá-las de alguma maneira?

A meu ver, a questão do leite em pó é muito próxima da questão da cesariana: duas opções criadas pelo desenvolvimento tecnológico a situações de dificuldades reais que foram apropriadas por uma lógica de consumo que vende às mulheres uma idéia de que isso seria o exercício de uma escolha, além de um progresso, um avanço nas maneiras de vir ao mundo e de alimentar um bebê que trariam muito mais vantagens do que aquilo que existe desde que a espécie humana existe. No caso da cesariana, um real risco de vida para a mãe e para o bebê ligados ao parto normal e no caso da amamentação, uma real impossibilidade de alimentar o bebê. Duas opções que surgiram para resolver reais e graves problemas deturpadas por uma ambição da indústria que se construiu em torno delas de conseguir o máximo de lucro possível na medida em que elas se tornem um comércio. Comércio de partos, comércio de alimentos. Com tudo o que implica a idéia de comercializar: ganhar dinheiro com isso, por todos os meios possíveis. E sem nenhum constrangimento em falsear a verdade ou em atacar a concorrência. Porque o importante não é informar. O importante não é ajudar ninguém. O importante é ganhar todo o dinheiro possível com isso.

Amiga querida, não se preocupe. Se você está indignada por não poder mais ver a propaganda de leite em pó na televisão no intervalo do desenho animado dos seus filhos, isso não vai te impedir de comprar esse leite no supermercado da esquina. O comércio desses produtos não vai parar porque a propaganda vai parar de existir. Mas veja direito de onde é que você tirou a idéia de que esses produtos são os melhores para você e para o seu filho. Pois, se foi de uma propaganda, posso te garantir que ela não foi feita nesse intuito de te ajudar a escolher o melhor. A propaganda desses produtos, assim como qualquer propaganda do que quer que seja, não se preocupa com você. Nem comigo. Nem com ninguém. Ela apenas sabe muito bem encontrar nossos pontos fracos e nos manipular para acreditarmos exatamente nisso que você está dizendo que acredita: que elas querem seu bem e estão te dizendo como você deve fazer para tê-lo.

Se essa proibição contribuir para que menos manipulação mascarada de informação sobre a amamentação circule e que, com isso, as mulheres tenham que buscar orientação sobre o aleitamento em outro lugar, sem ser bombardeadas por um monte de imagens, brindes e frases de efeito completamente equivocadas. E se isso puder ajudar aquelas que querem amamentar a encontrarem os caminhos para isso, já terá sido um enorme passo na valorização e na viabilização do aleitamento materno.

  • Em tempo: na discussão no facebook uma pessoa colocou um problema bastante pertinente em relação a essa lei, que dificultaria o acesso à informação sobre esses mesmos produtos, especialmente no que diz respeito ao leite em pó, o que acabaria prejudicando as mulheres que precisam fazer uso dele. Um caso que parece que a lei não contemplou. Ela me disse que vai sintetizar um pouco seus argumentos e depois eu publico por aqui. De todo modo, obrigada à Claudia Eirado pelo contraponto interessante (vocês podem acompanhar a discussão pelo post do facebook, se quiserem).
  • Em tempo 2: um dos melhores projetos de mães contra os usos e abusos da publicidade infantil é este aqui. Acompanhe as discussões do site e apoie, se para você também essa história de transformar nossos filhos em pequenos e demandantes consumidores for algo a ser evitado.

    Fim da publicidade para produtos que prejudicam na amamentação. Já não era sem tempo.

    Posted by Barriga de bebê: o que as mães não dizem. on Tuesday, November 3, 2015

A espetacularização do nascimento

Tem uma coisa que me incomoda um bocado, que é essa espetacularização do nascimento que temos hoje em dia. E que não deixa de fora os partos normais humanizados, muito pelo contrário.

Talvez vocês se lembrem daquela matéria que apareceu nos jornais pelos idos de 2012 sobre uma maternidade carioca que revolucionava sua oferta de serviços colocando um telão para que os parentes pudessem acompanhar o parto. Sim, um telão mostrava o parto – cesariana, na sua maioria – naquilo que uma cesariana tem de possível de ser mostrada: mãe deitada, amarrada, envelopada, panos cobrindo a “área de trabalho” dos médicos, bebê saindo embrulhado, bebê aproximado da mãe para ela dar um beijinho, já que não pode carregar, primeiros “cuidados” e por aí vai. Os convidados todos ali no salão, em frente à tela, assistindo em tempo real a esse nascimento, com direito a um buffet, comes e bebes, festa e muita diversão. Lembro do quanto essa “excelente idéia” gerou comentários e discussões na época, muitas em torno disso que estou citando agora, essa idéia da espetacularização. A imagem que fica mais importante do que a experiência, a exposição máxima que deixa de escanteio toda a intimidade, toda uma possível necessidade de privacidade, o superficial tomando conta de um acontecimento em que o foco deveria ser naquilo que realmente importa.

Guardadas as devidas proporções – e as devidas diferenças, que são muitas – algo dessa mentalidade do espetáculo respinga também em muitos dos partos humanizados.

Criou-se uma moda, a partir do momento em que o parto normal, natural, humanizado começou a aparecer mais e mais nas discussões sobre parto e no desejo das mulheres em garantir um nascimento digno e respeitoso para seus filhos, de que esse tal parto humanizado deveria acontecer de um certo jeito. Em casa. Na água. Com o pai ali do lado, de mão dada, junto na piscina, enfim, participando ativamente. E com alguma espécie de registro visual da beleza da coisa toda. Fotos. Vídeos. Pronto. O pacote parto humanizado ideal passou a incluir a enfermeira obstétrica, a piscina inflável, a doula, a fotógrafa e o pai da criança como itens de igual importância e todos de extrema necessidade.

Penso que, num campo tão novo, tão cheio de dificuldades, em que conseguir um parto digno revelou-se um percurso do combatente para as poucas mulheres que toparam o desgaste de passar por vezes uma gravidez inteira brigando contra o mundo, era importante buscar modelos, pontos de apoio, possibilidades de compartilhar desejos, anseios, angústias, informações, alternativas. E que bom que isso aconteceu e que hoje em dia dispomos de mais e mais sites, grupos, fóruns, blogs, lugares, pessoas, referências e escritos sobre o tema. Temos essa demanda de pensar o nascimento de nossos filhos, de desejar algo diferente, de buscar uma possibilidade mais humana de viver uma gravidez e um parto. E temos a quem recorrer para isso. Cada vez mais. E cada vez de maneira mais formalizada. Isso é um feito!

Pode ser que, para muitas dessas pioneiras do nosso tempo, um dos modos justamente de partilha e de apoio às outras mulheres que desejariam também viver a experiência de um parto humanizado tenha sido essa espécie de statement que a imagem pode oferecer: além de contar os partos, por que não mostrá-los? Um parto normal tem muito mais o que mostrar do que uma cesariana. Um parto sem violência tem muita beleza a desvelar. Nessa nossa época em que imagens falam mais do que palavras, essas imagens dos partos circulando por aí, que poder elas teriam?

Um imenso poder. Um poder de convencimento, um poder de exemplo, um poder de inspiração. A imagem é poderosa, sabemos disso. Basta lembrar da recente imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia e da comoção que isso causou no mundo inteiro, influenciando inclusive em uma série de movimentos populares por toda a Europa que pressionou por uma maior abertura na acolhida de refugiados em todo o continente para se dar conta que, sim, as imagens têm um imenso poder de persuasão. E que as mulheres gestantes, parturientes decidam usar disso para gritar para os quatro cantos do mundo que, sim, é possível parir e parir dignamente mesmo no Brasil dos dias de hoje, bem, isso é legítimo e louvável.

Minha questão não tem nada a ver com esse uso político da imagem e da imagem do parto humanizado. E não é uma crítica a quem faça ou tenha feito uso dessa estratégia. Meu incômodo é com a maneira como certas coisas, especialmente quando ligadas à imagem, se tornam rapidamente uma necessidade de mercado.

Me explico. Vendo essas imagens, muitas de nós, mulheres grávidas buscando um nascimento digno para nossos filhos e um atendimento cuidadoso da nossa própria experiência de gestantes e de parturientes, pudemos absorver, além da inspiração e da idéia de que é possível parir, uma espécie de receita de como isso deveria acontecer quando “acontece direito”.

Quando vemos as imagens dos partos naturais que desfilam em profusão pela net, podemos constatar que existem alguns recorrentes que praticamente criam uma receita: parto na água, marido ali do lado, toda equipe na borda da piscina observando a mulher, expressão de dor, expressão de êxtase, bebê peladinho no colo da mãe. E a pergunta que pode vir daí é: tem que ser assim?

Tenho visto muitas mulheres extremamente preocupadas com onde vão comprar a piscina para o nascimento. E onde vão colocá-la. Tenho visto muitas imagens muito parecidas, como se todos os partos humanizados fossem a mesma coisa. E tenho visto muitas imagens. Uma invasão de imagens que praticamente se torna uma injunção: “veja, é assim que se faz!” Será?

Talvez sejamos incapazes de viver sem uma imagem à qual nos agarrar e, na medida em que recusamos a imagem da mulher asséptica amarrada na maca da sala de cirurgia em muitos tons de azul enquanto seu filho é extraído dela e exibido alegremente para a galera do telão tenhamos que nos agarrar a uma alternativa. Uma imagem alternativa, que nos oriente em como as coisas devem ser. E isso tem uma tal pregnância que, rapidamente, a imagem se torna mais importante que o conteúdo e nos vemos de novo na cilada do espetáculo, daquilo que tem que ser mostrado, do superficial e acessório tomando o lugar do que deveria ser o foco. Vivemos na sociedade do espetáculo do Guy Debord, onde tudo é rapidamente tragado pela lógica da exibição. Exibição que garante a perpetuação de um jogo de poder.

Quem ganha com essa história de substituir uma imagem por outra? Um modo de um parto acontecer por outro? Uma regra por outra?

Ainda que nós mulheres e nossos filhos possamos lucrar e muito com a garantia de escolher um parto normal humanizado, até que ponto isso mesmo que conquistamos não se vê ameaçado pelo estabelecimento de uma receita?

Michel Odent fala de maneira bastante crítica desse modus operandi que se instaurou como tendência no parto humanizado. Para ele, essas diretrizes de parto na água, marido presente, registro fotográfico e todos os afins que acompanham o pacote devem ser pensados com muito, muito cuidado. O fundamental, para que um parto seja humanizado e que tudo corra bem para a mãe e para o bebê é que eles possam viver isso do jeito que precisarem.

Isso quer dizer, basicamente, que ao longo de todo o processo de parto o que deveria prevalecer é aquela parte mais primitiva do cérebro da mulher que a faz parir. E parir bem. Eis o que deveria ser favorecido e respeitado. Que a mulher possa entrar nesse estado outro e ficar ali. Que ela seja ajudada a ficar nesse estado. Calor, silêncio, pouca luz. É o que basta. Tudo o mais é acessório. Pode servir ou pode apenas atrapalhar o processo. E não deveria ser posto como artigo de primeira necessidade.

Nesse estado outro, que nenhuma mulher conhece antes dele se instaurar, não dá para prever se ela vai querer entrar na piscina, se vai querer sair da piscina, se vai querer o marido perto, se vai querer ele longe, se vai fazer assim ou assado. Ninguém tem como saber e projetar tudo isso serve, no fim das contas, apenas como um modo de se apaziguar acreditando que existe algum controle e alguma previsibilidade desse momento que é, antes de tudo, um desconhecimento absoluto, um vácuo de imagens.

Por vezes, ouço ou leio histórias de partos que corriam muito bem, até que empacaram e se tornaram lentos, lentos, lentos. Alguma coisa ali naquele cenário dificultou à mulher poder entrar ou ficar nesse seu estado segundo. Pode ser algo do encontro dela com ela mesma, aquelas coisas subterrâneas que teimam em aparecer justamente nessa hora, nossas assombrações, nossos medos, nossos desafios que encaramos ou não junto com o ato de parir. Mas muitas vezes o que dificulta – e muito – são exatamente esses modos obrigatórios de fazer as coisas que ficam martelando ali no fundo da cabeça ou na boca das pessoas em volta, cobrando da mulher que ela siga um plano que ela mesma construiu, desejou e pôs em prática. Então ela sai do seu casulo para pensar que deveria entrar na banheira, afinal, compraram a bendita da banheira que custou uma fortuna. E é melhor não sair da banheira, porque o bebê vai nascer na água, não é mesmo? Mesmo que a água tenha ficado fria e que o frio faça os músculos contraírem e o parto ficar mais lento… E melhor ficar ali onde está a banheira, porque é mais fácil para fazer as fotos do que se ela seguir aquele seu impulso intenso de ir se esconder no banheiro, longe de toda aquela gente. E toda aquela gente ali, olhando, olhando, esperando… começa a dar uma sensação de pressa, de ter que fazer algo, de ter que ir bem. E o marido tem que ficar ali do lado, apoiando, segurando a mão, abraçando, dizendo palavras bonitas, mesmo que isso gere uma irritação… Pronto, eis aí a receita, o “jeito ideal” de fazer tomando o lugar daquilo que aquela mulher, naquele momento, realmente precisa. Eis aí o parto novamente parasitado por fórmulas, por obrigações, pela necessidade de reproduzir aquela imagem linda que vimos na internet.

Tem mulheres que dão à luz muito bem no banheiro, debaixo do chuveiro, de porta fechada sem deixar ninguém entrar. Tem mulheres que mandam o marido ir catar coquinho e preparar uma sopa ou o que quer que seja. Tem mulheres que dão à luz quando a doula e o obstetra estão dormindo no sofá da sala. Tem mulheres que dão à luz embaixo do chuveiro, dentro da banheira, em cima da cama, no tapete da sala… até mesmo dentro do carro. Tem mulheres que dão à luz no escuro, num calor de 40°C, debaixo das cobertas. Ninguém sabe como vai ser até a hora em que acontece. E o melhor que podemos fazer é garantir que cada uma dessas mulheres possa ter aquilo que precisa, do jeito que precisa, da maneira mais respeitosa, cuidadosa e amorosa possível.

Podemos, nós que acompanhamos essa mulher e esse bebê, garantir que não há modelo, que não há receita e que, sim, ela pode fazer confiança em que ela vai saber o que fazer e vai fazer o que precisam ela e seu filho.E que isso será a prioridade que todos em volta buscarão respeitar e acompanhar. Ok fazer um plano de parto, ok ter um plano se isso tranquiliza o seu coração e a sua cabeça. Mas o melhor que pode acontecer é a cabeça esquecer o plano na hora H e deixar o mais primitivo em si agir. Dá um medo de se pelar, mas quem disse que é o nosso raciocínio e o nosso entendimento das coisas que faz um parto acontecer?

Posto isso, tudo o mais é acessório. Ou inspiração tornando-se rapidamente mercadoria. E pressão. E opressão. O contrário do apoio e da libertação que todas nós buscamos.

Isso é, a meu ver, o que pode ser de melhor um parto humanizado. O respeito por esse desconhecimento, por esse vácuo de imagens, por esse silêncio, por essa intimidade em grau máximo. A foto? Para quê? Deixa a foto para a caixola da memória guardar e o peito abrigar ali onde é tão quentinho e tão bom.

A maior alegria do mundo

Não sei se vocês já tiveram essa sensação alguma vez na vida. Uma sensação de plenitude, como se tudo estivesse em seu devido lugar. Eu chamo isso de o momento perfeito. Nada falta, nada a acrescentar. Só você e aquilo que está vivendo. Uma espécie de coincidência entre você e o momento presente. Sem ansiar por algo além, sem lamentar por algo vivido. Enfim…

Vejam, sou psicanalista. Não acredito na plenitude, acredito que o ser humano vive na falta e na incompletude e que é justamente isso que o move a viver e o torna humano. É sua condenação e também sua maior vantagem, pois é nessa fragmentação que ele pode inventar o melhor de si. Ou apenas se contentar em ser o pior, que dá menos trabalho. Não faz sentido buscar a perfeição porque ela não é dada aos humanos. Daí esses momentos raros serem ainda mais surpreendentes. E marcantes.

Lembro uma vez no Rio de Janeiro, caminhando pela orla no aterro do Flamengo num final de tarde. O dia estava fresco, não muito quente. E o céu fazia todas aquelas cores entre o azul, o rosa, o vermelho, o laranja, o amarelo, com o Corcovado de um lado, o horizonte do outro e o Pão de Açúcar ali atrás. Em silêncio andávamos sem dizer nenhuma palavra. Só aquela vista, o barulho das ondas, o ruído de fundo das pessoas que passavam, nada na cabeça, o coração quentinho, uma espécie de esperança. Momento perfeito.

Momentos perfeitos se dissipam tão logo você se dá conta deles, como se o olhar borrasse, fazendo quase duvidar que aquilo realmente aconteceu. Momentos perfeitos viram fumaça e escorrem pelo ar, restando apenas a memória. Ou uma sensação.

Costumo dizer que esses momentos perfeitos são um estado de exceção da condição humana. Como se por um minuto pudéssemos sair da vida e ser além.

Depois que me tornei mãe, esses momentos de perfeição teimam em acontecer com mais frequência. São momentos simples, banais mesmo, como agorinha há pouco brincando de usar caixas de Lego como chapéu em um domingo de outono qualquer. Cada um com sua caixa chapéu na cabeça. Os olhares e as risadas.

A felicidade pode ser de uma simplicidade exasperante.

Não, a maternidade não é perfeita. Ter filhos não é só alegria e não garante esses momentos extraordinários. Ter filhos não é o único meio de ser feliz. E não deveria pesar sobre as crianças a responsabilidade de nos garantir o que quer que seja, quanto mais felicidade.

Mas esses momentos são de tirar o fôlego.

Em uma semana tão triste e tão sombria, com meninas sendo assediadas e tratadas de vagabundas na internet após uma emissão televisiva, com milhares de mulheres vindo à público contar sobre seu primeiro assédio na mais tenra infância, com vídeos de crianças em sofrimento sendo feitos e publicados por seus professores, com adultos advogando o uso extremo de violência contra crianças que eles julgam serem mal educadas, com leis anti aborto sendo retomadas… Depois de uma semana dessas em que o ser humano nos lembra que ele sempre pode ser pior… nada como o alento desses momentos simples, plenos e que nos permitem, ainda, respirar.

Em tempo: o momento perfeito não é aquele que a gente filma, fotografa com o celular, tira um selfie e publica nas redes sociais. Momento perfeito fica guardado no peito. A gente vive sem interromper, quase sem se mexer ou respirar, como faz para não acordar o bebê.

A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.