Mas para que esse blog?

Quando comecei este blog, no início da gravidez, estava espantada com um turbilhão de mudanças e de acontecimentos que aconteciam comigo e para os quais não encontrava eco em nenhum lugar. Como se cada mãe que houvesse existido vivesse calada uma porção de coisas, sem ter com quem dividir, sem encontrar abrigo ou acolhida gentis à suas questões, seus medos, suas ambivalências, seus incômodos. Como é que elas sobreviveram, mudas, a tantas e tão intensas experiências? Porque, se tudo o que é bom em uma gravidez podia ser falado aos quatro ventos, sendo amplificado por um mundo interessado em fazer disso uma experiência de euforia, qualquer coisa que destoasse ficava impossibilitada de existir. O que fazer com isso que o mundo parecia impor que fosse jogado para debaixo do tapete?

Um dado biográfico: sou psicanalista, com mais de 15 anos de experiência clínica, entre consultório e instituições de saúde mental. Em minha trajetória de trabalho, aliei sempre a prática clínica com a formação teórica, tendo feito uma longa formação em psicanálise, uma série de especializações, mestrado, doutorado, pós-doutorado… Isso aqui não é para fazer dessa apresentação um link para meu currículo lattes, mas apenas para dizer que desde sempre recebo, escuto e acolho as pessoas e seus sofrimentos mais doídos. E igualmente desde sempre penso a respeito dessas pessoas, de suas dores e de como boa parte delas são criadas ou aumentadas justamente por esse voto de silêncio, por esse não falar, não olhar, deixar de lado para ver se passa. Acho que dá para perceber que, no mínimo para fazer justiça à minha experiência profissional, eu não teria como ser da turma do “deixa disso”, né? Então, comecei a escrever para dar voz a essas palavras caladas em mim e que eu imaginava silenciadas em muitas outras mulheres.

Muita água correu por esse rio caudaloso da gravidez e da maternidade. E, junto com ela, muita gente, muitos encontros, muitos ecos de muitas vozes que, descobri, também se levantaram contra o clichê, movidas pela opressão que cada qual vivia junto com suas experiências de barriga e de filhos nascidos. Não estava tão sozinha quanto imaginava no princípio. Mas também haviam mais dificuldades do que eu tinha imaginado. Muitas dessas histórias estão por aí, basta folhear as páginas. Outras estão na cabeça, indo para a tela pouco a pouco, no ritmo outro que é a maternidade. Ou pode-se, ainda, seguir o traço dos links indicados. E encontrar gente sem papas na língua, que diz o que pensa e assume a responsabilidade. Gravidez, parto e maternidade têm muito a ver com essa capacidade de escolher e assumir responsabilidades. E de defender posições do mesmo modo como se defende o bem estar da cria. Eis aí um aprendizado.

O blog continua firme e forte, mesmo depois da barriga ter dado lugar à bebê. E continuo escrevendo as dores e os amores dessa experiência que é ser mãe. Por vezes, pessoal e emotiva, noutras engajada e apaixonada, mas sempre escrevendo, pois uma folha sem palavras é uma boca muda e uma voz que se cala é a morte. Há momentos e palavras de alegria e estado de graça, pois é mesmo muito bom, mas muito bom mesmo engravidar e parir um filho. Mas não se trata aqui apenas da apologia dessa experiência, pois é tão bom quanto ruins são tantas coisas ligadas a ela. E sigo falando.

A primeira versão deste texto virou post e está aqui. Boa leitura. Dê notícias, vou gostar de saber.

4 comentários sobre “Mas para que esse blog?

  1. Olá, tudo bem?
    Gostaria de cumprimentá-la pelo blog. Eu li diversos posts durante toda a minha gestação e agora que minha bebê nasceu (está com 15 dias) gosto ainda mais.
    Como você, sempre me incomodaram as palavras não ditas e o “mundinho cor-de-rosa” da maternidade que tentavam me enfiar “goela abaixo”, simplesmente não fazia muito sentido. De tanto questionar, cheguei a acreditar que talvez não seria capaz de gerar e cuidar de um filho, pois eu “não tinha instinto, a maternidade não era natural em mim”. Foi aí que a análise me salvou! Rs.
    Hoje, com a Inês no colo, vivencio o amor, a ternura, o cansaço, as mudanças, os altos e baixos, os medos e as incoerências deste momento e na medida do possível, recomendo o seu blog para as amigas que estão na mesma fase.
    Obrigada por compartilhar.
    Um abraço,
    Francielle

    1. Oi, Francielle. Obrigada pelo comentário atencioso e delicado. Sempre bom saber que não estamos sozinhas em nossos conflitos e paradoxos, né? E parabéns por não ter acreditado que você precisaria ser um clichê para ser mãe. Penso que as melhores mães são as mais atormentadas, que se colocam em questão e que vivem o melhor e o pior da maternidade, não as que jogam todos os conflitos para debaixo do tapete até explodirem consigo mesmas, com os filhos e com tudo o que as cerca. Felicidades para você e para a Inês. Um abraço, Alessandra.

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