Gravidez na França… ainda

Ao longo da minha primeira gravidez, escrevi uma série de posts sobre como é estar grávida na França, abordando minhas descobertas dos meandros mais banais dessa experiência. De lá para cá, posso dizer que nada mudou em termos objetivos e práticos. Mas minha visão tornou-se muito mais crítica de como as coisas se dão por aqui. Então vamos a uma nova série das dores e das delícias de ser mãe fora do Brasil. Porque tem gente que pensa que é só luxo, poder e glamour pelas ruas de Paris. E que até cogita vir para cá parir seu rebentinho em terras charmosas do Velho Continente. Então, antes de fazer as malas, leve em conta o que se segue, tá?

Não entendo muito bem o porquê, mas parece existir algo da mentalidade francesa que tem a ver com uma irresistível atração por navegar contra a corrente. Basta algo de interessante existir noutro lugar que não na França para que se encontre a maior resistência em experimentá-lo por essas bandas. Como se os franceses tivessem que ser os inventores de tudo o que é bom, correto e digno de consideração nesse mundo. Naquilo que diz respeito à maternidade em geral, não é diferente. E é onde enxergo essa espécie de teimosia arrogante com mais força. Chega a ser exasperante conversar com a grande maioria dos franceses e, mais ainda, com os profissionais de saúde daqui sobre o assunto, tamanha é a recusa em se abrir para pensar e tamanhas são as certezas baseadas em clichês, em estereótipos e em informações ultrapassadas e questionáveis. Afffff, que fastio!

Senão vejamos. As recomendações da OMS para gravidez, parto, amamentação? Eles praticamente riem da sua cara. O que vale não é o que uma organização internacional de saúde propõe a partir de dados científicos recolhidos da maneira mais isenta possível e sempre atualizados. O que vale é o que propõem as instituições francesas, os conselhos de medicina, de ginecologia, de obstetrícia, de pediatria daqui. Patrocinados, claro, pela indústria farmacêutica, pela indústria de alimentos para a primeira infância e por outros atores poderosos dessa lógica que transforma saúde em mercado. O que vale é o que essas instituições dizem e não se vê quase nenhum questionamento sobre os interesses por trás daquilo que dizem.

Não interessa por aqui que todos os vizinhos da França que possuem índices melhores de todos os indicadores de saúde ligados à gravidez, parto, puerpério e amamentação tenham em comum algumas diretrizes como favorecer parto natural humanizado, diminuir drasticamente as intervenções durante o parto, diminuir drasticamente a medicalização da gravidez, o número de exames, o uso de ultrassom, favorecer parto domiciliar, desaconselhar ou abolir episiotomia, incentivar formas alternativas de controle da dor, privilegiar o parto com equipe paramedical, favorecer e incentivar a amamentação, desaconselhar o uso de mamadeira ou chupeta ou a prescrição de complemento por parte dos pediatras… Enfim, tudo isso que encontramos como pontos comuns no que diz respeito à maneira de acompanhar gravidez, parto e puerpério em países como o Reino Unido, a Holanda, a Suíça e a Alemanha são menosprezados pelos franceses. Por que eles saberiam mais ou fariam melhor do que nós, não? Doulas na França? Sim, se você fizer um parto domiciliar. Em meio hospitalar, é praticamente impossível, pois elas são consideradas as “inimigas n° 1” das enfermeiras obstétricas.

Como consequência, temos um país em que o incentivo ao parto normal não significa a favorização de um parto humanizado. Gravidez e parto são momentos extremamente medicalizados na França, cheios de intervenções, de mandos e desmandos sobre o corpo das mulheres e de muita violência obstétrica. Sim, por incrível que pareça, num país em que se diz respeitar muito o direito das mulheres, a violência obstétrica é assunto tabu, pouco nomeado e apenas recentemente tornado assunto de discussão e pesquisa, ainda bastante vinculado ao tema mais amplo da violência ginecológica, que pode acontecer ligada ou não às situações de gravidez e parto.

Nascer por aqui é nascer em meio hospitalar, com anestesia, em posição ginecológica, tendo pouco ou nenhum espaço para opinar sobre o que quer que seja. As sage-femmes (enfermeiras obstétricas) infelizmente adotam em sua maioria a postura intervencionista e ultramedicalizante do médico, optando por impor um mesmo esquema para toda e qualquer gestante, independente da sua singularidade. Justificativa? Nas grandes cidades e nos grandes centros hospitalares vocês atrapalha o andamento do trabalho quando quer “fazer diferente”. Ou, dito de outro modo: gravidez e parto devem desenrolar-se segundo o que facilita a vida de médicos, enfermeiras obstétricas e equipes, não segundo o que mãe e bebê precisam, podem ou gostariam. Você quer algo diferente? Prepare-se para o percurso do combatente.

Ainda que o parto humanizado tenha algum eco por aqui, encontrar opções de serviços um pouco mais abertos a um acompanhamento mais respeitoso e humano não é tarefa fácil. É necessário encontrar uma maternidade que tenha a opção de um parto humanizado. E elas são minoria. Existem um projeto de casas de parto que foi recentemente aprovado na França e alguns espaços-piloto que começam a funcionar. Mas, como no caso do parto domiciliar, as exigências são enormes e quase impeditivas para que a coisa avance no ritmo da necessidade e da demanda de um grupo crescente de mulheres.

Pior ainda, mesmo que o parto domiciliar exista e seja assegurado como direito das mulheres, tudo é feito para inviabilizar cada vez mais essa opção e para que ela deixe de existir. Para se ter uma idéia, as enfermeiras obstétricas que trabalham com parto domiciliar precisam, desde o começo dos anos 2000, pagar um seguro de um valor tão astronômico e desproporcional ao que elas ganham que muitas se vêem impedidas de continuar a exercer suas atividades por razões financeiras. Além disso, o que certamente acontece, do mesmo modo que em meio hospitalar, e a diferença estatisticamente nem é tão significativa e favorece o parto em casa – o que vemos é uma mídia que se inflama, processos que surgem, profissionais que são sumariamente condenadas a não mais exercerem sua profissão e todo um grupo de profissionais de saúde que quer o fim do parto domiciliar comemorando alegremente a extinção daquilo que eles dizem abertamente ser uma “aberração”, tendo em vista que temos tanta tecnologia hoje em dia para acompanhar, controlar e remediar qualquer imprevisto. Na França, contra todas as reflexões de ponta sobre o assunto e nadando ainda arrogantemente contra a maré, chegamos ao ápice da idéia de que gravidez e parto são territórios das intervenções médicas necessárias para controlar e corrigir um acontecimento que, deixado à própria sorte, só pode terminar mal. Como é que a humanidade sobreviveu até o surgimento da medicina e até o nascimento ter se tornado uma intercorrência médica, não? On se demande bien.

Não me parece que essas intervenções e usos tecnológicos tenham melhorado tanto assim os índices de intercorrências durante gravidez e parto aqui na França, assim como em nenhum outro lugar do mundo. Ou melhor, a partir de um certo ponto, eles não funcionam mais para ajudar a diminuir intercorrências, nem mesmo a mortalidade materna ou infantil, como se têm visto no resultado de muitas pesquisas mundo afora. Servem justamente ao seu contrário. Veja essa pesquisa, por exemplo, em que o autor afirma textualmente que a mudança do local de nascimento para os hospitais e maternidades não o tornou mais seguro para mulheres que não apresentassem nenhuma condição médica pré-existente justificando tal indicação. Pelo contrário, diz o autor, as intervenções e a ênfase na tecnologia aumentaram consideravelmente o risco de intercorrências, inclusive de morte materna e neonatal.

Mas, quem é que vai processar o doutor que precisou extrair o bebê à fórceps de uma mulher que estava naquela posição ginecológica super apropriada para que um bebê que tem que descer precise fazer uma curva para cima na reta final, sendo obrigada a um puxo dirigido a cada vez que lhe diziam para fazê-lo, mesmo antes do bebê ter descido totalmente e os puxos espontâneos terem começado, não? Quem vai questionar o doutor? Ele salvou a pátria, o bebê não descia, não encaixava, ela é que era muito estreita, imagina se ele não estivesse lá. Ainda bem que essa mulher estava ali no hospital, hein? Que o bebê nasça mal e possa ter sequelas, que a mulher fique lacerada e traumatizada com a violência do parto, tudo isso parece uma consequência aceitável de algo que foi feito única e exclusivamente no melhor interesse de ambos. Ou não?

Pois então, se você engravidar na França e decidir ter o seu bebê aqui, posso te dizer com bastante segurança que há uma grande probabilidade de que seu acompanhamento da gravidez seja hipermedicalizado, que você se veja inserida em um esquema de muitos exames e que o seu parto – normal – seja cheio de intervenções. Uma decepção, sobretudo em um país que tem todas as condições de oferecer bem mais e bem melhor do que isso.

Segue abaixo uma lista não-exaustiva de links, sites e grupos para quem quiser se aventurar pelo maravilhoso mundo da “maternidade alternativa” na França:

  • Lista de sage-femmes (enfermeiras obstétricas) que ainda fazem parto domiciliar ou parto naquilo que chamam plateau technique, o que significa parto em meio hospitalar mas em condições humanizadas: aqui.
  • Recomendações da OMS para gravidez, parto puerpério e amamentação, em francês: aqui.
  • Grupos de apoio ao parto domiciliar na França: aqui, aqui e aqui.
  • Doulas de France: aqui.
  • Carta de direitos da pessoa hospitalizada na França, que garante seus direitos à informação, à decisão e à recusa de procedimentos: aqui.
  • Sinopse do recente documentário Entre leurs mains, que discute justamente essa hipermedicalização dos nascimentos na França e a caça às bruxas realizada contra o parto domiciliar: aqui
  • AFAR – Alliance francophone pour l’accouchement respecté: site aqui.

Este meu blog, este meu trabalho

Um longo tempo sem escrever nada por aqui, um longo tempo ruminando um bocado de coisas.

Spoiler: calma, o blog não vai acabar, eu é que estou mudando.

Quando engravidei, em outro país, longe da família, dos amigos, e por umas tantas razões, longe também do cara-metade que trabalhava noutra cidade, a maneira mais acolhedora e aconchegante que encontrei de viver esse período e de gestar foi escrevendo. Não sei fazer tricô, atividade paradigmática, terna e quentinha de quem espera. E a escrita faz parte da minha vida desde sempre. Então, escrevi sobre os paradoxos, as descobertas, as ambivalências, as experiências, as intensidades e tudo o mais. Escrevi as informações, as questões, os posicionamentos. Escrevi o indescritível do parto, os encontros cotidianos e sempre tocantes com a minha filha, as dificuldades, as conquistas. Escrevi minhas posições, descobri ser necessário escolher, se posicionar e defender uma série de coisas em relação à gravidez, ao nascimento, ao parto, à maternidade, à amamentação, à infância. Por ser mais humano, mais respeitoso, mais amoroso. E por ser uma luta necessária se eu quiser ter um mundo melhor para oferecer à minha filha. E uma pessoa melhor para botar nesse mundo. Impossível virar mãe e não se preocupar constantemente com o mundo.

A gravidez me trouxe minha filha e, de quebra, umas outras coisas bem fantásticas. Me deu vontade de voltar a trabalhar em instituição de saúde. E de trabalhar em grupo, em grupos de apoio, com mulheres grávidas ou mães recentes. Vontade não somente de compartilhar o que vivi, mas de poder oferecer a elas algo que tive por vias tortas e inesperadas: escuta e acolhimento.

Quando comecei a escrever, comecei também a ler muito sobre gravidez, parto e afins. E encontrei um monte de gente falando do assunto. E, nessa Maternolândia em escala mundial, teve gente que me trouxe informações preciosas que eu desconhecia até então e que mudaram meu entendimento sobre o que poderia ser o parto da minha filha e me fizeram buscar algo o mais respeitoso e humanizado possível nessas condições de expatriada na França, um país muito generoso com mulheres grávidas mas, também, muito engessado e medicalizador / intervencionista. Parir por aqui foi buscar uma brecha no sistema para poder ter e dar à minha filha aquilo que eu julgava o melhor para nós duas. E o esforço valeu à pena. E não teria sido possível se eu não tivesse chegado em blogs como o Cientista que virou mãe, o Balzaca materna, o Parto do princípio, o Você quer parto normal? e o Estuda, Melania, estuda! Foram os primeiros, minhas primeiras companhias que nem fazem idéia do quanto foram importantes em momentos cruciais. E dali vieram outras e outras, algumas falando sobre amamentação, outras sobre relatos de parto que me enchiam de coragem e outras sobre o que viviam em suas gravidezes… Muita gente me fez companhia e muitas palavras, posts e comentários tiveram um peso enorme para que a gravidez, o parto e o início de vida da minha filha fossem do jeito que foram. Que alento ter descoberto na blogosfera essa rede de apoio que me faltava!

Com o blog e com a página dele que criei no facebook, comecei a fazer eu também parte dessa rede. E tenho recebido desde então emails, mensagens, comentários com questões, histórias, pedidos de ajuda. Gente que partilha de algum modo daquilo que escrevi e que se encontra ali como me encontrei nas palavras de outras pessoas. E que recebe algum conforto, alguma informação, alguma condição de pensar… enfim, gente para quem minha escrita serve um pouco. Como a de outros para mim.

Curioso como ao longo de toda essa experiência essa possibilidade foi fazendo mais e mais sentido: poder estar ali para alguém como estiveram para mim. Algo como uma retribuição, uma doação, poder fazer a diferença em um momento importante da vida de uma pessoa. Quantas vezes fazemos isso sem nem perceber, né?

Pois então, sem querer parecer piegas ou pia demais (pia no sentido de piedosa, uma alma caridosa, movida nessa caridade por algum devaneio religioso, o que não faria nada o meu estilo, como sabem os que me conhecem em todo o meu lado sarcástico e mau humorado)… uma das coisas incríveis que ganhei com a maternidade foi essa convicção de poder fazer a diferença. E que essa diferença poderia estar numa palavra, num texto, numa atitude, num gesto.

Sei que tenho podido estar aí para algumas pessoas e tenho podido “cuidar” delas com palavras. Assim como elas têm estado para mim e têm me cuidado, sabendo ou não. Mas tenho começado a pensar que posso fazer um pouco mais do que isso.

Um dos psicanalistas que mais admiro por sua sensibilidade e generosidade e que, não por coincidência, sempre escreveu muito sobre as mães e seus bebês, D. W. Winnicott escreveu em um de seus muitos textos que o psicanalista é alguém que pode fazer psicanálise mas que também pode fazer muito bem algumas outras coisas. Um psicanalista que pode estar presente e que pode estar fora do centro para o outro existir, diga-se de passagem. Que pode estar ali presente para o outro que o procura ser e acontecer. Esse psicanalista pode fazer análise. Mas pode fazer outra coisa se aquele que o busca precisar de outra coisa.

Nesses últimos tempos, entre outras andanças, fui à Londres fazer um curso de doula. Tive o privilégio de fazer esse curso no Paramanadoula, com o Michel Odent – um médico incrível que escreve há muitas décadas sobre como o nascimento faz diferença não apenas para cada indivíduo que o vive, em termos de saúde e consequências para sua vida inteira, baseado em evidências científicas, como para a humanidade que está às voltas com uma mudança tão radical nos modos de nascer que pode ser modificada na sua essência – e com a Liliana Lammers – uma doula argentina radicada em Londres, minimalista, capaz de uma escuta e um acolhimento como poucas vezes vi na minha vida. E esse curso de doula me deu umas tantas idéias dos caminhos que poderia seguir nesse desejo novo ou renovado de acompanhar, de estar com o outro, de estar presente e de fazer a diferença.

Então, como dizia um amigo meu, “é isso”. Frase curta e vazia que não quer dizer nada mas que deixa espaço para muita coisa. Agora estou aqui. Entre outras coisas, doulando. E criando possibilidades de doular e de acompanhar mulheres grávidas e recém-mães como doula e como psicanalista. Um dos dois, ou ambos. Aqui na França.

O blog não acabou. Eu é que mudei. E vou passar a oferecer novas coisas aqui também. Ligadas ao trabalho. E às minhas reflexões, indagações e experiências com isso. O mundo maravilhosamente inquietante da maternidade. Visto de mais um ângulo.

As dores e as delícias de ser mãe fora do Brasil

Depois da saga sobre a gravidez na França, que apresentei nesses posts aqui, começamos a descobrir como é ser mãe no país das luzes. E, como primeira impressão, poderia dizer que é fácil, só que não.

A facilidade está em que a maternidade é tão protegida quanto a gravidez, contando com assistência e serviços de qualidade. E a complicação está aí também, pois esse cuidado acolhedor chega a ser excessivamente intrusivo e contraproducente em certos momentos. Me explico.

Na França, você passa cerca de 4 ou 5 dias na maternidade, mesmo que tenha tido um parto normal e uma excelente recuperação. Eles costumam esperar que o bebê volte a ganhar peso para dar alta. E aí vem o meu primeiro senão: os franceses são obcecados com curvas de peso. Eles pesam o bebê todos os dias e, ao sair da maternidade, aconselham os pais a pesarem seus rebentos todas as semanas. Há pessoas que chegam a alugar ou comprar balanças apenas para pesar seus bebês, como se o peso fosse o único indício palpável de que vai tudo bem com o rebento. Tanto mais se você amamenta, porque daí não tem como saber mesmo o quanto o bebê mama, se é o suficiente, se ele está bem. Então alguém teve a grande idéia de tentar controlar isso por meio do ganho de peso e deu no que deu: mães enlouquecidas com bebês que ganham pouco, nenhum ou perdem peso no começo da vida e profissionais de saúde orientando precipitada e equivocadamente essas mães a darem mamadeira e leite artificial. Em um país em que a amamentação passou anos e anos em desuso, sendo até mal vista e condenada, essa pressão toda sobre mães e seus bebês acaba sendo um desserviço a ambos.

De todo modo, em termos de serviços prestados, é importante saber que:

  • ainda na maternidade, sage-femmes e enfermeiras especializadas em puericultura te acompanham e dão todas as orientações a respeito do bebê: banho, troca de fraldas, posição correta para amamentar e etc.
  • mesmo depois da alta, você pode retornar à maternidade para conversar com puericultrices e sage-femmes sobre dúvidas que tenha em relação ao cuidado com o bebê. Muitas maternidades oferecem, ainda, uma visita domiciliar de um desses profissionais, o que é bom nos primeiros dias, pois especialmente no que diz respeito à amamentação e à rotina dos cuidados, as dúvidas mesmo começam a surgir quando você chega em casa e tem que lidar com o pequeno por conta própria.
  • uma outra possibilidade é chamar uma sage-femme que trabalhe como como autônoma para esse acompanhamento domiciliar. A seguridade social cobre essas visitas e se você fez algum curso de preparação para o parto, possivelmente terá sido com uma sage-femme que atende como profissional liberal (nem todas as maternidades oferecem esses cursos in loco, elas indicam uma lista de pessoas as quais procurar). Pois então, se você fez algum acompanhamento ou curso durante a gravidez, possivelmente conhece já uma sage-femme e, se gostou do modo como ela trabalha, pode pedir que ela faça o acompanhamento domiciliar pós-parto também. Nessas visitas domiciliares, elas examinam o bebê, seus reflexos, seu estado geral, pesam e orientam quanto à amamentação e aos cuidados.
  • se as dificuldades e dúvidas foram a respeito da amamentação, além desses recursos, você pode ir às reuniões do La Leche League ou do IBCLC. Ambas as instituições têm consultoras que, além de grupos, fazem visitas domiciliares. Eu aconselho recorrer a elas caso esteja com alguma dificuldade que sage-femmes, puericultrices e pediatras não tenham conseguido sanar, o que não é difícil, visto que esses profissionais dão informações muito desencontradas e muito centradas sobre a curva de peso, o que não equivale necessariamente a um índice de saúde do bebê. No que me diz respeito, apenas as puericultrices foram atentas ao meu desejo de amamentar e me deram sugestões nesse sentido quando tivemos dificuldades.
  • você e o bebê saem da maternidade com as prescrições necessárias para cada um e a indicação de visita ao pediatra ou generalista para a consulta de um mês do bebê e a consulta de seis semanas sua ao ginecologista.
  • na França, o acompanhamento do bebê se faz uma vez por mês, com pediatra ou clínico geral especializado em atender crianças. A vantagem do segundo é que é totalmente coberto pela seguridade social, enquanto para os pediatras, apenas as consultas mensais são integralmente cobertas, todas as outras sendo apenas parcialmente reembolsadas. Na França, a cultura do médico generalista e de família é priorizada em relação à consulta com especialistas.
  • o bebê sai da maternidade com um “carnet de santé”, onde constam todos os dados dele, do parto, das consultas e intervenções que eventualmente tenha sofrido. Ali estão orientações para todos os meses e consultas, o carnê de vacinação, as curvas de crescimento onde vão anotar peso e medidas do bebê. Cada profissional com o qual seu filho consultar vai pedir esse carnê e fazer anotações nele. É o melhor jeito de centralizar informação.
  • por fim, existe um serviço na França que é a PMI – Protection Maternelle et Infantile – em que se agrupam serviços de saúde e serviços sociais. Eles dispõem de centros, divididos por região, onde você conta com atendimentos de assistentes sociais, médicos, sage-femmes e puericultrices. É um bom lugar para fazer o acompanhamento da sua gravidez, caso não tenha um médico particular no início e/ou não queira ou não possa fazer esse acompanhamento na maternidade onde pretende dar à luz. Mesmo que não tenha feito isso, ao longo da gravidez, estando inscrita na seguridade social, eles te enviarão uma carta convite para uma reunião, em que te explicam todos os procedimentos pós-nascimento, cuidados, dicas, inscrição em creche e por aí vai. Por fim, te indicam qual o centro mais próximo do seu endereço e quais os serviços e horários que oferecem para o pós-parto: consultas médicas, consultas com a sage-femme, plantão das puericultrices para tirar dúvidas… Tudo muito organizado e eficiente. O único senão é que a PMI é um dos lugares em que dirão para ir com o bebê pesá-lo uma vez por semana (!), caso você não tenha ido na onda de alugar uma balança. E, se você topa a loucura da pesagem semanal, eles vão te aporrinhar com hora marcada caso seu bebê destoe da famigerada curva de peso. Foi o que eu disse: excessos que, por vezes, estressam e oprimem ao invés de ajudar. Você iria?

Em tempo, se você está inscrita na seguridade social, desde que seu bebê é registrado (muitas maternidades têm esse serviço no próprio local, uma maravilha) você pode mandar uma cópia da certidão de nascimento e eles incluem o rebento na sua “carte vitale“. Com isso, consultas e medicamentos são custeados total ou parcialmente pelo estado, inclusive vacinas.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil – parte II

Diálogo de uns dias atrás, durante uma das sessões de preparação para o parto com a enfermeira-obstetra:

– Vamos falar do trabalho de parto hoje. É o momento mais medicalizado do parto. Vocês sabem me dizer por quê? Porque vocês vão tomar a peridural.

– E quem não pretende tomar peridural?

Olhares estranhos de todas as barrigudas na sala.

– Bem, 90% dos partos são feitos com analgesia peridural. E para nós, é bem complicado quando tem que fazer algo diferente. Então, provavelmente, vão te dar um soro e te colocar no monitoramento como todo mundo. E você vai ter menos mobilidade, ainda que possa se movimentar, o que não acontece com quem toma a peridural. Mas, para nós, é complicado ter que te tirar do monitoramento e te colocar novamente, a cada hora.

Silêncio.

– Então, vou falar de como acontece esse momento do trabalho de parto sob peridural, ok?

Ok, a França é bem mais respeitosa no que diz respeito ao parto do que o Brasil. Parto normal, aqui, é normal e cesariana nem é considerada como parto, mas como intervenção de urgência. E, no tal curso, eles até explicam o que pode levar a uma cesariana e são apenas dois ou três motivos. Bebê nasce sentado? Nasce por parto normal. Bebê nasce enrolado no cordão? Nasce por parto normal e eles desenrolam. Bebê, aqui, nasce. O que não quer dizer que a medicalização não passou por aqui e não normatizou algo que em nada seria patológico. Muito pelo contrário: a França é um país extremamente medicalizado e patologizante.

Essa história de patologização das subjetividades é bem antiga. Não começou com o novo DSM-V que tanta gente, com razão, está gritando que nos fez acordar todos doentes mentais (tem um texto ótimo a respeito aqui e outro aqui). Lamento, mas já acordamos doentes mentais há bem mais tempo do que isso e pouca gente havia se dado conta. Tristeza e luto tornaram-se depressão praticamente desde o momento em que os manuais psiquiátricos inventaram o conceito. Porque o que existia antes era melancolia. É muito interessante acompanhar a evolução dos diagnósticos nos manuais de psicopatologia, ver como eles foram se subdividindo, se multiplicando, se especializando até chegar às raias do detalhe, contemplando cada vez mais e mais campos da subjetividade humana. Até chegar em nossos dias, em que tudo é patologia, tudo é doença, tudo foge à regra. E o que se deve fazer com o que desvia? Endireitar, colocar nos trilhos, normalizar, adaptar. Medicalizar. Para quem se interessa pelo assunto, a melhor referência é o bom e velho Michel Foucault, que mostra magistralmente que isso começou há pelo menos 200 anos atrás, quando a loucura foi a primeira tonalidade subjetiva a se transformar em doença, abrindo espaço para tudo o que seria patologizado depois dela. Além disso, ele ajuda a entender como transformar pessoas em doentes mentais não é algo inofensivo, mas algo que serve a uma certa idéia de norma, a um certo modo de conceber normal e patológico que está – e sempre estará – a serviço de um jogo de poder. Nesse caso, o biopoder, o poder de transformar pessoas em organismos, em meros pedaços de carne dos quais podemos dispor como coisas, para melhor controlá-los. Foucault nunca foi tão atual, infelizmente.

Voltando à França.

Claro que a França, país em que existe um sistema de saúde público, universal e que funciona, não teria como escapar incólume àquilo que oferece a seus cidadãos. E existe uma maneira de pensar saúde e doença aqui – como em todos os países – que orienta suas políticas públicas e o que se oferece como assistência. E o que se oferece como assistência em saúde na França passa por uma concepção de doença bastante patologizante e normalizadora. Basta dizer que este é um dos países com um dos maiores índices de depressão no mundo e, consequentemente, um dos maiores consumidores de medicamentos antidepressivos também. Um modo de pensar o ser humano como doente, uma conduta medicalizadora desse ser humano. Não tem crise na indústria farmacêutica aqui.

E o que isso tem a ver com gravidez e parto?

Tem a ver na medida em que gravidez e parto, aqui, estão sob a jurisdição da medicina tanto quanto no Brasil. Se existe uma diferença significativa e importante na concepção dos franceses de que parto é por via vaginal, isso infelizmente não caminha junto com uma postura menos medicalizada e patologizante desse momento. O corpo da mulher ainda é capaz de parir por aqui – não é o corpo totalmente incapacitado das brasileiras que precisam ser ajudadas integralmente naquilo que se assume que elas não sabem fazer. Mas esse corpo capaz de parir é, segundo as concepções, os protocolos e as condutas de médicos e enfermeiras obstetrizes francesas em sua grande maioria, um corpo imperfeito, meio defeituoso, que precisa ser controlado em permanência durante a gravidez e auxiliado no momento do parto.

Se não, vejamos:

– exames constantes desde a constatação da gravidez buscam averiguar se seu corpo funciona bem: doenças, disfunções, irregularidades, tudo é monitorado em permanência a cada consulta, quer você seja acompanhada por uma enfermeira obstetriz – o mais comum – quer por um médico obstetra. A idéia de um perigo permanente de que algo esteja errado contigo ou com o bebê te assombra, na medida em que a ênfase das consultas é colocada exatamente em avaliar riscos, medi-los, controlá-los. Acompanhar uma gravidez, aqui na França, parece ser concebido como manejar uma ameaça constante, à qual apenas a tecnologia médica teria condições de fazer frente.

– a preparação pré-natal, que poderia ser uma alternativa a essas consultas extremamente direcionadas aos riscos de uma gravidez que pouquíssimas vezes é, de fato, arriscada, parece cair no mesmo discurso medicalizante e patologizante da insuficiência do corpo feminino em ligar com uma gestação e um parto. Esse curso, feito com uma enfermeira obstétrica da maternidade em que você está inscrita ou de forma independente, teria por objetivo explicar às gestantes o que acontece durante o trabalho de parto, o parto, o pós-parto, o aleitamento e por aí vai. Informação, oportunidade de encontrar outras grávidas, discutir, esclarecer dúvidas, descobrir possibilidades… Não é bem assim. Como mostra o diálogo do começo deste post, o que impera é aquilo que é melhor para nós. E, nesse caso, nós não somos as mães, nem nossos bebês. Nós são os funcionários de um sistema de saúde na maior parte das vezes superlotado, em que maternidades usinas devem seguir os protocolos e trazer ao mundo uma quantidade imensa de bebês do jeito que for mais prático para eles. E onde a diferença e a singularidade de cada mãe, de cada bebê, de cada parto atrapalham e devem ser uniformizadas.

Então, falemos de peridural e de todas as intervenções médicas que parecem evidentes e que ninguém coloca em questão, mesmo aqui na França. Onde o sistema de seguridade social paga por tudo isso: por seu acompanhamento, por seu parto, por sua preparação… E  ainda te ajuda nas despesas com gravidez e filhos. Desde que você não saia dos trilhos. Desde que você se encaixe docilmente naquilo que eles concebem como sendo gestar, parir ou criar filhos. Uma normalização perversa, na medida em que é aliada à questão de quem paga a conta, criando ainda mais um motivo – econômico – para você se enquadrar. Não é apenas questão de que o médico sabe mais, de que seu corpo é falho, de que você precisa de ajuda naquilo que não sabe fazer sozinha, de que existem riscos, de que existe dor, de que algo pode dar errado. É também questão de dinheiro. E o dinheiro só sai se você se portar bem.

A França é um país excelente. Isso se você se adaptar aos protocolos deles. E não fizer muitas perguntas que te façam parecer absurda. A não ser que esteja disposta a brigar. E a batalhar por alternativas e exceções que, evidentemente, existem por aqui. Ainda bem. Muitos franceses têm uma grande dificuldade em pensar fora da caixinha. Entre médicos e equipe médica, pelo que tenho constatado, são poucos os que arriscam um pensamento clínico, um raciocínio fora do que está dito que devem fazer, uma opinião. Pensar, aqui na terra das luzes, parece que se tornou perigoso. Você pode ser processado. Você pode ser responsabilizado por sua opinião. Você pode ser punido. Não é bom ser diferente, singular. Melhor seguir estatísticas, diretrizes, normas de conduta. Melhor se adaptar. Isso vale para crianças, adultos, gestantes, bebês, estrangeiros, franceses… E, caso encontre dificuldades, tome um antidepressivo no final do dia, como a maioria das pessoas que te cercam.

Outras informações e reflexões sobre gravidez e parto na França: aqui e aqui.

As dores e as delícias de uma gravidez fora do Brasil…

… ou pequeno manual de sobrevivência para quem, como eu, está vivendo essa experiência na França.
          Porque aqui é o país da burocracia, da papelada, da lentidão e dos pequenos detalhes. E, também, um país em que a gravidez e o parto são muito bem cuidados. Bem mais do que no Brasil, para aquilo que é essencial.
          Assim, eis o que tenho descoberto sobre o caminho das pedras quando se decide ter um bebê por essas bandas.
          Primeira coisa, extremamente importante, para evitar todo e qualquer mal entendido: ter um filho na França NÃO te dá o direito à cidadania francesa, nem à você, nem ao pai da criança. A menos que um de vocês seja francês, ou seja naturalizado, ou tenha a cidadania francesa, isso não muda em nada sua condição de estrangeiro em território francês e você continuará sendo um estrangeiro legal ou ilegal, sujeito a todos os trâmites que os estrangeiros devem seguir por aqui. Ou seja, ter filhos na França não é saída para resolver problemas de imigração, ok? Seu filho também NÃO será francês, a menos que ele continue vivendo na França e que, aos 18 anos, faça um pedido de reconhecimento de sua nacionalidade francesa. Que leva tempo e dá trabalho e que NÃO será estendida aos pais. É fundamental esclarecer isso antes de qualquer coisa, pois se gravidez e parto são extremamente bem cuidados por aqui, quer você seja francês ou estrangeiro, em qualquer situação que você esteja, isso vale apenas para gravidez, parto e maternidade, não para questões de cidadania. Então, sigamos em frente.
          Do ponto de vista da assistência, você pode ficar mais do que sossegada. Uma mulher grávida, na França, tem direitos que são verdadeiramente garantidos. O primeiro é de ser atendida integralmente e acompanhada durante toda a gravidez, com tudo pago pela seguridade social. Para isso, não importa se ela é francesa, estrangeira, imigrante ilegal. O que quero dizer é que, do ponto de vista francês, você está aqui, está grávida e você e seu bebê têm direito à toda a assistência. É um país civilizado. Não pense, contudo, que isso vai te garantir uma cidadania francesa e que essa seria uma boa maneira de obtê-la, pois não é assim que funciona. Mas, no que diz respeito à gravidez e ao parto, você estará em boas mãos. Desde que você esteja grávida, eles cuidam de você. Mas, isso envolve uma certa burocracia que você tem que seguir, caso queira usufruir dos privilégios de um estado de bem estar social que (ainda) funciona.
          Se você está na França legalmente, deve ter algum tipo de seguro saúde, que costuma ser exigido de quem vem passar um período no país, a trabalho ou por seus estudos. É o que se chama “mutuelle” aqui, que é a assistência complementar de saúde. Pois, além dela, aqui você tem uma cobertura da seguridade social, que é a cobertura financiada pelo Estado e que demanda uma inscrição e um número que você não necessariamente terá, como estrangeira, pois isso depende do tipo de visto com o qual entrou no país, se é algo que te permite trabalhar ou apenas estudar… e por aí vai. Normalmente, se você tem direito a trabalhar, e para que você possa fazê-lo, você já deve ter passado pela burocracia de inscrição na “sécu”. Se não, é por aí que vai ter que começar.
          Para isso, o melhor é se informar no setor de alunos ou de acolhimento aos alunos estrangeiros da sua universidade ou, uma outra opção, na Caixa de Assistência à Família, a CAF. Lá é o lugar em que eles cuidam de todos os direitos que você têm enquanto grávida. Eu sugiro que você vá a uma das unidades que existem na cidade em que está, porque conversar pessoalmente é mais fácil do que por telefone. Você pode explicar sua situação: diga como chegou aqui, por que motivo, que descobriu que está grávida, explique em que ponto está com as burocracias, se tem seguridade social, mutuelle, etc. Eles vão te orientar quanto a tudo que você tem que fazer, como e onde. E é para esse setor que você enviará, depois de passar por uma consulta no ginecologista ou na maternidade, o que eles chamam de “déclaration de grossesse“, um documento que dá início aos procedimentos que garantem essa cobertura integral da gravidez e do parto pela seguridade, bem como aos benefícios a que você terá direito ao longo da gravidez, do parto e em seguida. São eles, também, que vão depositar para você um auxílio, em dinheiro, no final da gravidez, além de um auxílio mensal depois do bebê ter nascido, que será de um valor maior, se você estiver sozinha.
          Se o pai do bebê for francês ou alguém da comunidade européia, ou alguém de fora da Europa, mas que está aqui legalmente e que já possui um número de seguridade social e de mutuelle, ele pode te ajudar com isso tudo. Sendo casados ou não, ele pode te registrar como dependente para que você tenha essas inscrições e dê conta, mais rapidamente, dessa burocracia inicial.
          Se no começo da gravidez você ainda não tiver o número da seguridade social, vai ser a mutuelle que vai pagar seus examens e consultas. À partir do quinto mês, a seguridade cobre tudo, até o parto e pós parto. Mas, para isso, você terá que enviar a “déclaration de grossesse” fornecida pelo seu médico ou pela maternidade, que vem em duas vias, uma para a CAF e outra para a seguridade. É com esse documento que eles tomam conhecimento que você existe e que está grávida e se encarregam de suas garantias.
          Mas tudo isso é burocracia e burocracia aqui é complicada e lenta. Então, você vai ter que ter paciência e persistência.
          Outra coisa importante é que, mesmo ainda não tendo o seu número da seguridade social, você já vai poder começar o acompanhamento. Funciona assim: a rede pública e a rede privada trabalham do mesmo modo, não tem luxo e frescura como no Brasil e cesariana é intervenção de urgência, ok? Então, parir aqui significa que você vai ter um parto normal. Nada de marcar cesariana com antecedência, nada de escolher a data, nada de maternidade hotel de luxo, nada de buffett ou festinha na maternidade com os amigos para comemorar o nascimento. Enfim, o essencial. Que é o cuidado com a gestante, com o bebê, com que a gravidez, o parto e o pós-parto se passem bem para ambos. Ainda, o parto será feito pelas enfermeiras obstétricas e não pelo médico, a não ser em caso de complicações, o que é muito melhor, na minha opinião, porque sinaliza uma prioridade dada a um parto menos medicalizado. Mas é bem diferente do que estamos acostumadas. E, ainda, no seu acompanhamento da gravidez, você terá contato com a equipe do local onde vai parir, mas não necessariamente com a pessoa que vai estar contigo na hora do parto, mesmo que você esteja sendo acompanhada por um ginecologista e não por uma enfermeira obstétrica – a “sage-femme” – porque o parto acontece a qualquer hora e será atendido pela equipe de plantão. O médico não estará lá na grande maioria dos casos, e nem a “sage-femme” que te recebeu ao longo das consultas. É menos personalizado e é preciso se acostumar com essa não criação de laços ou de intimidade, o que é tão comum e reconfortante no nosso jeito brasileiro de cuidar da maternidade e do parto. E, certamente, uma das coisas que mais faz falta por aqui, a meu ver.
          Bom, aqui será bem diferente daí, não dá para esperar a mesma coisa. Mas, isso posto, posso dizer que para tudo o que é realmente importante, tenho achado realmente bem melhor do que no Brasil.
          Para começar seu acompanhamento, você vai a um ginecologista aqui. Ou diretamente à maternidade, se já tiver escolhido uma. Ou a um médico que atenda na maternidade em que você pretende dar à luz, se já tiver uma preferência por algum local. Normalmente, nas maternidades eles fornecem uma lista de ginecologistas com os quais trabalham para que você escolha um e marque uma primeira consulta. Isso quando são os médicos que fazem o acompanhamento. Se forem as enfermeiras, eles te indicarão uma que possa te acompanhar.
           Em tempo: uma enfermeira obstétrica, a “sage-femme”, é alguém que tem uma formação médica, que pode perfeitamente te examinar, prescrever medicamentos ou exames, te dar orientações e indicações, enfim, pode fazer todo o acompanhamento de uma gravidez como um médico faria. É algo que não existe no Brasil, mas que aqui é totalmente comum.
          Médico ou “sage-femme”, ele faz para você os primeiras exames, pede os primeiros exames, te dá as primeiras orientações e uma declaração de gravidez, que é o papel que você vai levar na CAF e na sua mutuelle, para eles cobrirem suas despesas. No caso desse primeiro contato ser através da escolha de um médico, não de uma maternidade, ele vai te dizer, também, para você procurar uma desde o começo, especialmente se estiver em Paris, para dar seguimento ao acompanhamento. Porque é na maternidade que o seguimento da gravidez acontece, para a grande maioria das consultas, dos exames e, ainda, dos workshops de informação sobre gravidez, parto e outras atividades que eles costumam propor. E, ainda, porque encontrar vaga em uma maternidade, ao menos em Paris, não é muito fácil. Há que se fazer uma lista de opções segundo os critérios do que julgar importante, ligar, ir até lá, fazer uma inscrição e esperar que eles te digam se há vagas ou não. Enquanto você não estiver inscrita, seu ginéco vai continuar com as consultas e pedindo os exames. Você vai pagar e a mutuelle vai te reembolsar depois.
          Escolhendo sua maternidade, por critério de proximidade com onde você vai morar, para não ter que atravessar a cidade na hora do parto… ou por critérios do tipo de serviço que oferecem, se são mais abertos a um parto natural ou mais medicalizadores, se são maternidades que acompanham apenas uma gravidez sem risco ou maternidades ligadas a grandes hospitais para gravidez de risco, você deve ir lá fazer sua inscrição. Depois de inscrita, vão te enviar à tesouraria da maternidade, onde você deverá apresentar seus números da seguridade e da mutuelle. Não se preocupe se ainda não tiver o número da seguridade. Eles não vão deixar de te atender por isso, vão apenas te dizer que traga assim que receber. Isso é importante, eles NUNCA vão te negar assistência, não podem, é lei aqui. Esse é também um bom momento para, caso você esteja tendo dificuldades com obter esse número, dizer a eles na maternidade. Eles podem te encaminhar ao serviço social, que vai te orientar e ajudar a fazer os pedidos e enviar a papelada.
          Por fim, depois de inscrita, seu acompanhamento passa a ser todo na maternidade. As consultas com a “sage-femme”, boa parte dos exames, fora o ultrasom. Eles também vão te propor um curso para grávidas – a “préparation à la naissance” – com várias informações, orientações e afins, tanto no que diz respeito à gravidez quanto ao parto, à amamentação, ao pós-parto… Existem lugares que oferecem curso com nutricionista, yoga e outras coisas. Tudo é bem bom, bem sério e te ajuda não apenas a tirar muitas dúvidas como, também, a ter momentos de troca com a equipe do serviço em que é atendida e com outras grávidas, o que é sempre divertido, ainda mais quando se é uma expatriada.
          Bom, tudo isso é, espero, tão reconfortante para vocês quanto tem sido para mim. A parte ruim é a burocracia e, além disso, o fato de que ninguém vai ficar te mimando por estar grávida. Aqui, as pessoas vêem a gravidez como algo normal, não fazem um circo em torno disso. Além disso, o francês é um povo bem reservado e mais frio do que a gente, o que significa que, na maternidade, nas consultas, nos exames, em todas essas situações do seu cotidiano de grávida, ninguém vai ficar te paparicando, nem sendo fofo contigo. Eles serão corretos, profissionais, gentis, educados, mas não calorosos. Está bom para você?
          Continuação desta discussão: aqui e aqui.