O mito do amor materno

Já tinha escrito sobre isso antes mesmo do nascimento da minha filha. Mas daí minha comadre da blogosfera, a Carol, escreveu noutro dia um texto lindo e honesto sobre isso e fiquei com vontade de escrever de novo.

Não acredito nesse mito do amor materno. Aliás, não acredito em mito de amor nenhum. Não acredito no mito do amor familial, nem no mito do amor romântico, aquele que une duas pessoas para todo o sempre amém. Quero dizer que penso que nenhum amor é uma obviedade, uma evidência ou uma obrigação. Não é porque é mãe, pai, filho, irmão, marido, esposa que existe amor.

Já perdi as contas de quantas pessoas buscam uma análise justamente por conta de sofrimentos avassaladores perpetrados justamente por aqueles que “deveriam” amá-los e a quem “deveriam” amar. E, por conta dessa obrigação do amor, as pessoas se corroem e se dóem quando suas histórias não se encaixam naquele comercial de margarina. Pensam que é um problema delas, algo defeituoso nelas que as faz não sentirem amor, não se sentirem amados ou, então, sentirem uma ambivalência. E levam muito tempo para perceberem e para se permitirem serem coerentes com aquilo que viveram e vivem: nem todos os pais amam seus filhos, nem todos os filhos amam seus pais por consequência, nem todos os irmãos têm algo em comum além da carga genética, nem todas as famílias partilham dos mesmos valores, projetos, ideologias, nem todos os pais conseguem construir algo além de uma relação protocolar com os filhos, nem todos os filhos se interessam em dividir algo com seus pais, nem todos os casais conseguem ter projetos em comum por toda uma vida… e por aí vai. Ou seja, entre o ideal que enfiaram na cabeça da gente que seria real e possível e que quando não acontece é culpa nossa e aquilo que verdadeiramente cada família vive existe um abismo inteiro de imensas diferenças.

Lembro que o dia em que me dei conta disso foi muito libertador. Não tendo a obrigação do amor por quem quer que seja, poderia finalmente olhar para cada pessoa e construir com cada qual um amor possível, quando ele fosse possível. Sem a priores. Tentando não me deixar tomar pelo que “deveria ser”. Talvez isso tenha me tornado uma pessoa “estranha” aos olhos dos outros. Mas imagino que seja igualmente libertador para eles que, se não tenho a obrigação de amá-los, também não vejo nenhum sentido em exigir deles qualquer tipo de amor por decreto. No que me diz respeito, eles também estão livres para me amarem se – e apenas se – sentirem isso. No hard feelings.

Penso que o amor é construído em cada relação, com cada pessoa e, mais ainda, a cada momento dessa convivência. E se renova diariamente. É como se fosse um voto de casamento que tivéssemos que refazer todo dia. Todo dia, do mesmo jeito que tomamos café da manhã ou vamos ao banheiro, refazemos também essa aposta nesse amor… em todos esses amores que temos. Todo santo dia concluímos que é isso que queremos, que é aquilo que vale à pena, que é nosso projeto, nossa aposta… Todo dia reencontramos a curiosidade pelo outro, a vontade de descobrir, de estar junto, de partilhar esse cotidiano, de saber daquilo que ele vive, de contar de nós… Todo dia chegamos à conclusão de que, novas fora, não queríamos estar noutro lugar, com outras pessoas, noutra situação. É aquela história do “você quer trocar a sua caixa de fósforos por uma bicicleta?”. “Nããããão”. (Desculpem aos que são mais novos do que eu e que não poderão entender a piadinha acima, noutra hora eu explico).

Pois é, mas e o amor materno nisso tudo? Porque, ok, até dá para pensar que com a cara-metade é essa aposta que se renova mas, com filho também? Filho está aí, filho é para sempre!

Claro que é. Mas isso não obriga ao amor de parte a parte. O que faz o amor é esse contato cotidiano, as experiências compartilhadas, as descobertas… Não são os momentos bons apenas, aqueles que correspondem ao seu desenho ou à imagem que você faz de como “deveria” viver a maternidade. São todos os momentos e aquilo que sobra no seu coração e na sua alma justamente de passar por todas essas experiências à cada dia.

Essa minha comadre blogueira dizia que não sentiu amor logo que o filho nasceu. E muita gente se sente assim e é algo tão perturbador que ninguém comenta, porque parece horrível não estar morrendo de amores por aquele sujeitinho que acabou de nascer e que você mal conhece… Mas me parece muito mais bonito justamente perceber que esse amor vai acontecendo. Longe das obrigações, dos chavões e dos estereótipos, esse amor pode acontecer e ser cultivado nos acontecimentos mais banais, nas miudezas do dia-a-dia.

Tem gente que parece que se desestabiliza todo com a simples menção de que o amor não é uma obrigação ou uma evidência. Como se isso fosse uma ameaça ao amor. Eu acho que é justamente o que o torna tão bonito e precioso. Por não ser obrigatório em nenhuma circunstância, é belo quando acontece. E quando decidimos cuidar dele, sabendo que amor é como planta viva, que tem que ser regada diariamente com sonhos, apostas, olhares, investimento e cuidado.

Ontem e hoje…

… você decidiu olhar fundo nos olhos da mamãe, com um olhar de tanto amor que o coração até ameaça parar… e a respiração se prende… e nenhum músculo se movimenta…

Tentativas da mamãe de congelar aquele momento sublime e passar o resto de seus dias vivendo naquele olhar de tanto amor.

… você olha fundo nos olhos da mamãe e sorri. E balbucia palavras doces que um dia serão palavras. Mas que não precisam ser palavras, porque seu olhar diz tanto…

Acho que você descobriu que a mamãe existe. E isso é encanto, amor, ternura. E também medo.

Fica com medo de estar sozinha? Por isso chora?

Não se doa tanto, meu anjo. Mamãe está aqui contigo.

Esse estranho sentimento.

(version française ici)

Não acredito muito nessa história de instinto materno. E ainda menos no tal do amor materno. Ser mãe – como ser pai – são construções sociais, determinadas por nossa cultura, nossa história, a época em que vivemos, aqueles que nos cercam. Ser mãe ou pai certamente não tem o mesmo significado hoje que tinha no século XVIII. Mas tomamos como uma evidência à qual tentamos nos adequar, do mesmo modo como tentamos nos adaptar a tudo aquilo que parece ser “como deve ser”.

Tem uma autora muito perspicaz que escreve frequentemente a respeito do mito do amor materno, a historiadora Elisabeth Badinter. Ela trabalha para desconstruir a idéia de que o amor materno seria instintivo, inato e natural, mostrando todas as circunstâncias que contribuem para sua existência. Vale a leitura.

Mas, voltando a esse estranho sentimento, sempre achei uma grande violência exigir que as mulheres:

  1. queiram ter filhos;
  2. sintam-se felizes e realizadas ao tê-los;
  3. os amem incondicionalmente.

Porque nada disso, ao contrário do que nos querem fazer acreditar, é natural ou evidente.  Podemos querer ter filhos ou não, podemos nos realizar com a experiência da maternidade ou não, podemos amar nossos filhos ou não. E ninguém deveria ser julgado ou culpabilizado quando não segue a conduta da massa nesse assunto. Mas a maior parte das pessoas prefere apontar o dedo e criticar quem não se adapta ao padrão, né? Como se houvesse apenas um modo de viver, de sentir e apenas um desejo legítimo de se realizar nessa vida. Que pobreza de espírito… Sigamos.

Lembro do período em que fazia meu mestrado e uma de minhas colegas escrevia, justamente, a respeito da adoção. Ela defendia a idéia de que, em caso de adoção, havia uma relação entre mãe e bebê que tinha que ser construída, um afeto que tinha que ser criado, pois eles não estavam desde sempre lá, presentes e nem garantidos, visto que o bebê não era filho daquela mãe. Era uma tese interessante, mas que caía justamente nessa suposição, que acabei de apresentar, de que um bebê e sua mãe “de sangue” não teriam nenhum trabalho a fazer, tudo estaria ali pronto e dado para eles: o laço, a ligação, o sentimento, o amor, a relação, a intimidade. Como se uma mãe “de sangue” não tivesse, ela mesma, que tornar-se mãe.

Não me parece que seja assim.

Mulheres grávidas têm as mais diversas reações a esse fato. E o mesmo acontece depois que o bebê nasce. Tem gente que esquece que está grávida, que não sente nada, nenhuma ligação com o bebê na barriga. Tem gente que não sente um laço depois que ele nasce. Tem gente que antes mesmo de engravidar já está criando uma história entre si e aquele potencial filho… Tantas possibilidades quanto existem pessoas nesse mundo. Nenhuma é melhor do que a outra.

Existe um filme magnífico do cineasta argentino Pablo Trapero chamado Leonera que fala exatamente disso, do momento em que uma mulher vira mãe. Nesse caso, uma mulher que é presa suspeita de ter assassinado o marido e que se descobre grávida na prisão, não tendo nenhum interesse nessa gravidez e nem na criança que nasce até que…

Pois é, parece que, às vezes, acontece um até que. Um momento, uma situação que faz sentido e cria a possibilidade de que uma mulher vire mãe. Em algum momento. Vemos como isso acontece no filme, já vi isso acontecer com mulheres da minha família e com pacientes em consultório. Já vi isso não acontecer também. E, por isso, por não ser uma obviedade, ficava curiosa em saber se isso aconteceria para mim. E quando aconteceria.

Que os ultrasons ajudaram a tornar real a experiência da gravidez, já contei aqui. Que falar com o bebê na barriga ajudou a inventar um diálogo com uma outra pessoa que, nesse momento, partilha intimamente do meu dia-a-dia, isso também contribuiu. Como uma construção que vai se fazendo tijolo por tijolo, um dia após o outro, as imagens, as conversas… Até saber que é uma menina e tornar tudo ainda mais real, um bebê que é uma menina, que tem um nome, que tem uma carinha que começo a ficar curiosa por conhecer… E passar a chamar de filha, um momento tão forte em que me dei conta de que, para mim, ela não apenas existe como tem um nome e um lugar… Tudo isso antes mesmo de nascer, quem diria. Quem diria que comigo seria assim?

Não sei se tive um momento único, um até que. Ou se esse caldo de momentos é que foram semeando em mim o meu até que. Sei que, noutro dia, acordei, olhei para minha barriga, dei bom dia para minha filha e sorri à toa, sentindo um amor muito profundo por uma pessoa que ainda mal conheço. Que não seja natural ou evidente apenas torna isso tudo ainda mais extraordinário.

Leonera - Pablo Trapero
Leonera – Pablo Trapero