A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Mesversário

Essa foi a última vez que contamos a idade da nossa pequena em meses. Mesversário, palavra engraçada, mas cheia de sentido, já que cada mês desse primeiro ano de vida equivale certamente a um ano qualquer. Acontecimentos, descobertas, intensidade concentrada em um mês, encantamento para uma vida inteira. Difícil traduzir em palavras o que é o primeiro ano da vida de um filho, onde tudo é novo, tudo é surpresa, tudo é deleite, tudo é amor. Sim, a intensidade traz também dificuldades imensas e elas doeram um bocado. Mas e cada sorriso? E os dentes aparecendo na boca sorridente? E as mãozinhas pegando cada macarrão para levar à boca? E a cantinela da hora de comer frutas?

Posso dizer sem muito medo de exagerar que quase todo dia desse último ano teve ao menos uma surpresa, um acontecimento, uma novidade, um gesto, um momento de profundo silêncio e emoção incontida que me fizeram indagar se será mesmo que antes já havia sido feliz? Sim, claro que já fui feliz antes. E claro que já amei. Mas nem tudo o que conhecia sobre amor e felicidade haviam me preparado para esse olhar no fundo dos olhos, esse olhar que sorri e se ilumina e sorri com o rosto inteiro e quase que com o corpo todo e vira uma risada alegre, tornando a felicidade tão fácil, os dias tão azuis e ensolarados, a vida tão bela quanto uma brisa que agita as folhas das árvores em um fim de tarde, criando luzes e sombras que se movimentam estroboscópicas, refletidas na parede do seu quarto e que você tanto gosta de olhar.

A cada mesversário eu olho no relógio e penso o que estava acontecendo nesse mesmo dia, há meses atrás. Penso no que vivi e te conto o que aconteceu naquele dia em que você nasceu. Você olha atenta e séria, com aquela sua carinha simpática, compenetrada, absorta, como quem absorve com cuidado cada palavra. E agora, diferente dos outros meses, você se vira e desce da cama sozinha, do jeito que seu pai te ensinou. E engatinha do seu modo assimétrico até o terraço e fica em pé apoiada nas grades e cantarola e grita mil sons diferentes, como quem canta para o mundo todo alguma coisa muito boa e muito feliz. Parece que você quer participar a cada passante da rua sua existência, sua graça, suas descobertas. Não me espantaria se boa parte deles se deslumbrasse, você sabe cativar quem quer que esteja por perto.

Danada, agora deu também para querer comer tudo sozinha, levando a colher na própria boca. E noutro dia acordou, desceu da cama e foi tomar água da sua garrafa ali no tapete. Entro no quarto e ali está você, toda autônoma, toda feliz, quieta e entretida com as próprias capacidades. Orgulho de te descobrir assim tão cheia de possíveis e pontada no coração de não ser mais necessária em algumas coisas. Nós, mães, temos dificuldades tantas em ter alguém que depende integralmente de nós sob nossos cuidados, mas temos ainda mais dificuldades em ver essa dependência, essa necessidade, essa precisânsia (acabei de inventar, é precisão + ânsia, não é bonito?) deixar de ser naqueles lugares em que finalmente tínhamos nos acostumado. E aparecerem noutros lugares. Ou simplesmente deixarem de ser para nunca mais. Novos desafios a cada dia, somos postas em cheque permanentemente. E isso dói na mesma medida em que nos enche de surpresa, de orgulho e de gratidão.

Minha menina, não é verdade que tudo passou tão rápido. Verdade é que foram tantas e tantas coisas. Como um furacão em slow motion olho ao redor pela casa e vejo brinquedos, livros, roupas, sapatos, fraldas, bagunça… E percebo que tudo está no seu devido lugar.

Mês que vem passaremos a te festejar em anos. E as únicas coisas que posso desejar é que sejam muitos e muitos. E que eu possa te acompanhar e participar de muitos e muitos deles.

Te amo.

O mito do amor materno

Já tinha escrito sobre isso antes mesmo do nascimento da minha filha. Mas daí minha comadre da blogosfera, a Carol, escreveu noutro dia um texto lindo e honesto sobre isso e fiquei com vontade de escrever de novo.

Não acredito nesse mito do amor materno. Aliás, não acredito em mito de amor nenhum. Não acredito no mito do amor familial, nem no mito do amor romântico, aquele que une duas pessoas para todo o sempre amém. Quero dizer que penso que nenhum amor é uma obviedade, uma evidência ou uma obrigação. Não é porque é mãe, pai, filho, irmão, marido, esposa que existe amor.

Já perdi as contas de quantas pessoas buscam uma análise justamente por conta de sofrimentos avassaladores perpetrados justamente por aqueles que “deveriam” amá-los e a quem “deveriam” amar. E, por conta dessa obrigação do amor, as pessoas se corroem e se dóem quando suas histórias não se encaixam naquele comercial de margarina. Pensam que é um problema delas, algo defeituoso nelas que as faz não sentirem amor, não se sentirem amados ou, então, sentirem uma ambivalência. E levam muito tempo para perceberem e para se permitirem serem coerentes com aquilo que viveram e vivem: nem todos os pais amam seus filhos, nem todos os filhos amam seus pais por consequência, nem todos os irmãos têm algo em comum além da carga genética, nem todas as famílias partilham dos mesmos valores, projetos, ideologias, nem todos os pais conseguem construir algo além de uma relação protocolar com os filhos, nem todos os filhos se interessam em dividir algo com seus pais, nem todos os casais conseguem ter projetos em comum por toda uma vida… e por aí vai. Ou seja, entre o ideal que enfiaram na cabeça da gente que seria real e possível e que quando não acontece é culpa nossa e aquilo que verdadeiramente cada família vive existe um abismo inteiro de imensas diferenças.

Lembro que o dia em que me dei conta disso foi muito libertador. Não tendo a obrigação do amor por quem quer que seja, poderia finalmente olhar para cada pessoa e construir com cada qual um amor possível, quando ele fosse possível. Sem a priores. Tentando não me deixar tomar pelo que “deveria ser”. Talvez isso tenha me tornado uma pessoa “estranha” aos olhos dos outros. Mas imagino que seja igualmente libertador para eles que, se não tenho a obrigação de amá-los, também não vejo nenhum sentido em exigir deles qualquer tipo de amor por decreto. No que me diz respeito, eles também estão livres para me amarem se – e apenas se – sentirem isso. No hard feelings.

Penso que o amor é construído em cada relação, com cada pessoa e, mais ainda, a cada momento dessa convivência. E se renova diariamente. É como se fosse um voto de casamento que tivéssemos que refazer todo dia. Todo dia, do mesmo jeito que tomamos café da manhã ou vamos ao banheiro, refazemos também essa aposta nesse amor… em todos esses amores que temos. Todo santo dia concluímos que é isso que queremos, que é aquilo que vale à pena, que é nosso projeto, nossa aposta… Todo dia reencontramos a curiosidade pelo outro, a vontade de descobrir, de estar junto, de partilhar esse cotidiano, de saber daquilo que ele vive, de contar de nós… Todo dia chegamos à conclusão de que, novas fora, não queríamos estar noutro lugar, com outras pessoas, noutra situação. É aquela história do “você quer trocar a sua caixa de fósforos por uma bicicleta?”. “Nããããão”. (Desculpem aos que são mais novos do que eu e que não poderão entender a piadinha acima, noutra hora eu explico).

Pois é, mas e o amor materno nisso tudo? Porque, ok, até dá para pensar que com a cara-metade é essa aposta que se renova mas, com filho também? Filho está aí, filho é para sempre!

Claro que é. Mas isso não obriga ao amor de parte a parte. O que faz o amor é esse contato cotidiano, as experiências compartilhadas, as descobertas… Não são os momentos bons apenas, aqueles que correspondem ao seu desenho ou à imagem que você faz de como “deveria” viver a maternidade. São todos os momentos e aquilo que sobra no seu coração e na sua alma justamente de passar por todas essas experiências à cada dia.

Essa minha comadre blogueira dizia que não sentiu amor logo que o filho nasceu. E muita gente se sente assim e é algo tão perturbador que ninguém comenta, porque parece horrível não estar morrendo de amores por aquele sujeitinho que acabou de nascer e que você mal conhece… Mas me parece muito mais bonito justamente perceber que esse amor vai acontecendo. Longe das obrigações, dos chavões e dos estereótipos, esse amor pode acontecer e ser cultivado nos acontecimentos mais banais, nas miudezas do dia-a-dia.

Tem gente que parece que se desestabiliza todo com a simples menção de que o amor não é uma obrigação ou uma evidência. Como se isso fosse uma ameaça ao amor. Eu acho que é justamente o que o torna tão bonito e precioso. Por não ser obrigatório em nenhuma circunstância, é belo quando acontece. E quando decidimos cuidar dele, sabendo que amor é como planta viva, que tem que ser regada diariamente com sonhos, apostas, olhares, investimento e cuidado.

Esse estranho sentimento.

(version française ici)

Não acredito muito nessa história de instinto materno. E ainda menos no tal do amor materno. Ser mãe – como ser pai – são construções sociais, determinadas por nossa cultura, nossa história, a época em que vivemos, aqueles que nos cercam. Ser mãe ou pai certamente não tem o mesmo significado hoje que tinha no século XVIII. Mas tomamos como uma evidência à qual tentamos nos adequar, do mesmo modo como tentamos nos adaptar a tudo aquilo que parece ser “como deve ser”.

Tem uma autora muito perspicaz que escreve frequentemente a respeito do mito do amor materno, a historiadora Elisabeth Badinter. Ela trabalha para desconstruir a idéia de que o amor materno seria instintivo, inato e natural, mostrando todas as circunstâncias que contribuem para sua existência. Vale a leitura.

Mas, voltando a esse estranho sentimento, sempre achei uma grande violência exigir que as mulheres:

  1. queiram ter filhos;
  2. sintam-se felizes e realizadas ao tê-los;
  3. os amem incondicionalmente.

Porque nada disso, ao contrário do que nos querem fazer acreditar, é natural ou evidente.  Podemos querer ter filhos ou não, podemos nos realizar com a experiência da maternidade ou não, podemos amar nossos filhos ou não. E ninguém deveria ser julgado ou culpabilizado quando não segue a conduta da massa nesse assunto. Mas a maior parte das pessoas prefere apontar o dedo e criticar quem não se adapta ao padrão, né? Como se houvesse apenas um modo de viver, de sentir e apenas um desejo legítimo de se realizar nessa vida. Que pobreza de espírito… Sigamos.

Lembro do período em que fazia meu mestrado e uma de minhas colegas escrevia, justamente, a respeito da adoção. Ela defendia a idéia de que, em caso de adoção, havia uma relação entre mãe e bebê que tinha que ser construída, um afeto que tinha que ser criado, pois eles não estavam desde sempre lá, presentes e nem garantidos, visto que o bebê não era filho daquela mãe. Era uma tese interessante, mas que caía justamente nessa suposição, que acabei de apresentar, de que um bebê e sua mãe “de sangue” não teriam nenhum trabalho a fazer, tudo estaria ali pronto e dado para eles: o laço, a ligação, o sentimento, o amor, a relação, a intimidade. Como se uma mãe “de sangue” não tivesse, ela mesma, que tornar-se mãe.

Não me parece que seja assim.

Mulheres grávidas têm as mais diversas reações a esse fato. E o mesmo acontece depois que o bebê nasce. Tem gente que esquece que está grávida, que não sente nada, nenhuma ligação com o bebê na barriga. Tem gente que não sente um laço depois que ele nasce. Tem gente que antes mesmo de engravidar já está criando uma história entre si e aquele potencial filho… Tantas possibilidades quanto existem pessoas nesse mundo. Nenhuma é melhor do que a outra.

Existe um filme magnífico do cineasta argentino Pablo Trapero chamado Leonera que fala exatamente disso, do momento em que uma mulher vira mãe. Nesse caso, uma mulher que é presa suspeita de ter assassinado o marido e que se descobre grávida na prisão, não tendo nenhum interesse nessa gravidez e nem na criança que nasce até que…

Pois é, parece que, às vezes, acontece um até que. Um momento, uma situação que faz sentido e cria a possibilidade de que uma mulher vire mãe. Em algum momento. Vemos como isso acontece no filme, já vi isso acontecer com mulheres da minha família e com pacientes em consultório. Já vi isso não acontecer também. E, por isso, por não ser uma obviedade, ficava curiosa em saber se isso aconteceria para mim. E quando aconteceria.

Que os ultrasons ajudaram a tornar real a experiência da gravidez, já contei aqui. Que falar com o bebê na barriga ajudou a inventar um diálogo com uma outra pessoa que, nesse momento, partilha intimamente do meu dia-a-dia, isso também contribuiu. Como uma construção que vai se fazendo tijolo por tijolo, um dia após o outro, as imagens, as conversas… Até saber que é uma menina e tornar tudo ainda mais real, um bebê que é uma menina, que tem um nome, que tem uma carinha que começo a ficar curiosa por conhecer… E passar a chamar de filha, um momento tão forte em que me dei conta de que, para mim, ela não apenas existe como tem um nome e um lugar… Tudo isso antes mesmo de nascer, quem diria. Quem diria que comigo seria assim?

Não sei se tive um momento único, um até que. Ou se esse caldo de momentos é que foram semeando em mim o meu até que. Sei que, noutro dia, acordei, olhei para minha barriga, dei bom dia para minha filha e sorri à toa, sentindo um amor muito profundo por uma pessoa que ainda mal conheço. Que não seja natural ou evidente apenas torna isso tudo ainda mais extraordinário.

Leonera - Pablo Trapero
Leonera – Pablo Trapero