O oitavo mês

Nunca pensei que fosse usar uma imagem dessas em um post, mas acho que vocês vão me entender e perdoar minha licença poética brega assim que terminarem a leitura.

Sabe aquele malfadado filme, o Titanic, aquele mesmo do malfadado Di Caprio e da Kate diva que fez toda uma geração chorar oceanos gelados no cinema ouvindo aquela aguda daquela Celine Dion?

Então.

Sabe aquela cena um pouco antes do navio afundar de vez em que eles vão subindo feito uns malucos, escalando objetos, madeiras, gente e tudo o mais até chegar lá no topo de um navio bizarramente vertical?

Eis o oitavo mês de gestação.

É assim. É o pega pra capar. O salve-se quem puder.

Eu aceitaria feliz uma gravidez de elefante que durasse uns dois anos se a gente pudesse pular o oitavo mês. Quem em sã consciência inventou esse oitavo mês, minha gente? Foi a natureza querendo tirar uma com a nossa cara?

Explico-me.

Você acorda um dia e se olha no espelho e a sensação que tem é que a partir daquele momento, ali, em você, naquele seu corpitcho não cabe mais nem um suspiro. Não cabe mais nada ali dentro. E ainda falta um mês! Aonde é que vai caber mais um mês de bebê crescendo nessa barriga?

Aliás, você simplesmente nem mais suspira, porque o pequeno rebento, quando sente algum espacinho extra, alonga os pés nas suas costelas e daí, colega, é uma briga de foice para ver quem vai ficar com aquele vão que se desocupou quando o ar saiu de seus pulmões. É meu! Não, é meu, meus pulmões estavam aí primeiro, espertinho, eles voltam para aí assim que forem inspirar novamente!

Andar sem pensar na cena do T-Rex do Jurassic Park? E consciente de que o T-Rex é você? Oitavo mês. Pois é, eu disse que esse post estava infame em termos de referências filmográficas. Nenhum Bergman, nenhum Tarantino, nenhum Woody Allen. Só o T-Rex e você tentando pisar leve e não acordar a casa toda nas 50 vezes em que precisar fazer pipi.

Aliás, quem inventou o oitavo mês podia ter inventado o pipi que evapora ao invés de ter que sair pelas vias urinárias, né? Uma visita ao banheiro, para cada ml. de água consumido. Mas não é para ficar hidratada? Não pode mesmo tentar fazer o camelo e estocar água numa corcova qualquer para não ter que expelir? Ah, pois é, tinha esquecido, tem o bebê na corcova, não tem espaço pra estocar nenhuma água além do líquido amniótico que o rebentinho bebe e solta ali mesmo, sem ter que levantar para ir no banheiro 50 vezes por noite. Sortudo do caramba.

E fora a água, não tem mais muito o que possa entrar no corpão. Comida? Para por onde, minha gente? Entra um biscoito, seguem-se cinco horas de azia, tudo entalado na garganta, que o bebê ainda não conseguiu alongar as pernas até ali. Você já consegue se solidarizar com todos os seres com refluxo dessa terra, já considera que há alguma lógica na bulimia e tem absoluta certeza que seu estômago está mais comprimido que o ar daquele cilindro de mergulho que sempre te juraram que dava para usar por mais de uma hora, de tanto ar que tinha ali dentro compactado.

Hormônios? Hahaha, pelo menos aqui encaixo uma referência cult. Sabe o Jack do Iluminado? Ele sairia correndo de você com o rabinho entre as pernas. Oitavo mês, don’t mess with me. Nessa hora, cara-metade que for espertinho já entendeu que melhor não contrariar, melhor não argumentar, melhor nem existir muito. E continuar comprando papel higiênico, pão para o café da manhã e biscoitos. Porque, vai que, né? Dormiu bem? Conseguiu descansar, meu amor? Cuidado, você corre um sério risco de tornar-se a próxima vítima do Jack, the ripper.

E os olhares de piedade das pessoas a cada vez que te encontram? Nossa, você está enooooorme! Faz quanto tempo que a gente não se vê? Uma semana, dez dias? Sim, dez dias de oitavo mês, seus pentelhos. Aquela expressão de temor de que você exploda ali do lado a qualquer minuto e voe bebê, placenta e todos os biscoitos que ficaram entalados e que eles precisem ajudar em algo. Valeu, gente. Valeu, mesmo. Tô me sentindo bem melhor agora.

Ah, mas é o último mês… É a reta final…

Justamente, é como naquele game maneiro em que você chega na fase bonus master plus. Você é praticamente uma mestre Jedi da gravidez, já encarou enjôo, sono, ganho de peso, mudanças hormonais, desejos estranhos, exames mil, decisões importantes, apreensões desnecessárias, comentários infames? Lide com o oitavo mês, minha cara, e depois a gente conversa. Um mês sem enxergar seus artelhos, seus pentelhos, seus joelhos e vamos ver quem não pede para sair. Você pede, mas o bebê parece não estar nem um pouco apressado para sair da sua barrigota. Putz!

A loucura da faxina? Foi no sétimo mês. Você já varreu, já limpou, já montou o berço, já decorou o quarto, já lavou as roupas, secou, passou, separou por tamanho, depois tirou tudo, mediu uma por uma porque as numerações não significam nada, arrumou de novo, preparou a mala da maternidade, sentou, pensou na vida, tricotou um gorrinho, arrumou o quarto de novo que começava a pegar poeira, lembrou de umas três ou quatro coisas que faltavam… Nada mais para fazer a não ser esperar. O médico solta aquela pérola: à partir de agora, é com ele. Pois é. Oitavo mês.

Seria uma espécie de humor negro da natureza esse tal de oitavo mês? Um mês que dura uns 365 dias de 48 horas cada um não pode ser algo normal, vai…

A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Oito meses, barrigão e verão europeu…

… socorro! Fujam para as montanhas! Ou não, porque até nas montanhas o sol está de lascar. Ninguém deveria estar em final de gravidez em pleno verão. Ou ninguém em sã consciência. Mas queria o que, né? Fazer contas e calcular a melhor época do ano para ter o bebê, consultando a previsão do tempo, os astros, a programação cultural e a agenda dos movimentos sociais? Não, a vida não se calcula dessa maneira. Ainda bem. Sempre é bom constatar que existe lugar para o que foge ao controle, ao plano, ao pré-estabelecido. Não somos máquinas e a vida não segue o nosso script pré-formatado. Mas, putz!

Temperaturas acima dos 30°C + barrigão gigante = inchaço, cansaço, dificuldades mil. Como proceder?

Não sei, os miolos derreteram… Aliás, essa é uma das maravilhas da gravidez: os miolos derretem e você deixa de prestar atenção em uma porção de coisas. Bobas ou não. Especialmente no final, quando bate o cansaço e a cabeça se volta inteira para a expectativa frente aos próximos capítulos. Esquece o que te dizem antes de terminarem a frase. A tal da esquizofrenia da gravidez, da qual falei noutro post. Benção das bençãos.

Outra maravilha: a pequena decidiu virar atleta e faz alongamento toda hora na barriga. Tem horas em que acerta as costelas, tem horas em que amassa a bexiga, e noutras faz cócegas na cintura. Ok, ok, ela está se aperfeiçoando. Parece estranho, como uma cena qualquer daquele Alien que me aterrorizava tanto quanto a cara de terror da Sigourney Weaver mas, na verdade, é tão incrível! Sentir os movimentos de uma outra pessoa no seu corpo, movimentos alheios à sua vontade e completamente estrangeiros às possibilidades contidas nos seus movimentos, para alguém que fez todo o tipo de dança a vida inteira e que sempre prestou muita atenção àquilo que o corpo pode fazer, é algo da ordem do extraordinário. Extraterreno. Alien mesmo. É o momento em que a pequena dá sinais de vida e revela que, mesmo junto, já existe separada da mamãe e da barriga. Já tem lá sua singularidade, já faz seus gestos, já inventa suas coreografias, já procura seu espaço num barrigão que vai ficando pequeno para tanta vontade de ser, de existir, de se mover… Creio que, para mim, os movimentos da bebê e os momentos de encontro por meio da imagem do ultrasom foram os mais importantes para trazer realidade e corpo a essa pequena, tornando sua existência palpável, verdadeira, substancial. Um efeito colateral positivo da tecnologia, em um caso, uma das banalidades dessa experiência desde que o mundo é mundo e que mulheres engravidam, no outro. Dois extremos de um acontecimento que, hoje em dia, é permeado de natureza tanto quanto de técnica.

Ah, e não podemos nos esquecer do conversê, né? Falar com a barriga, aquilo que eu fazia de modo constrangido no começo, tornou-se a obviedade mais cotidiana desses meses. A bebê mexe, a gente conversa. Ou melhor, eu falo, ela faz sua dancinha. Pode ser no ônibus, no restaurante, na praia, no conforto do sofá. A gente se entende, naquele estado de loucura particular que é a gravidez, tão necessário para que a mãe e o bebê se conectem e que ela possa atender às necessidades do seu rebento, que vai depender tanto dela no início. Como diria o bom e velho Winnicott: existe uma loucura necessária à maternidade, que faz a mãe poder supor aquilo de que o bebê precisa. E entre essa aposta, os acertos e os erros, ela termina por compreender melhor esse bebê, assim como ele termina por saber comunicar melhor aquilo de que precisa. Conversa que começa assim, meio maluca, até que um consegue desvendar melhor o outro e um tanto de encontro entre esses dois diferentes se torna possível.

Junto com as maravilhas que fazem todo esse percurso ter momentos de muita alegria, emoção e deslumbramento – os movimentos, os papos, as imagens, o desencanar geral e até a conquista da possibilidade de dizer um dane-se e de fazer uma faxina em pessoas, projetos e valores que não contribuem mais em nada para a vida, – vem também a parte menos divertida: os temores de cada mês, de cada exame, de cada consulta, as ameaças de cada risco que médicos, leituras ou amigos da onça colocam na sua cabeça, o sobressalto com cada mudança, cada coisinha que acontece ou não acontece, os medos e inseguranças, o desconhecido, o peso que pesa no corpo e dificulta o movimento assim como o peso que pesa na alma e que traz a responsabilidade, a preocupação, o tentar antecipar e prever todos os perigos, a necessidade de proteger e cuidar, a busca de fazer o melhor. Inchaço, barriga grande, calor não são nada frente a tantas preocupações que decidem crescer na mesma proporção que o final da gravidez se aproxima e que você sabe que algo vai mudar, tudo vai mudar, em uma direção que você desconhece e para a qual nunca se preparou. Penso que não existe leitura que chegue, não existe preparação para o parto que dê conta, não existe curso que esclareça, não existe sonho que antecipe o que vem ali adiante, quando o barrigão virar bebê e a barriguda virar mãe.

Entre anseios, expectativas e risadas com pés nas costelas, o que resta é aproveitar o tempo. Esse tempo malemolente e arrastado de verão quente que deixa tudo lento, lesmento, gosmento, suado. Sol nos miolos dando ares de irrealidade ao tempo que passa, dando tempo ao tempo para que a pequena se prepare. E para que a mamãe se esqueça de tudo o que aprendeu e possa, enfim, viver o que só pode ser vivido.

Sétimo mês? Putz!

(version française)

E a gente começa a se perguntar se já não é o suficiente. Porque sim, eu sei, esse último trimestre é extremamente importante para a pequena ganhar peso, desenvolver os pulmões e ficar linda e saudável e prontinha para nascer. Mas a questão que me assola é: onde é que vai caber mais bebê dentro desse corpinho limitado e pelos próximos dois meses? A barriga já cresceu para todos os lados, os músculos dão sinais de estarem em sua extensão máxima, tudo parece caminhar para uma explosão iminente. Sabe aquelas brincadeiras de criança em que você enche a bexiga até ela estourar e tem um momento em que parece que não vai dar mais e a bichinha distende, distende, fica fininha, fininha, transparente e… bum! Então… E como nessa busca por espaço cada milímetro deve ser otimizado, a pequena achou por bem alojar seus belos pezinhos sob as minhas costelas. O que significa cócegas nas costelas, dedadas nas costelas, alongamentos nas costelas, chutes nas costelas… socorro! Aliás, eu que nunca entendi direito para que as tais costelas serviam, acho que finalmente captei: são a barra de exercícios do bebê na barriga, as danadas.

E todos os órgãos que se alojavam confortavelmente nesse espaço? Bom, minha teoria é que agora todos se acumulam no espaço entre meu osso externo e a minha garganta. O estômago, por exemplo, foi parar na garganta, tenho certeza absoluta. Basta comer qualquer coisa tão infinitamente pequena como um amendoim e ele já dá sinais de vida ali, na garganta, onde tudo entala e permanece por horas e horas e horas e horas… E como conciliar a fome com o embolamento do estômago que você sabe que vai vir a cada vez que você comer porque, simplesmente, ele deve estar morando ali na sua garganta junto com as suas amídalas, seu coração, seus pulmões, seus rins, seu pâncreas, seu fígado… Todo mundo enlatado feito sardinha no ônibus do final do dia.

E a bebê nas suas costelas. E você já não enxerga mais nada abaixo da sua barriga. E seus pés se tornaram seres distantes e alienígenas qual um E.T. com quem você passou a ter grande dificuldade de fazer contato. E.T. phone home. Venham, venham para casa pezinhos, venham para a mamãe que existem unhas a serem cortadas. Bom, além de entender a utilidade verdadeira das costelas, renovei meus amores pela manicure.

A sorte é que no sétimo mês a gente se diverte arrumando o quarto, as coisas do bebê, brincando de decoradora, arquiteta, pintora, personal stylist, lavadeira, passadeira. Deve ser o modo de adiantar tudo para tentar adiantar o tempo e acreditar que é para logo em breve. O tempo, ah, esse senhor que se revela em toda a sua complexidade quando estamos grávidas, passando tão depressa e tão devagar a ponto de deixar qualquer um maluco. Einstein devia ser uma mulher grávida quando inventou a teoria da relatividade.

E a tal curiosidade? Como será o rostinho dela? Será o nariz da mamãe ou do papai? O sorriso da mamãe ou do papai? E as mãozinhas? Os pezinhos, esses danados que eu vou morder muito depois que a pequena nascer, só para descontar o dano costelento provocado. E o cabelo? Será que vai ter muito cabelo? E os olhos? E nisso se vai uma bela meia hora de devaneios, sonhos e tentativas de antecipar o tempo e saber do futuro que está logo ali, pés nas costelas e dois meses adiante. Esse futuro que tem nome, sobrenome, lugar, quarto, berço, roupas, fraldas, cortador de unhas, aspirador de nariz. E amor, amor de todas as partes e de tantas gentes que ela nem imagina.

Fica mais um pouco na barriga, bebê. Vamos cuidar desse pulmãozinho para você respirar bem esse ar fresco que tem feito aqui fora. E, por favor, nada de estragar esse belo trabalho que mamãe e papai fizeram virando fumante, ok? Ai, putz…

Pelo direito de gestar

Logo que me descobri grávida, em conversas com um grande amigo, confidenciei que andava tendo muita dificuldade em manter minha rotina de trabalho, pesquisa, escrita, estudo. Todos esses afazeres obrigatórios para quem tem uma ocupação intelectual se tornaram mais lentos, mais penosos, menos interessantes. Os hormônios, o início da gestação, as mudanças… putz, quanta coisa! Trabalhadora que sou e que sempre fui, “workaholic” orgulhosa e convicta, isso que eu entendia como uma “leseira” me angustiava. Esse amigo acrescentou ainda mais lenha no fogareiro que andava a minha cabeça, me dizendo que eu tinha que conseguir fazer todas aquelas coisas, naquele ritmo, especialmente agora que estava esperando um filho e que ele dependeria de mim. Conclusão da conversa: às minhas dificuldades somou-se o peso imenso de me sentir relapsa frente ao bebê pelo qual sou, desde que foi concebido, responsável.

E lá vai a pessoa aflita tentando fazer, tentando ler, tentando pensar, tentando escrever, tentando cumprir prazos e ritmos que tornaram-se, a partir dessa mudança em minha vida, uma violência contra mim e contra o que eu estava vivendo. Não, no meu caso não deu certo forçar a barra não. Mas me fez pensar. Muito. Pensar sobre essa lógica estranha em que vivemos e que nos impõe dar conta de absolutamente tudo. E que rotula como preguiça, descaso ou irresponsabilidade cada atitude que uma pessoa tome contra o fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Putz, vamos contra a corrente então. O que gostaria de defender aqui é exatamente isso: o direito de mudar de ritmo, o direito de mudar de prioridade, o direito de gestar. E o direito de que isso tudo seja tão valorizado quanto ser “workaholic”, intelectual ou qualquer outro valor de nossa sociedade atual. Me explico.

Tenho a impressão que alguma coisa do discurso feminista se engessou e se virou contra nós, mulheres. E passou a servir a um discurso dominante que busca, antes de mais nada, não favorecer e respeitar as escolhas e as singularidades mas, ao contrário, sujeitar todos a um mesmo caminho comum. Acéfalo, a-crítico, impotente. Caminho que, não por acaso, anula todos para o proveito de uns poucos. Sim, estou falando do discurso capitalista e do feminismo tendo sido cooptado por esse discurso capitalista e por outros tantos discursos dominantes bastante cruéis e perversos. Pois, se a luta do feminismo foi e é a dos direitos iguais, da igualdade de oportunidades e de condições, como é que isso tornou-se, em algum momento, uma pressão sobre as mulheres que se vangloria em ditar que algumas escolhas são melhores do que outras?

Então é assim hoje em dia: você trabalha, constrói uma carreira, dá o sangue, faz aquilo que gosta e tudo isso é extremamente valorizado socialmente pelos seus pares, pelas outras mulheres, pela sociedade (…ops, nem tanto, que ainda somos bem machistas, mas em vários meios é, sim, bastante valorizante a mulher intelectual, a mulher que pensa, a mulher que trabalha). Você é livre, exerce seus direitos, faz valer sua condição. Parabéns para você.

Em relação ao amor, você escolhe seus parceiros, você constrói junto com cada um deles maneiras singulares de estar junto, você exerce sua sexualidade com liberdade, você se bate contra os tabus da sua cabeça, dá de costas ao conservadorismo circundante e se permite ter prazer. Seu corpo, suas escolhas. Bom, muitos torcem o nariz, mas um tanto de gente te valoriza justamente por aquilo que muitos condenam. Outra estrelinha.

Então você encontra alguém, constrói uma relação amorosa, ou apenas vive uma relação de amor da qual engravida. Pouco importa para você essas definições, mesmo que para os outros isso tenha muita importância e os admiradores de toda aquela liberdade e daquela autonomia já estejam quase todos de cara amarrada que você tenha levado a sério essa idéia de construir um caminho pessoal, próprio, seu. Mas, mesmo assim, você ainda terá algum valor: mulher, livre, bem sucedida, com uma profissão, autônoma, viável financeiramente e, agora, com amor e com filhos. Way to go, girl! Você chegou no topo. Todo mundo te aplaude e te inveja.

Ou melhor. Depende.

Tudo isso é admirável e valorizado se, e somente se você for capaz de fazer a mulher biônica e der conta de todos esses investimentos ao mesmo tempo, num lapso de segundo da sua vida onde tudo conflui. Trabalho, amor, filhos. Você tem que arcar com isso tudo. E com brilhantismo. Afinal, não queria ter todos os direitos, oportunidades, condições?

Putz, aí vem a cilada. E quanto mais você é bem sucedida, quanto mais tenha construído um percurso que tenha, aos olhos dos outros, algum valor, mais as pessoas vão te tomar como uma traidora da causa no momento em que você cogitar fazer algo que, para elas, seja altamente suspeito de atentar contra esses tais valores.

O que, reduzir o seu trabalho, seu ritmo, sua produções para cuidar de filho? Que retrocesso!

Aqui na França, um dos berços do feminismo que deu certo, é quase uma heresia ousar pensar em algo parecido. Se der muita importância a isso, pode passar por iludida ou equivocada. Ingênua, no melhor dos casos. Vendida, no caso das radicalizações mais xiitas. Se disser que é prazeroso e realizador estar grávida ou ser mãe, então, capaz de ser apedrejada. Ou, ao menos, perder uma boa parte dos seus amigos. No Brasil, em muitos círculos, digamos, mais “intelectuais” e esclarecidos da nossa sociedade, não é muito diferente. Maternidade? Ok, mas sem muito engajamento. Não sei não, essa mentalidade esquisita me deixa com a pulga atrás da orelha…

Quando foi que uma defesa pelo direito de escolha tornou-se obrigação de uma única escolha? Quando foi que o discurso feminista tornou-se um radicalismo xiita que julga, desrespeitosamente, as mulheres como sendo melhores ou piores a partir do que elas, legitimamente, escolham para si? Um discurso que deveria ser o primeiro a validar que mulheres possam escolher não apenas não ser mãe, como também desejar sê-lo, não apenas trabalhar e conquistar autonomia intelectual e financeira como também priorizar outras coisas que não o trabalho? Onde foi que essa defesa de uma liberdade tornou-se uma prisão em uma única forma de ser mulher e de dar prova de que você é livre, esclarecida, bem-sucedida e feliz?

E desde quando a maternidade não é e não dá trabalho? Desde quando isso vale menos do que um trabalho formal? Talvez desde o momento em que fomos, feministas ou não, engolidas pelo discurso capitalista no qual o que vale é apenas o que é útil, produtivo, rentável. Ao defender mulheres que dão conta de tudo e ao condenar mulheres que escolham dar conta apenas de algumas coisas em detrimento de outras, cá estamos a legitimar o discurso de que pessoas – homens e mulheres – servem apenas quando são peças bem azeitadas de uma máquina cujo objetivo é produzir. Lucro. Veja bem: lucro vale mais do que gente. Produzir gente para continuar dando lucro, maravilha. Parabéns por ter filhos. Produzir gente e se preocupar em participar ativamente para que essa gente seja gente boa, pensante, afetuosa, amante, amada, cuidadosa, generosa, interessada, singular, ética… bom, aí você está produzindo problema, né? Relaxa, vai cuidar “das tuas coisas”, da tua carreira, do teu sucesso profissional. Isso tudo é que é importante. Deixa que a gente cuida do rebentinho para você. Hein?

Se você for uma mulher bem independente e autônoma e bem inserida nessa engrenagem na qual o seu trabalho, qualquer que seja, alimenta o poder nas mãos de um outro, nem pense em tentar se safar com essa idéia de dedicar-se à maternidade e de dedicar-se ao seu filho. Isso é absurdo, é andar para trás, é anti-feminista, é machista, é reacionário. Certo mesmo é não baixar a guarda, não abrir mão, não recuar naquilo que conquistou. Se não você vai perder tudo, viu? Mas a pergunta importante, nesse momento, seria: perder o que? Em nome do que?

Veja bem, se quer mesmo tanto ser mãe, vá lá. Mas faça do jeito certo: concilie tudo. Seja ainda mais máquina. Seja um automato pensando que é um autônomo… Todos vão te dar a maior força: vai, é assim, você consegue. E, o pior, você também acredita. E se o investimento no trabalho muda… culpa. E se não consegue, em meio à sua rotina insana, ainda dedicar-se à gravidez, curtir, estar feliz ou, depois, ser o que dizem que é “uma boa mãe”… culpa. A culpa é sua, minha senhora, que não está fazendo bem o bastante. Não ajustou as peças da maquininha que é você para funcionar direito. Você acredita que é possível, que tem que dar conta e, mais grave ainda, que é exatamente isso o que quer para você, para sua vida e para a do seu filho. Será mesmo que quer? Você parou para pensar o que quer com ser mãe?

Ao invés de dar conta, por que não dar as contas para essa lógica perversa?

Depois de mais de 15 anos trabalhando de sol a sol, depois de um percurso profissional muito bem sucedido, depois de duas especializações, uma formação, um mestrado, um doutorado, dois pós-doutorados, um fora do Brasil, artigos publicados, livros, palestras e afins… Depois de tanto trabalho e de tanta conquista, quando eu me descobri grávida e percebi que todas essas coisas ganhavam um outro lugar agora… (e olha que nem foi uma idéia de desistir, de largar tudo, apenas a constatação de que coisas, projetos e investimentos mudam de lugar…). Depois de todo esse percurso, tornei-me uma ameaça para várias pessoas apenas por cogitar viver minha gravidez, aproveitá-la, experimentá-la, descobrir com ela. Uma ameaça de retrocesso por pensar que isso, essa experiência, ter um filho pode ser tão bom e tão valioso quanto tudo o que fiz. E por querer me dedicar a isso do mesmo modo como sempre me dediquei a tudo, ou seja, intensamente.

Ainda bem que sempre têm algumas poucas pessoas que conseguem sair da caixinha pré-formatada e pensar com a própria cabeça e que são capazes de dizer: “viva isso, é legítimo tanto quanto tudo o mais que você já viveu” para te dar um alento, não? Parece que vira e mexe resvalamos em um clichê: do “a maternidade é uma benção” para o “seja mãe, mas não seja apenas isso” para o “seja independente e invista em você, na sua carreira, no seu futuro”… Arremessadas de um lado para o outro, sempre às voltas com algum imperativo sobre o que fazer, como fazer, como ser, como sentir, o que viver. Putz, alto lá!

Então, se eu posso dizer alguma coisa de útil é: “viva isso”. Não deixe de viver sua gravidez porque todo mundo, inclusive você, enfiaram na sua cabeça que é preciso dar conta de tudo, que não pode parar, diminuir, recuar, que tem que continuar independente, trabalhadora, bem-sucedida, o que quer que essas palavras signifiquem. Trabalhe, se isso faz sentido. Trabalhe mais, menos, mude de rumo. Mas não caia no engodo de que isso que você está vivendo é uma coisa banal e sem importância que não deveria alterar sua rotina, nem mudar seus projetos que, esses sim, são fundamentais. Pensar assim, a meu ver, é negar a realidade de que uma gestação muda sim seus planos, seus projetos, sua rotina, seus desejos, suas prioridades. Para o melhor e para o pior. De todo modo, algo muda. E qual o problema? Por que é que a maternidade não pode ser importante a ponto de mudar uma pessoa?

Talvez, para essa cultura do sucesso, do êxito, do reconhecimento a qualquer preço seja realmente um problema que, em algum ponto, as pessoas passem a se questionar se é isso mesmo o que importa. Mas, afinal, o que você prioriza na sua vida: ser aquilo que dizem que é o que vai te realizar e te fazer feliz ou tentar descobrir o que, na sua vida singular, te traz realmente alguma realização e alguma felicidade?

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Mas o bebê sente tudo o que a mamãe sente?

Drawing woman surrounded by her children - Pablo Picasso - 1950
Drawing woman surrounded by her children – Pablo Picasso – 1950

 

Está aí uma boa pergunta, que sempre me deixa de cabelo em pé, ainda mais quando vem em forma de afirmação: “ah, mas fique bem porque o bebê sente tudo!” Quer dizer que, além de ter que dar conta de tudo o que acontece, eu não posso reagir emocionalmente a nada de ruim porque, caso tenha um mau pensamento ou um mau sentimento, estarei prejudicando o bebê? Sério, alguém já parou para pensar na cilada que é esse tipo de afirmação? Porque, minha filha, agora, além de não poder fazer mais nada, nem de expressar mais nada, você não pode mais nem sentir nada ou você será uma péssima, péssima, péssima mãe. E você não quer isso, né? Putz…

Acho que esse tipo de idéia entra no mesmo rol de “maternidade é uma benção”, uma posição unilateral, que não dá espaço para a pluralidade que é a vida e que prefere jogar para debaixo do tapete tudo aquilo que é rejeitado, condenável, incomodo. Estabelecemos uma idéia de como devemos ser, como devemos viver, como devemos reagir a cada experiência da vida e tudo o que foge ao padrão tem que ficar bem escondidinho. Com o agravante que, em uma gravidez, escondidinho não pode nem mais ser dentro de você, no segredo do seu silêncio ou dos seus pensamentos, porque dentro de você tem o bebê e se ele e seus segredos se encontrarem… minha nossa, que perigo! O bichinho corre o risco de ficar contaminado por toda a porcaria que você guardou ali. Euh, melhor arrancar tudo de dentro de você e jogar num lixo, daqueles lixos tóxicos de resíduos nucleares que ficam enterrados sob toneladas de concreto num fim de mundo qualquer. E do qual nunca mais se tem notícia até o dia em que ele vaza, transborda por uma rachadura da parede e todo mundo é obrigado a lembrar que não dá para o lixo ficar debaixo do tapete para sempre. O velho Freud sabia das coisas quando dizia que tudo que vai para debaixo do tapete volta para cobrar a conta.

Essas idéias unilaterais que a gente cisma em colocar como um ideal servem apenas para nos torturar por toda uma vida, cobrando e cobrando a nossa incapacidade, a nossa insuficiência em ser como se deve. Na hora de ser mãe então, em que nem o nosso íntimo é lugar seguro para guardar as nossas falhas, ficamos presas na cilada da maneira mais cruel, tendo que manter o pensamento e o sentimento em suspenso para não correr o risco de nada de ruim sair dali.

E será que o bebê sente mesmo?

Acho que seria mais realista perguntar o que é que o bebê sente. Porque supor que o bebê sente que a mamãe está irritada porque teve uma pane de gás no bairro e isso deixou a casa congelada em pleno inverno é supor que um bebê pode decodificar e atribuir os mesmos sentidos que um adulto. Para um mundo que ele ainda mal conhece. Como seria possível? Ou um bebê na barriga é uma espécie de mestre Yoda que sabe tudo, entende tudo, registra tudo, percebe tudo e que, quando nasce, perde todos os super poderes a ponto de não ser capaz nem de dizer se está com fome ou com sono, ou essa suposição de que o bebê sente, o bebê percebe, o bebê sabe é alguma coisa próxima demais da paranóia, né?

A verdade é que ninguém tem como saber o que é que um bebê sente e que marca isso faz na existência dele ali na barriga. Os cientistas pesquisam, os psicanalistas supõem, os religiosos afirmam, mas no fundo, no fundo, mesmo todo mundo achando que encontrou a verdade, é tudo mera suposição. Porque o bebê não lembra e não vai poder nos contar depois. Então, por que acreditar no pior dos casos? Será mesmo que ficar triste, desanimada, cansada, em dúvida, com medo, com raiva, ambivalente, irritada… será que tudo isso tem realmente o poder de prejudicar o bebê? Será que o bebê vai perceber tudo isso como sendo o que é e será que ele vai ficar traumatizado por que tem dias que a mamãe não sabe o que fazer, não sabe mais se quer ter filho, tem medo do que está por vir? Puxa, mas que bebê poderoso que sabe tudo e que mamãe poderosa que pode prejudicar o bebê com um mero pensamento, hein? Cruzes!

Eu gosto mesmo do Freud, porque ele sempre me ajudou a entender que, muitas vezes, isso que a gente coloca nos outros, isso que a gente pensa que é a verdade dos outros ou da vida mostra, tão somente, o jeito como a gente funciona, aquilo em que a gente acredita, nosso esqueleto, por assim dizer. E o Freud sempre dizia que temos um dom especial para acreditar que somos transparentes, como se estivéssemos desnudados frente às pessoas e como se nossos pensamentos e sentimentos mais incomodos tivessem o poder de atos e pudessem ferir, matar, destruir. Ledo engano. A gente pode muito pouco e isso é que é duro de engolir. E não somos transparentes. Nem para fora, nem para dentro. Nem para nós mesmos, nem para o bebê.

Eu gosto de imaginar – porque parece que estamos mesmo num terreno em que apenas a imaginação pode saber de alguma coisa – que o bebê sente o que eu sinto do mesmo jeito que ele sente quando eu como uma pratada de feijoada. Ou seja, que ele tem sensações, tumultos, intensidades, agitos, calmarias, confortos e desconfortos. Mas, até aí, se é tristeza, preocupação, azia ou congestão, talvez seja para ele apenas da ordem do barulho indecifrável em que ele vive com a mesma curiosidade com a qual vai viver tudo ali na barriga, porque ainda não conhece nada. Nem dividiu ainda o mundo em bem e mal. Nem sabe que existem “bons” e “maus” pensamentos e sentimentos.

Se tudo vai bem e o bebê está ali, no quentinho, talvez tristeza seja como uma barriga que se contrai feito um coração apertado, talvez raiva seja o rufar dos tambores dos dias de azia ou de gases, talvez amor seja a calmaria da respiração do sono ou os balanços compassados das horas de sexo… Talvez… Quem sabe?

Joe Sorren - Mother and child
Joe Sorren – Mother and child