O marido gringo (BC – Papo de mãe)

O marido gringo é um artigo que provoca fascínio e inveja. Não sei se por conta de nossa mentalidade de colonizados que olham gulosos para tudo aquilo que vem de fora como se fosse melhor e mais interessante, temos essa idéia fixa de que quem vive fora do país leva uma vida hollywoodiana. Se a pessoa se casa com um gringo, então, é motivo para alvoroço e histeria generalizados. E muito falatório pelas costas depois.

Pouca gente tem noção dos percalços de uma vida fora do país de origem. A maioria nem sequer imagina como é viver fora da própria cidade onde nasceu. Olhando com olhos de turista tudo parece bonito, agradável e glamouroso. Os relacionamentos com estrangeiros, então, parecem a chave do paraíso. Não são. Relacionamentos são bons e são ruins sem exceção e nenhum é o ideal, mesmo que passemos a vida pensando que alguém consegue ter aquela vida de casal de propaganda de margarina que fizeram com que acreditássemos que é possível. Não é. E contos de fadas não existem. E o príncipe encantado não salva a donzela no final. O que o relacionamento com um gringo faz é escancarar mais explicitamente essas impossibilidades, mostrando no dia-a-dia que amor e vida conjunta são decisão constante, acordos, conversa, trabalho e muita, muita paciência. O estrangeiro te coloca de cara com as diferenças e te obriga a encará-las. Se ele é teu marido, a provocação é cotidiana.

Putz!

Como é que é o marido gringo, então, esse sonho de consumo de tantas brasileiras?

Ele é um sujeito, um outro, muito mais diferente do que parecido, mesmo que em princípio hajam pontos em comum que os unam e distâncias atraentes, com o qual você se propõe a partilhar sua vida e que, além de todas as diferenças que qualquer outro teria, carrega consigo o fato de ser de outro país. Outra língua, outra cultura, outros costumes. Tudo o que pode ser extremamente charmoso no jogo de sedução, mas com o que você precisa lidar com muita abertura de espírito no dia-a-dia de uma vida a dois.

E quando ele se torna pai da sua filha, então? Minha nossa senhora, fujam para as montanhas!

Exemplos?

O marido gringo não vê necessidade de te acompanhar nas consultas do pré-natal. Nem nos exames de ultrasom. Ficar contigo na maternidade? Por quê? (Ouvi muitas histórias de maridos franceses que não ficaram com as esposas no período em que as mesmas estavam na maternidade, simplesmente porque não vêem nenhum sentido em ficar ali se elas não estão doentes e se eles podem muito bem seguir com a vida normal).

O marido gringo pensa que parto normal é aquele em que uma anestesia é obrigatória, pois não vê sentido algum em que alguém sinta dor em uma situação em que isso poderia ser evitado. Intervenções médicas são bem vindas e saudadas com alegria, pois elas servem para melhorar a vida de todos. ( A França é uma das campeãs em intervenções médicas, por conta do seu sistema de saúde em que as pessoas podem ter suas consultas, exames e intervenções pagas pela seguridade social. Isso criou uma perversão bastante bizarra que faz com que as pessoas vão ao médico o tempo todo, sem razão alguma. E o critério para decidir se um exame será feito ou não é se ele é reembolsado, não se ele é necessário).

O marido gringo acredita que bebês dormem no seu quarto desde a primeira noite. De preferência, a noite inteira. Pois precisam aprender a dormir. E a se acalmarem sozinhos. (O método nana nenê poderia perfeitamente ter sido inventado na França, onde os pais franceses costumam ser bem disciplinadores com seus filhos. Não é à toa que temos agora aquela avalanche de livros de americanos deslumbrados porque crianças francesas comem de tudo, não fazem manha e mais uma porção de coisas que as pessoas acham que sinalizam que as crianças francesas são educadíssimas. Esquecem apenas de se perguntar se elas são felizes. Ou seja, pais franceses disciplinadores não apenas no bom sentido, pois muitas vezes a criação envolve um modo frio e pouco afetivo de lidar com as crianças. Não é à toa que a França é uma das campeãs no uso de antidepressivos no mundo).

O marido gringo está convencido de que peito e mamadeira são a mesma coisa. E que uma chupeta não faz mal à ninguém e ainda ajuda o bebê a dormir e ficar calminho. (Na França, o aleitamento materno é uma tragédia, as mulheres amamentam pouquíssimo e por pouco tempo e algumas maternidades fazem muito esforço e até uma grande pressão para que as mulheres amamentem. Já ouvi de boca de pediatra que não é obrigatório amamentar e não importa qual deles te prescreve com facilidade um suplemento de leite em pó, o que faz com que muitas crianças saiam tomando mamadeira já da maternidade. E com chupeta na boca, claro).

Tudo isso para mostrar que às diferenças de concepção sobre mater/paternidade juntam-se contextos culturais outros, educações diferentes, outros costumes, outras formas de ver a vida que não apenas justificam as posições do marido gringo como tornam qualquer conversa muito mais complicada, já que ele estará sempre apoiado pelo discurso vigente no seu país. Que é justamente onde vocês moram. A menos que ele seja um peixe fora d’água com tanto senso crítico quanto você, né?

Claro que o marido gringo pode te ensinar coisas maravilhosas, como a liberdade que é poder pegar sua filha e sair de casa, não importa com que idade, não importa para onde. Como aqui não existe essa cultura das babás 24 horas por dia e as famílias não são necessariamente presentes e participativas mesmo quando há um bebê novo no pedaço, o jeito para viver a vida é, simplesmente, vivê-la. Sem muito drama, sem muita restrição, sem muita frescura. Botar a bebê no sling e sair para dar uma volta. Ou arriscar uma viagem. Ou andar na beira da praia. Ou jantar fora. Enfim, o que for razoável e puder agradar a todos.

Também é o marido gringo quem pode te ensinar a simplicidade de uma relação menos machista, em que ele se ocupa dos cuidados com a pequena tanto quanto você, sem que isso receba a estranha interpretação do “ele me ajuda”. Mesmo em uma França machista anos luz atrás dos anglo-saxões ou dos nórdicos, que guarda ainda bastante de sua latinidade no seu aspecto mais misógino, não há como comparar aquilo que o marido gringo faz com naturalidade com aquilo que muitos ogrinhos brasileiros fazem apenas sob os holofotes e com muito drama. Marido gringo cuida da bebê. Ponto.

 

Em resumo, marido, gringo ou não, traz ensinamentos e dificuldades. Como toda relação que funciona bem, demanda esforço e dá prazer. A chegada de um filho abala tudo o que estava assentado antes e, gringo ou não, ele vai ter que pensar muito bem no que está fazendo contigo. E você fará o mesmo. Pois nada suscita mais amor e mais dificuldades para um casal do que o nascimento de um filho. Ou, se suscita, eu ainda não sei e espero nem descobrir tão cedo.

Marido gringo que se torna pai de um filho seu causa toda uma revolução, pois à partir dali os dois sabem que não é apenas o exotismo, as diferenças interessantes ou o sotaque bonitinho que alegrarão o dia-a-dia. Desde que o rebento nasce, eis duas pessoas ligadas permanentemente e, mais ainda, dois países, duas culturas, duas distâncias oceânicas tendo agora que confluir para um único ser, fruto desses dois tão distintos. Haverá uma criança metade brasileira, metade gringa. Haverão duas línguas, dois temperos nas comidas, duas canções de ninar. Haverão duas formas de criar, haverão dois modos de amar. Com sorte, toda essa diferença será uma riqueza, e os pequenos sairão ganhando.

(Esse post foi inspirado pelo tema: “E os pais?” da blogagem coletiva Papo de mãe)

Papo de mãe: qual foi a sua maior dificuldade com a maternidade até hoje?

Eu responderia sem muito pestanejar: a solidão.

É verdade que a maternidade tem muitas dificuldades. Ou melhor, prefiro dizer, pois me parece mais condizente com o que tenho vivido, que a maternidade tem muitos desafios. Uma experiência nova na vida de alguém que já viveu tantas coisas, já tem seus gostos, seus modos, suas idéias, suas manias, suas histórias, sua bagagem, suas desilusões e suas verdades é sempre algo revolucionário, que chega para bagunçar a cabeça, a rotina, o conhecido, tudo o que foi estabelecido. Maternidade tem dessas coisas, a cada dia um acontecimento novo e, com ele, a necessidade de se perguntar: como é que queremos viver isso? Como pensamos em cuidar, criar, amamentar, alimentar, ensinar, educar? Como pensamos em amar esse serzinho que chegou agora aqui?

São tantas dúvidas e tanto desconhecimento que a sensação é de vertigem. E, claro, surgem dilemas, tensões, frustrações o tempo todo. A amamentação que deveria ser evidente, por ser natural, demanda uma batalha cotidiana. A falta de sono que deveria ser minimizada pela mudança de ritmo e por seguir os tempos do bebê fica aumentada pelo fato de, no final do dia, você precisar de um tempo para você e decidir aproveitar enquanto o rebento dorme para ter esse momento pessoal. As vacinas, as consultas médicas, as curvas de peso… tudo vira motivo para pensar, para buscar compreender. E para tomar posição.

E a disponibilidade? Ou a obrigação de estar disponível, afetivo, cheio de amor para dar, cheio de tolerância e compreensão quando o bebê precisa de você, ou seja, sempre? E as cólicas, os choros, os dentes?

Sim, são mesmo muitos desafios, coisas pequenas e banais que você não imagina que poderiam dar tanto trabalho, suscitar tantas questões sobre modos de proceder ou, até, tantas discussões com quem está em volta. É trabalho, minha gente. Trabalho e mais trabalho. Daqueles grandes, daqueles sérios. Daqueles que a gente só faz quando tem muito desejo envolvido.

Mas, novamente, a meu ver esses são desafios. São as perguntas, os dilemas e as decisões que vêm junto com o bebê. E que, pelo que dizem, nos acompanham por toda a vida. Porque sempre vai haver algo em que se pensar, algo a fazer, uma decisão a tomar. Maravilhoso e turbulento mundo em que o outro nos provoca em tudo acerca de nós mesmos. Filhos são belas provocações.

O que me pareceu realmente difícil, até agora, foi a solidão dessa experiência. Foi passar por todas essas novidades cotidianas e tomadas de decisão praticamente sozinha.

OK, eu vivo em uma situação sui generis, pois vivo fora do país. Então, não tem mãe, pai, irmã, tia, amigos próximos desses amigos-irmãos por perto para dar aquela força, um abraço amigo, ou para segurar a pequena na hora em que preciso fazer pipi. Nem tenho marido que pode estar o tempo todo por perto. Mas não penso que essa solidão seja por conta dessa circunstância apenas. Penso que é uma solidão com que toda mãe se depara por mais acompanhada que ela esteja.

É uma solidão que a gente descobre logo que o bebê nasce e, quando ele chora, não tem ninguém mais capacitado que você para acudir, sabe? É quando você descobre que virou o adulto da situação e está na linha de frente e que, agora, tem que cuidar de um outro que precisa ser cuidado. É quando deixa de ser filha para ser mãe e o centro de sua vida muda de lugar. É quando tem que tomar as decisões mais banais e cotidianas pesando as informações que tem, os prós e contras e torcendo para ser realmente o melhor. É quando você sabe que, se der merda, a responsabilidade é sua e tudo o que você mais deseja é que não dê merda. É quando você sente que tornou-se um ser à flor da pele que pode se desfazer se o outro sofrer e você não puder evitar. É quando os outros não podem te aliviar dessa responsabilidade porque você sente o quanto é sério ter posto alguém nesse mundo e que, agora, tem a obrigação de oferecer a ele o melhor mundo possível. É essa consciência da dependência e da extrema fragilidade daquele bebê que te torna, você também, tão dependente, tão frágil, tão pequena. É quase desmoronar e não poder, pois sabe que alguém conta profundamente contigo.

Essa solidão que a maternidade traz e instaura na nossa vida, isso me parece o mais difícil, o mais desconcertante. Por sorte existem outras mães em suas solidões e isso nos permite partilhar. Solidão compartilhada não dói e, ainda, nos torna mais humanas. Mas isso já é outra história, talvez para outra postagem, ou talvez seja exatamente sobre o que eu falava na postagem anterior. Mas, de todo modo, já entramos noutra conversa.

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Este texto faz parte de um outro projeto de blogagem coletiva que acho muito simpático, o “Papo de mãe” proposto pela Lalah do blog Agora eu sou mãe.

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Ela e eu.

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Ela chegou no horário combinado e me perguntou o que eu queria que fizesse. Não fazia idéia. Lavar as roupas da bebê? Passar? Dar banho? Continuei sem saber. Precisava de ajuda, isso era claro. Mas uma ajuda para o que precisamente?

Seria estranho e dolorido demais falar da solidão, das dificuldades em amamentar, da necessidade de apoio, do cansaço. Ainda mais com alguém que mal conhecia. Sabia que era brasileira e que estava ilegalmente no país. Sabia também que tinha dois filhos, um deles, um bebê de sete meses que ela mesma tinha que deixar com um outro alguém para poder trabalhar.

O primeiro dia foi complicado. Quando tentei deixar a bebê com ela para ir apenas até a padaria e a farmácia, coisa rápida de 20 minutinhos no máximo, a pequena chorou sentido. E quando voltei estava chorando ainda, sem entender quem era aquela estranha e por que eu desaparecera. Nesse dia, ela foi embora e eu fiquei me perguntando, o coração doído: como é que ela poderia me ajudar, se aparentemente não seria ficando com minha filha enquanto eu fizesse outras coisas, motivo pelo qual a havia chamado antes de tudo?

Dia seguinte ela retorna. Eu bem que tentei pensar em uma lista de tarefas, mas não sabia. Ela chegou tranquila, viu que tinha uma louça na cozinha e foi arrumar. Depois lavou umas roupinhas, passou outras, ajudou com o banho. Foi fazendo uma coisa ali, outra aqui, fazendo a casa andar. O tempo passou, ela foi e voltou no dia seguinte.

Dia após dia ela foi e voltou. Sempre tranquila, falante e cheia de histórias sobre seus filhos, cuidando de pequenas coisas. Pequenas coisas essenciais, que ficavam emperradas em um cotidiano de mãe recém parida tumultuada e atropelada por essa vida nova que mal sabia por onde começar. Provavelmente as mesmas pequenas coisas que fazia na casa dela, em sua rotina de mulher e mãe que trabalha. O mesmo cuidado. A mesma atenção. Para que tudo funcione. Para que a maternagem tenha sossego para acontecer.

Não, ela não estava ali para cuidar da bebê. Ela estava ali para me ajudar para que eu pudesse cuidar da minha filha. E isso ela compreendeu bem antes de mim. E muito delicadamente foi fazendo, sem que eu soubesse o que lhe dizer sobre o que fazer.

Mãe amorosa de dois, não amamentou o segundo. Logo passou para a mamadeira. Ela recontava essa história doída a cada vez que me via dando de mamar. Dizia do quanto lamentava ter parado e do quanto tinha sido maravilhosa sua primeira experiência. O que aconteceu? Como eu, ela havia sido mal orientada por pediatras e outros profissionais da saúde que, vendo o baixo ganho de peso de seu filho no primeiro mês, concluíram – erroneamente – que ele não se alimentava o suficiente porque ela não tinha leite o suficiente e indicaram o uso da mamadeira e do leite em pó. Ela, assustada que seu pequeno pudesse passar fome, cedeu. Eu insisti, brigando com médico, pediatra e meio mundo. Tanto o bebê dela quanto a minha ganharam peso, cresceram e estão muito bem de saúde. Mas ela perdeu a amamentação. Sim, uma perda, ainda mais por ela saber muito bem o que havia perdido, baseada em suas memórias recentes do longo contato com a primeira filha. E me ver amamentando tocava nessa ferida dela, fazendo-a falar e se perguntar. Respostas que eu também não tinha.

Qual a diferença entre nós? Por que, frente à mesma situação, duas reações tão distintas? Empoderamento? Falta dele? Confiança em si mesma? Falta dela? Crença cega no saber médico?

Um pouco disso tudo e, a meu ver mais ainda, a questão da imigração. Ela e suas histórias me fizeram perceber quanta diferença havia entre nós, duas brasileiras na França. E o quanto essas diferenças passavam por estarmos aqui legal ou ilegalmente. E o quanto essa busca por uma vida melhor, por uma perspectiva de vida, por uma vida, simplesmente, uma vida que possa ser vivida com o mínimo de decência e de dignidade coloca pessoas como ela, por vezes, em situações tão doloridas. Não foi apenas o saber e o poder médico e da indústria de alimentos e produtos infantis que inviabilizaram a experiência de amamentação dela. Foi tudo isso sendo jogado sobre uma pessoa fora da sua zona de conforto, fora do seu país, da sua cidade, da sua língua, da sua família onde ela poderia, facilmente, ter se baseado em sua experiência de já ter parido, já ter amamentado, já ter maternado para simplesmente dizer: “não, não vou fazer o que vocês me dizem. Eu sei mais, eu sei que meu filho está bem e eu sei do que ele precisa”. Ela teria tido toda a garra e toda a condição de bancar assim esse segundo filho. É raçuda essa moça. Mas viver em outro país faz isso com a gente, especialmente quando se vive com medo de ser passado para trás, explorado, trabalhar sem receber, ser preso, humilhado, deportado, perder tudo. Ameaças tão comuns a tantos “sem papéis” que, no entanto, vêm aqui não apenas cuidar de fazer uma vida melhor para si mas, também, fazer o mundo girar e dar condições para que a caduca Europa não envelheça e morra sem nem conseguir renovar sua gente para pagar por sua aposentadoria. Velha Europa cheia de contradições, que maltrata os que garantem sua sobrevivência… Em uma situação de tanta precariedade, que te digam ainda que você não dá conta de alimentar o seu filho suficientemente e que ele precisa de mamadeira… bom, como não acreditar? Como não se submeter? A imigração esmaga muita gente tanto quanto o saber médico e o poder da milionária indústria de produtos para a primeira infância. E se ela fez a escolha de dar mamadeira para seu filho, essa escolha me pareceu totalmente atravessada por tais circunstâncias.

Ela não era uma inimiga por ter tomado um caminho diferente do meu na sua experiência da maternidade na medida em que optou por dar mamadeira com leite em pó ao seu filho. Do mesmo modo que eu não era sua inimiga, jogando meu seio e a amamentação na sua cara para mostrar-lhe como é que se faz, lembrando a ela o quanto “menos mãe” que eu ela seria. Minha existência não era um julgamento das escolhas dela e nem a dela dizia nada sobre as minhas. Éramos apenas, ela, eu e tantas outras, mais duas mulheres bombardeadas por informações desencontradas, equivocadas, servindo a múltiplos interesses que não os nossos e os de nossas crias. E tendo que fazer frente a isso apenas com nossos próprios desejos, as informações de que dispomos, nossas experiências de vida. Sozinhas. E em outro país.

Ela foi e voltou muitos dias. E, pouco a pouco, me vi capaz de saber o que fazer. E o que lhe pedir. De seu lado, ela deixou de ser uma estranha para a bebê e pode ficar com ela nas vezes em que precisei. Me ajudou com muitas coisas banais com extrema doçura: como limpar atrás da orelha, como cortar unha, como ver se a bebê não está com cólica… Penso tê-la ajudado a saber mais sobre os seus direitos por aqui. E sobre como conseguir fazê-los valer sem ficar dando dinheiro a exploradores inescrupulosos da necessidade alheia. Trocamos experiências, histórias e informações.

Hoje o bebê dela faz um ano. Infelizmente, a pequena e eu não pudemos ir na festinha. Mas penso com enorme carinho nesse pequeno, o menino lindo que ela deixa em casa para vir ajudar com a minha. Esse menino simpático e sorridente que ela gerou e cria com tanto cuidado. E que a encheu de experiências que ela generosamente me ofereceu. Parabéns, menino bonito do cobertor amarelo. E obrigada a ela, por ter me ensinado que a maternidade é uma experiência tão poderosa a ponto de aproximar os diferentes através daquilo que realmente conta: a vivência do cuidado silencioso, da compreensão sutil e da compaixão amorosa que aprendemos a ter com nossos filhos e que, com sorte, poderemos dedicar aos outros. A outras mães, como ela tem feito por mim. A outras pessoas, como fazem aquelas que lutam cotidianamente para que esses saberes e poderes não esmaguem nossa capacidade de sermos mães.

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Este post foi inspirado pelo belo Projeto Coração Materno: por uma maternidade em rede, criado pela Isa Kanupp, do blog Para Beatriz e pela Ananda Etges, do blog Projeto de mãe. A idéia consiste em ações para fortalecer a solidariedade entre mães, ao invés da perversa disputa entre grupos de mães que fizeram percursos diferentes na criação dos filhos. Se existe um inimigo nessa nossa atual situação frente à maternidade, ao parto, à amamentação, certamente não são as mães que fazem outras escolhas. São, a meu ver, as condições e os jogos de poderes que pressionam mães em todo canto do mundo a fazerem escolhas de posse de informações equivocadas. Ou baseadas na coação. No medo. Ou na submissão ao saber do outro.

Postagens amigas sobre o mesmo tema:

Empatia nas redes sociais, por Ananda Etges do blog Projeto de Mãe.

Vamos falar de escolha? por Isabela Kanupp do blog Para Beatriz.

Por uma maternidade sem rótulos, por Priscila Abreu do blog Ei, mamãe.

Sobre julgar x acolher: onde é que seu calo aperta? por Ana Carolina Ferreira do blog Um novo tempo.

A pior escolha que uma mãe pode fazer, por Ana Marusia Pinheiro Lima Meneguin do blog Mãe Perfeita.

Escolhas não nascem em repolhos, por Gabriela D’Andrea do blog Eu mamãe.

Blogagem coletiva: coração materno, por Carla Ferreira do blog Super Mãe de Primeira Viagem.

Blogagem coletiva projeto coração materno: por uma maternidade em rede, por Geisa Simonini do blog Na mira da mamãe.

Blogagem coletiva coração materno / escolhas, por Martha Albuquerque do blog Minha pequena e eu.

Conformação que gera letargia, por Myriam Scotti do blog Mãe no País das Maravilhas.

Pelo fim das guerras maternas, por Helena Sordili do blog Eu (Lele), ele e as crianças.

Pela liberdade e informação, por Luciana Primante do blog Meninas Plugadas.

E agora, Sofia? por Raquel Lima do blog Belly Mama.

Sobre verdades e máscaras, por Manu Mantovani do blog Feminices.