Essa história da cama compartilhada

Aqui foi assim: desde o começo, pensei que o melhor seria a pequena dormir num bercinho ao lado da nossa cama. Facilitaria para mim, por conta da amamentação à noite, pois quem amamenta sabe o quanto pode ser exaustivo levantar-se e ir até um outro quarto, dar de mamar, colocar o bebê para dormir e voltar para a cama. Todo esse ritual consome tanto tempo que logo o rebento chora de novo e o ciclo recomeça. E seria bom para ela também, já que estaria ali do lado, sentindo cheiro de mãe e pai, ouvindo nossos barulhos (recém-nascido sai de uma barriga barulhenta e silêncio pode ser aterrador) e nós os dela. Nada mais tranquilizador para uma mãe do que saber que pode escutar qualquer barulhinho da filha bebê e acudir em caso de necessidade. Enfim, belos planos e tudo poderia ter sido lindo e sem complicações. Mas a vida teima em nos desobedecer, né?

O cara-metade, por questões pessoais e culturais, cismou que bebê tinha que dormir no quarto dela desde o primeiro dia. Dependesse dele, ela até choraria para aprender a se acalmar e dormir sozinha desde o início, tão convencido que estava de que isso não apenas era o certo, como também era possível de fazer com um recém-nascido sem gerar uma enorme violência para um bebê indefeso e que precisa, antes de mais nada, da presença, da proximidade e do aconchego dos pais o tempo todo, até se sentir em segurança. Nada poderia ser mais contrário às minhas concepções e a conclusão disso é que a bebê foi para o quarto dela e a babá eletrônica ficou ligada no último volume do lado da minha orelha. E que a cada suspiro eu acordava e ia ver, para que ela não chorasse abandonada. Tomei para mim a responsabilidade de tratar seus choros como penso que eles deveriam ser tratados: como pedidos de socorro que precisam ser atendidos e não ignorados para que ela aprenda a se virar sozinha. Deu certo e a pequena seguiu bem cuidada, bem atendida em suas necessidades e sentindo-se protegida. Mas deu também em uma mãe exausta, muito mais exausta do que ficaria se as coisas tivessem acontecido de modo a facilitar ao máximo a vida das duas nesse primeiro momento. Resumo da opéra: o vai e vem entre quartos durou o primeiro mês. Em seguida eu fui para o quarto dela e comecei a amamentar deitada durante a noite, descansando mais e dormindo melhor. Ela também pareceu poder ter um sono mais sereno. Após cerca de seis meses, o cara-metade entendeu que a prioridade ali não era adestrar nossa filha para que ela dormisse sozinha a noite inteira e se virasse sozinha caso acordasse durante a noite. Ele entendeu também que meu conforto e meu descanso eram essenciais para que tudo corresse bem, especialmente a amamentação. E a pequena veio para nossa cama. E assim está até o momento.

Acho muito complicado dizer que é perigoso e nocivo fazer cama compartilhada e que é importante que o bebê durma sozinho desde sempre para ser independente. Perigoso é algo que pode ser evitado tomando-se umas tantas precauções quando o bebê dorme na mesma cama com os pais. E há estudos que mostram que bebês dormindo em seus quartos sozinhos correm mais riscos do que aqueles que dormem em cama compartilhada. Portanto, perigos existem para ambos os lados e podem ser evitados.

Quanto à nocividade, me parece curiosa a idéia. O primeiro argumento é a vida sexual e a intimidade do casal, invadidas pela presença da criança. E a resposta sempre boa e válida é que sexo e intimidade não dependem apenas de uma cama pois, se fosse assim, a vida dos casais seria bem entediante, não? Além do mais, a realidade é que a vida sexual e a intimidade de um casal ficam seriamente afetados quando nasce uma criança, onde quer que ela durma. Ficam afetados porque a mulher se fecha em uma bolha com seu bebê no começo da maternidade e é necessário que ela faça isso. Disso depende esse bebê e sua sobrevivência, de alguém que possa se dedicar a ele. Ficam afetados porque se na maior parte do tempo estamos exaustas. E isso mesmo quando pai e mãe cuidam do bebê. E a dinâmica do casal muda. Até que os dois se reinventem enquanto casal, criem novas intimidades e descubram novos modos de fazer antigas coisas. Ou seja, partilhar uma cama é o menor dos problemas de um casal quando eles se tornam pais, acreditem.

Mas tem também a idéia de que a criança vai ficar dependente e nunca mais vai querer sair dali. Que é análoga à idéia de que a criança que mama fica dependente do peito e nunca vai querer desmamar. Quer dizer, são as suposições de que ninguém vai querer largar algo que é bom. Nem que seja por outra coisa que é boa também. Então. Todos os relatos que eu li até hoje de desmame natural, assim como relatos das crianças que começam a dormir em seus próprios quartos desmentem essa crendice (um exemplo). Porque, ao contrário das crianças que não têm aquilo de que elas precisam no momento em que elas precisam e que passam o resto da vida reivindicando o que elas não tiveram, crianças que têm o que precisam na hora em que precisam parecem muito mais seguras para seguir adiante e deixar essas coisas quando elas deixam de ser necessárias. Curioso? Para mim parece fazer sentido. E é o que vejo acontecer muitas vezes, com pacientes e amigos.

O fato é que crianças precisam ser cuidadas, protegidas, aconchegadas. Mas elas também gostam muito de adquirir autonomia e ficam visivelmente satisfeitas quando conquistam alguma nova possibilidade emocional, física, intelectual… Não precisamos nos preocupar tanto assim: do mesmo modo como elas vêm, elas vão, e vêm e vão naquilo que precisam. Basta lhes darmos ouvidos e estarmos atentos aos seus sinais. E respeitarmos suas necessidades e limites.

Bons textos sobre o tema: aqui, aqui, aqui e aqui.