O preço que se paga

Logo que vim morar na França, em princípio por conta de uma bolsa-sanduíche de doutorado, muita gente vinha falar comigo de sua vontade imensa de fazer o mesmo. Morar fora, passar um tempo fora, ainda mais por conta de um projeto de pesquisa, ainda mais na França… que sonho! As pessoas vinham sondar: afinal, como é que você conseguiu isso? E quando ouviam minhas histórias sobre todo o trabalho que dá fazer uma pesquisa de pós-graduação e, mais ainda, sair do país por conta dela, murchavam um pouquinho. Conclusão: dessas tantas pessoas, apenas uma ou outra realmente foram atrás daquilo que diziam querer, ou seja, de morar fora, de estudar fora, de passar um tempo fora.

Não é segredo para ninguém que temos – nós, seres humanos em geral – esse hábito interessante de imaginar que sempre existe um lugar onde as coisas são muito melhores do que são para a gente. Esse lugar pode ser um outro país. Ou a vida de uma outra pessoa. Entre a inveja e a admiração, passamos mais ou menos tempo de nossas vidas olhando para os outros e nos indagando por que eles conseguem, por que para eles é assim, como é que na vida deles tudo parece acontecer tão facilmente?

Segredo: não é. Mas mesmo assim preferimos acreditar que existe o paraíso na terra e que ao menos algumas pessoas chegam naquele tal ideal que nos parece tão longe. Melhor sofrer por se achar incompetente, insuficiente ou menor do que sofrer por constatar que a vida é assim, meio errada, meio tortuosa, cheia de frustrações e desencontros e sem final feliz, não é mesmo?

Com a história da gravidez e da maternidade, o interesse que antes se concentrava em meu percurso profissional que culminou nessa estada fora do país se voltou, também, para minha vida pessoal. Eu já fui casada, já não tive filhos, já me separei, já cheguei perto da idade em que nada disso era mais prioridade e nem parecia possível de acontecer novamente em minha vida. E aconteceu. Então, as pessoas afluem curiosas: mas como foi? Como aconteceu? Como você encontrou alguém? Onde? De que jeito? Como fez?

Conheço muitas mulheres mais ou menos da minha idade com percursos parecidos com o que fiz. E, dentre elas, muitas que não se casaram ou não tiveram filhos. A menor parte delas por opção. Das que não optaram, são raríssimas as que parecem bem resolvidas com o rumo de suas vidas. A maior parte se queixa, muitas ainda esperam, todas lamentam o que não foi.

Tenho amigas brilhantes, poderosas e interessantes que passaram um tempo enorme investindo em suas carreiras e, quando foram se perguntar se por acaso queriam família e filhos, se desesperaram. Não sabiam o que responder. Essa inquietude, seria ela o tal relógio biológico soando em altos brados? Seria o desejo de encontrar alguém, de ter filhos, até então deixado de lado por conta do investimento estar todo em outro lugar? Seria a pressão social presente de maneira cruel em comentários, perguntas, filmes, situações que jogam na cara, constantemente, que mulheres que não se casam e não tem filhos são incompletas e infelizes?

Não sei, penso que para cada uma delas a resposta é um belo combo de todos esses fatores em diferentes proporções: desejo, pressão, medo, dúvida. O tempo passando e cada uma dessas mulheres sendo confrontada com a necessidade de dar uma resposta que aquiete seu coração e faça os outros pararem de aporrinhar. Tarefa difícil.

Conheço mulheres que, frente a esse dilema tentam responder como responderam a tudo aquilo que viveram até então: marido, filhos, família se tornam apenas outros itens banais de um planning em que seria possível estabelecer metas e cumpri-las. Como se bastasse, a qualquer momento da vida, apenas decidir que queremos encontrar alguém, que esse alguém seja legal, que decidamos viver junto e que queiramos ter filhos para que, como num passe de mágica, tudo isso se realize. Perfeitamente. Como em um script. Quanto mais essas mulheres foram acostumadas a dirigirem suas vidas e suas escolhas, a se traçarem objetivos e cumpri-los, a terem êxito em seus projetos e a concretizá-los com louvores mais chances de que inventem esse projeto relacionamento-casamento-maternidade nos mesmos moldes. E esperem que assim funcione.

Outro segredo: não funciona.

Lembro de uma paciente que atendi por muito tempo e que, em torno de seus 45 anos, decidiu que queria ter filhos. Era casada, tinha uma carreira bem sucedida, uma relação feliz e amorosa com seu companheiro e decidiu ter filhos. Porque queria, porque queria ser mãe, porque não queria deixar de viver isso e se arrepender no futuro… enfim, por muitas razões. A gravidez não aconteceu. E não aconteceu. E não aconteceu. E não aconteceu. E na hora em que não aconteceu saiu do esquema, escapou ao controle, não obedeceu ao seu projeto. E virou questão de honra. Virou obsessão. E ela que era alguém antes disso, que era mulher, que era profissional, que era interessante, interessada e tinha tantos interesses e planos virou apenas aquela que queria ter filhos. Ter filhos virou o único objetivo da vida, o único desejo, a única possibilidade. Será que era apenas porque não poderia ser? Não sei, mas virou.

Essa mulher fez tratamento e gastou tempo, dinheiro, investimento e dedicação a um sem número de inseminações artificiais. Que não funcionaram. A cada vez ela se animava de que poderia ser aquela. E a cada vez não era. E em meio ao desespero que tomou conta da sua vida ela tentava parecer cool, como se nem quisesse tanto assim, como se estivesse tranquila. Sabe aquela frase cruel que dizem: quando você desencanar acontece? Ela levava ao pé da letra e tentava forçar uma desencanação para ver se enganava à si mesma, ao destino, aos embriões implantados e a quem mais fosse necessário para que a frase se realizasse para ela. Fingia desencanar para ver se acontecia. E nem assim acontecia. O tal destino parece que não se deixa enganar.

Por que estou escrevendo tudo isso? Porque, bom, do mesmo jeito que as pessoas querem saber como é morar fora do país porque querem morar fora do país elas também ou querem saber como é encontrar alguém, ficar junto e ter filhos porque também querem encontrar alguém, ficar juntos e terem filhos… em todos esses casos em que olhamos a grama ou a vida do vizinho e vemos ali aquilo que queremos e que parece tão fácil para aquela pessoa ignoramos, ou preferimos ignorar, o trabalho que isso dá. O que ninguém quer saber porque pouca gente quer se comprometer é com o preço que se paga.

Nós mulheres pós revolução feminista crescemos ouvindo martelarem em nossos ouvidos que podemos tudo e que temos direito a tudo. Não existe limite algum para nosso querer e para o que podemos conseguir. O que era uma desigualdade de gênero que impunha restrições e precisava e precisa ainda ser desfeita e questionada tornou-se uma ladainha do podemos ter tudo o que quisermos nessa vida.

Mais um segredo: não podemos. Ninguém pode. E não é pelo fato de sermos mulheres em um mundo machista. É apenas a consequência do fato de sermos humanos, de fazermos escolhas e de vivermos no tempo.

Temos o direito e temos condições de viver nossas vidas com tanta liberdade quanto quisermos de construirmos os projetos que desejarmos para nós mesmas. Ou deveríamos ter. Mas o que ninguém nos conta nessa empolgação por tomar o mundo e torná-lo nosso é que faremos uma porção de coisas e teremos que deixar de lado outras tantas.

Muitas vezes nos investimos em nossa carreira, em nosso trabalho, em nossos interesses pessoais e a vida transcorre bem assim, cheia de potências, cheia de satisfações e de sucessos. E então chega um momento que as pessoas chamam de “relógio biológico” e que eu prefiro pensar que é apenas uma tomada de consciência do tempo. Sim, o tempo existe, o relógio existe e os limites existem. Qual o impacto dessa constatação para as mulheres que passaram a vida acreditando que poderiam fazer tudo? Posso dizer daquilo que já testemunhei muitas e muitas vezes: é devastador.

Ninguém precisa querer casar, querer ter filhos ou formar uma família. Passamos do tempo em que tínhamos obrigação de preservar a espécie e vivemos em um mundo superlotado e cheio de problemas por conta da espécie humana portanto, ninguém mais precisa se reproduzir. Mas pouca gente consegue assumir numa boa que fez escolhas que não priorizaram família, filhos, relacionamentos. E que essas escolhas os levaram a uma vida sem família, filhos e relacionamentos. A maior parte de nós se dá conta que o tempo passou e que as oportunidades ficaram para trás. E nos sentimos traídos por nossas escolhas, pelo mundo, pela vida, por Deus, por nossos desejos. E decidimos tornar isso uma questão de honra e desafiar nossa própria trajetória para provar, custe o que custe que, sim, podemos, sim, podemos o que quisermos quando quisermos. Sem limites.

Ah, mas hoje em dia não tem mais isso. Com a tecnologia a mulher pode engravidar até os 60 anos de idade. Pois é, mais uma balela que apazigua muita gente que acredita mesmo que a tecnologia vai garantir esse tempo indeterminado para nós. E que podemos continuar mais um pouco com o que estamos fazendo porque ali na frente uma intervenção qualquer dará conta disso.

Ainda mais um segredo: mesmo com todas as técnicas de reprodução assistida e com o avanço das mesmas, a grande maioria esmagadora dos casos é de… fracassos. Ou seja, na maior parte das vezes não funciona.

Então, quando me perguntam como é que eu fiz para encontrar alguém e ter filhos, o que tenho vontade de responder é: aceitei pagar o preço. Qual preço? O de não saber se é o melhor momento, o de não saber se é o cara certo, o de não saber se vai dar certo, o de não saber. Aceitei pagar o preço de não poder controlar algo que envolve outras pessoas, afetos e disponibilidades como poderia controlar uma pesquisa de pós-doutorado, um texto, um artigo, uma aula a ser dada ou o tempo de sessão de um paciente. Relações e filhos escapam. E talvez funcionem se aceitamos pagar o preço da angústia que é vê-los escaparem.

Hoje em dia demoramos muito mais tempo para começar a pensar em filhos porque muitas de nós temos outros interesses e prioridades e isso é legítimo. Mas não dá para negar que é uma escolha e que, como toda escolha, traz consequências. Uma delas é que na hora em que começarmos a pensar no assunto pode ser tarde demais. Acho complicada essa idéia de que podemos tudo e que podemos adiar todos os projetos indefinidamente porque a ciência ou o que quer que seja vão resolver os limites para a gente ali na frente. Isso é uma mentira na qual escolhemos acreditar porque nos conforta imaginarmos que, enquanto investimos em alguma coisa, tudo o mais vai ficar em standby esperando. Não fica. Os caras legais e os não legais vão chegar e partir, vão viver suas vidas, vão encontrar pessoas, vão viver com elas, ter filhos ou não, se separar ou permanecer solteiros… a vida das pessoas vai acontecer à nossa revelia. E mais para frente vamos encontrá-los com um monte de bagagem das histórias que viveram e, se quisermos uma relação, teremos que nos haver com isso.

Não dá para querer encontrar alguém depois dos 30 achando que vai ser o conto de fadas dos 20 porque, simplesmente, depois dos 30 a maioria das pessoas já passou por um monte de coisas, já está calejado, desconfiado, realista. Então, para as amigas que estão com o famigerado “relógio biológico apitando” e não encontram ninguém, a pergunta que eu faria é: mas quem vocês querem encontrar? Porque, a essa altura do campeonato, não vão encontrar os caras voluntariosos e inconsequentes dos seus 20 anos. E, se encontrarem, fujam correndo porque, depois dos 30, gente porra louca é neurose grave e não um grande achado. Ter uma família dá muito trabalho em qualquer tempo, então não adianta querer algo e não querer pagar o preço disso.

Como a vida mudou!

Sinceramente, quando dizem que a maternidade muda a sua vida, eu posso te garantir que nem que você seja a pessoa mais criativa do mundo você dará conta de imaginar o quanto isso pode ser verdadeiro e radical. E muda de maneiras inesperadas, ainda por cima. Nada a ver com dormir menos ou coisa que o valha, porque disso todo mundo fala. Falo de mudanças nas entranhas, sabe? Aquelas com as quais você não contava. Senão, vejamos.

Sempre fui uma workaholic convicta, para quem o trabalho era a principal fonte de investimento prazer e inspiração. E agora desloquei tudo isso para a maternidade, certo? Não, cara pálida, errado. Agora estou há um ano sem trabalhar, o que quase me deixou maluca, mas também me fez pensar muito sobre o sentido em ter o trabalho como centro da vida.

Sim, é gratificante demais encontrar uma profissão que te encante, que te interesse diariamente e que te traga satisfação além do dinheiro em exercê-la. Ser independente, pagar as próprias contas e, ainda mais, fazendo algo que gosta soa como o auge da realização. Pois é, eu já vivi tudo isso, já estudei muito, já trabalhei feito maluca, já investi intensamente no meu trabalho, na minha carreira, nos meus projetos, com tudo o que isso sempre implicou, inclusive, em termos de vida pessoal: minha vida era o meu trabalho e, mesmo sem perceber, tiveram umas tantas coisas bem importantes que ficaram sacrificadas ao longo do caminho.

Tudo bem, não sou a primeira e nem serei a última mulher desse mundo que farão esse caminho. E ainda que muitas de nós pareçam estar satisfeitas com os resultados, vejo uma boa pitada de amargor em gente como eu que chega nesse mesmo ponto da vida e começa a se dar conta, por um ou outro acontecimentos marcantes, que nada faz muito sentido.

A questão não é trabalhar, ter uma carreira, valorizar e ser valorizada por isso. A questão é o momento em que atravessamos uma fronteira em que isso e torna o centro de nossas vidas e tudo o mais – e existe muito mais do que isso – fica pegando poeira ali do lado, definhando lentamente.

Nasci e vivi boa parte da minha vida em São Paulo. E enquanto estive por lá, o trabalho foi praticamente tudo na minha vida. Eu trabalhava umas 50 horas por semana, inclusive aos finais de semana. E adorava isso. Adorava o estresse, a correria, o desafio. A grande maioria dos meus amigos e conhecidos de lá faz o mesmo, não importa em que área trabalhem. E parecem satisfeitos.

Mas daí eu vim para a França e, na medida em que comecei a criar aqui uma rotina e a ter contato com outras pessoas, me deparei com um modo totalmente diferente de viver a vida e de encarar o trabalho. E esse modo diferente, em que existe espaço e condições para fazer outras coisas no seu cotidiano além de trabalhar me fez questionar até que ponto meu estilo centrada na carreira era escolha ou falta de opção.

Quero dizer: será que o fato de vivermos em uma cidade hostil como São Paulo, violenta, com poucos espaços públicos e sem nenhuma cultura de usufruir da cidade… Será que uma cidade onde mal se pode andar pela rua, onde boa parte das atividades de lazer se restringem ao consumo, onde programa com os amigos é fazer compras no shopping ou ir jantar em restaurante… Será que uma cidade em que se leva duas horas para chegar ao trabalho e duas horas para voltar dele, onde ninguém consegue terminar seu dia antes das dez horas da noite… Será que uma cidade cara, centrada no consumo, onde as atividades culturais custam, em sua maioria, os olhos da cara e onde as pessoas se sentem constrangidas em museus, galerias de arte e na Sala São Paulo… Será que uma cidade onde a educação “de qualidade” é paga e custa caro, onde a saúde “de qualidade” é paga e custa uma fortuna, onde todos os serviços essenciais são pagos, assim como o condomínio, todas as despesas de ter um carro… Será que uma cidade como essa, em que a vida é tão difícil, inóspita, violenta, complicada e segregada não nos empurra a acreditar que a vida é trabalho porque, no fim das contas, é só o que dá para fazer mesmo? Porque precisamos ganhar cada vez mais para bancar essa vida nessa cidade e nesse país e, no fim do mês, a conta quase não fecha?

Não discuto aqui que trabalhar pode ser projeto de vida de muitas pessoas e que pode ser um grande prazer e uma baita injeção de adrenalina. Nem discuto que existe saúde, educação, transporte e segurança públicos em São Paulo. E discuto ainda menos a qualidade dos mesmos, pois sei que existe muito serviço público de qualidade em meio a outros tantos bem ruins. O que estou discutindo é se não criamos ou embarcamos em uma mentalidade estressada, que vive correndo atrás de não sei qual prejuízo e que vive da vida muito pouco. E exige menos ainda. E ainda acha que essa vida é normal. Descobrir que pode ser muito diferente é um choque.

A primeira vez em que voltei de uma festa de madrugada, andando, sozinha, em pleno sabadão invernal parisiense percebi que alguma coisa havia mudado essencialmente nas minhas entranhas. Eu descobri que era possível viver diferente. E viver melhor. Andar nas ruas, que são de todos, poder circular, ocupar a cidade, usufruir daquilo que é de todos. E cuidar também, porque é de todos. E usar os serviços públicos, que são bons e funcionam. E poder contar com eles. E não precisar ter despesas astronômicas com saúde e educação. Nem com transporte.

Se tudo isso já bastou para me questionar sobre o porquê focalizei tanto da minha vida em torno do trabalho, engravidar veio reforçar e acentuar ainda mais essas indagações. Que sentido faz trabalhar tanto para ganhar tanto se o que se faz é passar a vida correndo atrás do próprio rabo dos próprios gastos? Que sentido faz nutrir toda essa maquinaria para começar a embarcar nela os próprios filhos, afastando-se deles para poder cuidar deles? Não parece um contra-senso? Para cuidar preciso estar longe, trabalhando de sol a sol a fim de garantir todas as coisas, todos os serviços, todas as necessidades que o pequeno rebento possa ter… com exceção de sua necessidade da minha presença. Trocamos presença por todas as outras coisas. Quando talvez devêssemos estar reivindicando o contrário: menos coisas, uma vida mais viável justamente para estarmos mais presentes.

Eis-me aqui então nesse ano sabático, constatando essa mudança de centro que jamais poderia suspeitar que um dia ocorreria comigo. Não estou trabalhando, mas estou trabalhando muito. Sem saber exatamente qual lugar o trabalho terá para mim em seguida. E bem contente em descobrir que a vida tem bem mais coisas a viver do que aquilo em torno do que a minha sempre girou. Por aqui, boa parte dos meus amigos tentam e conseguem se ver ou se falar ao menos uma vez por semana. E as pessoas saem juntas, se visitam, se encontram no final da tarde, batem papo, escolhem um entre milhares de programas, muitos dos quais de graça, viajam nas férias e nos finais de semana. Há tempo e lugar para muitas coisas além do trabalho mas, principalmente, há tempo e lugar para pessoas e relações.

E você? Quanto custa a vida que você escolheu viver por aí?