Esses tais “terrible twos”

Então a pessoa retorna como se nunca tivesse partido, assim, sem nem dizer bom dia ou dar maiores explicações. Poderia fazê-lo, assim como poderia fazer um resumo biográfico dos mais recentes capítulos dessa novela maternália. Mas não. Acho tudo isso muito chato. Então chego chegando, tirando o pó do teclado, atacada de rinite e o resto vocês vão sabendo um pouquinho ali, outro aqui.

Foi a Tarsila quem me provocou a escrever algo sobre o assunto, então esse post vai com dedicatória especial para ela. E quem não gostar, reclama com ela também, ok? Brincadeira, reclama comigo, que sou eu a responsável por minhas palavras.

Para começo de conversa, eu não gosto nem um pouco desse nome “terrible twos”. Porque já coloca uma etiqueta de terrível na criança que, em torno dos dois anos, vive aquilo que um outro rótulo associado tem chamado de “primeira adolescência”. Sim, até faz sentido como comparação. Mas os terríveis dois anos e a primeira adolescência estão aqui associados, não por acaso, para dar um ar de caos, terror e dificuldade para essa etapa da vida. Começa mal, não?

Então penso que podemos começar limpando o terreno dos preconceitos e dos estereótipos e, ao invés de taxar pejorativamente nossos rebentinhos de dois anos de terríveis adolescentes, fazermos um esforço para tentar entender o que acontece com eles nessa época. E com a gente, de tabela.

Até esse momento, os pequenos iam de vento em popa, coladinhos na gente, cheios de chamego, de amor para dar e para receber, a primeira infância desfilando tranquilamente (só que não, a gente é que esquece da dificuldade anterior quando chega a seguinte)… Eis que em algum momento em torno dos dois anos eles parecem que encarnaram o capeta e começam a ficar cheios de… vontades.

Vontades? Pois é. Cheio de vontades, cheios de personalidade, cheios de quereres… tudo aquilo que as pessoas, por uma tradição cultural que novamente coloca um preconceito como se fosse a verdade dos fatos, chamam de birra. Ah, a tal birra, aquilo que entendemos como um capricho da criança, uma provocação, um desafio para ver quem é que manda. Aquele serzinho dócil de repente vira alguém que quer medir forças com você. Dentro dessa lógica, dá para entender porque tanta gente adotou essa idéia dos “terrible twos”, né? Combina bem com a idéia de birra. E, no essencial, ambas querem dizer que um sujeitinho que começa a dar sinais mais claros de que existe enquanto sujeito torna-se para nós, adultos, um problema.

Sim, esse bebê, essa criança, existiram desde o começo. Desde a barriga a gente se divertia em identificar traços de personalidade: o bebê calminho, o bebê agitado, o bebê expressivo, o bebê corporal, o bebê falante… Inundamos nossos pequenos desde o ventre de adjetivos associados ao que eles nos demonstravam deles mesmos. Descobrimos com eles quem eles eram, vimos aparecer características, traços, trejeitos, gestos, movimentos, gostos, preferências. Ou seja, vimos nossos filhos darem notícias de que são pessoas. Pessoas em formação, pessoas se inventando e descobrindo o mundo. Mas pessoas com direito a singularidades. E com direito a voz. E a serem quem são.

Aqui vale um disclaimer super importante: estou assumindo que você, tanto quanto eu, vê um bebê desde a mais tenra idade como um sujeito, como uma pessoa, como alguém que você encontra e conhece na mesma medida em que ele se encontra, se descobre e se conhece. E que esse serzinho, mesmo pequenino, não é uma mera extensão da sua pessoa, uma tábula rasa sem cheiro, nem gosto, nem vontade, sobre quem você teria o poder de moldar a seu gosto. Estou assumindo que você e eu partilhamos dessa idéia de que o bebê é alguém que precisa ser ouvido e respeitado. Se não for esse o caso, aconselho a você que pare de ler esse texto, pois não me parece que poderei acrescentar muita coisa àquilo que você acredita, ok?

Enfim, voltando à nossa história do bebê que é alguém. Parece que isso corre de uma certa maneira até um certo momento, perto dos dois anos. E, de repente, vira algo mais explosivo, mais cheio de conflitos, de desencontros de parte à parte. Por quê?

Vale lembrar que esse bebezinho, mesmo sendo alguém desde o começo, era alguém muito desamparado e dependente. Não sabia nem falar, a gente tinha que adivinhar o que ele queria. Choro de fome, choro de tédio, choro de sono, choro de cocô… Ele via algo que o interessava muitas vezes no meio de um passeio, meio de relance, quase um acidente e nem podia parar para olhar melhor porque a gente já tinha passado, no nosso passo rápido, a uma outra coisa. Esse bebê recebia o mundo e controlava muito pouco do que recebia. Mas com os choros, os sorrisos e os movimentos mais coordenados, foi conseguindo comunicar mais, controlar mais e melhor, ter mais daquilo que precisava ou que lhe interessava.

Ele virou, segurou a cabeça e viu melhor o mundo. Sentou, engatinhou e, pela primeira vez, pode ir para onde sua curiosidade queria. Ele agarrou as coisas com força, até mesmo nossos cabelos, nosso nariz, a maçaneta da porta, a cortina, o rabo do gato. Agarrou com força e não soltou, botou na boca, conheceu o gosto do mundo, os cheiros, as texturas. Ele começou a comer outras coisas que não o leite materno, começou a poder escolher seus alimentos, suas quantidades, seus sabores. Ele começou a andar e… nossa, que revolução! Ficar de pé, ver mais ainda do mundo, não ficar apenas aprisionado a ver nuvens e céu num carrinho, mas poder olhar em volta, poder ir, poder voltar. Ele foi para perto das outras crianças, para o chão de grama do parquinho, para cima das folhas, para perto das flores. Esse bebê virou uma criança e tudo aquilo que ele era, que ele foi inventando que era virou mais ainda ele.

Essa criança começou a falar e as vontades, as necessidades começaram a ficar ainda mais claras, mais fáceis de entender. A sede, a fome, a curiosidade, o que é isso, mamãe?, o sono, o cansaço irritado, o corpo que descobre o correr, o pular, o dançar. Quantos desafios, quantas revoluções por dia nossos pequenos têm vivido. E, no meio dessas revoluções todas, uma delas é que eles descobrem o que a gente já estava vendo desde o comecinho, se tivesse abertura para isso: eles descobrem que eles existem.

É esse o único ponto, na minha opinião, em que um comparação entre os dois anos de idade de uma criança e uma primeira adolescência seria interessante: são dois momentos em que a criança se descobre existindo. A criança em torno dos seus dois anos começa a poder falar “eu”. Eu quero, é meu, não. São afirmações de algo que ela, penso eu – e ainda bem que a psicanálise existe para ajudar a pensar isso – acaba de constatar.

E como é que a criança descobre que ela existe?

Aí é que a porca torce o rabo, minha gente. Como é que a gente descobre que existe a gente e existe o outro? Hummmmm, pela contrariedade, né?

Imagina você ali com a sua cara-metade no auge da paixão, tudo lindo, tudo fluido, parece que um completa o outro perfeitamente. Daí ele faz alguma coisa que você abomina, tipo mastigar de boca aberta e fazendo barulho. Você nunca tinha notado isso, talvez ele fizesse desde o começo e você nem percebeu, talvez seja a primeira vez. Mas eis que, um certo dia, você vê o sujeito ali na sua frente com aquela massa de arroz, feijão, carne e verdura rolando pela boca aberta e barulhenta, a couve enroscando no dente… Argh, que nojo! Pronto, está feito o estrago. Você percebeu que aquele carinha ali tem algo que te incomoda. Ele já não é a metade absoluta da sua laranja. Ele mastiga de boca aberta. E você inevitavelmente começa a reparar em todos os outros pequenos defeitinhos. Desfez-se a cola, começou uma relação a dois. Ele é ele, você é você.

Por que essa comparação? Porque eu penso, pelo que tenho vivido aqui com minha pequerrucha e pelo que escuto das histórias de outras mamães e seus adoráveis terríveis, que é algo do mesmo tipo que acontece nessa época dos dois anos. A criança, que já tinha vivido contrariedades até então, (porque ninguém nesse mundo pode atender a todos os desejos de uma outra pessoa, e ainda bem que é assim) começa a perceber que ela quer algo e o mundo nem sempre pode atender ao seu querer. E essa frustração ganha a forma de uma decepção, de uma contrariedade, de uma revolta. Que agora pode ser dirigida ao outro, ao mundo. A você. Ou com você.

Quem aqui lida bem com um querer frustrado?

Mesmo nós, adultos, do auge de nossa maturidade e sabedoria, frente às frustrações, contrariedades e nãos com os quais a vida nos responde, muitas vezes choramos, nos irritamos, nos enfurecemos, batemos, quebramos… Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos filhos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de começar? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança em torno de dois anos não tem nem ao menos maturidade cerebral para lidar com a frustração. Ela ainda não sabe como reagir frente a esse modo sem graça com que a vida teima em se apresentar. Ou melhor, sabe. Ela sabe reagir com os recursos que possui até então. Choro, grito, tapa. Não é manha, não é birra, não é malcriação. É apenas um ser humano reagindo com os recursos de que dispõe a algo que, para ele, não vai nada bem. Como lidar com aquele caldeirão borbulhante dentro do peito e entalado na garganta? Manhêêêê!

Existem pais que acreditam que, frente a essa explosão de contrariedade tão frequente nessa idade, o papel dos pais e dos adultos em geral seria “educar”: calar, reprimir, fazer com que o que explode seja engolido e imploda pra dentro. A criança que pare com isso. E que se conforme em explodir em silêncio para não incomodar ninguém. Porque, sim, incomodam demais esses momentos em que o choro se junta ao olhar e ao incômodo dos outros adultos, no espaço público em que tão constantemente somos julgados e condenados pelos atos considerados inadequados de nossos filhos. O choro dos pequenos faz subir a angústia, o olhar dos adultos nada solidários desperta em nós quase o mesmo que nossos filhos devem estar sentindo: raiva, frustração, contrariedade. Daí para escolhermos a opção que toma partido da nossa raiva e de contentar os outros livrando-nos do incômodo, é um passo: ei-nos ali lado a lado com os outros estranhos, espelhos de nossas próprias frustrações, querendo que aquele “pirralho maldito” pare de fazer birra. Eis os “terrible twos”, que a gente torna terríveis quando entra no jogo no mesmo nível dos nossos filhos. E respondendo com igual violência. Não tenho como concordar que essa é a boa resposta. Não tenho como acreditar que isso seja educar. Não tenho como pensar que algo de positivo possa sair desse modo adulto de reagir “abafando o caso”.

Uma criança que recebe como resposta algo no mesmo nível da sua confusão e da sua dificuldade de lidar com as frustrações nesse momento só pode ficar perplexa, assustada e mais confusa. Não tem como entender o que se faz para lidar com isso que a atormenta. Fica amedrontada com a reação igualmente violenta dos adultos e sozinha com algo que ela não consegue digerir. Talvez a tal manha pare ali, naquele momento. Como num estado de choque. Mas será mesmo que é porque a criança aprendeu? Ou apenas porque ela ficou mais assustada com a sua reação do que com o que ela estava sentindo? Tsc, tsc…

A meia que ela quer calçar sozinha no pé e que não entra, o brinquedo que não funciona, a comida que está muito quente, muito fria, a vontade de ir brincar com a água da fonte, o banho, a fralda, o sono, ter que dormir, a música que ela quer ouvir… tudo, absolutamente tudo pode e vira um motivo para uma grande crise. Por aqui, temos inclusive o “não sim”, que é a resposta padrão antes mesmo da pequena pensar naquilo que foi perguntado. Primeiro vem o não, depois o sim, se for o caso de ser sim. Não é para medir forças. É somente porque deve ser uma proeza e tanto existir, querer, saber o que se quer e, ainda por cima, conseguir o que se quer. Você quer isso? Não. Espera, sim. Isso sim. Isso não.

Quanto mais a criança se torna autônoma, mais nãos ela escuta. Porque mais coisas ela quer fazer, mais ela quer e pode experimentar, mais recursos ela tem para isso. Consequentemente, mais nãos a gente diz. Porque aumenta a liberdade e aumentam os riscos. E nem sempre ela sabe dos riscos. E esse pequenino cheio de vontades e de possibilidades que nos aparece da noite para o dia em torno dos dois anos nos deixa de cabelos em pé. E, assumamos, com uma baita dificuldade de enxergar ali aquele serzinho que existe e que faz suas escolhas, como se não pudéssemos confiar que eles podem, muitas vezes, saber o que querem e o que precisam melhor que a gente. Mesmo aos dois anos. E, assumamos ainda, um bocado contrariados de agora termos que lidar com um pequeno que pode dizer eu quero, é meu, isso não e que vai reivindicar que sua vontade seja atendida ou, ao menos, respeitada. Quem é “esse pirralho” cheio de vontades, pensam alguns. Vamos dobrar ele, pois “criança não tem querer”. Ah, que saudades do tempo em que a gente carregava eles para um lado e para o outro a nosso bel prazer, né? E lá vamos dizer não para isso, não para aquilo, não na tomada, não em cima da mesa, não na rua, não joga comida no chão, não esparrama os brinquedos, não rasga o livro, não desenha na parede, não senta aí que é sujo, tira isso da boca… Aquela convivência que na nossa memória parecia ser tão plácida e sem arestas torna-se o mais enervante inferno cotidiano dos detalhes. Ficamos chatas, os pequenos nos parecem chatos, tudo vira uma disputa, uma interdição, um conflito, um drama, um desgaste sem fim. Uma alternativa seria falar mais alto e mostrar quem manda, até a criança parar de fazer tudo aquilo que não pode. Prefiro apostar em rever meus nãos e utilizar apenas aqueles que são verdadeiramente necessários. Escolher as batalhas que precisam ser lutadas, priorizar a segurança ao invés de ficar implicando com a bagunça. Parar de implicar com o sujeitinho no passeio pela rua a cada vez que ele para e observa alguma coisa e tirar esse tempo para descobrir com ele as descobertas que ele faz pelo caminho.

Eu não tenho receita para os “terrible twos” e, se tivesse, podem ter certeza que patentearia e ficaria riquíssima, seria canonizada pelo Papa Chico e ainda daria palestras pelo mundo todo cagando regra de melhor mãe do mundo. Mas, não, não tenho não. Sorry. Tenho esse modo de olhar para as coisas que acabei de contar a vocês aí em cima e que é o que me ajuda, diariamente, a respirar fundo e tentar não me tornar, eu também, uma criança desamparada de dois anos de idade. Ou um tirano mandão que responde a tudo com um não pelo simples prazer de dobrar o outro e que se esquece facilmente, em meio à raiva, de que ali existe alguém com tanto direito a existir, a se expressar e a reivindicar quanto eu. Esse modo que me ajuda a não reagir com violência e contrariando tudo aquilo que acredito que seja maternar, educar e estar ao lado de nossos filhos para aquilo que eles precisam. Enfim, tenho esse jeito de pensar e tenho algumas estratégias que têm funcionado por aqui. Então, ouso terminar com uma listinha das coisas que digo a mim mesma, mas sem nenhuma garantia de que o que funciona aqui em casa funcionará na sua, ok? Até porque, mesmo aqui em casa as coisas nunca funcionam sempre, senão seriam a tal receita que já teria me deixado rica, canonizada e famosa. Listando:

  1. Respire. Mesmo. Bem fundo. A primeira coisa que faz a gente explodir é não respirar direito, parar de pensar e entrar num modo automático em que nos pegamos respondendo como nossos pais, como outros adultos, como tudo aquilo que dissemos que nunca iríamos fazer. Don’t go there.
  2. Procure lembrar que ali na sua frente está uma criança que está tentando comunicar algo do jeito que ela sabe. Pode não parecer muito refinado como comunicação mas, acredite, o sujeitinho está fazendo o melhor que pode para expressar algo sim. E se está fazendo para você, na sua frente, na sua presença ou com você, é porque deve ter uma baita confiança em que você pode entender. E ajudar. Então, tente deixar de lado as idéias tão enraizadas de manha, de birra, de falta de educação ou e falta de limite. E aproveite para deixar de lado também as idéias tão equivocadas de dar limite como responder agressivamente, gritar, bater, castigar ou reprimir de qualquer maneira aquilo que o pequeno está vivendo. Já é difícil o bastante sem um adulto por perto para piorar as coisas reagindo com violência. Responda à altura das expectativas dele sobre você. Naquilo que você pode, com o seu melhor, e também com os seus limites, claro.
  3. Se a explosão for em público, utilize a técnica do esquizofrênico e feche-se numa bolha. Olhe para o seu filho, é ele quem precisa de você. Não tome partido de um bando de desconhecidos que não se importam nem um pouco com vocês dois. Se não der para fechar o casulo, tente sair dali. Brigar, gritar ou dar lição de moral em público servem para mostrar para os outros adultos como você é uma boa mãe, coisa de que eles estão duvidando visto que o rebento está ali jogado no chão. O que é mais importante, você limpar a sua barra correndo o risco de humilhar seu filho ou você ajudá-lo no que ele precisa? As pessoas sempre vão falar e julgar, deixe-as lambendo sabão e cuide do que e de quem realmente importa.
  4. O que está acontecendo ali não é contra você. Talvez exista sim um ressentimento contra você porque você acaba de dizer um não para algo que ele queria muito. Ou talvez seja alguma outra coisa que acaba de não dar certo. Ou talvez seja alguma coisa nele mesmo que não está bem. O que poderia ser? Não será sono? Fome? Sede? Frio? Tédio? Um brinquedo que não funciona? Uma coisa que ele queria e não teve? Que tipo de não foi esse que está tão duro de digerir? Olhe, escute, pergunte. Tente mesmo entender o que está havendo.
  5. Quando entendemos o que pode estar acontecendo, ou quando ao menos imaginamos que entendemos, podemos tentar fazer alguma coisa para ajudar. Mas veja, ajudar não é necessariamente arrancar a meia da mão da criança e colocar você mesma. Ela quer fazer sozinha. Ela não consegue. Ela está chateada. Você fazer por ela resolve o que em relação aquilo que é o problema dela nesse momento?
  6. E se, ao invés de fazer, de pegar no colo, de acelerar, de dizer “vai logo” você tentar se colocar ao lado dela? “Puxa, é difícil mesmo colocar a meia, né? Você quer tentar? Você quer que eu te ajude?”. Resolver pelo seu filho não adianta muito. Pode ser que cale o choro do momento. Mas o que ele aprendeu dessa situação? Será que ele não ficou com uma impressão de que não é capaz? De que existem os super poderosos que resolvem tudo e os que não conseguem nada? Isso é irreal, mesmo nós, as supermães de plantão não conseguimos um monte de coisas. Ainda bem. Não daria para reconhecer o esforço do rebento, lembrar das vezes que ele conseguiu depois de tentar, praguejar junto com ele? Muitas vezes é reconfortante ter apenas alguém do lado capaz de reconhecer que sim, é mesmo uma porcaria que o rádio não funcione porque acabou a pilha. E que diga isso em voz alta, ajudando a dar nome aos sentimentos que essa criança, talvez, ainda não saiba nomear.
  7. Nem sempre aquela história de propor outra coisa funciona. Porque às vezes é um alento desviar a atenção para o lado, descobrir outra coisa, deslocar-se para algo que é possível. Mas às vezes é uma tapeação, é como tapar o sol com a peneira porque o pequeno não esquece daquilo que queria. E acaba se irritando mais ainda porque, agora, além de não conseguir, ainda tem você tentando enganá-lo. Mas, veja, ele queria muito, muito, muito mesmo entrar em todas as portas no caminho entre o parque e a casa de vocês. E saltar de todos os degraus. E nada do que você diga vai atenuar essa vontade. Respeite o direito da criança de estar chateada.
  8. E, não, por favor, por tudo o que é mais precioso, não aproveite esse momento crítico em que a gente fica maluca e disposta a tudo para que o terremoto passe para fazer escambos desonestos, que arrumam um problema aqui inventando um outro ali na frente que vai explodir na sua cara logo em seguida. Nada de prometer um chocolate, um presentinho, um brinquedo, um dia inteiro na frente da TV vendo Galinha Pintadinha se o sujeitinho parar de escândalo e se comportar direitinho como bom filho que deveria ser. Não compre a obediência e a sujeição do seu filho. Nem mesmo numa hora dessas. Essa é uma negociata pela qual a gente paga muito caro depois, porque possivelmente vai se propor a fazer e a autorizar coisas que, de outro modo, não seriam feitas e nem autorizadas, pois não são coisas com as quais concordamos. Pois é isso o que faz o sucesso da negociata, né? A gente trocar a gritaria do momento pela promessa de dar aquilo que, normalmente, a criança não poderia ter. E daí a gente vai ter que se haver com chocolate demais, TV demais, presentes demais. E ainda corremos o risco de que a criança entenda, dessa nossa atitude, que sentimentos, frustrações, explosões e contrariedades se resolvem no shopping ou na prateleira de junkie food do supermercado. Não, simplesmente, não.
  9. Se o que está acontecendo vem de um não seu, será que esse é um não necessário? É um não que importa? Sim, é irritante quando os pequenos decidem arrancar tudo das gavetas e jogar no chão em uma fração de segundos. Mas fora a bagunça, qual é o real problema em que façam isso para descobrirem o que acontece? E se você o chamar para arrumar tudo com você no final? E se você deixar a bagunça ali até o dia seguinte, quando terá disposição para arrumar? Ou para convidá-lo a arrumar? Criança em busca de autonomia adora fazer coisas. Especialmente aquelas que vê os adultos fazendo. Adora botar a mesa, adora guardar os livros, adora botar a roupa suja para lavar. Por vezes, basta apenas que a proposta seja dita por alguém que confia que aquele pequeno pode fazer aquilo do mesmo jeito que pode brincar. Vamos jogar bola? Vamos botar esses CDs aqui na capa?
  10. Não adianta dizer não e depois dizer sim e depois dizer não e dizer não quando está com raiva enquanto que todos os outros dias é sim. Gente, isso não é colocar limites, isso é uma verdadeira bagunça em que nem ao menos você, o adulto em questão, sabe o que está dizendo e porquê. A palavra não não precisa ser um exercício de poder seu sobre um outro apenas porque você pode. Não precisa ser apenas para você gozar do seu privilégio de dizer não. Do mesmo jeito que você diz não ao seu filho, você provavelmente escuta umas dezenas de nãos todos os dias. Muitos dos quais apenas por arbitrariedade, porque alguém pode fazer isso contigo. Não seja esse perverso que desconta no seu filho aquela sujeição que alguém mais forte impõe a você.
  11. Também não adianta dizer não que vira sim por medo da reação do pequeno. Sim, você disse um não, você o contrariou, ele está com raiva de você naquele momento. Não quer colo, não quer dar beijinho, não quer dar sorrisinho, não quer te amar. Deal with it. Às vezes ficamos com tanto medo que a criança nos deteste para sempre que ficamos paralisados, sem condições de fazer qualquer coisa que a contrarie. Não conheço nenhuma criança que tenha deixado de amar os pais por terem sido contrariadas. Lidar com as contrariedades com empatia e cuidado está longe de ser um aval para fazer tudo o que a criança quer. Ninguém tem tudo o que quer, um querer não significa uma injunção para que algo se realize. E isso vale para você e para o seu filho também. Ele quer algo e não pode. Você quer que ele continue sorrindo todo fofo como sempre é mesmo depois de ouvir um não. Nenhum dos dois tem aquilo que quer naquele momento. Ponto.
  12. Então, mostre ao pequeno, quando puder, que esse não vale para você também. A criança muitas vezes fica com a impressão que o não não tem sentido. E existem muitos nãos na vida que são não e com relação aos quais não há o que fazer. Puxa, é chato mesmo que você não possa enfiar o dedo na tomada, parece tão interessante, mas fazer o que, né? É, não dá para sair pelado na rua, mesmo com esse calor, ninguém sai pelado na rua, ninguém pode, que pena, né? Bufe junto, se aborreça junto, xingue junto, espante-se com a injustiça da vida face ao nosso querer.
  13. Por fim, existem aquelas contrariedades que vêm da própria criança e que ela ainda não consegue reconhecer. O cansaço e o sono quando o que se gostaria é de passar a noite brincando, o frio quando parece muito restritivo ter que colocar um agasalho, a fome que a gente não vê chegar e que aparece como mau humor… Essas contrariedades, como aquelas que vêm dos nãos ou das dificuldades de fazer as coisas, podem ser nomeadas. Você pode falar, dar um nome para isso, supor que é algo. Mas para isso precisa respirar, deixar de lado os preconceitos, se colocar do lado da criança e tentar imaginar o que pode estar incomodando tanto ali, a ponto de provocar uma reação. Será que você não está cansada não? E se a gente deitar um pouquinho ali? Quer pegar uma boneca para deitar com você? Quer uma frutinha? Quer um colinho? Muitas vezes começando a comer o pequeno percebe que tinha fome, ou com o copo de água na mão reconhece a sede, ou no colo quentinho vê o frio passar, o sono chega… Ufa, então era isso?

Quando tudo o mais falha e a gente termina por explodir e agimos tomados pela própria fúria, o melhor é reconhecer, assumir para si e para nossos filhos e… se desculpar. Nem sempre conseguimos fazer o melhor, mas o fato de pensarmos a respeito e mantermos o senso crítico é o que nos ajuda a tentar o melhor na próxima vez. Não existe humilhação alguma em reconhecer um erro. E são poucos os erros irremediáveis para uma criança que, contrariamente a nós, adultos, sempre traz o coração aberto, cheio de vontade de amar, de ser amada, de ser feliz e de viver a vida. Pedir desculpas é assumir um erro. E assumir que falhamos. E é uma capacidade poderosa de reparação que precisamos ter quando temos filhos, para eles e para nós mesmos. Peça desculpas, explique a sua dificuldade do mesmo jeito que tentaria explicar a dela, seja sincera. E busque fazer diferente numa próxima vez.

Quando tudo o mais falha e o choro continua dolorido, o que aparece para salvar o dia é, na maior parte das vezes, o aconchego. Aquele que se dá no silêncio, sem falar mais nada, sem discutir, sem brigar, sem querer explicar ou ensinar. O colo, o melhor substituto da mamada, aquele colinho quentinho, verdadeiro, cheio de amor e compaixão. Colinho em que os dois suspiram, as respirações se acalmam, o choro passa e as energias revigoram-se para recomeçar, logo em seguida, tudo de novo. Novos desafios, novas dificuldades, novas explosões. E a aposta sempre mantida de que com algum desses jeitos a pequena se sentirá ajudada. Que ela se saberá acolhida e amada. E terá confiança em si – e em mim – para continuar existindo, para continuar sendo, para continuar se inventando. Mesmo que isso seja tão trabalhoso.

Bibliografia básica para parto humanizado

Hehehehehe, quem tem vício de trabalho acadêmico adora uma bibliografia no final, né? Mas, sem querer intelectualizar demais a coisa, aqui vão algumas leituras que descobri ao longo desse tempo e que me ajudaram muito na época da gravidez ou até mesmo depois, para entender melhor o que havia vivido. Depois dos textos sobre parto de anteontem e ontem, é o último da série. Por enquanto.

Tem uma enfermeira obstétrica americana, chamada Ina May Gaskin, que foi minha primeira grande descoberta nesse mundo do parto humanizado. Ela é incrível, muito sábia e experiente e fala muito bem sobre o parto, o medo no parto, as dores, o que atrapalha, o que ajuda. Acho que foi quem mais me esclareceu sobre o quanto o medo é importante para delimitar o que você vai viver na experiência de parto. Então, se você entende bem inglês, eu assisti uma série de palestras dela via internet que adorei. Aqui, alguns dos episódios: sobre a ocitocinasobre o medo no partosobre a dor no parto. Você pode ver toda a série de videos pelo youtube, eu recomendo.

Outra “leitura” obrigatória é o documentário O renascimento do parto. Desse eu participei do crowdfunding, mas só fui ver o filme mesmo depois que a pequena tinha nascido. É muito esclarecedor e ajuda a pensar na importância para nossos filhos e para o mundo de cuidarmos da forma como eles vêm ao mundo. Tem até uma palhinha no youtube. Ou você pode comprar o DVD. Funciona como um livro de cabeceira e é um dos meus melhores argumentos para gente que defende a cesárea porque “se as famosas fazem, a gente quer também” (juro, já ouvi isso). Esse filme, a Gisele Bündchen e a Kate Middleton, claro.

Outra autora de quem gosto muito, para pensar a maternidade e o parto, é a Laura Gutman. Pena que só fui ler há uns dois meses, mas ela traduz maravilhosamente muitas das nossas vivências durante a gestação, o parto e o puerpério. Vários lugares na net publicam trechos dos livros dela, eis aqui alguns que têm mais a ver com a questão do parto e que acho que podem ajudar a pensar: no site Mamatraca e no livro dela “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, em que o capitulo 2 é sobre o parto. E caso se interesse por essa abordagem mais psicanalítica da maternidade, recomendo vivamente a leitura da obra de Françoise Dolto, com quem a Gutman se formou e do bom e velho D.W.Winnicott, minha referência de coração e mente para pensar a maternagem.

Esse site é muito bom em informações também. Tem ótimas informações sobre parto no Brasil, além de sobre trabalho de parto, parto humanizado, o papel do pai…

Um texto bem interessante sobre a dor do parto.

Esse texto aqui, da Melania Amorim, virou rapidamente minha referência para as justificativas fajutas para uma cesariana. Não que isso ocorra tanto aqui na França, mas acho importante saber. Porque ela nos ajuda a perceber que a maior parte dos motivos dados para cesariana são falsos e, com isso, nos ajuda a perceber que são poucos os verdadeiros motivos para algo dar errado e um médico ter que intervir no parto. Isso traz mais segurança sobre o quanto somos capazes de parir, o quanto os riscos, perigos e problemas são a exceção e não a regra e o quanto são imensas as chances de que tudo simplesmente corra bem.

No âmbito dos relatos de parto – que eu adorava ler enquanto estava grávida, porque me enchiam de coragem e continuo gostande de ler hoje porque me emocionam, invariavelmente – o pessoal do GAMA, um grupo de São Paulo que apoia o parto humanizado, tem vários relatos de parto bem interessantes. Outros relatos de parto aqui, no Vila Mamífera. Tem o meu próprio relato, claro. Noutro dia li esse relato lindo, também, que fala de um parto rápido, consciente e apropriado… E esse outro bastante sensível, falando das coisas que não sabemos e deveríamos, para sermos mais senhoras de nossas escolhas. Enfim, tem para todos os gostos, é muita inspiração na web.

Outra referência quando o assunto é parto, o Michel Odent, que coloca as coisas em termos bem simples e claros. Além dos livros dele, há várias entrevistas e pequenos textos espalhados pela web, vale a busca.

Por fim, tem a bela iniciativa do Projeto Clarear, da Ceila Santos do Desabafo de Mãe, que lançou uma “campanha” no portal Mamatraca perguntando o que as grávidas querem saber agora. Uma porta aberta para a troca de informações que sejam coerentes com aquilo que realmente pensamos, sentimos e nos perguntamos durante a gravidez, bem distante da maioria dos pitacos inoportunos que ouvimos ao longo de todo o período. Visite o portal e dê sua contribuição!

Quem tiver mais dicas de leituras, vídeos, sites e afins, coloca nos comentários, por favor.

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Em tempo: a Gabi Ramalho lembrou, nos comentários, dos grupos no Facebook, verdadeiras redes de informação e solidariedade para grávidas, parturientes, mães e afins. Indicou o Cesárea? Não, obrigada! que eu coloco em link aqui, para quem se interessar. Valeu, Gabi!

 

Como se preparar para um parto normal?

Continuando esse texto aqui e tentando pensar no que ajuda a nos prepararmos para o parto. Na medida em que isso é possível, claro, pois o parto é uma experiência de total descontrole e de entrega, em que sua razão não consegue fazer nada por você enquanto seu corpo age. E um dos aprendizados é justamente deixar esse corpo agir e confiar na sua sabedoria. Então, segue uma lista de pequenos aprendizados e grandes descobertas que fiz e que talvez sejam úteis para outras mulheres que querem tentar evitar a cascata de intervenções médicas na qual se transformou o nascimento na maioria dos lugares hoje em dia:

  • Recusando a anestesia – que é reconhecidamente a porta de entrada para muitas outras intervenções que se seguem a ela, como a administração da ocitocina sintética, a episiotomia, o parir na posição ginecológica… Fato: na medida em que você abre mão de sentir boa parte do seu corpo, fica literalmente à mercê de que ele seja manipulado pelos outros como bem entenderem. Se você não sente nada da cintura para baixo, a dor das contrações não envia mensagens para seu cérebro produzir ocitocina, que não entende que tem que contrair, dilatar, produzir leite… o que leva a trabalhos de parto que empacam, contrações que cessam, dilatações que recuam, leite que demora a descer… o que leva à ocitocina sintética, que não aparece na medida do que o corpo precisa ou pode compreender, o que leva a contrações muito mais intensas e à mais dor e, às vezes, até a um sofrimento por parte do bebê… o que leva ao medo e o medo é um dos elementos mais importantes para fazer um parto parar, desandar ou acontecer de maneira sofrida e dolorosa. Ainda, anestesiada de mais da metade do seu corpo, parir será apenas na posição ginecológica, porque não há como mudar de posição sem sentir as pernas. E essa posição não facilita muito a descida do bebê… o que leva a mais dificuldades no expulsivo, o que implica em fazer mais força, o que justifica muitas vezes aquela abominação que é alguém subir na sua barriga e empurrar por você, o que significa um bebê sendo empurrado com força demais, o que significa lacerações maiores no períneo… o que justifica outra aberração que é fazer episiotomia e cortar camadas e mais camadas sob o pretexto de que isso vai doer menos e cicatrizar melhor do que uma laceração… Bom, acho que deu para entender que uma coisa puxa a outra e que quando menos se espera a gente se vê arrastado em um mecanismo do qual não consegue mais se livrar. Então, por que começar?
  • Conhecendo ao máximo o próprio corpo e aprendendo como ele funciona e quais são os métodos de alívio da dor não medicamentosos. Tenho a sorte de ter feito dança durante quase toda a minha vida, o que fez com que eu adquirisse uma boa noção de como o meu corpo funciona. Não apenas a fisiologia do parto, saber como acontece na prática para um bebê nascer mas, também, poder entender como encontrar boas posições, como bascular a bacia para frente para alinhar o corpo de modo a facilitar a saída do bebê, como variar posições de maneira confortável e, principalmente, como respirar. Respirar – como muitas vezes aprendemos em cursos de yoga – é a base para manter o equilíbrio e a tranquilidade ao longo de todo o parto. Ao menos, foi para mim. Nesse sentido, foi super importante um curso que fiz aqui de preparação para o parto, que todas as grávidas fazem, e que foi dado por uma sage-femme especialista em sofrologia. Não encontrei nenhum equivalente disso no Brasil, mas se trata de uma técnica de respiração que, no que diz respeito à gravidez, te ensina a respirar mais ou menos no mesmo ritmo das contrações. Quando elas começam você solta o ar o máximo que puder, bem devagar, como se tivesse uma vela acesa na sua frente que não pudesse apagar. E expira assim tanto quanto consiga, depois inspira. Essa expiração dura quase o mesmo tempo de contração e juntando isso com a báscula da bacia para frente, o alívio é imenso. Funciona. Eu sei porque o único momento em que senti mais dor foi durante algumas contrações que eu parei de respirar desse modo, comecei a ofegar, comecei a sentir mais dor, o que me fez ofegar mais e foi muito difícil. A ponto de eu pensar que não daria conta. O que me leva à mais uma coisa importante.
  • Relaxar é fundamental. Parece um contra-senso dizer que é preciso ou possível relaxar. Mas eu percebi que é. Entre uma contração e outra tem gente que até dorme. Até mesmo durante as contrações é possível e necessário relaxar. Quero dizer: quando sentimos dor, nossa tendência é contrair todos os músculos para nos protegermos. Só que essa tensão faz doer muito mais, qualquer um que passe muito tempo numa posição ruim ou com o corpo todo tenso por conta do frio sabe disso. Tudo trava, tudo dói. Agora imagina esse corpo todo rígido na hora do parto. Não dá para achar posição, não dá para respirar, tudo vira desconforto. Nesse curso de preparação ao parto do qual falei, a sage-femme falava muito sobre esse relaxar como uma espécie de entrega, como uma aceitação sua daquilo que está acontecendo com o seu corpo. Ou seja, ao invés de lutar contra e ficar brigando com contrações contraindo mais ainda outros músculos, o negócio é deixar que elas aconteçam. E, para isso, um dos grandes aliados, no meu caso, foi uma banheira cheia de água quentinha. Aqui na França não se pode parir na água pelo risco de infecções e afins (como se fazer mãe e bebê passarem 4 dias em ambiente hospitalar após o parto, obrigatoriamente, não fosse arriscar imensamente todo tipo de infecção hospitalar)… enfim, não se pode parir na água mas se pode ficar na banheira, ou embaixo do chuveiro. E isso, aliado à respiração e aos movimentos da bacia traz um alívio e um relaxamento grandes.
  • Poder fraquejar. Pois sempre tem um momento em que a gente pensa em desistir. Já ouvi mais de uma mulher falar a respeito. E o curioso é que esse momento anuncia que está próximo de acabar. Por isso é bom saber que ele existe e que ele chega, pois com ele chega também o final do parto. Talvez seja um misto de cansaço com medo do desconhecido com espanto por tudo aquilo que está acontecendo. Nessa hora do “não vou dar conta”, ajuda se conseguimos relaxar, respirar, sabendo que teríamos esse tipo de dúvida. Se houverem pessoas em volta que possam nos tranquilizar também quanto a isso, mostrando que estamos dando conta sim, ajuda e muito. Mas fraquejar, é importante que se saiba, não é falhar… o que me leva a um outro aprendizado importante que é…
  • Reconhecer os seus limites. No fim das contas, penso que o parto é uma profunda negociação entre você e você mesma, assim como entre você e o seu bebê. Se passamos a gravidez todas às voltas com medos, inseguranças, reflexões e toda espécie de fantasma que nos ronda a barriga redonda, vindos de nós mesmas e dos outros, acho que é na hora do parto que a gente descobre se vai dar para negociar com tudo isso ou não. Do que estou falando? De desejo. Desejo, para uma psicanalista como eu, não é aquilo que a gente diz que quer, mas aquilo que atravessa a gente como um verdadeiro querer que se impõe, às vezes até de maneira oposta ao que pensávamos que queríamos. Sabe aquela história de dizer que quer uma coisa e fazer justamente o contrário? Então… desejo. Desejo é aquilo que suas ações dizem, é aquele querer que tem tanta força que consegue virar ação. Porque sabemos o quanto é difícil agir na vida e o quanto é fácil falar. Pois é, o desejo dá testemunho daquilo que realmente queremos naquilo que conseguimos fazer. Então isso significa que se eu não tiver o parto natural que digo querer, é sinal que eu não queria? Não necessariamente. Porque existe o nosso desejo e existem os outros e as circunstâncias e entre nosso desejo e sua realização existe um muro de ideologias, de jogos de poder e de violência obstétrica que podem jogar todo o esforço na lata do lixo em dois segundos. Mas se tem algo que eu aprendi com a gravidez e com o parto é que, se não temos como controlar quase nada, nem em nós mesmos, nem nos outros, podemos ao menos fazer a nossa parte de trabalho para tentar ao máximo, naquilo que nos diz respeito, encontrar a maior coerência possível entre nosso desejo, nosso corpo e nossas ações. Se tivermos ao menos isso, tenho a impressão que metade do caminho está feita.
  • Cuidando da cabeça. Do mesmo jeito que décadas de dança me deram uma boa noção a respeito de meu corpo que muito me serviu na hora do parto, mais de uma década de análise também muito me ajudou nessa hora. Isso quer dizer que eu estava zerada, sem nenhum senão, sem nenhum porém? Imagina, tinha um monte de fantasmas na minha cabeça e eu passei a gravidez inteira trabalhando duro comigo mesma para cuidar deles. Isso não significa que a gente chega no parto resolvida, e nem que apenas quem está resolvida chega em um parto natural. Isso significa que saber do próprio corpo funciona tanto quanto saber daquilo que te assombra, justamente porque tudo isso vai contigo para a sala de parto. E é bom saber quem está na sala. Eu tinha muitos medos. Pânico de algo acontecer e eu perder a minha filha. Cheguei a sonhar com isso, que paria sozinha e que ela caia no chão, pois eu não conseguia ampará-la. Quer desamparo maior? O que penso que me ajudou foi ter uma idéia do que me assombrava, não jogar para debaixo do tapete e não ficar no deixa disso, achando que não pensar resolveria as coisas para mim. E saber que esse reconhecimento dos meus medos não me paralisava, nem me impedia de agir mas, ao contrário, me ajudava justamente a mobilizar forças para fazer aquilo que eu julgava importante.

Tive a sorte de uma gravidez tranquila. Mas não foi sorte apenas, e sim um esforço ativo em me afastar de tudo o que me parecia ir contra a possibilidade de viver a gravidez e o parto como acontecimentos naturais, humanos, para o qual estamos, no fundo de nós mesmas, preparadas. Não apenas procurando o melhor lugar possível para minha filha nascer, como tentando me cercar de uma rede de apoio – no meu caso, virtual – que pudesse fazer as vezes daquela voz amiga que precisamos em tantos momentos. Da bolsa que estourou ao nascimento dela, foram quatro horas e meia de trabalho de parto. Um parto rápido, muito rápido para um primeiro filho. Mas aprendi que partos são tão mais fáceis e mais rápidos na medida em que as condições em torno de você são mais propícias e acolhedoras. E na medida em que você seja o mais coerente possível com você mesma. Ou seja, quanto menos você tiver que brigar com você mesma na hora e quanto menos ameaçada você se sinta pelo que te cerca, mais a coisa será fluida. Respirar, movimentar-se, banho quente, tudo isso me fez perceber que eu estava dando conta, de que estava sendo possível, também para mim, parir. Depois de um intervalo de geração, lá estava eu pensando na minha avó que, como eu, tinha vivido tudo aquilo. Cada momento dessa experiência me deixava mais segura para continuar. Não contei com tanto apoio quanto gostaria mas – isso também é importante – quem estava em volta não atrapalhou. E por vezes é tudo de que precisamos, que não nos atrapalhem e nos deixem sossegadas.

Doeu? Sim. Mas muito menos do que eu imaginava e muito menos do que alardeiam por aí. É uma dor totalmente manejável a das contrações e sigo dizendo que não acho que o expulsivo doa. Primeiro porque é como uma grande caimbra, um esforço muscular imenso. Quer dizer, é esforço, não dor. Segundo porque, nessa hora, estamos em algum outro lugar e felizmente já não pensamos mais, apenas deixamos o corpo agir. Não é um sofrimento parir. Nem para você e muito menos para o bebê, que é massageado e levado ao caminho do lado de fora, para entrar nesse mundo e para, finalmente, poderem se olhar nos olhos. Te digo que é uma emoção incomparável.

E aqui vale mais uma observação. Dizem que o protagonismo do parto é da mulher. Concordo. Mas acrescentaria: é da mulher e do bebê. Precisam dois para fazer acontecer. Conversei muito com minha filha durante a gravidez. Não tenho como saber o que ficou disso, nem como foi absorvido, mas eu sabia que ela estava lá e que podia me escutar então, na medida em que ela mexia, eu falava. E entre nossos muitos papos, especialmente no final, eu explicava para ela mais ou menos como é que as coisas aconteceriam. Também não sei o quanto isso ajudou, mas tenho a lembrança de que estávamos bem sintonizadas. E ela nasceu muito calma. Sem choro, sem agitação, sem sobressalto.

O bebê não é parido, ele nasce. Ele faz uma porção de coisas enquanto estamos fazendo nosso trabalho. Ele amadurece os pulmões e envia os sinais de que está pronto, ele desce para o canal vaginal na medida em que as contrações o ajudam. Ele sai, abre os olhos, respira, olha em volta. Minha filha veio para os meus braços e ficou pousada na minha barriga por um tempo. Do lado de fora. Respirando e se recuperando daquele trabalho todo, que era o mesmo que eu fazia. Depois foi examinada na presença do pai e voltou para meu colo, onde ficamos boas horas, ela descobrindo o mamar e eu descobrindo ela. Não pensei tanto a respeito das intervenções sobre ela quanto pensei no que aconteceria comigo. E isso é algo que muitas fazemos, tanto temos que lutar para ter um parto digno que não dá tempo de pensar em como proteger também nosso bebê logo que ele sai do ventre. Uma ou duas coisas desse pós parto eu mudaria ou tentaria evitar. Não sabia na época sobre o colírio desnecessário, por exemplo. E ela teve que fazer um exame dois dias depois que, hoje, eu teria recusado. Então, se você já topou toda essa trabalheira que é parir, aproveite para dedicar um tanto do seu esforço para pensar e tentar preparar também o melhor possível o modo como seu bebê será acolhido.

 

Se fosse parir novamente, iria ao hospital ainda mais tarde do que fui, quase no expulsivo. Ou então teria em casa, no melhor estilo: “puxa, não deu tempo!”. Para burlar o jeito como as coisas são feitas por aqui, com a segurança de que saberia muito bem parir uma criança. Somos nós mesmas que temos que encontrar as brechas desse sistema e fazer valer nossa possibilidade de vivermos o parto de maneira digna e humana. E, prazerosa. Porque parir, e isso pouca gente diz, é muito bom. Tenho uma grande amiga que diz – e eu concordo – que se pudesse paria umas dez vezes. Outra história é ter que criar dez depois. Putz!

Volto amanhã com algumas leituras que muito me ajudaram durante gravidez e parto ou que descobri depois, mas que vão de encontro com tudo o que escrevi por aqui.

Para alguém que quer ter parto normal

Desculpem a demora, as últimas semanas foram uma animação só. Então decidi aproveitar esse post para retomar um assunto que muito me emociona, que é falar sobre o parto. Aproveito a resposta que dei a um email de uma comadre gestante para voltar a escrever sobre esse momento tão intenso, marcante e potente que é parir uma criança.

Minha filha tem oito meses já e é frequente que eu lembre com emoção do seu parto. Contei aqui mesmo como foi, ainda no calor dos primeiros dias e, mesmo não tendo escrito mais à respeito, a cada mês que festejamos sua existência, a cada vez que leio um relato de parto, a cada pergunta, a cada discussão sobre parto humanizado não escapo de lembrar. Com saudades, com alegria, com orgulho. Algo que não sabia na época em que engravidei e em que decidi parir da maneira mais natural possível é que um parto tem a potência de transformar duas vidas, não apenas a do bebê que nasce. Você também sai irremediavelmente mudada, caso se abra para isso. E a questão que me fizeram foi justamente essa: como se abrir para isso? Como se preparar? Como garantir que o parto seja um belo momento? Como lidar com os seus medos? E com os outros e suas intervenções? E como fazer tudo isso sendo estrangeira em um país como a França?

O que pude responder, à partir daquilo que vivi, foi que precisamos trabalhar o quanto pudermos, em todas as frentes, para conseguir o parto que desejamos para nós e para nossos filhos.

Chato isso, porque na gravidez o que mais queremos é sossego, apoio e poder passar por esse período com tranquilidade, alegria e sem muitos sobressaltos. Que dirá na hora do parto. Ninguém cogita armar um campo de batalha em nenhum desses momentos e é justamente por isso, por essa fragilidade, esse cansaço e essa vulnerabilidade que sentimos ao longo desse processo todo que, muitas vezes, nos vemos obrigadas a desistir antes mesmo de começar, ao nos darmos conta do esforço todo que vem pela frente.

Fato é que nossos dias de hoje não nos ajudam em nada para termos uma experiência feliz, positiva e saudável da gravidez. No momento do parto isso é ainda mais marcante, já que todo um encaminhamento histórico fez com que o nascer se tornasse uma situação de risco, uma condição patológica, algo que precisaria de muita intervenção médica para dar certo. Nos tornamos, nas últimas centenas de anos, incapazes de parir naturalmente, desconhecendo nosso corpo, desconfiando de seu funcionamento e dispostas a delegarmos todo esse saber ancestral sobre o nascer nas mãos de um outro que, supomos, seria capaz de fazer aquilo que já não acreditamos mais que podemos.

Triste que seja assim. Que tenha se tornado isso a gestação e o parto de um ser humano. Caso de polícia, como lemos horrorizadas outro dia mesmo nos jornais, aquela história medonha da mulher que foi obrigada a uma cesariana, a Adelir. Quando dizem que somos todas Adelir, não é exagero, mas apenas a constatação das forças contra as quais temos que nos levantar quando decidimos fazer da gravidez e do parto aquilo que eles realmente são: acontecimentos da vida e acontecimentos promotores da vida. Ninguém deveria ser violentado por isso, nem ao longo do processo. Nem as mães e muito menos os bebês, que chegam a esse mundo de uma maneira muito estranha, hostil, fria, recebidos de um jeito invasivo que nos acostumamos a achar normal.

Pois é. Querer algo diferente do que se instalou como normal significa que não vai dar para você simplesmente sentar e aguardar que tudo se alinhe para o bom momento. Grávida, cansada, hormônios a mil e tudo mais e, mais ainda, um enorme trabalho pela frente para tentar garantir o mais humano para você e para o bebê que vai chegar.

Um parto, não é uma pessoa que faz acontecer, mas duas. O bebê é tão ativo quanto a mãe e um depende do outro para que tudo corra bem. Mas cabe à mãe garantir o melhor ninho e as melhores condições para que os dois possam trabalhar em paz, chegada a hora. O bebê depende das decisões e das condições da sua mãe para chegar no momento de nascer. E ela depende de uma rede de apoio para conseguir sustentar suas escolhas e seus anseios. Essa rede seria idealmente a família, o marido, a equipe que vai acompanhá-la, os amigos… Mas nem sempre todas essas pessoas gravitam em torno das idéias de como gestar e como parir da mesma maneira. E será uma escolha importante manter sua posição ou abandoná-la, por parecer tudo muito difícil. Mas, se quiser continuar na busca pelo seu parto humanizado, é importante que saiba que existem muitas outras pessoas na mesma situação, que passam ou passaram pelos mesmos dilemas e que formam sim uma rede de apoio e de informações essencial para ajudar a que cada mulher sinta-se suficientemente capaz de parir seu bebê. E que possa fazê-lo nas melhores condições.

Ou seja, o que precisamos é de uma boa mistura entre boas informações e gente disposta a ajudar, ouvir, conversar, esclarecer e aquietar nosso coração nos momentos de insegurança e medo.

Antes de engravidar, eu nunca havia pensado em como gostaria de trazer um filho ao mundo. Isso não era uma questão, mesmo já tendo vivido momentos em que pensara seriamente em ter filhos. Talvez pela nossa cultura cesarista no Brasil e por vir de uma família em que há duas gerações não se paria normalmente um bebê, devido às mais variadas justificativas, todas calcadas em argumentos médicos que pareciam inquestionáveis na época, o que eu pensava era que gostaria de ter um bebê de parto normal mas que, se não desse, tudo bem.

Foi apenas ao descobrir-me grávida que as questões surgiram. Diferente de algumas mulheres que conheço que já estão super bem informadas e preparadas antes mesmo do bebê estar ali na barriga, fizemos o bebê e os pensamentos e indagações vieram de brinde no pacote. E tudo bem que seja assim, pois descobri que nove meses não é apenas o tempo que um bebê necessita para se preparar, mas também o tempo para que a mãe se prepare pare recebê-lo. E isso é muito mais importante do que decorar quarto ou montar enxoval. Preparar é preparar-se e preparar o ambiente.

Fato é que, comecei a incomodar-me com o excesso de intervenções já durante a gravidez. Quer dizer, aqui na França, onde parto normal é regra e cesárea é exceção, foi onde descobri que parto normal não tem nada a ver com parto natural, humanizado. Porque aqui na França, gravidez e parto são eventos extremamente medicalizados e as intervenções e a lógica que os transformam em um risco de complicação a cada segundo existem e imperam. Ou seja, exames, exames e mais exames para “despistar” possíveis complicações e patologias: é disso que se compõe a base do acompanhamento de uma gravidez na França. O que te deixa em um estado de angústia e de alerta permanentes sempre esperando o próximo resultado e torcendo para que nada dê errado. Lembro do impacto que isso teve em mim, a ponto de eu me espantar que alguma gravidez pudesse correr bem e que bebês pudessem nascer sãos e salvos, tantos eram os riscos enfrentados ao longo do caminho. Maldade, né?

Sim, maldade, porque não se trata de precaução, nem de excesso de zelo, mas do exercício de uma lógica perversa que vê a gravidez apenas como os riscos que ali existem de que algo dê errado. E vê o parto apenas como os riscos que ali existem de que algo não funcione. O que resulta em mulheres acreditando que seus corpos são perigosos para os bebês ali dentro, pois sempre podem falhar em algum ponto e, ainda por cima, incompetentes para lhes botarem fora dali, no mundo. Mulheres e seus corpos falhos, faltosos, incompetentes, doentes, arriscados. Depois ainda estranham que mais e mais pessoas estejam se rebelando contra serem tratadas e terem seus filhos tratados dessa maneira. E dizem que é exagero. Sei, sei…

O que aconteceu comigo foi que esse excesso de intervenções que me deixavam maluca de medo fizeram com que eu decidisse reagir e não ficar mais à mercê desse esquema. Como a maioria das maternidades que fazem os partos aqui na França, especialmente em Paris, são fábricas de produção em série, me dei conta de que precisaria procurar alternativas. Informação, pessoas, uma rede de apoio. E acabei encontrando alguns meios de “burlar” o sistema, digamos assim.

São poucas as maternidades que propõem um atendimento humanizado, em que o parto natural seja possível e em que a equipe não vá te obrigar a ficar deitada, com um acesso na veia e com o monitoramento constante do seu bebê mesmo que você não tenha tomado anestesia e que nada disso seja necessário. Elas farão isso para a conveniência delas, porque é mais prático colocar todo mundo na mesma situação do que lidar com circunstâncias diferentes. Ainda mais para as sage-femmes que fazem três ou quatro partos simultaneamente. E o que é bom para a equipe não é necessariamente o melhor para você. E, infelizmente, na França a possibilidade de um parto domiciliar é quase nula, já que as sage-femmes autorizadas a acompanharem esse tipo de parto praticamente não existem mais e a prática foi tão perseguida e desacreditada que conseguiram convencer boa parte das pessoas que lugar de parto é no hospital, sob o argumento de que é mais seguro.

Primeira constatação: além de ter que me informar, escolher o lugar e as pessoas na medida do possível, o principal seria me preparar muito bem para o parto. Como? Antes de qualquer coisa, tomando consciência de que, sim, ao contrário do que todos dizem e do que tudo indica, eu, como toda e qualquer mulher, sou capaz de parir minha bebê. Essa foi a principal aposta que tive que fazer. Apostar em mim e nos meus recursos. E na minha filha e na sua capacidade de nascer. Posto isso, todo o restante consistiu em me preparar para esse momento, colocando todas as chances do nosso lado. Como? Evitando a cascata de intervenções ao máximo. Como? Aguenta firme que no próximo post vem uma lista daquilo que aprendi e do que funcionou comigo.

Desmitificando…

… alguns mitos sobre gravidez, parto e maternidade. Porque as pessoas têm algumas crenças bem estranhas, que tomam como verdades, sem nem ao menos se dar ao trabalho de colocar certezas em questão.

Por exemplo, o mito de que o corpo fica deformado, despencado, feio depois de gravidez, parto e amamentação. Que é largamente reforçado pela mídia caça-celebridades que sempre estampa em suas manchetes mulheres que acabam de parir já com barriga tanquinho, peso de antes da gravidez, tintura do cabelo feita, unhas impecáveis e por aí vai. Tivemos recentemente um novo capítulo dessa discussão quando a princesa Kate Middleton decidiu sair da maternidade um dia após dar à luz de vestido azul e barriguinha pós-parto à mostra, o que muita gente achou criticável. Ainda bem que muitas outras acharam lindo, uma bela homenagem ao parto e à mulher “normal”. Me incluo entre essas.

Mas, será assim mesmo tão deteriorante para o corpo a experiência da gravidez e da maternidade a ponto de justificar que mulheres optem por uma cesariana para não tê-lo “danificado”?

A meu ver, isso se discute. E muito. Minha hipótese, baseada apenas na minha experiência e no que ouvi como relato de algumas outras mães, é que parir de um parto respeitoso e humanizado te devolve a seu corpo e te ajuda a fazer as pazes com ele, escapando dessa ditadura das aparências, das formas, das gorduras. Ou seja, eis mais uma vantagem do parto humanizado que periga desgostar o mercado que lucra em cima de nossa insegurança e de nosso desconforto em nossa própria pele: para que cirurgias estéticas, dietas absurdas, ditadura da magreza, obsessão com a boa forma se, através de uma experiência como parir você se der conta que tem um corpo – e não um vazio desagradável que tem que preencher e controlar – e que esse corpo é bom, bonito, potente e cheio de saúde? Putz! Guarda esse segredo aí, minha gente.

Eu fiz ballett clássico por toda a minha infância e adolescência e, em seguida, vários tipos de dança até a época em que comecei a trabalhar. Sempre fiz o estilo “tábua” antes de ser fashion. E nunca fui alta o bastante para ser modelo. E isso me incomodava sobremaneira, essa ausência de curvas. Porque, ao menos no Brasil e naquela época, desejável era ser mulher violão, né? Naquela época não, até hoje. Podemos pensar que eu destoava mas, na verdade, não fossem as curvas, seria outra coisa, os cabelos castanhos, ondulados, os olhos castanhos… vai saber. O que sei é que sempre haveria algo porque não existe uma mulher nesse mundo de hoje a quem não seja atribuído um defeito em relação à sua aparência. Ou seja, nenhuma mulher escapa de ter alguma de suas características que a tornam singular e contribuem para que ela seja quem é tachada de “defeito”, de feiúra, de inadequação a um dito padrão de beleza e desejabilidade. Padrão esse que nunca é posto em questão, como se fosse natural, evidente, obrigatório e estivesse estado aí desde a aurora dos tempos. Mas é gosto. E gosto se discute. Ou, ao menos deveria-se discutir porque, aqui em nosso mundo e em nosso tempo, ao invés de problematizar essas verdades do que se diz ser a beleza, joga-se o peso delas sobre cada indivíduo que, obviamente, não tem como fazer frente a um ideal. Já dizia o bom e velho Freud: o ideal é algo inalcançável que criamos apenas para nos atormentarmos eternamente em relação a ele.

Toda essa insanidade que recai sobre cada um e faz sofrer a todos só faz a alegria do mercado: em cima desse vazio criado pelo abismo entre seu ideal e você muita gente lucra, criando a ilusão de que um produto qualquer vai te ajudar a chegar lá onde você falhou. Dietas, cirurgias plásticas que deixam todo mundo com a mesma cara, produtos de beleza, roupas, sapatos, ginástica… uma corrida contra o tempo, as marcas da vida, o envelhecimento, as formas únicas de cada um. Como se ficar com a cara do Coringa (sim, aquele, o arqui-inimigo do Batman) e o corpo de uma anoréxica fosse te apaziguar das tuas aflições em não ser aquele ideal, aquele padrão, aquilo que não existe.

Pois é… o que tem o parto, a amamentação e afins a ver com essa história?

Gravidez, parto, amamentação incidem diretamente sobre o corpo. Eles acontecem no corpo e, me parece, quando não se passam de forma violenta, têm o poder de te devolver a quem você é. Na mesma medida em que escuto relato de cesarianas e partos normais repletos de violência, que alienam mais as mulheres de seus corpos, trazendo dor, sofrimento e trauma, tenho escutado também muitas histórias de partos em que as mulheres saem transformadas. Foi o que aconteceu comigo.

Engravidar, parir e amamentar trouxeram para mim – que sempre fui tão atenta ao corpo, meu e dos outros – uma percepção totalmente nova. No dia seguinte ao parto, me olhando no espelho, descobri um corpo do qual eu gostava. E muito. Um corpo que me deu orgulho, em que cada marca, curva, gordurinha ou o que seja contavam e contam a história dessa experiência tão importante. Um corpo que, pela primeira vez, não foi um corpo insuficiente e em dívida constante com esse fantasma do “deveria ser”. Um corpo bem legal. Um corpo capaz, potente o bastante para abrigar uma vida, para dar à luz, para alimentar um bebê. Fala sério, isso não deveria ser incluído naquelas listas que fazem sobre as vantagens de um parto normal humanizado? Algo do tipo: isso muda a percepção, a experiência e a imagem que você tem do seu corpo.

Então, não é certo que quem engravida, dá à luz e amamenta fica com um corpo pior do que era antes. Fica melhor. E penso que não sou a única a sentir-me assim. Sou?