A volta da barriga

Nesse longo e nada tenebroso não inverno, uma das novidades é que a barriga voltou. Literalmente. Sim, vem aí o segundinho. Sim, é menino. Sim, já está quase na hora de parir e eu apareço com uma dessas. Gente, oi, acho que tô grávida… já nasceu! Hehehehehe. Se vocês querem saber como é estar de barriga do segundo rebento, eis aí um belo exemplo que diz quase tudo sobre o assunto: não dá tempo de elocubrar muita coisa. Quanto mais escrever. Mas, tudo bem, vamos ao tableau comparativo entre a primeira e a segunda gravidez, para dar um toque de humor à coisa:

  • Na primeira tudo é descoberta, tudo é novidade, você espera ansiosamente por cada manifestação do corpo, cada mudança, cada consulta médica, cada enjôo, cada movimento do bebê. Na segunda você se lembra, de sobressalto, que está grávida quando começa a ter azia 24 horas por dia. E lembra que não gostou nem um pouco disso na primeira vez. E fica de mau humor pensando em como vai fazer para comer e alimentar o rebentinho se tudo parece nhaca. E depois relembra que está grávida quando o pequeno começa a mexer, muitos meses depois que o enjôo e a azia passaram. E, dessa vez, você gosta disso. Como gostou na primeira.
  • Sim, o fato de já existir uma criança muda tudo. Muda sua disponibilidade, muda o seu tempo, muda os seus investimentos e a maneira como você se organiza entre gravidez e criança que já está ali saracoteando pela vida. Muda a atenção que você pode dar para essas duas experiências tão intensas, estar grávida e ter um filho. Mudam coisas em relação ao pequeno que está aí por conta da gravidez. Mas muda também sua condição de se fechar num casulo e ficar alisando a barriga o dia inteiro. Você não necessariamente fala muito com o bebê na barriga. Mas, sem neuras, porque tua filha bate ali na pança como se fosse uma porta e solta um “oi, bebê, tudo bom?” de quando em quando. E imagino que deve ser uma diversão pro miudinho ali de dentro escutar aquela farra toda ali fora da qual logo mais ele vai poder participar.
  • Em três, vocês já eram uma família. Em quatro, se ainda existiam dúvidas sobre o por acaso daquela relação que começou a dois, elas se dissipam. Mais família do que projetar um segundo filho depois de ter tido o primeiro, com a mesma pessoa, depois de todas as dificuldades e desafios que a chegada de uma criança traz para um casal e para a vida em casal… mais aposta do que isso em aprofundar a relação, em construir junto, em ser um casal, em viver essa experiência juntos, só se sair tendo um quinto, um sexto… Ou se começar a construir casa, comprar terreno, criar cachorro, abrir conta conjunta… sei lá…
  • As pessoas não têm a mesma reação que ao longo da primeira gravidez. Nada de uau, que demais, vamos comemorar, eu te paparico durante nove meses, viva! Está mais para: parabéns, que bom, pega ali aquele saco de supermercado que você esqueceu no corredor… Putz!
  • As perguntas e comentários sem noção não deixam de existir, mas pelo menos mudam, o que te dá direito a ouvir novas barbaridades e a imaginar como seria dar aquelas novas respostas que você tem ali na ponta da língua.
  • Outro? Mas já? Que coragem! Bom, pelo menos cria tudo junto, né? Pois é, a gente estava sem nada para fazer mesmo, decidimos inventar qualquer coisa para nos entreter.
  • Mas como foi isso? Foi planejado? Olha, eu já tive que te explicar na primeira vez, vou ter que contar a história da cegonha de novo agora?
  • Que loucura, agora que estava tudo melhorando, que a pequena estava crescendo, vai começar tudo de novo? Por que, é você quem vai criar?
  • Agora vai ter que parar de amamentar a mais velha, né? Talvez você não saiba, mas existe amamentação en tandem. E, não se preocupe, a mais velha não vai tomar todo o leite do pequeno e deixá-lo morrer de fome, não é assim que a coisa funciona. Mas, bom, se já te perturbava o simples fato de eu amamentar uma por um período tão longo, imagina amamentar dois? Cuidado para não dar nó na sua cabecinha e você ter que procurar um psicanalista, hein?!
  • Um menino? Que bom, vai ter um casalzinho! Sério, gente, como assim? Alguém me explica essa, por favor. Fico com medo de achar que as pessoas não percebem que o comentário delas beira o incesto.
  • Ou então: ah, um menino? Agora você vai ver o que é bom para a tosse! Poxa, obrigada por vir me dizer que minha vida vai piorar muito pelo simples fato do segundo bebê ser um menino e não uma menina, como se gênero determinasse o quão endiabrada uma criança pode ser.
  • Ah, você vai ver, menino é totalmente diferente! Espero, para o bem da psicanálise que eu prezo tanto, que sim, que exista mesmo uma diferença. Mas também espero que essa diferença não consista num estereótipo barato de como as meninas e os meninos são. São duas pessoas distintas, elas serão inevitavelmente diferentes. Nem se fossem gêmeos, não teria jeito. Ser diferente não é condenação, ou é?
  • Vai ter que brincar de carrinho, jogar bola… Minha filha brinca de carrinho. E joga bola. Meu filho vai brincar de boneca. E de casinha. De novo, são pessoas, não clichês ambulantes. Cada um vai ser como quiser e viver como lhe fizer sentido. E ambos terão iguais oportunidades de descobrir o mundo, sem barreiras de gênero.
  • E o nome? Já escolheu o nome? Já, mas dessa vez não vou te falar porque não estou afim de escutar que o Felipe é seu ex-marido, aquele crápula, que todos os Luiz que você conhece são uns chatos, que Vinícius é um capeta, que se fosse você, chamaria o rebento de François… Vá ter um filho e dê a ele o nome que você achar melhor. Ou adote um cachorro, um gatinho e chame ele de François. É fofo e super simpático.
  • Vai nascer na França de novo? Outro francesinho? Yep, outro franco-brasileiro. Por que não vem ter aqui no Brasil dessa vez? Porque quero ter meu filho ao lado do meu cara-metade. E da minha filha. E não quero ter que pagar para não ter cesariana. E pagar mais ainda para ter um parto respeitoso e humanizado. Nope, aqui é um país bem complicado em termos de gravidez, parto e pós-parto. Mas, nesse quesito, o Brasil ganha de lavada em oferecer e fazer o pior. Tô fora.
  • Por outro lado, os comentários e as intervenções arbitrárias dos médicos e eventuais outros cuidadores que acompanham a gravidez parece que se amenizam muito quando se trata de um segundo. É como se o fato de ter parido um primeiro te desse algum crédito para tomar as rédeas e fazer do seu jeito no segundo. Quando, na verdade, você deveria ter sido escutada desde o primeiro, mas isso é outro assunto. Segundão? Você tem crédito. E, não, não é o milagre da transformação da água em vinho, é apenas um mínimo de consideração e respeito vindo de um lugar que continua intervencionista, medicalizante e autoritário. Mas isso também é outro assunto. Em resumo: você já provou que pode parir, então a equipe médica te dá uma certa trégua no acompanhamento da gravidez. E quando você diz: não vou fazer isso, eles até te escutam. Ohhhh!
  • Você quer parto humanizado, sem anestesia, sem episiotomia, sem ocitocina sintética, sem puxo dirigido e afins? Ah, você pariu assim a primeira? E correu tudo bem? Ah, então não há porque não possa ser assim novamente, né? Pois é, pedro bó. Agora me deixa aqui quietinha cozinhando o meu pãozinho e não me venha com essa de toque vaginal, depistagem da trissomia, milhares de exames, trocentos ultrasons e tudo o mais que você tem para oferecer nesse seu mercadinho das inutilidades tecnológicas para grávidas, ok?
  • Na categoria “sangue no zóio”, o mais difícil é aturar os comentários dirigidos à sua filha, que está ali de boa, vivendo a vida dela e tem que lidar com pérolas do tipo: tadinha, perdeu o trono. Ah! Agora vai ter que dividir tudo com o irmãozinho. Ah, a mamãe vai estar ocupada. Xi, perdeu a atenção. Quem é que sabe como vamos ser, minha filha e eu, com a chegada do irmãozinho dela? Shut up, people. Depois as pessoas reclamam que os mais velhos têm dificuldades em lidar com a chegada dos mais novos. Mas não pensam que os comentários super construtivos com que premiaram os ouvidos dos pequenos tenha algo a ver com isso, né?
  • E, no quesito esquizofrenia pura, ainda bombardeiam os pequenos com as pérolas opostas, no melhor estilo: vai perder o trono… mas está feliz que vai ter um irmãozinho? Você vai ter com quem brincar! Você gosta do irmãozinho? Gente, fala sério: nós que somos adultos mal conseguimos representar a existência de um outro ser enquanto ele está dentro da barriga, que loucura é essa de supor que uma criança pequena deveria entender o que significa “tem um bebê ali na barriga”? E quem disse que o bebê vai brincar com ela? Bebê recém nascido brinca, por acaso? Não dá nem para fazer de boneca, pintar a cara com canetinha, arrancar a roupa, arrastar para lá e para cá e dar comidinha. Deixem a criança descobrir no tempo dela o que isso significa. Deixem ela em paz para viver a experiência dela. Para ignorar, para perguntar, para falar, para tocar a barriga, para gostar ou não gostar, para achar o bebê um tédio quando ele nascer, para ter ciúmes ou o que quer que seja. Deixem a coisa acontecer, dêem um pouco de sossego para todos. Ah, tinha esquecido, as pessoas não resistem quando se trata de falar bobagem sem pensar.
  • De todo modo, quando você passou pela experiência de parir o primeiro filho, de maneira humanizada principalmente, isso te dá uma baita confiança em relação ao segundo. Você sabe que pode parir. Você sabe que o bebê pode nascer. Então, aqueles medos e desconhecimentos e ansiedades da primeira gravidez ficam bem distantes. Não que cada gravidez não seja diferente e que cada parto não seja único, mas a confiança em parir, no seu corpo, no seu bebê são algo que você ganha com o primeiro e leva para o resto da vida. Inclusive para os rebentos seguintes. Essa segurança te acalma durante a gravidez e te ajuda a focalizar no que é importante.
  • Preocupações? Apenas com o que você descobriu ser essencial ao longo dos últimos dois anos. Berço? Nhééé. Carrinho de bebê? Nhééé. Quartinho do bebê? Nhéééé. Chupeta, mamadeira, leite em pó? Hahahahaha. Fortuna gasta em roupinhas? Não, apenas uma coisa ou outra. Especialmente para o frio, porque esse nasce em pleno inverno. Toda a parafernália de banho? Nhéééé. Sling? Sim, sim, sim! Fraldas? Putz, verdade, tem que comprar fraldas em dois tamanhos agora, hein? Como é que era mesmo essa história de limpar o umbigo?
  • No quesito roupa de grávida, é assim: você usa suas roupas mesmo o máximo de tempo possível. E depois usa aquelas da primeira gravidez que não jogou fora porque, vai que, né? E depois bota o casaco de inverno com um cachecol de lã na frente para proteger a parte que fica aberta, porque o zíper não fecha e nem pensar que você vai comprar casaco de inverno num tamanho maior.
  • E você se acha linda. E se acha feia. E acha que a barriga está imensa, porque ela aparece mais rápido. E se irrita com aquela parte chata de andar feito pata e de não conseguir posição para dormir à noite. E se lembra que não tirou uma foto da barriga por mês e já pensa que o segundo rebento vai fazer mais tempo de análise que a primeira porque você não ficou ali, em cima, olhando o tempo todo para cada detalhe com olhares embevecidos. E depois se tranquiliza achando que ele vai te agradecer por você ter dado sossego para ele crescer em paz ali na barriga, sem ficar aporrinhando o tempo todo com um excesso de presença. Mas então isso significa que é a primeira que vai fazer anos de análise por conta do seu hiper investimento? Putz!
  • O essencial? Segunda gravidez é menos consumismo, menos superficialidade e mais consciência do que realmente importa. E mais confiança no que você viveu, no que você pode e no que você faz. E mais confiança no seu bebê. E uma convicção de que tudo corre bem na imensa maioria do tempo. E que sábias eram as nossas avós que ficavam em silêncio, tricotavam casaquinhos e viviam a vida, normalmente, sem fazer de tudo isso um espetáculo.

E o amor? Já ama os dois igual? Eu, particularmente, detesto essa obrigação do tudo igual para os dois, como se alguém pudesse sentir e agir igual, indiscriminadamente, sem levar em conta quem é a pessoa que está ali na sua frente. Quem faz tudo igual para todo mundo é, a meu ver, porque não percebe ninguém. Amor de mãe é algo que se constrói na convivência com o filho, é aquele troço que aumenta e transborda cada vez que você pensa que nem teria como amar mais. É na descoberta e na convivência que você ama. Então, você não ama o bebê? Amo, como se pode amar um bebê que ainda está na barriga. Amo a idéia dele, amo o fato dele existir, amo a curiosidade de conhecê-lo, de ver como ele é, de ver como ele vai descobrir esse mundo. Amo a perspectiva dele junto com a gente, nessa nossa família. E amo a minha filha pelo que ela é, por tudo o que vivemos até hoje, pelo jeito como ela é nesse mundo, pelas suas singularidades, por suas descobertas. É muito diferente. E não sinto a menor obrigação de amar igual essas duas pessoas tão diferentes, em momentos tão diferentes da existência e com as quais tenho uma convivência e uma relação tão distintas. Confio no amor que tenho pela minha filha. E confio no amor que vai se construir entre eu e meu filho. Ponto.

Desmitificando…

… alguns mitos sobre gravidez, parto e maternidade. Porque as pessoas têm algumas crenças bem estranhas, que tomam como verdades, sem nem ao menos se dar ao trabalho de colocar certezas em questão.

Por exemplo, o mito de que o corpo fica deformado, despencado, feio depois de gravidez, parto e amamentação. Que é largamente reforçado pela mídia caça-celebridades que sempre estampa em suas manchetes mulheres que acabam de parir já com barriga tanquinho, peso de antes da gravidez, tintura do cabelo feita, unhas impecáveis e por aí vai. Tivemos recentemente um novo capítulo dessa discussão quando a princesa Kate Middleton decidiu sair da maternidade um dia após dar à luz de vestido azul e barriguinha pós-parto à mostra, o que muita gente achou criticável. Ainda bem que muitas outras acharam lindo, uma bela homenagem ao parto e à mulher “normal”. Me incluo entre essas.

Mas, será assim mesmo tão deteriorante para o corpo a experiência da gravidez e da maternidade a ponto de justificar que mulheres optem por uma cesariana para não tê-lo “danificado”?

A meu ver, isso se discute. E muito. Minha hipótese, baseada apenas na minha experiência e no que ouvi como relato de algumas outras mães, é que parir de um parto respeitoso e humanizado te devolve a seu corpo e te ajuda a fazer as pazes com ele, escapando dessa ditadura das aparências, das formas, das gorduras. Ou seja, eis mais uma vantagem do parto humanizado que periga desgostar o mercado que lucra em cima de nossa insegurança e de nosso desconforto em nossa própria pele: para que cirurgias estéticas, dietas absurdas, ditadura da magreza, obsessão com a boa forma se, através de uma experiência como parir você se der conta que tem um corpo – e não um vazio desagradável que tem que preencher e controlar – e que esse corpo é bom, bonito, potente e cheio de saúde? Putz! Guarda esse segredo aí, minha gente.

Eu fiz ballett clássico por toda a minha infância e adolescência e, em seguida, vários tipos de dança até a época em que comecei a trabalhar. Sempre fiz o estilo “tábua” antes de ser fashion. E nunca fui alta o bastante para ser modelo. E isso me incomodava sobremaneira, essa ausência de curvas. Porque, ao menos no Brasil e naquela época, desejável era ser mulher violão, né? Naquela época não, até hoje. Podemos pensar que eu destoava mas, na verdade, não fossem as curvas, seria outra coisa, os cabelos castanhos, ondulados, os olhos castanhos… vai saber. O que sei é que sempre haveria algo porque não existe uma mulher nesse mundo de hoje a quem não seja atribuído um defeito em relação à sua aparência. Ou seja, nenhuma mulher escapa de ter alguma de suas características que a tornam singular e contribuem para que ela seja quem é tachada de “defeito”, de feiúra, de inadequação a um dito padrão de beleza e desejabilidade. Padrão esse que nunca é posto em questão, como se fosse natural, evidente, obrigatório e estivesse estado aí desde a aurora dos tempos. Mas é gosto. E gosto se discute. Ou, ao menos deveria-se discutir porque, aqui em nosso mundo e em nosso tempo, ao invés de problematizar essas verdades do que se diz ser a beleza, joga-se o peso delas sobre cada indivíduo que, obviamente, não tem como fazer frente a um ideal. Já dizia o bom e velho Freud: o ideal é algo inalcançável que criamos apenas para nos atormentarmos eternamente em relação a ele.

Toda essa insanidade que recai sobre cada um e faz sofrer a todos só faz a alegria do mercado: em cima desse vazio criado pelo abismo entre seu ideal e você muita gente lucra, criando a ilusão de que um produto qualquer vai te ajudar a chegar lá onde você falhou. Dietas, cirurgias plásticas que deixam todo mundo com a mesma cara, produtos de beleza, roupas, sapatos, ginástica… uma corrida contra o tempo, as marcas da vida, o envelhecimento, as formas únicas de cada um. Como se ficar com a cara do Coringa (sim, aquele, o arqui-inimigo do Batman) e o corpo de uma anoréxica fosse te apaziguar das tuas aflições em não ser aquele ideal, aquele padrão, aquilo que não existe.

Pois é… o que tem o parto, a amamentação e afins a ver com essa história?

Gravidez, parto, amamentação incidem diretamente sobre o corpo. Eles acontecem no corpo e, me parece, quando não se passam de forma violenta, têm o poder de te devolver a quem você é. Na mesma medida em que escuto relato de cesarianas e partos normais repletos de violência, que alienam mais as mulheres de seus corpos, trazendo dor, sofrimento e trauma, tenho escutado também muitas histórias de partos em que as mulheres saem transformadas. Foi o que aconteceu comigo.

Engravidar, parir e amamentar trouxeram para mim – que sempre fui tão atenta ao corpo, meu e dos outros – uma percepção totalmente nova. No dia seguinte ao parto, me olhando no espelho, descobri um corpo do qual eu gostava. E muito. Um corpo que me deu orgulho, em que cada marca, curva, gordurinha ou o que seja contavam e contam a história dessa experiência tão importante. Um corpo que, pela primeira vez, não foi um corpo insuficiente e em dívida constante com esse fantasma do “deveria ser”. Um corpo bem legal. Um corpo capaz, potente o bastante para abrigar uma vida, para dar à luz, para alimentar um bebê. Fala sério, isso não deveria ser incluído naquelas listas que fazem sobre as vantagens de um parto normal humanizado? Algo do tipo: isso muda a percepção, a experiência e a imagem que você tem do seu corpo.

Então, não é certo que quem engravida, dá à luz e amamenta fica com um corpo pior do que era antes. Fica melhor. E penso que não sou a única a sentir-me assim. Sou?

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

O sexo do bebê e sexo dos anjos…

Segundo ultrasom, antes ainda das 22 semanas – porque aqui na França, os obrigatórios e reembolsáveis pela seguridade social são os de 12, 22 e 32 semanas – e o médico lança, não antes de eu ter gentilmente perguntado: ah, isso é uma menina! Assim, como se fosse uma evidência. E isso, vulgo, meu bebê, virou minha bebê, nossa bebê(zinha).

Das coisas que trazem um senso de realidade, de concretude a uma gravidez, saber o sexo do bebê pode ser colocada ali nos “top 5” da lista. Ver o bebê, como já escrevi antes, ouvir seu coração e, agora, saber se é menino ou menina encarnam profundamente esse acontecimento no corpo. Ou, ao menos, encarnam profundamente a consciência de estar gestando dentro da sua cabeça, dos seus sentimentos, das suas fantasias, das suas representações. O que, já diria o bom e velho Freud, é a mesma coisa. Não existe corpo que não seja banhado de alma, de psiquismo, de subjetividade. Corpo organismo, assim, seco, objetivo, cru, apenas os médicos, esses seres estranhos, é que insistem em apregoar. Talvez mais como proteção do que por real convicção, afinal, se eles forem pensar o tempo todo que aquele corpo ali é uma pessoa, como é que vão abrir um tórax, um crânio, realizar uma cirurgia? Enfim…

Mas corpo não é isso, né? Um exemplo: basta ver uma mãe cuidando de um bebê para se dar conta de que o corpo é tudo menos uma objetividade, pois cada vez que um bebê é tratado apenas como um organismo, ele adoece. Uma mãe trocando uma fralda é um toque, um olhar, palavras, sorriso, carinho, calor. Ou até ansiedade, insegurança, cansaço, irritação, pressa… não estou discutindo a qualidade da troca, mas o fato de que ela existe e que ultrapassa o que seria um gesto objetivo, em que as particularidades e os afetos dos dois que estão ali não participariam. Ou seja, trocar uma fralda nunca é o mero ato técnico de cuidar do corpo do bebê esmerdeado. E as imagens do ultrasom, o som do coração do bebê batendo acelerado nunca são apenas os indícios de boa saúde, ou as boas medidas, os bons indicadores do tempo, dos progressos e do estado de uma gravidez. Mesmo que seja apenas isso que conste do relatório do médico, para você é muito mais.

Ainda bem. Porque enjôos, cansaço, sono são bem legais como sinais de gravidez mas, não, são horríveis. Quem gosta de passar três meses enjoando noite e dia, tendo como ruído de fundo permanente um corpo barulhento que se estranha com sua nova condição? Não come, enjoa, come, embola e tem azia, e assim seus dias passam a ser medidos pelos tempos e pelos intervalos entre enjôos e azias e você torce para que ao menos a tal história de que passa ao final do terceiro mês seja verdadeira e a cada vez que lê os relatos de gente que enjoou até um último segundo do último dia do último mês pensa em como vai resistir comendo apenas abacaxi, laranja, mexerica e maçã por todo esse tempo e já se imagina transformando-se em uma pessoa amarela e ácida como as frutas que você consegue comer e… afff…

Corpo bom é corpo quietinho de todas essas turbulências. Corpo em revolução por conta de uma gravidez dá uma trabalheira danada. E um baita mau humor. Até que as imagens, os sons, o sexo do bebê partem em seu socorro e te devolvem a dimensão de porque tudo aquilo está ocorrendo. E você olha para trás, um tempo bem recente, algo como um mês atrás e se diz: ah, nem foi tão ruim assim.

Gustav Klimt: Hope II / 1907/08
Gustav Klimt: Hope II / 1907/08