As mudanças em ti, as mudanças nos outros.

Tenho uma amiga-irmã, grávida quase ao mesmo tempo que eu (porque amigas-irmãs compartilham quase tudo, menos marido e escova de dentes, hehehe) que deu a melhor definição de como se defender dos palpites e das invasões que nos assolam desde que as pessoas, próximas ou não, tomam conhecimento de que estamos grávidas. Sabe aquela invasão básica e desagradável, feita sob o pretexto da boa vontade e de querer ajudar, mas que é sempre inconveniente, despropositada e oprimente? Pois bem, essa amiga-irmã definiu sua estratégia de defesa: já que não dá simplesmente para mandar todo mundo guardar seus palpites para si ou simplesmente ir tomar naquele lugarzinho sombrio e úmido, ela criou um botão de liga-desliga que funciona muito bem e que permite que ela mergulhe numa bolha de proteção a cada vez que alguém começa com a ladainha. E chamou o botão, carinhosamente, de sua esquizofrenia.

Uma grávida esquizofrênica, não no sentido patológico do termo, faz mesmo muito sentido, já que aprendemos na marra ao longo desses 9 meses que é necessário cindir, separar, desligar-se do mundo em muitos momentos para proteger a si e à cria nesse complexo e introspectivo ato que é gestar um bebê. Vai ver que é por isso que ficamos tão distraídas, tão desligadas, tão desatentas, memória tão curta… tudo concentrado naquilo que é o mais importante: o bebê, seus sinais, seus movimentos, a gestação, seu corpo, o corpo dele… Se existe uma sabedoria na natureza é essa de fazer uma mulher grávida ser capaz de desligar de tudo o que é apenas tormenta e voltar-se para o que realmente importa.

E, acreditem, o que menos importa é aquilo que os palpiteiros têm a te dizer. Não há conselho estapafúrdio, história trágica de meter medo, história cor-de-rosa de fazer sentir que você é uma porcaria de mãe porque contigo nada é tão perfeito assim… não há palpite ruim que não possa ser encontrado em mais trezentas bocas de trezentas outras pessoas. Ou na internet. Ou em livros. Ou em blogs. Ou seja, não se preocupe em não prestar atenção porque você não há de perder nada que não será repetido mil vezes nas suas exaustas orelhas de gestante. E cada vez será tão inútil quanto na primeira. E tão nocivo, invasivo, aflitivo quanto. Então, esquizofrenia sem dó. Cisão. Separação. Palavras inúteis para um lado, você para o outro. Na sua bolha de gestar. E de cuidar do que realmente importa.

Acontece que tenho descoberto algo curioso em relação a essa invasão palpiteira. Aliás, duas coisas que têm me impressionado bastante e que compartilho aqui. Talvez o fato de estar em outro país torne essas constatações ainda mais gritantes. Vamos ver.

A primeira é que os palpiteiros de plantão parecem ser, por algum motivo que não mera coincidência, as pessoas menos próximas de você. Nunca é alguém com quem você compartilha de sua intimidade e de sua confiança. Nunca é o melhor amigo, ou o parente querido. Esses, na medida em que você gesta e em que sua vida muda, parecem entrar numa espécie de sintonia muito fina e cuidadosa contigo. São aquelas pessoas amadas que perguntam antes de afirmar, que querem saber, que têm ouvidos disponíveis e braços para abraços apertados, que falam com cuidado, que são generosos em seus dizeres, e que te deixam muito mais falar do que te obrigam a ouvir, ou que te acompanham nos seus silêncios.

Ao menos comigo, as pessoas que vêm palpitar já se destacam de cara por essa falta de proximidade, essa insensibilidade, essa falta de ouvido, essa pressa em vomitar suas verdades, esse desconhecimento e essa falta de interesse por aquela pessoa com quem estão falando. Elas não falam para mim, mas para si mesmas, para se convencerem de algo, para descarregarem algo, para imporem suas certezas que não toleram nenhuma diferença, nenhuma discordância. Não é conversa, é monólogo. E, como todo monólogo, é chato, desinteressante, enervante. E quando a gente engravida, nossa tolerância para esse tipo de coisa, felizmente, parece atingir o nível próximo de zero. Ainda bem! Liga-desliga. Esquizofrenia gravídica. Talvez fosse algo que merecesse até ser levado para a vida inteira, não?

Agora, como consequência direta dessa primeira constatação sobre os “cheio de opinião”, a outra coisa que descobri em relação a essa invasão palpiteira durante a gravidez e, dizem, mais ainda depois do nascimento do bebê (socorro!) é que ela te deixa, mulher grávida, em uma situação de imensa solidão. Porque conversa que não é conversa não alimenta, não faz companhia, não ajuda em nada e não permite troca alguma. Preenche apenas o tempo com um recheio inútil e que faz sofrer. E companhia de verdade nesses momentos, como talvez em todos os momentos da vida, é muitíssimo rara.

Não é só a gente que muda quando engravida. Os outros ao nosso redor também mudam muito, quer queiram ou não. Reagem de maneiras que provavelmente não fariam se parassem um segundo para pensar no que já viveram em suas próprias gestações, ou nas que viram outros viverem, ou em suas próprias experiências de vida e em seus valores, sendo pais ou não. Tem gente que se afasta como diabo que foge da cruz, como se de repente você não fosse mais parte daquele mundo hype e descolado em que todo mundo sempre está a viver coisas interessantíssimas, uma vida de luxo, poder e glamour bem diferente da perspectiva de um cotidiano de fraldas, mamadas e noites de sono entrecortado. Gente que sempre militou pelo respeito à diferença e às diferentes escolhas de vida passa a ter dificuldades com a sua mudança de vida. Assim como aqueles que sempre priorizaram o trabalho intelectual acima de tudo passam a ter dificuldades com a sua escolha em priorizar sua gestação nesse momento, como se você se tornasse uma traidora da causa do trabalho, da intelectualidade, do pensamento, do feminismo, da autonomia… E ainda tem gente que sempre te estranhou por não fazer parte do “status quo” e não seguir os caminhos padrão e que, agora, vêem na sua gestação uma escolha por se enquadrar que as tranquiliza. Você passa a fazer parte da turma e elas logo querem te integrar no maravilhoso mundo do que elas pensam ser a maternidade.

Assim como nós reagimos de modos os mais inusitados quando nos descobrimos grávidas, eis que as pessoas também reagem. Se afastam, nos deixam na promessa do papo, da visita, do email que nunca chega. Ou se aproximam, nessa tentativa tosca de te encaixar em algum lugar, te invadindo com as certezas que são delas a respeito de quem você é ou do que você quer. Mas quem se afasta a partir de estereótipos nos quais passa a te ver ou quem se aproxima por te encaixar em novos clichês, o que eles podem saber realmente a respeito daquilo que você vive?

Tenho pensado que o momento da gravidez é um momento de faxina geral, em que tudo se abala não apenas dentro como fora, na vida, com as pessoas. O que permite que a gente faça uma triagem e consiga separar o joio do trigo ao longo desses meses. Sem muito esforço, porque a excitação é tanta ao redor de uma grávida que as pessoas mostram escancaradamente a que vieram. E fica palpável quando você está sozinha na presença de alguém ou quando existe ali verdadeiramente uma presença de quem faz questão de estar ao seu lado. Momento de faxina providencial, até para saber com quem contar. Pois uma das alegrias desse momento de gestação é justamente que nas brechas entre a esquizofrenia e a solidão surgem algumas pessoas fundamentais que se revelam em palavras e gestos amorosos, generosos, amigos, companheiros. Uma mensagem breve enviada em um momento importante. Um telefonema. Um email. Uma visita. Um papo aqui, outro acolá. Gestos que fazem toda a diferença. E fazer a faxina, separar joio do trigo, trabalhar o liga-desliga são nada mais do que formas de fazer justiça a esses gestos. Cuidar do que realmente importa. Dentro e fora. Cuidar de quem realmente importa.

Outras sobre as mudanças em você, nesse post aqui.

Mexe e remexe…

A Dança (1909-1910) – Henri Matisse

(version française: ici)

Eis que ela mexe! A menina mergulhadora bailarina que passeia em piruetas por minha barriga vem crescendo e suas peripécias, de umas semanas para cá, tornaram-se aparentes e inquestionáveis.

No começo parecia uma cólica, por vezes uma contração, ou até mesmo gases… Como distinguir em meio a todos os movimentos e ruídos do corpo aqueles que são do seu bebê? E… quem garante? Mesmo ouvindo cem vezes por dia todas essas histórias de que mãe sente, mãe sabe, instinto de mãe nunca falha e assim por diante… quem é que sabe de verdade, com certeza? Ninguém. E ainda bem, porque seria muito terrível se fosse verdade essa história de que alguém pode saber sobre um outro alguém mais do que ele mesmo. Coisa de George Orwell. Sim, aquele do 1984 mediocrizado em Big Brother… Tristeza de não poder ser opaco, de não poder ter privacidade, de viver sem segredo. Enfim…

George Orwell - 1984
George Orwell – 1984

Então, o bebê que mexe dentro da barriga é uma aposta. Uma série de sensações novas e uma aposta de que, nelas, está ali o seu bebê. Lindo, sapeca, flutuando quentinho e confortável no líquido amniótico como todo bom mergulhador sabe fazer. Maravilha.

E paradoxo dos paradoxos de tantos paradoxos dessa vida: é tão importante essa aposta. Já mencionei antes – aqui – o psicanalista inglês D.W. Winnicott e sua delicadeza e precisão ao escrever sobre a relação mãe-bebê, assunto em que foi um dos pioneiros. Além de nos fazer o favor de defender que a mãe tem que ser suficiente e não plenamente boa, porque mãe perfeita não só não existe como presta um desserviço ao seu bebê, ele ainda escreveu um bocado sobre essa ligação meio delirante e tão necessária que se estabelece entre a mãe e seu rebento, logo no começo da vida desse. É uma espécie de simbiose em que a mãe supõe que sabe, que entende, que percebe o que o bebê precisa e vai nessa certeza meio maluca adivinhando o seu bebê, dando nomes para o que ele vive, para o que ele quer e para o que ele precisa. Com isso, ela não só garante o cuidado com o seu filho que, entre acertos e erros, acaba mesmo tendo suas necessidades satisfeitas e suas aflições momentaneamente sanadas, como também oferece a ele um aprendizado importante: o de que as intensidades que o atravessam têm nome, têm contorno, têm remédio – mesmo incompleto e provisório – têm cuidado e têm, nela e em outros que o cercam, companhia, amparo e amor. Então, como percebeu o perspicaz Winnicott, essa “adivinhação” da mãe é extremamente importante no começo de vida do bebê, quando ele ainda têm poucos recursos para comunicar suas necessidades e para sobreviver por seus próprios meios.

Mas… para não virar delírio, Big Brother de verdade e paranóia instituída, o pulo do gato é que a mãe adivinha e, também, erra. Ela sabe e não sabe. Ela sabe porque tem que supor alguma coisa e agir quando seu bebê chora. Mas ela também não sabe muito, apenas percebe que algumas vezes funciona. E, com isso, o bebê também participa, ele não é somente objeto dos saberes dessa mãe. Ele sinaliza o que funciona ou não para ele. Eis aí uma relação. E em relação que se preze, tem que ter dois. Ou três, diria um outro psicanalista, esse francês do Lacan. Mas isso já é outra conversa.

D.W. Winnicott - Os bebês e suas mães
D.W. Winnicott – Os bebês e suas mães

Voltando ao bebê que mexe na barriga.

Entre tantas outras coisas que podem ser esses movimentos – e olha que o corpo fica craque em dar sinal de vida nessa época da gravidez porque tudo mexe, tudo dói, tudo ajeita, tudo se desloca – uns bons tantos são os movimentos dela, dessa menina bailarina bebê aqui dentro da barriga. E isso eu sei por aposta e, também, por resposta. Porque os movimentos confusos e indistintos do começo vão ficando mais claros com o passar do tempo. Certas posições do corpo, certas horas do dia, certas atividades. A barriga deforma de formas impossíveis, uma música toca aqui fora e a pequenina dá uma cabeçada, bundada, joelhada lá dentro, como quem chega mais perto do som para escutar. Interessada nesse mundo a menina curiosa, deve estar descobrindo um bocado de coisas. Daqui para frente vai ser assim, uma quantidade incalculável de descobertas, todos os dias, por um bom tempo. Até ela crescer e pensar que já viu tudo e que já entendeu tudo. Mas isso também é outra história, uma que fica para mais adiante. Porque nada mais emocionante do que ver uma criança descobrindo cada coisa boba do dia-a-dia pela primeira vez.

Então, imagino cá de fora que lá dentro ela também já descobre uma coisa ou outra, muitas das quais são impressões do lado de cá. Imagino, adivinho, suponho, aposto. Boto a mão na barriga e a bolota que se forma nela vem se aninhar ali na mão. Ou uma coisinha pontuda, um joelho, um cotovelo, uma mão, um pé… vai saber? Eu aposto, ela responde. Coisa que se faz a dois, porque eu não posso saber sozinha e por ela. Então ela responde desse jeito. E eu me desmancho em alegria.

Outras sobre o bebê que mexe: aqui.

Medo de tudo.

Medo de atravessar a rua. De uma hora para outra, até medo de atravessar a rua dá. E de voltar sozinha, à pé, à noite para casa. Em Paris, onde é seguro e onde o prazer sempre foi essa liberdade de movimento reconquistada, desconhecida da paulistana que nunca pode parar em um farol vermelho após as dez da noite em seu próprio país. Mas agora, dá medo. Como se agora o mundo tivesse ficado mais perigoso e você, mais vulnerável. E para além desses medos que surgem em um final de tarde, na calçada, de olho do farol de pedestres, ainda vêm outros. Medo de ter algum problema quando estiver sozinha. Medo de ter um algum problema morando em outro país e estando grávida (como se morar em outro país já não fosse incerto o suficiente). Medo de passar mal, medo de abortar, medo que o bebê tenha algum problema, medo da trissomia do 21, medo. Medo da vida, de tudo o que pode acontecer quando se está vivo. Você está grávida e se dá conta que o risco de estar vivo agora não é apenas seu, mas também do outro que, por enquanto, depende totalmente de você. E como você sabe, enquanto o pequeno está ali no bem bom, quentinho, feliz da vida mergulhando, sem ter a menor idéia, sorte dele… como você sabe o risco que é estar vivo, as mazelas e os custos de criar para si uma vida, de repente você percebe que – caramba! – o pequeno está ali também, correndo todos esses riscos sem saber. Quantos fantasmas com os quais lidar!!!

Johann Heinrich Füssli - Le cauchemar - 1781
Johann Heinrich Füssli – Le cauchemar – 1781

E os livros, sua família, seus amigos, seu médico, o acompanhamento da sua gravidez, o que fazem? Te inundam com mais um oceano de medos. Não, não é totalmente verdade, porque amigos que te conhecem bem e família próxima, gente que te ama e te conhece de verdade não fica te atormentando nem com histórias, nem com medos, nem com um monte de fantasmas. Eles consideram que você já os têm em número suficiente e torcem para que você se saia bem. E te ajudam com o que for preciso. Que alento! Porque a maior parte das pessoas nem se toca. E os livros, então? Cada capítulo, uma ressalva acerca de algo com que você tem que se preocupar: o que come, doenças sexualmente transmissíveis, herança genética, até o final do terceiro mês é quando ocorre o maior número de abortos espontâneos, mal-formações congênitas… E os casos? Os “causos”. Todo mundo tem um “causo” para contar de alguém que conhece alguém que teve um bebê com duas cabeças, três braços ou sabe-se-lá-o-que-inspirado-de-um-filme-de-horror-da-vida-real. Sério, alguém me diga que as pessoas ao menos pensam antes de abrir a boca, ao menos de vez em quando…

O mais paradoxal é que, ao mesmo tempo em que ninguém se poupa de contar todo tipo de horror assim que descobre que você está esperando um filho, e que nenhum veículo de (des)informação se poupa de páginas e mais páginas de descrições de tudo aquilo que pode dar errado, nenhuma pessoa agüenta ouvir falar, por mais de dois minutos, (e quase nenhum livrositeeocaralho escreve por mais de uma ou duas páginas) desses seus medos, das suas inseguranças, das suas dúvidas. E o que eu faço? E se? E se? E se? As pessoas saem de fininho afinal, como você pode não estar apenas muito feliz? E os veículos transmissores de todos os saberes te dizem: você vai se fazer muitas perguntas, vai ter muitas inseguranças, mas isso é perfeitamente normal. “Ahhhhhh, então tá, valeu aí. Obrigada por me dizer que o que estou vivendo é legítimo.” Parece o discurso da mãe psicotizante descrita pela psicanalista Piera Aulagnier: de um lado, o terror, de outro, a cobrança de que você deveria estar bem, feliz, calma e segura nessa situação que o discurso mesmo do outro ameaça.

Acho estranho que ninguém diga que, quando fritamos os nossos miolos com todos esses dados, estatísticas, ressalvas, perigos, “causos”, apreensões e vulnerabilidades estamos colocando no centro das nossas preocupações aquilo que, na verdade, é a exceção. Todo mundo conhece um caso bizarro, triste, trágico porque casos bizarros, tristes e trágicos são extraordinários. São a exceção e não a regra. E se os dados dizem que uma em mil gestações tem tal ou qual complicação, isso significa que 999 não têm. A gente nem pára para pensar nisso, né? Parece que estamos tão acostumados a viver em um mundo onde tudo teria que ser extraordinário que tomamos logo a exceção pela regra. Só que a exceção pode ser tanto a menina pobre que foi descoberta e virou modelo de sucesso internacional quanto o cara que saiu de casa um dia e morreu esmagado por um piano que caiu na sua cabeça. Ficamos esperando ser uma exceção espetacular em cada acontecimento de nossas vidas. E somos bombardeados por todos os casos de exceção. Daquilo que é a exceção do ideal, do que tem que ser. E do que é a exceção da catástrofe. E a gravidez não escapa a esses anseios e temores relativos à exceção.

Pode parecer meio banal e comum demais para nossas expectativas de extraordinário mas, ao que parece, desde que o ser humano existe na face da Terra ele cuidou de perpetuar a sua espécie se reproduzindo. O que significa que mulheres engravidaram. E deram à luz a seus bebês. E que esses bebês de algum modo vingaram, cresceram, viveram e se reproduziram também. Deve ser uma fórmula eficaz porque, excetuando-se as vezes em que não deu certo, a humanidade parece que vai muito bem, obrigada, povoando o mundo até explodir, ocupando cada canto desse planeta com todas as suas idiossincrasias, contradições e muito mais. Então, depois de ler uns dois livros, navegar por uma quantidade indecente de sites, ler uma série de relatos de histórias e ouvir não sei nem quantos “causos” sobre a exceção na gravidez em tão pouco tempo, eu entendi que, sempre que alguém abre a boca ou que começo uma leitura, tento considerar, antes de mais nada, o seguinte disclaimer:

A história que se segue foi baseada em fatos reais de exceção. O que significa que ela tem quase 99% de chances de não se aplicar a você.

Agora, ao menos eu escolho se vou ficar siderada pela exceção, apenas porque a vida é um grande e desconhecido risco, ou se vou me conformar à banalidade do que está acontecendo comigo. Porque é extraordinário para mim. É surpreendente. Mas é também a coisa mais comum do mundo: ter filhos.

Mais sobre os medos ao longo da gravidez: aqui.

A nova matemática.

Street art - Vila Madalena, São Paulo, Brasil.
Street art – Vila Madalena, São Paulo, Brasil.

1+1=3 agora… matemática renovada. E não é a única conta que você vai ter que aprender a refazer.

Não interessa como você aprendeu a contar o tempo. Relógio, sol, lua, estrelas, ampulheta… horas, minutos, segundos. O tempo entre dois aniversários, dois acontecimentos importantes. O tempo entre um telefonema e um encontro. O tempo de uma sessão de análise. O tempo entre dois tweets, dois sms, uma postagem no facebook… Agora, nada disso tem mais serventia e você vai ter que contar em… semanas. Semanas, veja bem. Antes mesmo de um bebê existir dentro da sua barriga, ele já tem duas semanas. Hein? Alguém teve a brilhante idéia de contar o tempo de vida de um bebê durante a gravidez desde o momento em que ocorreu a última menstruação da sua progenitora. E alguém teve a brilhante idéia de determinar, para fins práticos, que a ovulação ocorre cerca de 15 dias depois do início dessa última menstruação. Ou seja, antes mesmo que você ovule, transe e engravide, pelas contas padrão, seu bebê tem duas semanas. Então, os livros começam todos pela terceira semana, que é quando o sujeitinho aconteceu ali, começou a existir. E colocam, para te ajudar, a idade gestacional e a idade real do bebê: a 3 semanas de gestação, bebê tem uma semana… Como assim? E essas tais de semanas, começam quando? No dia da última menstruação? Mas se você não ovulou com a precisão de um Big Ben londrino, em exatos 15 dias e se sua ovulação adiantou ou atrasou, ou se os espermatozóides do seu amorzinho ficaram ali no bem bom, curtindo uma onda, no quentinho, por um ou dois dias (pois é, bichinhos resistentes esses, quem diria!) você conta a partir de quando? Da data da última menstruação, da data calculada como o dia em que você engravidou… qual é a maldita data?

Ainda bem que alguns sites ou aplicativos – sim, eles existem também para grávidas e gravidez, senhores, tremei!!! – ainda bem que hoje em dia você pode colocar a data da última menstruação em algum lugar do cosmos digital e uma matemática programada também qualquer calcula para você em qual semana de gestação você está. Calcula, claro, sabendo que vai dar errado, porque pode ser um pouco mais para lá ou para cá, assim ou assado… enfim, as imprecisões da vida sempre nos atrapalhando quando precisamos acreditar que sabemos alguma coisa, nem que seja um reles número. E o pior é que cada pessoa com quem você falar vai te perguntar há quanto tempo você está grávida? Todos vão te perguntar com a seriedade e a propriedade de um connaisseur… E se você titubear, ou se arriscar responder: faz um mês, dois, um pouco mais de dois… nossa! Melhor acostumar-se a fazer contas, para dar a impressão que você está totalmente integrada em seu novo e agora único papel daquela que conta em semanas, em luas, em ciclos. As pessoas olham com desprezo e desconfiança para uma mãe que não conta em semanas, não fala sobre enjôos e não acaricia a barriga como quem posa para uma fotografia que retrate a imagem da pura felicidade. Horrorizadas com o “seu descaso”, parece que consideram se vão chamar o serviço social, no mínimo. Você engravidou, agora agüenta o baque, minha filha. Volta para a escola e refaça as contas da vida. E na hora da chamada oral, ao invés de responder direitinho quanto é 7×7, saiba dizer de pronto quanto é 1+1. Em semanas.

A enxurrada dos outros…

OK, a ficha caiu, você entendeu que está grávida, que é real, de verdade, encarnado nas entranhas, cotidiano, inesperado… Você percebeu que segue o curso da vida, que faz parte da vida, sem cena de filme, slow motion, música de fundo, happy ending e tudo o mais que o imaginário hollywoodiano perversamente ajudou a enfiar na sua cabeça, dando o falso nome de romantismo a todas essas expectativas infundadas… Você está quase segurando a própria onda, mas então vêm os outros. Já dizia o velho Sartre: “o inferno são os outros”. Para o melhor e para o pior. Na alegria e na tristeza. Putz…

Minhanossaparabénsquecoisalindaquemaravilhavocêquistantodeveestaremestadodegraça… (Oi? Calma, deixa eu respirar, respira um pouco também, toma um chá, fuma um cigarro.) Não, porque você não fuma, né? Porque agora, vai ter que parar. Tem que cuidar do seu bebê. Aliás, beber, não pode. Faz mal pro bebê. Comer peixe cru, é proibido, você não sabe? Carne crua então? Banida para todo o sempre amém até o fim da amamentação. Olha, esfrega os peitos com uma bucha para não rachar. Esfrega mesmo, não para ficar hidratado, mas para virar uma crosta. Você já sabe se é menino ou menina? (Dãh…) O que você prefere? Ah, que bonitinho, vai ser a cara da mãe, do pai, dos avós, dos irmãos, do cachorro, do papagaio, do padeiro. Sempre soube que você seria mãe, você nasceu para ser mãe. (Hein?) Vai ser bilíngüe, que belezinha, falando português e francês, que amor. Olha, tem que se alimentar direito, dormir bem, até mesmo porque, depois que nascer, você nunca mais vai dormir na sua vida.

Babel - Cildo Meireles - 2001
Babel – Cildo Meireles – 2001

Sério, de onde as pessoas tiram esses comentários? Elas querem comemorar com você ou te fazer se jogar pela janela? Nada pode, faça isso, faça aquilo, nunca mais, acabou sua vida de tranqüilidade, sossego, casa arrumada, viagem, festa, amigos, sono, pele boa. É o quê? Um parabéns às avessas? Uma sede de vingança? Porque eu custo a acreditar que as pessoas realmente pensem que aquilo que elas estão dizendo, as dicas, o compartilhamento de suas experiências as mais grotescas tratando de cocôs, vômitos, doenças, perebas, celulites, estrias, peitos caídos, sobrepeso, cansaço, falta de sono e mais enjôos e enjôos e enjôos… duvido que os próprios seres falantes acreditem do fundo de seus coraçõezinhos que esse conversê todo ajuda a quem está do outro lado da linha, ali, ouvindo. Deve ser uma forma de evacuar, uma catarse, um exorcismo: falar de todo o horror com um sorriso no rosto, o olhar cúmplice e o tom de voz reconfortante de um parabénsestoutãofelizporvocê… E você com olhos de terror. Pois, se você tem ouvidos e eles escutam bem, os olhos reagem de acordo e viram duas estrelas estaladas na sua cara, prontos para sair correndo junto com todo o resto do corpo se ao menos você conseguisse fazer suas pernas te levantarem e correrem, correrem, correrem para o mais longe possível.

E então vêm os livros, os sites, os blogs (ops!), os fóruns, os programas na TV, os filmes, o John Travolta, a Kirstie Alley e o bebezinho tagarela do Olha quem está falando e você se percebe mergulhada em uma Babel de falas, palavras, frases, línguas… um ruído ensurdecedor, enlouquecedor. Tentar acompanhar, seguir, se orientar em meio a isso vira uma tarefa hercúlea, fadada ao fracasso. As opiniões, conselhos, orientações, tudo se contradiz, ninguém sabe o que fazer… qual é o caminho certo? Qual é o único caminho certo, a verdade?

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Tem gente que se salva no médico e no saber médico nessas horas. Toma as palavras do médico como cânones religiosos e segue à risca tudo. Tudinho. Mas isso não garante nada, não é mesmo? Se garantisse, todos os casos de inseminação artificial – situação na qual a gravidez não poderia ser mais controlada, vigiada, manipulada e orientada pelo saber médico – seriam bem sucedidos. Se os médicos soubessem exatamente o que fazer, como fazer ou quando fazer para garantir que uma gravidez corra bem, não teríamos, em tempos de primazia do saber e do poder médico sobre os nossos corpos, nenhuma gravidez que vai mal. Mas não é bem assim. E a gente, na angústia de perceber nossa falta de garantias, nossa vulnerabilidade ao acaso em uma hora como essas, prefere se confortar imaginando que a gente não sabe, mas alguém sabe. Alguém há de saber que tudo há de correr bem: o médico, a ciência, a nutricionista, o padre, o astrólogo, o psicanalista, Deus… Outro bom e velho, o Freud, já dizia que nós, os neuróticos, quando não podemos mais negar a nossa própria insuficiência e falta de garantia sobre nossa própria vida, quando não podemos desviar mais os olhos, arrumamos ainda um último suspiro e, numa tacada de mestre, deslocamos para outra pessoa a onipotência que vamos nos vendo perder: eu não posso, mas alguém pode. A onipotência da mãe não castrada, frase difícil, mas tão simples e verdadeira como o senso comum que se apressa a dizer que sempre existe, em algum  lugar, uma festa incrível acontecendo, para a qual você não foi convidado. Você está excluído, mas alguém está lá. Então, é só questão de descobrir como fazer para estar lá você também, como tampar os buracos, como conseguir todas as garantias. Alguém já viu vida com atestado de garantia? “Se você viver assim, vai ser feliz para todo sempre…” Ah, sim, nos contos de fada e nos filmes acontece… oh, wait!

Bom, o fato é que os outros engatam a quinta marcha da verborragia e você não sabe mais nem o que pensar ou por onde começar. E tudo isso porque você tem que estar muito, muito, muito feliz. Ouvido de penico e sorriso estampado no rosto, a imagem do estado de graça. Tentando seguir todos os conselhos. E fazer tudo certo. Certo?

Não. Donald W. Winnicott, um psicanalista inglês que era, também, pediatra entendeu, para a nossa sorte – ou a minha, ao menos – que uma mãe boa é uma mãe que é suficiente. Suficiente. Não perfeita. Não total. Não inteiramente certa. Em suas consultas como pediatra e como psicanalista, ele se deparou com muitas situações envolvendo as mães e seus bebês e adiantou – visionário – o que ia se intensificar no nosso século, chegando às beiras do insuportável: temos um excesso de falas, um excesso de saberes, um excesso de ditos, uma cacofonia absurda e enlouquecedora a respeito da maternidade. Uma cobrança pela perfeição, em meio à todo esse barulho. Enquanto que, segundo ele, se deixarmos um espaço para que essa mãe exista, ela vai achar o seu caminho como mãe. Ela vai fazer o melhor. Ela vai ser suficiente. E suficiente, é bom. Menos barulho, menos informação, menos conselhos, menos dicas, talvez faça sentido o silêncio que me acomete nesse início de gravidez. Silenciar para gestar. Silenciar para encontrar o quê e como fazer. Shhhhh…

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A enxurrada.

Eu contei a ele. Ou melhor, mostrei o teste de farmácia e ele ficou bem mais calmo do que eu. Também, já tem três filhos e eu, marinheira de primeira viagem, entre o riso, o choro e a negação pura e simples. Isso é bom, isso é maravilhoso, isso é péssimo, isso é um pesadelo… E agora, o que faço das minhas viagens, trabalho, pesquisa, roupa de mergulho, balada com os amigos? O que faço dos projetos que eu tinha, ou do conforto acomodado de acreditar que eu sabia quais projetos tinha, o que iria fazer em seguida, onde estaria amanhã ou depois… o que fazer de todas essas certezas?

“Você está gestando. Está em estado de graça. É uma coisa maravilhosa.” Isso era a última coisa que eu precisava ouvir, esse chamado para o enquadramento, essa exigência da felicidade absoluta, esse fim de todas as questões. Porque antes de ficar feliz, alegre, eufórica com a notícia – ou ao mesmo tempo em que ficava feliz – eu precisava de espaço, de tempo e de autorização para ficar outras coisas também: tensa, indiferente, descrente, triste, irritada, preocupada, apavorada… Uma enxurrada de coisas, uma retrospectiva de toda a minha vida, de tantas vezes que desejei isso, de toda a minha história com ter filhos, dos tempos em que quis, não quis, quis de novo, não quis mais, tentei, desisti… E agora, justo agora?

Pois é, agora mesmo. Lembro de uma mulher que passou anos fazendo tratamento para engravidar. Anos. Ela tinha mais de 40 quando a conheci. E tentava. A vida girava em torno disso, era muito importante. Ela sofria horrores. Uma dor de alma a cada dia. E haviam dito para ela que na hora em que você relaxa, esquece, deixa para lá, a cosia acontece. E todos aqueles exemplos de mulher que não conseguia engravidar, adotou e ficou grávida no minuto seguinte. Ou daquela que separou e engravidou de uma aventura no minuto seguinte. No minuto seguinte à desistência, acaba acontecendo. Essa mulher tentava se convencer de que desistiu. Tentava desistir sem ter desistido, assim como quem tenta enganar a morte, como aquele sujeito do Sétimo Selo do Bergman… jogando xadrez, jogando xadrez, negociando. Ela tentou e tentou negociar, tentou fazer de conta, dar um truque. Não deu. O Bergman era genial, ele sabia que nunca dá, a gente nunca consegue contornar o que deseja para fazer de conta que não deseja para a vida passar distraída e nos dar o que queremos…

Levou uns bons dias para a “ficha cair”… ou melhor, umas boas provas de realidade. Don’t blame me. Vivemos em um mundo em que a imagem se substituiu a quase tudo e em que praticamente tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo. O que garante a realidade de algo hoje em dia? Um teste de farmácia? Um exame de sangue? Enjôo? Cansaço? Eu precisei chegar até o primeiro ultrassom, oscilando entre saber e não saber, balançando entre lembrar e esquecer, entre pensar a vida como se nada fosse e pensar em como mudar a vida, entre querer, decidir querer e reclamar que não era bem assim que eu imaginava… Primeira consulta médica, primeiro ultrassom: está ali, existe. Pronto, para mim teve efeito de realidade. Estou grávida.

O Sétimo Selo - Ingmar Bergman
O Sétimo Selo – Ingmar Bergman

A descoberta.

Pregnant woman from Kostienki. - aprox. 26.000 a 22.000 anos
Pregnant woman from Kostienki. – aprox. 26.000 a 22.000 anos

(en français: ici)

Bom, em pleno século XXI, com toda informação que circula por esse mundo, me parece muito difícil que, com raras exceções, a gente não esteja totalmente implicada na responsabilidade por estar grávida. Quero dizer: em quantas situações se pode realmente dizer que não sabia? Ou que não se queria? Porque meios para evitar são mais numerosos do que os meios para fazer acontecer, muito mais numerosos. Temos mais opções para não ter filhos do que para tê-los. Nesse ponto, mesmo com os progressos impressionantes da ciência, a coisa ainda se resume a 1+1=2… o básico. Ou melhor: 1+1=3. Quem diria que Lacan, o psicanalista, sabia mais da matemática dos seres humanos e de suas subjetividades do que aquele nosso professor chato da escola?

Mas então, você descobre que está grávida. Ou melhor, confirma alguma coisa que já sabia. Pronto, tem o aval, a legitimação da ciência, da farmácia, do laboratório, do seu médico, seja-lá-do-que-for que a gente precise para assumir como verdadeiro aquilo que já era óbvio porque você estava enjoada, vomitando, cansada, inchada, irritada, com fome, com sono, com um monte de coisas… Ou apenas você simplesmente parou de menstruar e a gente sabe muito bem que menstruar é chato, mas é a nossa carta de alforria mensal, que nos  tranquiliza e nos alivia com a notícia de que todos os riscos corridos naquele mês deram em nada e aquele carinha que se revelou um mala, ainda bem, nunca mais teremos que olhar para a cara dele, quanto mais ter algum laço que nos una àquele cretino para uma vida inteira, ufa… Bom, você descobre. E agora?

Agora que nunca é como você imaginou. Porque você imaginou que seria como no comercial de margarina, tudo escorrendo liso e sem atritos pela sua boca, pela sua cabeça, pela sua vida. Você pensou que seria no dia D, quando todos os planetas estariam alinhados e você estaria pronta, em todos os níveis, para a incrível experiência da maternidade: o momento certo, o cara certo, no lugar certo, com a vida certa, o trabalho certo, a grana certa no banco, o estado de espírito certo… Tudo certo, né? Gravidez é como um daqueles vestidos fantásticos que a gente compra mesmo sem ter dinheiro e que custou os olhos da cara, aquele vestido lindo, no qual você fica magnífica e soberana e que você, por isso mesmo, guarda para usar no momento especial, O momento da sua vida, aquele em que tudo vai acontecer. E o vestido fica ali no guarda-roupa pegando poeira porque o dia D nunca chega. Você engorda, você emagrece, de vez em quando vai ali ver se o vestido ainda serve e espera o momento, o seu momento… E nada. Nunca é o grande dia, aquele da Cinderela no baile, do sapatinho de cristal, do príncipe que beija a Bela Adormecida. Mas você espera e acredita. Até que o vestido empoeira, mofa, pega traça, o tempo cuida dele melhor do que você e acabou-se. Nada de vestido. Nada de você soberana.

O tempo não espera o dia D, simplesmente porque dia D não existe. E a vida não para esperando que você se apronte e esteja na condição perfeita para viver isso ou aquilo. A vida acontece. E a gravidez acontece assim também, no meio da vida, junto com ela, ali, na banalidade de um dia em meio a outros. Mesmo tendo sido planejada, desejada, inseminada, ela acontece ou não por motivos tão insondáveis e tão inexplicáveis que nenhuma ciência consegue dar inteiramente conta. Ainda bem. Ou não, porque a gente gosta de controlar tudo e de pensar que está no comando de tudo que acontece na nossa vida, até de nosso corpo. E de uma gravidez. Se tem uma primeira coisa que engravidar desconstrói, para nosso horror e angústia, é exatamente isso: aconteceu.

Não, não é uma total contradição com o que eu escrevi no começo, quando disse que a responsabilidade e a escolha por engravidar é nossa. O que acabei de dizer significa tão somente que a responsabilidade é toda nossa, o desejo é todo nosso, ainda que aconteçam desse jeito torto, fora de controle, longe do dia D, em meio a uma manhã de domingo, em um dia nublado de Barcelona, ou em qualquer lugar e hora tão banais quanto isso. Eis a responsabilidade: não é a propaganda de margarina e não vai ser, já começou não sendo. Mas é justamente o que eu queria.Quando eu descobri que estava grávida, entendi do modo mais contundente como é a vida quem faz os caminhos. Exatamente em direção ao que a gente quer. Mas nunca – NUNCA – do jeito que se quer. A vida é misteriosa, e isso sem nenhum sentimento ou apelo religioso incluídos… apenas a constatação disso que nos atravessa, nos ultrapassa e vai criando uma coerência entre o que somos, o que queremos, o que pensamos que queremos, o que de fato fazemos acontecer, o que nos acontece… Quando olhamos ao lado desse pavor do descontrole, a coisa parece até divertida… lúdica. Uma brincadeira de criança estar grávida agora, aqui, com você, nesse tempo e nesse projeto de vida em que ter filhos parecia uma velha história…

Grávida…