Desacorçoada – ou como parei de gritar com a minha filha

Algumas vezes, quando perguntava à minha avó como ela estava, ela respondia: “ah, hoje estou desacorçoada…”, o que era algo entre o desanimada e o triste e sem esperanças, sem precisar assumir nenhum deles. Desacorçoada era o bom termo para ninguém encher o saco dela dizendo que ela devia estar bem ou pedindo explicações de seu desacorçoamento. Desacorçoada ela ficava em paz para estar triste, sem esperanças ou desanimada o quanto quisesse. Ou precisasse.

Então, eu andei desacorçoada nos últimos tempos. Não o cansaço de ser mãe de dois, não a gastura do verão de dias quentes daqui do sul da França, que eu nunca gostei de verão, mesmo sendo brasileira… não, desacorçoada mesmo. Eu explico.

Nessa história de educação com apego, que é simplesmente você tentar educar os seus filhos de forma respeitosa, tratando-os como seres humanos, respeitando suas vontades, seus limites, suas necessidades e tudo o mais que o respeito a um ser humano inclui ou deveria incluir, muitas vezes nos vemos confrontadas com um desafio hercúleo que é aquele de tentar dar o que não tivemos: como educar sem violência se não temos nenhum registro disso na nossa própria experiência?

Dizem que ninguém dá aquilo que não tem e estou convencida de que aquilo que temos para dar se constrói ao longo de nossas experiências, de nossa história, de nossa vivência, especialmente da infância e da primeira infância. O que temos para dar se constrói na dependência dos outros, do que recebemos, da forma como fomos recebidos nesse mundo e a ele fomos apresentados. Então, o que podemos dar ao mundo será sempre um bom tanto em consequência disso que tivemos desde o início. O que não quer dizer uma condenação, como se uma experiência ruim pudesse colocar absolutamente tudo a perder. Felizmente, não somos apenas uma única experiência, quer ela se chame nascimento, amamentação ou qualquer outra coisa de igual importância nesse começo de vida. Mas… que conta um bocado, conta.

E daí a gente vira adulto e decide que quer dar um monte de coisas aos nossos filhos, o que significa, nesse meu contexto aqui, não materialidades, mas dar um certo tipo de criação, apresentar o mundo de uma certa maneira, receber e se relacionar com essas crianças de um certo jeito que é o que acreditamos ser o melhor para nós e para eles… o mais ético, o mais respeitoso, o mais cuidadoso, o mais amoroso… E aí a gente descobre o quanto é difícil. E um dos motivos – e atentem bem ao “um dos”, porque não é o único – é que possivelmente é nessa hora de querer oferecer algo que a gente se dá conta que não sabe muito bem de onde tirar.

Vejam bem, eu não vou fazer aqui um relato de uma infância infeliz e violenta, porque não é esse o caso. Existem infâncias muito mais radicalmente violentas e complicadas do que a que eu vivi, então é sempre importante nuançar as coisas. Digamos que, na minha história, um bom resumo estaria na frase ouvida à exaustão durante toda a minha infância “mas criança não tem querer”.

Criança não tem querer e a pessoa aqui foi virar psicanalista, sacaram? Na psicanálise, o que move o ser humano, do primeiro ao último suspiro é justamente o querer. Sem desejo, não há nada que se possa chamar de vida ou de humanidade em uma existência. Que tal? Ah, para evitar equívocos, em psicanálise, a primazia do desejo não significa dizer que o ser humano faz tudo o que ele quer, ou que ele faz tudo o que for preciso para alcançar o que quer. Seria assim – e muitas vezes é mesmo – se não fosse por conta de outra coisa linda que o ser humano tem que é a capacidade de renunciar ao todo de seu desejo realizado em prol de uma coletividade. Ou melhor, não é que cada humano generosamente renuncia ao seu desejo totalmente satisfeito em prol de satisfações parciais partilhadas por todos, que nós não somos esses seres altruístas não. Mas somos forçados a isso pelo fato de termos inteligência o suficiente para perceber que esse desejo que tenta se realizar a qualquer preço é sinônimo de vencer pela força e subjugar os mais fracos. E, nesse outro jeito de funcionar do mundo, haveria apenas um mais forte que subjugaria todos os demais, ou seja, só um que teria tudo o que deseja enquanto que os outros ficariam com aquilo que eu ouvia quando criança, sem ter querer. Freud, Totem e Tabu. Leiam, é um belo mito das origens, no sentido mítico mesmo, daquilo que fundaria um pacto civilizatório. Pois bem.

Todo mundo tem querer, até mesmo as crianças. E os velhos. E os loucos. E os deficientes de todos os tipos. Isso é, em suma, o que aceitamos quando aceitamos viver em sociedade. Todos têm querer e então não vai dar para todos terem tudo o que querem. Então vamos compartilhar esses quereres, e que cada um realize um bocadinho do seu. O que é melhor do que o domínio do mais forte sobre o mais fraco. A não ser para o mais forte que pode facilmente esquecer que mesmo no mundo dos animais bem mais inteligentes que nós, como por exemplo entre os leões, o mais forte um dia também envelhece e vai ser vencido pelo próximo mais forte e assim por diante numa tirania sem fim até o fim dos tempos. Melhor todo mundo ter um pouco e uns cuidarem dos quereres dos outros com zelo, respeito e consideração, não? Contemplando o que é possível, ajudando a lidar com o que é da ordem do interdito ou do inalcançável.

Que tal? Parece pouco? Digamos que talvez o melhor dessa nossa civilização tenha se baseado nesse acordo. Por quê? Porque se a gente não tem mais que passar a vida inteira brigando e se matando para ver quem é o mais forte e quem é que pode ter o seu querer, podemos nos dedicar a coisas, digamos, mais interessantes como, por exemplo, produzir cultura, criar história, inventar tecnologia… em suma, melhorar nossos modos e meios de vida. Sacaram? Se não precisa se matar, dá para fazer outra coisa. Inclusive amar, viajar, fazer nada, ler um livro, inventar novos modos de preparar batatas, ou criar o futebol e o rugby… you name it, amiguinho. Porque se a gente for parar para pensar que o que entendemos por civilização e cultura é uma criação humana e que isso depende de que o ser humano possa se dedicar a inventar modos e meios de vida, a gente logo se dá conta que abrir mão de um tanto da nossa realização de desejo em prol de tantas conquistas coletivas que melhoram a vida de todo mundo pode ser um baita negócio, certo?

Certo e errado. Porque infelizmente nós seres humanos não somos tão lisos e tão limpos assim. E se aceitamos de bom grado as vantagens desse pacto civilizatório e se ficamos bem contentes em poder tomar um bom vinho, em assistir o último filme do Almodovar ou em poder contar com todos os recursos da ciência e da medicina para tratar de uma doença… paradoxalmente não ficamos assim tão convencidos nem satisfeitos de que isso deva supostamente beneficiar a todos igualmente. Em outras palavras, estamos felizes que a civilização pague pelos nossos benefícios sociais, pelo nosso carro novo na garagem, pela nossa garagem, pela nossa viagem pra Zooropa nas férias de julho… mas começamos a nos sentir bem explorados se essa tal civilização começa a querer pagar também pelas cotas nas universidades, pelo bolsa família, pela demarcação das terras indígenas, pela criminalização da homofobia ou pela legalização do aborto… E de repente começamos a sentir que essa tal civilização é injusta e que deveríamos dobrar os acordos aos quais todos cederam lá em algum ponto inicial e mítico em prol de uma “justiça” mais para o nosso lado, mais a nossa maneira. Eis o retorno insidioso e sorrateiro da lei do mais forte que, na verdade, parece ter sempre funcionado para colocar um grupo de humanos contra outros, ou para federar um tanto de humanos contra o restante, como nos contam todas as guerras, conflitos e explorações de uns povos por outros ao longo da história. E como constatamos com amargura nos tempos recentes, essa tal lei da força nem tinha sido tão deixada de lado assim, ao menos quando se trata de Brasil, esse nosso país onde aparentemente o tal pacto civilizatório foi apenas de fachada, um truque, uma gambiarra qualquer que alguém fez, muitos acreditaram, mas que era “de mentirinha”. Coisa de gente sem lei. Ou coisa de quem nunca se preocupou em pagar o preço de ter uma.

Mas calma que estou me desviando sem me desviar realmente dessa história de desacorçoada, criação com apego e criança não tem querer.

Pois bem, quando começamos a tentar educar os nossos filhos de uma maneira mais respeitosa e menos violenta é quando a porca torce o rabo e quando nos damos conta do tanto de violência mais ou menos declarada, mais ou menos subterrânea à qual fomos submetidas ao longo de nossa existência, muitas vezes sem percebermos. E não sabemos de onde tirar um modo não violento de lidar com os filhos.

Criança não tem querer. Uma expressão da vontade, uma expressão do simples fato de existir que nunca teve lugar nem legitimidade. Criança não tinha nenhuma autorização para existir enquanto ser querente. Criança não tinha nenhuma autorização para simplesmente existir. Poderia ser pior e é para muitas crianças que são literalmente massacradas em suas existências de todos os modos possíveis. Física, moral e psicologicamente. Em nome de justificativas toscas como “educação” ou “amor”. My ass.

Criança não tem querer pode se tornar, num piscar de olhos, tapas, beliscões, objetos arremessados e, ainda noutro piscar de olhos, palavras duras, especialmente quando vindas de uma mãe ou de um pai, aqueles seres quase divinos que toda criança acredita serem os portadores da verdade: “você é chata”, “você é egoísta”, “você é estranha”, “como você é boba”, “você é feia”, “você não é bonita, mas é inteligente”… Daí para se olhar no espelho e começar a se achar estranha, feia é apenas mais um piscar de olhos. E que criança não chorou a dor de se ver aquilo que o adulto amado diz e de se ver de repente algo que não tem valor, algo que não serve, algo que pode ser deixado de lado? Choro, dor e medo… como é que faz para ser alguém que esse adulto ame?

Pouco a pouco, essa criança vai acostumando com esses dizeres que são ela, com essas ações dirigidas a ela. Existe algo errado e esse algo é ela. Ela é que tem que mudar, melhorar, ser alguém amável aos olhos do outro. O que acontece? A criança agora precisa ser para alguém, precisa agradar alguém para ser amada. Ou ao menos foi o que a fizeram acreditar. E quando a gente começa a precisar ser para o outro, acabou-se a nossa condição de ser coerente com a gente mesmo. Ensurdecemos para os nossos quereres, pois temos que saber o que o outro quer. Para atendê-lo e, quem sabe, termos seu amor em troca. Uma criança que não tem querer é uma criança que deveria estar conformada a apenas querer atender o querer do adulto. Como se ela tivesse sido criada para isso. No dia em que ela crescer, quem sabe, poderá querer, quem sabe até poderá querer subjugar um outro alguém que atenda aos seus quereres. Mas o que pode ela querer se ela nunca teve querer nenhum? Como ela vai saber o que quer?

O jeito como somos educados parece que nos atravessa quando temos filhos, mesmo à nossa revelia. E nos pegamos fazendo com os pequenos aquilo que fizeram conosco, repetindo os mesmos mantras, respondendo com a mesma violência. E então um dia minha filha diz que quer alguma coisa, em alto e bom tom. E uma fúria cega toma conta de mim e eu digo não apenas por dizer e ela insiste e eu grito. Grito mesmo toda a minha raiva. E penso “criança não tem querer”. E cada uma dessas palavras cheias de ódio dessa frase odiosa quase saem pela minha boca. Mas eu consigo conter cada uma e engolir cada letrinha de cada uma delas e saborear o gosto horrendo dessa sopa de letras e palavras até elas borbulharem no meu estômago, gerando um asco imenso por mim mesma, por cada uma dessas palavras, por cada um dos gritos que já escapou da minha boca em direção à minha filha, por cada vez que explodi.

E então vem a notícia podre da menina que foi estuprada por cerca de 30 homens. Não vou colocar o link aqui, todo mundo está sabendo. E ao absurdo desse acontecimento se junta o impensável dos comentários das pessoas. Das pessoas que pensam que o que quer que seja no comportamento, nas palavras, na história, nas atitudes dessa menina poderiam justificar a violência à qual ela foi submetida. Todo o espectro das obscenidades do “ela pediu”, “ela não disse não”, “ela era isso ou aquilo”… todo o desfile de horrores que os homens e mulheres podem demonstrar numa situação dessas. Homens e mulheres se comprazendo em pensar que a violência contra essa menina era merecida. E foi aí que eu fiquei realmente desacorçoada.

Eu poderia escrever uma tese aqui e talvez algum dia a escreva, mas o importante a reter é que, ao ler essa notícia, pensei imediatamente na minha filha. Poderia ser minha filha, não poderia ser minha filha… quem não pensa isso tendo uma filha num mundo como esse? Mas não apenas isso. Pior que isso. Pensei, percebi, talvez pela primeira vez, que eu poderia ser uma influência direta para que esse tipo de violência acontecesse com a minha filha. De que modo? Gritando com ela.

Nossa, Alessandra, agora você viajou, nada a ver isso que você está falando. A menina era uma vagabunda, favelada, drogada, tua filha é uma criança, um anjo, uma graça.

Pois é, minha filha é tudo de melhor que existe nesse mundo. E cada vez que eu grito com ela, o que talvez ela aprenda é que “a mamãe me ama” e “a mamãe grita comigo”. E talvez com isso ela aprenda que eu fazê-la se sentir mal e triste faz parte do amor. E talvez ela aprenda que amar e fazer sentir mal e triste são duas coisas que andam juntas. Afinal, se até a mamãe faz… Talvez ela aprenda que é normal ela ser tratada com gritos. E daí ela poderá achar normal ser tratada com outros tipos de violência. E talvez ela poderá achar normal ser xingada, menosprezada, insultada. Ou até mesmo apanhar. E poderá achar que tudo isso vem junto com o amor. Ou que se isso existe numa relação qualquer, existe nesse mesmo lugar ou nessa mesma pessoa amor também. Talvez isso faça com que ela comece a aceitar ser tratada menos bem do que poderia reivindicar, talvez ela comece a aceitar pequenas violências cotidianas, pequenas ofensas, pequenas feridas. E talvez ela comece a esperar no meio disso as manifestações do amor que viriam junto. Talvez minha pequena vá começar então a mendigar os sinais de amor das pessoas por quem ela tem carinho. E talvez ela vá aceitar qualquer pequena migalha que essas pessoas lhe ofereçam. E talvez ela não consiga mais nem perceber que são migalhas envoltas em tudo isso que é violência, mas para o que ela nem atribui mais esse nome. Pois aprendeu na pele que era assim. Que a vida era assim. Que o amor era assim. Que as relações são assim. E então quando ela souber da notícia de uma menina estuprada, talvez ela pense que nem foi estupro. Ou que a menina mereceu, porque não era boa o suficiente para ser tratada com respeito, cuidado e amor. Como ela mesma. Ou como qualquer outro ser humano.

Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com ela é normal e nem é violência? Como é que alguém chega a esse ponto de achar que a violência que acontece com o outro nem é violência, ou é uma violência justificada? Pois é, no caminho a conta-gotas que leva a essa normalização que um dia pode fazer com que minha filha ache normal que a tratem de forma violenta e que meu filho ache normal ser violento com as pessoas está, bem lá no comecinho de tudo, entre outras coisas, eu gritando com eles. Será que não? Se eu fizer um apanhado da minha vida e das pequenas violências cotidianas do “criança não tem querer” que me ajudaram a tornar-me uma pessoa que, durante muito tempo, não entendeu violência como tal e que achou normal ter sofrido vários tipos dela, sempre na espera de ser amada, então sinto dizer que minha hipótese tem um grande risco de estar correta. Se for juntar à minha própria história outras histórias de outras mulheres que passaram a vida aceitando migalhas e sofrendo abusos os mais variados sem nem ao menos entendê-los pelo que são – abuso e violência – então realmente minha hipótese parece estar bem, bem certa.

Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres que carregam na sua história um monte de insultos, de desvalorizações, de humilhações, de tapas, de abusos, de estupros dentro de relacionamentos que deveriam ser amorosos… Existem muitas meninas fofas que hoje são mulheres taxadas de putas, de vagabundas, de não merecedoras de cuidado, respeito e amor como se fosse qualquer coisa nelas que autorizasse a violência dos outros sobre elas. Qualquer coisa no que elas são. Ou fazem. Ou dizem. Ou vestem. Ou pensam. Ou defendem. Como se a violência fosse válida para todo mundo que não se inscreve nos parâmetros traçados por aquele que decide quem é merecedora de violência ou não: o mais forte. Isso é a barbárie. Isso é a lei sem lei da violência. Da mesma violência dos gritos, das palmadas e das humilhações. Imaginar que é isso que vai educar e proteger nossos filhos é algo que só pode parecer lógico na cabeça de um imbecil ou de alguém para quem a violência foi dada a conta-gotas, desde o berço, até essa pessoa deixar de vê-la como tal. Essa pessoa que ficou cega para a violência sou eu, é você, é toda uma geração criada dentro dessa lógica insensata de que educar é adestrar e de que um tapinha não dói. Nunca. Até o dia em que o tapinha te mata e daí é tarde demais para perceber que se tratava de um tapa.

Mas eu sobrevivi! Sei, que bom, eu também. E conheço gente que sobreviveu a coisas que talvez teriam matado a mim e a você. E qual é a sua proposta? Que criemos mais uma geração de sobreviventes que, como nós, não saibam mais como resolver as coisas a não ser no grito, na porrada, até chegar à submissão do outro? Mais uma geração que, como a nossa, seja capaz de rir e de arrumar desculpa e justificativa para 30 caras estuprando uma menina? Esse é o projeto para nossas filhas e filhos? Isso é o melhor que podemos oferecer para eles?

Olha, se esse é o seu projeto e se isso te basta, sinto muito, mas não estamos nessa juntos. Eu vou tirar alguma coisa de onde não tive e vou aprender, nem que seja nesse embate cotidiano doloroso comigo mesma e com os meus próprios limites, a poder oferecer outra coisa à minha filha. E ao meu filho, que também está crescendo e que também corre o risco dos gritos. Eu parei de gritar com a minha filha porque é impensável dar mais um passo que seja na perpetuação desse círculo vicioso de pequenas imensas violências cotidianas destruidoras de esperanças e de subjetividades inteiras. Chega, não dá mais.

Então, a partir de hoje, aqui em casa criança tem querer. Já tinha antes, mas agora digamos que a coisa se radicalizou e acabou a gritaria para tentar abafar os quereres das crianças que nos causam espécie. E a gente vai vendo o que faz com isso. Com os quereres deles e com os meus ranços de respostas violentas. Porque a violência é como um vício e para se desintoxicar tem que fazer como os alcóolicos anônimos, um dia de cada vez, uma crise de cada vez, uma situação difícil de cada vez.

Para aqueles que vão entender dessa pequena reflexão que a idéia é, consequentemente, deixar a criançada fazer o que quer até se tornarem tiranos, mimados e começarem a mandar nos adultos, sugiro uma boa encerada na cara de pau do seu cinismo, um pouco de estudo e que dêem uma olhada no excelente documentário: Si j’aurais su… je serais né en Suède. E um pequeno disclaimer, só para te ajudar.

Veja, admitir o óbvio de que toda e qualquer criança e até mesmo os bebês recém nascidos têm querer não significa dizer que todo e qualquer querer de um bebê, de uma criança, ou até mesmo de um adulto poderá ser atendido. Isso só existe nas baboseiras hollywoodianas que insistem em vender para a gente que querer é poder. Ideologia marotinha que serve apenas para você acreditar que se você quiser algo, você consegue e, se não conseguir, o defeito é seu, e não um problema de uma sociedade feita para poucos conseguirem muito e o resto morrer tentando, ok? Fora desse mundo de conto de fadas que serve para o que serve isto é, vender sonhos impossíveis, com ênfase para o verbo VENDER, a questão dos quereres e de seus limites é um tanto mais democrática.

Existem quereres possíveis e existem quereres impossíveis para todos. Ao menos em uma sociedade que se pretenda civilizada. E não estamos falando do querer ter e do querer consumir, ok? Estamos falando do querer amor, querer cuidado, querer afeto, querer proteção, querer conforto, querer beleza, querer silêncio, querer presença, querer privacidade, querer atenção, querer ajudar, querer fazer, querer saber, querer aprender, querer autonomia, querer espaço, querer proximidade, querer respeito… todos os quereres ligados ao que é mais básico e vital para cada ser humano. São esses quereres que são possíveis, impossíveis, às vezes possíveis, às vezes impossíveis, parcialmente possíveis, momentaneamente possíveis… E talvez seja isso que os pais deveriam poder ensinar aos aos filhos. Que a gente quer e precisa de muita coisa, muita coisa que no fundo parece até bem simples e óbvia. E que o Freud lá de alguns parágrafos acima resumiu em outro livro como: a gente quer, no fundo, no fundo, ser feliz. A gente quer muito, quer mesmo, com toda força. E às vezes não dá. E é um aborrecimento. E a gente aprende a fazer algo desse aborrecimento. E a continuar querendo. E a tentar outras vias. E a deslocar para outros quereres. E realizar algumas vezes esse querer. E noutras não.

E esse é o erro ou o cinismo puro e simples de quem pensa que educar é algo que se aproxima de um adestramento e que prefere se apegar no que concebe como “dar limites”, como se os limites não estivessem aí postos para toda e qualquer pessoa. Quer coisa mais limitada e limitante do que ser um bebê e ter que se haver o tempo todo com a frustração de ter seus quereres atendidos em permanência por um outro que pode estar ali para responder ou não, que pode entender ou não, que pode estar a fim ou não? Se tem alguém que sabe bem dos limites são os bebês e as crianças, acreditem. Esses pequenos que não podem nem trocar uma fralda de cocô sozinhos e se livrarem do desconforto de um bumbum molhado e assado. Então, você acha que precisa mesmo ensinar para eles que existem quereres que eles não vão poder realizar? Você acha mesmo que eles não constatam isso todos os dias, do mesmo modo que você?

Pois é, uma hora dá um insight e a gente percebe que isso não faz nenhum sentido e que qualquer ação violenta direcionada aos nossos filhos sob pretexto de “educação” deve ser urgentemente repensada. E aqui não falo apenas em palmadas, mas em gritos, humilhações, palavras ofensivas, xingamentos e todo tipo de desvalorização. Violências de vários tipos, nenhuma sem consequências. Elas fazem parte de um mundo que eu, pessoalmente, não faço nenhuma questão de transmitir para a próxima geração.

Em tempo: todo o meu respeito, meu carinho e meu cuidado a essa menina que sofreu tão abominável violência desses 30 dejetos. Você é uma pessoa tão digna de respeito, cuidado e afeição quanto eu, meus filhos e tudo quanto é gente que eu conheço e amo. Você não é mais, nem menos do que nenhum deles. E eu lamento no fundo da minha alma aquilo que você viveu. Conte comigo e com o meu apoio.

 

 

Ter irmão…

Enquanto me arrumo, a pequena sentada no chão cola adesivos em uma grande folha de papel, cantando e conversando. O pequeno ali perto, cantarola olhando um tanto as folhas agitando raios de sol pela janela, um tanto os brinquedos ao seu redor, um tanto a irmã. O tempo passa, ela concentrada em sua obra, ele se impacienta. Resmunga, resmunga, começa a querer chorar. Chora um pouco, ela concentrada. Chora mais um pouco, ela na dela. Penso em pedir para ela ir até ele levar um brinquedo, mas fico quieta e me apresso em terminar o famigerado banho.

Ela se levanta e desaparece do meu campo de visão lá para os lados dele. Silêncio. Pé ante pé vou dar uma olhada, segurando um: “o que vocês estão fazendo?” que espera alguma molecagem do outro lado. Ainda bem.

Eles não me vêem, mas eu os vejo. Ela faz um cafuné na cabeça dele, ele olha para ela chupando um dedo e dando risada, ela dá risada e um beijinho na cabeça dele, ele ri alto e se balança feliz. Ela volta para sua colagem, senta e continua falando, cantarolando e colando seus geometrismos coloridos. Ele resmunga de novo, ela vai ali para os lados dele e diz algo como: “não precisa chorar”. Ele sorri, outro cafuné, ela volta para a colagem. E decide que é divertido correr de um lado para o outro. Corre até ele, corre de volta para sua colagem. Ele decide que isso é extremamente engraçado e gargalha. Ela decide que é muito divertido fazer ele gargalhar e continua correndo. Eles se entendem.

E estão apenas no começo.

Ter irmãos é muita sorte.

Há seis meses atrás…

… eu não tinha como saber que a maternidade é assim: uma compilação de alegrias inomináveis e de medos aterradores. Seis meses de uma revolução permanente, em que cada dia traz o desafio de estar ali, presente, viva e capaz de viver, contigo, toda a surpresa que um mero dia pode conter. Seis meses de introspecção e de trabalho constante para estar disponível. Aquela força descomunal que fazemos para dilatar o colo do útero e para o bebê sair é mais ou menos a mesma força de abertura que temos que fazer todo dia, para deixá-lo existir, ser, descobrir, manifestar-se. E para ser companhia e porto seguro nesse cotidiano de descobertas.

Há seis meses atrás, eu não sabia o que poderia ser o amor, esse amor que transborda com um olhar, um sorriso banguela, um som perto de dizer mamãe, uma expressão de tranquilidade durante o sono… Esse amor que não é dado, nem óbvio, mas que se constrói nessa convivência tão íntima com tal força que não conseguimos mais lembrar de como era quando ele não existia.

Sua existência traçou uma linha divisória na minha vida, dando a tudo o que era antes o nome de passado e me mergulhando em um presente cheio de gestos, onde tudo ganhou ares de simplicidade. Como é difícil viver simples e verdadeiramente, encarnada no próprio corpo e nos acontecimentos de cada dia! Como é difícil apenas estar ali!

Seis meses de amamentação exclusiva, uma vitória para nós duas, uma vitória desse contato, dessa intimidade, desse olho no olho, desse conhecer-se mútuo que se fazem no silêncio pele-a-pele. Vitória desse tempo que corre pastoso como lava, do desconhecimento em que se tem que apostar. E confiar. Vitória de um saber visceral sobre os saberes e os poderes de outros, que nada tinham a ver com isso. Confiar em mim e em você.

Há seis meses atrás eu não sabia que a maternidade não é algo dado, nem evidente. Não sabia que podemos seguir os estereótipos e nos deixarmos levar ou tomar as rédeas da própria vida também nesse ponto e pensar com cuidado em cada decisão. Mas a sua existência me encheu de uma tal responsabilidade que não teria como seguir o vai-da-valsa como gado. E cada decisão cotidiana tornou-se uma reflexão, busca de informações e, principalmente, um combate contra os outros que prefeririam ter a facilidade de não ter que se colocar em questão. E contra eu mesma, minha preguiça, a vontade de deixar tudo quieto e não enfrentar nenhum demônio. Porque lutar, dá tanto trabalho… Mas te olhando todos os dias nos olhos e vendo o quanto você precisa e conta comigo, não pude me furtar a todas as questões, todas as tomadas de decisão, todas as apostas.

Quiseram te deixar em um berço no seu quarto desde o primeiro dia e eu tive que dizer não.

Quiseram te deixar chorar para você aprender a dormir sozinha e eu tive que dizer não.

Quiseram te dar mamadeira antes mesmo que tivéssemos a oportunidade de aprender a amamentar e a mamar. Eu tive que dizer não.

Quiseram que você vivesse em um ambiente cheio de gritos, desrespeito e hostilidade e eu tive que dizer não.

Quiseram que você não fosse prioridade. Eu disse não.

Com isso nos afastamos de muita gente. E eu enfrentei várias batalhas, muitas vezes sozinha, apoiada pelas informações que tinha, pelo meu julgamento, por minha aposta e por umas poucas pessoas, bem poucas, que estavam em sua maioria longe. Mas perto, ainda bem que elas estavam por aí, ligadas, capazes de ouvir e de falar, disponíveis. E isso trouxe muitas idas e vindas, muitas viagens, muitas decisões. E muitas mudanças. E, não, não foi um sacrifício que fiz por você, pois não acredito nisso, em carregar um fardo por você, minha pequena. Nem acredito em sacrifício. Acredito em lutar por si mesma e em lutar por alguém que precisa que lutemos por ela. Acredito ter descoberto que a maternidade também é isso, essa disposição em lutar, em virar bicho, em mostrar os dentes e em proteger a cria de tudo e de todos que representem uma ameaça. Até conseguir um lugar seguro e poder pousar. E jamais será sua a responsabilidade pelo que decidi e fiz. São minhas as decisões e minha a responsabilidade. Você terá as suas apenas no momento em que puder tê-las, nada vai te cair nos ombros antes disso. Maternidade também implica em não despejar em cima de um bebê as escolhas e os atos de uma mãe. O que eu faço por você, eu faço por mim também e por minha livre e espontânea vontade. Enquanto isso, sua responsabilidade é a de descobrir o mundo, olhar tudo com olhos curiosos, lamber o gosto do mundo e da existência. E tentar entender como seus pés e pernas funcionam para ver se consegue finalmente coordená-los com seus braços e seus quadris e, quem sabe, sair engatinhando por aí, em busca dessas coisas todas que te interessam tanto.

Há seis meses atrás eu não sabia de tantas escolhas, do medo de errar, da preocupação em fazer o melhor, dos temores que acompanham esse amor tão imenso: medo que você sofra, medo que adoeça, medo de te perder, medo que te façam mal… Medo dos perigos e das dores do mundo. Depois de mãe, pela primeira vez olhei para um garoto pedindo dinheiro no farol e chorei da dor de pensar em como seria se fosse minha filha ali e em como meu coração ficaria em pedaços se ela passasse por uma situação dessa. Não há como ser mãe e não se inquietar pela humanidade inteira, sabendo que seu filho vive nesse mundo e que, para que ele possa ser bem recebido, o mundo precisa estar tão bem cuidado quanto você cuida dele, do seu pequeno. Minha urgência por um mundo generoso e por pessoas mais éticas cresceu imensamente depois do seu nascimento.

Não sabia que ser mãe é uma das coisas mais democráticas que existe: ela te coloca, como mãe e mulher, em pé de igualdade com qualquer outra mãe. Vocês partilham uma experiência do parto, da amamentação, de cada gesto e de cada conquista do filho. Mesmo tendo vivido experiências diferentes quanto a cada uma dessas coisas. E mesmo que cada mãe tenha ideais e valores diferentes. Existe algo visceral que nos une e que permite uma conversa, uma proximidade, um encontro. Compaixão e cuidado com o outro: esses foram os gestos mais tocantes que descobri entre mães.

Não, nem tudo são flores. Tem cansaço, tem saco cheio, tem um sentimento de ser arrancada de si mesma e de perder as rédeas da própria vida, tem uma sensação de impotência, tem o desconhecimento do futuro, tem o não saber o que fazer, tem projetos que explodem, tem a vida fora do Brasil, tem solidão e incompreensão… Tem tudo isso. E tem muitas mudanças, muitas apostas e a construção de algo que nem sabemos ainda o que é. Mas, como poderia ser diferente? A vida mudou totalmente com a sua chegada e isso é bom. De verdade. E o que é bom não é viver em um comercial de margarina. O que é bom é justamente esse desconhecido diário que traz surpresas e obrigada a trabalhar, a pensar, a decidir. Ser mãe me obriga a estar viva e a viver. Bem.

Seis meses depois, minha filha, o que posso te dizer é que sinto um orgulho imenso em poder te acompanhar nessa vida e uma alegria igualmente imensa em que você exista. Você me colocou vários desafios e várias questões pelo simples fato de ter nascido. E isso me torna uma pessoa melhor. Não apenas para mim mesma mas, espero, para o mundo e, principalmente, para você. Onde vai dar nossa jornada eu não faço idéia. Mas tem sido um privilégio esses intensos seis meses juntas.

Tsunami

Sabem aqueles medos inexplicáveis que as pessoas têm? Tipo medo de barata, de multidão ou de unha raspando no quadro negro? Então, eu tenho 3 medos pânicos desse tipo e um deles é… tsunami. Sim, muito antes do que aconteceu na Tailândia ou no Japão há tempos atrás. E antes também de Impacto Profundo, o filme. E furacão? Não. Tornado? Não. Terremoto? Não. Vulcão? Nada, meu sonho é ver um em erupção. Não, minha gente, o medo não é da força incontestável da natureza que se revela nas mais variadas catástrofes naturais. O medo é de tsunami.

Eu perdi a conta de quantas e quantas vezes fiquei pensando no que faria se visse o mar recuar – o que, todo especialista sabe, pode ser o começo da tsunami – para onde iria, se correr seria suficiente, em que lugar alto poderia me abrigar… Porque uma tsunami não é como uma ondinha irritada de um mar de ressaca que implica em arrancar seu biquini ou te fazer comer areia. Uma tsunami é um muro colossal de água sem fim que avança, avança e avança carregando você, um transatlântico, as árvores, uma carreta, um prédio de cinco andares, uma vaca e tudo o mais que encontrar pelo caminho. Detalhe: sou paulistana e, hoje em dia, moro em Paris ou seja, para chegar uma onda por aqui teria que ser o apocalipse e, nesse caso, correr não adiantaria muito e o melhor seria ficar em casa twittando e comendo um belo pacote de chocolate… mas, putz! Tsunami, minha gente!!! Quem pode ser racional numa hora dessas?

Sempre tive um sonho recorrente, ou melhor, um modo de solucionar sonhos recorrente: quando a situação no sonho começava a se tornar angustiante, amedrontadora ou desconfortável eu pensava, sem acordar, que aquilo era apenas um sonho e que eu não queria que fosse daquele jeito. E assim, magicamente, eu fazia uma espécie de rewind no sonho e começava de novo, até sair da maneira que eu queria. Sim, e isso é mais antigo que o tsunami e bem anterior ao Feitiço do tempo, outro filme.

Confiem em mim, esse post vai para algum lugar e não é apenas para fazer graça para que os psicanalistas amigos e leitores tenham o que interpretar nas rodinhas de conversa. E, sim, essas duas coisas têm relação entre si e com a maternidade. Explico.

Quando as pessoas dizem que a maternidade é difícil, normalmente usam como justificativa argumentos como choros, noites mal dormidas, perda da liberdade que se tinha antes… enfim, esse blábláblá que toda mãe já ouviu da boca de tudo quanto é amigo, conhecido, desconhecido… Putz! A acreditar nessa gente, a maternidade seria uma passagem só de ida para dentro de O exorcista, mais um filme (estou cinéfila hoje, dêem um desconto). Detalhe: essas pessoas são as mesmas que dizem que é uma maravilha ser mãe. Como assim? Se é tão ruim, como é que é bom? Ou o bom é que é ruim? Coisa de masoquista essa tal de maternidade, então? Vai entender…

Nessa altura dos acontecimentos, do alto da minha vasta experiência de 5 meses como mãe, o que eu teria para dizer a respeito é: sim, a maternidade tem algo muito difícil. E, não, não é exatamente isso que as pessoas falam. Não é cuidar do bebê que é difícil. O difícil é a intensidade da experiência. Tsunami.

Pensa bem, vamos apostar no melhor dos mundos: você é uma mulher, adulta, dona do seu nariz, independente e consciente, na medida do possível, daquilo que quer. Tem uma vida que te traz alegrias, tem amigos, amores, trabalho, carreira, diversão, viagens. Sente-se satisfeita com aquilo que construiu, e boa parte do tempo dessa sua vida é investido em viver de acordo com o que você quer e precisa. Daí vem o bebê e acontece um turbilhão: você, que era centro do seu mundo, desloca-se para a periferia. E aquele serzinho tão pequeno, delicado e frágil passa a ocupar o lugar de destaque.

Não, isso não é papo de gente egoísta, narcisista e auto-centrada que não aguenta não ser o centro das atenções. Isso é uma questão do nosso tempo, em que boa parte do foco da vida de cada pessoa foi posto na realização pessoal e na criação de um percurso singular, que faça sentido e traga alegria para si. Isso no melhor dos mundos porque, no pior, singularidade virou sinônimo de sucesso, fama e outros afins, como se o que testemunhasse a felicidade de uma pessoa fosse aquilo que ela tem mas… enfim… distorções de uma época em que tudo e todos estão muito centrados em si, para o melhor e para o pior. E, numa época como a nossa, ser arrancado do centro da própria vida tem efeito de turbilhão. Tsunami. E frente ao muro de água que avança, avança e te engole, você tem duas alternativas: ou resiste (e é tragada do mesmo jeito) ou se deixa levar.

Gente egoísta, narcisista e auto-centrada, a meu ver, quando tem filhos simplesmente continua ocupando o mesmo lugar de antes, ancorada bem no meio da sua vida que, muito rapidamente, tem que “voltar a ser o que era”, como se nada de mais tivesse acontecido. É um estado de negação que se instala: mesmo corpo, mesma vida sexual, mesmos programas, mesmos projetos… Gente que ignora a mudança colossal que acaba de ocorrer na sua vida e que coloca o bebê para gravitar em torno de si, da própria rotina, dos próprios ritmos e interesses, esperando dele que se adapte e se enquadre naquilo que já existia. Uma violência com alguém que não tem muito recurso para se defender a não ser chorar e chorar e chorar. E, quanto mais chora, mais irrita aos adultos que não querem ser incomodados e que, consequentemente, responderão com estratégias ainda mais extremas de disciplinamento e por aí vai, numa bola de neve sem fim de incompreensão, opressão e choque. Têm pais que passam como tsunami na vida dos filhos.

Quando deveria ser o contrário.

Nesse nosso tempo, a segunda opção, que gosto de acreditar que não é apenas a minha, é se deixar tragar. E remar contra a maré, paradoxalmente. Quero dizer, ir contra o esperado socialmente e, de repente, se deixar levar. Ao contrário do sonho em que seria possível discordar dos rumos da história e recomeçar até que aconteça do jeito que queremos, a tsunami da maternidade vem sem que se possa voltar atrás. O que é absolutamente aterrador. E eu me arriscaria a dizer que nos primeiros meses da maternidade, juntamente com a privação de sono – que não à toa foi usada como método de tortura em todos os tempos, regimes e situações – e com a despossessão de si – seu deslocamento do centro – essa consciência de irreversibilidade da vida é aquilo que mais desestrutura. A vida mudou, alguém que não existia antes agora existe ali, por seu desejo e responsabilidade (juntamente com o da cara metade, o que não necessariamente alivia muita coisa) e você, de um jeito ou de outro, vai ter que encarar isso sem se desviar. Sem negociações, sem tergiversar, sem tentar engambelar a morte, como no magistral O sétimo selo, do Bergman. Quem não enlouquece com isso, nesses tempos em que tudo é líquido, fluído, deslizante, incerto? Tempos de modernidade líquida, como ponderou o sagaz Bauman… serão tempos em que algo tão definitivo quanto a maternidade é possível?

Não poder voltar atrás e, ainda por cima, ser o adulto da história, aquele que tem que sair de cena para o bebê existir, para conhecer esse bebê, entender o que ele quer e, ainda mais, confortá-lo, cuidá-lo, amá-lo. O desamparo de um bebê assusta e deixa a gente tão desamparada que são quase dois bebês chorando juntos, esperando quem os salve. Mas o adulto é você e é você quem tem que salvar. Você é quem tem que ser porto seguro, em um momento em que está arrancada do que sempre foi a sua vida e já nem consegue mais direito saber quem é.

Isso é uma perda profunda de referências junto com a demanda de ser referência para alguém, como se a água avançasse, avançasse e avançasse cobrindo tudo o que marcava um território e precisássemos, ali mesmo, construir uma casa. Construir uma casa segura enquanto o tsunami passa. Construir uma casa sobre um tsunami, frágil como um barquinho arrastado naquela imensa onda e que espera – tem a esperança – de que em algum ponto vai desembocar em algum lugar. São, salvo e sem ter a casinha destruída. Talvez as tais pessoas egoístas, narcisistas e egocêntricas sejam apenas pessoas apavoradas que, frente ao pânico da onda que chegou irremediavelmente, persistam em acreditar no sonho de refazer a vida a seu modo e retornar ao que era antes, tempo confortável em que tudo parecia conhecido. Negar até que se torne verdade. Negar até que o mundo se dobre à sua vontade. Ou ao seu medo. Tarefa hercúlea, não?

Não porque, além de ser arrancada da própria vida e ter que inventar a capacidade de dar a vida a alguém, cuidar e proteger no meio da tormenta, tem mais uma coisa que se instala junto com o tornar-se mãe. O medo ainda mais tenebroso de que a vida volte ao que era antes e aquele serzinho deixe de existir.

Noutro dia, fugi e fui ao cinema. Hehehehehe, eu diria. Depois de cerca de seis meses sem nem saber quais filmes estavam em cartaz e achando essa tal de sétima arte totalmente overrated (despeito de quem não pode sair e diz que, no fundo, nem queria, me julguem), saí numa noite em que estava previsto que eu teria uma reunião de trabalho, deixei a bebê com a babá (que, aqui, não tem nada a ver com o que entendemos como babá no Brasil, mas isso é outro assunto) e, no meio do caminho, me permiti mudar de idéia. Como era antes. Eu, sozinha, andando por essa linda cidade em que se pode andar nas ruas e experimentar o gosto de ser livre. E, como se não tivesse compromisso algum e, como se vivesse ainda aquela vida um pouco flâneur e, como se não tivesse que dar satisfação a ninguém fiz como fazia vez ou outra, quando saía da biblioteca após um dia de trabalho e entrava no cinema meio assim, como quem não quer nada, para ver onde iria parar. Parei em Philomena. Pior filme para quem tem uma criança pequena em casa. Ou o melhor, quem sabe? Pois além de me lembrar do quanto é bom sair à toa pela vida e parar em um cinema num final de tarde em Paris, e além de me lembrar de como Judi Dench é uma atriz fantástica e o quanto o cinema me permite pequenas grandes viagens que ajudam a entender melhor algo de mim mesma, como toda boa forma de arte, o que aconteceu de mais importante foi eu me instalar nesse tempo estranho do antes e do hoje. Uma confluência de tempos acontecendo ali, naquele cinema. E, por conta do filme, do enredo do filme e da situação em que fui vê-lo, entendi visceralmente uma coisa: não é mais concebível uma vida em que minha filha não exista. O antes é um tempo que eu não quero mais. Nem em sonho. Porque ter todo aquele conforto de uma época sem tumulto nem tsunami custaria o preço de não existir alguém que é simplesmente a pessoa sem a qual não há como meu mundo existir. Não há como eu existir mais sem ela, não há como eu existir sem que o nome “mãe” esteja colado na minha pele e na minha vida. Isso é o mais difícil da maternidade: uma vez nela, nunca mais existirá um segundo fora dela. E você, secretamente, espera mesmo que não, pois algo nela te define profundamente. Ainda que você não seja apenas mãe. Mas algo nesse acontecimento cria um antes e um depois. Para nunca mais. Algo em ser mãe se enraíza em você e não te larga. Uma raiz nesse muro colossal de água que avança, um fato inexplicável.

Ser mãe tem isso de bom: a gente se torna raiz flutuante.

Viajar com um bebê é possível!

Eis-nos aqui em terras brasilis, curtindo o sol, o calor, a malemolência, a família, os amigos… sonho delicioso de Natal escaldante, quase sinto falta das geladas e cinzentas tardes parisienses (só que não).

Como esse é um tempo de férias – e de festas – passo apenas para desejar a todos vocês um maravilhoso 2014. Que o ano que começa logo o mais seja generoso, doce e suave para todos nós. E que nós, mamães, tenhamos muito leite e poucas olheiras. E que nossos bebês sejam mais sorrisos, risadas, viradas, mãos na boca, balbucios e descobertas do que puns, cólicas, vômitos, nariz escorrendo e outras chatices afins.

Enfim, viajar com uma bebê é possível. Escreverei mais sobre isso assim que o calor escaldante der um tempo para minha pressão voltar ao normal e eu puder deixar de ser – por algumas horinhas – uma geléia derretida prostrada em frente ao ventilador, caçando correntes de ar como minhas gatas caçam passarinhos e minha pequena filha caça luzes, sombras, brisas, balanços de galhos e cheiro de flores.

Beijo em vocês. Até logo mais!

Lugar de bebê…

… é no colo! Pronto, falei. Ufa!

Existem duas idéias das quais não consigo deixar de desconfiar, nesse mundo novo da maternagem de uma bebê pequena: a famosa “isso é manha” e a sua nefasta consequência: “desse jeito, vai ficar mal acostumada”. Como assim?

Me espanto a cada vez que as escuto, pois para mim elas são o testemunho em alto e bom som de uma total falta de compreensão – e de compaixão – frente àquele pequeno ser que ali se encontra e que juramos querer bem.

Primeiro: não sei de onde veio essa certeza de que o bebê está fazendo manha. Não sei quanto a vocês mas eu, do alto da minha experiência de três meses, fico muitas vezes sem entender os choros e as reações da minha filha. Isso porque existe um descompasso gigantesco entre nós duas: eu sou uma mulher, adulta, falante e que aprendi ao longo dos anos mais ou menos aquilo de que necessito – e também o que desejo -, bem como os caminhos para comunicá-lo e consegui-lo. Ou, sendo psicanalítica, aprendi que pouco sei de mim para além do que julgo saber e que esse desconhecido também age, à minha revelia. Que o que comunico sempre rateia e que entre o desencontro e a falta existe, ainda assim, a alegria das parciais realizações. Pois bem, sabendo de mim mesma ou de minha ignorância, o fato é que sei muito mais do que minha filha falar das coisas desse mundo, mesmo das mais básicas. Ou, ainda que ela saiba – e eu acho que é esse o caso – de maneira um tanto precária e invadida por suas sensações e experiências, que algo vai bem ou que algo não vai nada bem, eis novamente o descompasso que faz com que ela tenha dificuldade em me comunicar o que acontece.

Ou não.

E pode ser que seja bem simples e ela simplesmente faça algo a respeito e comunique da primeira maneira que pode: chorando. Então, a pequena chora. E isso me toca, me perturba, me irrita, me entristece, me alerta e mais tantas outras coisas. E é fundamental que assim seja. E que eu me mexa e tente fazer algo a respeito. Foi assim que nossa espécie sobreviveu, não? Tendo bebês que choram e adultos que se incomodam com esse choro e tentam dar conta dele.

Onde é que entra a manha nisso tudo?

Tem gente que, novamente, numa total falta de compreensão e de compaixão pelo seu pequeno rebento, supõe que um bebê possua apenas 3 necessidades que possam inquietá-lo: fome, sono e fraldas molhadas e/ou cólicas. Vejam bem: supomos que um serzinho da nossa mesma espécie precise de apenas três coisas na vida enquanto nós, seres adultos falantes mal damos conta de enfiar nos armários tudo aquilo de que julgamos precisar quando nem sabemos do que precisamos.

Engraçado como essa sucinta lista não inclui coisas que nós, adultos, dizemos sempre necessitar e parecemos gostar tanto como, por exemplo, demonstrações de afeto, carinho, companhia, distração, entretenimento, calor humano, uma escuta atenta, cafuné… Como é que, sendo da mesma espécie que nossos bebês, acreditamos que eles precisam de tão pouco, enquanto nós precisamos de tanto? Quando é que todas essas coisas se acrescentam a comer, dormir e defecar?

Então, munidos de uma certeza questionável de que sabemos das 3 coisas que um bebê precisa e afrontados pelo seu choro tal qual língua estrangeira sentenciamos, sempre que dar comida, tentar fazer dormir e trocar fraldas não trazem o efeito desejado de que o bebê se acalme: “ah, é manha!”. Imagine se nos seus momentos de tristeza, de solidão, de carência ou de tédio as pessoas que te cercam e que dizem te amar, ao invés de te acolherem te dissessem: “deixa de manha!”.

Putz! Isso acontece! E na época de Freud chamava-se, entre outras, histeria. Que o bom e velho Sigmund reabilitou e legitimou como sofrimento real e verdadeiro, quando toda comunidade médica entendia como fingimento e manha. Curioso como as mulheres, tanto quanto as crianças, carregam desde há um bom tempo em suas ações o rótulo desqualificante da farsa, da manha, do teatro e da manipulação, não? Já pararam para pensar que, talvez, isso seja uma construção cultural e histórica que serve a alguma força que ganha em fazer pensar que mulher finge e manipula tanto quanto criança faz manha e manipula?

Enfim, voltemos aos bebês que descobrimos manhosos. E nossa reação, ao diagnosticar a manha, é ainda mais chocante do que supor que ela exista: nos permitimos, face a nossos filhos pequenos, que dependem de nós e que não podem se defender, as mais variadas indiferenças e violências. Se “não é nada”, é manha. Se é manha, deixa chorar, deixa ali, no berço, num lugar qualquer… deixa o bichinho ali até ele parar de fazer manha. Até aprender. E, sobretudo, nunca, jamais, em hipótese nenhuma fraqueje e lhe dê atenção, lhe console, lhe dê colo. Senão, ele “fica mal acostumado”.

Putz!

Sinceramente, o bebê demonstra, com os parcos recursos de que dispõe, que algo não está bem e, porque nós adultos somos limitados a ponto de supor que só pode ser fome, sono, cocô… e porque nós adultos não temos capacidade de nos colocarmos no lugar desse bebê e supor que pode ser alguma outra coisa… e porque nós adultos nos exasperamos quando nos sentimos impotentes… acusamos o bebê de “fazer manha” e deixamos ele se virar, sob pretexto de que isso vai educá-lo? Sou só eu ou tem mesmo alguma coisa muito errada aí?

Onde estão a empatia, o colocar-se no lugar do outro, a generosidade, a compaixão? A que tirania de uma educação opressiva devemos responder para deixarmos nossos filhos chorando porque é manha e porque qualquer coisa que se faça vai deixá-lo mal acostumado?

Escrevi aqui, há alguns posts atrás, que parece que as pessoas têm medo da dependência, vista como o perigo no vínculo estreito entre mãe e bebê, a ponto de quererem acabar com ela antes mesmo que ela se constitua e exerça seu papel fundamental. Penso que, nesse caso da manha e do ficar mal acostumado existe algo de análogo agindo. São frases que repetimos sem pensar, frases que ouvimos de nossos pais, de nossos avós, frases e crenças transmitidas de geração em geração sem que ninguém pare para pensar se elas fazem sentido. E que falam, em última instância, contra o fundamental papel que os adultos podem ter em confortar seus bebês. Ou seja, são falas contra o cuidado.

Pois se um bebê chora, ele deve ter um motivo. E se não entendemos, por que não procurar mais? Por que não consolá-lo, mesmo que não saibamos o que não está bem? Por que diabos não dar colo?

Meu coração fica apertado cada vez que escuto uma história de alguém que deixou, em nome de sei lá que modinha de adestramento, seu bebê chorando sem consolo. Me dói pelo bebê. E também pela pessoa que, para conseguir não responder da maneira mais espontânea que um humano responde desde que vê um outro em apuros, deve ter precisado desligar algum sinal de alarme dentro de si e entrar em um estado de indiferença frente ao sofrimento alheio que considero assustador.

Veja, não estou aqui dizendo que um bebê não pode chorar nem por um segundo, que não pode ficar contrariado, frustrado ou em estado de falta. Ele pode e ele fica, quer queiramos ou não porque essa incompletude é da condição humana. Sempre falta alguma coisa. Estou questionando o que faz com que adultos acreditem que precisam acrescentar a essa frustração que faz parte da vida um extra de sofrimento pela negativa sistemática em prestar socorro, acolher, acalentar e consolar um bebê. Acredite, ele não vai “ficar estragado” porque você o consolou e não vai ficar “fazendo manha” para te “manipular” e “conseguir tudo o que quer”. Já pensaram na força dessas palavras?

Quer dizer que um bebê tem o poder de ser esse tirano de seus pais? Tem certeza? É isso que é ficar mal acostumado e você tem que ser durão para mostrar quem manda?

Penso que estamos em uma época em que a dificuldade de impor limites tornou-se tão violenta que os adultos, desesperados, recorrem a um jogo de forças com seus filhos, os quais de modo algum estão em pé de igualdade com eles. Pais perdidos fazem pirraça para seus filhos bebês: “você pensa que vai me dominar? Pois eu te mostro quem é que manda aqui!”. Como se isso estabelecesse um limite. Como se fosse isso a tal função paterna. E como se fosse isso o educar.

Deixar bebês desamparados, já foi mostrado em diversas pesquisas, provoca desespero. Depois desistência. Depois apatia e fechamento em si mesmo. E falta de confiança no mundo e na capacidade de cuidado das pessoas. Não seria isso o verdadeiro ficar mal acostumado? Acostumar-se com o pior? Não poder esperar nada além do pior?

Eu não sei quanto a vocês, mas entre os educadores/adestradores que propagandeiam a manha, o mal costume e a distância violenta como resposta para criar um filho e as mães africanas, andinas, indígenas, asiáticas que fazem suas vidas com seus tranquilos bebês a tiracolo, eu escolho a sabedoria silenciosa das segundas.

O que aprendi sobre a amamentação…

… até agora. (ou: uma resposta a um certo post de uma certa blogueira em uma certa revista que, de tão medíocres, não merecem nem ser citados, a não ser como instigadores de respostas boas)

Digamos que ele é como um ser vivo, extremamente delicado e sensível ao entorno, o ato de amamentar. Quer dizer, é algo poroso, que se contagia de tudo que o cerca – e que nos cerca, mãe e bebê. Ambiente ruim, gente dizendo coisas desencontradas, falas sobre leite fraco, pouco leite, baixo ganho de peso… tudo isso pesa, influencia, mexe no tênue equilíbrio que exige o amamentar. Aprendi que, sem apoio e – pior ainda – com gente próxima ou distante falando contra, duvidando, criticando, persistir na amamentação é quase que um ato de heroísmo.

Antigamente, até bem poucas décadas atrás, contávamos com a sabedoria dos mais velhos. Mulheres pariam cercadas de mulheres, mulheres criavam seus filhos entre outras mulheres, mulheres amamentavam sob os olhos cuidadosos de outras mulheres. Mulheres mais experientes estavam sempre por perto, cuidando daquilo que elas sabiam muito bem por experiência própria: conceber, gestar, parir, amamentar, cuidar… Ninguém ficava sozinha, sem cuidado e sem orientação numa hora dessas. Em alguns cantos do nosso mundo, ainda existe essa rede de cuidados. Mas, infelizmente para nós, mulheres do mundo ocidental capitalista, o discurso da experiência e da rede de apoio foi desacreditado em nome de um saber médico / técnico e científico que saberia e poderia mais sobre a maternidade. E – coisa estranha – nós mesmas compramos esse discurso que, na medida em que tirava o saber da experiência de nossas avós, mães e tias, o tirava também de nós. E ficamos sozinhas e ignorantes, todo esse saber depositado nas mãos de um outro: a medicina, a ciência, a indústria. São essas as companhias que temos, hoje em dia, para gestar, parir e alimentar nossos filhos. Então, quando eles dizem que nosso corpo é falho e que não somos mais capazes de fazermos o que sempre fizemos, na falta de uma rede de apoio e de cuidado que nos ajude a contestar essa nossa pretensa incapacidade, capitulamos. Fragilizadas, aceitamos justificativas duvidosas para todo tipo de intervenção. E não parimos mais. E não amamentamos mais. E acreditamos que é assim mesmo, que é “normal”. E nos confortamos na idéia de que dar mamadeira não é tão mal assim. Não é tão mal assim quando realmente se necessita. Como uma cesariana pode ser uma benção quando realmente se necessita. Mas na medida em que ficamos sozinhas e destituídas de qualquer poder frente aos donos desse poder que servem, prioritariamente, a outros interesses opostos e conflitantes com o bem-estar da mãe e do bebê, como saber quando é que realmente se necessita? Aprendi que, hoje em dia, nosso esforço é muito maior em encontrar uma rede de apoio e de acolhimento que faça as vezes da “voz da experiência” de nossas mães, avós, bisavós e afins. Ela pode estar na internet, no encontro com outras mães, no trabalho das doulas e das enfermeiras obstetrizes, na existência de consultoras de lactação… há substitutos possíveis. Mas há que se buscar ativamente essas outras vozes discordantes que te ajudem realmente a poder amamentar.

Nada de natural existe nisso. Amamentar é natural. Tão natural como parir. Mas acontece que nós, humanos no século XXI, passamos por tantas mediações em nossa formação como humanos que estamos muito, mas muito distanciados de nossa natureza. Então, não adianta ouvir dizer que é algo instintivo e acreditar que isso significa que você vai chegar lá, na hora H, e vai conseguir fazer, tomada e possuída pela força das suas próprias entranhas. Até pode ser que seja assim. Mas pode ser também que as suas entranhas fiquem submetidas à sua razão, ao seu pensamento, ao seu medo e a tudo aquilo que acostumamos a priorizar em nossas existências mais cotidianas. Se baseamos toda a nossa vida em conhecimentos, informações, pensamentos lógicos e  afins – ou, ao menos, se acreditamos que é assim que vivemos e que fazemos escolhas – o que faria com que, na hora de parir e de amamentar pudéssemos conseguir reverter toda essa racionalidade que rege nossa experiência e nos abandonarmos ao desconhecido, confiando apenas em nossa intuição e em nossa sabedoria ancestral? Aprendi que para poder acessar essa sabedoria ancestral e poder se abandonar nessas horas em que o abandono é necessário – e quanta entrega é necessária para amamentar! – precisamos justamente jogar com todas as armas que temos a favor disso. Informação, pesquisa, conversas, preparo do corpo… tudo, todas as ferramentas podem e devem ser usadas. Ficar sentada no sofá esperando que algo em você faça todo o serviço é pedir para dar errado. Porque do mesmo modo que ali dentro das entranhas existe um instinto capaz de fazer parir, de fazer amamentar e tudo o mais, também existe o medo, as dúvidas… E quem vai ganhar nesse jogo de forças? Melhor botar todas as chances do lado que você deseja, não?

Até mesmo porque, vira e mexe precisamos discutir com os outros. Ou, ao menos, ter bons argumentos que nos fortaleçam na hora em que nos dizem para dar complemento por baixo ganho de peso ou coisas afins. Precisamos saber que bebês são diferentes, que muitos perdem peso ou ganham pouco no início e que cada qual encontra seu ritmo de mamar e de ganhar peso. E que não é apenas a curva de peso que conta na hora de avaliar o estado de saúde de um bebê. Muitos outros fatores contam. Aprendi que, se o bebê vai bem, o ritmo com o qual ele ganha peso é apenas mais um dado daquela singularidade que ele é.

Aliás, até mesmo quando a preguiça ou a ignorância falam mais alto e o médico decide avaliar seu filho apenas pelo ganho de peso – quando ele deveria é estar fazendo um belo de um exame clínico bem geral e abrangente que incluísse até mesmo informações sobre o estado da mãe e uma observação da mamada com vistas a orientar em caso de dificuldade – são poucos os que sabem interpretar que “normal” é todo o bebê que está dentro da curva, seguindo o seu desenho. Da parte mais baixa à mais alta, tudo é “normal”. Ou seja, mesmo que seu bebê não ganhe um quilo por mês e não fique explodindo de dobrinhas, está na curva, está “normal”. Aprendi a interpretar curvas de crescimento e mais um tanto de coisas que me fariam uma PhD no assunto. Como a maioria das mães que conheço que precisam brigar para poder amamentar.

Aqui na França, amamentação passou muitas décadas fora de moda. Condenada mesmo como um fardo para as mulheres. E só voltou a ser levada em consideração, segundo me explicaram, quando foi associada à diminuição do câncer de mama. Veja só: que seja o melhor e mais completo alimento para seu bebê, isso não foi argumento suficiente para as francesas, que só reabilitaram esse ato “primitivo” quando foi aventado algum benefício para elas. Digo isso apenas para dar uma idéia da mentalidade que circula por aqui. Assim, quando fui com uma amiga no simpático Le Poussette Café noutro dia, que estava lotado de pequenos e grandes rebentos, eu era a única mulher amamentando. Todas as outras pessoas sacavam suas mamadeiras de suas sacolas cedo ou tarde. Ou seja, essa história de que amamentar está na moda é um argumento bem perverso de quem prefere ignorar a realidade e se deixar levar por discursos pré-fabricados justamente para desviar daquilo que um simples olhar pode constatar no dia-a-dia: a maior parte das mulheres não amamenta. Não quer, não pode, não sei. Mas não amamenta. E causa surpresa que uma entre elas tire o peito para fora e dê de mamar à sua bebê. Surpresa discreta porque os franceses são educados demais em sua grande maioria para praguejar contra o “politicamente correto” em voz alta. Fora os caras de mente tortuosa que ficam te encarando com olhos nada generosos, num país onde o topless na praia é permitido, vai entender… Mas isso é outra conversa. A questão, aqui, é a predominância do leite artificial e da mamadeira em todos os lugares por onde circulam pimpolhos franceses e suas mães. Isso porque, nas maternidades francesas, há um incentivo quase excessivo por parte de enfermeiras, sage-femmes e auxiliares de puericultura para que as mães amamentem. Mas basta ter alta e sair para o mundo e você vai topar com muitos profissionais de saúde tentados a te indicar leite artificial na primeira consulta. Assim como seus amigos, sua família, e todas as francesas que vão sempre te dizer que você não é obrigada a amamentar. Aprendi que, para amamentar, você tem que ter uma firmeza de intenções e uma clareza a toda prova. Porque será posta à prova o tempo todo.

E leva tempo! Como leva tempo! Quando dizem que existe um tempo de adaptação entre você e o bebê para que a amamentação entre em um certo piloto automático em que ela funciona bem, você pensa que esse tempo é o tempo até sair da maternidade, ou o tempo de alguns dias. Mas podem ser semanas. Ou meses. Cada bebê é um e cada mãe é uma e o tempo que cada qual vai precisar varia muito. Mas é sempre um bom tempo. E aprendi que quanto menos pressa temos, melhor e mais rápido a coisa engrena. Porque basta ficar tomada por aquela urgência estalando no peito para o bebê se inquietar. E bebê inquieto não mama bem, não descansa enquanto mama, não se apazigua com uma mãe botando pilha ali do lado. Do mesmo jeito que menos é mais para muitas coisas na vida, acho que na amamentação mais lento vai mais rápido do que ter pressa.

Pega, posição correta, tantas posições para amamentar… livre demanda, uma atenção aos sinais do bebê, às suas necessidades. Aprendi que o bebê sabe mais sobre mamar do que nós. Não apenas porque tem um reflexo de sucção, já que isso sozinho não garante nada, uma vez que tem a mãe ali do outro lado e o pequeno vai ter que se entender com ela para poder sugar e garantir que o leite do qual precisa seja produzido. Então, a mãe tem que confiar que o pequeno sabe quando tem fome, sabe quando precisa mamar, sabe onde lhe aperta o calo e quando precisa de aconchego, de calor, de companhia, de abrigo… e de leite. Se nos disponibilizarmos a atender essas demandas de nossos bebês, a amamentação transcorre de um jeito bem mais sossegado para ambos.

Não é um jogo de forças, você irritada porque sabe como tem que ser (um peito, outro peito, tanto tempo, a cada tantas horas, uma determinada quantidade) versus um bebê irritado porque precisa se encaixar em um ritmo que não é o dele e que ele ignora totalmente. Se você se aborrece porque não está funcionando, imagina o que ele sente ao ser alimentado quando e como você quer e não como ele precisa? Aprendi que amamentar é encontro, um encontro de duas pessoas que mal se conhecem e que precisam uma da outra de um modo muito íntimo. E que precisam se entender falando línguas desconhecidas um para o outro. Ou seja, um encontro quase impossível, a não ser que cada qual confie no outro e na sua capacidade de estar ali e de dar conta. Sem essa disponibilidade, amamentar vira um martírio. O que é uma pena, pois pode ser tão prazeroso, tão bonito como são todos os encontros de alma, os encontros verdadeiros e profundos.

Fico de coração partido a cada vez que ouço alguma história de alguém que parou de amamentar e passou à mamadeira. Por má informação, por falta de informação, por pressão dos outros, por falta de apoio… ou seja, por todos os motivos “errados”. Tenho uma amiga cujos olhos se enchem de lágrimas a cada vez que ela conta como se sentiu aterrorizada com a perspectiva de que a filha estivesse passando fome e passou ao leite artificial. Conheço uma outra que, a cada vez que me vê amamentando conta com tristeza como, mesmo sendo seu segundo filho e tendo amamentado a primeira, acreditou nas palavras do pediatra sobre pouco leite e baixo peso e passou à mamadeira. E o quanto se arrepende de ter ouvido a ele e não a si mesma. Por que nos despossuímos assim?

Tem um texto lindo da Anne Rammi do Super Duper sobre amamentação em que ela começa escrevendo sobre o que nós mulheres perdemos quando renunciamos sem motivos realmente impeditivos a essa experiência. Ela posta uma foto e fala de um olhar, um olhar do bebê que mama e que é só para a mãe. É esse encontro de almas do qual escrevi há pouco. Um bebê te olha no fundo da alma e faz teu coração revirar do avesso, de tanto sentimento que pode carregar em um mero olhar. E isso não acontece no comecinho, também leva um tempo, é a recompensa a ambos pelo trabalho bem feito. E esse olhar vem um dia. Por um instante todo o cansaço, as dificuldades, os conflitos passam. Parece piegas e parece mágica e, no entanto, acontece. É o tal encontro. Será que não vale o esforço?

Leia mais a respeito da amamentação nesse blog clicando aqui.

Ontem e hoje…

… você decidiu olhar fundo nos olhos da mamãe, com um olhar de tanto amor que o coração até ameaça parar… e a respiração se prende… e nenhum músculo se movimenta…

Tentativas da mamãe de congelar aquele momento sublime e passar o resto de seus dias vivendo naquele olhar de tanto amor.

… você olha fundo nos olhos da mamãe e sorri. E balbucia palavras doces que um dia serão palavras. Mas que não precisam ser palavras, porque seu olhar diz tanto…

Acho que você descobriu que a mamãe existe. E isso é encanto, amor, ternura. E também medo.

Fica com medo de estar sozinha? Por isso chora?

Não se doa tanto, meu anjo. Mamãe está aqui contigo.

Rapidinhas da maternidade

Mais descobertas sobre a maternidade entre fraldas, sonecas, banhos, sorrisos, brincadeiras e tudo o mais:

  • depois dos sorrisos dormindo, vêm os sorrisos acordada, olhando no olho, diretos para você… coisa de fazer o amor aumentar de forma exponencial, quando você imaginava que nem teria como amar mais aquele serzinho ali.
  • roupinhas se perdem de um dia para outro, nessa época em que 1cm a mais ou  menos faz uma enorme diferença.
  • quando você diz que depois da mamada vai tomar um banho, ou jantar, ou ambos, isso pode querer dizer dali a 5 horas. Ou no dia seguinte.
  • aliás, é bom relativizar tudo aquilo que você concebe como um prazo sensato para qualquer coisa: quando dizem que o bebê cria um ritmo e uma rotina, isso não significa que vai acontecer no tempo que você julga plausível para tanto, mas no tempo que o bebê precisa para isso. Quer dizer: é no ritmo dele, não no seu, ok?
  • das perguntas idiotas, “você já voltou a trabalhar?” está no meu top 3 da cretinice. De onde vêm essa necessidade das pessoas de te pressionar para que você retome uma vida que já mudou e que aja como se um acontecimento de tão grandes proporções como ter um filho pudesse ser equacionado em poucos meses a ponto de você voltar ao trabalho linda, leve e solta? Parece que acreditam que voltar ao trabalho sinalizaria que o furacão já passou e que tudo, inclusive você, já está de volta no quadradinho dos rótulos em que haviam te colocado.
  • outra do meu top 3, que normalmente segue a anterior: “mas você não se entedia? não faz alguma coisa para se ocupar?” Quer dizer que eu fico em casa de pernas pro ar o dia inteiro e preciso de ocupação, né? Pergunta que vem, usualmente, de pessoas que julgam que, já que você está em casa o dia inteiro, sem trabalhar, ao menos poderia fazer uma comidinha, dar uma adiantada na faxina, passar umas roupas… se ocupar, pô! Quer dizer, por que você não faria, não está trabalhando, está cheia de tempo livre…
  • frequentemente, as perguntas cretinas são feitas por pessoas que julgam a maternidade como um calvário que cada qual tem que suportar. Quer dizer, trabalhar é um prazer, férias são um prazer, a balada é um prazer, mas ter filhos não pode ser, entende? Assim, o sujeito fica ali testando o quanto você está tão mal nessa situação quanto ele está, ou quanto ele supõe que você deveria estar. Não passa pela cabeça desses seres que, talvez, para você ser mãe possa ser uma escolha, um prazer, uma alegria e que, mesmo descabelada e cansada, você está realmente bem com isso e não queria estar em outro lugar nesse momento.
  • aliás, diga à maior parte das pessoas, em resposta ao “como andam as coisas?”, que está cansada e ouvirá um sermão culpabilizante sobre as maravilhas da maternidade. Diga que está bem, tranquila e feliz e ouvirá um discurso sobre: 1) os erros que está cometendo, 2) tudo o que você está perdendo de legal, 3) como ter filhos é uma coisa tão chata e limitante.
  • a curva de crescimento é mais importante do que a constatação de que seu bebê está bem. Nenhuma conversa com mães escapa do momento: “ela pesa quanto?”, “ganhou quantos quilos?”, “mede quanto?”. De repente, todo mundo virou pós-doutor em estatística.
  • amamentar pode dar certo. Mas é preciso muito amor e paciência. Não só com o rebento mas, especialmente, consigo mesma. O ritmo é o dele, lembra? E, provavelmente, vai demorar mais par engrenar do que o prazo que você botou na sua cabeça. Ninguém manda ser acelerada em um mundo acelerado. A criança que acabou de chegar nem sabe disso – que bom! – e vai fazer as coisas conforme puder e precisar. Quem sabe seja uma boa oportunidade para desacelerar ritmos e expectativas, não?
  • se alguém anda precisando de argumentos pró-amamentação, e não se contenta com todos aqueles que falam em prol da saúde do bebê, só tenho uma coisa a dizer: 10 quilos perdidos em menos de 3 meses. Pense nisso.
  • o que são esses homens nojentos que ficam olhando enquanto você amamenta? Pois além dos olhares de censura, como se um peito para fora fosse mais pornográfico do que as imagens de guerra, miséria e corrupção com as quais somos bombardeados cotidianamente sem o menor pudor, existe o olhar bizarro de adultos tortuosos que babam enquanto você amamenta como se fossem psicopatas. Ainda estou tentando pensar em como Freud explicaria essa.
  • Paris é uma cidade hostil para mulheres grávidas e para mães de bebês e crianças de colo. Muitas escadas, muita gente, muito perrengue, espaço zero em restaurantes, bares, cafés, metrô, ônibus… Mas os parisienses se revelam em toda sua gentileza inesperada quando você carrega um bebê. Acho que todos sabem do perrengue que todos passamos no dia-a-dia não tão cor-de-rosa da cidade luz.
  • aliás, wrap, sling e todos os meios de portagem são essenciais por aqui (ainda vou escrever uma ode a eles). Tirando todos os benefícios que trazem em termos de reconforto e segurança par ao bebê, nada mais prático para circular por essa cidade do que algo que não triplique de tamanho o espaço que você ocupa nos lugares. Franceses parecem detestar gente muito espaçosa.
  • assim como parecem detestar bebês que choram, como se fosse uma aberração da natureza. Pois é, chorar é que é esquisito, não ter um dos maiores índices de consumo de antidepressivos do mundo. Acho que os franceses choram pouco, vai ver é isso. Excesso de discrição.
  • contudo, a França possui um sistema de acompanhamento do recém nascido durante toda a sua primeira infância que é IN-VE-JÁ-VEL. Mesmo.
  • amor de mãe só aumenta. E aumenta. E quando você acha que está no cume da montanha, aumenta ainda um pouco mais.

Outras descobertas: aqui.

A primeira vez.

Quando minha irmã deu à luz ao meu sobrinho, me fascinava olhar para aquele pequeno tão novinho e imaginar que, cada uma das milhares de coisas que fazemos cotidianamente, ele experimentaria pela primeira vez. Respirar, enxergar, as cores, a brisa no rosto, os cheiros, as texturas, os sons. Imagina poder testemunhar tantas das coisas desse mundo sendo vividas pela primeira vez por uma pessoa e suas reações à cada descoberta? Imagina poder apresentar tantas dessas coisas à alguém? Que responsabilidade e que encanto, poder oferecer a um ente querido as nossas melhores primeiras vezes e poder redescobri-las com ele, com esse olhar novo e arregalado que têm os bebês pequenos a cada vez que descobrem.

Eis-me agora às voltas novamente com as primeiras vezes, dessa vez da minha filha. E o encanto, a responsabilidade, a emoção e a redescoberta do mundo e da vida se revelam ainda mais intensos a cada dia, a cada nova experiência para ela que eu posso testemunhar ou da qual posso participar. Um privilégio poder apresentar o mundo a alguém. Um privilégio poder participar dessas primeiras vezes.

Assim, algumas das primeiras vezes tão tocantes desses poucos meses de vida da minha pequena, revistas pelo olhar de uma mãe que não sabe exatamente o que ela sentiu ou viveu, mas que estava presente e viu em seus olhos aquele encanto de uma descoberta:

  • a primeira mamada em que desceu leite ao invés de colostro, ainda na maternidade, e seus olhos arregalados de “ops… uau!”
  • a primeira vez em que a vovó te deu a mão no carro enquanto você chorava e você descobriu uma mão e a segurança que dá segurar a mão de alguém…
  • a primeira vez em que você ganhou um beijinho em cada pé e seus olhos espantados por ter pés, de sentir pés e de sentir beijinhos nos pés…
  • a primeira vez do gosto esquisito da vitamina e sua careta com a língua tocando a colher…
  • a primeira vez no jardim, com o vento batendo no rosto e um cheiro de jasmim chegando no seu nariz…
  • a primeira vez em que a vovó te cantou uma música inventada e você silenciou, cheia de atenção, e dormiu…
  • a primeira viagem de trem em que você ficou um tempo olhando pela janela, abismada com as paisagens que passam, os campos, os verdes, o céu, as nuvens, as luzes, tudo passando lá fora tão rápido e desfilando refletido em seus olhos abertos, tão abertos…
  • a primeira vez que cada pessoa de nossas famílias te pegou no colo e sua curiosidade com cheiros, vozes e sorrisos…
  • a primeira vez que você sorriu quando eu trocava sua fralda… e vai saber do que você achou tanta graça…
  • a primeira vez que você descobriu a mão na boca que o papai te ensinou a encontrar…
  • a primeira vez do cheiro de creme na minha pele e seu estranhamento com essa que nem parecia mais a mamãe…
  • tantas primeiras vezes no banho, cada encontro com a água quentinha, um reencontro, um prazer de perninhas esticadas, cabeça solta, corpo relaxado em movimento…
  • a primeira vez das luzes de Paris amareladas de noite, deslizando vistas de dentro de um carro…
  • a primeira vez em que descobriu um brinquedo em seu berço, uma abelhinha colorida e tremeliquenta que te fez sorrir e soltar gritinhos…
  • o primeiro vermelho… a explosão do primeiro vermelho…
  • o primeiro susto apavorado de quando enfiaram uma agulha no seu bracinho para um exame de sangue… porque nem todas as primeiras vezes são felizes…

Mas muitas são.

Não sei que memória um bebê pode ter dessas vivências. Talvez o mais correto seria falar em marcas, marcas inconscientes, traços…

O que quer que reste, resta em mim a lembrança dessas primeiras vezes para eu te contar. E a vontade de ter filmado, fotografado, registrado, aprisionado em algum lugar para que nunca se perca. Ou não. Tem coisas tão bonitas que é melhor viver do que registrar. E botar em palavras, essas que sempre são tão insuficientes…

A primeira vez que nos vimos e nos encontramos, na sala de parto…