Ontem e hoje…

… você aproveitou como nunca o verão brasileiro. Chapéu na cabeça, roupas fresquinhas, mostrou toda sua brasilidade bronzeando sem avermelhar. E mostrou ser filha de quem é tendo alergia ao ar condicionado. Putz!

… seu primeiro banho de mar, com a Vovó, foi puro deleite. Você, que adora um banho e se estica toda para flutuar na água como se estivesse em casa, nem se assustou com uma banheira tão grande e tão salgada. Como se o mar estivesse estado sempre aí, à sua espera.

… a cada dia que passa, mais e mais sons diferentes saem da sua boca. Eu, bestamente, ouço um “mamain” e um nénein”. Entre cantarolar e resmungar, sons roucos e graves, gritos de alegria, sons suaves de sorriso enquanto me olha ao acordar pela manhã. Cada som acompanha uma expressão inclassificável, tão careteira que você é. Doce de sorriso aberto e olhar profundo, bicuda e séria concentrada, reclamona francesa… Ameaça chorar e não chora, apenas um gritinho ou choramingo são o suficiente para que a mamãe venha ver o que acontece. E por que não seria assim? Tenho aprendido que o melhor que posso te dar é esse conforto e essa confiança em que está segura, está protegida e é muito amada. Esse legado, o mais simples, é o mais importante. Quando chora, chora sentido, uma expressão de tristeza e de apelo no rosto, corta o coração da gente.

… das memórias desse verão de mar, sol e calor até demais, acho que o que você vai guardar é o barulho… o barulho da sua família ruidosa, a fala em voz alta, o tumulto, todo dia parecendo dia de festa. E o seu primo, que você seguiu com o olhar encantado o tempo todo.

… no mais, você se tornou uma expert em virar de bruços, nem mãos e pés te atrapalham mais. Pegar brinquedos com as duas mãos, então, nem se fala. E, para experimentar a vida, tudo vai na boca. Com direito a grunhido, murmúrios, gritos e cantoria.

… em cada uma das suas mil expressões você é uma e é uma descoberta. Que alegria imensa em partilhar contigo essa vida!

Viajar com um bebê é possível!

Eis-nos aqui em terras brasilis, curtindo o sol, o calor, a malemolência, a família, os amigos… sonho delicioso de Natal escaldante, quase sinto falta das geladas e cinzentas tardes parisienses (só que não).

Como esse é um tempo de férias – e de festas – passo apenas para desejar a todos vocês um maravilhoso 2014. Que o ano que começa logo o mais seja generoso, doce e suave para todos nós. E que nós, mamães, tenhamos muito leite e poucas olheiras. E que nossos bebês sejam mais sorrisos, risadas, viradas, mãos na boca, balbucios e descobertas do que puns, cólicas, vômitos, nariz escorrendo e outras chatices afins.

Enfim, viajar com uma bebê é possível. Escreverei mais sobre isso assim que o calor escaldante der um tempo para minha pressão voltar ao normal e eu puder deixar de ser – por algumas horinhas – uma geléia derretida prostrada em frente ao ventilador, caçando correntes de ar como minhas gatas caçam passarinhos e minha pequena filha caça luzes, sombras, brisas, balanços de galhos e cheiro de flores.

Beijo em vocês. Até logo mais!

Ontem e hoje…

… você descobriu como agarrar com as mãos abertas. E com toda a vontade agarrou com as duas mãos sua abelhinha, que foi parar na boca. Essa boca que agora tem mil sorrisos e sons infinitos. Menina conversadeira, da fala suave, do olhar meigo, da curiosidade com tudo e com todos. Mundos de vermelho, amarelo e laranja te fascinam. E a manhã é sua favorita para espreguiçadas felinas, conversas ao pé do ouvido e viradas acrobáticas na hora de trocar fraldas.

A primeira vez.

Quando minha irmã deu à luz ao meu sobrinho, me fascinava olhar para aquele pequeno tão novinho e imaginar que, cada uma das milhares de coisas que fazemos cotidianamente, ele experimentaria pela primeira vez. Respirar, enxergar, as cores, a brisa no rosto, os cheiros, as texturas, os sons. Imagina poder testemunhar tantas das coisas desse mundo sendo vividas pela primeira vez por uma pessoa e suas reações à cada descoberta? Imagina poder apresentar tantas dessas coisas à alguém? Que responsabilidade e que encanto, poder oferecer a um ente querido as nossas melhores primeiras vezes e poder redescobri-las com ele, com esse olhar novo e arregalado que têm os bebês pequenos a cada vez que descobrem.

Eis-me agora às voltas novamente com as primeiras vezes, dessa vez da minha filha. E o encanto, a responsabilidade, a emoção e a redescoberta do mundo e da vida se revelam ainda mais intensos a cada dia, a cada nova experiência para ela que eu posso testemunhar ou da qual posso participar. Um privilégio poder apresentar o mundo a alguém. Um privilégio poder participar dessas primeiras vezes.

Assim, algumas das primeiras vezes tão tocantes desses poucos meses de vida da minha pequena, revistas pelo olhar de uma mãe que não sabe exatamente o que ela sentiu ou viveu, mas que estava presente e viu em seus olhos aquele encanto de uma descoberta:

  • a primeira mamada em que desceu leite ao invés de colostro, ainda na maternidade, e seus olhos arregalados de “ops… uau!”
  • a primeira vez em que a vovó te deu a mão no carro enquanto você chorava e você descobriu uma mão e a segurança que dá segurar a mão de alguém…
  • a primeira vez em que você ganhou um beijinho em cada pé e seus olhos espantados por ter pés, de sentir pés e de sentir beijinhos nos pés…
  • a primeira vez do gosto esquisito da vitamina e sua careta com a língua tocando a colher…
  • a primeira vez no jardim, com o vento batendo no rosto e um cheiro de jasmim chegando no seu nariz…
  • a primeira vez em que a vovó te cantou uma música inventada e você silenciou, cheia de atenção, e dormiu…
  • a primeira viagem de trem em que você ficou um tempo olhando pela janela, abismada com as paisagens que passam, os campos, os verdes, o céu, as nuvens, as luzes, tudo passando lá fora tão rápido e desfilando refletido em seus olhos abertos, tão abertos…
  • a primeira vez que cada pessoa de nossas famílias te pegou no colo e sua curiosidade com cheiros, vozes e sorrisos…
  • a primeira vez que você sorriu quando eu trocava sua fralda… e vai saber do que você achou tanta graça…
  • a primeira vez que você descobriu a mão na boca que o papai te ensinou a encontrar…
  • a primeira vez do cheiro de creme na minha pele e seu estranhamento com essa que nem parecia mais a mamãe…
  • tantas primeiras vezes no banho, cada encontro com a água quentinha, um reencontro, um prazer de perninhas esticadas, cabeça solta, corpo relaxado em movimento…
  • a primeira vez das luzes de Paris amareladas de noite, deslizando vistas de dentro de um carro…
  • a primeira vez em que descobriu um brinquedo em seu berço, uma abelhinha colorida e tremeliquenta que te fez sorrir e soltar gritinhos…
  • o primeiro vermelho… a explosão do primeiro vermelho…
  • o primeiro susto apavorado de quando enfiaram uma agulha no seu bracinho para um exame de sangue… porque nem todas as primeiras vezes são felizes…

Mas muitas são.

Não sei que memória um bebê pode ter dessas vivências. Talvez o mais correto seria falar em marcas, marcas inconscientes, traços…

O que quer que reste, resta em mim a lembrança dessas primeiras vezes para eu te contar. E a vontade de ter filmado, fotografado, registrado, aprisionado em algum lugar para que nunca se perca. Ou não. Tem coisas tão bonitas que é melhor viver do que registrar. E botar em palavras, essas que sempre são tão insuficientes…

A primeira vez que nos vimos e nos encontramos, na sala de parto…