As meninas

Essa semana foi celebrado o dia da mulher e eu sou daquelas que pensam que não temos nada que comemorar e muito ainda pelo que lutar. Acho que não é novidade para ninguém que essa data foi instituída depois que grupos de mulheres na Europa e nos EUA começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e um tratamento mais igualitário, no final do século XIX, início do século XX. Ou seja, trata-se de um dia que deveria servir como incitação para colocarmos os holofotes sobre tudo aquilo pelo que ainda passamos, nós mulheres, em um mundo que continua machista, misógino, violento e desigual. E onde ser mulher não é fácil e sem riscos. Onde é preciso encontrar forças para olhar para além dos rótulos com que insistem em nos tachar – a menina direita, a vadia, a mãe dedicada, a profissional eficiente, a loira burra, a caminhoneira, a cougar, a lolita, entre tantos outros. Rótulos que servem apenas para impor ideais inatingíveis e criar divisões e inimizades. Falsos papéis que só tornam ainda mais difícil e solitária a vida de tantas de nós, que nos fazem incapazes de empatia por conta de um julgamento sobre as mulheres em geral e até mesmo sobre o que é ser mulher que precede o encontro com qualquer mulher de carne e osso. Um filtro que acompanha e interfere em todas as nossas relações, deixando-nos menos permeáveis umas às outras, menos capazes de demonstrar solidariedade.

Tenho a sorte de ter encontrado algumas mulheres ao longo da vida que me ensinaram muito sobre essa comunidade e sobre a importância de estarmos juntas, de nos vermos, de nos ouvirmos e de nos apoiarmos mutuamente. Como as mulheres de uma mesma aldeia, como as mulheres de uma mesma família na época de nossas bisavós, como as mulheres de uma mesma vizinhança de uma cidade pequena de antigamente. Como na época e nos lugares em que mulheres sabiam estar juntas.

Essas mulheres talvez nem saibam o quanto aprendi com elas. Por meio de palavras, gestos, ações elas me fizeram experimentar essa comunhão que desconhecia. Me ajudaram a encontrar uma certa serenidade em existir. E um bocado de orgulho em ser quem sou. São mulheres que souberam dar tempo ao tempo, que cultivaram a paciência, que perseveraram contra doenças, que confrontaram graves depressões. Que carregam consigo uma sabedoria do silêncio, uma maleabilidade na escuta e nas palavras, um cuidado com o outro. Mulheres batalhadoras, não se enganem. Mulheres autoras, com idéias, com opiniões. Mas sem o caráter belicoso e hostilizador que muitas vezes a defesa de idéias e de posições carrega. Mulheres que, talvez não por coincidência, são entre outras tantas coisas, mães.

Ao menos no que me diz respeito, parir foi um acontecimento revolucionário. Parir minha filha e meu filho me deram uma espécie de confiança que nenhum discurso bem arrematado tinha podido me trazer até então. Uma segurança vinda das entranhas, algo visceral, um saber daquilo que sou capaz. Talvez seja por isso que tanto se faça contra o parto e que tantos dos defensores da medicalização, da intervenção e da retirada do protagonismo da mulher sejam homens. Quem vai querer uma mulher que confia em si mesma, que não se sente passiva, subjugada e servil, que entende o profundo laço que a une a todas as outras, que é capaz de solidariedade e de tomar posição para defender suas crias e suas iguais?

Pois é, por isso que o feminismo é algo tão atual e tão necessário nos dias de hoje. O feminismo que coloca as mulheres juntas, não aquele que divide entre mulheres conscientes e alienadas, aquele que advoga que só existe um jeito certo de ser mulher e que todas as outras escolhas são equivocadas. Enfim, um feminismo no sentido de defender a igualdade de direitos, o fim da violência de gênero e a garantia da liberdade de ser o que quer que se deseje. Mulheres parideiras têm tudo a ver com o feminismo e têm tudo a contribuir com ele porque conhecem nas suas entranhas o quão violenta é a máquina de moer carne contra a qual tiveram que lutar para poderem simplesmente existir enquanto mulheres que botam seus filhos no mundo. E, de quebra, elas sabem a força que essa luta contra o sistema no mais íntimo momento de ter um filho traz.

Passei dias escrevendo esse texto a conta-gotas e termino-o em um dia estranho. Um dia em que muita gente vai às ruas no Brasil pedir o fim da corrupção de braços dados com um bando de corruptos, sustentando um discurso de ódio tão explícito e tão sem projeto de futuro como poucas vezes vi. Gente querendo mudança sem querer mudar. Gente querendo mudança aliada a gente que nunca mudou. Gente querendo decapitar o rei para colocar um outro tirano no mesmo lugar. Uma tristeza sem fim ver o que acontece no meu país nesse momento.

Talvez nesse momento, mais do que em tantos outros, a voz das mulheres seja ainda mais necessária. Quase não as vejo falando algo a respeito. Talvez porque, em meio a tanta violência, conseguem ainda nos manter de boca fechada? Talvez porque tenhamos que gritar tanto por questões básicas como a de garantir a nossa própria sobrevivência? Talvez porque o sistema cuide para que estejamos tão esmagadas que nos sobre poucas forças e pouca voz para gritar contra esse mundo assustadoramente pleno de ódio que parece ter se inculcado em cada poro de cada milímetro do Brasil? Mulheres capazes de empatia, de cuidado, de pensamento, de questionamento. Mulheres capazes de recusar esse discurso de ódio e essa estranha capacidade que temos em nosso país de querer fundar algo “novo” apoiados por um monte de mentiras, de querer fabricar um castelo sobre um pântano. Onde está a voz das mulheres num dia como o de hoje, tão próximo do 08 de março? Onde está nossa força descomunal em gerar algo realmente novo? Onde foram parar valores como justiça, honestidade, solidariedade, cuidado?

Para mim, pessoalmente, são essas mulheres inspiradoras que me ajudam a seguir em frente e a acreditar que ainda é possível fazer algo para deixar um mundo melhor para meus filhos. E fazer algo para deixá-los também sendo pessoas melhores para esse mundo. Mulheres inspiradoras que estão aqui nos meus pensamentos e no meu coração no dia de hoje e em todos os dias. Mulheres com as quais sinto comungar algo de profundo e de profundamente revolucionário que, quem sabe, com o nosso esforço e com nosso trabalho, se torne cada vez mais inevitável e impossível de ser recusado. Somos mulheres. Somos capazes de tudo.

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Dia da mulher?

Eu realmente não sou o tipo de pessoa que gosta de datas comemorativas. Sempre achei o Natal deprimente, o Carnaval de uma alegria forçada e nunca gostei de quem tentasse me impor uma data para festejar namorado, mãe, pai ou afins. No entanto, existem datas que me irritam mais particularmente do que outras e o dia da mulher é uma delas.

Que haja um dia da mulher, a meu ver, representa que ainda não conseguimos estabelecer uma condição de igualdade e respeito. Qualquer dia dedicado a uma dita minoria é assim: dia do índio, da consciência negra, do orgulho glbt, dia da mulher. A maioria das pessoas divididas em grupos que, desconsiderados, discriminados ou destratados cotidianamente, precisam de um dia para lembrar ao restante que existem e que há ainda o que ser feito para lhes garantir condições mais dignas de existência. Ou seja, é um atestado de fracasso, não?

Durante muitos e muitos anos de vida eu não tive a preocupação em ser feminista. Nem em saber muito bem do que tratava o feminismo além das caricatas queimas de soutiens da década de 60. Não me preocupava com a questão porque, talvez, não sentisse na pele o preconceito ou, o que acho mais provável, porque não identificava certos acontecimentos da minha vida como fruto de um machismo opressor e discriminatório. A vida dá muitas voltas e numa delas eu entendi.

A França é conhecida como um dos berços do feminismo e é, certamente, um dos lugares do mundo em que ele foi levado mais à sério. Nem se compara ao nosso Brasil tão machista, tão misógino, cheio ainda de piadas e atitudes que nos denigrem, bem como de homens e muitas mulheres sempre dispostos a apontar o dedo e condenar sumariamente qualquer mulher. Pelo que quer que seja. Porque é bonita, porque é feia, porque é magra, porque é gorda, porque é bem sucedida, porque trabalha, porque tem filhos, porque não tem, porque é inteligente, porque pensa, porque transa… Qualquer motivo é válido para desqualificar uma mulher. Ainda nos dias de hoje. Simplesmente porque é mulher, coisa que poucos dos apontadores de dedo assumem assim tão claramente. O que torna a coisa toda mais subterrânea e, com isso, mais perversa.

Perversa porque hoje em dia escutamos muitas críticas ao feminismo como ideologia ultrapassada, problema superado ou coisa de mulher mal amada e mal comida. Eis aí o mesmo preconceito desqualificando quem ousa pensar que as condições de existência de metade da população desse planeta estão longe de um padrão mínimo de decência. Quem repete esse discurso, curiosamente, são aqueles que querem perpetuar o tal estado de coisas como está, pois não por coincidência são os que se beneficiam dele e, o mais triste, muitos e muitas jovens para os quais essas reivindicações de igualdade parecem distantes e sem sentido.

Acho que, como eu durante muito tempo, eles também não conseguem enxergar aquilo que vivem como produto e consequência de uma opressão que impõem às mulheres ou que elas, meninas jovens, já sentem na pele sem perceber. As piadinhas continuam as mesmas, os julgamentos e condenações de meninas por sua aparência ou por suas atitudes continuam por aí, assim como as ações sem respeito e sem cerimônia com as quais os garotos se dirigem a essas meninas. E elas aceitam. E todo mundo acha tudo isso perfeitamente normal.

Foi aqui na França, a terra dos seres pensantes, do Iluminismo e da filosofia, que descobri que o machismo e a misoginia existem. E que atuam e fazem agir homens e mulheres de forma contundente, violenta e sem piedade, ainda nos dias de hoje. A França, que se diz e que realmente fez um grande movimento em direção à igualdade entre todos os seres humanos, é surpreendentemente um país ainda extremamente machista. Basta ver como se passam as relações e os jogos de poder e de influência nas universidades e o esforço descomunal que uma mulher precisa fazer para ser levada a sério e poder fazer sua carreira ali. Basta ver os discursos denigridores das mulheres intelectuais magníficas que a França, felizmente, mesmo assim consegue produzir. Basta ver como os homens se referem às suas colegas na universidade, no mundo intelectual, na política. Não precisa ser na mesa de bar não, num fim de mundo do interior francês onde poderíamos facilmente botar a culpa no provincianismo, na falta de clareza e de abertura de espírito, ou no reacionarismo de direita que remonta. Não, se você quer saber o que é o machismo e o misoginismo postos em prática e atuando perversamente em um país que tanto fez e tanto faz para que ele deixe de existir, procure nos altos escalões, nas altas discussões, procure em Paris.

Foi aqui, percebendo que, mesmo nesse canto ideal do mundo em que tudo parecia funcionar do modo como todo mundo sonha que a vida deveria ser, ainda assim nada funcionava exatamente como parece ser que me dei conta que o feminismo e a luta pela igualdade entre homens e mulheres são questões atualíssimas. Porque se a coisa está assim em Paris, se as mulheres são tratadas dessa maneira na França, se o direito ao aborto é revogado na Espanha e se as mulheres continuam mesmo aqui a serem menosprezadas em sua inteligência, reduzidas à sua aparência, agredidas em função de seus desejos, limitadas a uma imagem estereotipada, descartadas como objetos utilizáveis ou não segundo o critério e a decisão de um outro, não é difícil imaginar que em lugares onde o feminismo nem foi levado tão a sério ou simplesmente não incidiu, a coisa deve estar muito mais tenebrosa. E está.

Noutro dia li, em uma dessas minhas muitas leituras de blogs de mães, uma postagem de uma brasileira que mora na Irlanda, em que ela dizia Eu não sou feminista, porque não preciso ser. Gostei muito do texto e gostei ainda mais de saber que existem lugares no mundo em que as mulheres podem simplesmente existir, pois o mínimo essencial – e estou dizendo que igualdade faz parte do mínimo essencial para a existência humana – está garantido. E ele me fez pensar que lutar pela igualdade da mulher deveria poder incluir todo o imenso espectro de possibilidades ofertados à sua existência.

Quero dizer, essa luta pelo direito das mulheres deveria ser uma luta para que toda e qualquer mulher tivesse igualdade de condições, para que todo ser humano tivesse em pé de igualdade com seus pares. E igualdade não quer apenas dizer poder trabalhar em qualquer função ou poder ter a mesma autonomia financeira que um homem. Reduzir a questão da opressão às mulheres apenas a uma busca profissional ou financeira é manter funcionando toda uma rede de preconceitos e de ações que a desqualificam em muitos outros lugares e situações. Buscar autonomia, independência financeira e condições de trabalho é legítimo e necessário, ainda nos dias de hoje. Mas transformar isso em sinônimo de igualdade entre homens e mulheres será o suficiente?

Lembrando da situação aqui na França, muito parecida com vários outros lugares no mundo dito desenvolvido, em que as mulheres ganham menos do que os homens nas mesmas posições e que levam muito mais tempo e têm muito mais que se esforçar para atingir os mesmos objetivos de carreira, parece que ter tais objetivos como finalidade de uma luta pela igualdade é ainda muito válido. Mas por que defender o direito de ser mãe, de cuidar dos filhos, de amamentar, de parir de parto natural humanizado não são entendidos como reivindicações feministas? Ou, pior ainda, são taxados como o oposto do feminismo, como ocorre com muita frequência em discussões acaloradas por aqui? Tem mulher intelectual feminista dizendo que a insistência na amamentação, por exemplo, é a derrota do feminismo e a volta da opressão das mulheres. Como é que é? Eis aí novamente mulheres apontando o dedo para outras mulheres porque elas querem escolher parir, amamentar ou cuidar de seus rebentos. Como se isso fosse andar para trás. Como se esses desejos e esses projetos de vida não pudessem fazer parte legitimamente do espectro tão variado daquilo que uma mulher pode querer. E como se não devessem ser apoiados e defendidos.

Tendo estado tão imersa na experiência da maternidade e tão envolvida com leituras a respeito, sinto uma grande tristeza a cada vez que vejo mulheres acusando mulheres do que quer que sejam as suas opções de vida. Parece que ainda falta um longo caminho para compreendermos que é apenas defendendo o direito à liberdade de existir como desejar e de escolher aquilo que quiser de cada mulher, com toda a diversidade que isso envolve que poderemos dizer, com a boca cheia e com conhecimento de causa, que o feminismo é uma questão ultrapassada.

As mulheres podem e devem escolher. Defendo escolhas informadas, defendo a desalienação, defendo o conhecimento e a reflexão que não aceitam de mão beijada aquilo que é dito como verdade sem ao menos se interrogarem acerca de a quem essa verdade serve. Defendo que as mulheres possam saber das forças que lhes atravessam e que atravessam esse mundo e que, com isso em mãos, escolham. E é nisso que discordo do texto ao qual me referi acima. Não penso que seja possível não ser feminista porque não é preciso ser. Mesmo vivendo na Irlanda ou em algum outro lugar onde sair com as amigas para se divertir enquanto o marido fica em casa e toma conta das crianças é tão evidente que ninguém mais pensa que isso é um grande acontecimento, ou que é estranho, ou que a mulher que faz isso é uma mãe desnaturada ou outros comentários desse tipo. Mesmo para quem tem esse privilégio de viver em um lugar em que a liberdade de existir e de ser é garantida para todos igualmente, na maior parte do mundo isso está muito, muito longe de ser uma realidade. E não existe liberdade real ou igualdade efetiva enquanto existem pessoas que padecem dos males que não te afetam mais. Porque, simplesmente, eles podem resvalar em você de um modo ou de outro, em um ou outro dia. Pode ser que alguém te desconsidere por ser mulher em uma universidade francesa, pode ser que alguém fique encarando seus peitos enquanto você amamenta em um trem europeu, pode ser que você ainda tenha dificuldades de comprar roupas de outras cores para sua filha, ou roupas cor-de-rosa para seu filho… Ou pode ser estupro, violência, agressão.

Se o que queremos é igualdade, devemos reivindicar a liberdade de sermos como quisermos, inclusive de ser bonita, de se preocupar com a aparência, de andar de minissaia, de ser feia, de ser gorda, de ser magra, de ser esportista, de não fazer esporte algum, de estar em forma, de estar com o corpo do jeito que quiser, de gostar de comer, de ter filhos, de não ter filhos, de casar, de não casar, de morar sozinha, de morar com alguém, de viajar pelo mundo todo, de ir e vir com tranquilidade e segurança, de poder andar à noite na rua sozinha, de morar em outro país, de trabalhar, de ganhar os mesmos salários pelas mesmas funções, de ocupar todo e qualquer cargo, em qualquer esfera, de cuidar da casa, de não fazer absolutamente nada, de amar um homem, de amar uma mulher, de amar várias pessoas ao mesmo tempo, de parir, de amamentar… Ser mulher, e isso sim o feminismo deveria se preocupar em garantir, e poder ser verdadeiramente livre. E que ninguém questione isso sob o argumento de que mulher não pode. E que ninguém julgue essa liberdade de maneira a aprisioná-la para garantir sua tranquilidade em não ser ameaçado por nosso desejo e por nossas escolhas. E que ninguém critique, diminua ou menospreze as infinitas possibilidades que temos, mas respeite e ajude a garantir que elas sejam viabilizadas.

Então, se no dia de hoje vierem me falar da beleza de ser mulher, com aquele monte de clichês baratos que estereotipam e aprisionam nossa existência há séculos, e se vierem me falar dos direitos das mulheres ao trabalho ou ao aborto, como se esses fossem os fins e não apenas algumas das possibilidades, ou se vierem me oferecer aquelas flores ridículas junto com aqueles poemas patéticos que comparam toda mulher a uma rosa, como se isso fosse demonstração de consideração… eu me permito, sinceramente, mandar toda essa gente para a PQP. O dia de hoje não é um dia para ser comemorado – como nenhum dia de nenhuma minoria é. Esse é um dia para termos vergonha e, quem sabe, criarmos vergonha na cara em relação a essa perversidade com que tratamos as mulheres e com que nos tratamos entre mulheres. O que devemos reivindicar? Tudo. Absolutamente tudo. E que tudo seja respeitado. Até se tornar uma evidência. E que ninguém mais precise comemorar esse dia. Nem falar em feminismo.

O que eu quero? Respeito. Por mim e por minhas escolhas. E pelas outras mulheres e suas escolhas. Nada menos do que isso.